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A Relíquia

Eça de Queiroz

Correu à mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia à Titi a história edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho... E eu, com a camisinha perfumada nos braços, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquela preciosa relíquia de amor. As malas estavam fechadas. O saco de lona estalava, repleto.

Topsius, impaciente, tirara das profundezas do seio o seu relógio de prata. O nosso lacedemônio, à porta, rosnava:

- D. Teodorico, es tarde, es mui tarde...

Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ela traçara, largas, impetuosas e francas como o seu amor: "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!"

- Oh, riquinha! E onde hei de eu meter isto? Eu não hei de levar a camisa nos braços, assim nua e ao léu!

Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o saco. Então Maricoquinhas, com uma inspiração delicada, agarrou uma folha de papel pardo; apanhou do chão um nastro vermelho; e as suas habilidosas mãos de luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, cômodo e gracioso - que eu meti debaixo do braço, apertando-o com avara, inflamada paixão.

Depois, foi um murmúrio arrebatado de soluços, de beijos, de doçuras...

- Mary; anjo querido!

- Teodorico, amor! ...

- Escreve-me para Jerusalém...

- Lembra-te da tua bichaninha bonita...

Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeara, enlaçado com Mary; por sob os arvoredos aromáticos do Mamudiê, lá partiu, ao trote da parelha branca, arrancando-me a uma felicidade onde o meu coração deitara raízes, agora despedaçadas e gotejando sangue no silêncio do meu peito. O douto Topsius, abarracado sob o seu guarda-sol verde, recomeçara, impassível, a murmurar cousas de velha erudição. Sabia eu por onde íamos rodando? Por sobre a nobre calçada dos Sete-Estados, que o primeiro dos Lágidas construíra para comunicar com a Ilha de Faros, louvada nos versos de Homero! Nem o escutava, debruçado para trás, na caleche, agitando o lenço molhado da minha saudade. A doce Maricoquinhas, à porta do hotel, ao lado de Alpedrinha, linda sob o chapéu florido de papoulas, fazia esvoaçar também o seu lenço amoroso e acariciador; e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram uma para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos corações. Depois eu caí sobre a almofada de chita, como cai um corpo morto...

Apenas embarcado no Caimão, corri a esconder no beliche a minha dor. Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar sítios das grandezas dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a enseada de mármore onde ancoravam as galeras de Cleópatra. Fugi; na escada esbarrei, quase rolei sobre uma irmã da caridade, que subia timidamente, com as suas contas na mão. Rosnei um "desculpe, minha santinha". E tombando enfim no catre, deixei escapar o pranto à larga, por cima do embrulho de papel pardo; ele era tudo que me restava dessa paixão de incomparável esplendor, passada na terra do Egito.

Dous dias e duas noites o Caimão arquejou e rolou nos vagalhões do Mar de Tiro. Enrodilhado num cobertor, sem largar do peito o embrulhinho de Mary eu recusava com ódio as bolachas que de vez em quando me trazia o humaníssimo Topsius; e desatento às cousas eruditas que ele imperturbavelmente me contava destas águas chamadas pelos egípcios o Grande Verde, rebuscava, debalde, na memória, bocados soltos de uma oração que ouvira à Titi, para amansar as vagas iradas.

Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceu-me sentir sob as chinelas um chão firme, chão de rocha, onde cheirava a rosmaninho; e achei-me incompreensivelmente a subir uma colina agreste de companhia com a Adélia, e com a minha loura Mary; que saíra de dentro do embrulho, fresca, nítida, sem ter sequer amarrotado as papoulas do seu chapéu! Depois, por trás de um penedo, surgiu-nos um homem nu, colossal, tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam, vermelhos como vidros redondos de lanternas; e, com o rabo infindável, ia fazendo no chão o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas secas. Sem nos cortejar, impudentemente, pôs-se a marchar ao nosso lado. Eu percebi bem que era o diabo; mas não senti escrúpulos, nem terror. A insaciável Adélia atirava olhadelas oblíquas à potência dos seus músculos. Eu dizia-lhe, indignado: "Porca, até te serve o diabo?"

Assim marchando, chegamos ao alto do monte, onde uma palmeira se desgrenhava sobre um abismo cheio de mudez e de treva. Defronte de nós, muito longe, o céu desdobrava-se como um vasto estofo amarelo; e sobre esse fundo vivo, cor de gema de ovo, destacava um negríssimo outeiro, tendo cravadas no alto três cruzinhas em linha, finas e de um só traço. O diabo, depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: "A do meio é a de Jesus, filho de José, a quem também chamam o Cristo; e chegamos a tempo para saborear a Ascensão". Com efeito! A cruz do meio, a do Cristo, desarraigada do outeiro, como um arbusto que o vento arranca, começou a elevar-se, lentamente, engrossando, atravancando o céu. E logo de todo o espaço voaram bandos de anjos, a sustê-la, apressados como as pombas quando acodem ao grão; uns puxavam-na de cima, tendo-lhe amarrado ao meio longas cordas de seda; outros, debaixo, empurravam-na e nós víamos o esforço entumecido dos seus braços azulados. Por vezes do madeiro desprendia-se, como uma cereja muito madura, uma grossa gota de sangue; um serafim recolhia-a nas mãos e ia colocá-la sobre a parte mais alta do céu onde ela ficava suspensa e brilhando com o resplendor de uma estrela. Um ancião enorme de túnica branca, a que mal distinguíamos as feições, entre a abundância da coma revolta e os flocos de barbas nevadas, comandava, estirado entre nuvens, estas manobras da Ascensão, numa língua semelhante ao latim e forte como o rolar de cem carros de guerra. Subitamente tudo desapareceu. E o diabo, olhando para mim, pensativo:

"Gonsummatum est, amigo! Mais outro deus! Mais outra religião! E esta vai espalhar em terra e céu um inenarrável tédio."

E logo, levando-me pela colina abaixo, o diabo rompeu a contar-me animadamente os cultos, as festas, as religiões que floresciam na sua mocidade. Toda esta costa do grande verde, então, desde Biblos até Cartago, desde Elêusis até Mênfis, estava atulhada de deuses. Uns deslumbravam pela perfeição da sua beleza, outros pela complicação da sua ferocidade. Mas todos se misturavam à vida humana, divinizando-a; viajavam em carros triunfais, respiravam as flores, bebiam os vinhos, defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com um amor que não mais voltará; e os povos, emigrando, podiam abandonar os seus gados ou esquecer os rios onde tinham bebido, mas levavam carinhosamente os seus deuses ao colo. "O amigo, perguntou ele, nunca esteve em Babilônia?" Aí todas as mulheres, matronas ou donzelas, se vinham um dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Melita. As mais ricas chegavam em carros marchetados de prata, puxados a búfalos, e escoltadas de escravas; as mais pobres traziam uma corda ao pescoço. Umas, estendendo um tapete na erva, agachavam-se como reses pacientes; outras, erguidas, nuas, brancas, com a cabeça escondida num véu preto, eram como esplêndidos mármores entre os troncos dos álamos. E todas assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse: "Em nome de Vênus!" Seguiam-no então, fosse um príncipe vindo de Susa com tiara de pérolas, ou o mercador que desce o Eufrates no seu barco de couro; e toda a noite rugia, na escuridão das ramagens, o delírio da luxúria ritual. Depois o diabo disse-me as fogueiras humanas de Moloque, os mistérios da boa-deusa em que os lírios se regavam com sangue, e os ardentes funerais de Adônis...

E parando, risonhamente: "o amigo nunca esteve no Egito?" Eu disse-lhe que estivera e conhecera lá Maricocas. E o diabo, cortês:

"Não era Maricocas, era Ísis!" Quando a inundação chegava até Mênfis, as águas cobriam-se de barcas sagradas. Uma alegria heróica, subindo para o sol, fazia os homens iguais aos deuses. Osíris, com os seus cornos de boi, montava Ísis; e, entre o estridor das harpas de bronze, ouvia-se por todo o Nilo o rugir amoroso da vaca divina.

Depois, o diabo contava-me como brilhavam, doces e belas, na Grécia, as religiões da natureza. Aí tudo era branco, polido, puro, luminoso e sereno; uma harmonia saía das formas dos mármores, da constituição das cidades, da eloquência das academias e das destrezas dos atletas; por entre as ilhas da Jônia, flutuando na moleza do mar mudo como cestas de flores, as nereidas dependuravam-se da borda dos navios para ouvir as histórias dos viajantes; as musas, de pé, cantavam pelos vales; e a beleza de Vênus era como uma condensação da beleza da Helênia.

Mas aparecera este carpinteiro de Galiléia, e logo tudo acabara! A face humana tornava-se para sempre pálida, cheia de mortificação; uma cruz escura, esmagando a terra, secava o esplendor das rosas, tirava o sabor aos beijos; e era grata ao deus novo a fealdade das formas.

Julgando Lúcifer entristecido, eu procurava consolá-lo: "Deixe estar, ainda há de haver no mundo muito orgulho, muita prostituição, muito sangue, muito furor! Não lamente as fogueiras de Moloque. Há de ter fogueiras de judeus." E ele, espantado: "Eu? Uns ou outros, que me importa, Raposo? Eles passam, eu fico!"

Assim, despercebido, a conversar com Satanás, achei-me no Campo de Santana. E tendo parado, enquanto ele desenvencilhava os cornos dos ramos de uma das árvores, ouvi de repente ao meu lado um berro: "Olha o Teodorico com o Porco-Sujo!" Voltei-me. Era a Titi! A Titi, lívida, terrível, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de suor, acordei.

Topsius gritava, à porta do beliche, alegremente:

- Levante-se, Raposo! Estamos à vista da Palestina!

O Caimão parara; e no silêncio eu sentia a água roçando-lhe o costado, de leve, num murmúrio de mansa carícia. Por que sonhara eu assim, ao avizinhar-me de Jerusalém, com os deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o demônio a todos rebelde? Que suprema revelação me preparava o Senhor?...

Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso embrulho da Mary; subi ao tombadilho, encolhido no meu jaquetão. Um ar fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo um aroma de serra e de flor de laranjeira. O mar emudecera, todo azul, na frescura da manhã. E ante meus olhos pecadores estendia-se a terra da Palestina, arenosa e baixa, com uma cidade escura, rodeada de pomares, toucada no alto de flechas de sol irradiando como os raios de um resplendor de santo.

- Jafa! - gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de louça. - Aí tem o D. Raposo a mais antiga cidade da Ásia, a velhíssima Jepo, anterior ao dilúvio! Tire o barrete, saúde essa anciã dos tempos, cheia de lenda e de história... Foi aqui que o borrachíssimo Noé construiu a sua arca!

Cortejei, assombrado.

- Caramba! Ainda agora a gente chega, já lhe começam a aparecer cousas de religião!

E conservei-me descoberto, porque o Caimão, ao ancorar diante da Terra Santa, tomara o recolhimento de uma capela, cheia de piedosas ocupações e de unção. Um lazarista, de longa sotaina, passeava, com os ossos baixos, meditando o seu breviário. Sumidas dentro dos capuzes negros de lustrina, duas religiosas corriam os dedos pálidos pelas contas dos seus rosários. Ao longo da amurada úmida, peregrinos da Abissínia, hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario de Jafa, aureolado de sol, como para a iluminação de um sacrário. E a sineta à popa tilintava, na brisa salgada, com uma doçura devota de toque de missa...

Mas, vendo uma barcaça escura remar para o Caimão, baixei depressa ao beliche a pôr o meu capacete de cortiça, calçar luvas pretas, para pisar decorosamente a terra do meu Salvador. Ao voltar, bem escovado, bem perfumado, achei a lancha atulhada. E descia, com alvoroço, atrás de um franciscano barbudo, quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos meus braços carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma péla, raspou a borda do bote... Ia sumir-se nas águas amargas! Dei um berro! Uma das religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de misericórdia.

Agradecido, minha senhora! - gritei, enfiado. - E um pacotezinho de roupa! Seja pelo sagrado amor de Maria!

Ela refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como eu me acomodara, mais longe, entre Topsius e o franciscano barbudo que cheirava a alho - a santa criatura guardou o embrulho sobre o seu puro regaço, deitou-lhe mesmo por cima as contas do seu rosário.

O arrais, empunhando o leme, bradou: "Alá é grande, larga!" Os árabes remaram cantando. O sol surgiu por trás de Jafa. E eu, encostado ao meu guarda-chuva, contemplava a pudica religiosa que assim levava, ao colo, para a terra de castidade, a camisinha da Mary.


Era nova; e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim o seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra de uma dolente melancolia. Os beiços tinham perdido toda a cor e todo o calor, para sempre inúteis, destinados somente a beijar os pés arroxeados do cadáver de um deus. Comparada com Mary; rosa de Iorque aberta e sensual, perfumando Alexandria, esta pendia como um lírio ainda fechado e já murcho na umidade de uma capela. Ia certamente para algum hospício da Terra Santa. A vida para ela devia ser uma sucessão de chagas a cobrir de fios e de lençóis, a estender por cima de faces mortas. E era decerto o medo do Senhor que a tornava assim tão pálida.

- Bem tola! - murmurei eu.

Pobre e estéril criatura! Percebeu ela por acaso o que continha aquele embrulho pardo? Sentiu ela subir de lá, e espalhar-se no escuro do seu capuz, um perfume estranho e enlanguescedor de baunilha e de pele amorosa? A quentura do leito revolto, que ficara nas rendas da camisa, atravessou por acaso o papel e veio aquecer-lhe brandamente os joelhos? Quem sabe! Durante um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe roseou a face desmaiada, e que debaixo do hábito, onde brilhava uma cruz, o seu seio arfou, perturbado; mesmo julguei ver lampejar, por entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado, procurando as minhas barbas cerradas e pretas... Mas foi só um relance. Outra vez, sob o capuz, o rosto recaiu na sua frialdade de mármore santo; e sobre o seio submetido, a cruz pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra religiosa, rechonchuda e de lunetas, sorria para o verde-mar, sorria para o sábio Topsius - com um sorriso claro que saía da paz do seu coração e lhe punha uma covinha no queixo.

Apenas saltamos na areia da Palestina, corri a agradecer, de capacete na mão, garboso e palaciano.

- Minha irmã, estou muito penhorado.. Grande desgosto se se perdesse o pacotezinbo!... E de minha tia, uma encomenda para Jerusalém... Lá lhe contarei... A Titi é muito respeitadora de cousas santas; pela-se pela caridade...

Muda, no refolho do seu capuz, ela estendeu-me o embrulhinho com a ponta dos dedos, débeis e mais transparentes que os de uma Senhora da Agonia. E os dous hábitos negros sumiram-se, entre muros faiscantes de cal nova, numa viela em escadas onde apodrecia o cadáver de um cão sob o vôo dos moscardos. Eu murmurei ainda: "Bem tola!"

Quando me voltei, Topsius, à sombra do seu guarda-sol, conversava com o homem prestante, que foi nosso guia através das terras da Escritura. Era moço, moreno, espigado, com longos bigodes esvoaçando ao vento; usava jaqueta de veludilho e botas brancas de montar; as coronhas prateadas de duas pistolas, emergindo de uma faixa de lã negra, armavam-lhe heroicamente o peito forte; e trazia amarrado na cabeça, com as pontas e as franjas atiradas para trás, um lenço rutilante de seda amarela. O seu nome era Paulo Pote; a sua pátria o Montenegro; e toda a costa da Síria o conhecia pelo alegre Pote. Jesus, que alegre matalote! A alegria faiscava-lhe na pupila azul-clara; a alegria cantava-lhe nos dentes incomparáveis; a alegria estremecia-lhe nas mãos buliçosas; a alegria ressoava-lhe no bater dos tacões. Desde Áscalon até aos bazares de Damasco, desde o Carmelo até aos pomares de Engada - ele era o alegre Pote. Estendeu-me rasgadamente a bolsa de tabaco perfumado. Topsius maravilhou-se do seu saber bíblico. Eu, com palmadas pelo ventre, gritei-lhe logo - meu gajo! E, depois de valentes apertos de mão, fomos para o Hotel de Josafate firmar o nosso contrato, bebendo vasta cerveja.

O alegríssimo Pote depressa organizou a nossa caravana para a cidade do Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro árabe, embrulhado num farrapo azul, era tão airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do seu olhar de veludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguia-nos um beduíno, velho, catarroso, com o albornoz de lã de camelo listrado de cinzento, e uma forte lança ferrugenta toda enfeitada de borlas.

Guardei num alforje, desveladamente, o embrulhinho mimoso da camisinha de Mary; depois, já na sela, alongados os loros do pernudo Topsius, o festivo Pote, floreando o chicote, lançou o antigo grito das Cruzadas e de Ricardo-Coração-de-Leão - Avante, a Jerusalém; Deus o quer! E a trote, com os charutos em brasa, saímos de Jafa pela porta do Mercado - à hora em que suavemente tocava a vésperas no Hospício dos Padres Latinos.

Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se através de jardins, hortas, pomares, laranjais, palmeirais, terra de promissão, resplandecente e amável. Por entre as sebes de mirtos perdia-se o fugidio cantar das águas. O ar todo, de uma doçura inefável, como para nele respirar melhor o povo eleito de Deus, era um derramado perfume de jasmins e limoeiros. O grave e pacífico chiar das noras ia adormecendo, ao fim do dia de rega, entre as romãzeiras em flor. Alta e serena no azul, voava uma grande águia.

Consolados, paramos numa fonte de mármore vermelho e negro, abrigada à sombra de sicômoros onde arrulhavam rolas; ao lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto de uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a ocupava saudou-nos em nome de Alá, com a nobreza de um patriarca. A cerveja tinha-me feito sede; foi uma rapariga bela como a antiga Raquel, que me deu a beber do seu cântaro de forma bíblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas de ouro batendo-lhe a face morena, e um cordeirinho branco e familiar preso da ponta da túnica.

A tarde descia, muda e dourada, quando penetramos na planície de Sáron, que a Bíblia outrora encheu de rosas. No silêncio tilintavam os chocalhos de um rebanho de cabras negras, que um árabe ia pastoreando, nu como um São João. Lá ao fundo, os montes sinistros da Judéia, tocados pelo sol oblíquo que se afundava sobre o Mar de Tiro, pareciam ainda formosos, azuis e cheios de doçura de longe, como as ilusões do pecado. Depois tudo escureceu. Duas estrelas de um resplendor infinito apareceram; e começaram a caminhar adiante de nós para os lados de Jerusalém.

O nosso quarto, no Hotel do Mediterrâneo, em Jerusalém, com a sua abóbada caiada de branco, o chão de tijolo, semelhava uma rígida cela de rude mosteiro. Mas, fronteira à janela, um tabique delgado, revestido de papel de ramagens azuis, dividia-o do outro quarto, onde nós sentíamos uma voz fresca cantarolar a Balada do Rei de Tule; e aí, exalando conforto e civilização, brilhava um guarda-roupa de mogno, que eu abri, como se abre um relicário, para encerrar o meu embrulhinho bendito.

Os dous leitozinhos de ferro desapareciam sob as pregas virginais dos cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma mesa de pinho, onde Topsius estudava o mapa da Palestina, enquanto eu, de chinelos, passeava, limando as unhas. Era a devota sexta-feira em que a cristandade comemora, enternecida, os santos mártires de Évora. Nós tínhamos chegado nessa tarde, sob uma chuva triste e miúda, à cidade do Senhor; e de vez em quando Topsius, erguendo os óculos de cima das estradas de Galiléia, contemplava-me de braços cruzados e murmurava com amizade:

- Ora está o amigo Raposo em Jerusalém!

Eu, parando ao espelho, dava um olhar às barbas crescidas, à face crestada, e murmurava também, agradado:

- E verdade, cá está o belo Raposo em Jerusalém!

E voltava, insaciado, a admirar através dos vidros baços a divina Sião. Sob a chuva melancólica erguiam-se defronte as paredes brancas de um convento silencioso, com as persianas verdes corridas, e duas enormes goteiras de zinco a cada esquina, uma escoando-se ruidosamente sobre uma viela deserta, a outra caindo no chão mole de uma horta plantada de couves, onde omeava um jumento. Desse lado, era uma vastidão infindável de telhados em terraço, lúgubres e cor de lodo, com uma cupulazinha de tijolo em forma de forno, e longas varas para secar farrapos; e quase todos decrépitos, desmantelados, misérrimos, pareciam desfazer-se na água lenta que os alagava. Do outro, elevava-se uma encosta atulhada de casebres sórdidos, com verduras de quintal, esfumadas, arrepiadas na névoa úmida; por entre eles, torcia-se uma viela esgalgada, em escadinhas, onde constantemente se cruzavam frades de alpercatas sob os seus guarda-chuvas; sombrios judeus de melenas caídas, ou algum vagaroso beduíno arregaçando o seu albornoz... Por cima pesava o céu pardacento. E assim da minha janela me aparecia a velha Sião, a bem edificada, brilhante de claridade, alegria da terra, e formosa entre as cidades.

- Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é pior que Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um teatro! Nada! Olha que cidade para viver Nosso Senhor!

- Sim! No tempo dele era mais divertida - resmungou o meu sapiente amigo.

E logo me propôs que no domingo partíssemos para as margens do Jordão, onde o reclamavam os seus estudos sobre os Herodes. Aí eu poderia ter deleites campestres, banhando-me nas águas santas, atirando às perdizes, entre as palmeiras de Jericó. Acedi com gosto. E descemos a comer, chamados por uma sineta de convento, funerária e badalando na sombra do corredor.

O refeitório era também abobadado, com uma esteira de esparto sobre o chão de ladrilho; e estávamos sós, o erudito investigador dos Herodes e eu, na mesa tristonha, adornada com flores de papel em vasinhos rachados. Remexendo o macarrão de uma sopa dessaborida, murmurei, sucumbido: "Jesus, Topsius, que grande maçada!" Mas uma porta de vidraça ao fundo abriu-se de leve; e logo exclamei, arrebatado: "Caramba, Topsius, que grande mulher!"

Grande, em verdade! Sólida e saudável como eu; branca, da alvura do linho muito lavado, e picada de sardas; coroada por uma massa ardente de cabelo ondeado e castanho; presa num vestido de sarja azul que os seios rijos quase faziam estalar, ela entrou, derramando um fresco cheiro de sabão Windsor e de água-de-colônia, e logo alumiou todo o refeitório com o esplendor da sua carne e da sua mocidade... O fecundo Topsius comparou-a à fortíssima deusa Cibele.

Cibele sentou-se no topo da mesa, serena e soberba. Ao lado, fazendo ranger a cadeira com o peso dos seus amplos membros, acomodou-se um Hércules tranqüilo, calvo, de espessas barbas grisalhas - que, no mero gesto de desdobrar o guardanapo, revelou a onipotência do dinheiro e o envelhecido hábito de mandar. Por um yes que ela murmurou, compreendi que era da terra de Maricocas. E lembrava-me a inglesa do senhor barão.

Ela colocara junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser de versos; o barbaças, mastigando com o vagar majestoso de um leão, folheava também em silêncio o seu Guia do Oriente. E eu esquecia o meu carneiro guisado, para contemplar devoradamente cada uma das suas perfeições. De vez em quando ela erguia a franja cerrada das suas pestanas; eu esperava com ânsia o dom desse claro e suave olhar; mas ela derramava-o pelos muros caiados, pelas flores de papel, e deixava-o recair, desinteressado e frio, sobre as páginas do seu poema.

Depois do café beijou a mão cabeluda do barbaças; e desapareceu pela porta envidraçada, levando consigo o aroma, a luz, e a alegria de Jerusalém. O Hércules acendeu morosamente o cachimbo; disse ao moço "que lhe mandasse o Ibraim, o guia"; levantou-se, pesado e membrudo. Junto à porta derrubou o guarda-chuva de Topsius, do venerabilíssimo Topsius, glória da Alemanha, membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas; e passou, sem o erguer, nem sequer baixar o olho altivo.

- Irra, bruto! - rosnei, a borbulhar de furor.

O meu douto amigo, com a sua cobardia social de alemão disciplinado, apanhou o seu guarda-chuva e escovou-lhe o paninho, murmurando, já trêmulo, que talvez "o barbaças fosse um duque..."

- Qual duque! Para mim não há duques! Eu sou Raposo, dos Raposos do Alentejo... Rachava-o!

Mas a tarde descia - e devíamos fazer a nossa visita reverente ao sepulcro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o meu chapéu alto, como prometera à Titi; e penetrava no corredor quando vi Cibele abrir a porta, junto da nossa porta, e sair envolta numa capa cinzenta, com uma gorra onde alvejavam duas penas de gaivota. O coração bateu-me no delírio de uma grande esperança. Assim, era ela que cantarolava a Balada do rei de Tule! Assim, os nossos leitos estavam apenas separados pelo fino, frágil tabique coberto de ramarias azuis! Nem procurei as luvas pretas; desci num alvoroço, certo de que a ia encontrar no sepulcro de Jesus; e planeava já verrumar no tabique um buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se nas belezas do seu desalinho.

Ainda chovia, lugubremente. Apenas começamos a atolar-nos no enxurro da Via-Dolorosa, entalada entre muros cor de lodo - chamei Pote para debaixo do meu guarda-chuva, perguntei-lhe se vira no hotel a minha forte e sardenta Cibele. O jucundo Pote já a admirara. E pelo Ibraim, seu compadre dileto, sabia que o barbaças era um escocês, negociante de curtumes...

- Aí está, Topsius! - gritei eu. - Negociante de curtumes... Qual duque! E uma besta! Eu rachava-o! Em cousas de dignidade sou uma fera. Rachava-o!

A filha, a das bastas tranças, dizia Pote, tinha um nome radiante de pedra preciosa: chamava-se Ruby, rubim. Amava os cavalos, era arrojada; na alta Galiléia, de onde vinham, matara uma águia negra...

- Ora aqui têm os cavalheiros a casa de Pilatos...

- Deixa lá a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com Pilatos! E então que diz mais o Ibraim? Desembucha, Pote!

Ali a Via-Dolorosa estreitava-se, abobadada, como um corredor de catacumba. Dous mendigos chaguentos roíam cascas de melões, assapados na lama e grunhindo. Um cão uivava. E o risonho Pote contava-me que o Ibraim vira muitas vezes Miss Ruby enlevada na beleza dos homens da Síria: de noite, à porta da tenda, em quanto o papá cervejava, ela dizia versos baixinho, olhando para a palpitação das estrelas. Eu pensava: "Caramba! Tenho mulher!"

- Ora aqui estão os cavalheiros diante do Santo Sepulcro...

Fechei o meu guarda-chuva. Ao fundo de um adro, de lajes descoladas, erguia-se a fachada de uma igreja, caduca, triste, abatida, com duas portas em arco; uma tapada já a pedregulho e cal, como supérflua; a outra timidamente, medrosamente entreaberta. E aos flancos débeis deste templo soturno, manchado de tons de ruína, colavam-se duas construções desmanteladas, do rito latino e do rito grego - como filhas apavoradas que a morte alcançou, e que se refugiam ao seio da mãe, meio morta também e já fria.

Calcei então as minhas luvas pretas. E imediatamente, um bando voraz de homens sórdidos envolveu-nos com alarido, oferecendo relíquias, rosários, cruzes, escapulários, bocadinhos de tábuas aplainadas por São José, medalhas, bentinhos, frasquinhos de água do Jordão, círios, agnus-dei, litografias da Paixão, flores de papel feitas em Nazaré, pedras benzidas, caroços de azeitona do Monte Olivete, e túnicas "como usava a Virgem Maria!" E à porta do sepulcro de Cristo, onde a Titi me recomendara que entrasse de rastos, gemendo e rezando a coroa - tive de esmurrar um malandrão de barbas de eremita, que se dependurara da minha rabona, faminto, rábido, ganindo que lhe comprássemos boquilhas feitas de um pedaço da arca de Noé!

- Irra, caramba, larga-me, animal!

E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guarda-chuva a pingar, dentro do santuário sublime onde a cristandade guarda o túmulo do seu Cristo. Mas logo estaquei, surpreendido, sentindo um delicioso e grato aroma de tabaco da Síria. Num amplo estrado, afofado em divã, com tapetes da Caramânia e velhas almofadas de seda, reclinavam-se três turcos, barbudos e graves, fumando longos cachimbos de cerejeira. Tinham dependurado na parede as suas armas. O chão estava negro dos seus escarros. E, diante, um servo em farrapos esperava, com uma taça fumegante de café, na palma de cada mão.

Pensei que o catolicismo, previdente, estabelecera à porta do lugar divino uma Loja de bebidas e aguardentes, para conforto dos seus romeiros. Disse baixo a Pote:


- Grande idéia! Parece-me que também vou tomar um cafezinho!

Mas logo o festivo Pote me explicou que esses homens sérios, de cachimbo, eram soldados muçulmanos policiando os altares cristãos, para impedir que em torno ao mausoléu de Jesus se dilacerem, por superstição, por fanatismo, por inveja de alfaias, os sacerdócios rivais que ali celebram os seus ritos rivais - católicos como o Padre Pinheiro; gregos ortodoxos para quem a cruz tem quatro braços; abissínios e armênios, coptas que descendem dos que outrora em Mênfis adoravam o boi Àpis; nestorianos que vêm da Caldéia; georgianos que vêm do Mar Cáspio; maronitas que vêm do Líbano, todos cristãos, todos intolerantes, todos ferozes!... Então saudei com gratidão esses soldados de Maomé que, para manter o recolhimento piedoso em torno do Cristo morto, serenos e armados velam à porta, fumando.

Logo à entrada paramos diante de uma lápide quadrada, incrustada nas lajes escuras, tão polida e reluzindo com um tão doce brilho de nácar, que parecia a água quieta de um tanque, onde se refletiam as luzes das lâmpadas. Pote puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar aquele pedaço de rocha, santa entre todas, que outrora, no jardim de José de Arimatéia...

- Bem sei, bem sei... Beijo, Topsius?

- Vá beijando sempre - disse-me o prudente historiógrafo dos Herodes. - Não se lhe pega nada; e agrada à senhora sua tia.

Não beijei. Em fila e calados, penetramos numa vasta cúpula, tão esfumada no crepúsculo que o círculo de frestas redondas na cimalha brilhava apenas palidamente, como um aro de pérolas em torno de uma tiara; as colunas que a sustentavam, finas e juntas como as lanças de uma grade, riscavam a sombra em redor - cada uma picada pela mancha vermelha e mortal de uma lâmpada de bronze. Ao centro do lajedo sonoro elevava-se, espelhado e branco, um mausoléu de mármore - com lavores e com florões; um velho pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado de bordados de ouro esvaído; e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerários até à porta, estreita como uma fenda, tapada por um traço cor de sangue. Um padre armênio, que desaparecia sob o seu amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e mudamente.

Pote puxou-me outra vez pela manga:

- O túmulo!

Oh minha alma piedosa! Oh Titi! Aí estava pois, ao alcance dos meus lábios, o túmulo do meu Senhor! - E imediatamente rompi como um rafeiro, por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos, a buscar um rosto gordinho e sardento e uma gorra com penas de gaivota! Longamente, errei estonteado... Ora esbarrava num franciscano cingido na sua corda de esparto; ora me arredava diante de um padre copta, deslizando como uma sombra tênue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas sagradas do tempo de Osíris. Aqui topava num montão de roupagens brancas, caído nas lajes como um fardo, de onde se escapavam gemidos de contrição; adiante tropeçava num negro, todo nu, estirado ao pé de uma coluna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro de um órgão ressoava, rolava pelos mármores da nave, morria com um sussurro de vaga espraiada; e logo mais longe um canto armênio, trêmulo e ansioso, batia os muros austeros como a palpitação das asas de uma ave presa que quer fugir para a luz. Junto de um altar apartei dous gordos sacristães, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de birbantes, esbraseados, cheirando a cebola; e fui de encontro a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Cáspio, com os pés doloridos embrulhados em trapos, que não ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as mãos, de onde lhes pendiam grossos rosários de vidro. Crianças, em farrapos, brincavam na escuridão das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso sufocava; e padres de cultos rivais puxavam-me pela rabona para me mostrarem relíquias, rivais, heróicas ou divinas - uns as esporas de Godofredo, outros um pedaço de cana verde.

Atordoado, enfileirei-me numa procissão penitente - onde eu julgara entrever, brancas, altivas, entre véus pretos de arrependimento, as duas penas de gaivota. Uma carmelita, à frente, resmungava a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados num assombro devoto, à porta de capelas cavernosas, dedicadas à paixão - a do Impropério, onde o Senhor foi flagelado, a da Túnica, onde o Senhor foi despido. Depois subimos, de tochas na mão, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha... - E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo, gemendo, flagelando os peitos, clamando pelo Senhor, lúgubre e delirante. Estávamos sobre a pedra do Calvário.

Em torno, a capela que a abriga, resplandecia com um luxo sensual e pagão. No teto azul-ferrete brilhavam sóis de prata, signos do zodíaco, estrelas, asas de anjos, flores de púrpura; e, dentre este fausto sideral, pendiam de correntes de pérolas os velhos símbolos da fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros de Astarté e de Baco de ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Cristo tosco pintado a ouro, que parecia vibrar, viver através do fulgor difuso dos molhos de lumes, da faiscação das alfaias, do fumo dos aromáticos ardendo em taças de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas de ébano, refletiam as jóias dos retábulos, a refulgência das paredes revestidas de jaspe, de nácar e de ágata. E no chão, em meio deste clarão precioso de pedraria e luz, emergindo dentre as lajes de mármore branco, destacava um bocado de rocha bruta e brava, com uma fenda alargada e polida por longos séculos de beijos e de afagos beatos. Um arquidiácono grego, de barbas esquálidas, gritou: "Nesta rocha foi cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kyrie Eleison! Cristo! Cristo!" As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre soluços. Um cântico dolente balançava-se, ao ranger dos incensadores. Kyrie Eleison! Kyrie Eleison! E os diáconos perpassavam rapidamente, sofregamente, com vastos sacos de veludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as oferendas dos simples.

Fugi, aturdido e confuso. O sábio historiador dos Herodes passeava no adro, sob o seu guarda-chuva, respirando o ar úmido. De novo nos acometeu o bando esfaimado dos vendilhões de relíquias. Repeli-os rudemente; e saí do santo lugar como entrara - em pecado e praguejando.

No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impressões do sepulcro de Jesus; eu fiquei no pátio cervejando e cachimbando com o aprazível Pote. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já ressonava, com a vela acesa - e com um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no país do Evangelho, o Homem dos Três Calções. Descalçando os botins, sujos da lama venerável da Via-Dolorosa - eu pensava na minha Cibele. Em que sacratíssimas ruínas, sob que árvores divinizadas por terem dado sombra ao Senhor, passara ela essa tarde nevoenta de Jerusalém? Fora ao Vale do Cédron? Fora ao branco túmulo de Raquel?...

Suspirei, amoroso e moído; e abria os lençóis bocejando - quando distintamente, através do tabique fino, senti um ruído de água despejada numa banheira. Escutei, alvoroçado; e logo nesse silêncio negro e magoado que sempre envolve Jerusalém, me chegou, perceptível, o som leve de uma esponja arremessada na água. Corri, colei a face contra o papel de ramagens azuis. Passos brandos e nus pisavam a esteira que recobria o ladrilho de tijolo; e a água rumorejou, como agitada por um doce braço despido que lhe experimentava o calor. Então, abrasado, fui ouvindo todos os rumores íntimos de um longo, lento, lânguido banho; o espremer da esponja; o fofo esfregar da mão cheia de espuma de sabão; o suspiro lasso e consolado do corpo que se estira sob a carícia da água tépida, tocada de uma gota de perfume... A testa, túmida de sangue, latejava-me; e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda. Tentei verrumá-lo com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na espessura da caliça... Outra vez a água cantou, escoando da esponja; e eu, tremendo todo, julgava ver as gotas vagarosas a escorrer entre o rego desses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de sarja...

Não resisti; descalço, em ceroulas, saí ao corredor adormecido; e cravei à fechadura da sua porta um olho tão esbugalhado, tão ardente - que quase receava feri-la com a devorante chama do seu raio sangüíneo... Enxerguei num círculo de claridade uma toalha caída na esteira, um roupão vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor no pescoço, esperava que ela atravessasse, nua e esplêndida, nesse disco escasso de luz, quando senti de repente, por trás, uma porta ranger, um clarão banhar a parede. Era o barbaças, em mangas de camisa, com o seu castiçal na mão! E eu, misérrimo Raposo, não podia escapar. De um lado estava ele, enorme. Do outro, o topo do corredor, maciço.

Vagarosamente, calado, com método, o Hércules pousou a vela no chão, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas... Eu rugi: "bruto!" Ele ciciou: "silêncio!" E outra vez, tendo-me ali acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nádegas, canelas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranqüilamente, apanhou o seu castiçal. Então eu, lívido, em ceroulas, disse-lhe com imensa dignidade:

- Sabe o que lhe vale, seu bife? E estarmos aqui ao pé do túmulo do Senhor, e eu não querer dar escândalos por causa da minha tia... Mas se estivéssemos em Lisboa, fora de portas, num sitio que eu cá sei, comia-lhe os fígados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta; comia-lhe os fígados!

E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções de arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sião.

Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao Monte das Oliveiras, à fonte clara de Siloé. Eu, dorido, não podendo montar a cavalo, fiquei no sofá de riscadinho com o Homem dos Três Calções. E até para evitar o afrontoso barbaças não desci ao refeitório, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no Mar de Tiro - estava restabelecido e vivaz. Pote preparara para essa noite uma festividade sensual em casa de Fatmé, matrona bem acolhedora, que tinha no bairro dos Armênios um doce pombal de pombas; e nós íamos lá contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a Flor de Jericó, a saracotear essa dança da Abelha, que esbraseia os mais frios e deprava os mais puros...

A recatada portinha da Fatmé, ornada de um pé de vinha seca, abria-se ao canto de um muro negro junto à Torre de Davi. Fatmé esperava-nos, majestosa e obesa, envolta em véus brancos, com fios de corais entre as tranças, os braços nus, tendo cada um a cicatriz escura de um bubão de peste. Tomou-me submissamente a mão, levou-a à testa oleosa, levou-a aos lábios empastados de escarlate, e conduziu-me em cerimônia defronte de uma cortina preta, franjada de ouro como o pano de um esquife. E eu estremeci, ao penetrar enfim nos segredos deslumbradores de um serralho mudo e cheirando a rosa.


Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algodão vermelho encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um divã amassado, revestido de seda amarela, com remendos de seda mais clara. Num bocado de tapete da Pérsia pousava um braseiro de latão, apagado, sob o montão de cinzas; aí ficara esquecido um pantufo de veludo estrelado de lentejoulas. Do teto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nódoa de umidade, pendia, de duas correntes enfeitadas de borlas, um candeeiro de petrolina. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um cheiro adocicado e mole a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poiais da gelosia, corriam carochas.

Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos braços, veio oferecer-nos um café aromático; e quase imediatamente Topsius apareceu, descoroçoado, dizendo que não podíamos saborear a famosa dança da Abelha! A Rosa de Jericó fora bailar diante de um príncipe de Alemanha chegado nessa manhã a Sião, a adorar o túmulo do Senhor. E Fatmé apertava com humildade o coração, invocava Alá, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A Rosa de Jericó fora para o príncipe louro que viera, com cavalos e com plumas, do país dos germanos!...

Eu, despeitado, observei que não era um príncipe; mas minha tia tinha luzidas riquezas; os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alentejo. Se Flor de Jericó estava ajustada para regozijar meus olhos católicos, era uma desconsideração tê-la cedido ao romeiro couraçado, que viera da herege Alemanha...

O erudito Topsius resmungou, alçando o bico com petulância. que a Alemanha era a mãe espiritual dos povos...

- O brilho que sai do capacete alemão, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!

- Sebo para o capacete! A mim ninguém me guia! Eu sou Raposo, dos Raposos do Alentejo!... Ninguém me guia senão Nosso Senhor Jesus Cristo... E em Portugal há grandes homens! Há Afonso Henriques, há o Herculano... Sebo!

Ergui-me, medonho. O sapientíssimo Topsius tremia, encolhido. Pote acudiu:

- Paz, cristãos e amigos, paz!

Topsius e eu recruzamo-nos logo no divã, tendo apertado as mãos, galhardamente e com honra.

Fatmé, no entanto, jurava que Alá era grande e que ela era a nossa escrava. E, se nós a quiséssemos mimosear com sete piastras de ouro, ela em compensação da Rosa de Jericó, oferecia-nos uma jóia inapreciável, uma circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lírios que nascem em Galgalá.

- Venha a circassiana! - gritei, excitado. - Caramba, eu vim aos santos lugares para me refocilar,.. Venha a circassiana! Larga as piastras, Pote! Irra! Quero regalar a carne!

Fatmé saiu, recuando; o festivo Pote reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Então, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve; e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos calções turcos de seda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozelos, onde franziam, fixos por uma liga de ouro; os seus pezinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarelo; e através do véu de gaze que lhe enrodilhava a cabeça, o peito e os braços - brilhavam recamos de ouro, centelhas de jóias, e as duas estrelas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, túmido de desejo.

Por trás dela Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véu devagar, devagar e dentre a nuvem de gaze surgiu um carão cor de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor néscio do sorriso... Pote pulou do divã, injuriando Fatmé, ela gritava por Alá, batendo nos seios, que soavam molemente como odres mal cheios.

E desapareceram, assanhados, levados numa rajada de ira. A circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso pútrido, veio estender-nos a mão suja, a pedir "presentinhos" num tom rouco de aguardente. Repeli-a com nojo. Ela coçou um braço, depois a ilharga; apanhou tranqüilamente o seu véu e saiu arrastando as chinelas.

- Oh, Topsius! - rosnei eu. - Isto parece-me uma grande infâmia!

O sábio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ela é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece...

- Qual alma! Não há alma! O que há é um eminentíssimo desaforo! Na Rua do Arco-do-Bandeira, esta Fatmé tinha já dous murros na bochecha... Irra!

Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas Pote reapareceu, cofiando os bigodões dizendo que por mais nove piastras de ouro, Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Núbia, bela como a noite mais bela do Oriente. E ele vira-a, afiançava-a, valia o tributo de uma fértil província.

Frágil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras de ouro tiniram na mão gordufa de Fatmé.

De novo a porta caiada rangeu, ficou cerrada - e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez cor de bronze, uma esplêndida fêmea, feita como uma Vênus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz e pelos homens, roçando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ágeis; os cabelos hirsutos, lustrosos de óleo, com cequins de ouro entrelaçados, caíam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pescoço e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ébano. De repente saltou convulsamente, repicando a língua, uma ululação desolada: Lu! lu! lu! lu! lu! Atirou-se de bruços para o divã; e estirada, na atitude de uma esfinge, ficou dardejando sobre nós, séria e imóvel, os seus grandes olhos tenebrosos.

- Hem? - dizia Pote, acotovelando-me. - Veja-lhe o corpo... Olhe os braços! Olhe a espinha como arqueia! E uma pantera!

E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor daquela núbia... Certo, pela persistência do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham cativado, desenrosquei-me do divã, fui-me acercando, devagar, como para uma presa certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe "minha lindinha", acariciei-lhe o ombro frio; e logo ao contato da minha pele branca a núbia recuou, arrepiada, com um grito abafado de gazela ferida. Não gostei. Mas quis ser amável. Disse-lhe paternalmente:

- Ah! se tu conhecesses a minha pátria!... E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dafundo, ceia-se no Silva... Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu são bem tratadas; dá-se-lhes consideração, os jornais falam delas, casam com proprietários...

Murmurava-lhe ainda outras cousas profundas e doces. Ela não compreendia o meu falar; e nos seus olhos esgazeados flutuava a longa saudade da sua aldeia da Núbia, dos rebanhos de búfalos que dormem à sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruínas das religiões e os túmulos das dinastias...

Imaginando então despertar o seu coração com a chama do eu, puxei-a para mim, lascivamente. Ela fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cair a cabeça entre as mãos, começou a chorar, longamente.

- Olha que maçada! - gritei, embaçado.

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