Claudiomiro diz que só foi preso porque tinha mulher e filho. O delegado investigou os postos de saúde e encontrou a ficha de vacinação do menino, com o endereço da mãe. Achou a moça bonita e mandou segui-la. Uma noite, ela tomou o ônibus para Leme com o menino e hospedou-se na casa da tia. Na vizinhança, a polícia montou um posto de observação. Uma campana móvel, como dizem. Três dias depois ele apareceu, morto de saudade. Conheci Claudiomiro por uma exigência da Detenção: todo preso convocado para depor nas delegacias, antes de sair precisava de um atestado de integridade física. Mandei-o tirar a roupa. O corpo era forte, tinha três cicatrizes antigas e nenhum sinal de violência recente. Perguntei se havia apanhado:
- Aqui, não. Vamos ver agora no DERI.M. - Muita coisa lá?
- Querem me atribuir dezessete assaltos a banco e oito
-Vai assinar quantos?
-Nenhum, doutor. Nem posso, já tenho mais de quinze anos para tirar.
Dois dias mais tarde, vi na televisão uma tentativa de fuga coletiva no DEPATRI (Departamento de Proteção ao Patrimônio). Claudiomiro foi um dos líderes e voltou na mesma noite para a Detenção. Encontrei-o na Radial:
- E aí, quantos você assinou no DEPATRI?
- Não chegaram a me interrogar.
- Ganha dinheiro nesse negócio de banco e carro-forte?
- Ganha, mas o dinheiro só vale a metade, às vezes até menos.
A esta frase enigmática seguiu-se uma conversa sobre a profissão dele:
- Precisa muita disciplina, doutor. Deu oito da noite, eu me recolho. Não
fico em bar, boate, porque a polícia pode me pegar de bobeira numa
batida qualquer. Durmo cedo e, em casa, quem acorda o galo sou eu. Claudiomiro
auxiliava a mulher nos trabalhos domésticos, fazia feira, trocava fralda
e contava história para o menino na cama. Quando se escondia, nem a
esposa sabia seu paradeiro. Mas não abusava da confiança: -
Para ladrão de banco não falta mulher. Só que muitos
acabam na cadeia ou na armadilha de outro bandido, porque mulher com o amor-próprio
ferido é capaz de muita vileza.
Claudiomiro diz que a informação precisa é fundamental:
a que horas passa o carro-forte, quantos mil no cofre do banco, o número
de guardas, todos os detalhes. Para isso, valia-se dos próprios vigilantes
das empresas de segurança, com cautela:
- Não pode ser intempestivo: ô meu, me dá a lança aí.
Tem que se achegar através de um amigo, uma pessoa da família,
num bar, uma cervejinha.
Chegou a passar seis meses atrás da informação desejada:
- Fiquei amigo do rapaz, emprestei dinheiro, até no batizado do filhinho
eu fui. Tem que ganhar a confiança primeiro, para conscientizar depois.
Explicar que ele arrisca a vida para defender dinheiro dos outros e ganhar
uma mixaria, que essas firmas exploram o cara pra caramba, que se ele morrer
no trabalho, a mulher e os filhos vão passar necessidade.
É uma catequese:
- Até a pessoa dar a fita. Depois, semanas ou meses para planejar a ação. Se é um banco, é preciso desenhar um croqui com a posição dos caixas, do cofre, das câmeras de circuito interno e dos seguranças. Quando é carro-forte, cronometrar o trajeto por dias consecutivos, preparar o mapa das ruas próximas e definir a hora exata da abordagem. Tarefa demorada e solitária:
- É eu e Deus. Saio de terno, gravata e pasta de couro, e conforme o caso, abro uma conta na agência com documento falso, para justificar a ida diária.
Com o plano organizado, Claudiomiro sai para contratar o pessoal. A pior parte, segundo ele:
- Precisa saber lidar com ladrão.
Um assalto desses pode exigir até uma dúzia de homens e Claudiomiro não tinha quadrilha fixa, por motivo de segurança. Achava mais prudente terceirizar certas tarefas, com exceção daquelas executadas por dois companheiros há muitos anos com ele. Mesmo assim:
- Eles não sabem onde eu moro, nem com quem eu vivo. Quando tenho uma lança, eu que vou atrás deles. Reunimos cedinho, dois dias antes do assalto eu conto o plano, mas não digo aonde é, nem eles perguntam. Só no dia, meia hora antes de sair é que todos ficam sabendo. Os três analisam o croqui e calculam quantos e a que preço os homens serão contratados. Alguns ganham fixo, outros por percentagem. O cálculo deve ser bem-feito:
- Senão vira repartição pública e ninguém vê a cor do dinheiro.
Depois da reunião, Claudiomiro volta para casa e os outros saem para montar a equipe e roubar os veículos de fuga, ou cavalos de pinote, como preferem, que mais tarde serão abandonados nas cercanias do assalto, porque os Ocupantes passarão para outro automóvel, às vezes até com pessoas comuns em seu interior, para disfarçar:
- Tem gente que põe uma senhora gorda para dirigir e até criança no banco de trás. Eu não exponho inocente; a polícia, quando chega, não quer conversa.
No dia combinado, Claudiomiro sai às quatro e meia da manhã para buscar o armamento: fuzis de repetição, metralhadoras e revólveres importados. Só ele sabe o esconderijo: no mundo do crime, arma é poder:
- Geralmente deixo na casa de gente que não passa sobre ela qualquer suspeita, uma pessoa de fé ou uma viúva que freqüenta igreja.
A pessoa presta o serviço pelo aluguel da casa, cesta básica ou auxílio num momento de necessidade. A cumplicidade cria laços afetivos:
- Cinco da manhã, quando apareço para buscar as ferramentas, tem uma senhora que me serve café com mandioca cozida e bolo de milho. O pitoresco é que eu chego sem avisar nem nada, e está a mesa posta, toalha limpinha, bolo e o leite no fogo. Na saída ela me deseja: Deus te proteja meu filho! Naquele momento, é um conforto ouvir essas palavras de uma senhora de idade. No horário das cinco às dez da manhã, com as armas no carro, começa o perigo. Os policiais da Delegacia de Assalto a Banco conhecem os modelos de automóveis preferidos pelos ladrões e sabem que é o momento de pegá-los:
- Depois do assalto, com o dinheiro na mão, um abraço. O trabalho exige sangue-frio. Nem quando tudo dá certoa tensão afrouxa. O assalto põe a polícia na rua e assanha os marginais:
- Eu, quando pego uma bolada, evaporo. Mudo de casa, troco o carro, não
recebo visita para ver minha TV, geladeira nova, o conforto da minha família.
Prefiro assim do que ter que contratar segurança, como muitos fazem,
e perder a privacidade da família.
A notícia chega até na cadeia:
- Pó, fulano está com carro zero bala. Está dando dinheiro.
É o Sílvio Santos. Deu sorte mas é trouxa, a corridinha
dele é curta. O quê? Um pé-de-china com essa pacoteira?
Eu mando enquadrar e um abraço.
Certa vez, Claudiomiro foi abordado por dois homens armados que o revistaram
e pediram 30 mil dólares. Era ordem do chefe deles, para deixá-lo
em paz. Claudiomiro disse que o dinheiro estava no cofre do banco. Foram até
lá. Um dos chantagistas ficou do lado de fora com os revólveres
e o outro aguardou no saguão da agência.
Claudiomiro foi até o cofre e voltou com um pacote na mão. Deu
três tiros num deles e mais dois no outro, sem abrir o pacote. Os mortos
não imaginaram que poderia haver um revólver no cofre.
Claudiomiro não se vangloria da esperteza; agiu a contragosto:
- Era mais vantagem ter pagado os 30, que eu tinha levantado 74 no assalto,
do que matar os dois no meio de todo mundo, arriscando levar tiro dos seguranças
ou da polícia que chegou em seguida. Só que não posso
passar como vacilão, porque, aí, é um bote atrás
do outro, e eu tenho mulher e filho para adiantar.
Claudiomiro sempre dispunha de 50 mil dólares para o
caso de ser preso. Se a polícia chegava, a primeira pergunta que ele
fazia era se havia possibilidade
de acerto:
- Se eu percebo que o cidadão vacila, eu conscientizo ele: olha, você ganha 700, 800 reais por mês, paga aluguel, não dá para comprar um brinquedo para o filho, sustenta a mãe ou a sogra, vai ganhar o quê, me levando preso? Para mim, sai mais barato acertar com você do que entregar na mão do advogado, que vai me soltar em outras instâncias.
Por isso, dizia que seu dinheiro valia metade.
Outra vez conseguiu boa soma numa agência Bradesco. Alugou um apartamento
de três quartos na Manoel Dutra, no Bixiga, e mobiliou no gosto da esposa,
com todos os eletrodomésticos:
- Não usufruí vinte dias no conforto.
Uma tarde, foi fazer compras no supermercado da praça 14 Bis. Quando saiu, notou a presença de um homem de boné na banca de jornal, ao lado. Em vez de atravessar a rua, Claudiomiro virou à direita, na direção da Barata Ribeiro. No farol, antes de cruzar, olhou para os lados: o homem de boné havia virado em sua direção. Claudiomiro não teve dúvida:
- Polícia. Farejo de longe.
Foi para casa distraído, vestiu a bermuda, calçou um chinelo,
pegou a mulher, o nenê, o carrinho, a sacola com as mamadeiras em cima
do dinheiro, e desceram.
O homem de boné estava no posto de gasolina, em frente. Deve ter pensado
que os pais levavam a criança para passear e esperou que voltassem,
em vão:
- Dobramos a Treze de Maio, parei um táxi e um abraço. Largaram tudo para trás:
- Televisão, câmera de vídeo, dormitório de casal e tudo o mais. Até o meu Verona novo, com os documentos certinhos na garagem. Minha senhora não disse um ai. Não era a primeira vez que abandonava tudo, nem seria a última, mas aquele dia me cortou o coração ver as lágrimas no rosto dela.
Meses mais tarde, Claudiomiro foi transferido e fugiu da cadeia. Continuou sua caminhada até cair sob o impacto das balas de uma viatura da Pm que, por acaso, passava pela porta do banco no momento do assalto. Tinha 35 anos, deixou a mulher grávida e o menino pequeno.
Quando cheguei no pavilhão Quatro, o sol batia forte na gaiola do térreo. O Pequeno conversava com um funcionário na beira da escada. Perguntei se o elevador estava funcionando. Respondeu com o erre arrastado na língua presa:
- Para variar, não. Doutor, o senhor já viu os corpos? Num
banheiro do térreo improvisado como necrotério,
jaziam os corpos de dois rapazes. Um deles, de bermuda, estava horrivelmente
queimado. As bolhas ocupavam o corpo todo, principalmente o rosto e o tórax;
algumas haviam rompido expondo a derma profunda, escura e úmida. O
outro, de camiseta do Baú da Felicidade, estava todo esfaqueado.
Os corpos eram de Deusdete e Mané de Baixo, criados na mesma vizinhança,
amigos inseparáveis até os catorze anos, quando Mané
de Baixo arranjou emprego num ferro-velho e saiu da escola. Na mesma época,
o pai de Deusdete perdeu a vida num trem de subúrbio. Orfão,
Deusdete foi trabalhar de dia e estudar à noite. Mané de Baixo
envolveu-se com o crime e desinteressou- se pela vida esforçada do
amigo.
Uma noite, Francineide, irmã do meio de Deusdete, na volta da padaria,
foi molestada por dois marginais da vila. Um disse que queria chupar o sexo
dela; ofendida, ela o mandou chupar a mãe, vagabundo. Apanhou, chegou
em casa com o vestido rasgado e a boca inchada. Ao ver a irmã naquele
estado, Deusdete correu para a Delegacia. Esperou mais de duas horas para
ouvir o escrivão dizer que ficaria louco se registrasse todas as queixas
de agressão da vila.
Uma semana após o incidente, no ônibus, um vizinho o avisou
de que os agressores souberam da ida dele à delegacia e queriam pegá-lo.
Deusdete pediu adiantamento na firma e saiu pela vila atrás de um revólver.
Não demorou para encontrar.
Apesar da arma, mudou de itinerário. Não adiantou, eles o acharam
na volta da escola, sozinho, por uma rua
escura.
- Aonde pensa que vai o estudante dedo-duro?
- Não quero briga. Deixa eu ir para casa.
- Você vai para a casa da mamãe, veado, só que antes a gente vai te fazer uns carinhos, que nem nós fez para a tua mãzinha.
O primeiro que se aproximou tinha uma barra de ferro na mão. Abusado, não percebeu que Deusdete havia sacado o revólver. Tomou dois tiros e caiu morto. O companheiro saiu correndo com a faca. Deusdete atirou, errou e seguiu no encalço. Três, quatro esquinas depois o fugitivo entrou num bar. Deusdete esperou agachado atrás do muro de uma casa em frente, até que o inimigo saiu, olhou ao redor desconfiado e cruzou a rua bem na direção em que ele se encontrava. Levou as três últimas balas do tambor, para espanto do gordo de bermuda e do barbudo que jogavam sinuca no alpendre do botequim e mais tarde testemunharam contra ele, no julgamento. Quando Deusdete chegou na Detenção foi acolhido por Mané de Baixo, proprietário de um xadrez no pavilhão Cinco, cumprindo oito anos e seis meses por roubo de carga e formação de quadrilha. Com a ajuda do amigo, Deusdete, condenado a nove anos por homicídio duplo, fez ambiente com a malandragem. Dava aula na escolinha do pavilhão, escrevia cartas para os menos letrados e batia petições para anexar aos processos dos companheiros.
A harmonia, entretanto, foi abalada quando Mané de Baixo conheceu
o crack. De nada adiantaram os conselhos do amigo, tudo o que Mané
conseguia evaporava na fumaça das pedras.
Na noite da tragédia, apareceu o Fuinha no guichê da cela: -
Mané, trouxe umas pedras da melhor para nós fumar. Deusdete
perdeu a paciência:
- Chega! Você não vai fumar comigo aqui dentro. Quer se matar, foda-se, mas fuma amanhã, depois que eu sair! Fuinha preferiu se retirar:
- Deixa quieto, Mané, amanhã nós fala.
Mané de Baixo, diminuído na presença de Fuinha, não disse uma palavra. De madrugada, enquanto o companheiro de infância dormia, encheu um tacho com cinco litros de água, uma lata de óleo, um quilo de sal e acendeu o fogareiro. Quando a mistura levantou fervura, despejou-a em cima do outro.
Deusdete morreu na enfermaria do Pavilhão Quatro nas primeiras horas
da manhã. Ao meio-dia, os companheiros revoltados reuniram-se com a
Faxina do Cinco, num "debate", como eles dizem, que envolveu mais
de quarenta pessoas. Resolveram que um grupo aguardaria nas imediações
da entrada do pavilhão e outro bloquearia a escada no primeiro andar.
Quando Mané entrou, o grupo de baixo subiu atrás.
Seu corpo foi levado para o Quatro num carrinho de transportar comida. Lá,
um detento o agarrou pelos braços, outro pelas pernas e o depositaram
deitado de lado, no espaço do corredorzinho que sobrou entre Deusdete
e a parede. O braço inerte de Mané caiu sobre a cintura do amigo.
- Cadeia é lugar onde o filho sofre e a mãe não vê.
A noite havia caído. Na sala de consulta, eu louco para ir embora, entrou um altão, forte, devagarinho, as pernas abertas e as mãos amparando os testículos. Precisou de dois enfermeiros para subir na maca. O rapaz tinha fama de assaltante destemido, ligação com bicheiros, cicatriz no supercílio direito e era subencarregado da Faxina do pavilhão Oito, o dos reincidentes. Apresentava um abscesso na bolsa escrotal do tamanho de um pêssego graúdo. A lesão, vermelha como fogo, tinha conteúdo líquido, flutuante; na parte central, a pele estava tão tensa que chegava a brilhar. - Olha, precisa lancetar para tirar o pus. Vou te encaminhar para o Hospital do Mandaqui.
- Doutor, faz oito dias que eu estou sofrendo. já me encaminharam para o Mandaqui três vezes, mas faltou viatura. Ontem, depois de eu implorar, no desespero, acabaram me levando, mas nem desci do camburão porque os PMs falaram que ia demorar e eles não eram ama-seca de vagabundo. Não tem condições do senhor lancetar aqui mesmo?
- O material daqui é precário. Além disso, você não tem noção da dor que dá. É duro de agüentar sem anestesia. Ele esboçou um sorriso:
- Que é isso, doutor, o senhor está falando com um homem que tem quatro balas no corpo, Só no antigo DEIC me penduraram mais de vinte vezes. lá apanhei de cano de ferro duas horas e não entreguei o que os homens queriam. Se é pela dor, já era: é comigo mesmo!
Sofrimento por sofrimento, pensei, talvez ele tivesse razão. Esses encaminhamentos para hospitais externos eram complicados, pois o regulamento exigia escolta da Polícia Militar, em viaturas nem sempre disponíveis, para evitar fuga ou ataque de quadrilha para resgatar o prisioneiro. Nas filas dos hospitais públicos, a demora acabava de azedar o relacionamento com a Pm. Assisti a diversas mortes na enfermaria enquanto os doentes aguardavam transferência.
Do nosso lado, o médico podia enfrentar problemas legais quando um falso doente, encaminhado por ele para atendimento externo, fugia. Comigo aconteceu duas vezes. Numa delas, um ex-mecanico com caquexia associada à AIDS conseguiu tirar a mão esquálida da algema presa ao leito e sumiu. Na outra, Romário, um craqueiro com tuberculose avançada, pulou o alambrado do Hospital Central, situado atrás da Detenção, enquanto os guardas assistiam Brasil versus Alemanha na TV, passou quinze dias na rua fumando crack e voltou preso, para morrer dois meses depois na enfermaria.
Se o doente estava disposto, tudo bem. Na falta de médico-cirurgião, mandei chamar o Lula, responsável pelas pequenas operações da enfermaria, assaltante de banco, operador prático e personagem de outra história. Quando Lula chegou com o material, distribuí quatro detentos -enfermeiros em volta da maca, nos braços e pernas do faxina. Com cuidado, levantei o testículo doente e coloquei um chumado de algodão por baixo. A menor mobilização da região inflamada provocava dor intensa. Chegava a escorrer suor na fronte do faxina.
Tudo pronto, indiquei o local da incisão.
De luvas, Lula, canhoto, com uma lâmina de bisturi entre o indicador e o dedo médio, cortou fundo a pele infiltrada e no mesmo movimento Jogou a lâmina na bandeja e espremeu forte, da periferia para o centro da região abscedada. Apertou firme, sem trégua. O pus jorrou amarelo, grosso.
A incisão pareceu indolor. A compressão, no entanto, provocou um urro oriundo das entranhas do faxina. Seu corpo retesou-se como um arco apoiado na cabeça e nos calcanhares. Não fosse a contenção obstinada dos quatro enfermeiros, a maca teria virado. Lula, impassível, no aperto. O espasmo gutural só terminou quando faltou ar nos pulmões do faxina:
- Ai, pelo amor de Deus, larga... Ai, mamãezinha... Vela eu, maezinha querida.
Lula, sem dó, permanente, até a secreção amarela
rarear e o sangue tingir o algodão de bordô. Então, soltou
e espremeu mais três vezes, bem apertado, para ter certeza do serviço
bemfeito. Quando, afinal, largou, o queixo do ladrão tremia feito vara
verde. Pálido, lavado de suor, ele continuava obcecado pelo amor filial:
- Ai, mãezinha querida... Ai, minha Nossa Senhora, me ajuda... Vela
o teu filho, mãezinha.
Minutos depois, aliviado, o faxina agradeceu, humilde:
- Graças a Deus, melhorou. Deus abençoe vocês. Deus abençoe o senhor, doutor. Deus te proteja, Lula. Profissional, recolhendo os instrumentos com cara de poucos amigos, Lula interrompeu:
- Chega, deixa Ele em paz agora. Muito Deus na boca de ladrão, não presta!
Em câmera lenta, o doente desceu da maca e saiu de pernas abertas, capenga pela galeria. Quando a porta fechou, Pedrinho, passando um pano ensaboado na maca, comentou em voz baixa:
- Pó, um bandidaço assim, assaltante de carro-forte, subencarregado de Faxina, implorar pela mamãezinha desse jeito!
De todos os presos que passaram pela enfermaria, Edelso era o que tinha mais jeito para medicina. Era o preferido da malandragem para aplicar injeções, fazer curativos e, nas madrugadas sofridas, receitar o melhor tratamento sintomático. Com a experiência, aprendeu a diagnosticar tuberculose melhor do que muito médico. Trazia o doente já com a conduta: - Doutor, esse aqui tem febre, dor no peito e sudorese noturna. Foi receitado soro com vitamina e ampicilina, mas eu já comecei o esquema tríplice.
Agradável no trato, dentes preservados, roupa cuidada, destoava naquele ambiente de homens pobres e corpos marcados pela violência.
Edelso tinha várias passagens por roubo de automóveis. Veio
para a Detenção condenado a oito anos e sete meses, enquadrado
em vários artigos do Código Penal: receptação,
formação de quadrilha e falsidade ideológica. Foi preso
porque assumiu a identidade de um médico recém-falecido em Mogi
das Cruzes. Com documentos falsos, alugou um sobradinho numa cidade vizinha
e montou consultório, com placa na porta, receituário e número
de CRM.
- Eu comprava carro roubado num desmanche de São Paulo e vendia na
fronteira com o Paraguai.
Para disfarçar, o papel de médico caía como uma luva
para ele, ex-aluno de um curso de auxiliar de enfermagem: - Médico
toda hora com carro novo, é normal.
Fez a mudança para a residência-consultório à noite. O vizinho até ajudou a carregar os móveis. Na manhã seguinte, acordou com a campainha. Olhou pela Janela do banheiro e viu dois soldados da PM, um alto de bigode ruço e o outro suado, enxugando a testa com um lenço. O ladrão lamentou a sorte:
- Nem bem cheguei e a casa caiu!
Pensou em fugir pelos fundos a pé. Não seria a primeira vez a deixar os pertences para trás. Hesitou, enquanto a campainha insistia. Por fim, resolveu bancar o desentendido e desceu com calma, o revólver enfiado no cinto. Pela janelinha da porta, perguntou o que os policiais desejavam:
- Doutor, tem uma criança passando mal no posto de saúde e o médico não chega. Dá pra quebrar o galho da gente? Quando Edelso chegou no posto, havia várias pessoas em volta de uma menina de sete anos que ardia em febre e dor de garganta, na maca. Gente humilde. Uma senhora de preto que parecia ser a avó explicou que a criança vinha com dor forte de cabeça. Edelso estranhou:
- Criança pequena com cefaléia?
Passou a mão por trás do pescoço da menina e tentou dobrar-lhe a cabeça para encostar o queixo no peito. A criança gritou de dor:
- Rigidez de nuca!
O sinal neurológico foi suficiente para o falso médico fazer o diagnóstico:
- Meningite! Precisa levar a menina para o Emílio Ribas. Aqui não
tem condições.
Neste momento, enquanto Edelso orientava o caso, chegou o médico de
verdade, assim descrito pelo falsário:
- Um tipo esquisito, de peito peludo e chiclete na boca. Entrou de branco,
não falou com ninguém, só olhou a garganta da pacientinha,
receitou Keflex de seis em seis horas e virou as costas.
Edelso ficou calado, procurando uma desculpa para escapar dali. O negócio
dele era outro e não podia correr perigo. Quando saiu, o pai da menina
veio atrás:
- Doutor, o senhor acha que é meningite, o outro médico disse que é só amigdalite, mas nem examinou a menina. O que eu faço?
- Se a filha fosse minha, eu levava para o Emílio Ribas. Prevaleceu o bom senso paterno. No hospital confirmaram o diagnóstico de meningite bacteriana, internaram e curaram a criança.
A fama de Edelso correu e a clínica prosperou. Cobrava baratinho ou atendia de graça, conforme as posses do cliente. Não dependia da medicina para sobreviver, ganhava de 2 a 3 mil dólares em cada carro que levava para o Paraguai:
- São duras essas viagens, doutor. Tem que rodar tudo de noite para evitar a fiscalização, sozinho, que não pode envolver um amigo ou uma mulher inocente, numa treta dessas. E se a polícia parar? Furar o cerco, parar e ir preso, ou entregar tudo na mão deles? Um dia a casa caiu, de fato. Um clínico-geral de Mogi das Cruzes atendeu uma cliente com prescrição dada por Edelso em nome do médico falecido e deu parte na delegacia.
A carreira de Edelso na enfermaria terminou num final de semana. A chefia
do pavilhão Dois transferiu-o para o pavilhão Sete, porque numa
batida no xadrez de um traficante, segundo disseram, seu nome constava na
lista de devedores, com 10 reais de débito.
Meses mais tarde, cruzei com ele na Radial. Estava bem de aparência,
descansado do trabalho com os doentes. Fazia até planos para quando
cantasse a liberdade:
- Vou parar com esse negócio de carro, desmanche, Paraguai, que é sem futuro. Com a medicina que aprendi com o senhor, não vejo a hora de montar consultório num lugarzinho simples e viver tranqüilo cuidando dos meus pacientes.
Fui apresentado ao Lula no ambulatório por causa de um alemãozinho sardento com uma facada na região glútea. O rapaz, pálido, com uma águía de asas abertas tatuada nas costas, vinha deitado de bruços na maca, com as calças abaixadas e a cueca rasgada pela lâmina. O golpe tinha atingido a musculatura profunda mas poupado os nervos e vasos sangüíneos mais importantes; bastava lavar e suturar.
Com uma fila de doentes por atender, achei que devia encaminhar o doente para um pronto-socorro, pretensão imediatamente contra-indicada pelo Edelso:
- A essa hora, já era, doutor. Vai ficar para amanhã. Por que o senhor não autoriza o Lula?
Lula era ladrão de longa carreira. Chegou na cadeia com foto escrachada no Fantástico, depois de cair baleado no saguão da agencia Itaú de Santa Cecília, num assalto em que morreram dois ladrões. Baleados, ele e o chefe da quadrilha, um rapaz miúdo chamado Ferrinho, chegaram no Carandiru. cercados de respeito. Bandeco, figura popular do Cinco, que fala feito metralhadora, diz que nada é tão gratificante:
- Chegar numa cadeia e os companheiros te tratarem com todo o respeito é a coisa mais bonita na vida de um ladrão. Menos de um mês depois, Ferrinho, torturado pela depressão, enforcou-se com um lençol na janela do xadrez. No bolso da calça, tinha o retrato de um menino pequeno e de uma loira de boca pintada.
Mal Edelso saiu, Lula entrou, sapato branco, correntinha de prata com crucifixo no peito desabotoado, e tinha pressa. Sem me dar muita atenção, observou o ferimento e aproximou varias vezes os bordos do corte. - Dá para fazer, doutor, não ofendeu nenhum nervo. Facada na bunda é só para esculachar a vítima.
Foi nosso primeiro contato. Insisti que o segredo era anestesiar o ferimento e lavá-lo demoradamente com água e sabão. Quando terminou, veio me chamar para dar alta ao ferido. A sutura estava ótima, as distâncias entre os pontos perfeita, o sangue escorrido cuidadosamente retirado.
Não sei quem o treinou - a verdade é que era operador talentoso. Com instrumentos precários e fio grosso de algodão, fazia delicadas suturas de cicatrizes imperceptíveis, drenava abscessos, extraía projéteis do corpo e, habilidosamente, retirava ciscos dos olhos com a ponta de uma agulha de injeção.
Uma vez, trouxe-me um paciente com um lipoma gigante nas costas. Era uma tumoração mole, gordurosa, de quinze centímetros de diâmetro. Queria que eu autorizasse a exerese. Achei difícil uma cirurgia daquelas sem anestesia geral. Disse-lhe que eram loucos, ele e o outro. Respondeu-me que Já havia feito operações maiores, em locais menos acessiveis.
Meses depois, encontrei o rapaz do lipoma no pátio do Sete e ele,
sorridente, levantou a camisa para me mostrar a cicatriz do tumor operado.
Estava perfeita, em forma de Z para aliviar a tensão da pele repuxada
sobre o corte. Perguntei-lhe quem o havia operado: - Foi o Lula. Não
ficou bom?
- Como, se eu não autorizei?
- Ele pediu para outro médico.
Trabalhamos muitos meses em contato. Ensinei-lhe princípios de assepsia, noções sobre as linhas de força da pele para orientá-lo nas incisões e emprestei- lhe um atlas de anatomia, que ele folheou com os olhos brilhando de curiosidade e nunca mais devolveu. Aprendi a admirar-lhe a habilidade cirúrgica e o prazer que tinha no aprendizado-Com o tempo, ficamos amigos.
Num final de ano, notei que seu comportamento se alterou. O riso espontâneo
desapareceu; andava agitado e tenso. Na galeria, olhava desconfiado para trás
e para os lados. No horário de trabalho, às vezes desaparecia.
Ficou magro e com o rosto marcado.
Uma manhã, cruzei com ele no corredor:
- Lula, quero falar com você, em particular. Entramos na sala do centro cirúrgico. Ele trancou a porta e guardou a chave no bolso.
-Você está fumando crack.
- Que é isso, doutor? Nem posso, ainda mais operando o pessoal aí.
- Lula, você entendeu mal, não é pergunta: estou afirmando que você fuma crack, todo dia, e muito. Negou de novo, mas eu insisti que não ficava bem para nós, homens barbados, pais de família, brincarmos de enganar um ao outro.
- É, doutor, comecei fazem seís meses. No começo era de vez em quando; passava uma semana sem fumar. De uns tempos para cá, é todo dia.
- Toda hora.
- A bem dizer verdade, é toda hora. Acordo já na fissura de ir para o fundão, no Oito, atrás de pedra. Tem vez que eu falo, está me prejudicando, vou dar um tempo. Que nada, passa um dia ou dois, estou indo para o fundo na maior neurose. Gasto uma média de 20, 30 contos por dia nessa desgraça.
- E o dinheiro?
-Vem da cirurgia. Aqui nada é de graça, doutor.
- Mas você opera as pessoas e depois fuma essa praga: vai perder a habilidade manual.
- Desculpa, aí o senhor se engana. Eu não fumo crack depois de operar, eu fumo antes.
-Você é louco, irresponsável. O crack tira o controle dos movimentos.
- Doutor, aí o senhor está novamente enganado. Às vezes eu tenho que fazer uma sutura grande, difícil. Desço para o barraco e cachimbo. Subo, injeto o anestésico e lavo a ferida com água e sabão, conforme o senhor ensinou. Lavo sem pressa, chego a passar quinze minutos embaixo da torneira escovando, espuma alta, não me importo com o sangue. Seco bem, tudo limpinho, e quando vou operar, ó, maior barato, vejo os vasos brilhando fluorescente. Amarro um por um, mão firme no porta-agulha, não deixo escapar nada. Só quando a ferida fica seca, sem escorrer uma gota, as bordas bem aproximadas pelos pontos do subcutâneo, é que eu suturo a pele. Se o senhor medir a distância entre o buraco da passada da minha agulha e a borda do corte, de um lado e do outro da cicatriz, vai ver que não tem diferença nem de um milímetro, tanto é a precisão.
O crack acabou com ele. Dias depois o diretor do pavilhão o demitiu da enfermaria e o transferiu para o Oito. A permanência foi curta; privado da clínica particular, não teve como manter o vício, contraiu dívidas e perdeu a moral entre os companheiros. Um dia, foi encontrado sem vida no xadrez. Ao lado do corpo, uma seringa suja de sangue. Overdose, foi a notícia que correu na cadeia. Achei muito estranho; o pessoal da enfermaria, que tinha trabalhado anos com ele, nunca soube que o Lula injetasse na veia.
Margô passou três meses no distrito, numa cela com 32 homens, e ninguém abusou dela. Apesar da sainha agarrada, do bustiê e do silicone nas coxas, o maior respeito. Quando veio transférida para o Carandiru, conheceu um ladrão e se apaixonou. Ele foi franco com ela:
- Se quiser ser minha, é o seguinte: só minha, entendeu? Te ponho num barraco, dou conforto, mas não vai tirar eu, não. Manter mulher de cadeia custa o olho da cara. Tirou eu, já era.
O xadrez da Margô tinha um beliche, cortina bege e um tapete de talagarça com dois cisnes e uma casinha, para não pisar na friagem. Entrando, dava-se de cara com o come-quieto, um lençol azul pendurado logo, atrás da porta, para assegurar a privacidade. Na janela do fundo, uma cortininha xadrez. Recortes de artistas inundavam as paredes. Sob a janela, um armário tosco servia de mesa para o fogareiro. Sobre ele, o bule de café com o bico coberto por uma galinha de crochê. Ao lado, a Tv com bombril na antena. Cigarro, guloseimas, o baseado da tardinha, a pílula para os seios e o respeito da malandragem, por conta do ladrão. Da parte dela, apenas a fidelidade total. Sair no corredor, nem pensar, seu lugar era a cela, porta fechada, come-quieto cerrado e cortina xadrez puxada para evitar galinhagem e derramamento de sangue. De vez em quando, um solzinho podia, porém nunca desacompanhada; três seguranças do ladrão, desciam com ela.
Na parte de cima do beliche morava a ZIzi, travesti mais velha, de rosto assimétrico devido ao deslizamento do silicone injetado na região malar. Era a doméstica, cuidava da cozinha, limpeza, lavar e passar. Nas visitas do ladrão, discreta, recolhia-se.
Margô se apaixonou porque no começo ele foi bom para ela, protetor, exigente, não deixava faltar nada. Quanto a ela, passava os dias na TV, com as revistas femininas e o esmalte de unha. As outras morriam de inveja. Um domingo de visita (não para elas, há muito distantes da família), com sangue nos olhos, o ladrão invadiu o barraco:
-Você vai aprender a calar essa filha da puta da tua boca!
E, antes que ela entendesse, acertou-lhe um murro no queixo com tamanha força que Margô, em pé ao lado do beliche, perdeu o equilíbrio, bateu a cabeça no armário e com o cotovelo derrubou o bule do chá de erva-doce para acalmar o nervoso da Zizi. Isso porque a mulher do ladrão, mãe dos três filhos dele, na visita, disse que já sabia de tudo e que só voltaria quando ele largasse daquele degenerado!
O incidente estremeceu o relacionamento de Margô com o ladrão. As coisas nunca mais foram como antes. A crise atingiu o auge quando ela teve uma ferida íntima, dolorosa e úmida. O ladrão não se conformou: - Sem sexo, acabou o luxo, minha filha!
Dito isto, cortou batom, pílula, baseado, reforço na despensa e, o pior para ela e a Zizi, até o cigarro. Quando a ferida arruinou, Margô Suely veio para a enfermaria. Passou um tempo com a gente. No primeiro dia, o ladrão apareceu e foi compreensivo; depois, nunca mais, apesar dos sucessivos recados que ela mandava. No final de uma tarde de inverno, melhorzinha, Margô recebeu alta e voltou para o pavilhão Cinco. Chegou na hora da contagem. Enfraquecida, subiu a escada com dificuldade. Na galeria do quarto andar, numa fileira de oito lâmpadas apenas duas teimavam acesas. Margô, mal agasalhada, seguiu até o fundo, virou à direita e deu de cara com um funcionário:
- Aonde pensa que vai?
- Estou chegando da enfermaria. já falei com o seu Valdir lá embaixo, ele disse que podia subir.
- Qual é o teu xadrez?
- 417-E.
- Vai indo, ainda não tranquei.
De fato, a porta estava encostada; havia luz, som de tv e cheiro de alho
frito. De dentro vinha o quentinho do fogareiro, sobre o qual se debruçava
a Zizi, entretida na fritura.
- Zizi, olha eu de volta!
A outra virou-se assustada, a colher borrifando óleo quente na parede, os olhos esbugalhados, desiguais. Margô então percebeu que havia outra personagem na cena. Na cama, vestindo as meias de lã que eram suas, estava deitada Leidi Dai, aquela putinha polaca cinco anos mais nova, por quem a malandragem, idiota, suspirava.
Chocada com a ousadia da intrusa, Margô ordenou:
- Tira a minha meia já e sai da minha cama, sua vaca!
- Que é isso? Casei com o teu ex-marido. Estou naonde que me pertence, bofe velha.
Margô, humilhada, virou-se para Zizi ainda petrificada com a colher:
- Zizi, cadela traidora! Vou matar vocês duas!
Atirou-se nos cabelos de Leidi Dai e bateu-lhe a cabeça contra a parede; diversas vezes. A gritaria foi infernal. Bisbilhoteiros enfiaram a cabeça através dos guichês de suas celas. Zizi aproveitou a bagunça e correu para o xadrez do ladrão, excitadíssima:
- Saí de lá, a Margô Suely estava dando com a cabeça da Leidi na parede, com toda a força. Que horror, precisa ver o sangue! Você tem que fazer alguma coisa! Eu, fazer? Fazer o quê? Me meter em briga de mulher?