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A Relíquia

Eça de Queiroz

Havia uma semana que, assim instalado, farejava Lisboa à busca do pão incerto, com botas a que se começava a romper a sola, quando uma manhã o André da Pomba de Ouro me trouxe uma carta que lá fora deixada na véspera, com a marca "urgente". O papel linha tarja preta; o sinete era de lacre negro. Abri, tremendo. E vi a assinatura do Justino.

"Meu querido amigo. E meu penoso dever, que cumpro com lágrimas, participar-lhe que sua respeitável tia e minha senhora inesperadamente sucumbiu..."

Caramba! A velha rebentara!

Ansiosamente saltei através das linhas, tropeçando sobre os detalhes - "congestão dos pulmões... Sacramentos recebidos... Todos a chorar... O nosso Negrão!..." E empalidecendo, num suor que me alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha; "do testamento da virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho Teodorico o óculo que se acha pendurado na sala de jantar..."

Deserdado!

Agarrei o chapéu, corri aos encontrões pelas ruas até ao cartório do Justino, a São Paulo. Achei-o à banca, com uma gravata de luto e a pena atrás da orelha, comendo fatias de vitela sobre um velho Diário de Notícias.

- Com que, o óculo?... - balbuciei, esfalfado, arrimado à esquina de uma estante.

- É verdade. O óculo! - murmurou ele, com a boca atulhada.

Fui tombar, quase desmaiado, sobre o canapé de couro. Ele ofereceu-me vinho de Bucelas. Bebi um cálice. E passando a mão trêmula sobre a face lívida:

- Então dize lá, conta lá tudo, Justininho...

O Justino suspirou. A santa senhora, coitadinha, deixara-lhe duas inscrições de conto... E, de resto, dispersara no seu testamento as riquezas de G. Godinho, do modo mais incoerente e mais perverso. O prédio do Campo de Santana e quarenta contos de inscrições, para o Senhor dos Passos da Graça. As ações da Companhia do Gás, as melhores pratas, a casa de Linda-a-Pastora para o Casimiro, que já se não mexia, moribundo. Padre Pinheiro recebia um prédio na Rua do Arsenal. A deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pitoresco portão de entrada, onde se viam ainda as armas dos condes de Lindoso, as inscrições de Crédito Público, a mobília do Campo de Santana, o Cristo de ouro - para o Padre Negrão. Três contos de réis e o relógio, para o Margaride. A Vicência tivera as roupas de cama. Eu - o óculo!

- Para ver o resto de longe! - considerou filosoficamente o Justino, dando estalinhos nos dedos.

Recolhi à Travessa da Palha. E durante horas, em chinelas, com os olhos chamejantes, revolvi o desejo desesperado de ultrajar o cadáver da Titi - cuspindo-lhe sobre o carão lívido, esfuracando, com uma bengala, a podridão do seu ventre. Chamei contra ela todas as cóleras da natureza. Pedi às árvores que recusassem sombra à sua sepultura! Pedi aos ventos que sobre ela soprassem todos os lixos da terra! Invoquei o demônio: "Dou-te a minha alma se torturares incansavelmente a velha!" Gritei com os braços para as alturas: "Deus, se tens um céu, escorraça-a de lá!" Planejei quebrar a pedradas o mausoléu que lhe erguessem... E decidi escrever comunicados nos jornais, contando que ela se prostituía a um galego, todas as tardes, no sótão, de óculos negros e em fralda!

Esfalfado de a odiar - adormeci densamente.

Foi o Pita que me acordou, ao anoitecer, entrando com um longo embrulho. Era o óculo. Mandava-mo o Justino, com estas palavras amigas: "Aí vai a modesta herança!"

Acendi uma vela. Com áspera amargura tomei o óculo, abri a vidraça - e olhei por ele, como da borda de uma nau que vai perdida nas águas. Sim, muito sagazmente o afirmara Justino, a asquerosa Patrocínio deixava-me o óculo com rancoroso sarcasmo - para eu ver através dele o resto da herança! E eu via, apesar da escura noite, nitidamente via o Senhor dos Passos, sumindo os maços de inscrições dentro da sua túnica roxa, o Casimiro, tocando com as mãos moribundas os lavores das pratas, espalhadas sobre o seu leito; e o vilíssimo Negrão, de casaco de cotim e galochas, passeando regalado à beira da água, sob os olmos do Mosteiro! E eu ali, com o óculo!

Eu ali para sempre, na Travessa da Palha, possuindo na algibeira de umas calças com fundilhos setecentos e vinte - para me debater através da cidade e da vida! Com um urro atirei o óculo, que foi rolando até junto da chapeleira, onde eu guardava o capacete de cortiça da minha jornada em Terra Santa. Ali estavam, esse capacete e esse óculo, emblemas das minhas duas existências - a de esplendor e a de penúria! Havia meses, com aquele capacete na nuca, eu era o triunfante Raposo, herdeiro da senhora D. Patrocínio das Neves, remexendo ouro nas algibeiras, e sentindo em torno, perfumadas e à espera de que eu as colhesse, todas as flores da civilização! E agora, com o óculo, eu era o pelintríssimo Raposo de botas cambadas, sentindo em roda, negros e prontos a ferirem-me, todos os cardos da vida... E tudo isto, por quê? Porque um dia, na estalagem de uma cidade da Ásia, se tinham trocado dous embrulhos de papel pardo!

Não houvera jamais zombaria igual da sorte! A uma tia beata, que odiava o amor como cousa suja e só esperava, para me deixar prédios e pratas, que eu, desdenhando saias, lhe rebuscasse em Jerusalém uma relíquia - trazia a camisa de dormir de uma luveira! E num impulso de caridade, designado a cativar o céu, atirava como pingue esmola a uma pobre em farrapos, com o filho faminto chorando ao colo - um galho cheio de espinhos!... Oh Deus, dize-me tu! Dize-me tu, oh demônio, como se fez, como se fez esta troca de embrulhos - que é a tragédia da minha vida?

Eles eram semelhantes no papel, no formato, no nastro!... O da camisa jazia no fundo escuro do guarda-fato; o da relíquia campeava sobre a cômoda, glorioso, entre dous castiçais. E ninguém lhes tocara; nem o jucundo Pote; nem o erudito Topsius; nem eu! Ninguém com mãos humanas, mãos mortais, ousara mover os dous embrulhos. Quem os movera então? Só alguém com mãos invisíveis!

Sim, havia alguém, incorpóreo, todo-poderoso - que por ódio trocara miraculosamente os espinhos em rendas, para que a Titi me deserdasse e eu fosse precipitado para sempre nas Profundas Sociais!

E quando assim esbravejava, esguedelhado - encontrei frigidamente cravados em mim e mais abertos, como gozando a derrota da minha vida, os olhos claros do Cristo crucificado, dentro do seu caixilho com borlas...

- Foste tu! - gritei, de repente iluminado e compreendendo o prodígio. - Foste tu! Foste tu!

E, com os punhos fechados para ele, desafoguei fartamente os queixumes, os agravos do meu coração:

- Sim, foste tu que transformaste ante os olhos devotos da Titi a coroa de dor da tua lenda - na camisa suja da Mary!... E por quê? Que te fiz eu? Deus ingrato e variável! Onde, quando, gozaste tu devoção mais perfeita? Não acudia eu todos os domingos, vestido de preto, a ouvir as missas melhores que te oferta Lisboa? Não me atochava eu todas as sextas-feiras, para te agradar, de bacalhau e de azeite? Não gastava eu dias, no oratório da Titi, com os joelhos doridos, rosnando os terços da tua predileção? Em que cartilhas houve rezas que eu não decorasse para ti? Em que jardins desabrocharam flores com que eu não enfeitasse os teus altares?

E arrebatado, arrepiando os cabelos, repuxando as barbas, eu clamava ainda, tão perto da imagem que as baforadas da minha cólera lhe embaciavam o vidro:

- Olha bem para mim!... Não te recordas de ter visto este rosto, estes pêlos, há séculos, num átrio de mármore, sob um velário, onde julgava um Pretor de Roma? Talvez te não lembres! Tanto dista de um deus vitorioso sobre o seu andor a um Rabi de província amarrado com cordas!... Pois bem! Nesse dia de Nizam, em que não tinhas ainda confortáveis lugares no céu e na bem-aventurança a distribuir aos teus fiéis; nesse dia, em que ainda te não tornaras para ninguém fonte de riqueza e esteio de poder; nesse dia, em que a Titi, e todos os que hoje se prostram a teus pés, te teriam apupado como os vendilhões do templo, os fariseus e a populaça de Acra; nesse dia, em que os soldados que hoje te escoltam com charangas, os magistrados que hoje encarceram quem te desacate ou te renegue, os proprietários que hoje te prodigalizam ouro e festas de igreja - se teriam juntado com as suas armas e os seus códigos e as suas bolsas, para obterem a tua morte como revolucionário, inimigo da ordem, terror da propriedade; nesse dia, em que tu eras apenas uma inteligência criadora e uma bondade ativa, e portanto considerado pelos homens sérios como um perigo social - houve em Jerusalém um coração que espontaneamente, sem engodo no céu, nem terror do inferno, estremeceu por ti. Foi o meu!... E agora persegues-me. Por quê?...

Subitamente, oh maravilha, do tosco caixilho com borlas irradiaram trêmulos raios, cor de neve e cor de ouro. O vidro abriu-se ao meio com o fragor faiscante de uma porta do céu. E de dentro o Cristo no seu madeiro, sem despregar os braços, deslizou para mim serenamente, crescendo até ao estuque do teto, mais belo em majestade e brilho que o sol ao sair dos montes.

Com um berro caí sobre os joelhos; bati a fronte apavorado no soalho. E então senti esparsamente pelo quarto, com um rumor manso de brisa entre jasmins, uma voz repousada e suave:

- Quando tu ias ao alto da graça beijar no pé uma imagem - era para contar servilmente à Titi a piedade com que deras beijo; porque jamais houve oração nos teus lábios, humildade no teu olhar - que não fosse para que a Titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O deus a que te prostravas era dinheiro de G. Godinho; e o céu para que teus braços trementes se erguiam - o testamento da Titi... Para lograres nele o lugar melhor, fingiste-te devoto, sendo incrédulo; casto, sendo devasso; caridoso, sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho, tendo só a rapacidade de herdeiro... Tu foste ilimitadamente o hipócrita! Tinhas duas existências: uma ostentada diante dos olhos da Titi, toda de rosários, de jejuns, de novenas; e longe da Titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adélia e da Benta... Mentiste sempre; e só eras verdadeiro para o céu, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e à Virgem que rebentassem depressa a Titi. Depois resumiste esse laborioso dolo de uma vida inteira num embrulho - onde acomodaras um galho, tão falso como o teu coração; e com ele contavas empolgar definitivamente as pratas e prédios de D. Patrocínio! Mas noutro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a irrecusável evidência do teu fingimento... Ora, justiceiramente aconteceu que o embrulho que ofertaste à Titi e que a Titi abriu - foi aquele que lhe revelava a tua perversidade! E isto prova-te, Teodorico, a inutilidade da hipocrisia!

Eu gemia sobre as tábuas. A voz sussurrou, mais larga, como o vento da tarde entre as ramas:

- Eu não sei quem fez essa troca dos teus embrulhos, picaresca e terrível; talvez ninguém; talvez tu mesmo! Os teus tédios de deserdado não provem dessa mudança de espinhos em rendas; mas de víveres duas vidas, uma verdadeira e de iniqüidade, outra fingida e de santidade. Desde que contraditoriamente eras do lado direito o devoto Raposo e do lado esquerdo o obsceno Raposo - não poderias seguir muito tempo, junto da Titi, mostrando só o lado, vestido de casimiras de domingo, onde resplandecia a virtude; um dia fatalmente chegaria em que ela, espantada, visse o lado despido e natural onde negrejavam as máculas do vicio... E aí está por que eu aludo, Teodorico, à inutilidade da hipocrisia.

De rojo eu estendia abjetamente os lábios para os pés do Cristo, transparentes, suspensos no ar, com pregos que despediam trêmulas radiâncias de jóia. E a voz passou sobre mim, cheia e rumorosa, como a rajada que curva os ciprestes:

- Tu dizes que eu te persigo! Não. O óculo, isso a que chamas Profundas Sociais, são obra das tuas mãos - não obra minha. Eu não construo os episódios da tua vida; assisto a eles e julgo-os placidamente... Sem que eu me mova, nem intervenha influência sobrenatural - tu podes ainda descer a misérias mais torvas, ou elevar-te aos rendosos paraísos da terra e ser diretor de um Banco... Isso depende meramente de ti, e do teu esforço de homem... Escuta ainda! Perguntavas-me, há pouco, se eu me não lembrava do teu rosto... Eu pergunto-te agora se não te lembras da minha voz... Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro deus criado pelos homens... Sou anterior aos deuses transitórios; eles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se transformam; dentro em mim se dissolvem; e eternamente permaneço em torno deles e superior a eles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpétuo esforço de realizar fora de mim o deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me consciência; sou neste instante a tua própria consciência refletida fora de ti, no ar e na luz, e tomando ante teus olhos a forma familiar, sob a qual, tu, mal-educado e pouco filosófico, estás habituado a compreender-me... Mas basta que te ergas e me fites, para que esta imagem resplandecente de todo se desvaneça.

E ainda eu não levantara os olhos - já tudo desaparecera! Então, transportado como perante uma evidência do sobrenatural, atirei as mãos ao céu e bradei:

- Oh meu Senhor Jesus, Deus e filho de Deus, que te encarnaste e padeceste por nós...


Mas emudeci... Aquela inefável voz ressoava ainda em minha alma, mostrando-me a inutilidade da hipocrisia. Consultei a minha consciência, que reentrara dentro de mim - e bem certo de não acreditar que Jesus fosse filho de Deus e de uma mulher casada de Galiléia (como Hércules era filho de Júpiter e de uma mulher casada da Argólida) - cuspi dos meus lábios, tornados para sempre verdadeiros, o resto inútil da oração.

Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de São Pedro de Alcântara - sítio que não pisara desde os meus anos de latim. E mal dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo Crispim, filho de Teles Crispim & Cia., com fábrica de fiação à Pampulha - camarada que não avistara desde o meu grau de bacharel. Era este o louro Crispim, que outrora no colégio dos Isidoros me dava beijos vorazes no corredor, e me escrevia à noite bilhetinhos prometendo-me caixas com penas de aço. Crispim velho morrera; Teles, rico e obeso, passara a Visconde de São Teles; e este meu Crispim agora era a firma.

Trocado um ruidoso abraço, Crispim & Cia. notou pensativamente que eu estava "muitíssimo feio". Depois invejou a minha jornada à Terra Santa (que ele soubera pelo Jornal das Novidades) e aludiu, com amigável regozijo, à "grossa maquia que me devia ter deixado a senhora D. Patrocínio das Neves..."

Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Paramos num banco, junto de uma trepadeira de rosas; e aí, no silêncio e no perfume, narrei a camisa funesta da Mary, a relíquia no seu embrulho, o desastre no oratório, o óculo, o meu quarto miserável na Travessa da Palha...

- De modo, Crispinzinho da minha alma, que aqui me encontro sem pão!

Crispim & Cia., impressionado, torcendo os bigodes louros, murmurou que em Portugal, graças à Carta e à Religião, todo o mundo tinha uma fatia de pão; o que a alguns faltava era o queijo.

- Ora o queijo dou-to eu, meu velho! - ajuntou alegremente a firma, atirando-me uma palmada ao joelho. - Um dos empregados do escritório lá na Pampulha começou a fazer versos, a meter-se com atrizes... E muito republicano, achincalhando as cousas santas... Enfim, um horror, desembaracei-me dele! Ora, tu tinhas boa letra. Uma conta de somar sempre saberás fazer... lá está a carteira do homem, vai lá, são vinte e cinco mil-réis; sempre é o queijo!...

Com duas lágrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a firma. Crispim & Cia. murmurou outra vez, com uma careta de quem sente um gosto azedo:

- Irra! Que estás muitíssimo feio!

Comecei então a servir com desvelo a fábrica de fiação à Pampulha; e todos os dias à carteira, com mangas de lustrina, copiava cartas na minha letra de belas curvas e alinhava algarismos num vasto livro de Caixa... A firma ensinara-me a "regra de três", e outras habilidades. E, como de sementes trazidas por um vento casual a um torrão desaproveitado, rompem inesperadamente plantas úteis que prosperam - das lições da firma brotaram, na minha inculta natureza de bacharel em leis, aptidões consideráveis para o negócio da fiação. Já a firma dizia, compenetrada, na assembléia do Carmo:

- Lá o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compêndios que lhe meteram no caco, tem dedo para as cousas sérias!

Ora, num sábado de agosto, à tarde, quando eu ia fechar o livro de Caixa, Crispim & Cia. parou diante da minha carteira, risonho e acendendo o charuto:

- Ouve lá, ó Raposão, tu a que missa costumas ir?

Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.

- Eu pergunto isto - ajuntou logo a firma - porque amanhã vou com minha irmã à Outra Banda, a uma quinta nossa, a Ribeira. Ora, se tu não estás muito apegado a outra missa, venhas à de Santos, às nove; íamos almoçar ao Hotel Tentral, e embarcávamos de lá para Cacilhas. Estou com vontade que conheças minha irmã!...

Crispim & Cia. era um cavalheiro religioso que considerava a religião indispensável à sua saúde, à sua prosperidade comercial, e à boa ordem do país. Visitava com sinceridade o Senhor dos Passos da Graça, e pertencia à Irmandade de São José. O empregado, cuja carteira eu ocupava, tornara-se-lhe sobretudo intolerável por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a eucaristia. Eu ia dizer a Crispim & Cia. que estava tão apegado à missa da Conceição-Nova, que outra não me podia saber bem... Mas lembrei a voz austera e salutar da Travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que já me sujava os lábios - e disse, muito pálido e muito firme:

- Olha, Crispim, eu nunca vou à missa... Tudo isso são patranhas... Eu não posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos os domingos num pedaço de hóstia feita de farinha. Deus não tem corpo, nunca teve.. Tudo isso são idolatrias, são carolices... Digo-te isto rasgadamente.. Podes fazer agora comigo o que quiseres. Paciência!

A firma considerou-me um momento mordendo o beiço:

- Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!... Eu gosto de gente lisa... O outro velhaco, que estava aí a essa carteira, diante de mim dizia: "Grande homem, o Papa!" E depois ia para os botequins e punha o Santo Padre de rastos... Pois acabou-se! Não tens religião, mas tens cavalheirismo... Em todo o caso, às dez no Central para o almocinho, e à vela depois para a Ribeira!

Assim eu conheci a irmã da firma. Chamava-se D. Jesuína; tinha trinta e dous anos e era zarolha. Mas, desde esse domingo de rio e de campo, a riqueza dos seus cabelos ruivos como os de Eva, o seu peito sólido e suculento, a sua pele cor de maçã madura, o riso são dos seus dentes claros - tornavam-me pensativo, quando à tardinha, com o meu charuto, eu recolhia à Baixa pelo Aterro, olhando os mastros das faluas...

Fora educada nas Salésias; sabia geografia e todos os rios da China; sabia história e todos os reis de França; e chamava-me Teodorico-Coração-de-Leão, por eu ter ido à Palestina. Aos domingos agora eu jantava na Pampulha; D. Jesuína fazia um prato de ovos queimados; e o seu olho vesgo pousava, com incessante agrado, na minha face potente e barbuda de Raposão. Uma tarde ao café, Crispim & Cia. louvou a família real, a sua moderação constitucional, a graça caridosa da rainha. Depois descemos ao jardim; e andando D. Jesuína a regar, e eu ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao seu ombro: "Vossa Excelência, D. Jesuína, é que estava a calhar para rainha, se cá o Raposinho fosse rei!" Ela, corando, deu-me a última rosa do verão.

Em véspera de Natal, Crispim & Cia. chegou à minha carteira, pousou galhofeiramente o chapéu sobre a página do livro de Caixa que eu enegrecia de cifras, e cruzando os braços, com um riso de lealdade e estima:

- Então com quê; rainha, se o Raposinho fosse rei?... Ora, diga lá o Senhor Raposo. Há ai dentro desse peito amor verdadeiro à mana Jesuina?

Crispim & Cia. admirava a paixão e o ideal. Eu ia já dizer que adorava a senhora D. Jesuína como a uma estrela remota... Mas recordei a voz altiva e pura da Travessa da Palha! Recalquei a mentira sentimental que já me enlanguescia o lábio - e disse corajosamente:

- Amor, amor, não... Mas acho-a um belo mulherão; gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.

- Dá cá essa mão honrada! - gritou a firma.

Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a consideração do meu bairro, a comenda de Cristo. E o Doutor Margaride, que janta comigo todos os domingos de casaca, afirma que o Estado, pela minha ilustração, as minhas consideráveis viagens e o meu patriotismo - me deve o título de Barão do Mosteiro. Porque eu comprei o Mosteiro. O digno magistrado uma tarde, à mesa, anunciou que o horrendo Negrão, desejando arredondar as suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos condes de Lindoso.

- Ora, aquelas árvores, Teodorico - lembrou o benemérito homem - deram sombra à senhora sua mamã. Direi mais: as mesmas sombras cobriram seu respeitabilíssimo pai, Teodorico!... Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, não me continha, comprava o Mosteiro, erguia lá um torreão com ameias!

Crispim & Cia. disse, pousando o copo:

- Compra, é cousa de família, fica-te bem.

E, numa véspera de Páscoa, assinei no cartório do Justino, com o procurador do Negrão, a escritura que me tomava enfim, depois de tantas esperanças e de tantos desalentos, o senhor do Mosteiro!

- Que faz agora esse maroto desse Negrão? - indaguei eu do bom Justino, apenas saiu o agente do sórdido sacerdote.

O dileto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negrão pechinchava! Herdara tudo do Padre Casimiro, que lá tinha o seu corpo no alto de São João e a sua alma no seio de Deus. E agora era o íntimo do Padre Pinheiro que não tinha herdeiros, e que ele levara para Torres, "para o curar". O pobre Pinheiro lá andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos jantares do Negrão, deitando a língua de fora diante de cada espelho. E não durava, coitado! De sorte que o Negrão vinha a reunir (com exceção do que fora para o Senhor dos Passos, que não podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G. Godinho.

Eu rosnei, pálido:

- Que besta!

- Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em Lisboa, tomou a Adélia por conta...

- Que Adélia?

- Uma de boas carnes, que esteve com o Eleutério... Depois, esteve muito em segredo com um basbaque, um bacharel, não sei quem...

- Sei eu.

- Pois essa! Tem-na por conta o Negrão, com luxo, tapete na escada, cortinas de damasco, tudo... E está mais gordo. Vi-o ontem; vinha de pregar... Pelo menos disse-me que "saía de São Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo de um santo!" Que o Negrão às vezes é engraçado. E tem bons amigos, lábia, influência em Torres... Ainda o vemos bispo!

Recolhi à minha família, pensativo. Tudo o que eu esperara e amara (até a Adélia!) o possuía agora legitimamente o horrendo Negrão!... Perda pavorosa. E que não proviera da troca dos meus embrulhos, nem dos erros da minha hipocrisia.


Agora, pai, comendador, proprietário, eu tinha uma compreensão mais positiva da vida; e sentia bem que fora esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no oratório da Titi - a coragem de afirmar!

Sim! Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado - eu deveria ter gritado, com segurança: "Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa... Não é a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto..."

E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita:

Ao meu portuguesinho valente, pelo muito que gozamos... Era essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas iniciais - M. M.! Lá destacava essa clara, evidente confissão - "o muito que gozamos"; o muito que eu gozara em mandar à santa as minhas orações para o céu, o muito que a santa gozara no céu em receber as minhas orações!

E quem o duvidaria? Não mostram os santos missionários de Braga, nos seus sermões, bilhetes remetidos do céu pela Virgem Maria, sem selo? E não garante a Nação a divina autenticidade dessas missivas, que têm nas dobras a fragrância do paraíso? Os dous sacerdotes, Negrão e Pinheiro, cônscios do seu dever, e na sua natural sofreguidão de procurar esteios para a fé oscilante - aclamariam logo na camisa, na carta e as iniciais, um miraculoso triunfo da Igreja. A tia Patrocínio cairia sobre o meu peito, chamando-me "seu filho e seu herdeiro". E eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia da Sé. O Papa enviar-me-ia uma bênção apostólica, pelos fios do telégrafo.

Assim ficavam saciadas as minhas ambições sociais. E quem sabe? Bem poderiam ficar também satisfeitas as ambições intelectuais que me pegara o douto Topsius. Porque talvez a ciência, invejosa do triunfo da fé, reclamasse para si esta camisa de Maria de Magdala, como documento arqueológico... ela poderia alumiar escuros pontos, na história dos costumes contemporâneos do Novo Testamento - o feitio das camisas na Judéia no primeiro século, o estado industrial das rendas da Síria sob a administração romana, a maneira de abainhar entre as raças semíticas... Eu surgiria na consideração da Europa, igual aos Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes ressuscitadores do passado. A academia logo gritaria - "A mim, o Raposo!" Renan, esse heresiarca sentimental, murmuraria - "Que suave colega, o Raposo!" Sem demora se escreveriam sobre a camisa da Mary sábios, ponderosos livros em alemão, com mapas da minha romagem em Galiléia... Eis-me aí benquisto pela Igreja, celebrado pelas universidades, com o meu cantinho certo na bem-aventurança, a minha página retida na história, começando a engordar pacificamente dentro dos contos de G. Godinho.

E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu - cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.

Mas emudeci... Aquela inefável voz ressoava ainda em minha alma, mostrando-me a inutilidade da hipocrisia. Consultei a minha consciência, que reentrara dentro de mim - e bem certo de não acreditar que Jesus fosse filho de Deus e de uma mulher casada de Galiléia (como Hércules era filho de Júpiter e de uma mulher casada da Argólida) - cuspi dos meus lábios, tornados para sempre verdadeiros, o resto inútil da oração.

Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de São Pedro de Alcântara - sítio que não pisara desde os meus anos de latim. E mal dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo Crispim, filho de Teles Crispim & Cia., com fábrica de fiação à Pampulha - camarada que não avistara desde o meu grau de bacharel. Era este o louro Crispim, que outrora no colégio dos Isidoros me dava beijos vorazes no corredor, e me escrevia à noite bilhetinhos prometendo-me caixas com penas de aço. Crispim velho morrera; Teles, rico e obeso, passara a Visconde de São Teles; e este meu Crispim agora era a firma.

Trocado um ruidoso abraço, Crispim & Cia. notou pensativamente que eu estava "muitíssimo feio". Depois invejou a minha jornada à Terra Santa (que ele soubera pelo Jornal das Novidades) e aludiu, com amigável regozijo, à "grossa maquia que me devia ter deixado a senhora D. Patrocínio das Neves..."

Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Paramos num banco, junto de uma trepadeira de rosas; e aí, no silêncio e no perfume, narrei a camisa funesta da Mary, a relíquia no seu embrulho, o desastre no oratório, o óculo, o meu quarto miserável na Travessa da Palha...

- De modo, Crispinzinho da minha alma, que aqui me encontro sem pão!

Crispim & Cia., impressionado, torcendo os bigodes louros, murmurou que em Portugal, graças à Carta e à Religião, todo o mundo tinha uma fatia de pão; o que a alguns faltava era o queijo.

- Ora o queijo dou-to eu, meu velho! - ajuntou alegremente a firma, atirando-me uma palmada ao joelho. - Um dos empregados do escritório lá na Pampulha começou a fazer versos, a meter-se com atrizes... E muito republicano, achincalhando as cousas santas... Enfim, um horror, desembaracei-me dele! Ora, tu tinhas boa letra. Uma conta de somar sempre saberás fazer... lá está a carteira do homem, vai lá, são vinte e cinco mil-réis; sempre é o queijo!...


Com duas lágrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a firma. Crispim & Cia. murmurou outra vez, com uma careta de quem sente um gosto azedo:

- Irra! Que estás muitíssimo feio!

Comecei então a servir com desvelo a fábrica de fiação à Pampulha; e todos os dias à carteira, com mangas de lustrina, copiava cartas na minha letra de belas curvas e alinhava algarismos num vasto livro de Caixa... A firma ensinara-me a "regra de três", e outras habilidades. E, como de sementes trazidas por um vento casual a um torrão desaproveitado, rompem inesperadamente plantas úteis que prosperam - das lições da firma brotaram, na minha inculta natureza de bacharel em leis, aptidões consideráveis para o negócio da fiação. Já a firma dizia, compenetrada, na assembléia do Carmo:

- Lá o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compêndios que lhe meteram no caco, tem dedo para as cousas sérias!

Ora, num sábado de agosto, à tarde, quando eu ia fechar o livro de Caixa, Crispim & Cia. parou diante da minha carteira, risonho e acendendo o charuto:

- Ouve lá, ó Raposão, tu a que missa costumas ir?

Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.

- Eu pergunto isto - ajuntou logo a firma - porque amanhã vou com minha irmã à Outra Banda, a uma quinta nossa, a Ribeira. Ora, se tu não estás muito apegado a outra missa, venhas à de Santos, às nove; íamos almoçar ao Hotel Tentral, e embarcávamos de lá para Cacilhas. Estou com vontade que conheças minha irmã!...

Crispim & Cia. era um cavalheiro religioso que considerava a religião indispensável à sua saúde, à sua prosperidade comercial, e à boa ordem do país. Visitava com sinceridade o Senhor dos Passos da Graça, e pertencia à Irmandade de São José. O empregado, cuja carteira eu ocupava, tornara-se-lhe sobretudo intolerável por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a eucaristia. Eu ia dizer a Crispim & Cia. que estava tão apegado à missa da Conceição-Nova, que outra não me podia saber bem... Mas lembrei a voz austera e salutar da Travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que já me sujava os lábios - e disse, muito pálido e muito firme:

- Olha, Crispim, eu nunca vou à missa... Tudo isso são patranhas... Eu não posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos os domingos num pedaço de hóstia feita de farinha. Deus não tem corpo, nunca teve.. Tudo isso são idolatrias, são carolices... Digo-te isto rasgadamente.. Podes fazer agora comigo o que quiseres. Paciência!

A firma considerou-me um momento mordendo o beiço:

- Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!... Eu gosto de gente lisa... O outro velhaco, que estava aí a essa carteira, diante de mim dizia: "Grande homem, o Papa!" E depois ia para os botequins e punha o Santo Padre de rastos... Pois acabou-se! Não tens religião, mas tens cavalheirismo... Em todo o caso, às dez no Central para o almocinho, e à vela depois para a Ribeira!

Assim eu conheci a irmã da firma. Chamava-se D. Jesuína; tinha trinta e dous anos e era zarolha. Mas, desde esse domingo de rio e de campo, a riqueza dos seus cabelos ruivos como os de Eva, o seu peito sólido e suculento, a sua pele cor de maçã madura, o riso são dos seus dentes claros - tornavam-me pensativo, quando à tardinha, com o meu charuto, eu recolhia à Baixa pelo Aterro, olhando os mastros das faluas...

Fora educada nas Salésias; sabia geografia e todos os rios da China; sabia história e todos os reis de França; e chamava-me Teodorico-Coração-de-Leão, por eu ter ido à Palestina. Aos domingos agora eu jantava na Pampulha; D. Jesuína fazia um prato de ovos queimados; e o seu olho vesgo pousava, com incessante agrado, na minha face potente e barbuda de Raposão. Uma tarde ao café, Crispim & Cia. louvou a família real, a sua moderação constitucional, a graça caridosa da rainha. Depois descemos ao jardim; e andando D. Jesuína a regar, e eu ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao seu ombro: "Vossa Excelência, D. Jesuína, é que estava a calhar para rainha, se cá o Raposinho fosse rei!" Ela, corando, deu-me a última rosa do verão.

Em véspera de Natal, Crispim & Cia. chegou à minha carteira, pousou galhofeiramente o chapéu sobre a página do livro de Caixa que eu enegrecia de cifras, e cruzando os braços, com um riso de lealdade e estima:

- Então com quê; rainha, se o Raposinho fosse rei?... Ora, diga lá o Senhor Raposo. Há ai dentro desse peito amor verdadeiro à mana Jesuina?

Crispim & Cia. admirava a paixão e o ideal. Eu ia já dizer que adorava a senhora D. Jesuína como a uma estrela remota... Mas recordei a voz altiva e pura da Travessa da Palha! Recalquei a mentira sentimental que já me enlanguescia o lábio - e disse corajosamente:

- Amor, amor, não... Mas acho-a um belo mulherão; gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.

- Dá cá essa mão honrada! - gritou a firma.

Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a consideração do meu bairro, a comenda de Cristo. E o Doutor Margaride, que janta comigo todos os domingos de casaca, afirma que o Estado, pela minha ilustração, as minhas consideráveis viagens e o meu patriotismo - me deve o título de Barão do Mosteiro. Porque eu comprei o Mosteiro. O digno magistrado uma tarde, à mesa, anunciou que o horrendo Negrão, desejando arredondar as suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos condes de Lindoso.

- Ora, aquelas árvores, Teodorico - lembrou o benemérito homem - deram sombra à senhora sua mamã. Direi mais: as mesmas sombras cobriram seu respeitabilíssimo pai, Teodorico!... Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, não me continha, comprava o Mosteiro, erguia lá um torreão com ameias!

Crispim & Cia. disse, pousando o copo:

- Compra, é cousa de família, fica-te bem.

E, numa véspera de Páscoa, assinei no cartório do Justino, com o procurador do Negrão, a escritura que me tomava enfim, depois de tantas esperanças e de tantos desalentos, o senhor do Mosteiro!

- Que faz agora esse maroto desse Negrão? - indaguei eu do bom Justino, apenas saiu o agente do sórdido sacerdote.

O dileto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negrão pechinchava! Herdara tudo do Padre Casimiro, que lá tinha o seu corpo no alto de São João e a sua alma no seio de Deus. E agora era o íntimo do Padre Pinheiro que não tinha herdeiros, e que ele levara para Torres, "para o curar". O pobre Pinheiro lá andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos jantares do Negrão, deitando a língua de fora diante de cada espelho. E não durava, coitado! De sorte que o Negrão vinha a reunir (com exceção do que fora para o Senhor dos Passos, que não podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G. Godinho.

Eu rosnei, pálido:

- Que besta!

- Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em Lisboa, tomou a Adélia por conta...

- Que Adélia?

- Uma de boas carnes, que esteve com o Eleutério... Depois, esteve muito em segredo com um basbaque, um bacharel, não sei quem...

- Sei eu.

- Pois essa! Tem-na por conta o Negrão, com luxo, tapete na escada, cortinas de damasco, tudo... E está mais gordo. Vi-o ontem; vinha de pregar... Pelo menos disse-me que "saía de São Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo de um santo!" Que o Negrão às vezes é engraçado. E tem bons amigos, lábia, influência em Torres... Ainda o vemos bispo!

Recolhi à minha família, pensativo. Tudo o que eu esperara e amara (até a Adélia!) o possuía agora legitimamente o horrendo Negrão!... Perda pavorosa. E que não proviera da troca dos meus embrulhos, nem dos erros da minha hipocrisia.

Agora, pai, comendador, proprietário, eu tinha uma compreensão mais positiva da vida; e sentia bem que fora esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no oratório da Titi - a coragem de afirmar!

Sim! Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado - eu deveria ter gritado, com segurança: "Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa... Não é a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto..."

E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita:

Ao meu portuguesinho valente, pelo muito que gozamos... Era essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas iniciais - M. M.! Lá destacava essa clara, evidente confissão - "o muito que gozamos"; o muito que eu gozara em mandar à santa as minhas orações para o céu, o muito que a santa gozara no céu em receber as minhas orações!

E quem o duvidaria? Não mostram os santos missionários de Braga, nos seus sermões, bilhetes remetidos do céu pela Virgem Maria, sem selo? E não garante a Nação a divina autenticidade dessas missivas, que têm nas dobras a fragrância do paraíso? Os dous sacerdotes, Negrão e Pinheiro, cônscios do seu dever, e na sua natural sofreguidão de procurar esteios para a fé oscilante - aclamariam logo na camisa, na carta e as iniciais, um miraculoso triunfo da Igreja. A tia Patrocínio cairia sobre o meu peito, chamando-me "seu filho e seu herdeiro". E eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia da Sé. O Papa enviar-me-ia uma bênção apostólica, pelos fios do telégrafo.

Assim ficavam saciadas as minhas ambições sociais. E quem sabe? Bem poderiam ficar também satisfeitas as ambições intelectuais que me pegara o douto Topsius. Porque talvez a ciência, invejosa do triunfo da fé, reclamasse para si esta camisa de Maria de Magdala, como documento arqueológico... ela poderia alumiar escuros pontos, na história dos costumes contemporâneos do Novo Testamento - o feitio das camisas na Judéia no primeiro século, o estado industrial das rendas da Síria sob a administração romana, a maneira de abainhar entre as raças semíticas... Eu surgiria na consideração da Europa, igual aos Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes ressuscitadores do passado. A academia logo gritaria - "A mim, o Raposo!" Renan, esse heresiarca sentimental, murmuraria - "Que suave colega, o Raposo!" Sem demora se escreveriam sobre a camisa da Mary sábios, ponderosos livros em alemão, com mapas da minha romagem em Galiléia... Eis-me aí benquisto pela Igreja, celebrado pelas universidades, com o meu cantinho certo na bem-aventurança, a minha página retida na história, começando a engordar pacificamente dentro dos contos de G. Godinho.

E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu - cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.

FIM

Fonte: http://www.bibvirt.futuro.usp.br

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