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A Relíquia

Eça de Queiroz

E agarrei o capacete, abalei, esgarçando, quase no meu furor o pano preto franjado de ouro. Paramos numa cela ladrilhada onde cheirava mal. E ai bruscamente foi entre Pote e a nédia matrona Uma bulha ferina sobre a paga daquela radiante festa do Oriente; ela reclamava mais sete piastras de ouro; Pote, de bigode eriçado, cuspia-lhe injúrias em árabe, rudes e chocando-se como calhaus se despenham num vale. E saímos daquele lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os braços marcados da peste e nos amaldiçoava, e a nossos pais, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerara, e o pão que comíamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dous cães seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.

Entrei no Hotel do Mediterrâneo, afogado em saudades da minha terra risonha; os gozos de que me via privado nesta lôbrega, inimiga Sião, faziam-me ansiar mais inflamadamente pelos que me daria a fácil, amorável Lisboa, quando, morta a Titi, eu herdasse a bolsa sonora de seda verde!... La não encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! lá nenhum corpo bárbaro fugiria, com lágrimas, à carícia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da Titi, o meu amor não seria jamais ultrajado, nem a minha concupiscência jamais repelida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse, pela minha santidade, cativar a Titi!... E logo, abancando, escrevi à hedionda senhora esta carta terníssima:

"Querida Titi do meu coração! Cada vez me sinto com mais virtude. E atribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao seu santo túmulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina paixão e a pensar na Titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava! E uma rua tão benta, tão benta, que até tenho escrúpulo de a pisar com os botins; e noutro dia não me contive; agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quase toda a rezar à Senhora do Patrocínio, que todo o mundo aqui em Jerusalém respeita muitíssimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito bem razão tinha a minha boa tia (como tem razão em tudo), quando dizia que lá para festas e procissões não há como os nossos portugueses. Pois esta noite, assim que ajoelhei diante da capela da Senhora, depois de seis salve-rainhas, voltei-me para a bela imagem e disse-lhe: - Ai, quem me dera saber como está a minha tia Patrocínio! - E quer a Titi acreditar? Pois olhe, a Senhora, com a sua divina boca, disse-me palavras textuais, que até, para não me esquecerem, as escrevi no punho da camisa: - A minha querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz! E isto não é milagre extraordinário, porque me contam aqui todas as famílias respeitáveis com quem vou tomar chá, que a Senhora e seu divino Filho dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá que já lhe obtive certas relíquias: uma palhinha do presépio, e uma tabuinha aplainada por São José. O meu companheiro alemão, que, como mencionei à Titi na minha carta de Alexandria, é de muita religião e muito sábio, consultou os livros que traz e afirmou-me que a tabuinha era das mesmas que, segundo está provado, São José costumava aplainar nas horas vagas. Em quanto à grande relíquia, aquela que lhe quero levar para a curar de todos os seus males e dar a salvação à sua alma e pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, essa espero em breve obtê-la. Mas por ora não posso dizer nada... Recados aos nossos amigos, em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a Titi deite a sua bênção ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua saúde - Teodorico. – P.S. Ai, Titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse à Santa Verônica que a Titi tinha muita devoção com ela. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito regalada... E o que eu digo aqui a todos estes eclesiásticos e aos patriarcas: é necessário conhecer-se a Titi, para se saber o que é virtude!"

Antes de me despir, fui escutar, colada a orelha ao tabique de ramagens. A inglesa dormia serena, insensível: eu resmunguei, brandindo para lá o punho fechado:

- Besta!

Depois abri o guarda-roupa, tirei o dileto embrulho da camisinha da Mary; depus nele o meu beijo repenicado e grato.

Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jordão.

Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as colinas de Judá! Elas sucedem-se, lívidas, redondas como crânios, ressequidas, escalvadas por um vento de maldição; só a espaços nalguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibração inexorável da luz parece de longe um bolar de velhice e de abandono. O chão faísca, cor de cal. O silêncio radiante entristece como o que cai da abóbada de um jazigo. No fulgor duro do céu rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre... Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruínas de Jericó.

Saboroso foi então descansar sobre macios tapetes, bebendo devagar limonada, na doçura da tarde. A frescura de um riacho alegre, que chalrava junto ao nosso acampamento por entre arbustos silvestres, misturava-se ao aroma da flor que eles davam, amarela como a da giesta; adiante verdejava um prado de ervas altas, avivado pela brancura de vaidosos, lânguidos lírios; junto da água passeavam aos pares pensativas cegonhas. Do lado de Judá erguia-se o Monte da Quarentena, torvo, fusco na sua tristeza de eterna penitência; e para as bandas de Moabe os meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Canaã, areal cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha de uma raça esquecida, até às solidões do Mar Morto.

Fomos, ao alvorecer, com os alforjes fornidos, fazer essa votiva romaria. Era então em dezembro; esse inverno da Síria ia transparentemente doce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o erudito Topsius contava-me como esta planície de Canaã fora outrora toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos entre vinhedos, e de águas de rega refrescando os muros das eiras; as mulheres, toucadas de anêmonas, pisavam a uva cantando; o perfume dos jardins era mais grato ao céu que o incenso; e as caravanas que entravam no vale pelo lado de Ségor achavam aqui a abundância do rico Egito - e diziam que era este em verdade o vergel do Senhor.

- Depois - acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo - um dia o Altíssimo aborreceu-se e arrasou tudo!.

- Mas por quê? Por quê?

- Birra; mau humor; ferocidade...

Os cavalos relincharam sentindo a vizinhança das águas malditas; e bem depressa elas apareceram, estendidas até às montanhas de Moabe, imóveis, mudas, faiscando solitárias sob o céu solitário. Oh tristeza incomparável!. E compreende-se que pesa ainda sobre elas a cólera do Senhor, quando se considera que ali jazem, há tantos séculos, sem uma recreável vila como Cascais; sem claras barracas de lona alinhadas à sua beira; sem regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de galochas, lhe recolham poeticamente as conchinhas na areia; sem que as alegrem, à hora das estrelas, as rabecas de uma assembléia toda festiva e com gás - ali mortas, enterradas entre duas serras como entre as cantarias de um túmulo.

- Além era a cidadela de Maqueros - disse gravemente o erudito Topsius, alçado sobre os estribos, alongando o guarda-sol para a costa azulada do mar. - Ali viveu um dos meus Herodes, Antipas, o tetrarca da Galiléia, filho de Herodes, o Grande; ali, D. Raposo, foi degolado o Batista.

E seguindo a passo para o Jordão (enquanto o alegre Pote nos fazia cigarros do bom tabaco de Alepo), Topsius contou-me essa lamentável história. Maqueros, a mais altiva fortaleza da Ásia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cinqüenta côvados de altura; as águias mal podiam chegar até onde subiam as suas torres. Por fora era toda negra e soturna; mas dentro resplandecia de marfins, de jaspes, de alabastros; e nos profundos tetos de cedro os largos broquéis de ouro suspensos faziam como as constelações de um céu de verão. No centro da montanha, num subterrâneo, viviam as duzentas éguas de Herodes, as mais belas da terra, brancas como o leite, com crinas negras como o ébano, alimentadas a bolos de mel, e tão ligeiras que podiam correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de açucenas. Depois, mais fundo ainda, num cárcere, jazia Iocanã - que a Igreja chama o Batista.

- Mas então, esclarecido amigo, como foi essa desgraça?

- Pois foi assim, D. Raposo... O meu Herodes conhecera em Roma, Herodíade, sua sobrinha, esposa de seu irmão Filipe, que vivia na Itália, indolente e esquecido da Judéia, gozando o luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bela, Herodíade!... Antipas Herodes arrebata-a numa galera para a Síria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do Rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se incestuosamente com Herodíade nessa cidadela de Maqueros. Cólera em toda a devota Judéia, contra este ultraje à lei do Senhor! E então Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Batista, que pregava em vão do Jordão...

- Mas para quê, Topsius?

- Pois para isto, D. Raposo... A ver se o rude profeta acariciado, amimado, amolecido pelo louvor e pelo bom vinho de Siquém, aprovava estes negros amores, e pela persuasão da sua voz, dominante em Judéia e Galiléia, os tomava aos olhos dos fiéis, brancos como a neve do Carmelo. Mas, desgraçadamente, D. Raposo, o Batista não tinha originalidade. Santo respeitável, sim; mas nenhuma originalidade... O Batista imitava em tudo servilmente o grande profeta Elias; vivia num buraco, como Elias; cobria-se de peles de feras, como Elias; nutria-se de gafanhotos, como Elias; repetia as imprecações clássicas de Elias; e como Elias clamara contra o incesto de Acabe, logo o Batista trovejou contra o incesto de Herodíade. Por imitação, D. Raposo!

- E emudeceram-no com a masmorra!

- Qual! Rugiu, pior, mais terrivelmente! E Herodíade escondia a cabeça no manto para não ouvir esse clamor de maldição, saído do fundo da montanha.

Eu balbuciei, com uma lágrima a amolentar-me a pálpebra:

- E Herodes mandou então degolar o nosso bom São João!

- Não! Antipas Herodes era um frouxo, um tíbio... Muito lúbrico, D. Raposo, infinitamente lúbrico, D. Raposo! Mas que indecisão!... Além disso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma irremediável simpatia por profetas. E depois arreceava a vingança de Elias, o patrono, o amigo de Iocanã... Porque Elias não morreu, D. Raposo. Habita o céu vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacável, vociferador e medonho...

- Safa! - murmurei, arrepiado.

- Pois aí está... Iocanã ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e sutil é o ódio da mulher, D. Raposo. Chega, no mês de Esquema, o dia dos anos de Herodes. Há um vasto festim em Maqueros, a que assistia Vitélio, então viajando na Síria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitélio que depois foi senhor do mundo... Pois à hora em que pelo cerimonial das províncias tributárias, se bebia à saúde de César e de Roma, entra subitamente na sala, ao som dos tamborins e dançando à maneira de Babilônia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodíade e de seu marido Filipe, que ela educara secretamente em Cesaréia, num bosque, junto do Templo de Hércules. Salomé dançou, nua e deslumbrante. Antipas Herodes, inflamado, estonteado de desejo, promete dar tudo o que ela pedisse pelo beijo dos seus lábios... Ela toma um prato de ouro, e tendo olhado a mãe, pede a cabeça do Batista. Antipas, aterrado, oferece-lhe a cidade de Tiberíade, tesouros, as cem aldeias de Genesaré... Ela sorriu, olhou a mãe; e outra vez, incerta e gaguejando, pediu a cabeça de Iocanã... Então todos os convivas, saduceus, escribas, homens ricos da Decápola, mesmo Vitélio, e os romanos, gritaram alegremente: "Tu prometeste, tetrarca, tu juraste, tetrarca!" Momentos depois, D. Raposo, um negro de Iduméia entrou, trazendo numa das mãos um alfanje, na outra, presa pelos cabelos, a cabeça do profeta. E assim acabou São João, por quem se canta e se queimam fogueiras numa doce noite de junho...

Escutando, embevecidos e a passo, estas cousas tão antigas, avistamos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da cor do bronze. Pote gritou: "O Jordão! O Jordão!" E arrebatadamente galopamos para o rio da Escritura.

O festivo Pote conhecia, à beira da corrente batismal, um sitio deleitosíssimo para uma sesta cristã; e aí passamos as horas quentes, recostados num tapete, lânguidos, e bebendo cerveja, depois de bem esfriada nas águas do rio santo. Ele faz ali um claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrasada jornada que traz, através do deserto, desde o Lago de Galiléia; e antes de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto - ali preguiça, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de transparência, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme nos sítios mais frescos, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos... Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da Pérsia; entre as ervas balançavam-se flores desconhecidas, das que toucavam outrora as tranças das virgens de Canaã em manhãs de vindima; e na escuridão fofa das ramagens, onde já as não vinha assustar a voz terrível de Jeová, gorjeavam pacificamente as toutinegras. Defronte, elevavam-se, azuis e sem mancha, como feitas de um só bloco de pedra preciosa, as montanhas do Moabe. O céu branco, mudo, recolhido, parecia descansar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando ali vivia, entre preces e mortandades, o sombrio povo de Deus; e onde constantemente batiam as asas dos serafins, e flutuavam as roupagens dos profetas arrebatados pelo Altíssimo, era calmante ver agora passar apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares de Engada.

Obedecendo à recomendação da Titi, despi-me, e banhei-me nas águas do Batista. Ao princípio, enleado de emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete de um altar-mor; e de braços cruzados, nu, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em São Joãozinho, sussurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquela bucólica banheira entre árvores; Pote atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas águas sagradas, trauteando o fado da Adélia.

Ao refrescar, quando montávamos a cavalo, uma tribo de beduínos, descendo das colinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camelos a beber ao Jordão; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lança alta, soltando gritos de batalha, galopavam, num amplo esvoaçar de albornozes; e era como se ressurgisse em todo o vale, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade bíblica, quando Agar era moça! Teso na sela, com as rédeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroísmo; ambicionava uma espada, uma lei, um deus por quem combater... Lentamente alargara-se pela planície sacra um silêncio enlevado. E o mais alto cerro de Moabe cobriu-se de um fulgor raro, cor-de-rosa e cor de ouro, como se nele de novo, fugitivamente, ao passar, se refletisse a face do Senhor! Topsius alçou a mão sapiente:

- Aquele cimo iluminado. D. Raposo, é o Moriá, onde morreu Moisés!

Estremeci. E penetrado pelas emanações divinas dessas águas, desses montes, sentia-me forte - e igual aos homens fortes do Êxodo. Pareceu-me ser um deles, familiar de Jeová, e tendo chegado do negro Egito com as minhas sandálias na mão.. Esse aliviado suspiro que trazia a brisa vinha das tribos de Israel, emergindo enfim do deserto! Pelas encostas além, seguida de uma escolta de anjos, a Arca dourada descia balançada sobre os ombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez, nas secas areias, reverdecia a terra da promissão, Jericó branquejava entre as searas; e através dos palmares cerrados já ressoavam, em marcha, os clarins de Josué!

Não me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaã este urro piedoso:

- Viva Nosso Senhor Jesus Cristo! Viva toda a corte do céu!

Cedo, ao outro dia, domingo, o incansável Topsius partiu, bem enlapisado e bem enguarda-solado, a estudar as ruínas de Jericó, essa velha cidade das palmeiras que Herodes cobrira de termas, de templos, de jardins, de estátuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com Cleópatra... E eu, à porta da tenda, escarranchado num caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacíficos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depenava frangos; o beduíno triste arcava à beira da água o seu pacato alfanje; o nosso lindo arrieiro esquecia a ração às éguas para seguir no céu de um brilho de safira, a branca passagem das cegonhas voando aos pares para Samaria.

Depois pus o capacete, fui vadiar na doçura da manhã, de mãos nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia pensando na Adélia e no Senhor Adelino... Enroscados na alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez chamando carola, enquanto eu passeava ali, nos retiros da Escritura! Àquela hora a Titi, de mantelete preto, com o seu ripanço, saía para a missa de Santana; os criados do Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos bilhares; e o Doutor Margaride, à janela, na Praça da Figueira, pondo os óculos, abria o Dia rio de Notícias. Ó minha doce Lisboa!... Mas ainda mais perto, para além do deserto de Gaza, no verde Egito, a minha Maricoquinhas nesse instante estava enchendo o vaso do balcão com magnólias e rosas; o seu gato dormia no veludo da cadeira; ela suspirava pelo "seu portuguesinho valente..." Suspirei também; mais triste nos lábios se me fez o fado triste.

E de repente, olhando, achei-me, como perdido, num sítio de grande solidão e de grande melancolia. Era longe do regato e dos aromáticos arbustos de flor amarela; já não via as nossas tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo árido, lívido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos como os muros de um poço, tão lúgubres que a luz loura da quente manhã de Oriente desmaiava ali, mortalmente, desbotada e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita de longas barbas medita um in-fólio junto de uma caveira. Mas nenhum solitário aniquilava ali a carne em heróica penitência. Somente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa, com um ar de raridade e de relíquia, como se as penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo de sacrário - erguia-se uma árvore tão repelente, que logo me fez morrer nos lábios o resto do fado triste...

Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de raízes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada na areia; a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pele negra; e da sua cabeça entumecida, de um tom de tição apagado, rompiam, como longas pernas de aranha, oito galhos que contei, pretos, moles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos... Depois de olhar em silêncio para aquele monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:

- Para que viva!

E que me encontrava certamente diante de uma árvore ilustre! Fora um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outrora em forma de coroa por um centurião romano da guarnição de Jerusalém, ornara sarcasticamente, no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro de Galiléia, condenado... Sim, condenado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pátios do templo, dizendo-se filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar contra a velha religião, contra as velhas instituições, contra a velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse galho, por ter tocado os cabelos incultos do rebelde, torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lajedo, à sua passagem, as multidões enternecidas...

No colégio dos Isidoros, às terças e sábados, o sebento Padre Soares dizia esfuracando os dentes - "que havia, meninos, lá num sitio da Judéia..." Era ali! "...uma árvore que segundo dizem os autores é mesmo de arrepiar..." Era aquela! Eu tinha, ante meus frívolos olhos de bacharel, a sacratíssima árvore de espinhos!

E logo uma idéia sulcou-me o espírito, com um brilho de visitação celeste... Levar à Titi um desses galhos, o mais penugento, o mais espinhoso, como sendo a relíquia fecunda em milagres, a que ela poderia consagrar seus ardores de devota e confiadamente pedir as mercês celestiais! "Se entendes que mereço alguma cousa pelo que tenho feito por ti, traze-me então desses santos lugares uma santa relíquia..." Assim dissera a senhora D. Patrocínio das Neves na véspera da minha jornada piedosa, entronada nos seus damascos vermelhos, diante da magistratura e da igreja, deixando escapar uma baga de pranto sob seus óculos austeros. Que lhe podia eu oferecer mais sagrado, mais enternecedor, mais eficaz, que um ramo da árvore de espinhos, colhido no vale do Jordão, numa clara, rosada manhã de missa?

Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação... E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras daquele tronco? E se a Titi começasse a melhorar do fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório, entre lumes e flores, um desses galhos eriçados de espinhos? ó misérrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o princípio milagroso da saúde, e a tornava rija, indestrutível, ininterrável, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver, quando ela começasse a morrer!

Rondando então em torno à árvore de espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: "Anda, monstro, dize! És tu uma relíquia divina com poderes sobrenaturais? Ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Lineu? Fala! Tens tu, como aquele cuja cabeça coroaste por escárnio, o dom de sarar? Vê lá... Se te levo comigo para um lindo oratório português, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chama louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as carícias da oração, não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existência estorvadora, me prives da rápida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéias pueris de caridade e misericórdia, vais com tenção de curar a Titi, então fica-te aí, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silêncio eterno!... Mas se prometes permanecer surdo às preces da Titi, comportar-te como um pobre galho seco e sem influência, e não interromperes a apetecida decomposição dos seus tecidos, então vais ter em Lisboa o macio agasalho de uma capela afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um ídolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não hás de invejar o deus que os teus espinhos feriram... Fala, monstro."

O monstro não falou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa de estio, o pressentimento de que breve a Titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A árvore de espinhos mandava, pela comunicação esparsa da natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquele palpite suave da morte da senhora D. Patrocínio, como uma promessa suficiente de que, transportado para o oratório, nenhum dos seus galhos impediria que o fígado dessa hedionda senhora inchasse e se desfizesse... E isto foi, entre nós, nesse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Mas era esta realmente a árvore de espinhos? A rapidez da sua condescendência, fazia-me suspeitar a excelência da sua divindade. Resolvi consultar o sólido, sapientíssimo Topsius.

Corri à fonte de Eliseu, onde ele rebuscava pedras, lascas, lixos, restos da orgulhosa cidade das palmeiras. Avistei logo o luminoso historiógrafo acocorado junto a uma poça de água, com os óculos sôfregos, escarafunchando um pedaço de pilastra negra, meio enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido da erva tenra, contemplava filosoficamente e com melancolia o afã, a paixão daquele sábio, de rastos no chão, à procura das termas de Herodes.

Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza... Ele ergueu-se logo, serviçal, zeloso, presto às lides do saber.

- Um arbusto de espinhos? - murmurava, estancando o suor. Há de ser o nabka... Banalíssimo em toda a Síria! Hasselquist, o botânico, pretende que daí se fez a coroa de espinhos... Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em forma de coração, como as da hera... Ah, não tem? Perfeitamente, então é o lycium spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradição latina, para a coroa da injúria... Que, quanto a mim, a tradição é fútil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro... Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!

Abalamos. No ermo, ante a árvore medonha, Topsius, alçando catedraticamente o bico, recolheu um momento aos depósitos interiores do seu saber, e depois declarou que eu não podia levar à minha tia devotíssima nada mais precioso. E a sua demonstração foi faiscante. Todos os instrumentos da crucificação (disse ele, floreando o guarda-sol), os pregos, a esponja, a cana verde, um momento divinizados como materiais da divina tragédia, reentraram pouco a pouco, pelas urgências da civilização, nos usos grosseiros da vida... Assim, o prego não ficou per eternum na ociosidade dos altares, memorando as chagas sacratíssimas; a humanidade, católica e comerciante, foi gradualmente levada a utilizar o prego como uma valiosa ferragem; e tendo trespassado as mãos do Messias, ele hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caixões impuríssimos... Os mais reverentes irmãos do Senhor dos Passos, empregam a cana para pescar; ela entra na folgante composição do foguete; e o Estado mesmo (tão escrupuloso em matéria religiosa), assim a usa em noites alegres de nova Constituição, ou em festivos delírios pelas bodas de príncipes... A esponja, outrora embebida no vinagre de sarcasmo e oferecida numa lança, é hoje aproveitada nesses irreligiosos cerimoniais da limpeza, que a Igreja sempre reprovou com ódio... Até a cruz, a forma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significação. A cristandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é berloque; pende nos colares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em botões de punho; e a cruz realmente neste soberbo século pertence mais à ourivesaria do que pertence à religião...

- Mas a coroa de espinhos, D. Raposo, essa não tornou a servir para mais nada!

Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das mãos de um procônsul romano, e ela ficou isoladamente e para toda a eternidade na igreja, comemorando o grande ultraje. Em todo este vário universo, ela só encontra um lugar congênere na penumbra das capelas; o seu único préstimo é persuadir à contrição. Nenhum joalheiro jamais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado louro; ela é só instrumento de martírio; e com salpicos de sangue, sobre os caracóis frisados das imagens, inspira infinitamente as lágrimas... O mais astuto industrial, depois de a retorcer pensativamente nas mãos, restituí-la-ia aos altares como cousa inútil na vida, no comércio, na civilização; ela é só atributo da Paixão, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ela, entre os acessórios da escritura, provoca sinceramente a oração. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de padre-nossos, diante de uma esponja caída numa tina, ou de uma cana à beira de um regato?... Mas para a coroa de espinhos, erguem-se sempre as mãos crentes; e a sensação da sua desumanidade passa ainda na melancolia dos misereres!

Que maior maravilha podia eu levar à Titi?...

- Sim, Topsius, meu catita... Os teus dizeres são de ouro puro... Mas a outra, a verdadeira, a que serviu teria sido tirada daqui, deste tronco? Hem, amiguinho?

O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu lenço de quadrados; e declarou (contra a fútil tradição latina e contra o ignaríssimo Hasselquist) que a coroa de espinhos fora arranjada de uma silva, fina e flexível, que abunda nos vales de Jerusalém, com que se acende o lume, com que se eriçam as sebes, e que dá uma florzinha roxa, triste e sem cheiro... Eu murmurei, sucumbido:

- Que pena! A Titi fazia tanto gosto que fosse daqui, Topsius! A Titi é tão rica!...

Então este sagaz filósofo compreendeu que há razões de família como há razões de Estado, e foi sublime. Estendeu a mão por cima da árvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua ciência, e disse estas palavras memoráveis:

- D. Raposo, nós temos sido bons amigos... Pode pois afiançar à senhora sua tia, da parte de um homem que a Alemanha escuta em questões de crítica arqueológica, que o galho que lhe levar daqui, arranjado em coroa, foi...

- Foi? - berrei ansioso.

- Foi o mesmo que ensangüentou a fronte do Rabi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus de Nazaré, e outros também chamam o Cristo!...

Falara o alto saber germânico! Puxei o meu navalhão sevilhano, decepei um dos galhos. E enquanto Topsius voltava a procurar pelas ervas úmidas a cidadela de Cipron e outras pedras de Herodes, eu recolhi às tendas, em triunfo, com a minha preciosidade. O prazenteiro Pote, sentado num selim, estava moendo café.

- Soberbo galho! - gritou ele. - Quer-se arranjadinho em coroa... Fica de uma devoção!

E logo, com a sua rara destreza de mãos, o jucundo homem entrelaçou o galho rude em forma de coroa santa. E tão parecida! Tão tocante!...

- Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! - murmurava eu, enternecido. - Jesus! O que a Titi se vai babar!

Mas como levaríamos para Jerusalém, através dos cerros de Judá, aqueles incômodos espinhos - que, apenas armados na sua forma passional, pareciam já ávidos de rasgar carne inocente? Para o alegre Pote não havia dificuldades; tirou do fundo do seu provido alforje uma fofa nuvem de algodão em rama; envolveu nela delicadamente a coroa do agravo, como uma jóia frágil; depois, com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate, fez um embrulho redondo, sólido, ligeiro e nítido... E eu, sorrindo, enrolando o cigarro, pensava nesse outro embrulho de rendas e laços de seda, cheirando a violeta e a amor, que ficara em Jerusalém, esperando por mim e pelo favor dos meus beijos.

- Pote, Pote! - gritei, radiante. - Nem tu sabes que grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro desse pacotinho!

Apenas Topsius voltou da sacra fonte de Eliseu - eu ofereci, para celebrar o encontro providencial da grande relíquia, uma das garrafas de Champagne, que Pote trazia nos alforjes, encarapuçadas de ouro. Topsius bebeu "à ciência!" Eu bebi "à religião!" E largamente a espuma de Moed et Chandon regou a terra de Canaã.

À noite, para maior festividade, acendemos uma fogueira; e as mulheres árabes de Jericó vieram dançar diante das nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por sobre Moabe, para os lados de Maqueros, a lua aparecia, fina e recurva, como esse alfanje de ouro que decepou a cabeça ardente de Iocanã.

O embrulho da coroa de espinhos estava à beira do meu catre. O lume apagara-se; o nosso acampamento dormia no infinito silêncio do Vale da Escritura... Tranqüilo, regalado, adormeci também.

CAPÍTULO III

Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trêmula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda, e através dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:

- Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalém!

Arrojei a manta, assustado; e vi o doutíssimo Topsius, que, à luz mortal de uma vela, bruxuleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era ele que me despertava, açodado, fervoroso:

- A pé, Teodorico, a pé! As éguas estão seladas! Amanhã é Páscoa! Ao alvorecer devemos chegar às portas de Jerusalém!

Arredando os cabelos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado doutor:

- Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforjes, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?

O erudito homem alçou os seus óculos de ouro que resplandeciam com uma desusada, irresistível intelectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em pregas graves e puras de toga latina; e lento, esguio, abrindo os braços, disse, com lábios que pareciam clássicos e de mármore:

- D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os cimos do Hébron, é a de 15 do mês de Nizam; e não houve em toda a história de Israel, desde que as tribos voltaram da Babilônia, nem haverá, até que Tito venha pôr o último cerco ao templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalém para ver, viva e rumorejando, esta página do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Páscoa à casa de Gamaliel, que é um amigo de Hilel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanedrim. Foi ele que disse: "para te livrares do tormento da dúvida, impõe-te uma autoridade". Portanto, a pé, D. Raposo!

Assim murmurou o meu amigo, ereto e lento. E eu, submissamente, como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar em silêncio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas me agasalhei no albornoz, ele empurrou-me com impaciência para fora da tenda, sem mesmo me deixar recolher o relógio e a faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha...

Devia ser meia-noite. Dous cães ladravam ao longe, surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio e ermo cheirava a rosas de vergel e à flor da laranjeira. O céu de Israel faiscava com desacostumado esplendor; e em cima do Monte Nebo, um belo astro mais branco, de uma refulgência divina, olhava para mim, palpitando ansiosamente, como se procurasse, cativo na sua mudez, dizer um segredo à minha alma!

As éguas esperavam, imóveis sob as longas crinas. Montei. E então, enquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros, avistei, para os lados da fonte do Eliseu, uma forma maravilhosa que me arrepiou de terror transcendente.

Era, ao clarão diamantino das estrelas da Síria, como a branca muralha de uma cidade nova! Frontões de templos alvejavam palidamente, entre a espessura de bosques sagrados; para as colinas distantes, fugiam esbatidos os arcos ligeiros de um aqueduto. Uma chama fumegava no alto de uma torre; mais baixo, movendo-se, faiscavam pontas de lanças; um som longo de buzina morria na sombra... E abrigada junto aos bastiões, uma aldeia dormia entre palmeiras.

Topsius, na sela, pronto a marchar, embrulhara a mão nas crinas da égua.

- Aquilo, branco, além? - murmurei, sufocado.

Ele disse simplesmente:

- Jericó.

Rompeu, galopando. Não sei quanto tempo segui, emudecido, o nobre historiador dos Herodes; era por uma estrada direita, feita de lajes negras de basalto. Ah! que diferente do áspero caminho por onde tínhamos descido a Canaã, faiscante e cor de cal, através de colinas onde o tojo escasso semelhava, na irradiação da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em redor me parecia diferente também: a forma das rochas, o cheiro da terra quente, até a palpitação das estrelas... Que mudança se fizera em mim, que mudança se fizera no Universo? Por vezes uma faísca dura saltava das ferraduras das éguas. E sem descontinuar, Topsius galopava, agarrado às crinas, com as duas bandas da capa branca batendo como os dous panos de uma bandeira...

Mas subitamente parou. Era junto de uma casa quadrada, entre árvores, toda apagada e muda, tendo no topo uma haste sobre que pousava estranhamente, como recortada numa lâmina de ferro, a figura de uma cegonha. À entrada esmorecia uma fogueira; remexi as achas; e à curta chama que ressaltou, compreendi que era uma antiga estalagem à beira de uma antiga estrada. Por baixo da cegonha, encimando a porta estreita e eriçada de pregos, brilhava em negro, numa lápide branca, a tabuleta latina - Ad Gruem Majorem; e ao lado, enchendo parte da fachada, desenrolava-se uma inscrição rudemente entalhada na pedra, que eu decifrei a custo, e em que Apolo prometia a saúde ao hóspede, e Septimano, o hospedeiro, lhe garantia risonha acolhida, o banho reparador, vinho forte da Campânia, frescos palhetes de Engada, e "todas as comodidades à maneira de Roma".

Murmurei, desconfiado:

- À maneira de Roma!

Que estranhos caminhos ia eu então trilhando? Que outros homens, dessemelhantes de mim, no falar e no traje, bebiam ali, sobre a proteção de outros deuses, o vinho em ânforas do tempo de Horácio?...

Mas de novo Topsius marchou, esguio e vago, na noite. Agora findara a estrada de basalto sonoro; e subíamos a passo um brusco caminho, cavado entre rochas, onde grossos pedregulhos ressoavam, rolavam sobre as patas das éguas, como no leito de uma torrente que um lento agosto secou. O erudito doutor, sacudido na sela, praguejava roucamente contra o Sanedrim, contra a hirta lei judaica, oposta indobravelmente a toda a obra culta que quer fazer o procônsul... Sempre o fariseu via com rancor o aqueduto romano que lhe trazia a água, a estrada romana que o levava às cidades, a romana que lhe curava as pústulas...

- Maldito seja o fariseu!

Sonolento, rememorando velhas imprecações do Evangelho, eu rosnava, encolhido no meu albornoz:

- Fariseu, sepulcro caiado... Maldito seja!

Era a hora calada em que os lobos dos montes vão beber. Cerrei os olhos; as estrelas desmaiavam.

Breves faz o Senhor as noites macias do mês de Nizam, quando se come em Jerusalém o anho branco de Páscoa; e bem cedo o céu se vestiu de alvo do lado do país de Moabe.

Despertei. Já os gados balavam nos cerros. O ar fresco cheirava a rosmaninho.

E então avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pele de carneiro, que me recordou Elias e todas as cóleras da Escritura; o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre a grenha e a barba, rudes, emaranhadas, fazendo-lhe como uma juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente... Descobriu-nos; e logo, estendendo os braços como quem arremessa pedras, despediu sobre nós todas as maldições do Senhor! Chamou-nos "pagãos", chamou-nos "cães"; gritava: "malditas sejam as vossas mães, secos sejam os peitos que vos criaram"! Cruéis e cheios de presságios caíam os seus brados do alto das rochas; e, retardado pelos passos lentos da égua, Topsius encolhia-se na capa, como sob uma saraiva inclemente. Até que me enfureci; voltei-me na anca da cavalgadura, chamei-lhe bêbedo, atirei-lhe obscenidades; e via no entanto, sob a chama selvagem dos seus olhos, a boca clamorosa e negra torcer-se-lhe, babar-se de furor devoto...

Mas, desembocando da ravina, encontramos, larga e lajeada, a estrada romana que vai a Siquém; e trotando por ela, sentimos o alívio de penetrar enfim numa região culta, piedosa, humana e legal. A água abundava; sobre as colinas erguiam-se fortalezas novas; pedras sagradas delimitavam os campos. Nas eiras brancas, os bois enfeitados de anêmonas pisavam o trigo da colheita de Páscoa; e em vergéis, onde a figueira já tinha enfolhado, o servo na sua torre caiada, cantando com uma vara na mão, afugentava os pombos bravos. Por vezes, avistávamos um homem, de pé, junto da sua vinha, ou à beira dos canais de rega, direito, com a ponta do manto atirada por cima da cabeça, e os olhos baixos, dizendo a santa oração do Esquema. Um oleiro, que espicaçava o seu burro, carregado de cântaros de barro amarelo, gritou-nos: "Benditas sejam as vossas mães! Boa vos seja a Páscoa!" E um leproso, que descansava à sombra, nos olivedos, perguntou-nos, gemendo e mostrando as chagas, qual era em Jerusalém o Rabi que curava, e aonde se apanhava a raiz do baraz.

Já nos aproximávamos de Betânia. Para dar de beber às éguas, paramos numa linda fonte que um cedro assombreava. E o douto Topsius, arranjando um loro, admirava-se de não termos encontrado a caravana, que vem de Galiléia celebrar a Páscoa a Jerusalém - quando soou, adiante, na estrada, um rumor lento de armas em marcha... E eu vi, assombrado, aparecerem soldados romanos, desses que tantas vezes amaldiçoara em estampas da Paixão!

Barbudos, tostados pelo sol da Síria, marchavam solidamente, em cadência, com um passo bovino, fazendo ressoar sobre as lajes as sandálias ferradas; todos traziam às costas os escudos envoltos em sacos de lona; e cada um erguia ao ombro uma alta forquilha, de onde pendiam trouxas encordeladas, pratos de bronze, ferramentas e cachos de tâmaras. Algumas filas, descobertas, seguravam o capacete como um balde; outras, nas mãos cabeludas, balançavam um dardo curto. O decurião, gordo e louro, seguido de uma gazela familiar, enfeitada com corais, dormitava, ao passo miúdo da égua, embrulhado num manto escarlate. E atrás, ao lado das mulas carregadas de sacos de trigo e molhos de lenha, os arrieiros cantavam ao som de uma flauta de barro, tocada por um negro quase nu, que linha no peito, em traços vermelhos, o número da legião.

Eu recuara para o escuro do cedro. Mas Topsius, logo, como um germano servil, desmontara, ajoelhando quase no pó, ante as armas de Roma; e não se conteve; berrou, agitando os braços e a capa:

- Longa vida a Caio Tibério, três vezes cônsul, ilírico, panônico, germânico, imperador, pacificador e augusto!...


Alguns legionários riram, crassamente. E passaram, cerrados, com um rumor de ferro - enquanto um pegureiro, ao longe, arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos cerros.

De novo galopamos. A estrada de basalto findou; e penetramos entre arvoredos, num aroma de pomares, através de abundância e frescura.

Oh, que diferentes se mostravam estes caminhos, estas colinas, que eu vira dias antes, em torno à Cidade Santa, dessecadas por um vento de abstração, e brancas, da cor das ossadas... Agora tudo era verde, regado, murmuroso, e com sombras. A mesma luz perdera o tom magoado, a cor dorida, com que eu sempre a vira, cobrindo Jerusalém; as folhas dos ramos de abril desabrochavam num azul, moço, tenro, cheio de esperança como elas. E a cada instante se me iam os olhos longamente nesses vergéis da Escritura, que são feitos da oliveira, da figueira e da vinha, e onde crescem silvestres, e mais esplêndidos que o Rei Salomão, os lírios vermelhos dos campos!

Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido de uma sebe toda entrelaçada de rosas. Mas Topsius deteve-me; mostrou-me no alto de um outeiro, sobre um fundo sombrio de ciprestes e cedros, uma casa abrindo, para o lado do Oriente e da luz, o seu pórtico branco. Pertencia, disse ele, a um romano, parente de Valério Grato, antigo Legado Imperial da Síria; e tudo ali parecia penetrado de paz amável e de graça latina. Um tapete viçoso, de relva bem lisa, estendia-se em declive até uma álea de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com linhas de flores escarlates, as iniciais de Valério Grato; em redor, entre canteiros de rosas, de açucenas, orladas de mirto, resplandeciam nobres vasos de mármore coríntico, onde se enrolavam folhas de acanto; um servo, de capuz cinzento, talhava um teixo em forma de urna, ao lado de um buxo alto já talhado sabiamente em feitio da lira; aves domésticas picavam o chão, coberto de areia escarlate, numa rua de plátanos onde os braços de hera faziam, de tronco a tronco, festões como os que ornam um templo; a rama dos loureiros velava de sombras a nudez das estátuas. E sob um caramanchão de vinha, ao rumor da água lenta cantando numa bacia de bronze, um velho de toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem de Esculápio um longo rolo de papiro, enquanto uma rapariga, com uma flecha de ouro nas tranças, toda vestida de linho alvo, fazia uma grinalda com as flores que lhe enchiam o regaço... Ao passo dos nossos cavalos, ela ergueu os olhos claros. Topsius gritou: Oh, salve, pulquerríma! Eu gritei - Viva la gracia! Os melros cantavam nas romãzeiras em flor.

Mais adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontando-me outra vivenda de campo, escura e severa entre ciprestes; e disse-me baixo que era de Osânias, um rico saduceu de Jerusalém, da família pontifical de Boetos, e membro do Sanedrim. Nenhum ornato pagão lhe profanava os muros. Quadrada, fechada, hirta, ela reproduzia a austeridade da lei. Mas os largos celeiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as riquezas feitas de duros tributos; no pátio dez escravos não bastavam a guardar os sacos de trigo, odres, carneiros marcados de vermelho, recolhidos em pagamento do dízimo nesse dia de Páscoa. Junto à estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura doméstica.

Assim caminhando chegamos aos palmares onde se aninha Betfagé. E por um atalho virente que Topsius conhecia, começamos a subir o Monte das Oliveiras, até o lagar da Moabita - que é uma paragem de caravanas nessa infinita, vetusta via real que vem do Egito, seguindo até Damasco, a bem regada.

E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o monte, por entre os olivedos da encosta até ao Cédron, por entre os pomares do vale até Siloé, em meio dos túmulos novos dos sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a estrada de Hébron, o despertar rumoroso de todo um povo acampado! Tendas negras do deserto, feitas de peles de carneiro e rodeadas de pedras; barracas de lona, da gente da Iduméia, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas com ramos, onde se abrigam os pastores de Ascalon; toldos de tapetes que os peregrinos de Neftali suspendem em varas de cedro; era toda a Judéia, às portas de Jerusalém, a celebrar a Páscoa sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava um posto de legionários, os mercadores gregos da Decápola, tecelões fenícios de Tiberíade, e a gente pagã que, através de Samaria, vem dos lados de Cesaréia e do mar.

Fomos marchando, lentos e cautelosos. A sombra das oliveiras os camelos descarregados ruminavam placidamente; e as éguas da Pérea, com as patas entravadas, pendiam a cabeça sob a espessura das longas crinas. Junto às tendas, cujos panos meio levantados nos deixavam entrever brilhos de armas penduradas, ou o esmalte de um grande prato, raparigas, com os braços reluzindo de braceletes, pisavam entre duas pedras o grão do centeio; outras mungiam as cabras; por toda a parte se acendiam fogos claros; e com os filhos pela mão, o cântaro esguio ao ombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de Siloé.

As patas dos nossos cavalos prendiam-se nas cordas retesadas das barracas dos idumeus. Depois estávamos diante de tapetes alastrados, onde um mercador de Cesaréia, com um manto a cartaginesa, vistoso e bordado de flores, expunha peças de linho do Egito, estendia sedas de Cós, fazia reluzir armas marchetadas; ou com um frasco na palma de cada mão, celebrava as perfeições do nardo da Assíria e dos óleos doces da Pártia... Os homens em redor, arredando-se, demoravam em nós os seus olhos lânguidos e altivos; por vezes murmuravam uma injúria surda; ou por causa dos óculos do douto Topsius, um riso de escárnio mostrava dentes agudos de fera, entre rudes barbas negras.


Sobre as árvores, encostados aos muros, filas de mendigos ganiam, mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante de uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro como um sileno, apregoava o vinho fresco de Siquém, as favas novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em torno dos gigos de fruta. Um pastor de Áscalon, em andas, no meio de um rebanho de cordeiros brancos, tocava buzina, chamando os devotos a comprar o anho puro da Páscoa. E por entre a multidão onde constantemente se erguiam paus, em lixas bruscas, soldados romanos rondavam aos pares, com um ramo de oliveira no capacete, benignos e paternais.

Assim chegamos junto de dous altos, frondosos cedros, tão cobertos de pombas brancas voando, que eram como duas grandes macieiras, na primavera, que um vento estivesse destoucando das flores. Subitamente, Topsius parara, abria os braços; eu também; e com o coração suspenso ali ficamos imóveis, deslumbrados, vendo lá embaixo, na luz, resplandecer Jerusalém.

O sol banhava-a, suntuosamente! Uma severa altiva muralha, guarnecida de torres novas, com portas onde as cantarias se entremeavam de lavores de ouro, erguia-se sobre a ribanceira escarpada do Cédron, já seco pelos calores de Nizam, e ia correndo, cingindo Sião, para o lado de Hínon e até aos cerros de Garebe. E, dentro, em face aos cedros que nos assombreavam, o templo, sobre os seus alicerces eternos, parecia dominar toda a Judéia, soberbo em esplendor, murado de granitos polidos, armado de bastiões de mármore, como a refulgente cidadela de um deus!...

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