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Estação Carandiru

Drauzio Varella

PENA CAPITAL

É universal o ódio aos estupradores. Os ladrões aceitam tudo: agressão física, estelionato, roubo, exploração do lenocínio e assassinos torpes - menos o estupro. A ojeriza a este crime é compartilhada pelos próprios funcionários e pela sociedade em geral. Na periferia de São Paulo, um homem abusou de um menino e o matou. Os jornais publicaram fotografias do assassino e da criança. Numa tarde de sexta-feira, por aparente descuido burocrático, um grupo de presos veio transferido para a Casa sem a direção se dar conta de que o criminoso estava no meio. Do momento em que ele desceu do camburão na Divinéia, até sua morte no pavilhão Cinco, passaram-se exatos cinqüenta minutos. Tomou tanta facada que quase lhe desarticularam o braço direito. Marcolino, apontador de jogo do bicho e comerciante de dinheiro falso, que estava para ser libertado naqueles dias, disse que a chegada do marginal no pavilhão não foi surpresa:

- Nós estávamos para lá de prevenidos. Tinha recorte de jornal espalhado nos andares, com a foto dele escrachada. Os manos esfaqueavam e emprestavam a faca para quem vinha atrás na fila. Tomou mais de setenta golpes e, ó, acredite se quiser, morreu sem dar um grunhido. Eu achei aquilo muito esquisito, ó. Credo!

Outra vez, Gilson, um representante de vendas de trinta anos, deu carona no fusca para uma estudante de quinze e fez de tudo para levá-la ao motel. Quando se convenceu de que ela não iria, puxou o revólver e não adiantou choro, dizer que era virgem, nada. Com a menina na mira, dirigiu para um lugar ermo e a estuprou. À noite, enquanto ele assistia ao Jornal Nacional com o filhinho adormecido no colo, a esposa e a sogra lavando a louça do jantar, tocou a campainha. Era a polícia:

- Esse fusca parado na porta foi roubado hoje? Respondeu que não. Quiseram saber, ainda, se ele havia emprestado o carro para algum amigo. Gilson negou e foi algemado.

No distrito, disse aos colegas de infortúnio que havia assaltado um feirante. No dia seguinte, na cela coletiva, um craqueiro iletrado pediu-lhe para escrever uma carta de desculpas à mãe, que havia prometido abandoná-lo definitivamente caso fosse preso outra vez. O representante, no capricho, assim iniciou a missiva:

"Querida mãezinha, é de joelhos, com o coração pungente, que peço humilde perdão à senhora. Errado estou, não nego, mas arrependi-me ao cerne de meu ser..."

Ao terminar a redação, o vendedor leu-a para o outro, que, emocionado com a beleza das palavras, não pôde conter o choro.

No meio da leitura, chegou o carcereiro com uma garrafa de uísque pela metade:

- Quem é fulano de tal? Qual é teu artigo?

- 157. Assalto de feirante.

- Feirante, porra nenhuma! Estuprou uma menina de quinze anos, com o revólver na cabeça da coitadinha. Se tivesse malandro com vergonha na cara nesse xadrez, te zoava bem zoado e ainda ganhava meio Drurys de presente. Irrefutável. Trazia o boletim de ocorrência e tudo. O rapaz da carta foi o primeiro. Ainda com lágrimas nos olhos, ficou em pé e chutou-lhe a cara. Em seguida, vieram os outros; eram dezoito no xadrez. O estuprador apanhou até perder os sentidos.

Acordou com um balde de água suja no rosto. Estava amarrado às grades da cela:

- Me fizeram segurar uma lâmpada na mão e encostaram um fio descascado na grade. A água que jogaram era para conduzir melhor a corrente. Choque de 220. Só desligavam quando a luz acendia na minha mão. Dava um tranco horrível no corpo, a língua enrolava, depois aquele clarão da lâmpada. Achei que ia morrer. Só pedi a Deus que fosse logo.

Quando se cansaram da brincadeira, o vendedor desabou semiconsciente, cheio de sangue e com o rosto deformado. Nessa hora, urinaram em cima dele.

Aí o Barriga, um ladrão que tinha sido preso entalado na clarabóia do forro de uma casa na qual esperava encontrar uma fortuna em jóias contrabandeadas, abaixou-lhe as calças:

- Agora vai sentir que nem a mina que você estuprou!

O representante de vendas diz que Barriga não conseguiu penetrá-lo. Cilinho, um ladrão do Cinco que matou a amante infiel e o sócio traidor que planejava fugir com ela e o dinheiro do assalto, testemunha dos fatos no distrito, desmente, discreto:

- Conseguiu sim. Mesmo no estado deplorável em que o cidadão se encontrava. Doutor, aquele barrigudo é mais macho que nós dois juntos!

A direção da cadeia tenta proteger a integridade física dos estupradores recolhendo-os no pavilhão Cinco, no Amarelo ou até na Masmorra. A segurança é relativa, porém, como assegura o Sem-Chance:

- Um dia nós descobre eles. É o curioso que bisbilhota no prontuário, é um mano que conhece o passado sujo do cara ou um funça que não simpatiza, vários modos. É sem chance.

Muitas vezes, ao estuprador é dada a oportunidade de conviver pacificamente com a massa por longos períodos. Um dia, no anonimato de uma rebelião, a turma enfurecida descarrega nele o ódio represado. Nessas ocasiões, são atirados do telhado, esfaqueados ou torturados com requintes de crueldade, como um catarinense que atendi na enfermaria com a língua queimada por uma faca em brasa e infectada pelos micróbios presentes nos excrementos que o obrigaram a ingerir a cada trinta minutos. A imprevisibilidade do ajuste de contas torna a vida do estuprador um sobressalto permanente. Qualquer movimento fora da rotina pode prenunciar o castigo fatal.

Num ambiente em que o assassino de um pai de família indefeso merece respeito, pode parecer desproporcional a aversão ao estuprador. Seu Lupércio, que se orgulha de nunca haver roubado, embora tenha passado a maior parte da vida na cadeia por causa da maconha, e que anos atrás, no Oito, viu um branquelo, estuprador de meninas japonesas, ser empalado com cabo de vassoura introduzido à marreta, explica a filosofia:

- Não pode deixar essa gente freqüentar o ambiente, porque aqui nós recebemos nossa esposa, a mãe e as irmãs. Quem cometeu uma pilantragem dessa, pode recair e faltar com o devido respeito. Eu sou contra a pena de morte no nosso país, mas sou a favor no caso de estupro.

LARANJA

- Laranja é o personagem patético que segura bronca

É ele que se apresenta como culpado quando o carcereiro encontra uma faca escondida, a serpentina para destilar pinga ou o corpo sem vida. Muitos são recrutados ao chegar nas celas de triagem. Para aqueles que a família traz mantimentos, não faltam amigos e um canto para morar; outros, por sorte, encontram parceiros da rua no pavilhão. Quanto aos recém-chegados desconhecidos e pobres - De dez xadrezes que eles pedem vaga, onze negam. Aí, para sair do esgano da Triagem, aquele humilde, despojado de condição financeira avantajada, só tem um jeito: virar laranja, porque os caras exigem que ele segure todas as ocorrências do barraco.

O contingente maior de laranjas, porém, é recrutado nas fileiras do crack. Muitos dependentes assumem delitos de terceiros em troca da droga. O traficante não precisa executar o serviço sujo. Quando alguém perde a vida na rua Dez, os carcereiros trancam todas as celas até que o culpado apareça. A técnica é infalível, preso nenhum ousa enfrentar o pavilhão inteiro enjaulado por causa dele. No final, quem aparece para assumir a responsabilidade é quase sempre o laranja.

Embora os funcionários saibam que aquele não é o verdadeiro autor do crime ou contravenção, pouco podem fazer contra o código de silêncio que rege a vida no crime.

Uma vez tratei um branquinho chamado Alfinete, magro e feito um cabo de vassoura, que fez carreira nos semáforos da avenida Paulista. Todas as carteiras, relógios e correntinhas roubadas, ele fumou no cachimbo de crack, até ser preso. No pavilhão, usuário contumaz, consumiu 60 reais além de suas posses. Um dia, o credor chamou-o no xadrez:

- Alfinete, já faz uns dias que você me deve. Vai pagar quando?

- Neste momento, estou justamente sem condições, devido que a minha mãe não veio na visita, porque se encontra no hospital com a minha irmã que tomou um tiro no peito, na mesma fita em que o meu cunhado foi chacinado...

O outro o interrompeu:

- Alfinete, é o seguinte: no final da tarde, vai aparecer um finado na rua Dez do quarto andar. Você desce para a Carceragem e se apresenta. Diz que o cara ofendeu a senhora tua mãe que está no hospital, cuidando da filha viúva.

Alfinete assumiu a autoria do crime, na verdade cometido por seis detentos, e foi direto cumprir castigo na Isolada, no térreo do Cinco. Mais tarde, o laranja assim descreveria os trinta dias que passou nesse local, dividindo o espaço com mais cinco:

- Para mim não faltava nada, que os companheiros levavam comida, baseado para fumar e até pinga para criar coragem de encarar a quentinha.

Como a Isolada fica no térreo e a janela é fechada por uma chapa metálica perfurada, os companheiros do lado de fora, no pátio, junto à parede lateral externa do pavilhão, passavam através dos orifícios da chapa, para o interior da cela, um canudo longo na ponta do qual Alfinete sugava a maria-louca diretamente da outra extremidade, mergulhada num inocente bule de café que um dos verdadeiros autores do assassinato, distraído, segurava encostado à parede.

Alfinete assinou a confissão quando havia cumprido dois anos e três meses de uma pena de quatro. Quitou a dívida com o traficante, mas custou-lhe doze anos a mais de pena a cumprir.

Outra vez, cheguei na sala de atendimento médico e notei o clima esquisito. Os enfermeiros separavam as fichas dos doentes em silêncio e trocavam olhares enigmáticos. Perguntei-lhes o que se passava, disseram que não era nada. Dei cinco minutos e repeti a pergunta. A resposta foi idêntica. Comecei a atender os pacientes, e eles calados como túmulos. Resolvi ser mais incisivo:

- Vocês vão contar o que aconteceu ou vou ter que descobrir sozinho?

O chefe deles, um ladrão magrinho, implacável com os inimigos e cujo maior desgosto era o irmão mais novo ter entrado para a Pm, sorriu amarelo:

- Caiu uma faca nossa que estava mocosada na estufa de esterilizar os instrumentos. Faca miúda, só para defesa pessoal.

Eles tinham retirado a placa do fundo da estufa, escondido a faca e parafusado novamente. Era pouco provável que os funcionários descobrissem o esconderijo sem colaboração de algum informante. Quando lhes perguntei quem havia assumido a responsabilidade da contravenção, responderam que tinha sido o Peninha, um rapaz esquálido internado em fase final de evolução da AIDS, que virtualmente mal parava em pé.

Seu Lupércio, 82 anos de idade, avalia a situação penal do laranja:

- juiz não quer saber de laranjice, condena com caneta pesada e manda tirar de ponta. Todo beneficio que pede, ele nega.

Se o laranja desce para a Carceragem e assina uma dessas mortes, não tem como voltar atrás. Ao depor, no Fórum, se negar o que confessou antes, corre risco de vida ao retornar à cadeia. Mesmo que seja transferido para outro presídio, é perigoso:

- Morre também, que nós tudo se comunicamos. Todo dia chega e sai gente da cadeia, contando as novidades. É a rádio Boca de Ferro.

A potência da rádio Boca de Ferro é de tal ordem que, mesmo libertado, o laranja arrependido não terá sossego na rua:

- Aí é que morre mais ainda!

Embora o número de laranjas na cadeia tenha aumentado significativamente na era do crack, sua existência não é exclusiva dos tempos modernos, como explica o Filósofo, um moreno de óculos consertados com esparadrapo, estelionatário de muitos golpes:

- Sempre existiu esse indivíduo que segura a morte de alguém e que um dia, devido o caminho sinuoso do destino, ele próprio acabará no bico da faca de uma pessoa que, por sua propria vez, vai pôr um laranja para assumir a morte dele. E, assim, por meio da laranjice, vão-se os filhos queridos de muitas mães, deixando apenas lágrimas que rolam no rosto do sofrimento humanitário.

- Sai todo mundo do xadrez e encosta as mãos na parede da galeria.

Bebeto estava para lá do quinto sono quando os três funcionários deram essa ordem. Ficou preocupado, havia chegado na cadeia há apenas três dias, mal conhecia os companheiros. Os sete saíram em silêncio e os carcereiros vasculharam tudo. Estavam quase desistindo, quando um deles despregou o fundo de um armário junto à parede e encontrou duas facas. Bebeto surpreendeu-se:

- Eu nem tinha noção que duas bicudas daquelas cabiam naquele espaço.

De quem eram, quiseram saber os funcionários:

- Os manos na maior miguelagem, ó. Vou dizer que não é minha? Uma que os polícias não vão acreditar, outra que eu passo por cagüeta, porque se não é minha, é deles.

A solidariedade custoulhe trinta dias na Isolada. No final, acha que valeu a pena:

- Saí de lá com fama de sangue-bom. Minha caminhada ficou mais fácil na cadeia.

A lei diz que é melhor pagar por crime alheio do que delatar o companheiro. Ao acusado é permitido protestar inocência; dar o nome do responsável, jamais. No caso de punição injusta, o verdadeiro culpado arca com a dívida da gratidão, no mínimo.

Gitano, um ladrão tatuado que trabalhou na enfermaria, recebeu uma carta da mulher. Açoitado pelo ciúme, foi atrás de um gole de maria-louca no pavilhão Oito. Cidinho Bigorna, seu fornecedor, lamentou não poder atendê-lo, estavam na entressafra, após uma batida do choque da Pm. Entretanto, condoído pela tristeza do amigo, Cidinho Bigorna conseguiu-lhe uma garrafa de Dreher por 50 reais. Gitano pagou vinte, assumiu trinta de dívida e levou a bebida:

- Para acertar a diferença, vendi umas doses, onde que dei azar, um companheiro ficou bêbado e desrespeitou um funça. Os homens chegaram para saber a origem do conhaque, que se eu entregasse o fornecedor, minha cara estava limpa.

Gitano explicou que o litro havia aparecido pela manhã, misteriosamente, na porta da cela. Pagou trinta dias no castigo, mas poupou Cidinho Bigorna, um ladrão que uma vez cravou o punhal com tanta força na mão de um comerciante japonês que tinha se negado a abrir o cofre, que a lâmina trespassou os ossos e enterrou na mesa. Para seu azar, a polícia chegou em seguida e, ao ver o senhor com a mão encravada na mesa, bateu tanto em Cidinho e nos dois asseclas que ele perdeu a audição? todos os dentes da frente.
O gesto de Gitano não passou despercebido a Cidinho:

- Sangue-bom. Se ele me dá eu, tinha complicado a situação jurídica da minha pessoa, que eu já agravei a Colônia não posso dar mancada, senão perco o beneficio.

Mas não deixei passar batido, usei minha aproximação com um funça para levar uma lata de goiabada para ele, na Isolada, que ali é um mês na quentinha pura, sem recorte. Esse tipo de reconhecimento respeitoso não se aplica aos laranjas, desprezados por assumir a culpa alheia por motivo considerado torpe: covardia, perdão de dívida ou imediata recompensa. A diferença entre o sangue-bom e o laranja é muitas vezes sutil, pois envolve a motivação que levou ao ato, como explica seu Chico, um ex-marinheiro que matou o cunhado, foi preso e não viu mais os filhos, porque, em retaliação, a mulher disse a eles que o pai havia morrido na penitenciária: - O laranja assume em troca de vantagem imediata, é toma lá, dá cá. O sangue-bom ajuda o companheiro sem saber se um dia vai ser recompensado; merece nosso respeito porque é um altruísta.

TRAVESTIS

No início, com os travestis, meu problema era a identidade. Sentava-se frente à mesa um homem de seios; e gestos delicados em cuja ficha eu lia Raimundo da Silva, mas que todos chamavam de Loreta. Como o médico deve se dirigir a esta pessoa? Raimundo, toma o remédio, ou Loreta, minha filha?

Logo percebi que o certo era Loreta. Tratá-las como mulher não as ofendia, muito pelo contrário. A trajetória do travesti é marginal. Vêm todos das camadas mais pobres, e quando saem à noite, de seios crescidos

• saia agarrada, são automaticamente identificados como perigosos, independentemente do que tenham feito. Presos, vão para o distrito. Os delegados procuram alojá-los em celas especiais, mas quando não há espaço, o que fazer? Espremídos no meio de homens, numa situação em que muito valente corre perigo, curiosamente o travesti acha força na fragilidade feminina e impõe respeito. Na Detenção, a maioria vive no quarto andar do pavilhão Cinco, mas há outros espalhados pela cadeia. Nem tudo são rosas entre elas; brigam e falam mal umas das outras, porém se unem diante do perigo, por instinto de sobrevivência.
O negro Jeremias diz que nos velhos tempos a cadeia era diferente:

- Tinha menas travesti e mais bicha.

Diz que uma delas, de cabelos compridos, conhecida como índia, fazia as unhas do diretor, o temido coronel linha-dura.

- Era linda. Quando a irmã dela vinha na visita, não díferenciava da outra.

Quando os mais novos lhe pedem, e só nesta condição, seu jeremias, sobrevivente de muitos conflitos, dá o seguinte conselho:

- Se você vem na galeria e vem uma bicha vindo, é melhor passar de cabeça baixa. Já vi muita morte porque foram contar que o cara olhou para a bicha do outro. Tem razão, os maridos são possessivos. Mulher de cadeia casada jamais circula pela galeria, e para descer ao pátio, só acompanhada. Para casar, o marido deve estar em boa situação financeira, pois a ele cabe o sustento da casa; a ela, a submissão ao provedor. De forma velada, alguns condenam, mas a união é respeitada socialmente.

O parceiro passivo não é considerado do sexo masculino. Nos estudos que conduzimos, não bastava perguntar se mantinham relações homossexuais. Era preciso acrescentar: e com mulher de cadeia?

Antes das visitas íntimas, a homossexualidade era prolífica. Uma vez, dei o resultado positivo do teste de AIDS para um ladrão desdentado e perguntei-lhe se havia usado droga injetável no passado:

- Nunca. Peguei esse barato comendo bunda de cadeia. Muita bunda, doutor!

Travestis solteiros movimentam-se sem perigo no meio da malandragem, desde que saibam se colocar no devido lugar. Em caso de desavença com algum ladrão, podem se defender verbalmente, como fazem as mulheres, porém jamais chegar às vias de fato como os homens. Uma vez, dois traficantes do Oito foram ao Cinco cobrar uma dívida e se desentenderam com os devedores e os amigos destes. Foram esfaqueados. Entre os agressores, um travesti.

Problema grave: o pessoal do Oito não deixava por menos, queria invadir o Cinco. Conflito de sérias proporções - são pavilhões apinhados - contornado pela esperteza e persistência do diretor do pavilhão. A revolta do Oito não era por causa da agressão, corriqueira em cobrança de dívida, mas pelo fato de um travesti haver participado. Zacarias, um asmático em crise, faxineiro do Oito, queixou-se ao seu Valdir, funcionário do Cinco:

- Olha a que ponto chegou a cadeia, hoje em dia até puto dá facada em ladrão!

Quando vêm para a Detenção, os travestis estão há tempos longe da família. Sem ajuda no presídio, ou casam ou continuam na prostituição, como antes na avenida. Neste caso, a preço vil, a troco de uma lata de óleo, um bom pedaço de frango ou uma pedrinha de crack. Patrícia Evelin, de cílios postiços, foi condenada porque matou um cliente que não quis pagá-la numa travessa da avenida Indianópolis e, o que mais a revoltou, foi estúpido, enxotou-a do carro feito uma cachorra. Um dia, ao pedir uma banana a mais para o faxina que distribuía o almoço, Patrícia recebeu uma proposta indecorosa:

- Só se você der uma cara aqui, para o ladrão. Hoje ela ri. Diz que foi o michê mais barato da vida:

- Fazer o quê, estava louca por uma banana.

A AIDS foi devastadora entre os travestis da Casa. Chegavam na enfermaria com tuberculose avançada, feridas no períneo, os seios definhados pela interrupção da pílula de hormônio e o silicone industrial infiltrado nos músculos caquéticos. Sofrimento para mulher de verdade. No final, restritos ao leito, ainda sorriam com meiguice feminina. Perdi a conta de quantos morreram.

INOCENCIA

Em inocência, a cadeia é farta. Na primeira conversa, o observador se convencerá de que ninguém é culpado. São todos vítimas de alguma armação da polícia, de um delator, do advogado sem-vergonha, do juiz, da mulher ingrata ou do azar.

Paulão é um mulato de quarenta anos, meio gordo, de sorriso agradável e barba cerrada, que vivia em movimento pela enfermaria. Durante meses, nosso contato ficou restrito ao café que ele trazia no meio da tarde, num copo com friso de ouro e uma índia com maiô de oncinha. Na primeira vez, levei a bebida à boca com uma cerimoniosa preocupação que, para minha surpresa, mostrou-se descabida: o café era forte e amargo, um alento no ambulatório interminável. Uma tarde, ele veio com o copo da indiazinha no intervalo entre dois atendimentos: - Paulão, queria agradecer essa gentileza. Toda vez, café fresquinho. Vou te trazer um pacote, não é justo você gastar do seu.

- Não faça isso, doutor, vai me entristecer. É um prazer que eu tenho.

- Quanto é tua pena, Paulão?

-Ainda não fui julgado.

- Assalto?

- Não, doutor, que é isso! Estou no aguardo do julgamento devido um rapaz que morreu na vila onde eu moro.

- Quem foi que você matou?

- Mataram meu irmão. Depois de uns dias, o assassino teve um encontro com a morte. A suspeita recaiu-se sobre a minha pessoa. Uns dizem que fui eu, mas não viram, e outros dizem que viram que eu não fui. E, nessa de uns achar que fui eu sem ver e outros ver que não, eu estou aqui na expectativa do que o juiz vai decidir. Meses depois, no julgamento, o juiz o condenou a treze anos e quatro meses.

RICARDÃO

Era noite sem lua. O camburão encostou na Divinéia e os dezoito presos desceram algemados. Diante deles, o guarda de plantão resmungou:

- E depois dizem que vão desativar a Detenção. Como protesto contra a superlotação, os dezoito haviam destruído as celas do distrito em que se encontravam:

- Sempre a mesma história: resolvem todos os problemas do Sistema despejando mais gente em cima de nós. No escuro da Divinéia, um carcereiro à frente do grupo e dois atrás, em silêncio, o cortejo entrou à esquerda pela porta do pavilhão Dois, parou na Carceragem para os procedimentos burocráticos e foi encaminhado à cela da Triagem, no térreo. Um funcionário parou à porta, até todos estarem reunidos. Abriu. A luz estava acesa.

Um dos membros do grupo de depredadores, Zildenor, por ironia preso numa loja de brinquedos quando comprava honestamente um trenzinho para os filhos com dinheiro roubado num assalto, não pôde acreditar que os carcereiros iriam trancá-los ali:

- A maior caloria lá dentro. Mais de trinta ladrões deitados no chão.

Alguns dormiam em colchões de espuma, outros sobre cobertores iguais aos dos craqueiros que perambulam pelo centro de São Paulo. Barbantes esticados de uma parede à outra serviam de varal para a roupa molhada. Sacos de plástico com pertences pessoais pendiam dos pregos na parede. Uns poucos privilegiados penduravam redes no alto e pairavam acima dos demais (são conhecidos como "morcegos").
Zildenor conta que a chegada dos transferidos revoltou os ocupantes da Triagem:

- Quando se viu que nós era em dezoito, começou o batefundo. Reclamação pra caramba, que não tinha condição, que não cabia mais, que eles iam matar um de nós para reforçar os argumentos. Mas os funças puseram a gente para dentro, que eles não estão nem aí para sofrimento de ladrão.

Um carcereiro ainda justificou:

- É para ninguém se queixar que aqui falta calor humano. Dentro da cela, os transferidos explicaram aos companheiros irritados que não estavam lá por opção; haviam quebrado o Distrito. Zildenor até ressaltou um Ponto em comum:

- justamente, nós era vítimo do mesmo processo: a superpopulação do sistema presidiário do país. Não foi fácil aquietar os revoltados, que viviam naquele calor, trancados o dia todo, com as muquiranas picando e se escondendo nas dobras da roupa. Com muito custo as coisas se acalmaram e os dezoito se acomodaram em volta do vaso sanitário, como rezam as leis da prioridade. Para eles, foi até um alívio:

- É que no distrito estava um esgano monumental. Precisava fazer turno para dormir: uns deitavam, o resto ficava em pé, espremido, sem poder encostar no outro, que é tudo homem com homem.

Na noite seguinte, chegou na Triagem um branquinho de olhos claros com os pertences embrulhados numa folha de jornal. Entrou quieto e tomou posição ao lado do vaso.

Um pouco mais tarde, um moreno de fala fanhosa deitado perto da janela identificou o branquinho como o amante de sua mulher.

Assunto grave: namorar mulher de detento desperta ódio

- O alemãozinho foi obrigado a entrar na do grandão do coletivo na cadeia. Vi diversos assassinatos causados por esses canto.

triângulos amorosos: marido que vai preso, mulher que arruma outro, que mais tarde cai no mesmo presídio do rival desconsolado. Seu Aparecido Fidélis, funcionário antigo que garante haver conhecido ou pelo menos passado na porta de todos os salões de baile de São Paulo, afirma que é mais fácil uma esposa abandonar o marido na cadeia do que a amante vir a fazê-lo.

Da janela, o fanhoso gritou:

- Tu bateu no meu reconhecimento, maluco. Descolei que você é o Ricardão da minha mulher. Agora, vai morrer! Zildenor classificou assim o incidente:

- Um caso de Ricardão e dona Maria Faltosa.

O fanhoso preterido avançou na direção do loirinho, mas a turma do deixa-disso interveio:

- Deixa disso, cara, vai tirar um montão de cadeia, tua pena é pouquinho. Na rua você acerta esse pilantra.

O argumento aguçou o bom senso do marido traído, que resolveu se vingar de forma menos radical:

- Está bom, eu não mato o Ricardão filho da puta, mas ele vai ter que pagar com a mesma moeda que fez na minha mulher. Vou subir nas costas dele! O branquinho, humilde, procurou demovê-lo de tal intenção:

- Não faz isso, cara, eu SOU Hiv, não vai ser bom. Eu já vou morrer mesmo, você vai querer pegar AIDS também?

Neste momento, levantou no canto um gordo desdenta-do, ladrão de muitas entradas na Casa:

- Deixa o alemão para o tiozinho aqui. Não tem problema, eu também SOU HIV!

Zildenor conta que, lamentavelmente:

No dia seguinte, percebendo que Zildenor era novo como ele no xadrez, o branquinho veio chorar as mágoas:

- Pó, cara, eu contei uma mentira, inventei essa história que não tem nada a ver. Eu não SOU HIV. Zildenor confortou o rapaz:

- Não esquenta não, o patrício do canto também não é. A ojeriza à figura do Ricardão foi captada sem piedade por um Pm que guardava a muralha paralela aos fundos do pavilhão Oito. Em seu plantão, às dez da noite pontualmente, ele saía da guarita, deslocava-se até um ponto escuro da muralha, próximo às janelas do pavilhão, e batia com o capacete três ve zes: bum bum buin:

Aí, ladrão, você na tranca e ela lá, fodendo com o Ricardão. Seguia-se um longo silêncio, rompido invariavelmente pela mesma voz de tenor:

- Gambé, filho da puta!

Era a senha para um crescendo infernal de impropérios:

- Pm corno do caralho! Vou contar pra tua irmã na visita de domingo! Já comi tua mulher de quatro! Vai buscar tua mãe na zona, gambé!

- A gritaria atingia o nível máximo de intensidade, ininteligível, e decrescia até se calarem as últimas vozes. Impassível, com a silhueta na penumbra, o Pm aguardava a volta do silêncio. Então batia novamente o capacete contra a muralha: bum bum bum

- Aí, ladrão, você na tranca e ela lá, fodendo gostoso com o Ricardão.

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