Padres, pastores, médiuns, pais e mães-de-santo e até adoradores de Satanás freqüentam o presídio para converter à palavra do Senhor as ovelhas desgarradas. A crença na ajuda divina é para muitos presos a derradeira esperanca de conforto espiritual, única forma de ajudá-los a estabelecer alguma ordem no caos de suas vidas pessoais.
A pregação dos pastores protestantes, que oferecem o caminho do céu pelo conhecimento da Bíblia e de uma divisão clara entre o Bem e o Mal, obtém mais sucesso do que a dos padres católicos.
Entre os crentes da Detenção, o grupo mais coeso é o da Assembléia de Deus, que congrega perto de mil homens mais de 10% da população da Casa. Só no pavilhão Nove há duzentos; no quinto andar do Cinco, vizinho do Amarelo, 180. Andam de manga comprida, colarinho abotoado, e para onde vac, carregam o livro santo. Chamam-se de irmãos, proclarriamse tementes a Deus e repetem jargões bíblicos em tom monocórdio.
Na prática, com os crentes sempre tive dificuldade para diferenciar aqueles convertidos à palavra do Senhor, dos que adotaram o mesmo estereótipo para fugir do acerto de contas com a massa carcerária. Estupradores, Justiceiros, usuários de droga inadimplentes, delatores e ladrões que trapacearam na divisão do roubo às vezes fingem se converter para contar com a proteção do grupo religioso. Como usam as mesmas roupas,carregam a Bíblia e repetem o nome do Senhor a cada frase, é impossível distingui-los dos crentes de verdade. Os próprios ladrões queixam-se da mesma dificuldade. Respeitam os crentes, porem exigem coerência. Uma vez, atendi na enfermaria um membro da Igreja Universal que apanhou dos ladrões no pavilhão Nove quando o pegaram fumando um cigarro escondido. O rapaz tinha vergões nas costas, um hematoma no olho direito e um corte de faca no braço. Meus enfermelros justificaram a agressão: - Quer ser crente, nós respeitamos a caminhada dele, mas não pode tirar uma para cima da gente. A cara dele é passar o dia rezando para Deus proteger nós, ladrões.
Para conquistar novos adeptos, os irmãos chegam a liquidar dívidas do recém-convertido. Tarefa muitas vezes inglória, como esclarece um dos pastores do quinto andar do Cinco, um homem em formato de barril, preso por vender lotes no meio da represa Billings e por outros golpes contra a economia popular:
-Como a própria Bíblia diz que é para apaziguar, Eclesiástico 10 e 4, a gente acerta a dívida dele. Mas, como uns e outros não é sincero, depois que pagou ele fica bravo de novo: porque eu sou isso, aquilo, sou 157 e mais não sei o quê. Enquanto está no meio dos lobos, ele é ovelhinha; chega aqui, vai querer bancar o lobo no aprisco de Deus.
No pavilhão Cinco, um pastor-chefe comanda a ala, auxiliado por três outros. Os pastores devem ser casados, ter bom testemunho e reputação ilibada com a diretoria do presídio. São escolhidos pelo tempo, após cumprirem os estágios de cooperador, diácono e presbítero. Ficam sob observação durante três ou quatro anos antes de serem indicados, segundo um diácono de olhar piedoso, cumprindo pena por assalto, tráfico de crack e participação numa chacina na favela de Heliópolis:
- São vistos se têm nível espiritual, conhecimento da Palavra e se são pessoas de oração, porque tem um que não está totalmente de pé, outro que ainda é meio bravo, outro que masturba no sexo, ou seja, não é membro em comunhão com o povo de Deus.
É árdua a trajetória dos novos convertidos, pois a marcação sobre a vida alheia é cerrada. O fiel não escapa à vigilância permanente do grupo e ao olhar onipresente do Senhor. Valente, um rapaz com forte sotaque paranaense, condenado por sete mortes a 130 anos, justifica a necessidade do rigor:
- O problema é que às vezes tem uns camaradas aqui que é ator perigoso. Perigosíssimo, 171 bravo! Por isso, uma equipe de diáconos observa ele 24 por 48. Não é que nós é polícia e investiga, é o Espírito Santo de Deus quem avisa que aquela pessoa cometeu e tal e não quer permanecer no rebanho.
O código de comportamento é severo, a conduta do crente precisa se destacar na massa. Deve largar gíria, mulheres, vestir roupa social, andar de sapato engraxado, perder a ginga, tomar banho e pentear o cabelo. Pessoas amasiadas não podem morar na galeria da Assembléia, apenas os solteiros e os casados legalmente, no papel. Homossexuais são aceitos, porém com uma ressalva:
- Tem que abandonar a vida pecaminosa e voltar a ser cidadão normal.
Valente diz que os estupradores, odiados por todos, para os crentes são pessoas que merecem o perdão do Senhor, porque têm problemas:
- Problemas mentais e diabólicos.
Iludem-se, no entanto, os que se juntam aos crentes esperando uma vida fácil. São cheios de espinhos os caminhos que conduzem a Deus, diz o diácono de olhos piedosos:
-A rotina da Igreja na cadeia não dá tempo capcioso.
Às oito horas, assim que destrancam as portas, saem todos para a primeira oração, que dura sessenta minutos. Às nove, começa a Campanha: oito, dez pessoas reunidas nas celas, orando por mais uma hora. Metade da Campanha é oração, quinze minutos são de louvores e quinze de Palavra, quando todos falam ao mesmo tempo e as vozes se elevam a Deus. Quem passa pela galeria neste momento tem impressão de estar na torre de Babel, com aquele falatório simultâneo. No final, os irmãos chegam a pingar de suor, afónicos, de tanto elevar-se ao Criador.
Depois dessa Campanha, inicia-se outra às dez, na qual um irmão mais velho ministra a Palavra até as onze e meia. Aí é hora do banho, para almoçar e descer depressa, porque das treze às quinze o culto é ao ar livre, para atrair novas vocacões. Terminou, é subir rápido porque às quatro é a tranca e os crentes não atribulam os funcionários, por princípio.
Trancou, vêm mais orações, louvores e Palavra até
as seis e meia. Aí se lavam e jantam. Depois, rezam, estudam a Bíblia
ou ministram a Palavra até a hora de dormir. Cedo, porque televisão
é proibido, e nas rádios não se admite pagode, samba,
rock, nada, apenas as emissoras evangélicas.
A Igreja funciona como centro de recuperação, talvez o único
disponível no presídio. Descontados os falsos crentes, que "jogam
areia nos olhos dos irmãozinhos", os demais são felizes,
na visão do pastor:
- A gente sente Deus operando na existência deles.
Aqui tem grade e muralha, não dá para fugir, mas você
olha o céu e vê Deus. A presença d'Ele transmite
paz e, com o coração inundado de fé, você ora com
devoção para ir embora deste lugar maligno.
Vizinho doscrentes, no último andar do pavilhão Cinco, fica o Amarelo, um dos recantos mais lúgubres do presídio. Quinhentas e tantas pessoas, juradas de morte em sua maioria, vivem em cubículos densos de fumaça de cigarro, nos quais se espremem quatro, cinco ou às vezes mais prisioneiros. Um cheiro forte de cadeia se espalha pelo ambiente. O estado de conservação das celas é precário. Falta de água, entupimentos, goteiras e inundações acontecem com freqüência. Nestas circunstâncias, os habitantes de um xadrez podem passar a noite inteira em pé, no molhado.
Para os habitantes do Amarelo a tranca é permanente, e, soltá-los, uma operação que obriga a prender o restante do pavilhão. Ainda assim, precavidos, os funcionários limitam a abertura aos sábados, dia de visita no Pavilhão Seis, vizinho do Cin co. Uma hora só e pronto, sobem de volta. A medida é sensata, pois a presença das famílias no prédio ao lado garante a paz no pátio do Cinco. Apesar disso, há quem ache mais prudente abrir mão do sol e permanecer trancado:
- Seguro morreu de velho, doutor.
O Amarelo nunca foi pintado dessa cor: a denominação deriva
do desbotado da pele de seus ocupantes privados do sol. É rica a biodiversidade
do setor: craqueiros insolventes, delatores, justiceiros, estupradores, perdedores
de disputas individuais, gente que encontra na cadeia inimigos da rua e muitos
outros que, na pior, não conseguiram comprar um xadrez decente ou venderam
o que possuíam.
Uma vez, atendi um ladrão do Amarelo, com o corpo coberto de pequenas
feridas contagiosas, uma calça velha e a camiseta em frangalhos, que
pediu um atestado médico para a mulher, advogada, encaminhar ao Fórum.
Perguntei se a esposa não poderia ajudá-lo a sair daquele lugar
e ele respondeu:
- Doutor, mais do que ela faz por mim? já me trouxe dinheiro cinco vezes, para comprar um xadrez. Fumei os cinco no cachimbo.
O crack e a tranca impiedosa são um atentado à sanidade mental dos ocupantes do Amarelo, como diz Dionísio, um ladrão com tuberculose incurável, abandonado pela mulher cansada das promessas de que ele abandonaria a droga:
- Dia e noite preso, no meio de cara chapado e neurótico da mente.
O senhor dorme do lado de um desconhecido, dá cinco minutos nele e
ele te voa na sua garganta. Não tem descanso, é tortura psicológica
para o ser humano, doutor.
O dia no Amarelo é a mais absoluta ociosidade, os presos jogados nos
colchonetes, quando os há para todos. Ninguém lê ou vê
televisão. Na final da Copa de 1998, o Waldemar Gonçalves fez
planos para colocar uma Tv na galeria e liberá-los para ver o jogo.
Não deu certo, a diretoria desaconselhou por questões de segurança.
Para ampliar o horizonte visual, os presos sobem na janela do xadrez, sentam se com as pernas para fora e abraçam as grades. Permanecem assim por horas consecutivas, conferindo decoração singular à fachada do Pavilhão Cinco, com uma fileira de pernas pendentes do último piso. Por este costume, são também denominados "calcinhas", depreciativamente.
Das janelas que dão para o lado externo, os canelinhas conseguem assistir ao jogo de futebol no campo do Oito ou falar aos gritos com os transeuntes da Radial. Menos afortunados são os que ocupam os xadrezes voltados para o pátio interno, quadrado, com visão apenas para as roupas que secam nas janelas dos xadrezes em frente. Os habitantes do lado interno estabeleceram uma simbiose curiosa com os crentes da Assembléia de Deus que fazem o culto coletivo, diário, ao ar livre, no pátio. Enquanto os irmãos oram para converter os infiéis ao caminho do Senhor, a galera do Amarelo prende um saco plástico a um tênis velho para servir de contrapeso, amarra-o a um barbante e arremessa-o para baixo, na direção dos religiosos. Fazem-no com perícia, o comprimento do barbante exato para o saco chegar a um metro do chão. Pacientes como pescadores, seguram o fio esticado até que os irmãos demonstrem publicamente, com bananas, pães, balas ou roupas, o amor que referem sentir pelo próximo.
Papo Doce, um traficante do Oito merecedor do apelido, que trazia cocaína da Bolívia e ameaçava matar seus distribuidores que misturassem a droga com outros produtos porque tinha um nome a zelar no comércio, justifica a origem do Seguro:
-A existência do Amarelo acontece devido que entre nós não tem departamento de cobrança, onde que gera multa polêmica. Doutor, se eu vendo uma pedra de crack e o elemento não ITIC paga, não posso chegar no juiz para reclamar do sucedido e nem tenho promissoria para protestar. Agora, se eu deixar despercebido, fico com fama de vacilão, ninguém mais me paga e o meu fornecedor não quer saber. É uma corrente, a dívida de um provoca conseqüência no outro.
A segurança do Amarelo é relativa, entretanto. Seu Florisval, diretor de Disciplina, unanimemente tido por seus pares como um dos que mais conhecem a Detenção, é realista:
-A gente faz o que pode, mas infelizmente aqui não existe lugar seguro. Quando eles decidem matar alguém, é muito difícil impedir. Na cadeia, a morte não respeita geografia.
Mário Cachorro, um ladrão que estourava ajanela das casas com macaco de automóvel e numa delas encontrou doze quilos em barras de ouro, sendo depois preso com uma loira no Nordeste, apresentou-se uma tarde na sala da Carceragem do Nove, dizendo-se ameaçado de morte por supostos inimigos no pavilhão, e pediu transferência para o Seguro. No Amarelo, comportamento exemplar, ganhou a confiança dos funcionários e foi integrado à equipe que servia refeições para os colegas de infortúnio.
Dias depois, chegou na Detenção um certo Ronaldinho, careca como o jogador, detido por haver estuprado mãe e filha, entre outros delitos graves. Com este passado, avisou que não tinha possibilidade de convívio com a massa e foi direto para o Amarelo. Acontece que Mário Cachorro era filho e irmão das mulheres violentadas e havia pedido transferéncia para o Amarelo, antecipadamente, porque descobrira que o estuprador estava preso num distrito e seria transferido para a Detenção.
Na hora do café, Mário Cachorro abriu o xadrez do inimigo. A primeira facada vazou o olho direito do estuprador, que, em vão, tentou encontrar a porta de saída. Quando vi o corpo, chamava a atenção o número de golpes desferidos e, principalmente, os olhos vazados e dois ferimentos profundos, perfurocortantes, simétricos, nas solas dos pés. Em volta do corpo, um malandro comentou com respeito:
- O Mário Cachorro agiu com manha de gato.
Seu Jeremias, saudoso dos tempos antigos, se um dia fosse convidado pelo governador para assumir a diretoria-geral da Detenção, acabaria com o Seguro, como primeira iniciativa:
- Ia resolver o problema, devido que o elemento faz dívida de droga e pede Seguro. Isso não é proceder de homem que é homem. Se ele sabe que não tem para onde fugir, vai assumir a responsabilidade das atitudes. Sem Amarelo, iam morrer uns e outros, mas era bom porque voltava o respeito de antes.
A primeira vez que atendi o pessoal do Amarelo foi numa noite de inverno. Levei o Julinho, um auxiliar da enfermaria que mais tarde foi transferido para o pavilhão Nove, quando descobriram que ele desviava medicamentos dos presos com a provável cumplicidade de um funcionário ou dois, talvez.
Subimos ao quinto andar e improvisamos um consulto rio numa cela da ala dos crentes. Um a um, os doentes foram trazidos à nossa presença. Tuberculose geral: gente emagrecida, com febre, sudorese noturna e tosse, espalhando gotículas de secreção no xadrez apinhado. Naquele ambiente mal ventilado, o unico que não podia se queixar das condições de vida era o bacilo de Koch.
A maioria dos doentes coçava-se de dar aflição. Tinham pequenas bolhas nas pernas, antebraços e parte inferior do tronco, o o ar cansado das noites insones.
O ato de coçar rompia as vesículas, deixando vazar o conteúdo cristalino. Com a rup tura, o prurido melhorava, mas começava a arder. No local surgia, então, uma espessa crosta negra que, ao cair, deixava uma cicatriz escura, definitiva. As unhas contaminadas com o líquido das lesões semeavam novas vesículas à distância e entretinham o processo infeccioso por meses. Quase dez da noite, terminamos. No final, cerimonioso, chegou o pastor-chefe:
- Doutor, sei que sua pessoa deve estar cansada e precisa repousar na paz do Senhor, mas tem uma travesti que está com o silicone inflamado na parte de trás do assento, dotraseiro dela. Ela sofre de dores e insistiu para pedir para o doutor.
- Não! Chega. Isto aqui não tem fim. Além do mais, não entendo nada de silicone.
- Lógico, doutor, vou falar para ela ter paciência e orar com fé, para Jesus atuar na vida dela.
Sucumbi à chantagem em nome do Senhor e mandei chamá-Ia. Hoje agradeço ao pastor por ter me apresentado Veronique, personagem de uma outra história. Depois dessa vez, voltei com regularidade ao Amarelo, o que me conferiu prestígio entre os funcionários porque muitos deles, por medo, recusavam-se a trabalhar naquele setor. Atendia os doentes numa salinha com um guichê aberto para a gaiola de entrada. Não havia privacidade; para examinar os doentes sem roupa tinha que fazê-los entrar no banheirinho contíguo. Esse banheiro, destinado aos funcionários de plantão, tinha uma privada e uma pia, o chão inundado e as paredes infiltradas pelo vazamento constante. Para lavar as mãos, era preciso abrir o registro na parede e pular ágil para trás, a fim de escapar da água que esguichava do cano junto a ele. A simples abertura do registro fazia a água jorrar com força na pia e na descarga da privada. Mais recentemente, no Amarelo, passei a contar com a ajuda do Paulo Xavier, o Paulo Preto, enfermeiro do Hospital Sírio-Libanês que se dispôs a me auxiliar com os doentes. Paulo organizava o atendimento com o auxílio de um preso chamado Lúcio, um rapaz forte, com um olho de cada cor.
Lúcio era dedicado com os doentes e gentil comigo. Uma vez contou ter sido preso depois de uma briga de rua. Ele vinha desarmado, quando apareceu um arquiinimigo com muitas mortes no currículo e um facão afiado nas mãos.
Lúcio tomou três facadas, mas conseguiu pegar um pedaço de pau e rachar a cabeça do opositor. Em seguida, aproveitando-se do facão e da inconsciência do outro, decepou-lhe os dois braços para que ele nunca mais esfaqueasse ninguém.
Num sábado, Paulo Preto, Lúcio, seu Manoel, um homem de barba espessa, antigo funcionário do pavilhão, e eu, decidimos atacar a epidemia de sarna que infernizava a vida dos presos. A operação começou às sete. O pavilhão inteiro amanheceu trancado para o Amarelo descer. Nas celas do setor, os presos empilharam os pertences no chão para serem borrifados com inseticida. No pátio, junto à parede lateral do prédio, esperavaos um cano de água fria. junto ao cano, os ladrões fizeram fila, enquanto um preso aplicava inseticida em todas as celas. Fazia frio. Seu Manoel, com seus vinte anos de experiência, avisou:
- Pode se preparar, doutor, ladrão é como gato: tem medo de água fria.
De fato, choradeira não faltou. Diziam que estavam com tosse, tuberculose,
pneumonia, outro sofria de bronquite e alguns simplesmente se negavam a entrar
no banho gelado. Dirigi-me à fila e expliquei que aqueles que não
se lavassem e passassem remédio, espalhariam sarna para os demais,
para prejuízo de todos. O argumento os convenceu: malandro não
arrisca ser acusado de prejudicar os companheiros.
Durante o banho, observei que eles entravam embaixo do cano com as costas
quase encostadas na parede. Comentei o fato com seu Manoel, que explicou:
- Ladrão nunca fica de bunda para os outros, doutor.
Roxos de frio, acabada a ducha os homens apresentavamse a um companheiro encarregado de borrifar remédio contra sarna pelo corpo inteiro. Depois de secos, aqueles que apresentavam infecções dermatológicas, eram separados por Lúcio e Paulo Preto e trazidos à minha presença. O trabalho, que envolveu mais de quinhentos homens, foi completado até o meio-dia, hora exata de trancar o Amarelo e soltar o resto do pavilhão. Prevendo alguns acessos de asma desencadeados pelo inseticida, deixei dez ampolas de cortisona para o Lúcio medicá-los e saí com o Paulo Preto. Fomos embora contentes com o sucesso da operação, dando risada da malandragem embaixo da água fria, com a bunda encostada na parede.
O crack invadiu a cadeia em meados de 1992, sorrateiramente. Uma tarde, no campo de futebol do Oito, vinha um rapaz completamente chapado. Falava em tom intimidatório e gesticulava para uma figura imaginária na janela de um xadrez do segundo andar. Na porta do pavilhão, um funcionário corpulento e precocemente hipertenso fez o diagnóstico e uma previsão amarga: - Olha aí, doutor, é o crack chegando na Detenção. Só faltava mais essa.
Fiquei surpreso. Na minha ingenuidade, crack era coisa de filme americano, problema do Bronx, em Nova York, jamais no Carandiru.
Na cadeia, o processo de preparação do crack é artesanal. Misturam cocaína com bicarbonato de sódio ou amoníaco numa colher, embaixo da qual acendem um isqueiro, para aquecer e derreter a mistura. Quando esta se liquefaz, surge na superfície uma fase oleosa que vai sendo empurrada para as bordas da colher com um palito de fósforo, para esfriar e se solidificar. A pedra resultante é fumada em cachimbos improvisados. O processo é trabalhoso, como se queixa Tristeza, um traficante interno que passava as madrugadas no preparo e que uma vez foi pego com trezentos gramas de pedras prontas para o consumo:
- O pessoal falam que eu ganho dinheiro que nem água, mas ninguém repara no sacrifício que eu faço. Na rua é mole za, o crack já vem preparado do laboratório; aqui, é tudo na colher.
O crack entrou e varreu a cocaína injetável do mapa. É droga compulsiva, não sobra para o dia seguinte. Na crise de abstinência, se o dependente vê o pó, a pedra de crack ou alguém sob o efeito dela, passa mal: tem sudorese, taquicardia, cólicas abdominais, diarréia e vômitos. Ronaldo, um ladrão COM AIDs que fugiu do hospital penitenciário e foi preso em flagrante fumando crack na rua do Triunfo quarenta horas depois, contou que, num assalto a uma loja de tecidos na rua Augusta, quando a gerente abriu o caixa ele teve um mal-estar súbito: - Foi bater os olhos no dinheiro, me veio a imagem de eu comprando cocaína na bocada. O estômago embrulhou na hora, saí vomitando pelo rneio do assalto.
A cocaína pode ser cheirada, injetada ou fumada. Pela via nasal, o pó adere à mucosa do nariz e vai sendo gradualmente absorvido; o efeito é crescente, atinge um pico e depois decresce. Injetada na veia, cai direto na circulação, passa pelos pulmões e vai para o cérebro; a euforia vem depressa e acaba rápido; dá zumbido na cabeça e um baque no cérebro (daí, o nome). No crack a ação é ainda mais instantânea, porque a cocaína cai direto nos pulmões, não perde tempo na circulação venosa. Ronaldo, que aprendeu a fumar crack com a esposa, mae dos quatro filhos dele, diz que a qualidade da cocaína no presídio decaiu:
-Antigamente dava um tuim comprido no ouvido. Hoje, faz tuóm, um instantinho só, e já era.
O usuário de cocaína injetável não se interessa pelo efeito lento da via inalatória, forma de administração que ele considera careta. O crack, porém, provoca sensação semelhante à do baque, além de trazer vantagens: é mais barato, não deixa cicatrizes nos braços e, principalmente, não transmite AIDS. No presídio, em poucos meses a via endovenosa ficou restrita a uns poucos baqueiros velhos, que mais tarde morreram de AIDs na enfermaria do Quatro. Silenciosamente, como entrou, o baque saiu de moda no Carandiru. Em janeiro de 1994, repetimos o estudo de prevalência feito quatro anos antes. Encontramos 13,7% dos presos infectados pelo HIV (contra 17,3% na pesquisa de 1990). A única explicação encontrada para a queda do número de infectados nos quatro anos que separaram os dois estudos foi a redução do número de usuários de droga endovenosa. Em 1998, em 250 voluntários testados, dezoito eram HIV-POSitiVOS (7,2%).
Com o passar dos anos, muitos ex-usuários de cocaína injetável revelaram ter mudado para o crack por causa das palestras do cinema. Se for verdade, fico feliz. Talvez até o crack tenha um lado bom.
O crack transtornou a cadeia, todos reconhecem. É droga traiçoeira. Nas primeiras vezes o efeito custa a passar; com a repetição diária, porém, acaba em segundos. Vicia rapidamente; na enfermaria conheci rapazes que depois do primeiro contato com a droga nunca mais conseguiram parar, nem presos nas celas de Seguro, endividados, correndo risco de vida.
Com o tempo, o usuário de cocaína desenvolve quadros de delírio persecutório toda vez que usa a droga. Na cadeia, os portadores dessa síndrome, à qual dão o nome de paranóia ou nóia, andam pelas galerias apavorados, trancam o xadrez por dentro, encolhem-se feito crianças embaixo da cama, gritam ou fogem de inimigos imaginários.
Ronaldo, o pai de quatro filhos que vomitou durante o assalto e veio a morrer de tuberculose na enfermaria seis meses depois de recapturado, descrevia assim a paranóia que o torturava:
- O crack é tão devastador para a mente da pessoa que eu fumo trancado no xadrez e cismo que tem alguém debaixo da cama com a faca para me matar. Fico apavorado, quero olhar mas tenho medo de abaixar e ele me furar os olhos. Demoro para criar coragem e espio bem depressa. Lógico que não vejo ninguém, estou sozinho no xadrez fechado, mas mesmo assim fico na dúvida: tem sim, eu é que não vi direito. Abaixo mais uma vez, apesar do medo que me fure o olho, e não vejo nada. Mas não adianta, não me convenço, e olho de novo. E assim é, dez, quinze vezes. Quando o efeito vai abaixando, eu percebo que foi tudo paranóia: como é que pode ter alguém aqui, se o xadrez é minúsculo e a porta está trancada?
Antes de dar outra cachimbada, olho debaixo da cama e confiro se a porta está bem fechada; chego a espiar dentro do boi. Tudo bem, vou fumar de novo e dessa vez a nóia não vai me atacar. É só cachimbar, doutor, repete tudo a mesma coisa: tem alguém debaixo da cama, vai me matar, se eu olhar vai me furar a vista...
No final, Ronaldo resume a existência do usuário de crack:
- É triste o nosso destino. Se existe o inferno na Terra, é a vida de nós, craqueiros. Impossível saber quantos fumam crack no presídio. Na estimativa dos detentos, pelo menos 60%. Uma vez, perguntei ao Lúcio, o enfermeiro do Amarelo que decepou os braços do desafeto para que ele parasse com a mania de esfaquear os outros, quantos craqueiros havia no Amarelo. Ele respondeu:
- Todos, doutor. Quando aparece um que não é, eu tiro daqui e peço para o pastor aceitar ele na galeria dos crentes. Os carcereiros de carreira dizem com nostalgia:
- Que saudade do tempo do baseado, doutor! Tinha mais respeito entre a malandragem, o preso fumava e ficava quietinho no seu canto, pensativo, comia e ia dormir. Ninguém perdia a casa da família por causa da maconha. A gente era feliz e não sabia.
O crack abalou a estrutura do poder interno, a moral da malandragem e gerou mais violência. Na compulsão, o dependente gasta o que não pode; depois, chantageia os familiares dizendo-se ameaçado de morte. Quando a família é exaurida, vende os pertences pessoais e, nada mais tendo de valor, rouba, apanha na cara, toma facada, assume a responsabilidade de crime cometido por outros e até mata sob encomenda, em troca de uma pedra para fumar.
O vício está associado à derrocada financeira do usuário. Uma das técnicas que uso para identificar os que não usam crack é olhar o pé deles: se o tênis é novo, certeza, não é craqueiro.
Carlão, que passou um ano na rua e dois na cadeia, fumando crack sem parar e mais tarde ficou livre da droga, chegou ao extremo:
- A pedra veio para derrubar a malandragem, por causa dela vendi até o revólver, minha ferramenta de trabalho. Fui preso assaltando com a faca da cozinha da minha tia.
Dívida em cadeia não tem perdão: não pagou, foge, leva paulada ou morre. Para escapar, a única alternativa é pedir proteção aos funcionários. Estes, quando se convencem da gravidade do caso, transferem o preso para o Amarelo. No próprio Seguro o craqueiro contrai novas dívidas, perde outra vez o ambiente e vai parar na Masmorra do pavilhão Quatro, derradeira oportunidade de sobrevivência. O pedido de socorro à polícia desmoraliza o ladrão.
Uma vez, encontrei a enfermaria em alvoroço porque o Júlio, um bandidão cumprindo vinte anos pela morte de três rivais que o emboscaram num beco de favela, havia pedido refúgio no Amarelo para escapar do acerto de 38 reais com um traficante metade do tamanho dele. No final, um piracicabano sem queixo internado na enfermaria por causa de uma furunculose crônica em ambas as axilas, que o obrigava a andar com os braços abertos feito asa, resumiu com o forte sotaque da cidade natal:
- A pedra acaba com a vergonha na cara do cidadão. Outra vez, Xanto,
o ladrão do Pari que baleou o tio
bêbado no peito por não saber dar tiro nas pernas de ninguém,
estava revoltado com o companheiro que, na visita, ofereceu a própria
mulher ao traficante para saldar uma dívida. O fato da moça
trabalhar como prostituta num bar do lpiranga não serviu de atenuante.
- Não interessa como ela ganha a vida lá fora. Aqui, para nós, ela é mulher de um companheiro e merece respeito. Entregar ela é muita sem-vergonhice de caráter.
A opinião de Xanto não era isolada. No dia seguinte à visita, o craqueiro devedor foi obrigado a juntar os pertences e mudar para o pavilhão Cinco:
- Não se fez merecedor do nosso respeito. Filó, um traficante franzino do Oito, armador do time do pavilhão, nascido no Canindé, ao lado do campo da Portuguesa, arrombador de residências e pai de duas meninas mantidas por ele em escola particular, dava duas semanas para o craqueiro pagar a droga consumida e nem um dia mais. Em cinco anos de cadeia e tráfico, enviou muita gente para o Seguro, embora reconhecesse a inutilidade do procedimento:
- Que adianta os malucos trancados lá, de caneliDha, e eu sem receber aqui?
Um dia, a roda do destino girou e Filó foi transferido para uma penitenciária do interior. Encontrou três ex-companheiros da Detenção, por ele enviados para o Amarelo. Morreu degolado, na noite de chegada. A cadeia hoje é muito diferente da que conheci ao chegar, em 1989. O crack subverteu a ordem interna. Como as pessoas, as cadeias também mudam com o tempo.
A droga corre atrás do viciado, é o que diz a malandragem. Duas visitas ao exterior convenceram-me desta realidade. A primeira foi em Rykers Island, a maior prisão de Nova York, quando passei na porta de um banheiro coletivo situado na ala que se mostra aos visitantes e senti um cheiro forte de maconha. A segunda foi na periferia gelada de Estocolmo, numa prisão-modelo vigiada por 350 funcionários treinados, exclusiva para cinqüenta jovens loirinhos (sete funcionários por preso), ex-usuários de droga, que todas as manhãs, quando se abriam as celas individuais, eram obrigados a descer para a enfermaria e, na presença do médico, urinar num vidro para exame toxicológico. Volta e meia o laboratório detectava heroína, cocaína, álcool, maconha e até a prosaica cola de sapateiro na urina dos meninos, misteriosamente introduzidas no reformatório -modelo.
Supor que a droga entre na Detenção sem conivência de funcionários ou dos guardas da muralha é discordar da lógica do Pequeno, o baixinho de língua presa que matou quatro Pms:
- O sentenciado pode sair na rua para buscar cocaína, doutor?
É injusto generalizar, entretanto. A maioria dos guardas jamais se envolveu com o tráfico, apesar dos baixos salários e do desalento com a profissão. Além disso, a direção vive preparando armadilhas para surpreender os que "passam para o outro lado" , e quando pega o castigo é amargo: cinco ou seis anos de prisão, como vimos.
Fumaça, tipo popular, contador de casos exagerados nos quais inevitavelmente desempenha o papel de protagonista, é testemunha de que a droga não é problema exclusivo do Carandiru:
- Em novembro, completei dezoito anos no Sistema. Já rodei diversas
unidades, e em todas pude fumar meu baseado, meu cachimbo de crack (que eu
parei faz dois anos, que é sem futuro) e, no tempo do baque, só
não tomei porque não gosto desse barato de ficar se picando.
É interessante, doutor, não ligo para sangue dos outros, mas
me escurece a vista quando vejo o meu próprio.
O mesmo Pequeno da língua presa acrescenta:
- Se a cocaína corrompe a sociedade livre, por que na cadeia, cheia de ladrão, traficante e consumidor, ia ser diferente? Logo aqui, que custa o dobro da rua?
No ambulatório, quando os doentes vinham com tuber culose, eu os proibia de jogar fumaça nos pulmões, viesse ela de maconha, cigarro comum ou crack. Não havia problema em fazê-los entender que a fumaça era prejudicial aos pulmões inflamados. Nas semanas seguintes, quando lhes perguntava se haviam parado, a maioria tinha abandonado a maconha e mesmo o crack, mas o cigarro não. Conseguiam se livrar do crack, mas poucos deixavam o cigarro. Tantos foram os casos que acabei convencido de que a nicotina é a substancia que mais dependência química provoca.
O preso que consegue pôr a droga para dentro pode ven dê-Ia. Não é como na rua, em que o traficante é dono de um ponto defendido a bala. Como explica Horácio, um paraplégi co filho de portugueses, abandonado pela mulher depois de
perder os movimentos das pernas ao bater de moto roubada, uma loura na garupa, contra a traseira de um caminhão: - O cabeção despeja para os que trabalham para ele. Se ele compra o quilo a 4 mil, vai repassar para nós, intermediários, a 7 ou 8 mil, para dobrar o capital. Eu vou querer vender a grama por 10, por conta do risco. Se rodar é crime hediondo; isso apavora o sentenciado que já tirou um monte de cadeia.
Lenildo, um ladrão que nunca traficou na rua, mas que na cadeia começou a fazê-lo para sustentar as duas mulheres, três filhos e a mãe que sofre de reumatismo, diz que não é fácil escapar vivo no comércio do crack:
- Tem que ser duro na queda, medir o que fala e pesar a conseqüência do que possa acontecer. Uma vacilada e eu acabo seus dias na ponta de uma bicuda, como aquele mano que o senhor examinou o corpo na semana passada. Só eu contei mais de trinta facadas. Tá louco, doutor, deu vontade de abandonar o Crime!
De fato, eu havia visto o corpo. Era um moço bem forte, moreno, com uma tatuagem no peito: são Jorge num cavalo empinado diante do dragão pondo fogo pela boca. O santo, com estilo, cravava a lança na goela do monstro. Na cintura do guerreiro havia um férimento, perfurante, outro junto à cauda em seta do dragão, mais um resvalando o penacho do capace-te do santo e muitos outros golpes. Talvez fossem mesmo mais de trinta. Tudo conseqüência de uma transação rotineira. Um consumidor habitual veio comprar 5 reais de pedra para pagar domingo. Desconfiado da insolvência do outro, o rapaz da tatuagem disse que estava sem mercadoria. O comprador contrariado comentou o caso com os amigos. Decidiram enviar um laranja para propor o mesmo tipo de operação ao rapaz da tatuagem que, sem desconfiar, vendeu fiado. Nunca poderia ter dado ao laranja o crédito negado ao freguês antigo. Erro fatal.
Casos semelhantes são tão freqüentes que eu não entendia por que eles mesmos não proibiam terminantemente as vendas a fiado. Uma vez tentei reunir alguns líderes da malandragem para lhes propor a adoção de tal medida. Fui desanimado pelo Sarará, um negro loiro com muitas passagens pela Casa:
- Não tem chance de dar certo, doutor. O viciado fica devendo 20 reais e entrega a televisão por esse preço. Dá muito lucro. É o mesmo princípio de que os bancos da rua, o senhor fica devendo 20 mil e eles tomam a sua casa que vale 100. Ninguém acaba com um negócio desses. Lenildo, que se orgulha de manter as casas das duas mulheres e a da mãe sem nada faltar, explica que o comércio do crack obriga o traficante a tomar medidas extremas, mesmo contra a vontade:
- Eu pego sessenta gramas do cabeção e fico devendo 400 contos. Faço uns papelzinhos, vendo aqui, ali, uns me pagam e outros pedem para esperar o fim de semana. Chega segunda-feira o meu fornecedor quer receber. Se eu não pago, ele vai pôr os óculos na minha atitude. Diante desta perspectiva, a preservação da própria vida fala mais alto:
- Então, para que não venha a rodar uma faca para cima de mim que tenho família para adiantar, vou soltar a faca no devedor, dar paulada, jogar água fervendo, para que aquele veja que eu tomei uma atitude diante deste. E assim, um vai vivendo perante a desgraça do outro. Existem situações, entretanto, em que é mais vantajoso assumir o prejuízo:
- O comprador não pagou? Deixa quieto. Só que aí, na piolhagem, qualquer tipo de acontecimento, numa perca que eu tenha, é ele que vai soltar a faca no meu lugar, justamente para abater aquela dívida. Senão sobra para ele, Iamentavelmente.
Apesar da repressão, os meandros do tráfico permeiam o presídio. Cada "cabeção" comanda um grupo de vendedores, que controla os dependentes sequiosos de droga.
- Faz uma rede invisível, secreta, como a máfia.
Mente ociosa é moradia do demônio, a própria malandragem reconhece. Ao contrário do que se imagina, a maioria prefere cumprir pena trabalhando. Dizem que o tempo passa mais depressa, e à noite:
- Com o corpo cansado, a saudade espanta. Poderiam, também, aprender um oficio e voltar para casa com alguma perspectiva.
Soltá-los mais pobres e ignorantes do que quando entraram não ajuda a reabilitá-los. Sérvulo, um ladrão de Guaianases, encarregado da enfermaria do Oito que nos dias de atendimento me pedia para trazer dois ou três doentes e aparecia com dez, de cada um dos quais, descobri mais tarde, ele cobrava dois maços de cigarro para conseguir a consulta, vê outra vantagem no trabalho:
- A cadeia seria menos perigosa, com essas mentes malignas ocupadas.
Para servir de estímulo, a lei estabelece que cada três dias trabalhados abatem um dia da pena a cumprir, matemática nem sempre respeitada para quem não tem advogado constituído. Ainda assim, muitos disputam os poucos empregos disponíveis. Outros, no entanto, mais ortodoxos:
- Trabalhar? Nem na rua, com o meu pai pegando no pé.
Aqui dentro, jamais. Questão de princípio. Um venezuelano naturalizado brasileiro, que ia buscar droga na selva amazônica e depois matava os entregadores por sair mais em conta do que pagá-los, é radical:
- Trabalhar para a sociedade, só depois de morto, se me cremarem e colocarem minhas cinzas num daqueles relógios de ampulheta.
justiça seja feita, porém: com exceção das atividades ligadas à segurança, as demais tarefas da cadeia são executadas pelos presos - cozinham, distribuem as refeições, lavam tudo, recolhem toneladas de lixo, consertam, levam e trazem, organizam campeonatos de futebol e a Campanha do Agasalho. A rotina do Casarão é tocada pelos detentos, sem eles seria o caos.
Algumas empresas empregam mão-de-obra local para costurar bolas de couro, chinelos, colocar espiral em cadernos, varetas em guarda-chuvas, parafusos nas dobradiças e trabalhos similares. Teoricamente, os presos deveriam receber pelos serviços prestados, o que poderia ajudar a família desamparada ou servir de poupança para quando fossem libertados. Na prática, porém, a burocracia para retirar o dinheiro recebido é tanta que muitos aceitam o pagamento em maço de cigarro, a moeda tradicional.
Como trabalho é privilégio de poucos, passam o dia encostados, contam mentiras nas rodinhas do pátio, levantam peso na academia, jogam capoeira no cinema, andam para baixo e para cima, inventam qualquer bobagem para se entreter e, principalmente, arrumam confusão. O tal venezuelano preocupado com o destino de suas cinzas chama a atenção do visitante que passa desavisado entre os grupos que se formam no campo de futebol do Oito:
- É tanta história de assalto, revólver e troca de tiro, doutor, que precisa passar abaixado entre eles por causa das balas perdidas.
Ao lado do trabalho organizado, que reduz a pena, existe uma economia informal. São os que trabalham sem carteira assinada: lavam roupa para fora, costuram, cortam cabelo, constroem barcos à vela com distintivo dos times de futebol, cozinham (há uma pastelaria numa cela do terceiro andar do pavilhão Oito e uma sorveteria no pavilhão Dois), destilam pinga e armam bancas na galeria - mantimentos, tênis usado, roupa, rádio de pilha, aparelho de Tv e foto de mulher pelada.
As compras são à base de troca, pagas com maços de
cigarro ou, disfarçadamente, com dinheiro mesmo. O comércio
interno é fundamental para a vitalidade da economia; por intermédio
dele os bens são redistribuídos, as mercadorias circulam e as
dívidas podem ser liquidadas. Num lugar em que os homens recebem apenas
comida e a calça jega, todo o resto fica por conta deles: - Existe
custo de vida na cadeia.
Oriundos das camadas mais pobres da sociedade brasileira, nem todos contam
com ajuda externa. Ao contrário, a maioria precisa sustentar mulher,
filhos e pais idosos, razão pela qual gente que em liberdade nunca
se envolveu com droga vira traficante de cadeia para manter a integridade
da estrutura familiar.
Nas celas de Seguro e na Isolada, cheias de fumaça de cigarro, trancados o tempo todo, os homens passam o dia conversando e, quando o assunto acaba, olham para a parede ou se entretêm com um pretexto qualquer. Na experiência de seu Jeremias, pai de muitos filhos com a mesma mulher, a ociosidade pode enlouquecer o homem:
- Antigamente, no tempo da solitária, vi muito nego entrar bom e sair de lá para o manicômio. Numa dessas celas, na escuridão total, ele passou três meses sozinho. Para se ocupar, jogava uma bolinha de gude na parede e tateava o chão até encontrá-la. Chegou a repetir a operação cento e setenta e sete vezes no mesmo dia:
- Mas, graças a Deus, saí de lá com juízo.