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A Relíquia

Eça de Queiroz

Toda essa semana, então, a idéia de ver Paris brilhou incessantemente no meu espírito, tentadora e cheia de suaves promessas... E era menos o apetite desses gozos do orgulho e da carne, com que se abarrotara o Rinchão, que a ansiedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas claro rio e claro céu, só me lembravam a Adélia, o homem amargo de capa à espanhola, o beijo na orelha perdido para sempre... Ah! se a Titi abrisse a sua bolsa de seda verde, me deixasse mergulhar dentro as mãos, colher ouro, e partir para Paris!..

Mas, para a senhora D. Patrocínio, Paris era uma região ascorosa, cheia de mentira, cheia de gula. onde um povo sem santos, com as mãos maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o sol, ou luza o gás, cometendo uma relaxação. Como ousaria eu mostrar à Titi o desejo imodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva moral?...

Logo no domingo, porém, jantando no Campo de Santana os amigos diletos, aconteceu falar-se, ao cozido, de um sábio condiscípulo do Padre Casimiro, que recentemente deixara a quietação da sua cela no Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O nosso modesto Casimiro não compreendia esta cobiça de uma mitra, cravejada de pedras vãs; para ele, a plenitude de uma vida eclesiástica era estar assim aos sessenta anos, são e sereno, sem saudades e sem temores, comendo o arrozinho do forno da senhora D. Patrocínio das Neves...

- Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitável senhora, que este seu arroz está um primor!... E a ambição de ter sempre um arroz destes, e amigos que o apreciem, parece-me a mais legítima e a melhor para uma alma justa...

E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem agravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabelião Justino era uma quintazinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde ele pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.

- Olhe, Justino - disse a Titi - uma cousa que lhe havia de fazer falta era a sua missa na Conceição Velha... Quando a gente se acostuma a uma missinha, não há outra que console... A mim, se me tirassem a de Santana, parece-me que começava a definhar...

Era o Padre Pinheiro que a celebrava; a Titi, enternecida, colocou-lhe no prato outra asa de galinha; e Padre Pinheiro revelou também a ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria ver o Papa restaurado nesse trono forte e fecundo, em que resplandecera Leão X...

- Se ao menos houvesse mais caridade com ele! - exclamou a Titi. - Mas o Santíssimo Padre, o vigariozinho de Nosso Senhor, assim numa masmorra, em farrapos, sobre palha... É de Caifases, é de judeus!

Bebeu um gole da sua água morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma - a rezar a Ave-Maria que sempre ofertava pela saúde do Pontífice e pelo termo do seu cativeiro.

O Doutor Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontífice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia ter carruagem.

- Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiara; mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandíssima comodidade...

Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam as suas ambições) qual era a do douto, do eminente Doutor Margaride.

- Diga lá a sua, Doutor Margaride diga lá a sua! - clamaram todos, com afeto.

Ele sorria, grave.

- Deixe-me Vossa Excelência primeiro, D. Patrocínio, minha senhora, servir-me dessa língua guisada, que marcha para nós e que me parece preciosa.

Depois de fornecido, o venerável magistrado confessou que apetecia ser par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para defender o princípio sacro da autoridade...

- Só por isto - acrescentou com energia. - Porque desejava também, antes de morrer, poder dar, se Vossa Excelência, D. Patrocínio, me permite a expressão, uma cacheirada mortal no ateísmo e na anarquia. E dava-lha!

Todos declararam fervorosamente o Doutor Margaride digno desses fastígios sociais. Ele agradeceu, seriíssimo. Depois volveu para mim a face majestosa e lívida:

- E o nosso Teodorico? O nosso Teodorico ainda não nos disse qual era a sua ambição.

Corei; e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do seu champagne - fascinante, embriagante, e adormentando toda a dor... Mas baixei os olhos; e afirmei que só aspirava a rezar minhas coroas, ao lado da Titi, com proveito e com descanso...

O Doutor Margaride, porém, pousara o talher, insistia. Não lhe parecia um desapego de Deus, nem uma ingratidão com a Titi, que eu, inteligente, saudável, bom cavaleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cobiça...

Nutro! - exclamei então decidido como aquele que arremessa um dardo. - Nutro, Doutor Margaride, Gostava muito de ver Paris.

- Cruzes! - gritou a senhora D. Patrocínio, horrorizada. - Ir a Paris!...

- Para ver as igrejas, Titi!

- Não é necessário ir tão longe para ver bonitas igrejas - replicou ela, rispidamente. - E lá em festas com órgão, e um Santíssimo armado com luxo, e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, imagens de dar gosto, ninguém bate cá os nossos portugueses!...

Calei-me, esmagado. E o esclarecido Doutor Margaride aplaudiu o patriotismo eclesiástico da Titi. Decerto, não era numa república sem Deus que se deviam procurar as magnificências do culto...

- Não, minha senhora, lá para saborear cousas grandiosas da nossa santa religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia... Sabe Vossa Excelência onde eu ia, senhora D. Maria do Patrocínio?

- O nosso doutor - lembrou o Padre Pinheiro - corria direito a Roma...

- Upa, Padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!

Upa? Nem o bom Pinheiro nem a Titi compreendiam o que houvesse de superior a Roma pontifical! O Doutor Margaride então ergueu solenemente as sobrancelhas, densas e negras como ébano.

- Ia à Terra Santa, D. Patrocínio! Ia à Palestina, minha senhora! Ia ver Jerusalém e o Jordão! Queria eu também estar um momento, de pé, sobre o Gólgota, como Chateaubriand, com o meu chapéu na mão, a meditar, a embeber-me, a dizer "salve!" E havia de trazer apontamentos, minha senhora, havia de publicar impressões históricas. Ora aí tem Vossa Excelência onde eu ia... Ia a Sião!

Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me ver lá muito longe, na Arábia, ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso de um camelo, um montão de ruínas em torno de uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céu arqueia-se mudo e triste como a abóbada de um túmulo. Assim devia ser Jerusalém.

- Linda viagem! - murmurou o nosso Casimiro, pensativo.

- Sem contar - rosnou Padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração - que Nosso Senhor Jesus Cristo vê com grande apreço, e muito agradece, essas visitas ao seu Santo Sepulcro.

- Até quem lá vai - disse o Justino - tem perdão de pecados. Não é verdade, Pinheiro? Eu assim li no Panorama... Vem-se de lá limpinho de tudo!

Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-flor, que considerava indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia à Terra Santa, numa devota peregrinação, recebia sobre o mármore do Santo Sepulcro, das mãos do Patriarca de Jerusalém, e pagando os rituais emolumentos, as suas indulgências plenárias...

- Não só para si, segundo tenho ouvido dizer - acrescentou o instruído eclesiástico, - mas para uma pessoa querida de família, piedosa, e comprovadamente impedida de fazer a jornada... Pagando, já se vê, emolumentos dobrados.

- Por exemplo! - exclamou o Doutor Margaride inspirado, batendo-me com força nas costas. - Assim para uma boa Titi uma Titi adorada, uma Titi que tem sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!...

- Pagando, já se vê - insistiu Padre Pinheiro - os emolumentos dobrados!

A Titi não dizia nada; os seus óculos, girando do sacerdote para o magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o clarão interior de uma idéia; um pouco de sangue subira à sua face esverdinhada. A Vicência ofereceu o arroz-doce. Nós rezamos as graças.

Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente. Nunca a Titi me deixaria visitar a terra imunda de França; e aqui ficaria enclausurado nesta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais rumorosas ruas me agravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do fino céu de estio me recordava a torva perfídia dessa que fora, para mim, estrela e rainha da graça... Depois, nesse dia, ao jantar, a Titi parecera-me mais rija, sólida ainda, duradoura, e por longos anos dona da bolsa de seda verde, dos prédios e dos contos do Comendador G. Godinho... Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa velha o fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de tanta boca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante do corpo de um Deus, magro e cheio de feridas? Oh vida entre todas amargurosa! E já não tinha, para me consolar do enfadonho serviço de Jesus, os macios braços da Adélia...

De manhã, aparelhada a égua, e já de esporas, fui saber se minha Titi tinha algum pio recado para São Roque, por ser esse o seu milagroso dia. Na saleta votada às glórias de São José, a Titi, ao canto do sofá, com o xale de Tonquim caído dos ombros, examinava o seu grande caderno de contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte, calado, com as mãos cruzadas atrás das costas, o bom Casimiro sorria pensativamente às flores do tapete.

- Ora venha cá, venha cá! - disse ele, mal eu assomei curvando o espinhaço. - Ouça lá a novidade! Que você é uma jóia, respeitador de velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha de lá esse abraço!

Sorri, inquieto. A Titi enrolava o seu caderno.

- Teodorico! - começou ela, cruzando os braços, empertigada. - Teodorico! Tenho estado aqui a consultar com o senhor Padre Casimiro. E estou decidida a que alguém que me pertença, e que seja do meu sangue, vã fazer por minha intenção uma peregrinação à Terra Santa...

- Hem, felizão! - murmurou Casimiro, resplandecendo.

- Assim - prosseguiu a Titi - está entendido e ficas sabendo que vais a Jerusalém e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer; é para meu gosto, e para honrar o túmulo de Jesus Cristo, já que eu lá não posso ir... Como, louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, hás de fazer a viagem com todas as comodidades; e para não estar com mais dúvidas, e pela pressa de agradar a Nosso Senhor, ainda hás de partir neste mês... Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o senhor Padre Casimiro. Obrigado, não quero nada para o senhor São Roque; já me entendi com ele.

Balbuciei: "muito agradecido, Titi; adeusinho, Padre Casimiro." E segui pelo corredor, atordoado.

No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas barbas, onde em breve pousaria o pó de Jerusalém... Depois, cal sobre o leito.

- Olha que tremenda espiga!

Ir a Jerusalém! E onde era Jerusalém? Recorri ao baú que continha os meus compêndios e a minha roupa velha; tirei o atlas, e com ele aberto sobre a cômoda, diante da Senhora do Patrocínio, comecei a procurar Jerusalém lá para o lado onde vivem os infiéis, ondulam as escuras caravanas, e uma pouca de água num poço é como um dom precioso do Senhor.

O meu dedo errante sentia já o cansaço de uma longa jornada; e parei à beira tortuosa de um rio, que devia ser o devoto Jordão. Era o Danúbio. E de repente o nome de Jerusalém surgiu, negro, numa vasta solidão branca, sem nomes, sem linhas, toda de areias, nua, junto ao mar. Ali estava Jerusalém. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!

Mas então comecei a considerar que, para chegar a esse solo de penitência, tinha de atravessar regiões amáveis, femininas e cheias de festa. Era primeiro essa bela Andaluzia, terra de Maria Santíssima, perfumada de flor de laranjeira, onde as mulheres só com meter dous cravos no cabelo, e traçando um xale escarlate, amansam o coração mais rebelde, bendita sea su gracia! Era adiante Nápoles - e as suas ruas escuras, quentes, com retábulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os corredores de um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grécia; desde a aula de retórica, ela aparecera-me sempre como um bosque sacro de loureiros, onde alvejam frontões de templos, e, nos lugares de sombra em que arrulham as pombas, Vênus de repente surge, cor de luz e cor-de-rosa, oferecendo a todo o lábio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus seios imortais. Vênus já não vivia na Grécia; mas as mulheres tinham conservado lá o esplendor da sua forma e o encanto do seu impudor... Jesus! O que eu podia gozar! Um clarão sulcou-me a alma. E gritei, com um murro sobre o atlas, que fez estremecer a castíssima Senhora do Patrocínio e todas as estrelas da sua coroa:

- Caramba, vou fartar o bandulho!

Sim, fartá-lo! E mesmo, receando que a Titi, por avareza do seu ouro ou desconfiança da minha piedade, renunciasse à idéia desta peregrinação tão prometedora de gozos, resolvi ligá-la supernaturalmente por uma ordem divina. Fui ao oratório; desmanchei o cabelo, como se por entre ele tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da Titi, esgazeado, com os braços a tremer no ar.

- Ó Titi! Pois não quer saber? Estava agora no oratório, a rezar de satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer "Fazes bem, Teodorico, fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulcro... E estou muito contente com a tua tia... Tua tia é das minhas!..."

Ela juntou as mãos, num fogoso transporte de amor:

- Louvado seja o seu santíssimo nome!... Pois disse isso? Ai, era bem capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando... Louvado seja outra vez o seu santíssimo nome! Louvado seja em terra e céu! Anda, filho, vai, reza-lhe... Não te fartes, não te fartes!

Eu ia, murmurando uma ave-maria. Ela correu ainda à porta, numa efusão de simpatia:

- E olha, Teodorico, vê lá a respeito de roupa branca... Talvez te sejam necessárias mais ceroulas... Encomenda, filho, encomenda, que graças a Nossa Senhora do Rosário tenho posses, e quero que vás com decência e te apresentes bem lá na sepulturazinha de Deus!...

Encomendei; e, tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete de cortiça, informei-me sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalém, com Benjamim Sarrosa & Cia., judeu sagaz, que ia todos os anos, de turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, num papel, o meu grandioso itinerário. Embarcaria no Málaga, vapor da Casa Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, num mar sempre azul, à velha terra do Egito. Aí um repouso sensual na festiva Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da Síria, aportaria a Jafa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo uma estrada macadamizada, ao chouto de uma égua doce, veria, ao fim de um dia e ao fim de uma noite, surgirem, negras entre colinas tristes, as muralhas de Jerusalém!

- Diabo, Benjamim... Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um bocadinho de Espanha? Ó menino, olhe que eu quero refestelar-me.

- Refestela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipóia, tem a batota, tem a mulherinha... Tudo do bom. E lá que você se refestela!

No entanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se falava da minha santa empresa. Uma manhã, li, escarlate de orgulho, no Jornal das Novidades, estas linhas honoríficas: "Parte brevemente a visitar Jerusalém, e todos os sacros lugares em que padeceu por nós o Redentor, o nosso amigo Teodorico Raposo, sobrinho da Excelentíssima D. Patrocínio das Neves, opulenta proprietária, e modelo de virtudes cristãs. Boa viagem!" A Titi, desvanecida, guardou o jornal no oratório, debaixo da peanha de São José; e eu jubilei, por imaginar o despeito da Adélia (leitora fiel do Jornal) ao ver-me assim abalar desprendido dela, atestado de ouro, para essas terras muçulmanas, onde a cada passo se topa um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sicômoros...

A véspera da partida, na sala dos damascos, teve elevação e solenidade. O Justino contemplava-me, como se contempla uma figura histórica.

- O nosso Teodorico... Que viagem!... O que se vai falar nisto!

E Padre Pinheiro murmurava com unção:

- Foi uma inspiração do Senhor! E que bem que lhe há de fazer à saúde!

Depois mostrei o meu capacete de cortiça. Todos o admiraram. O nosso Casimiro, todavia, depois de coçar pensativamente o queixo, observou que me daria talvez mais seriedade um chapéu alto...

A Titi acudiu, aflita:

- E o que eu lhe disse! Acho de pouca cerimônia, para a cidade em que morreu Nosso Senhor...

- Ó Titi, mas já lhe expliquei! Isto é só para o deserto!... Em Jerusalém, está claro, em todos aqueles santos lugares, ando de chapéu alto...

- Sempre é mais de cavalheiro - afirmou o Doutor Margaride.

Padre Pinheiro quis saber, solicitamente, se eu ia prevenido com remédios para o caso de um contratempo intestinal nesses descampados bíblicos...

- Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista... Até linhaça, até arnica!...

O pachorrento relógio do corredor começou a gemer as dez; eu devia madrugar; e o Doutor Margaride, comovido, agasalhava já o pescoço no seu lenço de seda. Então, antes dos abraços, perguntei aos meus leais amigos que "lembrançazinha" desejavam dessas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho de água do Jordão. Justino (que já me pedira no vão da janela um pacote de tabaco turco), diante da Titi só apetecia um raminho de oliveira, do Monte Olivete. O Doutor Margaride contentava-se com uma boa fotografia do sepulcro de Jesus Cristo, para encaixilhar...

Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas incumbências - voltei-me para a Titi, risonho, carinhoso, humilde...

- Cá por mim - disse ela do meio do sofá como de um altar, tesa nos seus cetins de domingo - o que desejo é que faças essa viagem com toda a devoção, sem deixar pedra por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que não rezes ou o terço ou a coroa... Além disso, também estimo que tenhas saúde.

Eu ia depor na sua mão, brilhante de anéis, um beijo gratíssimo. Ela deteve-me, mais aprumada e seca:

- Até aqui tens sido apropositado; não tens faltado aos preceitos, nem te tens dado a relaxações... Por isso te vais regalar de ver as oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no Jordãozinho... Mas se eu soubesse que nesta passeata tinhas tido maus pensamentos, e praticado uma relaxação, ou andado atrás de saias, fica certo que, apesar de seres a única pessoa do meu sangue, e teres visitado Jerusalém, e gozar indulgências, havias de ir para a rua, sem uma côdea, como um cão!

Curvei a cabeça, apavorado. E a Titi, depois de roçar o lenço de rendas pelos beiços sumidos, prosseguiu com mais autoridade, e uma emoção crescente que lhe punha, sob o corpete raso, como o fugitivo arfar de um peito humano:

- E agora quero dizer-te, para teu governo, uma só cousa!

Todos de pé, e reverentes, logo percebemos que a Titi se preparava a proferir uma palavra suprema. Nessa hora de separação, rodeada dos seus sacerdotes, rodeada dos seus magistrados, D. Patrocínio das Neves ia decerto revelar qual fora o seu íntimo motivo, em me mandar, como sobrinho e como romeiro, à cidade de Jerusalém. Eu ia saber enfim, e tão indubitavelmente como se ela mo escrevesse num pergaminho, qual deveria ser o mais precioso dos meus cuidados, velando ou dormindo nas terras do Evangelho!

- Aqui está! - declarou a Titi. - Se entendes que mereço alguma cousa, pelo que tenho feito por ti, desde que morreu tua mãe, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te égua para passeares, já cuidando da tua alma, então traze-me desses santos lugares uma santa relíquia uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas doenças.

E pela vez primeira, depois de cinqüenta anos de aridez, uma lágrima breve escorregou no carão da Titi, por sob os seus óculos sombrios.

O Doutor Margaride rompeu para mim. arrebatadamente:

- Teodorico, que amor que lhe tem a Titi! Rebusque essas ruínas, esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma relíquia à Titi!

Eu bradei, exaltado:

- Titi, palavra de Raposão que lhe hei de trazer uma tremenda relíquia!


Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e tocante, a comoção dos nossos corações. Eu achei-me com os beiços do Justino, ainda moles da torrada, colados à minha barba...

Cedo, na manhã de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libânia, fui bater, devagar, ao quarto da Titi, ainda adormecida no seu leito castíssimo. Senti, por sobre o tapete, aproximar-se o som mole dos seus chinelos. Entreabriu pudicamente a porta; e, decerto em camisa, estendeu-me, através da fenda, a sua mão escamada, lívida, cheirando a rapé. Apeteceu-me mordê-la; depus nela um beijo baboso; a Titi murmurou:

- Adeus, menino... Dá muitas saudades ao Senhor!

Desci a escadaria, já de capacete, sobraçando o meu Guia do Oriente. Atrás, a Vicência soluçava.

A minha mala nova de couro, o meu repleto saco de lona enchiam o cupê do Pingalho. Ainda as andorinhas retardadas cantavam no beiral dos telhados; na capela de Santana tocava para a missa. E um raio de sol, vindo do Oriente, vindo lá da Palestina ao meu encontro, banhou-me a face, acolhedor e risonho, como uma carícia do Senhor.

Fechei a tipóia, estirei-me, gritei: "Larga, Pingalho!"

E, romeiro abastado, soprando à brisa o fumo do meu cigarro, assim deixei o portão de minha tia, em caminho para Jerusalém!

CAPÍTULO II

Foi num domingo e dia de S. Jerônimo que meus pés latinos pisaram, enfim, no cais de Alexandria a terra do Oriente, sensual e religiosa. Agradeci ao Senhor da Boa-Viagem. E o meu companheiro, o ilustre Topsius, Doutor alemão pela Universidade de Bonn, sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas, murmurou, grave como numa invocação, desdobrando o seu vastíssimo guarda-sol verde:

- Egito! Egito! Eu te saúdo, negro Egito! E que me seja em ti propício o teu Deus Ftá, Deus das Letras, Deus da História, inspirador da obra de arte e da obra de verdade!...

Através deste zumbido científico, eu sentia-me envolvido num bafo morno como o de uma estufa, amolecedoramente tocado de aromas de sândalo e rosa. No cais faiscante, entre fardos de lã, estirava-se, banal e sujo, o barracão da alfândega. Mas além as pombas brancas voavam em torno aos minaretes brancos; o céu deslumbrava. Cercado de severas palmeiras, um lânguido palácio dormia a beira da água; e ao longe perdiam-se os areais da antiga Líbia, esbatidos numa poeirada quente, livre, e da cor de um leão.

Amei logo esta terra de indolência, de sonho e de luz. E saltando para a caleche forrada de chita, que nos ia levar ao Hotel das Pirâmides, invoquei as divindades, como o ilustrado doutor de Bonn:

- Egito, Egito! Eu te saúdo, negro Egito! E que me seja propício...

- Não! Que vos seja propícia, D. Raposo, Ísis, a vaca amorosa! - acudiu o eruditíssimo homem, risonho, e abraçado à minha chapeleira.

Não compreendi, mas venerei. Eu conhecera Topsius em Malta, numa fresca manhã, estando a comprar violetas a uma ramalheteira que tinha já nos olhos grandes um langor muçulmano; ele andava medindo consideradamente com o seu guarda-sol as paredes marciais e monásticas do palácio do grão-mestre.

Persuadido que era um dever espiritual e doutoral, nestas terras do Levante, cheias de história, medir os monumentos da antigüidade, tirei o meu lenço e fui-o gravemente passeando, esticado como um côvado, sobre as austeras cantarias...Topsius dardejou-me logo, por cima dos óculos de ouro, um olhar desconfiado e ciumento. Mas tranquilizado, decerto, pela minha face jucunda e material, pelas minhas luvas almiscaradas, pelo meu fútil raminho de violetas, ergueu cortesmente de sobre o longo cabelo, corredio e cor de milho, o seu bonezinho de seda preta. Eu saudei com o meu capacete de cortiça; e comunicamos. Disse-lhe o meu nome, a minha pátria, os santos motivos que me levavam a Jerusalém. Ele contou-me que nascera na gloriosa Alemanha; e ia também à Judeia, depois à Galiléia, numa peregrinação científica, colher notas para a sua formidável obra, a História dos Herodes. Mas demorava-se em Alexandria a amontoar os pesados materiais de outro livro monumental, a História dos Lágidas... Porque estas duas turbulentas famílias, os Herodes e os Lágidas, eram propriedade histórica do doutíssimo Topsius.

- Então, ambos com o mesmo roteiro, podíamos acamaradar, Doutor Topsius!

Ele espigado, magríssimo e pernudo, com uma rabona curta de lustrina, enchumaçada de manuscritos, cortejou gostosamente:

- Pois acamarademos, D. Raposo! Será uma deleitosa economia! Encovado na gola, de guedelha caída, o nariz agudo e pensativo, a calça esguia, o meu erudito amigo parecia-me uma cegonha, risível e cheia de letras, com óculos de ouro na ponta do bico. Mas já a minha animalidade reverenciava a sua intelectualidade; e fomos beber cerveja.

A sabedoria neste moço era dom hereditário. Seu avô materno, o naturalista Shlock, escreveu um famoso tratado em oito volumes sobre a Expressão fisionômica dos Lagartos, que assombrou a Alemanha. E seu tio, o decrépito Topsius, o memorável egiptólogo, aos setenta e sete anos, ditou da poltrona, onde o prendia a gota, esse livro genial e fácil a Síntese Monoteísta da Teogonia Egípcia, considerada nas relações do Deus Ftá e do Deus Imhotep com as Tríades dos Nomos.

O pai de Topsius, desgraçadamente, através desta alta ciência doméstica, permanecia figle numa charanga, em Munique; mas o meu camarada, reatando a tradição, logo aos vinte e dous anos tinha esclarecido, radiantemente, em dezenove artigos publicados no Boletim Hebdomadário de Escavações Históricas, a questão, vital para a civilização, de uma parede de tijolo erguida pelo Rei Pi-Sibkmé, da vigésima primeira dinastia, em torno do templo de Ramsés II, na lendária cidade de Tânis. Em toda a Alemanha científica, hoje, a opinião de Topsius, acerca desta parede, brilha com a irrefutabilidade do sol.

Só conservo de Topsius recordações suaves ou elevadas. Já sobre as águas bravias do Mar de Tiro; já nas ruas fuscas de Jerusalém; já dormindo lado a lado, sob a tenda, junto aos destroços de Jericó; já pelas estradas verdes de Galiléia, encontrei-o sempre instrutivo, serviçal, paciente e discreto. Raramente compreendia as suas sentenças, sonoras e bem cunhadas, tendo a preciosidade de medalhas de ouro; mas, como diante da porta impenetrável de um santuário, eu reverenciava, por saber que lá dentro, na sombra, refulgia a essência pura da Idéia. Por vezes, também o Doutor Topsius rosnava uma praga imunda; e então uma grata comunhão se estabelecia, entre ele e o meu singelo intelecto de bacharel em leis. Ficou-me a dever seis moedas; mas esta diminuta migalha de pecúnia, desaparece na copiosa onda de saber histórico, com que fecundou o meu espírito. Uma cousa apenas, além do seu pigarro de erudito, me desagradava nele, o hábito de se servir da minha escova de dentes.

Era também intoleravelmente vaidoso da sua pátria. Sem cessar, erguendo o bico, sublimava a Alemanha, mãe espiritual dos povos; depois ameaçava-me com a irresistibilidade das suas armas. A onisciência da Alemanha! A onipotência da Alemanha! Ela imperava, vasto acampamento entrincheirado de in-fólios, onde ronda e fala do alto a Metafísica armada! Eu, brioso, não gostava destas jactâncias. Assim, quando no Hotel das Pirâmides nos apresentaram um livro, para nele registrarmos nossos nomes e nossas terras, o meu douto amigo traçou o seu Topsius, ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas como galuchos: - “DA IMPERIAL ALEMANHA”. Arrebatei a pena; e recordando o barbudo João de Castro, Ormuz em chamas; Adamastor; a capela de São Roque, o Tejo e outras glórias, escrevi largamente, em curvas mais enfunadas que velas de galeões: "RAPOSO, PORTUGUÊS, DAQUÉM E DALÉM-MAR". E logo, do canto, um moço magro e murcho, murmurou, suspirando e a desfalecer:

- Em o cavalheiro necessitando alguma cousa, chame pelo Alpedrinha.

Um patrício! Ele contou-me a sua sombria história, desafivelando a minha maleta. Era de Trancoso e desgraçado. Tivera estudos; compusera um necrológio; sabia ainda mesmo de cor os versos mais doloridos do "nosso Soares de Passos". Mas apenas sua mamazinha morrera, tendo herdado terras, correra à fatal Lisboa, a gozar; conheceu logo na Travessa da Conceição uma espanhola deleitosíssima, do adocicado nome de Dulce; e largou com ela para Madri, num idílio. Aí o jogo empobreceu-o; a Dulce traiu-o; um chulo esfaqueou-o. Curado e macilento passou a Marselha; e durante anos arrastou-se, como um frangalho social, através de misérias inenarráveis. Foi sacristão em Roma. Foi barbeiro em Atenas. Na Moréia, habitando uma choça junto a um pântano, empregara-se na pavorosa pesca das sanguessugas; e de turbante, com odres negros ao ombro, apregoou água pelas vielas de Esmirna. O fecundo Egito atraíra-o sempre, irresistivelmente... E ali estava no Hotel das Pirâmides, moço de bagagens e triste.

- E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.

Concedi-lhe generosamente todos os Jornais de Notícias que embrulhavam os meus botins.

O dono do hotel era um grego de Lacedemônia, de bigodes ferozes, e que hablaba un poquitito el castellano. Respeitosamente ele próprio, teso na sua sobrecasaca preta ornada de uma condecoração, nos conduziu à sala do almoço - la mas preciosa, sin duda, de todo el Oriente, caballeros!

Sobre a mesa murchava um ramo grosso de flores escarlates; no frasco do azeite flutuavam familiarmente cadáveres de moscas; as chinelas do criado topavam a cada instante um velho Jornal dos Debates, manchado de vinho, rojando ali desde a véspera, pisado por outras chinelas indolentes; e no teto, a fumaraça fétida dos candeeiros de latão juntara nuvens pretas as nuvens cor-de-rosa, onde esvoaçavam anjos e andorinhas. Por baixo da varanda uma rabeca e, uma harpa tocavam a Mandolinata. E em quanto Topsius se alagava de cerveja, eu sentia, estranhamente, crescer o meu amor por esta terra de preguiça e de luz.

Depois do café, o meu sapientíssimo amigo, com o lápis dos apontamentos na algibeira da rabona, abalou a rebuscar antigualhas e pedras do tempo dos Ptolomeus. Eu, acendendo um charuto, reclamei Alpedrinha; e confiei-lhe que desejava, sem tardança, ir rezar e ir amar. Rezar era por intenção da tia Patrocínio, que me recomendara uma jaculatória a São José, apenas pisasse esse solo do Egito, tomado, desde a fuga da Santa Família em cima do seu burrinho, chão devoto como o de uma Sé. Amar era por necessidade do meu coração, ansioso e ardido. Alpedrinha, em silêncio, ergueu as persianas, e mostrou-me uma clara praça, ornamentada ao centro por um herói de bronze, cavalgando um corcel de bronze; uma aragem quente levantava poeiradas lentas por sobre dous tanques secos; e em redor perfilavam-se no azul altos prédios, hasteando cada um a bandeira da sua pátria, como cidadelas rivais sobre um solo vencido. Depois o triste Alpedrinha indicou-me, a uma esquina, onde uma velha vendia canas-de-açúcar. Na tranqüila Rua das Duas-Irmãs. Aí (murmurou ele) eu veria, pendurada sobre a porta de uma lojinha discreta, uma pesada mão de pau, tosca e roxa, e por cima, em tabuleta negra, estes dizeres convidativos a ouro: "MISS MARY, LUVAS E FLORES DE CERA". Era esse o refúgio que ele aconselhava ao meu coração. Ao fundo da rua, junto de uma fonte chorando entre árvores, havia uma capela nova, onde a minha alma acharia consolação e frescura.

- E diga o cavalheiro a Miss Mary que vai de mandado do Hotel das Pirâmides.

Pus uma rosa ao peito, e saí, ovante. Logo da entrada das Duas-Irmãs avistei a ermidinha virginal, dormindo castamente sob os plátanos, ao rumor meigo da água. Mas o amantíssimo patriarca São José estava certamente, a essa hora, ocupado em receber jaculatórias mais instantes, e evoladas de lábios mais nobres; não quis importunar o bondosíssimo santo; e parei diante da mão de pau, pintada de roxo, que parecia estar ali esperando, alongada e aberta, para empolgar o meu coração.

Entrei, comovido. Por trás do balcão envernizado, junto a um vaso de rosas e magnólias, ela estava lendo o seu Times, com um gato branco no colo. O que me prendeu logo foram os seus olhos azuis-claros, de um azul que só há nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabelos, crespos, frisadinhos como uma carapinha de ouro, tão doces e finos que apetecia ficar eternamente e devotamente, a mexer-lhe com os dedos trêmulos; e era irresistível o profano nimbo luminoso, que eles punham em torno da sua face gordinha, de uma brancura de leite onde se desfez carmesim, toda tenra e suculenta. Sorrindo, e baixando com sentimento as pestanas escuras, perguntou-me se eu queria pelica ou Suécia.

Eu murmurei, roçando-me sofregamente pelo balcão:

- Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.

Ela escolheu entre o ramo um tímido botão de rosa, e deu-mo na ponta dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade desta carícia pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais quente veio afoguear-lhe a face, e chamou-me baixo, "mauzinho!" Esqueci São José e a sua jaculatória, e as nossas mãos, um momento unidas para ela me calçar a luva clara, não se desenlaçaram mais, nessas semanas que passei, na cidade dos Lágidas, em festivas delícias muçulmanas!

Ela era de Iorque, esse heróico condado da velha Inglaterra, onde as mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como as rosas dos seus jardins reais. Por causa da sua meiguice e do seu riso de ouro quando lhe fazia cócegas, eu pusera-lhe o nome galante e cacarejante de Maricoquinhas. Topsius, que a apreciava, chamava-lhe "a nossa simbólica Cleópatra". Ela amava a minha barba negra e potente; e, só para não me afastar do calor das suas saias, eu renunciei a ver o Cairo, o Nilo, e a eterna Esfinge, deitada à porta do deserto, sorrindo da humanidade vã...

Vestido de branco como um lírio, eu gozava manhãs inefáveis, encostado ao balcão da Mary; amaciando respeitosamente a espinha do gato. Ela era silenciosa; mas o seu simples sorrir com os braços cruzados, ou o seu modo gentil de dobrar o Times, saturava o meu coração de luminosa alegria. Nem precisava chamar-me "seu portuguesinho valente, seu bibichinho". Bastava que o seu peito arfasse; só para ver aquela doce onda lânguida, e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos, eu teria vindo de tão longe a Alexandria; iria mais longe, a pé, sem repouso, até onde as águas do Nilo são brancas!

De tarde, na caleche de chita com o nosso doutíssimo Topsius, dávamos lentos, amorosos passeios à beira do Canal Mamudiê. Sob as frondosas árvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnólias, e outros cálidos perfumes que não conhecia. Por vezes uma leve flor roxa ou branca caía-me sobre o regaço; com um suspiro eu roçava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ela, sensível, estremecia. Na água jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo, sagrado e benfazejo, ancorando junto às ruínas dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde caia. Vagarosamente, rolávamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarelo, como feitas em relevo de bronze sobre uma lâmina de ouro.

Maricocas jantava sempre conosco no Hotel das Pirâmides; e, diante dela, Topsius desabrochava todo em flores de erudição amável. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no canal que levava a Canópia; ambas as margens resplandeciam de palácios e de jardins; as barcas, com toldos de seda, vogavam ao som dos alaúdes; os sacerdotes de Osíris, cobertos de peles de leopardo, dançavam sob os laranjais; e nos terraços, abrindo os véus, as damas de Alexandria bebiam à Vênus Assíria, pelo cálice da flor do lótus. Uma voluptuosidade esparsa amolecia as almas. Os filósofos mesmo eram frascários.

- E - dizia Topsius requebrando o olho - em toda a Alexandria só havia uma dama honesta, que comentava Homero e era tia de Sêneca. Só uma!

Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver nessa Alexandria, e navegar para Canópia, numa barca toldada de seda!

- Sem mim? - gritava eu, ciumento.


Ela jurava que, sem o seu portuguesinho valente, não queria habitar nem o céu!

Eu, regalado, pagava o champagne.

E os dias assim foram passando, leves, flácidos, gostosos, repicados de beijos - até que chegou a véspera sombria de partirmos para Jerusalém.

- O cavalheiro - dizia-me nessa manhã Alpedrinha engraxando os meus botins - o que devia era ficar aqui na Alexandriazinha, a refocilar...

Ah! se pudesse! Mas irrecusáveis eram os mandados da Titi! E, por amor do seu ouro, lá tinha de ir à negra Jerusalém, ajoelhar diante de oliveiras secas, desfiar rosários piedosos ao pé de frios sepulcros...

- Tu já estiveste em Jerusalém, Alpedrinha? - perguntei, enfiando desconsoladamente as ceroulas.

- Não senhor, mas sei... Pior que Braga!

-Irra!

A nossa ceia com Maricocas, à noite, no meu quarto, foi cortada de silêncios, de suspiros; as velas tinham a melancolia de tochas; o vinho anuviava-nos como aquele que se bebe nos funerais. Topsius ofertava consolações generosas.

- Bela dama, bela dama, o nosso Raposo há de voltar... Estou mesmo certo que trará da ardente terra da Síria, da terra da Vênus e da esposa dos Cantares, uma chama no seu coração mais fogosa e mais moça...

Eu mordia o beiço, sufocado:

- Pois está visto! - Ainda havemos de andar de caleche pelo Mamudiê... Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvário... Até me faz bem... Volto como um touro.

Depois do café fomos encostar-nos à varanda a olhar, calados, aquela suntuosa noite do Egito. As estrelas eram como uma grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sozinho pelas estradas do céu. O silêncio tinha uma solenidade de sacrário. Nos escuros terraços, embaixo, uma forma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que outras criaturas estavam ali, como nós, deixando a alma embeber-se mudamente no esplendor sideral; e nesta difusa religiosidade, igual à de uma multidão pasmando para os lumes de um altar-mor, eu sentia subir aos lábios, irresistivelmente, a doçura de uma ave-maria...

Ao longe o mar dormia. E, à quente irradiação dos astros, eu podia distinguir, num pontal de areia, mergulhando quase na água, uma casa deserta, pequenina, toda branca e poética entre duas palmeiras... Então comecei a pensar que, mal a Titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse doce retiro, forrá-lo de lindas sedas, e viver ao lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquietações da civilização. Desagravos ao Sagrado Coração de Jesus ser-me-iam tão indiferentes, como as guerras que entre si travassem os reis. Do céu só me importaria a luz anilada, que banhasse a minha vidraça; da terra só me importariam as flores abertas no meu jardim, para aromatizar a minha alegria. E passaria os dias numa fofa preguiça oriental, fumando o puro latakié, tocando viola francesa, e recebendo perpetuamente essa impressão de felicidade perfeita, que a Mary me dava só com deixar arfar o seio e chamar-me "seu portuguesinho valente".

Apertei-a contra mim num desejo de a sorver. Junto à sua orelha, de uma brancura de concha branca balbuciei nomes inefáveis; disse-lhe rechonchudinha; disse-lhe riquinha. Ela estremeceu, ergueu os olhos magoados para a poeirada de ouro.

- Que de estrelas! Deus queira que amanhã o mar esteja manso!

Então, à idéia dessas longas ondas que me iam levar a ríspida terra do Evangelho, tão longe da minha Mary, um pesar infinito afogou-me o peito, e irreprensivelmente se me escapou dos lábios, em gemidos entoados, queixosos e requebrados... Cantei. Por sobre os terraços adormecidos da muçulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrelas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos - suspirei o fado mais sentido da saudade portuguesa:


Coa minh'alma aqui te ficas,

Eu parto só com os meus ais,

E tudo me diz, Maricas,

Que não te verei nunca mais.


Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quis saber se estes doces versos eram de Luís de Camões. Eu, choramingando, disse-lhe que estes, ouvira-os no Dafundo ao Calcinhas.

Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidraça; e depois de ir ao corredor fazer às escondidas um rápido sinal da cruz, vim desapertar sofregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa bem-amada.

Breve, avaramente breve, foi essa noite estrelada do Egito!

Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemônia avisar-me que já fumegava na baía, áspera e cheia de vento, el paquete, ferozmente chamado o Caimão, que me devia levar para as tristezas de Israel.

El señor D. Topsius, madrugador, já estava embaixo a almoçar pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da cômoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a névoa das lágrimas. A minha sólida mala de couro atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha estava ainda acomodando, à pressa, a roupa suja dentro do saco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente à borda do leito, com o seu gentil chapéu enfeitado de papoulas e as olheirinhas pisadas, contemplava aquele enfardelar de flanelas, como se fossem bocados do seu coração atirados para o fundo do saco, para partirem e não voltarem mais!

Levas tanta roupa suja, Teodorico!

Balbuciei, dilacerado:

- Manda-se lavar em Jerusalém, com a ajuda de Nosso Senhor!

Deitei os meus bentinhos ao pescoço. Nesse instante Topsius assomava à porta, cachimbando, com a barraca do seu guarda-sol fechada sobre o braço, de galochas anchas para a umidade do tombadilho, e um volume da Bíblia enchumaçando-lhe a rabona de alpaca. Ao ver-me sem colete, repreendeu a minha amorosa preguiça.

- Mas compreendo, bela dama, compreendo! - acudiu ele, às cortesias a Mary, esgrouviado e onduloso, de óculos na ponta do bico. E doloroso deixar os braços de Cleópatra... Já Antônio por eles perdeu Roma e o mundo... Eu mesmo, todo absorvido na minha missão, com recantos crepusculares da história a alumiar, levo gratas memórias destes dias de Alexandria... Deliciosíssimos os nossos passeios pelo Mamudiê!... Permita-me que apanhe a sua luva, bela dama!... E se voltar jamais a esta terra dos Ptolomeus, não me esquecerá a Rua das Duas-Irmãs... "Miss Mary, luvas e flores de cera". Perfeitamente. Consentirá que lhe mande, quando completa, a minha História dos Lágidas... Há detalhes muito picantes... Quando Cleópatra se apaixonou por Herodes, o rei da Judéia...

Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava., alvoroçado:

- Cavalheiro! Ainda há aqui roupa suja!

Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com laços de seda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e de amor... Ai! Era a camisa de dormir da Mary; quente ainda dos meus abraços!

- Pertence à senhora D. Mary! E a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensórios.

A minha luveirinha ergueu-se, trêmula, descorada - e teve um poético rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-me para os braços, tão ardentemente, como se entre as dobras viesse também o seu coração.

- Dou-ta, Teodorico! Leva-a, Teodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ela a teu lado, como se fosse comigo... Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra, uma dedicatória!

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