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Estação Carandiru

Drauzio Varella

SEU CHICO

Seu Chico matou o cunhado, tipo à-toa; matou um outro, que ganhou consideração na quadrilha com o objetivo precípuo de alcagüetar todos; e um terceiro que ele nem conta:

- Não merecia viver, doutor.

As mortes não lhe trazem remorsos:

- Se valessem arrependimento, não tinham morrido.

Seu Chico é pai de duas mocinhas e um filho que deve estar grande. Foi abandonado pela mulher, ingrata, filha de família que não presta, responsável pela entrada dele no mundo do crime, segundo sua opinião. Cumpre quinze anos de uma pena de 44. Sofre saudades dos filhos mas se conforma, acha até bom não virem para não freqüentar o ambiente da cadeia.
O corpo não aparenta cinqüenta anos:

- O homem preso precisa fazer exercício para não perder a dignidade.

Desde que o prenderam, a mulher interceptou-lhe a correspondência com as crianças, como vingança pela morte do irmão. Para os filhos, disse que o pai morreu na penitenciária.
Parado de braços cruzados, cabeça raspada, caveira tatuada no antebraço direito apoiada em dois punhais, o peso do corpo uniformemente distribuído sobre os pés paralelos, sua postura denuncia o passado na marinha mercante. Época de trabalho duro na casa das máquinas, portos distantes, brigas de faca e mulheres inesquecíveis.

Na coletividade das galerias, do empedernido piolho de cadeia ao mais reles ladrão, seu nome é pronunciado com entonação respeitosa:

- Foi seu Chico que falou... Se essa fita parar no conhecimento do seu Chico, vai ser problema. Quando seu Chico é consultado, o ladrão chega e aguarda o convite para a aproximação enquanto ele termina o que está fazendo, seja o que for. Num dado instante, dirige o olhar ao recém-chegado: é a senha. Quem fala, gesticula, é sempre o ladrão; ele se mantém calado, o olhar perdido num ponto distante ou entretido num pequeno afazer. Depois, volta-se para
o interlocutor, diz algumas frases na baixa intensidade sonora das conversas sérias entre homens presos e perde o olhar na direção inicial. Está encerrado o papo.

COZINHA GERAL

Zelão, Flavinho e Capote comandavam a Cozinha Geral com mão de ferro. Eram três marginais de dar medo, não tanto pela enorme folha corrida, mas pelo ar de revolta que estampavam no rosto. Estavam presos há pelo menos dez anos e condenados a mais de trinta cada um. Entre eles, falavam apenas o essencial. As palavras eram inúteis, substituídas pela agilidade dos olhares que trocavam nos momentos de decisão. Compartilhavam o mesmo xadrez e confessavam-se dispostos a entregar a vida para defender a dos outros dois, caso as circunstâncias exigissem. Ninguém ousava desafiá-los no comando dos setenta e poucos cozinheiros.

Todo o material da Cozinha ficava sob a responsabilidade dos três. Um dia, antes do almoço, desapareceu um facão de cortar carne. Procuraram, e nada. Às duas da tarde, Capote proferiu o ultimato:

- A partir das cinco horas, vai morrer um cozinheiro por dia até o facão aparecer!

Quinze minutos depois, misteriosamente, o facão despencou de umajanela do pavilhão Nove e retornou ao devido lugar.

A Cozinha talvez fosse dos mais vivos exemplos de deterioração do velho presídio. Era um grande salão com goteiras, no térreo do pavilhão Seis, cheio de água empoçada nas lacunas entre os azulejos azuis que, em petição de miséria, remendavam o piso impossível de enxugar. À direita da entrada e na parede oposta a ela, alinhavam-se oito panelas de pressão, com capacidade para duzentos litros cada. Os exaustores encaixados acima das janelas tinham parado de funcionar há anos, de modo que em franca operação as panelas descarregavam todo o vapor no ambiente interno. Nas horas que precediam as refeições, a fumaça era tanta que a Cozinha parecia o inferno de Dante. Mal se conseguia discernir a figura dos homens que circulavam de botas de borracha e o cabelo coberto por um pano que lhes caía sobre os ombros, à moda dos soldados da Legião Estrangeira nos filmes. A fumaça era tão densa que, por segurança, aqueles que se deslocavam com faca na mão, precisavam fazê-lo com a superfície de corte voltada para dentro e a ponta para baixo.

Os panelões achavam-se assentados sobre uma sapata de cimento construída para deixá-los num plano superior ao rés do chão. Esse amplo degrau em forma de L estava revestido pelos mesmos azulejos encardidos. No desnível entre o degrau e o resto do piso existia um sulco profundo por onde corria, a céu aberto, um riacho caudaloso que recolhia a água desprezada e a conduzia direto para a abertura do esgoto junto à porta de entrada. Nos cantos do salão, encostados às colunas, estacionavam os carros de madeira com arcabouço metálico e os tachos usados no transporte da alimentação servida de cela em cela. Arroz e feijão eram despejados diretamente dos sacos nas panelas de pressão e serviam de base para a mistura de pedaços de carne com batata e cenoura cozida, junto com a farinha acrescentada para dar consistência ao prato.

Cozinha é ponto nevrálgico em qualquer presídio. O diretor de Disciplina diz que num lugar superpovoado como a Detenção, pior ainda:

- Se faltar comida, isso aqui explode em menos de 24 horas.

Para evitar tragédias, a direção entregava o comando da Cozinha aos próprios detentos, um dos muitos exemplos de autogestão para compensar a falta crônica de funcionários.

As sucessivas administrações nunca foram ingenuas a ponto de imaginar que este sistema evitaria o desvio de mantimentos da despensa para o mercado negro, com a inestimável colaboração de alguns fúncionários, pois isso ocorre em todas as prisões do mundo. O que a direção pretendeu ao atribuir a responsabilidade de chefia aos próprios detentos foi criar um mecanismo de controle sobre a quantidade desviada, de modo a evitar roubos que comprometessem o abastecimento.

Por isso, os encarregados de impor ordem ao ambiente e guardar as facas de corte não podiam ser pessoas quaisquer; deviam ser homens temidos, respeitados pela massa, como Zelão, Flavinho e Capote, caso contrário a despensa seria pilhada pelos mais audaciosos. Zelão praticou mais de duzentos assaltos e matou dois ex-companheiros de quadrilha; é magro, cabelo curto por igual, cordial no trato e tem fama de violento na reação. Flavinho, bandido da zona sul, chegou aos dezoito anos com três mortes e um respeitável currículo de fugas da Febem; baixo e magro, sua figura não inspira respeito, a menos que, contrariado, seus olhos negros fixem os do interlocutor. O terceiro, Capote, que adquiriu fama e perdeu os dentes da frente por resistir a sucessivos interrogatórios policiais sem delatar os companheiros, jura que amadureceu na cadeia e tem remorso de haver roubado gente humilde. Quando sair, pretende se regenerar; promete que só encostará o revólver na cabeça de políticos corruptos. Seu maior desejo é um dia assaltar dois ex-governadores de São Paulo.

Como a marcenaria do pavilhão Seis funcionava no mesmo andar do velho cinema onde fazíamos as palestras sobre AIDS, à distância diversas vezes observei Zelão, Flavinho ou Capote conversando com o marceneiro-chefe, seu Chico, o velho marinheiro que matou o cunhado e os outros dois que não mereciam viver. A dinâmica dessas conversas secretas respeitava o ritual descrito nas consultas que a malandragem fazia ao ex-marinheiro: os encarregados da cozinha aguardavam de seu Chico a permissão para se aproximar, falavam em voz baixa, ouviam seus conselhos e retiravam-se. Estava claro que, da marcenaria, seu Chico comandava a Cozinha Geral.

Em 1995, a direção da Casa desativou a Cozinha e contratou uma empresa para fornecer refeições. Estava inaugurada a época da quentinha. Segundo a malandragem: - Duro de encarar, doutor.

REENCONTRO

Numa tarde chuvosa, tocou o telefone na Carceragem do Oito. Um funcionário atendeu e trouxe o recado em voz baixa para o seu Pires, o diretor do pavilhão: - Telefone para o seu Chico, é voz de moça. Como o regulamento proíbe ligações externas para detentos, o diretor foi ver quem era: - Quem quer falar com o seu Chico? Aqui não pode atender telefonema de fora!
Do outro lado, ouviu uma voz tímida:

- Meu senhor, me desculpa, eu tenho vinte anos, uma irmã de dezoito e meu irmão, dezessete. Somos filhos do seu Chico. A última vez que vi meu pai eu tinha cinco anos, e meu irmão era tão pequeno que nem lembra o rosto dele. A gente pensava que ele tinha morrido. Quando eu soube que não, reuni com os irmãos e o pastor da igreja sem minha mãe saber, e decidimos procurar o pai. Foi muito difícil falar aí, mas hoje consegui explicar direitinho para a telefonista, que ficou com dó da gente e permitiu.

A voz vinha embargada de medo, O chefe mandou chamar seu Chico.

Seu Chico entrou ressabiado na Carceragem. Deu uma olhada geral; tudo parecia na rotina, os funcionários e alguns presos dedicados ao trabalho burocrático; seu Pires, de cabelos grisalhos e um lápis atrás da orelha, lia um relatório na escrivaninha.

De frente para a janela, de costas para os outros, seu Chico disse alô e ficou mudo, por muito tempo. De onde estava, seu Pires percebeu as lágrimas nos olhos do prisioneiro.

Por vários dias o diretor do pavilhão observou o comportamento solitário do outro. Sem entender, os ladrões mantinham respeitosa distância do líder entristecido. Dias depois seu Chico o procurou em tom grave:

- Seu Pires, quero pedir um favor que faço questão de jamais esquecer. Contou o drama daqueles anos todos, a vingança da mulher por causa da morte do irmão, as cartas devolvidas, morto para os filhos, e a conversa com a mais velha. - Queria que o senhor me autorizasse a encontrar com eles lá fora, no coreto da Divinéia. Não quero meus filhos dentro de uma cadeia.

Assim o senhor me complica. Imagina se os outros 7 mil me pedem a mesma coisa. Em todo caso, como é uma situação especial, depois de tantos anos, vou abrir uma exceção, mas o senhor não pode ficar mais do que vinte minutos.

Na tarde marcada, seu Chico dirigiu-se ao coreto com dois detentos carregando um tapete vermelho, um vaso de flores, dois litros de guaraná, bolachas, pastéis e uma mesinha com toalha xadrez.

Tudo arrumado no coreto, o ex-marinheiro, com camisa de manga comprida para esconder a tatuagem, parou com os braços cruzados sobre o peito forte e esperou. Passaram-se duas horas e as crianças não chegaram. Quando seu Pires decidiu, enfim, recolhê-lo, encontrou-o sentado, cotovelos apoiados nas coxas e a cabeça afundada nas mãos. Os dois homens voltaram ao pavilhão sem trocar palavra.

Na semana seguinte, no mesmo horário, novamente a telefônista: os filhos de seu Chico aguardavam na portaria. Tantos anos no presídio não impediram que seu Pires se emocionasse. Foi ele mesmo dar a notícia na marcenaria. Encontrou o prisioneiro serrando um banco, a serra cantando de ensurdecer. Desligou-a da tomada: - Seu Chico, se arruma para ver seus filhos. Quando os olhos incrédulos do detento fitaram os dele, descobriram um homem terno que seu Chico não conhecia. Por sua vez, os do diretor captaram no rosto anguloso do ex-marinheiro o olhar da criança que pegou um balão caído do céu.

Encontraram-se no coreto adornado às pressas com o tapete vermelho, a mesa, o lanche e o vaso de flores retiradas do altar de Nossa Senhora Aparecida, na capela do pavilhão. As duas mocinhas tinham tranças e vestidos compridos; o menino, terno azul, gravata e uma Bíblia. Abraçaram-se e choraram, os quatro, demoradamente. Repetidas vezes.

Trinta minutos depois, o encarregado da Divinéia aproximou-se para levar seu Chico de volta para o pavilhão. Não teve coragem de interromper o encontro familiar e retornou da escadinha do coreto. O mesmo fez seu Pires, duas horas mais tarde.

Meses depois do reencontro, numa Revista incerta, os carcereiros encontraram no xadrez de seu Chico um arsenal de facas, entre elas uma enorme foice improvisada. A malandragem mais jovem nunca entendeu por que ele não escondia as armas em outro lugar:

- O velho era sistemático, não adotava o método moderno, tinha que ser do jeito próprio que ele estava acostumado.

Como punição seu Chico foi transferido para o interior. No mesmo movimento, Zelão e Flavinho foram para a Penitenciária do Estado. Nunca mais os vi, mas continuei recebendo notícias de seu Chico através do Capote, que continua na Casa esperando cantar a liberdade para se regenerar e, finalmente, assaltar os ex-governadores.

ZÉ DA CASA VERDE

Seu nome era Kenedi Baptista dos Santos, porém todos o conheciam como Zé da Casa Verde. As gírias, o cantado da fala paulista, o jeito de parar com o corpo jogado para trás, a disposição permanente para gozar os companheiros, tudo nele recendia malandragem.

Era ladrão desde a adolescência. Na volta dos bailes, quando a padaria levantava as portas e os empregados traziam pães para as prateleiras, roubava uma rosca doce e levava para o pai, que desconhecia a origem ilegal do presente. Fazia isso apenas para se vingar dele, homem honesto que brigava para o filho criar juizo.
Uma vez, Zé e eu conversávamos no pátio do pavilhão Quatro, quando um detento que trabalhava na burocracia trouxe um papel para assinar. O Zé calou a boca, sério, até o outro sair de perto.

- O que foi, Zé?

- Nunca me dei com traficante, é tudo cara safado.

Eles se envolvem com os polícias e quem anda com polícia cagüeta.

Sua lógica era euclidiana: como ladrão, ele entrava num banco, pegava todos de surpresa e fugia com os malotes. A polícia que corresse atrás do prejuízo.

Se viesse, bala neles, que ele vinha com o objetivo de levar o dinheiro e duas famílias o esperavam. Já o traficante, não:

- Tem que ter acesso no viciado, ser dono de uma bocada. O tráfico está aberto 24 por 48, é lugar fixo, com movimento, como um mercado. A polícia fica logo sabendo. Para funcionar, tem que pagar o porrete deles. É a maior patifaria. Por isso, Zé da Casa Verde era categórico:

- Lugar de ladrão é com ladrão. Traficante, que se entenda com a polícia!
Zé era casado com duas mulheres, Valda e Maria Luísa:

- A Valda tem pele branca como a neve. É de uma família de bem, em Santana, que nunca aceitou o nosso romance por causa da minha cor.

Os dois se conheceram num baile, ela ainda virgem, dançando com um rapaz no qual Zé não sentiu firmeza. No domingo seguinte, enquanto o rival disputava uma partida na várzea, Zé aproximou-se dela, na beirada do campo: - Levanta e vem comigo, que eu vou te pedir em casamento para os teus pais.
-Você nem me conhece!

Ele falou dela no baile, da pele alva que contrastava com o preto da sua e dos filhos misturados que nasceriam lindos, cada um numa cor. Falou e foi esperá-la no fusca, que havia acabado de equipar com dinheiro roubado. A espera não foi longa. Ela apareceu na janela do carro: -Você falou sério?

- Como nunca na vida.

Pararam o fusca na porta do sobrado dos pais, em Santana, ela hesitante em fazê-lo entrar, ele tentando convencê-la da honestidade de seus propósitos. Estavam nesta conversa quando surgiu o rival na esquina, ainda com o uniforme de futebol, disposto a cobrar a ofensa. Zé não vacilou, desceu do carro e deu três tiros na direção do rapaz. O zagueiro esquerdo saiu correndo, na pressa perdeu até um pé de chuteira.

Zé, persuasivo, virou-se para a amada:

- Amanhã, às oito, reúne teus pais e tuas irmãs que eu venho te pedir em casamento. Esquece esse cara, se ele gostasse de você, enfrentava o perigo.

No dia seguinte, às oito, a reação da família foi a pior possível. Apesar do fusca envenenado e de se apresentar como trabalhador, filho de uma família exemplar, proprietária de um imóvel com escritura lavrada no cartório da Casa Verde, o pai da moça disse que preferia a filha morta do que casada com um negro malandro daqueles. Com a persistência obstinada do Zé, os ânimos se exaltaram, o pai referindo-se à cor dele com desrespeito crescente. Quando foi chamado de negrinho insolente, Zé perdeu a paciência. Subiu na mesa, puxou o revólver, gritou que matava o primeiro que reagisse:

- Tranquei todo mundo no banheiro e levei o meu amor comigo, a minha mão preta no algodão da mão dela. Teve quatro filhos com a Valda. Diz que são como ele

- Cada um numa tonalidade, doutor.

Viveram na maior felicidade até ele conhecer Maria Luísa, passista da Império da Casa Verde:
- A bateria pegando pesado e ela dançando na frente, de vestidinho curto e um sorriso que iluminava a quadra inteira. Parecia uma deusa de ébano.

No carnaval, na concentração da escola, minutos antes do desfile, ele de guerreiro xangô, Maria Luísa de biquíni com lantejoula, ninguém sabe de onde, surgiram Valda e a irmã mais nova do Zé, solidária com a cunhada, e se engalfinharam com a rival. Ele outra vez perdeu a paciência e puxou o revólver:
- Dei uma coronhada na cabeça de cada uma, mandei as três para casa e sambei sozinho na avenida.

Na vida dupla, teve três filhos com Maria Luísa.
Depois, foi preso em flagrante num assalto a uma sapataria na Voluntários da Pátria, pertinho do Carandiru. No primeiro domingo na cadeia, recebeu a visita da Valda. Sentaram-se de mãos dadas num banco forrado com cobertor, junto à muralha.

Às tantas, Zé ouviu anunciar na Boca de Ferro:
- Kenedi Baptista dos Santos, dirija-se à entrada do pavilhão.

Sentiu um frio no estômago, só podia ser a Maria Luísa! Pediu licença à Valda, correu para a sala das caldeiras, ao lado, e se lambuzou de graxa. Encontrou a mulata na porta, sorridente de saudades. Beijou-a com cerimônia para não esbarrar as mãos sujas nela e explicou:

- Meu amor, que bom que você veio, mas, infelizmente, não vou poder te receber porque estou trabalhando num conserto, devido que a caldeira estourou e o homem quer tudo pronto até o final que acabar a visita.

- Zé, você está é com aquela vagabunda. Nem na rua tu nunca trabalhou, vai me convencer que na cadeia, dia de domingo, é que resolveu regenerar?

Contra a força dos fatos não há argumento, pensou ele, e se rendeu à lógica feminina:

- Está bem, é verdade, porém você já veio e agora não tem mais volta para trás. Hoje nós três vamos entrar num entendimento.

Deu trabalho convencê-la a se encontrar com a outra.

No banco, Valda não achou palavras para exprimir o que sentiu ao vê-lo chegar com Maria Luísa, oferecer-lhe um lugar ao lado dela e sentar-se entre as duas. Seguiu-se um longo silêncio.

Finalmente, em voz baixa para evitar escândalo, Valda virou-se para ele:

- Como é que você traz essa vagabunda aqui?

- Querida, a Maria Luísa não é vagabunda, trabalha na tecelagem e cria nossos três filhos com o maior carinho. Em seguida, voltando-se para a Maria Luísa:

-Você, por sua vez, também disse lá fora que a Valda era vagabunda. Da mesma forma, não é verdade, ela é trabalhadeira, auxiliar de repartição na prefeitura, e toma conta dos quatro filhos que nós pôs no mundo.

- Você vai decidir agora com qual de nós duas quer ficar insurgiu-se Maria Luísa, com o que concordou imediatamente a Valda. Ele ficou desconsolado:

- Assim vocês vão partir meu coração no meio.

Segundo Zé, a harmonia hoje é tanta que aos domingos as duas passeiam juntas com as sete crianças no parque do Carmo. Em liberdade, ele vai realizar o velho sonho de juntar as duas famílias na mesma casa, na santa paz

NEGUINHO

Neguinho começou assim:

- A minha senhora mãe matou, acho que o amante delaque chegou bêbado e quis bater outra vez na gente. O meu pai não poderia saber, porque justamente se encontrava recluso na Penitenciária. Foi onde que teve a revolta de nós mesmos e cada um viveu o seu lado. Eram seis filhos: Neguinho, quatro irmãs e um irmão mais novo. Com a prisão da mãe, as meninas foram internadas no Juizado de Menores e os dois meninos na Asdrúbal Nascimento. Ao contrário do irmão, mais obediente, Neguinho ficou pouco tempo no velho prédio do centro de São Paulo onde recolhiam menores desamparados e infratores. Precoce, pegou carona num plano de fuga dos mais velhos e sumiu na rua.

Com a sabedoria dos seis anos, Neguinho viveu por conta própria na cidade. Dormia embaixo das marquises dos prédios enrolado num cobertorzinho, com jornal enfiado por dentro da roupa; batia carteira, vendia bala em saco, chiclete e doce de leite Embaré e assaltava de arrastão, com os companheiros mais graúdos.

- Vira e mexe, passava a Recolha e me levava de volta para a Asdrúbal Nascimento. Eu nem ficava triste, aprendia no quadro-negro da vida.

Um dia descuidavam e ele fugia de novo.

- E, assim, trilhei meu destino de ladrão. Passava um, todo bonito e simpático, era dia de festa, os outros com seus brinquedinhos e eu sem nada. Com isso eu tornei-me tipo a pessoa egoísta, porque queria ter mas não poderia e nem teria capacidade, justamente pela falta da mãe e do pai para que acontecesse o dia-a-dia. Dos seis aos dezoito anos, somadas as passagens pelo Juizado, esteve quase onze na prisão - um ano e pouco em liberdade. Foi parar até em Mogi, classificado na categoria C, os de maior periculosidade. Fugiu de lá também. Quando completou quinze anos, o pai saiu da Penitenciária decidido a reunir a família. Pegou uma filha aqui, outra acolá, o filho mais novo que era menino comportado e foi atrás de Neguinho, no Crime. Encontrou-o numa mesa de sinuca na rua Guaianases, Boca do Lixo:

- Chega dessa vida, meu filho, teu pai está de volta.

Foram morar numa casinha para lá da Vila Ema, todos trabalhando exceto ele, que roubava e trazia mantimentos, guloseimas e refrigerante à vontade. Um dia, Juciléia, a irmã mais velha, apaixonou-se por um tipo à-toa. O pai, que havia sofrido na cadeia e não queria marginal na família, proibiu o namoro. Uma noite, ao chegar do trabalho, deu com o namorado da filha estatelado no sofá da sala, com uma garrafa de cerveja pela metade. O sangue subiu-lhe à cabeça:

- Falou que não queria bandido da porta para dentro da nossa casa e que da próxima vez punha ele para fora a bofetão. A repreensão foi mal recebida:

- Mexeu com o instinto do elemento, que deu dois tiros no estômago do meu pai.
Por obra do acaso, neste exato momento Neguinho chegou em casa, acompanhado:

- Do meu vinte-e-doisinho, que não desgrudava de mim. Viu o pai caído na sala e o elemento ainda com a arma na mão, de costas para a porta.

- Só chamei: o que que é isso, rapaz? No que ele se virou, dei vários tiros na cabeça dele. Neguinho atribui a reação às circunstâncias:

- Devido às condições que eu vi meu pai, foi aonde que foi tomada essa atitude forte.
Para não deixar o corpo no meio da família, na sala, Neguinho o arrastou para o meio da rua e mandou as irmãs chamarem a polícia, que chegou logo, e uma ambulância, que demorou horas. Voltou para a Febem. O pai fez duas operações e escapou com vida, a irmã esqueceu do namorado, hoje é casada e tem família, como as outras três, e o irmão trabalha numa firma muito boa. Ele, continuou a viver seu destino.

Chegou na Detenção pela primeira vez ao atingir a maioridade. Numa noite de ensaio, saiu da escola de samba com quatro amigos num táxi e vieram por Cangaíba, cruzaram o mercado da Penha e desceram para a Marginal, quando uma viatura da polícia deu luz para parar. Contrariando as ordens dos cinco, o motorista, que nada tinha a ver com a história, encostou o carro e se jogou no asfalto com as mãos na cabeça. Neguinho e os amigos saíram atirando: - Nessa daí, fui alvejado seis vezes. Pegou dois nas costas, um na barriga, três no peito e um de raspão na orelha, que eu nem conto. Mesmo assim, não fiquei deficiente nem nada.

Cumpriu nove meses e ganhou novamente a liberdade, porque o juiz considerou a reação como legítima defesa. Afinal, os policiais também atiraram e não foram feridos, ao contrário:

-Eles é que me atingiram em diversos pontos do organismo.

Na rua, a alegria durou pouco, como sempre. A polícia cercou a favela, em seu encalço:

- Eu caí, devido que eles tomaram partido da surpresa.

Me algemaram, puseram eu no camburão e levaram para um mato ermo. Lá, fizeram eu descer com os braços para trás, na algema, alegaram que eu matei um primo deles, que também era polícia, sendo que nada ficou provado em juízo porque a testemunha não me reconheceu, e, além disso, eu tinha saído da cadeia fazia duas semanas só. Dessa vez o castigo deixou seqüela. Tomou dezoito tiros: nas costas, pernas e braços. Uma bala penetrou através do maxilar superior, passou por trás da órbita e foi parar no cérebro, próximo de outra que entrou direto pela calota craniana:

- As duas estão na minha mente até hoje, mas não me afetam. Graças a Deus, converso normal e penso as idéias certas. O único que me atingiu foi um que eles me deram na espinha, onde que eles encostaram a arma, apertaram e falaram: levanta, vagabundo! Neguinho tentou, mas as pernas não obedeceram. Se não morrer, fica aleijado, disseram.

- Depois, puseram o 22 na minha mão, e apertaram três vezes, como coisa que eu tinha trocado tiro com eles. Aí, agarraram, balançaram meu corpo bambo para lá e para cá, me jogaram de volta na viatura e vieram devagarinho. Eu no esvaimento do sangue, com as pernas mortas, e eles na maior tranqüilidade. Só quando chegou nas imediações da vizinhança do Hospital das Clínicas é que ligaram a sirene. Hoje eu interpreto que eles agiram meio na covardia.

Passou vários dias na UTI, cheio de soros e drenos cirúrgicos. Nem esperaram a recuperação completa para dar alta; ficaram com medo de que os companheiros aparecessem para resgatá-lo. Terminou o pós-operatório no hospital da Penitenciária.

Naquele presídio, de cadeira de rodas, passou cerca de dez anos, até surgir a oportunidade do semi-aberto. Na Colônia, cumpriu três meses e foi solto. Ficou apenas doze dias em liberdade porque, segundo alega, a polícia forjou um flagrante de um quilo e meio de pedra de crack, dez metralhadoras e uma PT, arma de treze tiros da Taurus:

- Chegou no Fórum, provei que não teria condições de eu, paraplégico, deficiente, fazer contato com marginal nenhum, sendo que eu morava na favela e não possuía veículo para me demover. O juiz, não sei por quê, desconsiderou meus argumentos e me mandou para o distrito. Fiquei perambulando de uma delegacia para outra, da 45 para a 90, com escara nas nádegas, sem ter como fazer curativo, o pus escorrendo na carne morta. Conheci Neguinho de cadeira de rodas e sonda vesical, condenado a 48 anos, o rosto talhado como estátua africana, olhar de poucos amigos. Tinha as pernas paralisadas e hipotróficas, a pele descamativa e uma escara funda na região glútea, na qual caberiam dois limões galegos, pelo menos. A ferida expunha a anatomia dos feixes musculares profundos e uma parte da articulação coxofemoral.

Um dos rapazes da enfermaria fazia o curativo diário.

Com uma pinça, cavoucava um chumaço de gaze embebido em pomada de furacin misturada com açúcar. Mexia com força para avivar os brios cicatriciais da lesão. Não doia, o local era insensível.

Neguinho era respeitado por todos, mesmo pelos funcionários. Na hora do curativo, ocasionalmente me chamavam para ver a lesão. Fora isso, nosso relacionamento não ia além de boa-tarde e boa-noite. Nunca o surpreendi descontraído, rindo ou brincando com alguém. O rosto crispado parecia sempre disposto a reivindicar seus direitos.

Uma tarde, ele vinha de lá e eu de cá, na galeria; só nós dois e a cadeira de rodas rangendo:

- E aí, como vai a escara?

- Melhorou, está sequinha e mais rasa. - Vai sarar.

- Obrigado. Deus proteja o senhor.

Parece que esboçou um sorriso. Senti o ódio fugir-lhe da expressão. Não que nela tivesse se instalado a tranqüilidade, longe disso; num lampejo, nos olhos pretos como jabuticaba reluziu um brilho desarmado, fugaz.

MANGA

Antes de chegar aos presos, as cartas são abertas. Três pessoas fazem o serviço. Na mesa, um detento corta com tesoura a lateral do envelope, um funcionário esvazia o conteúdo à procura de objetos estranhos e outro detento grampeia a parte aberta. Não há curiosidade em lê-las; nem haveria tempo, são milhares. Em seguida, a correspondência é separada de acordo com o pavilhão ao qual se destina, para ser distribuída pelo carteiro de cela em cela.

Uma das lições que aprendi com o funcionário Waldemar Gonçalves foi ouvir os presos que entregam as cartas: Para conhecer o andamento da cadeia, é fundamental falar com eles, doutor.

Manga, um carteiro detido no pavilhão Sete, gostava de conversar comigo - e eu com ele. Era um sergipano alto, fluente, com um vozeirão, que havia fugido da cidade natal para escapar da vingança dos irmãos de uma moça que alegava ter perdido a virgindade com ele. Com o tempo, Manga confiou em mim a ponto de descrever com detalhes o movimento de droga na cadeia, o que me ajudava na estratégia das campanhas de prevenção à AIDS. Por exemplo, foi ele o primeiro a dizer:

Doutor, nem precisa insistir com os manos para não injetar na veia, que o baque já era. Pode correr a cadeia inteira que o senhor não acha uma seringa para contar a história. Agora é a vez do crack. Veio para arrebentar bunda de malandro.

Manga jurava que tinha vindo parar na Detenção por um erro judiciário. Anos antes, ao sair da cadeia de Sorocaba, sem dinheiro, um amigo emprestou-lhe meio quilo de maconha. Vendia na rua do Estudante, onde morava, na Dr. Lundi e na Thomaz Gonzaga, no bairro da Liberdade, centro de São Paulo. Dava para as despesas e sobrava um pouco:

- Para comprar roupinha para o nenê que ia nascer, uma pizza no domingo e cuidar da esposa, dar aquele carinho que toda mulher necessita.

Então, entrou em cena a tal de Sonha, uma vizinha com quem Manga mantinha relacionamento comercial: - A Sonha foi pega com doze parangas de fumo enfurnadas na panela de pressão e, para livrar a cara dela, deu eu. Foi onde que eu levei um bote do DEIC. Os policiais invadiram sua casa e encontraram um quilo de maconha:

- Tive que entregar tudo e mais uma boa grana para escapar do flagrante. Tudo bem, só me mandaram deixar quieto uns dias.

Voltou para casa deprimido, outra vez sem dinheiro:

- Meu filho tinha acabado de nascer e eu na pior dureza, chamando mendigo de Excelência.
Nesse momento delicado, Genival, um de seus fregueses, tocou a campainha:

- õ, Manga, me vende uma paranga de fumo aí, amanhã te dou o dinheiro.

- Não vou te vender paranga nenhuma, que eu vou passar três dias parado. Então, é o seguinte, leva este caroço aqui para fumar com os malucos no beco da igreja e esquece do Manga, que eu estou deixando quieto a pedido dos homens.

Genival agradeceu e foi embora. Passaram-se algumas horas e Manga saiu para pensar na vida. Quando virou a rua da Glória na direção da praça João Mendes, em sua direção veio o Águas Turvas:

- Manga, ia na tua casa atrás de uma paranga.

- Já era, a última eu dei para o Genival.

Águas Turvas não gostou da resposta:

- É, chegou esses dias das Alagoas, nem bem entrou na área e já está levando uma de traficante e tal. Manga desconhecia o passado de Genival:

- Tu nega fumo para mim e vende para aquele pilantra, que tem mancada, estupro assinado e tudo, vim querer fumar na nossa bancada, no meio dos ladrão!

Dito isto, Águas Turvas tirou um cano da cintura e desferiu um golpe contra a cabeça de Manga. A força foi tanta que ? ferro cantou no ar. Agilmente, o sergipano esquivou-se, maso cano resvalou-lhe o supercílio. Cego de ódio e sangue, puxou a faca e, antes que o adversário tivesse tempo para atacalo de novo, cravou-lhe o punhal no peito.

Águas Turvas desequilibrou-se, para trás, mas não largou o cano. Manga, então, raciocinou:

- Se eu não der um fim neste maluco, agora, vou perder sossego para andar na rua.

Foram mais três facadas, bem dadas, duas no abdômen uma nas costas enquanto o outro caía de bruços, na sarjeta. Largou o desafeto numa poça de sangue, no meio da curiosidade assustada dos transeuntes, e correu para casa. Pegou a mulher, o filho recém-nascido, trancou tudo e fugiram para a casa da sogra, na Vila Madalena. - A situação só Ia para trás: o acerto com a polícia tinha me quebrado, depois essa fita de furar o Águas, o moleque pequenininho cheio de necessidade, ainda mais na casa da sogra que enchia a cabeça da filha por causa da vida que eu levava.

Para não depender da sogra, resolveu roubar um toca-fita em Pinheiros com um rapaz que atendia pelo vulgo de Boca-Larga. O toca-fita estava na perua de uma floricultura, ao lado do cemitério da Cardeal Arcoverde. Foi só abrir a porta, especialidade do amigo, o alarme disparou. Boca-Larga saiu correndo, Manga tentou puxar o toca-fita, mas não tinha experiência com esse tipo de roubo:

- O alarme buzinava sem parar; eu nervoso com o tocafita que não saía. Aí, pega ladrão daqui, pega dali, acabei cercado e tive que pular para dentro do cemitério. Sabe onde eu fui cair?

Não foi feliz na queda, andava mesmo com azar:

- Bem no buraco de uma cova aberta. Aquele cemiterião enorme, e eu pulo o muro justo em cima da cova! Era um buracão, doutor, o polícia me catou de lá, com a perna sem condição de agüentar o peso do corpo. No distrito, com dor, Manga deu nome falso. Dois dias mais tarde, foi identificado e transferido para o presídio do Hipódromo, onde encontrou um desafeto vingativo. A fase de azar persistia:

- O irmão do Águas Turvas, cujo vulgo era conhecido como Zóio Vesgo. Ali, fiquei sabendo que o Águas não tinha morrido; embora que ficou com um defeitão no meio da barriga. Batemos boca, o Zóio Vesgo e eu e tal, mas lá tem segurança para prevenir desentendimento e ficamos só no: quando sair na rua, vai ser você ou eu!

Vai ser mesmo! Manga saiu primeiro, voltou ao comércio de maconha, retornou à rua dos Estudantes com a mulher e o filho e comprou um revólver. Uma noite, trombou com o inimigo na Baixada do Glicério:

- Zóio Vesgo e eu, cara a cara, como daqui naquela parede lá no fundo da galeria, uns dez metros. Pulei para detrás de um carro parado e dei seis tiros nele. E ele, seis tiros em mim.

Doze balas perdidas que quebraram os vidros dos automóveis estacionados. Quando se certificaram de que a munição havia acabado, partiram para o confronto físico. A briga começou no quarteirão de cima e rolou ladeira abaixo. Terminou no meio de uma aglomeração, com os dois exaustos, ensangüentados e presos por um Pm que passava.

Foram parar no distrito, assinaram porte ilegal de arma, crime afiançável, e voltaram para a rua.

- Passado um mês, um truta meu, o Batata, que roubava comigo, fez um assalto de parceria com o Zóio Vesgo. Na partilha, o Zóio deu um chapéu no Batata. Quando o Batata descobriu que tinha tomado um banho na fita, foi lá e deu três tiros nele; dois na cabeça, para ter certeza. O Águas Turvas nunca mais vi. Por causa da passagem anterior pela delegacia, Manga foi acusado da morte de Zóio Vesgo. Sem advogado, nem álibi convincente, foi condenado a cumprir nove anos de cadeia. Não se conformava com a falta de sorte: - Tanta maconha que eu vendi, assaltos, roubo de loja, venho preso justamente por um crime que não cometi. A Justiça é cega, doutor.

Manga foi um dos fugitivos do túnel do pavilhão Sete.

Dois anos depois voltou para a Detenção. Num final de tarde procurou-me para um assunto particular.
Conversamos na sala dos médicos; o sol entrava pela janela e projetava uma sombra gradeada em seu rosto. Estendeu-me um envelope sobrescrito com letra bordada. Na carta, a mulher dizia estar cansada de sofrer por causa dele e decidida a ouvir os conselhos da mãe. Tinha ido para Minas com as duas crianças, a menor nascida depois da fuga, para nunca mais voltar.

Enquanto eu lia a carta, ele chorou de soluçar. Quando terminei, fiquei quieto esperando que se acalmasse. Então, as lágrimas pararam de correr. Ele enxugou os olhos, levantou, agradeceu e saiu, antes que eu tivesse dito uma só palavra de conforto.

SEU JEREMIAS

Seu Jeremias desentendeu-se com um funcionário e pegou trinta dias na Isolada. Fui visitá-lo com o Waldemar Gonçalves. Pelo guichê da cela escura, mal pude discernir suas feições de negro velho e a carapinha grisalha. Quando saiu, veio agradecer a visita. Estava magro e tinha os olhos tristes. Sua figura, no entanto, transmitia uma força de caráter que lembrava meu pai.

- Para quem passou um mês na tranca brava, o senhor até que está bem.
- Tantos anos preso, doutor, a mente aprende a dominar corpo.

Assim começou nossa amizade. Aprendi muito com ele sobre a vida na cadeia e fora dela também. Seu Geremias fugiu da seca na Bahia nos anos 40 e desembarcou na Estação da Luz, recém-casado; ela com um lencinho na cabeça, morta de frio, e ele com os pertences do casal na mala de papelão.

Tiveram dezoito filhos, que lhes deram 32 netos e sete bisnetos. Homem obstinado, conseguiu manter a família com dignidade; as filhas casaram de véu na igreja, os meninos jamais pisaram numa delegacia e a esposa, muito católica, vem visitálo todos os finais de semana, há vinte anos, embora nunca tenha concordado com os erros que ele cometeu:

- Em casa, se ela descobria um grão de alpiste ganho sem o suor do meu rosto, saía para dar parte na polícia. Um custo para segurar, precisavam os filhos interferir. Por isso, doutor,não é tudo que se pode contar para uma mulher, por mais que o senhor goste dela. Casamento não é confessionário. Seu Jeremias é daqueles homens que jogaram uma pá de cal sobre o passado. Nunca tive coragem de perguntar-lhe a respeito da vida no crime; ele tampouco deu tal liberdade. Apenas uma vez, contou que foi preso em Santos ao desentocar dez cigarros de maconha do porão de sua vendinha, para entregálos a dois estivadores. Falou de passagem e cortou o assunto. Apesar dos atropelos gramaticais, sua linguagem é rica; as frases entonadas com uma ponta de sotaque nordestino são entremeadas por momentos de silêncio que prendem o fôlego do interlocutor. É um prazer ouvi-lo. Não fosse analfabeto, seu Jeremias podia escrever um manual de sobrevivência:

- Visto de antigamente, a Detenção agora é um parque infantil. Quando morre dois ou três, fica todo mundo assustado. Aí, eu falo: vocês não sabem como era há vinte anos atrás.

Naquele tempo, nas disputas, morriam quarenta ou cinqüenta só no Oito e Nove. Depois, atravessavam para os outros pavilhões e matavam mais gente ainda:

- Quando caíam as bocas dos traficantes, por cagüetagem, saía um comboio de vinte ou trinta dando rupa, matando tudo que achasse pela galeria; se fosse e o que não fosse. Até bicha morria nisso. Isto aqui, é um barril de pólvora!
Os mortos eram recolhidos na sala de guardar material de limpeza no térreo do Cinco; necrotério de emergência:

- Ali, a morte irmanava todos. Empilhava um em cima do outro, até chegar o homem do livro preto para pendurar um cartão no pescoço, anotado os dados do morto.

Isto aqui, acontece coisa que a gente nem gosta de lembrar! Experiente e respeitado, nunca o assustaram as confusões de corredor, o bate-boca num xadrez, nem as brigas da rua Dez. Para ele, os momentos de tranqüilidade é que são perigosos:

- Quando o senhor vê a cadeia em silencio, pouco movi-mento na galeria, muita obediência, vai acontecer alguma coisa. É um túnel que estão fazendo, vão morrer dois ou três; vai explodir. Todo mundo sabe, mas não pode bater com a língua no dente. Isto aqui, tem que ter um olho no padre, outro na missa!

Seu Jeremias disse que aprendeu com os mais velhos a não participar de rodinhas, nem andar com outros presos para não se envolver em problemas alheios. Para ele, solidão é estratégia de sobrevivencia: - Posso morrer de doença, mas assassinado na cadeia, não. Acabo a conversa com o senhor, vou direto para o xadrez e fecho a porta. Não confio em ninguém e não tenho amigo nenhum; amigo preso, eu não quero; que é isso! Muitos me conhecem, estou aqui há tantos anos; opa, opa, vou passando. Na cadeia, tem que andar sozinho, e Deus. Isto aqui, é pisar em casca de ovo!

Apesar dos estupros daquele tempo sem visitas íntimas, ele diz que havia mais respeito. A direção da Casa detinha a posse dos xadrezes:

- Eles não queriam saber se já estava cheio, iam pondo mais três ou quatro aqui, ali e acolá. Aí, tinha que pedir licença, tirar o sapato, que o xadrez era forrado com aquelas mantas Parahyba e perguntar quem estava há mais tempo na cela. O mais velho mandava ler o regulamento num papel grudado atrás da porta, e tinha que obedecer. Isto aqui, é cheio de mistério!

Os códigos eram mais rígidos. Uma vez, um bandido do pavilhão Oito envolveu-se com um homossexual. Num domingo, a mulher veio visitá-lo sem que ele a esperasse, encontrouo com o amante e armou escândalo:

-Arranhou toda a cara da bicha, que ficou furiosa e gritou para ela: vai embora, não precisa mais vim aqui, que eu Ja banco ele a semana toda!
A malandragem estranhou:

- O que é isso? Tudo ao contrário, agora é a bicha que banca para o ladrão?
O desfecho não esperou:

- No dia seguinte, quando foram ver direitinho, o preto no branco, a bicha comia ele. Os caras pensando que ele era marido da bicha e ele dando para ela.

Foi fatal, mataram ele e a bicha também. Isto aqui, é um lugar sem dó nem piedade!

Uma vez perguntei se havia lhe acontecido algo de bom na cadeia. Respondeu que a sensação de sair para a rua, em liberdade, com a mulher esperando na porta é indescritível:

- É uma felicidade que transborda do peito. O senhor quer rir, mas é pouco; tem vontade de chorar, mas dá vergonha. Ao contrário:

-A coisa mais horrível da cadeia é duas: o cara rouba na rua, mata, pinta o diacho e muitos chegam aqui e têm que virar bicha. A outra, é acabar os seus dias numa poça de sangue na galeria.

Num começo de ano, seu Jeremias foi transferido e nunca mais o vi. Passou o tempo. Uma manhã, cheguei no hospital Sírio-Libanês e havia um rapaz me esperando. Era filho dele. O pai tinha sido libertado e no domingo seguinte completaria o septuagésimo aniversário.

Como falava de nossa amizade para a família, queriam fazer-lhe a surpresa de levar-me para visitá-lo nessa data. Domingo, desci do metrô na última estação, Itaquera, encontrei o rapaz e pegamos um ônibus que demorou quarenta minutos até o ponto final. De lá, foi quase meia hora a pé por ruas de terra até chegar a uma casinha com alpendre, abarrotada de filhos e netos. Seu Jeremias estava no quintal com dois meninos que levantavam um carramanchão de chuchu para ele consertar a cerca, do lado de um canteiro de dálias. Quando me viu, seus olhos se emocionaram. Tive vontade de dar um abraço nele, mas fiquei com vergonha.

VERONIQUE, A JAPONESA

Na primeira vez que atendi os presos do Amarelo, como já contei, um pastor da Assembléia de Deus me pediu para atender um travesti com dores nas coxas. Esse travesti insistia que a chamassem de Veronique. Teimava, batia o pé, mas para a malandragem ela era a Japonesa, referência aos olhos puxados de cabocla mato-grossense. Desde pequena brincava de boneca e vestia roupas da mãe. Na infância, o primeiro arroubo sexual foi por causa de um homem, como acontece com muitos meninos que mais tarde serão homossexuais. Em Corumbá, quando completou onze anos, órfã de pai, começou a tomar hormônio feminino. Aos treze, debutou num motel com um senhor que só contratava menores. Um ano depois, cansada das surras do irmão, fugiu com uma amiga para Porto Velho. De lá, vieram para São Paulo, morar num cômodo da Barra Funda e fazer ponto na avenida de acesso à Cidade Universitária. Nesta época, Veronique procurou uma "bombadeira", que lhe deu um suco de maracujá para acalmar e injetou-lhe um litro de silicone industrial nas nádegas.

Com o tempo, este silicone, comprado em loja de material para construção, infiltrou-se entre as fibras dos músculos e provocou um processo Inflamatório crônico, razão de seu sofrimento no Amarelo. A face posterior das coxas estava inchada, vermelha e tão dolorida que ela mal conseguia andar. Internei-a na enfermaria.

Lá, extrovertida, virou vedete. Confortava os aflitos, brincava e cantava na galeria; todos riam de seu jeito escandaloso:

- O ladrão precisa da gente neste lugar, doutor, é muito homem fechado, sem aquela coisa feminina para dar apoio. Eu escuto, dou conselho, faço carinho, depois eles me agradam: um maço, um docinho, umajóia. Dois homens marcaram seu coração: um traficante ciumento na cadeia e um francês na avenida, que no início pensou que ela fosse mulher. Foi casada um ano com o bandido; com o francês, oito meses, ganhou pulseira de ouro, vestidos, dinheiro e um colar de pérolas que ela empenhou na Caixa.

- Teve também um turcão peludo, pai de três filhos, que se apaixonou e quis me matar com três tiros quando descobriu que eu estava de caso com um sargento da Pm.

Veronique vivia armando confusão com os outros travestis do Cinco mas, passada a raiva, perdoava as companheiras:

- Tem muita competição entre nós, porque uma quer ser mais do que a outra. Se uma fala que vai para a Itália, a amiga que não tem onde cair morta diz que foi convidada para desfilar no Japão. Se uma compra um frango, a amiga que não tem onde cair morta até se prostitui para mostrar que é chique e come frango também. Querem se engrandecer em tudo. Devido a isso que dá essas brigas de rolar no chão e arrancar cabelo. Depois, acalma e volta tudo na amizade, que a gente não é revoltada como esses ladrão, que matam o amigo. No fundo, a gente é unida porque uma precisa da outra para sobreviver. Contam as más línguas que anos atrás no pavilhão Cinco, tarde da noite, a galeria inteira ouviu a ameaça de Veronique:

- É tempo de Natal. A Veronique aqui está a fim de ganhar um mimo de certos ladrão, para não contar as sem-vergonhices que eles pedem para ela fazer neles. A Verô está muitonervosa. Tem 24 horas para acalmar ela, se não quiser sujar a reputação de muito malandro!

No dia seguinte, um bisbilhoteiro ficou boquiaberto com a quantidade de presentes caros espalhada em cima da cama dela. Realmente, discrição não era sua maior virtude, e muitos de seus problemas foram conseqüentes à falta deste requisito, fundamental na cadeia. Uma vez, o diretor de Vigilância dava atendimento aos presos em sua sala no Pavilhão Seis, quando Veronique entrou pela porta da frente, toda afetada:

- Ai, seu Jesus, socorro, o bicho está pegando.

Falou, cruzando a sala, e saiu pela porta lateral. Imediatamente, atrás, veio um ladrão com a faca no pescoço de um funcionário, ameaçando o diretor:

- Se fizer alguma coisa, ele morre. Quero bonde para Avaré!

Dias mais tarde seu Jesus, com humor, referia-se ao acontecido:

- Ela falou, mas não deu tempo de tomar providência nenhuma; foi uma alcagüetagem relâmpago.]

Numa das muitas confusões em que se meteu no Cinco, as companheiras de xadrez expulsaram-na da cela. juntou seus pertences e não se fez de rogada:

-Vou embora mesmo, porque vocês são gentinha. Sem a Verô aqui para trazer uma guloseima, vão ter que chafurdar na quentinha, a seco. Eu sou chique, querida na cadeia, tenho convite para morar em qualquer pavilhão. Vocês, vão mofar no quarto andar do Cinco, suas filhas da zona leste!

De fato, passou a noite no xadrez de um malandro do Sete. O rapaz, todo gentil, cedeu-lhe a cama e dormiu a seus pés, no chão. Para quê? No dia seguinte, os faxineiros viram a cena pelo guichê e levaram o caso para o encarregado da Faxina, que expulsou o cavalheiro do pavilhão:

- Onde já se viu, ladrão de respeito pôr a bicha na cama e dormir no chão! Agora inverteu tudo?

A maior ousadia de Vêronique, entretanto, foi enganar diretor de Disciplina, homem que começou a vida profissional décadas atrás abrindo e fechando porta no pavilhão Nove. Correu um boato de que havia um revólver no Oito. Conversa de arma de fogo na cadeia é sempre levada a sério, porque se for verdade, coloca a vida de todos em risco. O diretor de Disciplina trancou o pavilhão, mandou revistar de cela em cela "operação pente-fino" Nada! Colocou em campo a rede de informantes aguardou, impaciente.
No outro dia, Veronique apareceu na sala dele, misteriosa feito gata:

- Seu Lopes, conheço um certo ladrão que entrega o dono do cano para o senhor em troca de um bonde para a Penitenciária. Só que tem o seguinte, ele só dá mi depois que for transferido; tem medo de morrer se falar antes.

Aceita a proposta pelo diretor, Veronique voltou acompanhada do pretenso delator, um moreninho de cabelo ondulado, com uma pinta saliente na ponta do queixo. Ela se aproximou da mesa; ele, arisco, parou na soleira da porta:

- Seu Lopes, conta aqui para o bofe se não é verdade que se ele entregar, o senhor dá o bonde dele para a Penitenciária. É verdade, pode confiar; elajá falou comigo.

Viu, medrosão, não te disse?

Seu Lopes prometeu e cumpriu. Terça-feira transferiu o bofé e avisou os colegas da Penitenciária para transmitir-lhe a informação, assim que o rapaz falasse. Quarta e quinta-feira, e nenhum telefonema. Na sexta, o diretor de Disciplina acordou irritado e foi direto para a Penitenciária cobrar a promessa:

- Qual é meu, está querendo me dar chapéu? Eu te transfiro, e você, nada?

- Como nada, seu Lopes, mandei os 200 reais do senhor pela Veronique.

Mais tarde, seu Lopes comentaria que a vida inteira é pouco para conhecer uma cadeia. Na hora, porém, enfezou-se, levou o falso alcagüeta de volta para a Detenção e, no intuito de evitar vingança, transferiu Veronique para o Amarelo, onde fui encontrá-la naquela noite, chorando de dor nas coxas inflamadas.

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