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A Relíquia

Eça de Queiroz

Debruçado sobre as crinas, o sapiente Topsius apontava-me o adro primordial, chamado o Pátio dos Gentílicos, vasto bastante para receber todas as multidões de Israel, todas as da terra pagã; o chão liso rebrilhava como a água límpida de uma piscina; e as colunas de mármore de Paros que o ladeavam, formando os pórticos de Salomão, profundos e cheios de frescura, eram mais bastas que os troncos nos cerrados palmares de Jericó. Em meio desta área, cheia de ar e de luz, elevava-se, em escadarias lustrosas como se fossem de alabastro, com portas chapeadas de prata, arcarias, torreões de onde voavam pombas, um nobre terraço só acessível aos fiéis da lei, ao povo eleito de Deus, o orgulhoso Adro de Israel. Daí erguia-se ainda, com outras claras escadarias, outro branco terraço, o Átrio dos Sacerdotes; no brilho difuso que o enchia, negrejava um enorme altar de pedras brutas, enristando a cada ângulo um sombrio como de bronze; aos lados dous longos fumos direitos, subiam devagar, mergulhavam no azul com a serenidade de uma prece perenal. E, ao fundo, mais alto, ofuscante, com os seus recamos de ouro sobre a alvura dos mármores, níveo e fulvo, como feito de ouro puro e neve pura, refulgia maravilhosamente, lançando o seu clarão aos montes em redor, o Híeron, o santuário dos santuários, a morada de Jeová; sobre a porta pendia o véu místico, tecido em Babilônia, cor do fogo e cor dos mares; pelas paredes trepava a folhagem de uma vinha de esmeralda, com cachos de outras pedrarias; da cúpula irradiavam longas lanças de ouro, que o aureolavam de raios como um sol; e assim, resplandecente, triunfante, augusto, precioso, ele elevava-se para aquele céu de festa pascal, ofertando-se todo, como o dom mais belo, o dom mais raro da terra!

Mas ao lado do templo, mais alto que ele, dominando-o com a severidade de um amo orgulhoso, Topsius mostrou-me a Torre Antônia, negra, maciça, impenetrável, cidadela de forças romanas... Na plataforma, entre as ameias, movia-se gente armada; sobre um bastião, uma figura forte, envolta num manto vermelho de centurião, estendia o braço; e toques lentos de buzina pareciam falar, dar ordens, para outras torres que ao longe se azulavam no ar límpido, algemando a Cidade Santa. César pareceu-me mais forte que Jeová!

E mostrou-me ainda, para além da Antônia, o velho burgo de Davi. Era um tropel de casas cerradas, caiadas de fresco sobre o azul, descendo como um rebanho de cabras brancas para um vale ainda em sombra, onde uma praça monumental se abria entre arcarias; depois trepava, fendido em ruas tortuosas, a espalhar-se sobre a colina fronteira de Acra, rica, com palácios, e cisternas redondas que luziam à luz semelhantes a broquéis de aço. Mais longe ainda, para além de velhos muros derrocadas, era o bairro novo de Bezeta, em construção; o circo de Herodes arredondava aí as suas arcarias; e os jardins de Antipas estiravam-se por um último outeiro, até junto ao túmulo de Helena, assoalhados, frescos, regados pelas águas doces de Enrogel.

- Ah Topsius, que cidade! - murmurei maravilhado.

- Rabi Eliézer diz que não viu jamais cidade bela, quem não viu Jerusalém!

Mas ao nosso lado passava gente alegre, correndo para os lados da verde estrada que sobe de Betânia; e um velho que puxava à pressa a arreata do seu burro, carregado de molhos de palmas, gritou-nos que se avistara e vinha chegando a caravana da Galiléia! Então, curiosos, trotamos até um cômoro, junto a uma sebe de cactos, onde já se apinhavam mulheres com os filhos ao colo, sacudindo véus claros, soltando palavras de bênção e de boa acolhida; e logo vimos, numa poeirada lenta que o sol dourava, a densa fila dos peregrinos que são os derradeiros a chegar a Jerusalém, vindos de longe, da alta Galiléia, desde Gescala e dos montes. Um rumor de cânticos enchia a estrada festiva; em torno a um estandarte verde agitavam-se palmas e ramos floridos de amendoeira; e os grandes fardos, carregando o dorso dos camelos, balanceavam em cadência por entre os turbantes brancos cerrados e movendo-se em marcha.

Seis cavaleiros da guarda babilônica de Antipas Herodes, tetrarca de Galiléia, escoltavam a caravana desde Tiberíade; traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tranças, as pernas ligadas em tiras de couro amarelo; e caracolavam à frente, fazendo estalar numa das mãos açoites de corda, com a outra atirando ao ar e aparando alfanjes que faiscavam. Logo atrás era uma colegiada de levitas, em coro, a passos largos, apoiados a bordões enfeitados de flores, com os rolos da lei apertados sobre o peito, salmodiando rijo os louvores de Sião. E em tomo moços robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam para o céu furiosamente em trompas recurvas de bronze.

Mas, dentre a gente apertada à beira da estrada, rompeu uma aclamação. Era um velho, sem turbante, de cabelos soltos, recuando e dançando freneticamente; das mãos cabeludas que ele agitava no ar saía um repique de castanholas; ora arremessava uma perna, ora outra; e toda a sua face barbuda de rei Davi ardia com um fulgor inspirado. Atrás dele, raparigas, pulando compassadamente sobre a ponta ligeira das sandálias, feriam com dolência harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam do alto os tamborins - e as suas manilhas de prata brilhavam no pó que os seus pés levantavam, sob a roda das túnicas enfunadas... Então, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas rituais e os salmos de peregrinação.

Meus passos vão todos para ti, ó Jerusalém! Tu és perfeita! Quem te ama conhece a abundância!

E eu bradava também, transportado:

- Tu és o palácio do Senhor, ó Jerusalém, e o repouso do meu coração!

Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas, em burros, veladas e rebuçadas, semelhavam grandes sacos moles; as mais pobres, a pé, traziam nas pontas dobradas do manto frutas e o grão da aveia. Os previdentes, já com a sua oferenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro branco; os mais fortes seguravam às costas, presos pelos braços, os doentes, cujos olhos dilatados, nas faces maceradas, procuravam ansiosamente as muralhas da Cidade Santa, onde todo o mal se cura.

Entre os peregrinos e a alegre multidão que os acolhia, as bênçãos cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos vizinhos, pelas searas ou pelos avós que tinham ficado na aldeia à sombra da sua vinha; e ouvindo que lhe fora roubada a pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas de um Abraão, arremessou-se a terra a arrepelar-se e a esfarrapar a túnica. Mas já, fechando a marcha, passavam as mulas com guizos carregadas de lenha e de odres de azeite; e atrás uma turba de fanáticos que nos arredores, em Betfagé e em Refraim, se tinham juntado à caravana, apareceu, atirando para os lados cabaças de vinho já vazias, brandindo facas, pedindo a morte dos samaritanos e ameaçando a gente pagã...

Então seguindo Topsius, trotei de novo através do monte, para junto dos cedros cobertos do vôo alvo das pombas; e nesse instante também os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam enfim Jerusalém, que resplandecia lá embaixo formosa, toda branca na luz... Então foi um santo, tumultuoso, inflamado delírio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura; um clamor de orações subia ao céu puro, por entre o estridor das tubas; as mulheres erguiam os filhos nos braços, ofertando-os arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam imóveis, como assombrados, ante os esplendores de Sião; e quentes lágrimas de fé, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terraços do templo, as ruas antigas, os sacros lugares da história de Israel: "ali é a porta de Efraim, acolá era a torre das Fornalhas; aquelas pedras brancas, além, são do túmulo de Raquel..." E os que escutavam em redor, apinhados, batiam as mãos, gritavam "Bendita sejas, Sião!" Outros, estonteados, com o cinto desapertado, corriam tropeçando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a trocar a moeda romana, a comprar o anho da oferta. Por vezes, dentre as árvores, um canto subia, claro, fino, cândido, e que ficava tremendo no ar; a terra um momento parecia escutar, como o céu; serenamente, Sião rebrilhava; do templo os dous fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna... Depois o canto morria; de novo as bênçãos rompiam, clamorosas; a alma inteira de Judá abismava-se no resplendor do santuário; e braços magros erguiam-se freneticamente para estreitar Jeová.

De repente Topsius colheu-me as rédeas da égua; e quase ao meu lado um homem, com uma túnica cor de açafrão, surgindo esgazeado detrás de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou para cima de uma pedra e gritou desesperadamente:

- Homens de Galiléia, acudi, e vós, homens de Neftali!

Peregrinos correram, erguendo os bastões; e as mulheres saiam das tendas, pálidas, apertando os filhos ao colo. O homem fazia tremer a espada no ar; todo ele tremia também; e outra vez bradou, desoladamente:

- Homens de Galiléia, Rabi Jeschoua foi preso! Rabi Jeschoua foi levado a casa de Hanão, homens de Neftali!

- D. Raposo - disse Topsius então, com os olhos faiscantes - o Homem foi preso, e compareceu já diante do Sanedrim!... Depressa, depressa, amigo, a Jerusalém, à casa de Gamaliel!

E à hora em que no templo se fazia a oferta do perfume, quando o sol já ia alto sobre o Hébron, Topsius e eu penetramos, pela porta do Pescado, a passo, numa rua da antiga Jerusalém. Era íngreme, tortuosa, poeirenta, com casas baixas e pobres de tijolo; sobre as portas, fechadas por uma correia, sobre as janelas esguias como fendas gradeadas, havia verduras e palmas entretecidas, fazendo ornatos de páscoa. Nos terraços, rodeados de balaustradas, mulheres diligentes sacudiam os tapetes, joeiravam o trigo; outras, chalrando, penduravam lâmpadas de barro em festões para as iluminações rituais.

Ao nosso lado ia marchando fatigado um harpista egípcio, com uma pluma escarlate presa na peruca frisada, um pano branco envolvendo-lhe a cinta fina, os braços pesados de braceletes, e a harpa às costas, recurva como uma foice e lavrada em flores de lótus. Topsius perguntou-lhe se ele vinha de Alexandria. E ainda se cantavam, nas tabernas do Eunotos, as cantigas da batalha de Ácio? O homem, logo mostrando num riso triste os dentes longos, pousou a harpa, ia ferir os bordões... Picamos as éguas; e assustamos duas mulheres cobertas de véus amarelos, com casais de pombas enroladas na ponta do manto, que se apressavam decerto para o templo, airosas, ligeiras, fazendo retinir os guizos das suas sandálias.

Aqui e além um lume caseiro ardia no meio da rua, com trempes, caçarolas, de onde saía um cheiro acre de alho; crianças de ventre enorme que rolavam nuas pela poeira, roendo vorazmente cascas de abóbora crua, ficavam pasmadas para nós, com grandes olhos ramelosos onde fervilhavam moscas. Diante de uma forja, um bando hirsuto de pastores de Moabe esperavam, enquanto dentro, martelando num nimbo de chispas, os ferreiros lhes batiam ferros novos para as lanças. Um negro, com um pente em forma de sol toucando-lhe a carapinha, apregoava, num grito lúgubre, bolos de centeio de feitios obscenos.

Calados, atravessamos uma praça, clara e lajeada, que andava em obras. Ao fundo uma casa de banhos, moderna, uma terma romana, estendia com ar de luxo e de ociosidade a longa arcada do seu pórtico de granito; no pátio interior, por entre os plátanos que o refrescavam, cujos ramos suspendiam velários de linho alvo, corriam escravos nus, reluzentes de suor, levando vasos de essências e braçadas de flores; das aberturas gradeadas, ao rés das lajes, saía um bafo mole de estufa que cheirava a rosa. E sob uma das colunas vestibulares, onde uma lápide de ônix indicava a entrada das mulheres, estava de pé, imóvel, ofertando-se aos votos como um ídolo, uma criatura maravilhosa; sobre a sua face redonda, de uma brancura de lua cheia, com lábios grossos, rubros de sangue, erguia-se a mitra amarela das prostitutas da Babilônia; dos ombros fortes, por cima da túmida rijeza dos seios direitos, caía, em pregas duras de brocado, uma dalmática negra radiantemente recamada de ramagens cor de ouro. Na mão tinha uma flor de cacto; e as suas pálpebras pesadas, as pestanas densas, abriam-se e fechavam-se em ritmo, ao mover onduloso de um leque que uma escrava preta, agachada a seus pés balançava cantando. Quando os seus olhos se cerravam, tudo em redor parecia escurecer; e quando se levantava a negra cortina das suas pestanas, vinha dessa larga pupila um clarão, uma influência, como a do sol do meio-dia no deserto, que abrasa e vagamente entristece. E assim se ofertava, magnífica, com os seus grandes membros de mármore, a sua mitra fulva, lembrando os ritos de Astarté e de Adônis, lasciva e pontifical...

Toquei no braço de Topsius, murmurei, pálido:

- Caramba! Vou aos banhos!

Seco, empertigado na sua capa branca, ele volveu asperamente:

- Espera-nos Gamaliel, filho de e Simeão. E a sabedoria dos rabis lá disse que a mulher é o caminho da iniquidade!

E bruscamente penetrou numa lobrega viela, toda abobadada; as patas das éguas, ferindo as lajes, acirraram contra nós uivos de cães, maldições de mendigos, amontoados juntos no escuro. Depois saltamos por uma brecha da antiga muralha de Ezequiá, passamos uma velha cisterna seca onde os lagartos dormiam; e trotando pela poeira solta de uma longa rua, entre muros caiados que reluziam e portas besuntadas de alcatrão, paramos no alto diante de uma entrada mais nobre, em arco, com uma grande baixa de arame que a defendia dos escorpiões. Era a casa de Gamaliel.

No meio de um vasto pátio ladrilhado, escaldando ao sol, um limoeiro toldava a água clara de um tanque. Em volta, sobre pilastras de mármore verde, corria uma varanda, silenciosa e fresca, de onde pendia, aqui e além, um tapete da Assíria com flores bordadas. Um puro azul brilhava no alto; - e ao canto, sob um alpendre, um negro, atrelado por cordas como uma alimária a uma barra de pau, calçado de ferraduras, vincado de cicatrizes, ia fazendo gemer e girar, lentamente, a grande mó de pedra do moinho doméstico.

No escuro de uma porta apareceu um homem obeso, sem barba, quase tão amarelo como a túnica lassa que o envolvia todo; tinha na mão uma vara de marfim e mal podia erguer as pálpebras moles.

- Teu amo? - gritou-lhe Topsius, desmontando.

Entra - disse o homem numa voz fugidia e fina como silvo de cobra.

Por uma escadaria rica de granito negro chegamos a um patamar, onde pousavam dous candelabros, espigados como os arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas; e entre eles estava de pé, diante de nós, Gamaliel, filho de Simeão. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa, perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral pendurado de uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado de fios de pérolas, descobria uma tira de pergaminho colada sobre a testa e cheia de textos sagrados; sob aquela alvura, os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro. Uma longa túnica azul cobria-o até às sandálias, orlada de compridas franjas que arrastavam; e cozidas às mangas, enroladas nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho, onde negrejavam outras escrituras rituais.

Topsius saudou-o à moda do Egito, deixando cair lentamente a mão até à joalheira da sua calça de lustrina. Gamaliel alargou os braços e murmurou, como salmodiando:

- Entrai, sede bem-vindos, comei e regozijai-vos...

E atrás de Gamaliel, pisando um chão sonoro de mosaico, penetramos numa sala onde se achavam três homens. Um, que se afastou da janela para nos acolher, era magnificamente belo, com longos cabelos castanhos, pendendo em anéis doces em torno de um pescoço forte, macio e branco como um mármore corintio; na faixa negra que lhe apertava a túnica brilhava, com pedrarias, o punho de ouro de uma espada curta. O outro, calvo, gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e tão lívida que parecia coberta de farinha, ficara encruzado, embrulhado no seu manto cor de vinho, sobre um divã feito de correias, tendo uma almofada de púrpura debaixo de cada braço; e o seu gesto de acolhida foi mais distraído e desdenhoso, do que a esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quase se prostrara, a beijar os seus sapatos redondos de couro amarelo, atados por fios de ouro, porque aquele era o venerando Osânias, da família pontifical de Beotos, ainda do sangue real de Aristóbolo! O outro homem não o saudamos, nem ele também nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no capuz de uma túnica de linho mais alvo que a neve fresca, como mergulhado numa oração; e só de vez em quando se movia, para limpar as mãos lentamente a uma toalha da fina brancura da túnica, que lhe pendia de uma corda, apertada à cintura, grossa e cheia de nós, como as que cingem os monges.

No entanto, descalçando as luvas, eu examinava o teto da sala, todo de cedro, com lavores retocados de escarlate. O azul liso e lustroso das paredes era como a continuação daquele céu do Oriente, quente e puro, que resplandecia através da janela, onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo solitário de madressilva. Sobre uma tripeça, incrustada de nácar, num incensador de bronze, fumegava uma resina aromática.

Mas Gamaliel aproximara-se, e depois de ter olhado duramente as minhas botas de montar, disse com lentidão:

- A jornada do Jordão é longa, deveis vir esfomeados...

Murmurei polidamente uma recusa... E ele, grave como se recitasse um texto:

- A hora do meio-dia é a mais grata ao Senhor. José disse a Benjamim: "tu comerás comigo ao meio-dia". Mas a alegria do hóspede é também doce ao muito alto, ao muito forte... Estais fracos, ides comer, para que a vossa alma me abençoe.

Bateu as palmas; um servo, com os cabelos apertados num diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio de água tépida que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as mãos; outro ofereceu bolos de mel sobre viçosas folhas de parra; outro verteu, em taças de louça brilhante, um vinho forte e negro de Emaús. E para que o hóspede não comesse só, Gamaliel partiu um gomo de romã, e com as pálpebras cerradas levou à beira dos lábios uma malga, onde boiavam pedaços de gelo entre flores de laranjeira.

- Pois agora - disse eu lambendo os dedos - tenho lastro até ao meio-dia...

- Que a tua alma se regozije!

Acendi um cigarro, debrucei-me na janela. A casa de Gamaliel ficava num alto, decerto por trás do templo, sobre a colina de Orfel; ali o ar era tão doce e macio, que só o sentir a sua carícia enchia de paz o coração. Por baixo corria a muralha nova erguida por Herodes, o Grande; e para além floriam jardins e pomares, dando sombra ao Vale da Fonte, e subindo até à colina, em que branquejava, calada e fresca, a aldeia de Siloé. Por uma fenda, entre o Monte do Escândalo e a Colina dos Túmulos, eu via resplandecer o Mar Morto como uma chapa de prata; as montanhas de Moabe ondulavam depois, suaves, de um azul apenas mais denso que o do céu; e uma forma branca, que parecia tremer na vibração da luz, devia ser a cidadela de Maqueros sobre o seu rochedo, nos confins da Iduméia. No terraço relvoso de uma casa, ao pé das muralhas, uma figura imóvel, abrigada sob um alto guarda-sol franjado de guizos, olhava como eu para esses longes da Arábia; e ao lado uma rapariga, ligeira e delgada, com os braços nus e erguidos, chamava um bando de pombas que esvoaçavam em redor. A túnica aberta descobria-lhe o seiozinho cheio de seiva; e era tão linda, morena e dourada pelo sol, que eu ia, no silêncio do ar, atirar-lhe um beijo... Mas recolhi, ouvindo Gamaliel que dizia, como o homem do manto cor de açafrão no Monte das Oliveiras: "Sim esta noite, em Betânia, Rabi Jeschoua foi preso..."

Depois ajuntou, lento, com os olhos semicerrados, erguendo por entre os dedos os longos fios da barba:

- Mas Pôncio teve um escrúpulo... Não quis julgar um homem de Galiléia, que é súdito de Antipas Herodes... E como o tetrarca veio à Páscoa a Jerusalém, Pôncio mandou o Rabi à sua morada, a Bezeta...

Os doutos óculos de Topsius rebrilharam de espanto.

- Cousa estranha! - exclamou, abrindo os braços magros. - Pôncio escrupuloso, Pôncio formalista! E desde quando respeita Pôncio a judicatura do tetrarca? Quantos pobres galileus não fez ele matar sem licença do tetrarca, quando foi da revolta do aqueduto, quando espadas romanas, por ordem de Pôncio, misturaram, nos pátios do templo, o sangue dos homens de Neftali ao sangue dos bois do sacrifício!

Gamaliel murmurou sombriamente:

- O romano é cruel, mas escravo da legalidade.

Então Osânias, filho de Beotos, disse com um sorriso mole e sem dentes, agitando de leve, sobre a púrpura das almofadas, as mãos resplandecentes de anéis:

- Ou talvez seja que a mulher de Pôncio proteja o Rabi.

Gamaliel, surdamente, amaldiçoou o impudor da romana. E como os óculos de Topsius interrogavam o venerando Osânias, ele admirou-se que o doutor ignorasse cousas tão conversadas no templo, até pelos pastores que vêm da Iduméia vender os cordeiros da oferenda. Sempre que o Rabi pregava no Pórtico de Salomão, do lado da Porta Susa, Cláudia vinha vê-lo do alto do terraço da Torre Antônia, só, envolta num véu negro... Menahem, que guardava no mês de Tebete a escadaria dos Gentis, vira a mulher de Pôncio acenar com o véu ao Rabi. E talvez Cláudia, saciada de Cápreas, de todos os cocheiros do circo, de todos os histriões de Suburra, e dos brinquedos de Atalanta que fizeram perder a voz ao cantor Ácio, quisesse provar, vindo à Síria, a que sabiam os beijos de um profeta de Galiléia...

O homem vestido de linho alvo ergueu bruscamente a face, sacudindo o capuz de sobre os cabelos revoltos; o seu largo olhar azul fulgurou por toda a sala, num relâmpago, e apagou-se logo, sob a humildade grave das pestanas que se baixaram... Depois murmurou, lento e severo:

- Osânias, o Rabi é casto!

O velho riu, pesadamente. Casto, o Rabi! E então essa galiléia de Magdala, que vivera no bairro de Bezeta, e nas festas do Prurim se misturava com as prostitutas gregas às portas do teatro de Herodes?... E Joana, a mulher de Cosna, um dos cozinheiros de Antipas? E outra de Efraim, Susana, que uma noite, a um gesto do Rabi, a um aceno do seu desejo, deixara o tear, deixara os filhos, e com o pecúlio doméstico, escondido na ponta do manto, o seguira até Cesaréia?...

- Oh Osânias! - gritou, batendo palmas folgazãs, o homem formoso que tinha uma espada com pedrarias. - Oh filho de Beotos, como tu conheces, uma a uma, as incontinências de um Rabi galileu, filho das ervas do chão e mais miserável que elas!

Nem que se tratasse de Élio Lama, nosso legado imperial, que o Senhor cubra de males!

Os olhos de Osânias, miudinhos como duas contas de vidro negro, reluziram de agudeza e malícia.

- Oh Manassés! E para que vós outros, os patriotas, os puros herdeiros de Judas de Galaunítida, não nos acuseis sempre, a nós saduceus, de saber só o que se passa no átrio dos sacerdotes e nos eirados da casa de Hanão...

Uma tosse rouca reteve-o um espaço, sufocando, sob a ponta do manto em que vivamente se embuçara. Depois, mais quebrado, com laivos roxos na face farinhenta:

- Que em verdade foi justamente na casa de Hanão que ouvimos isto a Menahem, passeando todos debaixo da vinha... E mesmo nos contou ele que esse Rabi de Galiléia chegava, no seu impudor, a tocar fêmeas pagás, e outras mais impuras que o porco... Um levita viu-o, na estrada de Siquém, erguer-se afogueado, detrás da borda de um poço, com uma mulher de Samaria!

O homem coberto de alvo linho ergueu-se de um salto, todo direito e trêmulo; e no grito que lhe escapou, havia o horror de quem surpreendeu a profanação de um altar!

Mas Gamaliel, com uma seca autoridade, cravou nele os olhos duros:

- Oh Gade, aos trinta anos o Rabi não é casado! Qual é o seu trabalho? Onde está o campo que lavra? Alguém jamais conheceu a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos e vive do que lhe ofertam essas mulheres dissolutas! E que outra cousa fazem esses moços sem barba de Sibáris e de Lesbos, que passeiam todo o dia na Via Judiciária, e que vós outros, essênios, abominais de tal sorte, que correis a lavar as vestes numa cisterna, se um deles roça por vós?... Tu ouviste Osânias, filho de Beotos... Só Jeová é grande! E em verdade te digo que, quando Rabi Jeschoua, desprezando a lei, dá à mulher adúltera um perdão que tanto cativa os simples, cede à frouxidão da sua moral e não à abundância da sua misericórdia!

Com a face abrasada, e atirando os braços ao ar, Gade bradou:

- Mas o Rabi faz milagres!

E foi o famoso Manassés, com um sereno desdém, que respondeu ao essênio:

- Sossega, Gade, outros têm feito milagres! Simão de Samaria fez milagres. Fê-los Apolônio, e fê-los Gabieno... E que são os prodígios do teu galileu comparados aos das filhas do Grão-Sacerdote Ánio, e aos do sábio Rabi Quequiná?

E Osânias escarnecia a simpleza de Gade:

- Em verdade, que aprendeis vós outros, essênios, no vosso oásis de Engada? Milagres! Milagres até os pagãos os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde estão as fábricas de papiros, e vês lá magos fazendo milagres por uma dracma, que é o preço de um dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, então é divino o peixe Oanes, que tem barbatanas de nácar e prega nas margens do Eufrates, em noites de lua cheia!

Gade sorria com altivez e doçura. A sua indignação expirara sob a imensidão do seu desdém. Deu um passo vagaroso, depois outro, e considerando, apiedadamente, aqueles homens enfatuados, endurecidos e cheios de irrisão:

- Vós dizeis, vós dizeis, vãos à maneira de moscardos que zumbem! Vós dizeis, e vós não o ouvistes! Em Galiléia, que é bem fértil, bem verde, quando ele falava era como se corresse uma fonte de leite em terra de fome e secura: até a luz parecia um bem maior! As águas, no Lago de Tiberíade, amansavam para o escutar; e aos olhos das crianças que o rodeavam, subia a gravidade de uma fé já madura... Ele falava; e como pombas que desdobram as asas e voam da porta de um santuário, nós víamos desprender-se dos seus lábios, irem voar por sobre as nações do mundo, toda a sorte de cousas nobres e santas, a caridade, a fraternidade, a justiça, a misericórdia, e as formas novas, belas, divinamente belas, do amor!

A sua face resplandecia, enlevada para os céus, como seguindo o vôo dessas novas divinas. Mas já do lado, Gamaliel, doutor da lei, o rebatia com uma dura autoridade:

Que há de original e de individual em todas essas idéias, homem? Pensas que o rabi as tirou da abundância do seu coração? Está cheia delas a nossa doutrina!... Queres ouvir falar de amor, de caridade, de igualdade? Lê o livro de Jesus, filho de Sidrá... Tudo isso o pregou Hilel; tudo isso o disse Esquemaia! Cousas tão justas se encontram nos livros pagãos que são, ao pé dos nossos, como o lodo ao pé da água pura de Siloé!... Vós mesmos, os essênios, tendes preceitos melhores!... Os rabis de Babilônia, de Alexandria, ensinaram sempre leis puras de justiça e de igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iocanã, a quem chamais o Batista, que lá acabou tão miseravelmente num ergástulo de Maqueros.

- Iocanã! - exclamou Gade, estremecendo, como rudemente acordado da suavidade de um sonho.

Os seus olhos brilhantes umedeceram. Três vezes, curvado para o chão, com os braços abertos, repetiu o nome de Iocanã, como chamando alguém dentre os mortos. Depois, com duas lágrimas rolando pela barba, murmurou muito baixo, numa confidência que o enchia de terror e de fé:

- Fui eu que subi a Maqueros a buscar a cabeça do Batista! E quando descia o caminho, com ela embrulhada no meu manto, ainda a outra, Herodíade, estirada por sobre a muralha como a fêmea lasciva do tigre, rugia e me gritava injúrias!... Três dias e três noites segui pelas estradas de Galiléia, levando a cabeça do justo pendurada pelos cabelos... Às vezes, detrás de um rochedo, um anjo surgia todo coberto de negro, abria as asas e punha-se a caminhar ao meu lado...

De novo a cabeça lhe pendeu, os seus duros joelhos ressoaram nas lajes; e ficou prostrado, orando ansiosamente, com os braços estendidos em cruz.

Então Gamaliel adiantou-se para o sábio Topsius; e, mais direito que uma coluna do templo, com os cotovelos colados à cinta, as mãos magras espalmadas para fora:

- Nós temos uma lei; a nossa lei é clara. Ela é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: "Eu sou Jeová, o eterno, o primeiro e o último; o que não transmite a outros nem o seu nome, nem a sua glória; antes de mim não houve deus algum, não existe deus algum ao meu lado, não haverá deus algum depois de mim..." Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: "Se pois entre vós aparecer um profeta, um visionário que faça milagres e queira introduzir outro deus e chame os simples ao culto desse deus, esse profeta e visionário morrerá!" Esta é a lei, esta é a voz do Senhor. Ora, o Rabi de Nazaré proclamou-se deus em Galiléia, nas sinagogas, nas ruas de Jerusalém, nos pátios santos do templo... O Rabi deve morrer.

Mas o famoso Manassés, cujo lânguido olhar entenebrecia como um céu onde vai trovejar, interpôs-se entre o doutor da Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repeliu a letra cruel da doutrina:

Não, não! Que importa que a lâmpada de um sepulcro diga que é o sol? Que importa que um homem abra os braços e grite que é um deus? As nossas leis são suaves; por tão pouco não se vai buscar o carrasco ao seu covil a Garebe...

Eu, caridoso, ia louvar Manassés. Mas já ele bradava, com violência e fervor.

- Todavia, esse Rabi de Galiléia deve decerto morrer, porque é um mau cidadão e um mau judeu! Não o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a César? O Rabi estende a mão a Roma; o romano não é o seu inimigo. Há três anos que prega, e ninguém jamais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o estrangeiro. Nós esperamos um messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, néscio e verboso, declara que traz só o pão da verdade! Quando há um pretor romano em Jerusalém; quando são lanças romanas que velam às portas do nosso Deus, a que vem esse visionário falar do pão do céu e do vinho da verdade? A única verdade útil é que não deve haver romanos em Jerusalém!...

Osânias, inquieto, olhou a janela cheia de luz, por onde as ameaças de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discípulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paixão:

- Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céu, é fazer-lhes esquecer o dever


forte para com o reino da terra, para esta terra de Israel que está em ferros, e chora e não quer ser consolada! O Rabi é traidor à Pátria! O Rabi deve morrer!

Trêmulo, agarrara a espada; e o seu olhar alargava-se, com uma fulguração de revolta, como chamando avidamente os combates e a glória dos suplícios.

Então Osânias ergueu-se apoiado a um bastão que rematava numa pinha de ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuviar a sua velhice leviana. E começou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do entusiasmo e da doutrina aponta o mandato iniludível da necessidade:

- Decerto, decerto, pouco importa que um visionário se diga messias e filho de Deus; ameace destruir a lei e destruir o templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade... Mas, oh Manassés, as nossas leis são suaves; e não creio que se deva ir acordar o carrasco a Garebe, porque um Rabi de Galiléia, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudência e malícia nas relações com o romano! Ó Manassés, robustas são as tuas mãos; mas podes tu, com elas, desviar a corrente do Jordão, da terra de Canaã para a terra da Tracaunítida? Não. Nem podes também impedir que as legiões de César, que cobriram as cidades da Grécia, venham cobrir o país de Judá! Sábio e forte era Judas Macabeu, e fez amizade com Roma... Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando ele vem, o insensato oferece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe à sua morgada e está quieto. Indomável era a Galácia; Filipe e Perseu tinham exércitos na planície; Antíoco, o Grande comandava cento e vinte elefantes e carros de guerra inumeráveis... Roma passou; deles que resta? Escravos, pagando tributos...

Curvara-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miúdos que dardejavam um brilho inexorável e frio, prosseguiu, sempre de manso e sutil:

- Mas em verdade vos digo, que esse Rabi de Galiléia deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas, apagar depressa com a sandália, sobre as lajes da eira, a fagulha que ameaça inflamar-lhe a meda... Com o romano em Jerusalém, todo aquele que venha e se proclame Messias, como o de Galiléia, é nocivo e perigoso para Israel. O romano não compreende o reino do céu que ele promete; mas vê que essas prédicas, essas exaltações divinas, agitam sombriamente o povo dentro dos pórticos do templo... E então diz: "na verdade este templo, com o seu ouro, as suas multidões, e tanto zelo, é um perigo para a autoridade de César na Judéia..." E logo, lentamente, anula a força do templo diminuindo a riqueza, os privilégios do seu sacerdócio. Já para nossa humilhação, as vestes pontificais são guardadas no erário da Torre Antônia; amanhã será o candelabro de ouro! Já o pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corbã! Amanhã os dízimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da oferenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituais, todos os haveres do sacerdócio, até as viandas dos sacrifícios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bordão para irmos mendigar nas estradas de Samaria, à espera dos mercadores ricos da Decápola... Em verdade vos digo, se quisermos conservar as e os tesouros, que são nossos pela antiga lei, e que fazem o esplendor de Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!... O Rabi deve morrer!

Assim diante de mim falou Osânias, filho de Beotos, e membro de Sanedrim.

Então o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverência as mãos sobre o peito, saudou três vezes aqueles homens facundos. Gade, imóvel, orava. No azul da janela uma abelha cor de ouro zumbia, em tomo da flor de madressilva. E Topsius dizia com pompa:

- Homens que me haveis acolhido! A verdade abunda nos vossos espíritos, como a uva abunda nas videiras! Vós sois três torres que guardais Israel entre as nações; uma defende a unidade da religião; outra mantém o entusiasmo da pátria; e a terceira, que és tu, venerando filho de Beotos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salomão, protege uma cousa mais preciosa, que é a ordem!... Vós sois três torres; e contra cada uma o Rabi de Galiléia ergue o braço e lança a primeira pedrada! Mas vós guardais Israel e o seu Deus e os seus bens, e não vos deveis deixar derrocar!... Em verdade, agora o reconheço, Jesus e o judaísmo nunca poderiam viver juntos.

E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara frágil, disse, mostrando os dentes brancos:

- Por isso o crucificamos!

Foi como uma faca acerada que, lampejando e salvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, sufocado, a manga do douto historiador:

- Topsius! Topsius! Quem é esse Rabi que pregava em Galiléia e faz milagres e vai ser crucificado?

O sábio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que, dalém d9s montes, traz a luz da manhã. Depois, secamente:

- Rabi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazaré em Galiléia, a quem alguns chamam Jesus e outros também chamam o Cristo.

- O nosso! - gritei, vacilando, como um homem atordoado. E os meus joelhos católicos quase bateram as lajes, num impulso de ficar ali caído, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chamejou por todo o meu ser o desejo de correr ao seu encontro e pôr os meus olhos mortais no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!... E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha num áspero vento, tremia a minha alma num terror sombrio, o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado, com jejuns e terços, para afrontar a face fulgurante do meu Deus? Não! Oh mesquinha e amarga deficiência da minha devoção! Eu não beijara jamais, com suficiente amor, o seu pé dorido e roxo na sua Igreja da Graça! Ai de mim! Quantos domingos, nesses tempos carnais em que a Adélia, sol da minha vida, me esperava na Travessa dos Caídas, fumando e em camisa, não maldissera eu a lentidão das missas e a monotonia dos septenários! E sendo assim, do crânio à sola dos pés uma crosta de pecado, como poderia meu corpo não tombar, já réprobo, já tisnado, quando os dous globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céu, se voltassem vagarosamente para mim?

Mas ver Jesus! Ver como eram os seus cabelos, que pregas fazia a sua túnica, e o que acontecia na terra quando os seus lábios se abriam!... Para além desses eirados onde as mulheres atiravam grãos às pombas; numa dessas ruas de onde me chegava claro e cantado o pregão dos vendedores de pães ázimos, ia passando talvez, nesse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas mãos. A lenta aragem que balançava na janela o ramo de madressilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de roçar a fronte do meu Deus, já ensangüentada de espinhos! Era só empurrar aquela porta de cedro, atravessar o pátio onde gemia a mó do moinho doméstico, e logo, na rua, eu poderia ver, presente e corpóreo, o meu Senhor Jesus tão realmente e tão bem como o viram São João e São Mateus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco - onde cairia também a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem - beijaria a pegada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as mãos o barulho do meu coração, eu poderia surpreender, saído da sua boca inefável, um ai, um soluço, um queixume, uma promessa! Eu saberia então uma palavra nova do Cristo, não escrita no Evangelho; e só eu teria o direito pontifical de a repelir às multidões prostradas. A minha autoridade surgia, na Igreja, como a de um testamento novíssimo. Eu era uma testemunha inédita da paixão. Tomava-me S. Teodorico Evangelista!

Então, com uma desesperada ansiedade, que espantou aqueles orientais de maneiras mesuradas, eu gritei:

- Onde o posso ver? Onde está Jesus de Nazaré, meu Senhor?

Nesse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandálias, veio cair de bruços nas lajes, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da túnica; as suas costelas magras arquejavam; por fim murmurou, exausto:

- Amo, o Rabi está no Pretório!

Gade emergiu da sua oração com um salto de fera, apertou em torno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabelos revoltos. Topsius traçara a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solenidade de um mármore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel à de Abraão, bradou-me triunfantemente:

- Ao Pretório!

Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalém, numa caminhada ofegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passamos junto a um jardim de rosas, do tempo dos profetas, esplêndido e silencioso que dous levitas guardavam com lanças douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatizada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de tabuletas em forma de flores e de almofarizes; um toldo de esteiras finas assombreava as portas; o chão estava regado e juncado de erva-doce e de folhas de anêmonas; e pela sombra preguiçavam moços lânguidos, de cabelos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mãos pesadas de anéis, as sedas roçagantes das túnicas cor de cereja e cor de ouro. Além dessa rua indolente abria-se uma praça, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam; solitária, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, imóvel e como de bronze; e ao fundo, negrejavam na luz as colunatas de granito do velho palácio de Herodes. Aí era o Pretório.

Defronte do arco de entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dous legionários da Síria - um bando de raparigas, tendo detrás da orelha, uma rosa e no regaço coifas de esparto, apregoavam os pães ázimos. Sob um enorme guarda-sol de penas, cravado no chão, homens de mitra de feltro, com tábuas sobre os joelhos e balanças, trocavam a moeda romana. E os vendedores de água, com os seus odres felpudos, lançavam um grito trêmulo. Entramos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pátio, aberto sob o azul, lajeado de mármore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terraço, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do palácio, estendia-se um velário, de um estofo escarlate franjado de ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura; dous mastros de pau de sicômoro sustentavam-no, rematados por uma flor de lótus.

Aí apertava-se um magote de gente - onde se confundiam as túnicas dos fariseus orladas de azul, o rude saião de estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galiléia, e a capa carmesim de grande capuz dos mercadores de Tiberíade; algumas mulheres, já fora do abrigo do velário, alçavam-se na ponta das chinelas amarelas, estendendo por cima do rosto contra o sol uma dobra do manto ligeiro; e daquela multidão saía um cheiro morno de suor e de mirra. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lança. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres de uma toga pretexta, e mais imóvel que um mármore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha; os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos; uma fita escarlate prendia-lhe os cabelos; e por trás, sobre um pedestal que fazia espaldar à sua cadeira curul, a figura de bronze da loba romana abria de través a goela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquele magistrado melancólico.

- Um certo Pôncio, chamado Pilatos, que foi prefeito em Batávia.

Lentamente caminhei pelo pátio, procurando, como num templo, fazer mais sutil e respeitoso o ruído das minhas solas. Um grave silêncio caía do céu rutilante; só, por vezes, rompia do lado dos jardins, áspero e triste, o gritar dos pavões. Estendidos no chão, junto à balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma coluna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crianças, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lajes.

Subitamente, alguém familiar tocou no ombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com ele vinha um velho magnífico, de uma nobreza de pontífice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da samarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa de óleo, caía-lhe até à faixa que o cingia; e os ombros largos desapareciam sob a esparsa abundância dos cabelos alvos, saindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reais. Uma das mãos, cheia de anéis, apoiava-se a um forte bastão de marfim; e a outra conduzia uma criança pálida, que tinha os olhos mais belos que estrelas, e semelhava, junto ao ancião, um lírio à sombra de um cedro.

- Subi à galeria - disse-nos Manassés. - Tereis lá repouso e frescura...

Seguimos o patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro tão velho, tão augusto.

- Rabi Robã - murmurou com veneração o meu douto amigo. - Uma luz do Sanedrim, facundo e sutil entre todos, e confidente de Caifás...

Reverente, saudei três vezes Rabi Robã - que se sentara num banco de mármore, pensativo, aconchegando, sobre o seu vasto peito ancestral, a cabeça da criança mais loura que os milhos de Jopé. Depois continuamos devagar pela galeria sonora e clara na sua extremidade brilhava uma porta suntuosa de cedro com chapas de prata lavradas; um pretoriano de Cesaréia guardava-a, sonolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Aí, comovido, caminhei para o parapeito; e logo os meus olhos mortais encontraram lá embaixo a forma encarnada do meu Deus!

Mas, oh rara surpresa da alma variável; não senti êxtase nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memória longos, laboriosos séculos de história e de religião. Nem pensei que aquele homem seco e moreno fosse o remidor da humanidade... Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já não era Teodorico Raposo, cristão e bacharel; a minha individualidade como que a perdera, à maneira de um manto que escorrega, nessa carreira ansiosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antigüidade das cousas ambientes me penetrara, me refizera um ser; eu era também um antigo. Era Teodoricus, um lusitano, que viera numa galera das praias ressoantes do Promontório Magno, e viajava, sendo Tibério imperador, em terras tributárias de Roma. E aquele homem não era Jesus, nem Cristo, nem Messias - mas apenas um moço de Galiléia que, cheio de um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céu e encontra a uma esquina um netenim do templo que o amarra e o traz ao pretor, numa manhã de audiência, entre um ladrão que roubara na estrada de Siquém e outro que atirara facadas numa rixa em Emá!

Num espaço ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do pretor, sob a loba romana - Jesus estava de pé, com as mãos cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no chão. Um largo albornoz de lã grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azuis, cobria-o até aos pés, calçados de sandálias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. Não lhe ensanguentava a cabeça essa coroa inumana de espinhos, de que eu lera nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito de uma longa faixa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os ombros; um cordel amarrava-lho por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabelos secos, passados por trás das orelhas, caíam-lhe em anéis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sobre sobrancelhas densas, unidas num só traço, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. Não se movia, forte e sereno diante do pretor. Só algum estremecimento das mãos presas, traía o tumulto do seu coração; e às vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galiléia, sufocasse entre aqueles mármores, sob o pesado velório romano, na estreiteza formalista da lei.

A um lado, Sareias, o vogal do Sanedrim, tendo deposto no chão o seu manto e o seu báculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, num murmúrio cantado e dormente. Sentado num escabelo, o assessor romano, sufocado pelo calor já áspero do mês de Nizam, refrescava com um leque de folhas de heras secas, a face rapada e branca como um gesso; um escriba, velho e nédio, numa mesa de pedra cheia de tabulários e de regras de chumbo, aguçava miudamente os seus cálamos; e entre ambos o intérprete, um fenício imberbe, sorria com a face no ar, com as mãos na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado, sobre a jaqueta de linho, um papagaio vermelho. Em torno ao velário, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galiléia preso, diante do Pretor de Roma...

No entanto Sareias, tendo enrolado em torno à haste de ferro o pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o dedo, para marcar nos seus lábios o selo da verdade, e imediatamente encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e aduladora. Falava do tetrarca de Galiléia, o nobre Antipas; louvava a sua prudência; celebrava seu pai Herodes, o Grande, restaurador do templo... A glória de Herodes enchia a terra; fora terrível, sempre fiel aos césares; seu filho Antipas era engenhoso e forte!... Mas reconhecendo a sua sabedoria, ele estranhava que o tetrarca se recusasse a confirmar a sentença do Sanedrim, que condenava Jesus à morte... Não fora essa sentença fundada nas leis que dera o Senhor? O justo Hanão interrogara o Rabi, que emudecera, num silêncio ultrajante. Era essa a maneira de responder ao sábio, ao puro, ao piedoso Hanão? Por isso um zeloso, sem se conter, atirara a mão violenta à face do Rabi... Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a veneração do pontificado?

A sua voz cava e larga, rolava infindavelmente. Eu, cansado, bocejava. Por baixo de nós, dous homens encruzados nas lajes comiam tâmaras de Betabara, que traziam no saião, bebendo de uma cabaça. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava sonolentamente os seus borzeguins escarlates, picados de estrelas de ouro.

E Sareias agora proclamava os direitos do templo. Ele era o orgulho da nação, a morada eleita do Senhor! César Augusto ofertara-lhe escudos e vasos de ouro... E esse templo, como o respeitara o Rabi? Ameaçando destruí-lo! “Eu derrocarei o templo de Jeová e edificá-lo-ei em três dias!” Testemunhas puras, ouvindo esta rude impiedade, tinham coberto a cabeça de cinza, para afastar a cólera do Senhor... Ora, a blasfêmia atirada ao santuário, ressaltava até ao seio de Deus!...

Sob o velário, os fariseus, os escribas, os netenins do templo, escravos sórdidos, sussurravam como arbustos agrestes que um vento começa a agitar. E Jesus permanecia imóvel, abstraidamente indiferente, com os olhos cerrados, como para isolar melhor o seu sonho contínuo e formoso, longe das cousas duras e vás que o maculavam. Então o assessor romano ergueu-se, depôs no escabelo o seu leque de folhas, traçou com arte o manto forense, orlado de azul, saudou três vezes o Pretor, e a sua mão delicada começou a ondear no ar, fazendo cintilar uma jóia.

- Que diz ele?...

- Cousas infinitamente hábeis - murmurou Topsius. - E um pedante, mas tem razão. Diz que o Pretor não é um judeu; que nada sabe de Jeová, nem lhe importam os profetas que se erguem contra Jeová; e que a espada de César não vinga deuses que não protegem César!... O romano é engenhoso!

Ofegando, o assessor recaiu languidamente no escabelo. E logo Sareias volveu a arengar, sacudindo os braços para a multidão dos fariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua força. Agora, mais retumbante, acusava Jesus, não da sua revolta contra Jeová e o templo, mas das suas pretensões como príncipe da casa de Davi! Toda a gente em Jerusalém o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta de Ouro, num falso triunfo, entre palmas verdes, cercado de uma multidão de galileus, que gritavam -"Hosana ao filho de Davi, hosana ao rei de Israel!..."

- Ele é o filho de Davi, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gade, cheia de persuasão e de amor.

Mas de repente Sareias colou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lança; o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cachaço reverente e nédio; o assessor sorria, atento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabi; e eu, tremendo, vi um legionário empurrar Jesus, que ergueu a face...

Debruçado de leve para o Rabi, com as mãos abertas que pareciam soltar, deixar cair todo o interesse por esse pleito ritual de sectários arguciosos, Pôncio murmurou, enfastiado e incerto:

- És tu então o rei dos judeus?... Os da tua nação trazem-te aqui!... Que fizeste tu?... Onde é o teu reino?

O intérprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de mármore, repetiu muito alto estas cousas na antiga língua hebraica dos livros santos; e, como o Rabi permanecia silencioso, gritou-as na fala caldaica que se usa em Galiléia.

Então Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:

- O meu reino não é daqui! Se por vontade de meu pai eu fosse Rei de Israel, não estaria diante de ti com esta corda nas mãos... Mas o meu reino não é deste mundo!

Um grito estrugiu, desesperado:

- Tirai-o então deste mundo!

E logo, como lenha preparada que uma faísca inflama, o furor dos fariseus e dos serventes do templo irrompeu, crepitando, em clamores impacientes:

- Crucificai-o! Crucificai-o!


Pomposamente o intérprete redizia em grego ao Pretor os brados tumultuosos, lançados na língua siríaca que fala o povo em Judéia... Pôncio bateu o borzeguim sobre o mármore. Os dous lictores ergueram ao ar as varas rematadas numa figura de águia; o escriba gritou o nome de Caio Tibério; e logo os braços frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da majestade do povo romano.

De novo Pôncio falou, lento e vago:

- Dizes então que és rei... E que vens tu fazer aqui?

Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandália pousou fortemente sobre as lajes, como se tomasse posse suprema da terra. E o que saiu dos seus lábios trêmulos pareceu-me fulgurar, vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros saiu.

- Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a verdade, quem quiser pertencer à verdade tem de escutar a minha voz!

Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois, encolhendo os ombros:

- Mas, homem, o que é a verdade?

Jesus de Nazaré emudeceu, e no Pretório espalhou-se um silêncio, como se todos os corações tivessem parado, cheios subitamente de incerteza...

Então, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os quatro degraus de bronze; e precedido dos lictores, seguido do assessor, penetrou no palácio, por entre o rumor de armas dos legionários que o saudavam, batendo o ferro das lanças sobre o bronze dos escudos.

Imediatamente elevou-se por todo o pátio um áspero e ardente sussurro, como de abelhas irritadas. Sareias perorava, brandindo o báculo, entre os fariseus que apertavam as mãos num terror. Outros, afastados, cochichavam sombriamente. Um grande velho, com um manto negro que esvoaçava, corria numa ânsia o Pretório, por entre os que dormiam ao sol, por entre os vendedores de pães ázimos, gritando: "Israel está perdido!" E eu vi levitas fanáticos arrancarem as borlas das túnicas, como numa calamidade pública.

Gade surgiu diante de nós, erguendo os braços triunfantes:

- O Pretor é justo e liberta o Rabi!...

E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a doçura da sua esperança! O Rabi, apenas solto, deixaria Jerusalém - onde as pedras eram menos duras que os corações. Os seus amigos armados esperavam-no em Betânia; e partiriam ao romper da lua para o oásis de Engada! Lá estavam aqueles que o amavam. Não era Jesus o irmão dos essênios? Como eles o Rabi pregava o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que são pobres, a incomparável beleza do reino de Deus...

Eu, crédulo, regozijava-me - quando um tumulto invadiu a galeria, que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos fariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabi Robã conversava com Manassés, enrolando docemente nos dedos os cabelos da criança, mais louros que os milhos. Topsius e eu corremos para a turba intolerante. Já Sareias, no meio, curvado, mas com a firmeza de quem intima, dizia:

- Rabi Robã, é necessário que vás falar ao Pretor e salvar a nossa lei!

E logo, de todos os lados, foi um suplicar ansioso:

- Rabi, fala ao Pretor! Rabi, salva Israel!

Lentamente o velho erguia-se, majestoso como um grande Moisés. E diante dele um levita, muito pálido, vergava os joelhos, murmurava a tremer:

- Rabi, tu és justo, sábio, perfeito e forte diante do Senhor!

Rabi Robã levantou as duas mãos abertas para o céu; e todos se curvaram como se o espírito de Jeová, obedecendo à muda invocação, tivesse descido para encher aquele coração justo. Depois, com a mão da criança na sua, pôs-se a caminhar em silêncio atrás a turba fazia um rumor de sandálias lassas, sobre as lajes de mármore.

Paramos, amontoados, diante da porta de cedro, onde o pretoriano cruzara a lança, depois de bater as argolas de prata. Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do palácio acudiu, tendo na mão um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala, mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros. Ao centro erguia-se palidamente uma estátua de Augusto, com o pedestal juncado de coroas de louro e de ramos votivos; dous grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos, na sombra.

Nenhum dos judeus entrou - porque pisar em dia pascal um solo pagão, era cousa impura diante do Senhor. Sareias anunciou altivamente ao tribuno que "alguns da nação de Israel, à porta do palácio de seus pais, estavam esperando o Pretor". Depois pesou um silêncio, cheio de ansiedade...

Mas dous lictores avançaram; e logo atrás, caminhando a passos largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos apareceu.

Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da Judéia. Ele parara junto à estátua de Augusto. E, como repetindo o gesto nobre da figura de mármore, estendeu a mão que segurava um pergaminho enrolado, e disse:

- Que a paz seja convosco e com as vossas palavras... Falai!


Sareias, vogal do Sanedrim, adiantando-se, declarou que os seus corações vinham em verdade cheios de paz... Mas, tendo o Pretor deixado o Pretório, sem confirmar nem anular a sentença do Sanedrim, que condenava Jesus-ben-José - eles se achavam como o homem que vê a uva na vinha, suspensa, sem secar e sem amadurecer!

Pôncio pareceu-me penetrado de eqüidade e demência.

- Eu interroguei o vosso preso - disse ele; e não lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judéia... Antipas Herodes, que é prudente e forte, que pratica a vossa lei e ora no vosso templo, interrogou-o também e nenhuma culpa nele encontrou... Esse homem diz apenas cousas incoerentes, como os que falam em sonhos... Mas as suas mãos estão puras de sangue; nem ouvi que ele escalasse o muro do seu vizinho... César não é um amo inexorável... Esse homem é apenas um visionário.

Então, com um sombrio murmúrio, todos recuaram, deixando Rabi Robã só no limiar da sala romana. Um brilho de jóia tremia na ponta da sua tiara; as suas cãs caindo sobre os vastos ombros, coroavam-no de majestade como a neve faz aos montes; as franjas azuis do seu manto solto rojavam nas lajes, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a lei aos seus discípulos, ergueu a mão e disse:

- Oficial de César, Pôncio, muito justo e muito sábio! O homem que tu chamas visionário, há anos que ofende todas as nossas leis e blasfema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando te trouxemos nós? Somente quando o vimos entrar em triunfo pela Porta de Ouro, aclamado como Rei da Judéia. Porque a Judéia não tem outro rei senão Tibério; e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra César, apressamo-nos a castigá-lo. Assim fazemos nós, que não temos mandado de César, nem cobramos do seu erário; e tu, oficial de César, não queres que seja castigado o rebelde a teu amo?

A face larga de Pôncio, que uma sonolência amolecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquela tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zelo ruidoso por César para poderem, em nome da sua autoridade, saciar um ódio sacerdotal - revoltou a retidão do romano; e a audaciosa admoestação foi intolerável ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

- Cessai! Os procuradores de César não vêm aprender, a uma colônia bárbara da Ásia, os seus deveres para com César!

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indignação. Eu tremi. Mas o soberbo Rabi prosseguiu, mais indiferente à ira de Pôncio do que ao balar de um anho que arrastasse às aras:

- Que faria o procurador de César, em Alexandria, se um visionário descesse de Bubastes, proclamando-se Rei do Egito? O que tu não queres fazer nesta terra bárbara da Ásia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem nela e que a vindimem? Para que estás então na Judéia? Para que está a sexta legião na Torre Antônia? Mas o nosso espírito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Pôncio, para que César a ouça!...

Pôncio deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados naqueles judeus que, astutamente, o iam enlaçando na trama sutil dos seus rancores religiosos:

- Eu não receio as vossas intrigas! - murmurou surdamente. Elio Lama é meu amigo!... E César conhece-me bem!

- Tu vês o que não está nos nossos corações! - disse Rabi Robã, calmo como se conversasse à sombra do seu vergel. - Mas nós vemos bem o que está no teu, Pôncio! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galiléia?... Se tu não queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade não respeitas, como podes querer salvar um profeta cujas profecias não crês?... A tua malícia é outra, romano! Tu queres a destruição de Judá!

Um estremecimento de cólera, de paixão devota, passou entre os fariseus; alguns palpavam o seio da túnica, como procurando uma arma. E Rabi Robã continuava denunciando o Pretor, com serenidade e lentidão:

- Tu queres deixar impune o homem que pregou a insurreição, declarando-se rei numa província de César, para tentar, pela impunidade, outras ambições mais fortes e levar, outro Judas de Gamala, a atacar as guarnições de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judéia. Tu queres uma revolta para afogares em sangue, e apresentar-te depois a César como soldado vitorioso, administrador sábio, digno de um proconsulado ou de um governo na Itália! E a isso que chamais a fé romana? Eu não estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé púnica... Não nos suponhas, porém, tão simples como um pastor de Iduméia! Nós estamos em paz com César, e cumprimos o nosso dever, condenando o homem que se revoltou contra César... Tu não queres cumprir o teu, confirmando essa condenação? Bem! Mandaremos emissários a Roma, levando a nossa sentença e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante César a nossa responsabilidade, mostraremos a César como procede na Judéia aquele que representa a lei do Império!... E agora, Pretor, podes voltar ao Pretório.

- E lembra-te dos escudos votivos - gritou Sareias. - Talvez novamente vejas a quem César dá razão!

Pôncio baixara a face, perturbado. Decerto imaginava já ver além, num claro terraço junto ao Mar de Cáprea, Sejano, Cesônio, todos os seus inimigos, falando ao ouvido de Tibério e mostrando-lhe os emissários do templo... César, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto dele com esse "Rei dos Judeus", para sublevarem uma rica provinda imperial... E assim a sua justiça e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judéia! Orgulho e justiça foram então, na sua alma frouxa, como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os braços, como trazido por um impulso magnânimo de conciliação - e começou a dizer, mais branco que a sua toga:

- Há sete anos que governo a Judéia. Encontrastes-me jamais injusto, ou infiel às promessas juradas?... Decerto, as vossas ameaças não me movem... César conhece-me bem... Mas entre nós, para proveito de César, não deve haver desacordo. Sempre vos fiz concessões! Mais que nenhum outro procurador, desde Copônio, tenho respeitado as vossas leis... Quando vieram os dous homens de Samaria poluir o vosso templo, não os fiz eu supliciar? Entre nós não deve haver dissensões, nem palavras amargas...

Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as mãos, e sacudindo-as, como molhadas numa água impura:

- Quereis a vida desse visionário? Que me importa? Tomai-a... Não vos basta a flagelação? Quereis a cruz? Crucificai-o... Mas não sou eu que derramo esse sangue!

O levita macilento bradou com paixão:

- Somos nós, e que esse sangue caia sobre as nossas cabeças!

E alguns estremeceram - crentes de que todas as palavras têm um poder sobrenatural e tornam vivas as cousas pensadas.

Pôncio deixara a sala; o decurião, saudando, cerrou a porta de cedro. Então Rabi Robã voltou-se, sereno, resplandecente como um justo; e adiantando-se por entre os fariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da túnica - murmurava com uma grave doçura:

- Antes sofra um só homem, do que sofra um povo inteiro!

Limpando as bagas de suor de que a emoção me alagara a testa, caí, trêmulo, sobre um banco. E, através da minha lassidão, confusamente distinguia no Pretório dous legionários, de cinturão desapertado, bebendo numa grande malga de ferro, que um negro ia enchendo com o odre suspenso aos ombros; adiante uma mulher bela e forte, sentada ao sol, com os filhos pendurados dos dous peitos nus; mais longe um pegureiro envolto em peles, rindo e mostrando o braço manchado de sangue. Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que deixara na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha; por fim roçou-me um sono ligeiro... Quando despertei, a cadeira curul permanecia vazia - com a almofada de púrpura em frente, sobre o mármore, gasta, cavada pelos pés do Pretor; e uma multidão mais densa enchia, num longo rumor de arraial, o velho átrio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas de estamenha, sujas de pó, como se tivessem servido de tapetes sobre as lajes de uma praça. Alguns traziam balanças na mão, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, sórdidas e macilentas, atiravam de longe, com o braço fremente, maldições ao Rabi. Outras, no entanto, caminhando na ponta das sandálias, apregoavam baixo cousas ínfimas e ricas, metidas no seio entre as dobras dos saiões - grãos de aveia torrada, potes de ungüentos, corais, braceletes de filigrana de Sídron. Interroguei Topsius; e o meu douto amigo, limpando os óculos, explicou-me que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na véspera de Páscoa, erguendo um bastão, reclamara a estreita aplicação da lei que interdiz tráficos profanos no templo, fora dos pórticos de Salomão...

- Outra imprudência do Rabi, D. Raposo! - murmurou com ironia o fino historiador.

Entretanto, como caíra a sexta hora judaica e findara o trabalho, vinham entrando obreiros das tinturarias vizinhas, enodoados de escarlate ou azul; escribas das sinagogas, apertando debaixo dos braços os seus tabulários; jardineiros com a fouce a tiracolo, o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha de ferro pendendo da orelha... Tocadores fenícios a um canto afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro; e diante de nós rondavam duas prostitutas gregas de Tiberíade, com perucas amarelas, mostrando a ponta da língua e sacudindo a roda da túnica, de onde voava um cheiro de mangerona. Os legionários, com as lanças atravessadas no peito, apertavam uma cercadura de ferro em torno de Jesus; e eu, agora, mal podia distinguir o Rabi através dessa multidão sussurrante, em que as consoantes ásperas de Moabe e do deserto se chocavam por sobre a moleza grave da fala caldaica...

Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um hortelão que oferecia num cabaz de esparto, acamados sobre folhas de parra, figos rachados de Betfagé. Debilitado pelas emoções, perguntei-lhe, debruçado no parapeito, o preço daquele mimo dos vergéis que os evangelhos tanto louvam. E o homem, rindo, alargou os braços, como se encontrasse o esperado do seu coração:

- Entre mim e ti, ó criatura da abundância que vens dalém do mar, que são estes poucos figos? Jeová manda que os irmãos troquem presentes e bênçãos! Estes frutos colhi-os no horto, um a um, à hora em que o dia nasce no Hébron; são suculentos e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hanão!... Mas que valem vãs palavras entre mim e ti, se os nossos peitos se entendem? Toma estes figos, os melhores da Síria, e que o Senhor cubra de bens aquela que te criou!

Eu sabia que esta oferta era uma cortesia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos patriarcas.


Cumpri também o cerimonial; declarei que Jeová, o muito forte, me ordenava que, com o dinheiro cunhado pelos príncipes, eu pagasse os frutos da terra... Então o hortelão abaixou a cabeça, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lajes, tomando um figo em cada uma das mãos negras e cheias de terra:

- Em verdade - exclamou - Jeová é o mais forte! Se ele o manda, eu devo pôr um preço a estes frutos da sua bondade, mais doces que os lábios da esposa! Justo é, pois, ó homem abundante, que por estes dous que me enchem as palmas, tão perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.

Oh Deus magnífico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tostão da moeda real da minha pátria! Bradei-lhe: -"Irra, ladrão!" Depois, guloso e tentado, ofereci-lhe uma dracma por todos os figos que coubessem no forro largo de um turbante. O homem levou as mãos ao seio da túnica, para a despedaçar na imensidade da sua humilhação. E ia invocar Jeová, Elias, todos os profetas seus patronos quando o sapiente Topsius, enojado, interveio secamente, mostrando-lhe uma miúda rodela de ferro que tinha por cunho um lírio aberto:

- Na verdade Jeová é grande! E tu és ruidoso e vazio como o odre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do templo, e sei onde as águas doces de Enrogel banham os melhores pomares... Vai-te!

O homem logo, trepando ansiosamente até ao parapeito de mármore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós éramos mais benéficos que o orvalho do Carmelo!

Saborosa e rara me parecia aquela merenda de figos de Betfagé no palácio de Herodes. Mas apenas nos acomodáramos com a fruta no regaço, reparei embaixo num velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos enevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus - quando ele, mergulhando a mão trêmula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabeludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval de alabastro, tendo gravada uma imagem do templo. E enquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de mármore, de ônix, de jaspe, com representações do tabernáculo no deserto, os nomes das tribos entalhados, e figuras confusas em relevo, simulando as batalhas dos macabeus... Depois ficou com os braços cruzados; e no seu nobre rosto, escavado pelos cuidados, luzia uma ansiedade, como se de nós somente esperasse misericórdia e descanso.

Topsius deduziu que ele era um desses guebros, adoradores do fogo e hábeis nas artes, que vão descalços até ao Egito, com fachos acesos, salpicar sobre a esfinge o sangue de um galo negro. Mas o velho negou, horrorizado - e tristemente murmurou a sua história. Era um pedreiro de Naim, que trabalhara no templo e nas construções que Antipas Herodes erguia em Bezeta. O açoute dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a doença levara-lhe a força, como a geada seca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes - e gravava nelas nomes santos, sítios santos, para as vender no templo aos fiéis. Em véspera de Páscoa, porém, viera um Rabi de Galiléia cheio de cólera que lhe arrancava o seu pão!...

- Aquele! - balbuciou sufocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dor desse Rabi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?

- Então vendias no templo? - perguntou o terso historiador dos Herodes.

- Sim - suspirou o velho, - era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do longo ano! Nesses dias subia ao templo, ofertava a minha prece ao Senhor, e junto à porta de Susa, diante do pórtico do rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol... Decerto, eu não tinha direito de pôr ali tenda; mas como poderia eu pagar ao templo o aluguer de um côvado de lajedo, para vender o trabalho das minhas mãos! Todos os que apregoam à sombra, debaixo do pórtico, sobre tabuleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a licença; alguns pagam um ciclo de ouro. Eu não podia, com crianças em casa sem pão... Por isso ficava a um canto, fora do pórtico, no pior sítio. Ali estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam, ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Jopé, que oferecia um óleo para fazer crescer os cabelos, e Oséias, de Ramá, que vendia flautas de barro... Os soldados da Torre Antônia que fazem a ronda, passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quase sempre de guarda pela Páscoa, nos dizia: - "está bem, ficai, contanto que não apregoeis alto". Porque todos sabiam que éramos pobres, não podíamos pagar o côvado de laje, e tínhamos nas nossas moradas crianças com fome... Na Páscoa e nos tabernáculos, vêm da terra distante peregrinos a Jerusalém; e todos me compravam uma imagem do templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demônio... As vezes, ao fim do dia, tinha feito três dracmas; enchia o saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!...

Eu, de enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

- Mas eis que há dias esse Rabi de Galiléia aparece no templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando que aquela "era a casa de seu pai, e que nós a poluíamos!..." E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão! Quebrou nas lajes os vasos de óleo de Eboim, de Jopé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do templo. Menahem acudiu também; até, indignado, disse ao Rabi: - "És bem duro com os pobres. Que autoridade tens tu?" E o Rabi falou "de seu pai", e reclamou contra nós a lei severa do templo. Menahem baixou a cabeça... E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babilônia, e com o seu lajedo bem pago, batiam palmas ao Rabi... Ah! contra esses o Rabi nada podia dizer; eram ricos, tinham pago!... E agora aqui ando! Minha filha, viúva e doente, não pode trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos; e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me tão triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o sabá, vou à sinagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas, que sobravam do meu pão, juntava-as para aqueles que nem migalhas têm na terra... Que mal fazia eu vendendo? Em que ofendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lajes do templo; cada pedra era purificada pelas águas lustrais... Em verdade Jeová é grande, e sabe... Mas eu fui expulso pelo Rabi, somente porque sou pobre!

Calou-se - e as suas mãos magras, tatuadas de linhas mágicas, tremiam, limpando as longas lágrimas que o alagavam.

Bati no peito, desesperado. E a minha angústia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violência do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente criado, como a chuva benéfica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flor isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem dela ficasse uma queixa na terra - paguei a divida de Jesus (assim seu pai perdoe a minha!), atirando para o saião do velho moedas consideráveis, dracmas, crisos gregos de Filipe, áureos romanos de Augusto, até uma grossa peça da Cirenaica, que eu estimava por ter uma cabeça de Zeus Amon, que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este tesouro um lepta de cobre - que tem em Judéia o valor de um grão de milho...

O velho pedreiro de Naim empalidecia, sufocado. Depois, com o dinheiro numa dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou tímida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:

- Pai, que estás nos céus, lembra-te da face deste homem, que me deu o pão de longos dias!...

E soluçando, sumiu-se entre a turba - que, agora, de todo o átrio rumorosamente afluía, se apinhava em torno aos mastros altos do velário. O escriba aparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao lado do Rabi e dos guardas do templo, Sareias viera perfilar-se encostado ao seu báculo. Depois, entre um brilho de armas, surgiram as varas brancas dos lictores; e novamente Pôncio, pálido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o assento curul.

Um silêncio caiu, tão atento, que se ouviam as buzinas tocando ao longe na Torre Mariana. Sareias desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabulários; e eu vi as mãos gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um selo sob as linhas vermelhas que condenavam à morte Jesus de Galiléia, meu Senhor... Depois Pôncio Pilatos, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o braço nu, confirmou em nome de César a "sentença do Sanedrim, que julga em Jerusalém..."

Imediatamente Sareias atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as mãos abertas para o céu. E os fariseus triunfavam; junto a nós, dous muito velhos beijavam-se em silêncio nas barbas brancas; outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a aclamação forense dos romanos: "Bene et belle! Non potest melius!"

Mas de súbito o intérprete apareceu em cima de um escabelo, alteando sobre o peito o seu papagaio flamante. A turba emudecera, surpreendida. E o fenício, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em caldaico alargando os braços cercados de manilhas de coral:

Escutai! Nesta vossa festa de Páscoa, o Pretor de Jerusalém costuma, desde que Valério Grato assim o determinou, e com assenso de César, perdoar a um criminoso... O Pretor propõe-vos o perdão deste... Escutai ainda! Vós tendes também o direito de escolher, vós mesmos, entre os condenados... O Pretor tem em seu poder, nos ergástulos de Herodes, outro sentenciado à morte...

Hesitou, e debruçado do escabelo, interrogava de novo o escriba, que remexia numa atarantação os papiros e os tabulários. Sareias, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua oração, ficara assombrado para o Pretor, com as mãos abertas no ar. Mas já o intérprete bradava, erguendo mais a face risonha:

- Um dos condenados é Rabi Jeschoua, que aí tendes, e que se disse filho de Davi... É esse que propõe o Pretor. O outro, endurecido no mal, foi preso por ter morto um legionário traiçoeiramente, numa rixa, ao pé do Xisto. O seu nome é Barrabás... Escolhei!

Um grito brusco e roufenho partiu dentre os fariseus:

- Barrabás!

Aqui e além, pelo átrio, confusamente ressoou o nome de Barrabás. E um escravo do templo, de saião amarelo, pulando até aos degraus do sólio, rompeu a berrar, em face de Pôncio, com palmadas furiosas nas coxas:

- Barrabás! Ouve bem! Barrabás! O povo só quer Barrabás!


A haste de um legionário fê-lo rolar nas lajes. Mas já toda a multidão, mais leve e fácil de inflamar do que a palha na meda, clamava por Barrabás; uns com furor, batendo as sandálias e os cajados ferrados como para aluir o Pretório; outros de longe, encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilhões do templo, rancorosos, sacudindo as balanças de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre maldições ao Rabi: "Barrabás é o melhor! E até as prostitutas de Tiberíade, pintadas de vermelhão como ídolos, feriam o ar de gritos silvantes:

- Barrabás! Barrabás!

Raros ali conheciam Barrabás; muitos, decerto, não odiavam o Rabi - mas todos engrossavam o tumulto prontamente, sentindo, nessa reclamação do preso que atacara legionários, um ultraje ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal. Pôncio, no entanto, indiferente, traçava letras numa vasta lauda de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em cadência, como malhos numa eira:

- Barrabás! Barrabás! Barrabás!

Então Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquele mundo duro e revoltoso que o condenava; e nos seus refulgentes olhos umedecidos, no fugitivo tremor dos seus lábios, só transpareceu nesse instante uma mágoa misericordiosa pela opaca inconsciência dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor amigo dos homens... Com os pulsos presos, limpou uma gota de suor; depois ficou diante do Pretor, tão imperturbado e quedo, como se já não pertencesse a terra.

O escriba, batendo com uma régua de ferro na pedra da mesa, três vezes bradara o nome de César. O tumulto ardente esmorecia. Pôncio ergueu-se; e grave, sem trair impaciência ou cólera, lançou, sacudindo a mão, o mandado final:

- Ide e crucificai-o!

Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.

Oito soldados da coorte siríaca apareceram, apetrechados em marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo cantil da posca. Sareias, vogal do Sanedrim, tocando no ombro de Jesus, entregou-o ao decurião; um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o albornoz de lá; e eu vi o doce Rabi de Galiléia dar o seu primeiro passo para a morte.

Apressados, enrolando o cigarro, deixamos logo o palácio de Herodes, por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lôbrega e úmida, com fendas gradeadas de onde vinha um canto triste de escravos encarcerados... Saímos a um terreiro, abrigado pelo muro de um jardim todo plantado de ciprestes. Dous dromedários deitados no pó ruminavam, junto de um montão de ervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do templo, quando, sob as ruínas de um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno de um essênio, cujas mangas de alvo linho batiam o ar como as asas de um pássaro irritado.

Era Gade, rouco de indignação, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:

- Não fui eu, não fui eu...

- Foste tu! - bradava o essênio, estampando a sandália na terra. - Conheço-te bem. Tua mãe é cardadeira em Cafarnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!...

O homem recuava, baixando a cabeça, como um animal encurralado à força:

- Não fui eu! Eu sou Refraim, falho de Eliézer, de Ramá! Sempre todos me conheceram são e forte como a palmeira nova!

- Torto e inútil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho de um cão! - gritou Gade. - Vi-te bem... Foi em Cafarnaum, na viela onde está a fonte, ao pé da sinagoga, que tu apareceste a Jesus, Rabi de Nazaré! Beijavas-lhe as sandálias, dizias: "Rabi, cura-me! Rabi, vê esta mão que não pode trabalhar!" E mostravas-lhe a mão, essa, a direita, seca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no sabá; estavam os três chefes da sinagoga, e Elzéar, e Simeão. E todos olhavam Jesus para ver se ele ousaria curar no dia do Senhor... Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabi repeliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho de um cão! O Rabi, indiferente às acusações da sinagoga, e só escutando a sua misericórdia, disse-te: "estende a mão!" Tocou-a, e ela reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céu! Estava sã, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.

Um murmúrio de enlevo correu entre a multidão maravilhada pelo doce milagre. E o essênio exclamava, com os braços trêmulos no ar:

- Assim foi a caridade do Rabi! E estendeu-te ele a ponta do manto, como fazem os rabis de Jerusalém, para que lhe deitasses dentro um ciclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho refeito e ágil, gritando para o lado da tua casa: "Oh mãe, oh mãe estou curado!..." E foste tu, porco e filho de porco, que há pouco no Pretório pedias a cruz para o Rabi e gritavas por Barrabás! Não negues, boca imunda; eu ouvi-te; estava por trás de ti e via incharem-te as cordoveias do pescoço, com o furor da tua ingratidão!


Alguns, escandalizados, gritavam: "Maldito! Maldito!" Um velho, com justiceira gravidade, apanhara duas grossas pedras. E o homem de Cafarnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:

- Não fui eu, não fui eu... Eu sou de Ramá!

Gade, furioso, agarrou-o pelas barbas:

- Nesse braço, quando o arregaçaste diante do Rabi, todos te viram duas cicatrizes curvas, como de dous golpes de foice!... E tu vais mostrá-las agora, cão e filho de um cão!

Despedaçou-lhe a manga da túnica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lívidas no pêlo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo - que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Cafarnaum com apupos e com pedradas...

Acercamo-nos de Gade sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Ele, acalmado, estendera as mãos a um vendedor de água, que lhas purificava com um largo jorro do seu odre felpudo; depois, limpando-as à toalha de linho que lhe pendia do cinto:

- Escutai! José de Ramata reclamou o corpo do Rabi; o Pretor concedeu-lhe... Esperai-me à nona hora romana no pátio de Gamaliel... Onde ides?

Topsius confessou que íamos ao templo, por motivos intelectuais de arte, de arqueologia...

- Vão é aquele que admira pedras! - rosnou o altivo idealista.

E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bênçãos do povo que crê e ama os essênios.

Para poupar, até ao templo, a rude caminhada pelo Tiropeu e pela ponte do Xisto, tomamos duas liteiras - das que um liberto de Pôncio ultimamente alugava, junto ao Pretório, "a moda de Roma".

Cansado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas secas que cheirava a murta; e lentamente começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha, temerosa, que já no Pretório me roçara de leve como a asa arrepiada de uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre nesta cidade forte dos judeus? Perdera eu irre-mediavelmente a minha individualidade de Raposo, de católico, de bacharel, contemporâneo do Times e do gás - para me tornar um homem da Antigüidade clássica, coevo de Tibério? E, dado este mirífico retrogresso nos tempos, se voltasse à minha pátria, que iria eu encontrar à beira do rio claro...

Decerto encontraria uma colônia romana; na encosta da colina mais fresca, uma edificação de pedra onde vive o procônsul; ao lado um templo pequeno de Apolo ou de Marte, coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado, onde estão os legionários; e em redor a vila lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas... Assim encontraria a minha pátria. E que faria lá, pobre, solitário? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do templo, racharia a lenha das coortes para ganhar um salário romano?... Miséria incomparável!

Mas se ficasse em Jerusalém? Que carreira tomaria nesta sombria, devota cidade da Ásia? Tornar-me-ia um judeu, rezando o Esquema, cumprindo o Sabá, perfumando a barba de nardo, indo preguiçar nos átrios do templo, seguindo as lições de um Rabi, e passeando às tardes, com um bastão dourado, nos jardins de Garebe entre os túmulos?... E esta existência igualmente me parecia pavorosa!... Não! A ficar encarcerado no mundo antigo com o doutíssimo Topsius, então deveríamos galopar nessa mesma noite, ao erguer da lua, para José; de lá embarcar em qualquer trirreme fenícia que parasse para Itália; e ir habitar Roma, ainda que fosse numa das escuras vielas do Velabro, numa dessas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados de alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas sem desabar ou arder.

Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do templo. Penetramos sob a abóbada da porta de Huldá; e fomos logo detidos em quanto os guardas do templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de pregos com que ele queria atravessar o santuário. O rolante rumor que vinha de longe, dos átrios, já me atemorizava, semelhante ao de uma selva ou de um grande mar irritado...

E ao emergir enfim da abóbada estreita, agarrei o braço magro do historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tomou, intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar mole, irradiado dos claros mármores, dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos pátios que eu de manhã vira desertos, alvejando como a água quieta de um lago, desapareciam agora sob o povo que os atulhava, domado e festivo. Os cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas aromáticas, da gordura frigindo em brasas. Sobre o denso ruído passavam roucos mugidos de bois. E perenemente os fumos votivos se sumiam na refulgência do céu...

- Caramba! - murmurei, enfiado. - Isto são magnificências de entupir!

Fomos penetrando sob os pórticos de Salomão, onde ressoava o profano tumulto de um mercado. Por trás de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os cambistas, com uma moeda de ouro pendente da orelha entre as melenas sórdidas, trocando o dinheiro sacerdotal do templo pelas moedas pagãs de todas as regiões, de todas as idades, desde as maciças rodelas do velho Lácio, mais pesadas que broquéis, até aos tijolos gravados que circulam como "notas" nas feiras da Assíria. Adiante, brilhava a frescura e abundância de um pomar; as romãs, estaladas de maduras, transbordavam dos gigos; hortelões, com um ramo de amendoeira preso ao carapuço, apregoavam grinaldas de anêmonas ou ervas amargas de Páscoa; jarras de leite puro pousavam sobre sacos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lajes, amarrados pelas patas às colunas, balavam tristemente de sede.

Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de cobiça, em torno aos tecidos e às jóias. Mercadores das colônias fenícias, das ilhas gregas, de Tárdis, da Mesopotâmia, de Tadmor, uns com soberbas samarras de lã bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azuis de Tiro, que reproduzem o brilho ardente dos céus do Oriente, as sedas impudicas de Sheba, de uma transparência verde que voa na aragem, e esses estofos solenes de Babilônia que sempre me extasiavam, negros com largas flores cor de sangue... Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galácia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam no peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos de antílopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardados mais preciosamente, talismãs e amuletos que me pareciam pueris, pedaços de raízes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.

Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas, apreçando um esplêndido bastão de Tilos, de uma rara madeira mosqueada como a pele do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que ali sufocava, vindo das resinas, das gomas dos países dos negros, dos molhos de plumas de avestruz, da mirra de Oronte, das ceras de Cirenaica, dos óleos rosados de Císico, e das grandes coifas de pele de hipopótamo cheias de violetas secas e de folhas de bácaris...

Entramos então na galeria chamada Real, toda votada à doutrina e à lei. Aí, cada dia, tumultuam rancorosamente as controvérsias entre saduceus, escribas, soforins, fariseus, sectários de Esquemaia, sectários de Hilel, juristas, gramáticos, fanáticos de toda a terra judaica. Junto às colunas de mármore instalavam-se os mestres da lei, sobre altos escabelos, tendo ao lado um prato de metal onde caíam os óbolos dos fiéis; e em torno, encruzados no chão, com as sandálias ao pescoço, as pelicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discípulos, imberbes ou decrépitos, resmoneavam os ditames, balançando os ombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dous doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da doutrina. "Pode-se comer um ovo de galinha posto no dia de Sabá? Por que osso da espinha dorsal começa a Ressurreição?" O filosófico Topsius ria, disfarçado numa prega da capa; mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam racca! racca! - mergulhando a mão no seio da túnica, à procura de um ferro escondido.

A cada momento cruzávamos esses fariseus, ressoantes e vazios como tambores, que vêm ao templo assoalhar a sua piedade - uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastidão do pecado humano; outros, tropeçando e apalpando o ar, de olhos fechados, para não ver as formas impuras das mulheres; alguns mascarados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas sobre o estômago - em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabi, interpretador de sonhos; num carão lívido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lâmpadas de sepulcro; e, sentado sobre sacos de lã, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nus, a ponta de um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar - quando de repente gritos aflitos ressoaram no átrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrara no pátio de Israel. O sangue salpicava as lajes. Em torno crianças riam.

Ia caindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalém a contemplá-la com paixão; e, para nos acercarmos do "átrio de Israel", fomos penosamente fendendo a multidão que ali remoinhava, vinda de toda a terra culta e bárbara... O rude saião de peles, dos pegureiros das iduméias, roçava a clâmide curta dos gregos de face rapada e mais brancos que mármores. Havia homens solenes da planície de Babilônia, com as barbas metidas dentro de sacos azuis, que uma corrente de prata lhes prendia às mitras de couro pintado; e havia gauleses ruivos, de bigodes pendentes como as ervas das suas lagoas, que riam e parolavam, devorando com a casca os limões doces da Síria. Por vezes um romano togado passava, tão grave como se descesse de um pedestal. Gente da Dácia e da Mísia, com as pernas enfaixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos mármores. E não era menos estranho ir eu, Teodorico Raposo, arrastando ali as minhas botas de montar, atrás de um sacerdote de Moloque, enorme e sensual na sua samarra de púrpura, que, em meio de um bando de mercadores de Serepta, desdenhava daquele templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira fenícia...

Assim lentamente nos fomos chegando à porta chamada "a Bela", que dava acesso para o átrio sagrado de Israel. Bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os quatorze degraus de mármore verde de Numídia, mosqueado de amarelo; os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os de um relicário e os dous umbrais, semelhantes a grossos molhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um colar de glória sobre o pescoço forte de um herói! Mas diante deste ádito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras de ouro, onde se desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico, em caldaico: que nenhum estrangeiro aqui penetre, sob pena de morrer!

Fortunadamente avistamos o magro Gamaliel que se encaminhava ao santo pátio, descalço, apertando ao peito um molho de espigas votivas; com ele vinha um homem nédio e risonho, de face cor de papoula, coroado por uma enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral... curvados até às lajes, saudamos o austero doutor da lei. Ele salmodiou logo, de pálpebras cerradas:

- Sede bem-vindos... Esta é a hora melhor para receber a benção do Senhor. O Senhor disse: "saí das vossas habitações, vinde a mim com as primícias dos vossos frutos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas mãos..." Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi à morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliézer de Silo, benéfico e sábio entre todos nas cousas da natureza.

Deu-nos duas espigas de milho; e atrás dele pisamos, com as nossas solas gentílicas, o adro interdito de Judá.

Caminhando a meu lado, Eliézer de Silo, cortês e suave, perguntou-me se era remota a minha pátria e perigosos os seus caminhos...

Eu rosnei, vaga e recatadamente:

- Sim... Chegamos de Jericó.

- Boa, por lá, a colheita do bálsamo?

- Rica! - afiancei, com calor. - Louvado seja o Eterno, que neste seu ano de graça estamos lá abarrotadinhos de bálsamos!

Ele pareceu regozijado. E revelou-me então que era um dos médicos que residem no templo - onde os sacerdotes e os sacrificadores sofrem perenemente "dissabores intestinais", por pisarem suados e descalços as lajes frias dos adros.

- Por isso - murmurou ele com uma faísca alegre no olho benigno - o povo em Sião nos chama doutores da tripa!

Torci-me de riso, de gozo, com aquela jocosidade assim sussurrada na austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores intestinais em Jericó, por muito amar os divinos e pérfidos melões da Síria - perguntei ao amável físico se nessas ocorrências ele preconizava o bismuto...

O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparável:

- Tomai goma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Pérsia e vinho negro de Emaús... Misturai, cozei... Deixai esfriar num vaso de prata... Colocai-vos numa encruzilhada, ao nascer do sol...

Mas emudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lajes. Penetramos no soberbo adro, chamado "Pátio das Mulheres"; e nesse instante terminavam as bênçãos que à sexta hora um sacerdote vem ali derramar, do alto da porta de Nicanor.

Severa, toda de bronze - ela deixava entrever, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do santuário, refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas colegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco - uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de liras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...

A sua túnica justa de biso tinha a fímbria orlada de pinhas de esmeralda, alternando com guizos, que tiniam finamente; os pés sem sandálias e tingidos de henê, pareciam de coral; e ao meio da faixa que lhe cingia as costelas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fiéis ajoelhados, quedos, sem um murmúrio, quase pousavam nas lajes a cabeça escondida sob os mantos e sob os véus; e com as cores festivas, onde dominava o vermelho da anêmona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flores e folhagens, numa manhã de triunfo, para passar Salomão!

Com a barba aguda e dura levantada aos céus - o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do ocidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do santuário os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de jóias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol - e com o fumo branco veio rolando, tênue e cheirosa, sobre Israel, a bênção do Muito-Forte. Então os levitas, unissonamente, feriram as cordas das liras; das trombetas curvas subiu um grito de bronze; e todo o povo erguido, com os braços ao céu, entoou um salmo celebrando a eternidade de Judá... E subitamente tudo cessou; os levitas recolhiam pela escadaria de mármore sem um rumor dos pés nus; Eliézer de Silo e o rígido Gamaliel tinham desaparecido sob os pórticos; e o claro pátio em redor resplandecia suntuoso e cheio de mulheres.

Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos, que Topsius mirava neles, como num espelho, as pregas nobres da sua capa; todos os frutos da Ásia e as flores dos vergéis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas portas das câmaras rituais onde se perfuma o óleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra; entre as colunas pendiam em festões, fios grossos de pérolas e de contas de ônix, mais numerosos que no peito de uma noiva; e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossais, pousadas nas lajes, enrolavam-se, cintilando e reclamando as dádivas, inscrições em relevo de ouro, graciosas como versos de cânticos - Queimai incensos e nardos; Ofertai pombas e rolas...

Mas o santo adro resplandecia de mulheres; e meus olhos bem depressa deixaram metais e mármores, para cativadamente se prenderem àquelas filhas de Jerusalém, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no templo o rosto descoberto; ou apenas um fofo véu, de uma musselina leve como ar, à moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura de espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais úmido, enlanguescidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cipro. A abundância bárbara dos ouros, das pedrarias, envolvi-as numa radiância trêmula, desde os peitos fortes até aos cabelos mais crespos que a lã das cabras de Galaade. As sandálias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lajes uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus movimentos ondulados e graves; e os tecidos bordados, os algodões de Galácia, os finos linhos de cores que as cingiam, ensopados nas essências ardentes de âmbar, de malobatro e de bácaris, enchiam o ar de fragrância e de moleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solenemente entre escravas vestidas de panos amarelos, que lhes traziam o pára-sol de penas de pavão, os rolos devotos em que está escrita a lei, sacos de tâmaras doces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicor, e sem mais jóias que um rude talismã de coral, corriam, chalravam, mostrando nus os braços e o colo cor de medronho mal maduro... E sobre todas o meu desejo zumbia - como uma abelha que hesita entre flores de igual doçura!

- Ai Topsius, Topsius! - rosnava eu. - Que mulheres! Que mulheres! Eu estouro, esclarecido amigo! O sábio afirmava, com desdém, que elas não tinham mais intelectualidade que os pavões dos jardins de Antipas; e que nenhuma decerto ali lera Aristóteles ou Sófocles!... Eu encolhia os ombros. Oh esplendor dos céus! Por qual destas mulheres, que não lera Sófocles não daria eu, se fosse César, uma cidade de Itália e toda a Ibéria. Umas entonteciam-me pela sua graça dolente e macerada de virgens de devoção, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela suntuosidade sólida e suculenta da sua beleza. Que largos, escuros olhos de ídolos! Que claros, macios membros de mármore! Que sombria moleza! Que nudezes magníficas, quando à beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabelos pesados, e fossem docemente escorregando os véus e os linhos de Galácia!...

Foi necessário que Topsius me arrastasse pelo albornoz, para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para trás os olhos esbraseados, resfolgando como um touro em maio nas lezírias.

- Ai, filhinhas de Sião! Que sois de vos deixar aqui os miolos!

Ao voltar-me, puxado pelo douto historiador, bati no focinho de um cordeiro branco que um velho conduzia às costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cedro lavrado - onde uma cancela toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silêncio, faiscando.

- É aqui - disse o erudito Topsius - que se dão a beber as águas amargas às mulheres adúlteras... E agora, D. Raposo, aí tem Israel adorando o seu Deus.

Era enfim o adro sacerdotal! E eu estremeci diante daquele santuário, entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos holocaustos; aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; de um pendiam grinaldas de lírios; de outros fios de corais; o outro pingava sangue. Da imensa grelha do altar subia uma fumaça avermelhada e lenta; e em redor apinhavam-se os sacrificadores, descalços, todos de branco - com forquilhas de bronze nas mãos pálidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos cor de céu... No afanoso, severo rumor do cerimonial sacrossanto, confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da água em bacias de mármore, e o estridor das buzinas. Apesar dos aromáticos que ardiam em caçoulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu pus o lenço na face, enjoado com esse cheiro mole de carne crua, de sangue, de gordura frita e de açafrão, que o Senhor reclamou a Moisés, como o dom melhor a receber da Terra...

Ao fundo, bois enfeitados de flores, vitelas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze; mais longe, sobre mesas de mármore, entre pedaços de gelo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas peças de carne, sobre que os levitas balançavam leques de penas, para afugentar os moscardos. De colunas rematadas por faiscantes globos de cristal, pendiam cordeiros mortos, que os netenins, resguardados por aventais de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata; enquanto os vitimários de saião azul, retesando os braços, conduziam baldes de onde transbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeus constantemente limpavam as lajes com esponjas; alguns vergavam sob molhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.

A cada momento algum velho sacrificador, descalço, marchava para o altar, trazendo ao colo um anho tenro que não balava, contente e quente entre os dous braços nus; um tocador de lira precedia-o; levitas atrás transportavam os jarros de óleos aromáticos. Em frente à ara, rodeado de acólitos, o sacrificador lançava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, salmodiando, cortava-lhe uma pouca de lã entre os cornos. As buzinas ressoavam; um grito de animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiaras brancas, duas mãos vermelhas erguiam-se ao ar, sacudindo sangue; da grelha do altar ressaltava, avivada pelos óleos e pela gordura, uma chama de alegria e de oferta: e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.

- É um talho! - murmurei eu, aturdido. - É um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo às mulherinhas...

O sábio olhou para o sol. Depois gravemente, pousando-me no ombro a mão amiga:

- É quase a nona hora, D. Raposo!... E temos de ir fora da Porta Judiciária, para além do Garebe, a um sítio agreste que se chama o Calvário.

Empalideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada aquisição enriqueceria o saber de Topsius - por irmos contemplar no alto de um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e sofrendo; era apenas um tormento para a nossa sensibilidade. Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das águas, que leva ao largo lajeado de basalto onde começam as primeiras casas de Acra. Vizinhas do santuário, habitadas por sacerdotes, elas ostentavam uma profusa devoção pascal, em palmas, lâmpadas, alcatifas penduradas dos eirados; e algumas tinham os umbrais salpicados com sangue fresco de um anho.

Antes de penetrar numa sórdida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldos de esparto, voltei-me para o templo; agora só via a imensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e inderrubável; e a arrogância da sua força e da sua eternidade encheu de cólera o meu coração. Enquanto sobre uma colina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galiléia incomparável amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquela pura voz de amor e de espiritualidade - ali ficava o templo que o matava, rutilante e triunfal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sofismas, a usura sob os pórticos, o sangue sob as aras, a iniqüidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perene incenso... Então, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jeová e à sua cidadela, e bradei:

- Arrasados sejais!

Não descerrei mais os lábios secos até chegarmos à estreita porta nas muralhas de Ezequiá, que os romanos denominavam a Judiciária. E logo aí estremeci, vendo colado num pilar de pedra um pergaminho com três sentenças transcritas - "a de um ladrão de Betebara, a de um assassino de Emá, e a de Jesus de Galiléia!" O escriba do Sanedrim, que conforme à lei ali vigiara para recolher, até que os condenados passassem, algum inesperado testemunho de inculpabilidade, ia partir, com os seus tabulários debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um grosso risco vermelho. E aquele corte final, cor de sangue, passado à pressa por um escriturário que recolhia contente à sua morada, a comer o seu anho, comoveu-me mais que a melancolia dos livros santos.

Sebes de cactos em flor bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo ali resplandecia, festivo e pacífico. À sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos de alfazema e mangerona que se oferecem na Páscoa; e crianças em redor, com o pescoço carregado de amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam à seta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedários, levando mercadorias para Jopé; dous homens robustos recolhiam da caça, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhes a coxa, uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e de abutres amarrados pelas patas; e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao ombro de uma criança que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lira grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma coroa de louro...

Ao fundo de um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante de uma cancela pintada de vermelho, dous servos esperavam, sentados num tronco caído, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius arou, puxou-me o albornoz:

- E este o horto de José de Ramata, um amigo de Jesus, membro do Sanedrim, homem de espírito inquieto, que se inclina para os essênios... E justamente, aí vem Gade.

Do fundo do horto, com efeito, por uma rua de murta e rosas, Gade descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vimes enfiados num pau. Paramos.

- O Rabi? – gritou-lhe o alto historiador, transpondo a cancela.

O essênio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de mirra e de ervas aromáticas; e ficou diante de nós um momento, trêmulo, sufocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a ansiedade.

- Sofreu muito! - murmurou, por fim. - Sofreu quando lhe trespassaram as mãos... Mais ainda ao erguer da cruz... E repeliu primeiro o vinho de misericórdia, que lhe daria a inconsciência... O Rabi queria entrar com a alma clara na morte por que chamara!... Mas José de Ramata, Nicodemo, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as cousas prometidas uma noite em Betânia... O Rabi então tomou a malga das mãos da mulher de Rosmofim, e bebeu.

E o essênio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recomendação suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentidão:

- À noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...

E outra vez desapareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Jopé; e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de misericórdia - era um vinho forte de Tarses, com suco de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas, para insensibilizar os supliciados... Mas eu mal escutava aquele copioso espírito. No alto de um áspero outeiro, todo de rocha e urze, avistara, destacando duramente no claro azul do céu liso, um montão de gente parada; e em meio dela sobrelevavam-se três pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de legionários. Turbado, encostei-me à beira do caminho, num penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a morte uma purificadora li-bertação das formas imperfeitas - não quis ser menos forte, nem menos espiritual; arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a colina temerosa.

De um lado cavava-se o Vale de Hinom, abrasado e lívido, sem uma erva, sem uma sombra, juncado de ossos, de carcaças, de cinzas. E diante de nós o morro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espaços furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O córrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruínas de um casebre de adobe; duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda de um sepulcro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem flor, aonde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tênue, quatro mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas túnicas pobres, choravam como num funeral.

Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro; outra, exausta de lágrimas, jazia numa pedra, com a cabeça caída nos joelhos, e os esplêndidos cabelos louros desmanchados, alastrados até ao chão. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensangüentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lançando ao céu os braços nus, abalavam o morro com gritos - "oh meu encanto, oh meu tesouro, oh meu sol!" E um cão, que farejava entre as ruínas, abria a goela, uivava também, sinistramente.

Espavorido, puxei a capa do douto Topsius - e cortamos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das oficinas de Garebe, serventes do templo, vendilhões, e alguns desses sacerdotes miseráveis e em farrapos, que vivem de nigromancia e de esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dous cambistas, com moedas de ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bênçãos servis. Uma corda de esparto deteve-nos, presa a postes cravados no chão para isolar o alto do morro; e, no sítio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados, dos ramos, escudos de legionários e um manto vermelho.

Então, ansioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas numa fenda de rocha. O Rabi agonizava. E aquele corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão passado entre as pernas - encheu-me de terror e de espanto... O sangue que manchara a madeira nova, enegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos cravos; os pés quase tocavam o chão, amarrados numa grossa corda, roxos e torcidos de dor. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais lívida que um mármore, rolava de um ombro a outro docemente; e por entre os cabelos emaranhados, que o suor empastara, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados - parecendo levar com a sua luz, para sempre, toda a luz e toda a esperança da terra...

O centurião, sem manto, com os braços cruzados sobre a couraça de escamas, rondava gravemente junto à cruz do Rabi, cravando por vezes os olhos duros na gente do templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente à corda, um homem cuja face, amarela e triste, quase desaparecia entre as duas longas mechas negras de cabelo que lhe desciam sobre o peito - e que abria e enrolava com impaciência um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora falando baixo a um escravo ao seu lado.

- É José de Ramata - segredou-me o douto historiador. - Vamos ter com ele, ouvir as cousas que convém saber...

Mas nesse instante, dentre o bando sórdido dos servos do templo e dos sacerdotes miseráveis que são nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruído mais forte, com o grasnar de corvos num alto. E um deles, colossal, esquálido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os braços para a cruz do Rabi, e gritou numa baforada de vinho:

- Tu que és forte, e querias destruir o templo e as suas muralhas, por que não quebras ao menos o pau dessa cruz?

Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as mãos sobre o peito, curvado com infinito escárnio, saudava o Rabi:

- Herdeiro de Davi, oh meu príncipe, que te parece esse trono?

- Filho de Deus! Chama teu pai! Vê se teu pai te vem salvar! rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu bordão.

Alguns vendilhões bestiais apanhavam torrões secos a que misturavam cuspo, para arremessar ao Rabi; uma pedra por fim passou, ressoou cavamente no madeiro. Então o centurião correu, indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasfemando - em quanto alguns embrulhavam na ponta do salão os dedos que escorriam sangue.

Nós acercamo-nos de José de Ramata. Mas o sombrio homem abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sábio Topsius. E, magoados com a sua rudeza, ali ficamos junto de um tronco de oliveira seca, defronte das outras cruzes.

Os dous condenados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, peludo, com os olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costelas a estalar, como se num esforço desesperado quisesse arrancar-se do madeiro - urrava sem descontinuar, medonhamente; o sangue pingava-lhe em gotas lentas dos pés negros, das mãos esgarçadas; e abandonado, sem afeição ou piedade que o assistissem, era como um lobo ferido que uiva e morre num brejo. O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada. Defronte dele uma mulher, macilenta e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos braços uma criancinha nua, e gritava, já rouca: "Olha ainda, olha ainda!" As pálpebras lívidas não se moviam; um negro, que entrouxava as ferramentas da crucificação, ia empurrá-la com brandura; ela emudecia, apertava desesperadamente o filho para que lho não levassem também, batendo os dentes, tremendo toda; e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.

Soldados, sentados no chão, desdobravam as túnicas dos supliciados; outros, com o elmo enfiado no braço, limpavam o suor - ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a posca. E embaixo, na poeira da estrada, sob o sol mais doce, passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos hortos. Um velho picava as suas vacas para o lado da porta de Gená; mulheres, cantando, carregavam lenha; um cavaleiro trotava, embrulhado num manto branco. Às vezes os que atravessavam o caminho ou voltavam dos pomares de Garebe avistavam as três cruzes erguidas; arregaçavam a túnica, subiam a colina devagar através das urzes. O rótulo da cruz do Rabi, escrito em grego e em latim, causava logo assombro. "Rei dos Judeus!" Quem era esse? Dous moços, patrícios e saduceus, com brincos de pérolas nas orelhas e bordaduras de ouro nos borzeguins, interpelaram o centurião, escandalizados. Por que escrevera o Pretor - "Rei dos Judeus?" Era aquele, ali pregado na cruz, Caio Tibério? Só Tibério era Rei da Judéia! O Pretor quisera ofender Israel! Mas em verdade só ultrajava César!...

Impassível, o centurião falava a dous legionários que remexiam no chão em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os saduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas de púrpura nos cabelos empoados de azul, contemplava suavemente o Rabi e aspirava o seu frasco de essências - lamentando decerto aquele moço, rei vencido, rei bárbaro, que morria no poste dos escravos.

Cansado, fui sentar-me com Topsius numa pedra. Era perto da oitava hora judaica; o sol, sereno como um herói que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de Betânia. Diante de nós o Garebe verdejava, coberto de jardins. Junto às muralhas, no bairro novo de Bezeta, grandes panos vermelhos e azuis secavam em cordas às portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo de uma forja; crianças corriam brincando sobre a borda de uma piscina. Adiante, no alto da torre hípica, que estendia já a sua sombra sobre o vale de Hinom, soldados de pé na amurada apontavam a seta aos abutres voando no azul. E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os eirados do palácio de Herodes.

Triste, com o espírito disperso, eu pensava no Egito, nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha - quando avistei, subindo a colina devagar, apoiado ao ombro da criança que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de Jopé, com uma lira presa à cintura. Os seus passos arrastavam-se mais incertos, na fadiga de uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto cor do vinho, que lhe cobria a cabeça, as folhas da coroa de louro pendiam raras e murchas.

Topsius gritou-lhe: "Eh, rapsodo!" E quando ele, tenteando as urzes do caminho, se acercou - o douto historiador perguntou-lhe se das doces ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente, murmurou que uma mocidade imperecível sorri nos mais antigos cantos da Helênia. Depois, tendo assentado a sandália sobre uma pedra, tomou a lira entre as mãos vagarosas; a criança, direita, com as pestanas baixas, pôs à boca uma flauta de cana; e, no resplendor da tarde que envolvia e dourava Sião, o rapsodo soltou um canto já trêmulo, mas glorioso e repassado de adoração, como ante a ara de um templo, numa praia da Jônia... E eu percebi que ele cantava os deuses, a sua beleza, a sua atividade heróica. Dizia o délfico, imberbe e cor de ouro, afinando os pensamentos humanos pelo ritmo da sua citara; Atenéia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a beleza às raças, a ordem às cidades; e acima de todos, sem forma e esparso, o Fado, mais forte que todos!

Mas subitamente um grito varou o céu no alto da colina, supremo e arrebatado como o de uma libertação! Os dedos frouxos do velho emudeceram entre as cordas de metal; com a cabeça descaída, a coroa do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lira helênica, de ora em diante e para longas idades silenciosa e inútil. E ao lado a criança, tirando a flauta dos lábios, erguia para as cruzes negras os olhos claros - onde subia a curiosidade e a paixão de um mundo novo.

Topsius pediu ao velho a sua história. Ele contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesaréia e tocava o honnor junto ao templo de Hércules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heróis; e só havia festas e oferendas para a boa deusa da Síria! Acompanhara depois uns mercadores a Tiberíade; os homens aí não respeitavam a velhice, e tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia às portas dos lagares; e para ganhar o pão duro, tocara a citara grega nos funerais dos bárbaros. Agora errava ali, nessa cidade onde havia um grande templo, e um deus feroz e sem forma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua pátria; sentir o fino murmúrio das águas do Meandro; poder palpar os mármores santos do Templo de Febo Didimeu - onde ele em criança levara num cesto e cantando, os primeiros anéis dos seus cabelos...

As lágrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruínas. E a minha piedade foi grande por aquele rapsodo das ilhas da Grécia, perdido também na dura cidade dos judeus, envolto pela influência sinistra de um deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Ele desceu a colina, apoiado ao ombro da criança, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas nuas, e muda e mal segura do cinto a lira heróica de cinco cordas.

No entanto, em torno às cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E fomos encontrar a gente do templo, com as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo de ouro para o lado do Mar de Tiro, intimando o centurião a que baixasse os condenados da cruz, antes de soar a hora santa da Páscoa! Os mais devotos reclamavam que se aplicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifrágio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indiferença do centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria ele macular o Sabá, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.

- O sol declina! O sol vai deixar o Hébron! - gritou de cima de uma pedra um levita, aterrado.

- Acabai-os, acabai-os!

E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos lânguidos, movendo os braços cheios de manilhas de ouro:

- Atirai o Rabi aos corvos! Dai às aves de rapina a sua páscoa!

O centurião, que espreitava o alto da Torre Mariana, onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro - acenou devagar com a espada. Dous legionários, lançando pesadamente ao ombro as barras de ferro, marcharam com ele para as cruzes. Eu, arrepiado, agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus, o centurião parou, erguendo a mão...

O corpo branco e forte do Rabi tinha a serenidade de um adormecimento; os pés empoeirados, que há pouco a dor torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão, como se o fossem em breve pisar; e a face não se via, tombada para trás molemente por sobre um dos braços da cruz, toda voltada para o céu onde ele pusera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei também o céu; rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...

- Quem reclamou o corpo deste homem? - gritou, procurando para os lados, o centurião.

- Eu, que o amei em vida! - acudiu José de Ramata, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.

O escravo que esperava junto dele, depôs logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruínas do casebre, onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.

E por trás de nós, fariseus e saduceus que se tinham juntado, estranhavam com azedume que José de Ramata, um membro do Sanedrim, assim solicitasse o corpo do Rabi para o perfumar e lhe fazer soar em tomo as flautas e os prantos de um funeral... Um deles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias de óleo, afirmava que sempre conhecera José de Ramata inclinado para todos os inovadores, todos os sediciosos... Mais de uma vez o vira falar com esse Rabi junto ao Campo dos Tintureiros... E com eles estava Nicodemo, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que estão de ambos os lados da Sinagoga de Cirenaica...

Outro, rubicundo e mole, gemeu:

- Que será da nação, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os frutos da terra devem ser igualmente para todos!...

- Raça de Messias! - bradou o mais moço com furor, atirando o bastão contra as urzes. - Raça de Messias, perdição de Israel!


Mas o saduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mão, ligada em tiras sagradas:

- Sossegai; Jeová é grande; e tudo em verdade determina para melhor... No templo e no conselho não faltarão jamais homens fortes que mantenham a velha ordem; e em cima dos calvários, felizmente, hão de sempre erguer-se as cruzes!...

E todos sussurraram:

-Amém!

No entanto o centurião, com os soldados atrás levando ao ombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condenados, vivos e cheios de agonia, pediam água - um pendido e gemendo; outro torcido, com as mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: “É tempo, vamos”.

Com os olhos alagados de água amarga, tropeçando nas pedras, desci ao lado do fecundo crítico a colina de imolação. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma, pensando nessas cruzes vindouras, anunciadas pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh dura miséria! Sim! De ora em diante por todos os séculos a vir, iria sempre recomeçando em torno à lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto às escadas das forcas - este afrontoso escândalo de se juntarem sacerdotes, patrícios magistrados, soldados, doutores e mercadores para matarem ferozmente, no alto de um morro, o justo que, penetrado do esplendor de Deus, ensine a adoração em espírito ou cheio do amor dos homens, proclame o reino da igualdade!

Com estes pensamentos recolhi a Jerusalém - em quanto as aves mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Garebe...

Escurecera e era a hora da ceia pascal, quando chegamos à casa de Gamaliel; no pátio, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amável físico Eliézer de Silo.

Na sala azul, de teto de cedro, perfumada de malobatro, o austero doutor já nos aguardava estendido no divã de correias brancas, com os pés nus, as largas mangas arregaçadas e pregadas no ombro - e ao lado um bordão de viagem, uma cabaça de água e uma trouxa, emblemas rituais da saída do Egito. Defronte dele, numa mesa incrustada de madrepérola, entre vasos de barro com flores pintadas, açafates de filigrana de prata, transbordando de fruta e pedaços cintilantes de gelo, erguia-se um candelabro em forma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pálida chama azul e, com os olhos perdidos no seu brilho trêmulo, as mãos cruzadas no ventre, Eliézer, o benigno doutor da tripa, sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto dele dous escabelos, recobertos com tapetes da Assíria, esperavam por mim e pelo sagaz historiador.

Sede bem-vindos - rosnou Gamaliel. - Grandes são as maravilhas de Sião; deveis vir esfomeados...

Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruído nas sandálias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de túnica amarela, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.

A um lado tínhamos, para limpar os dedos, um bolo de farinha branca, fino e mole como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de pérolas, onde negrejava, entre ramos de salsa, um montão de cigarras fritas; no chão jarros com água de rosa. Cumprimos as abluções; e Gamaliel, tendo purificado a boca com um pedaço de gelo, murmurou a oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o molho de açafrão e saumura.

Topsius, bom sabedor das maneiras orientais, arrotou fortemente, por cortesia, demonstrando fartura e deleite; depois, com uma febra de anho entre os dedos, afirmou, sorrindo aos doutores, que Jerusalém lhe parecera magnífica, formosa de claridade, e bendita entre as cidades...

Eliézer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:

- Ela é uma jóia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra, para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor...

- No centro da Terra!... - murmurou o historiador, com douto espanto.

Sim! E, ensopando um pedaço de bolo no molho de açafrão, o profundo físico explicou a Terra. Ela é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalém a santa, como um coração cheio de amor do Altíssimo; em redor a Judéía, rica em bálsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras, onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos... E por cima o céu, sonoro e sólido.

- Sólido!... - balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.

Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarela da Média. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabor, trincasse uma cigarra frita. E Rabi Eliézer, sábio entre todos nas cousas da natureza, revelava a Topsius a divina construção do céu.

Ele é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de cristal; por cima delas constantemente rolam as grandes águas; sobre as águas flutua, num fulgor, o espírito de Jeová... Estas lâminas de cristal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma música doce e lenta, que os profetas mais queridos por vezes ouviam... Ele mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altíssimo essa harmonia, tão penetrante e suave, que as lágrimas uma a uma lhe caíam nas mãos abertas... Ora, nos meses de Quisleu e de Tebé os furos das lâminas coincidem, e por eles caem sobre a terra as gotas das águas eternas, que fazem crescer as searas!

- A chuva? - perguntou Topsius, com acatamento.

- A chuva! - respondeu Eliézer, com serenidade.

Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus óculos de ouro, que faiscavam de sábia ironia; mas o piedoso filho de Simeão conservava sobre a face, emagrecida no estudo da lei, uma seriedade impenetrável. Então o historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber, do esclarecido físico, por que tinham os cristais do céu essa cor azul que enleva a alma...

Eliézer de Silo elucidou-o:

Uma grande montanha azul, invisível até hoje aos homens, ergue-se a ocidente; ora, quando o sol abate, a sua reverberação banha o cristal do céu e anila-o. E talvez nessa montanha que vivem as almas dos justos!...

Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: "Bebamos, louvando o Senhor!"

Ergueu uma taça cheia de vinho de Siquém, pronunciou sobre ela uma bênção - e passou-ma, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: "À sua, muitos e felizes!" E Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu - "à prosperidade de Israel, à sua força ao seu saber!"

Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de túnica amarela, que fazia ressoar sobre as lajes com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida pascal - as ervas amargas.

Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicória, macela, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solenemente, como cumprindo um rito. Elas representavam as amarguras de Israel, no cativeiro do Egito. E Eliézer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.

Mas Topsius lembrou, fundado nos autores gregos, que todos os legumes amolecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloqüência, lhe enervam o heroísmo; e com torrencial erudição citou logo Teofrasto, Êubulo, Nicandro na segunda parte do seu Dicionário, Fênias no seu Tratado das Plantas, Défilo e Epicarmo!

Gamaliel, secamente, condenou a inanidade dessa ciência - porque Hecateu de Mileto, só no primeiro livro da sua Descrição da Ásia, encerra cinqüenta e três erros, quatorze blasfêmias e cento e nove omissões... Assim dizia o leviano grego que a tâmara, maravilhoso dom do Altíssimo, enfraquece o intelecto!...

- Mas - exclamou Topsius com ardor - a mesma doutrina estabelece Xenofonte no livro segundo do Anábasis! E Xenofonte...

Gamaliel rejeitou a autoridade de Xenofonte. Então Topsius, vermelho, batendo com uma colher de ouro na borda da mesa, exaltou a eloqüência de Xenofonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverência por Sócrates!... E enquanto eu partia um empadão de Comagênia, os dous facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Sócrates. Gamaliel afirmava que as vozes secretas ouvidas por Sócrates, e que tão divina e puramente o governavam, eram murmúrios distantes que lhe chegavam da Judéia, repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava, encolhia os ombros, com desesperado sarcasmo. Sócrates inspirado por Jeová! Ora lérias!

No entanto era certo (insistia Gamaliel, já lívido), que os gentílicos iam emergindo da sua treva, atraídos pela luz forte e pura que derramava Jerusalém; porque a reverência pelos deuses aparecia em Ésquilo, profunda e cheia de terror; em Sófocles, amável e cheia de serenidade; em Eurípides, superficial e cheia de dúvida... E cada um dos trágicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!

- Oh Gamaliel, filho de Simeão - murmurou Eliézer de Silo -, tu, que possuis a verdade, para que dás acesso no teu espírito aos pagãos?

Gamaliel respondeu:

- Para os desprezar melhor dentro em mim!

Farto de tão clássica controvérsia, acheguei a Eliézer um covilhete de mel do Hébron - e contei-lhe quanto me agradara o caminho do Garebe entre jardins. Ele concordou que Jerusalém, cercada de vergéis, era doce à vista como a fronte da noiva toucada de anêmonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios de açougues, junto ao morro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrância de Siloé...

- Fui ver Jesus - atalhei severamente. - Fui ver Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanedrim...

Eliézer, com oriental cortesia, bateu no peito demonstrando mágoa. E quis saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhara comigo o pão de aliança, esse Jesus que eu fora assistir na sua morte de escravo.

Eu considerei-o, assombrado:

- É o Messias!

E ele considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.

Oh raridade! Eliézer, doutor do templo, físico do Sanedrim, não conhecia Jesus de Galiléia! Atarefado com os enfermos que, pela Páscoa, atulham Jerusalém (confessou ele) não fora ao Xisto, nem à loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hanão, onde as novas voam mais numerosas que as pombas; por isso nada ouvira da aparição de um Messias...

De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem "o consolador", porque traria a consolação a Israel. E haveria dous Messias: o primeiro, da tribo de José, seria vencido por Gogue; o segundo, filho de Davi e cheio de força, venceria Magogue. Antes dele nascer começariam sete anos de maravilhas; haveria mares evaporados, estrelas despregadas do céu, fomes e tais farturas que até as rochas dariam fruto; no último ano correria sangue entre as nações; enfim ressoaria uma voz portentosa; e, sobre o Hébron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!

Dizia estas cousas peregrinas, fendendo a casca de um figo. Depois com um suspiro:

- Ora, ainda nenhuma dessas maravilhas, meu filho, anunciou a consolação!...

E atolou os dentes no figo.

Então fui eu, Teodorico, ibero, de um remoto município romano, que contei a um físico de Jerusalém, criado entre os mármores do templo, a vida do Senhor! Disse as cousas doces e as cousas fortes; as três claras estrelas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as águas de Galiléia; o coração dos simples palpitando por ele; o reino do céu que prometia e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...

- Depois os padres, os patrícios e os ricos crucificaram-no!

Doutor Eliézer, volvendo a remexer o açafate de figos murmurou pensativamente:

Triste, triste!... Todavia. meu filho, o Sanedrim é misericordioso. Em sete anos, desde que o sirvo, apenas tem lançado três sentenças de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça; mas Israel tem sofrido tanto com inovadores, com profetas!... Enfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a verdade é que estes figos, de Beftagé, não valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E nesse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o helenismo e as escolas socráticas, empinado, de óculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

- Sócrates é a semente; Platão a flor; Aristóteles o fruto... E desta árvore, assim completa, se tem nutrido o espírito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se; doutor Eliézer também, arrotando com efusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

- Aleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egito!

Findara a ceia pascal. O esclarecido historiador, que limpava o suor da controvérsia, olhou logo vivamente o relógio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio de Ofel... O doutor da lei conduziu-nos à varanda, alumiada palidamente por lâmpadas de mica, mostrou-nos a íngreme escada de ébano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliézer num aposento cerrado por cortinas de Mesopotâmia - de onde saiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lira.

Que doce ar no terraço! E que alegre essa noite de Páscoa em Jerusalém! No céu mudo e fechado como um palácio onde há luto, nenhum astro brilhava; mas o burgo de Davi e a colina de Acra, com as suas iluminações rituais, pareciam salpicadas de ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em óleo lançavam uma chama ondeante e vermelha. Aqui e além, nalguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um colar de jóias no pescoço de uma negra. O ar estava docemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor, e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, víamos esvoaçar, claras e curtas, as túnicas de gregos dançando a calabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hípica, a Mariana, a Farsala, se conservavam escuras; e o mugido das suas buzinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.

Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite pascal. Havia luzes em Siloé. Nos acampamentos, sobre o Monte .das Oliveiras, ardiam fogos claros; e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.

Só uma colina, além do Garebe, permanecera em treva. Nessa hora, por baixo dela, numa ravina entre rochas, alvejavam dous corpos despedaçados, onde os bicos dos abutres, com um ruído seco de ferros entrechocados, faziam a sua ceia pascal. Ao menos outro corpo, precioso invólucro de um espírito perfeito, jazia resguardado num túmulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canela e de nardo. Assim o tinham deixado nessa noite, a mais santa de Israel, aqueles que o amavam - e que desde então, para todo o sempre, mais entranhadamente o amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima; e agora entre as casas de Jerusalém, cheias de luzes e cheias de cantos - alguma havia, escura e fechada, onde corriam lágrimas sem consolação. Aí o lar esfriara, apagado; a lâmpada triste esmorecia sobre o alqueire; na bilha não havia água, porque ninguém fora à fonte; e sentadas na esteira, com os cabelos caídos, aquelas que o tinham seguido de Galiléia falavam dele, das primeiras esperanças, das parábolas contadas por entre os trigais, dos templos suaves à beira do lago...


Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalém quando no terraço surgiu, sem rumor, uma forma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canela e de nardo. Pareceu-me que dela irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lajes - e o meu coração tremeu. Mas dentre os pálidos panos uma bênção saiu, grave e familiar:

- Que a paz seja convosco.

- Ah! que alívio! Era Gade.

- Que a paz seja contigo!

O essênio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, imóvel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:

- A lua vai nascer... Todas as cousas esperadas se estão cumprindo... Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardá-lo até ao oásis de Engada?

Ergui-me, atirando os braços ao ar, num terror!... Acompanhar o Rabi! Ele não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, numa horta do Garebe?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engada. Agarrei ansiosamente o ombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e à sua autoridade...

O meu douto amigo parecia enleado numa pesada incerteza:

- Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além disso não temos armas!

- Vinde comigo! - acudiu Gade, ardentemente. - Passaremos por casa de alguém que nos dirá as cousas que convém saber, e que vos dará armas!...

Ainda trêmulo, sem me desamparar do sapiente historiador, ousei balbuciar:

- E Jesus?... Onde está?

- Em casa de José de Ramata - segredou o essênio, espreitando em roda como o avaro que fala de um tesouro. - Para que nada suspeitasse a gente do templo, mesmo na presença deles depositamos o Rabi no túmulo novo, que está no horto de José. Três vezes as mulheres choraram sobre a pedra que, segundo os ritos, como sabeis, não fechava inteiramente o túmulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabi. Alguns serventes do templo olharam, e disseram: “Está bem”. Cada um recolheu à sua morada... Eu entrei pela porta de Gená, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vêm no livro de Salomão, fazê-lo reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotizado e o sofrimento... Vinde pois, vós que o amais também e credes nele!...

Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta capa; e descemos, num cauto silêncio, pela escada que, do terraço, levava a um caminho de pedra miúda colado à muralha nova de Herodes.

Longo tempo marchamos na escuridão, guiados pelas roupagens brancas do essênio. Dentre casebres em ruínas, por vezes um cão saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma árvore, triste e mole como se saísse da sua sepultura; e roçando o meu braço, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas de alho que fôssemos dormir ao seu leito que ela perfumara de nardo.

Paramos finalmente diante de um muro, a que uma esteira grossa de esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava água levou-nos a um pátio rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira; o chão mole como lodo abafava o rumor das nossas solas.

Gade, três vezes espaçadas, soltou o grito dos chacais. Nós esperávamos no meio do pátio, à borda de um poço, coberto com tábuas; o céu, por cima, guardava a escuridão dura e impenetrável de um bronze. A um canto, enfim, sob a varanda, um clarão vivo de lâmpada surgiu - alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lançara, sobre a cabeça, a ponta de um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sopro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.

Gade cortou a desolada mudez:

- Que a paz seja contigo, irmão! Estamos prontos.

O homem pousou devagar a lâmpada sobre a tampa do poço, e disse:

- Tudo está consumado.

Gade, estremecendo, gritou:

- O Rabi?

O homem atirou a mão para abafar o grito do essênio. Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos, que reluziam como os de um animal do deserto:

- São cousas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O vinho narcotizado fora bem preparado pela mulher de Rosmofim, que é hábil e conhece os simples... Eu tinha falado ao centurião, um camarada a quem salvei a vida na Germânia, na campanha de Públio. E, quando rolamos a pedra sobre o túmulo de José de Ramata, o corpo do Rabi estava quente!


Mas calou-se; e, como se o pátio fechado sob o céu negro não fosse bastante secreto e seguro, tocou no ombro de Gade, e sem um rumor dos pés nus recolheu à escuridão mais densa sob a varanda, até às pedras do muro. Nós, rente a ele e mudos, tremíamos de ansiedade; e eu senti que uma revelação ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os mistérios.

- Ao anoitecer - segredou o homem por fim, como um murmúrio triste de água correndo na sombra - voltamos ao túmulo. Olhamos pela fenda; a face do Rabi estava serena e cheia de majestade. Levantamos a pedra, tiramos o corpo. Parecia adormecido, tão belo, como divino, nos panos que o envolviam... José tinha uma lanterna; e levamo-lo pelo Garebe, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte encontramos uma ronda da coorte auxiliar. Dissemos: "é um homem de Jopé que adoeceu, e que nós levamos à sua sinagoga". A ronda disse: "passai". Em casa de José estava Simeão, o Essênio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas; e tudo fora preparado, até à raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira. Demos-lhe a beber os cordiais, chamamo-lo, esperamos, oramos... Mas ai! Sentíamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!... Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra saiu-lhe dos lábios. Era vaga, não a compreendemos... Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono... Depois estremeceu; um pouco de sangue apareceu-lhe ao canto da boca... E, com a cabeça sobre o peito de Nicodemo, o Rabi ficou morto!

Gade caiu pesadamente de joelhos, soluçando; e o homem, como se todas as cousas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lâmpada ao poço. Topsius deteve-o, com avidez:

- Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?

O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os braços na escuridão e tão perto das nossas faces, que eu sentia o seu bafo quente:

- Era necessário, para bem da terra, que se cumprissem as profecias! Durante duas horas José de Ramata orou, prostrado. Não sei se o Senhor lhe falou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: "Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!" Depois, por sua ordem, enterramos o Rabi numa caverna que ele tem, talhada na rocha, por trás do moinho...

Atravessou o pátio, tomou a sua lâmpada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gade, erguendo a face, o chamou através dos seus soluços:

- Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o outro túmulo, onde as mulheres de Galiléia o deixaram, ligado e envolvidos em panos, com aloés e com nardo?

O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:

- Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...

Então Topsius arrastou-me pelo braço, tão arrebatadamente, que tropeçávamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros caídos... E vi uma praça, rodeada de pálidos arcos, triste e fria, com erva entre as fendas das lajes dessoldadas, como numa cidade abandonada. Topsius estacou; os seus óculos faiscavam:

- Teodorico, a noite termina; vamos partir de Jerusalém!... A nossa jornada ao passado acabou... A lenda inicial do cristianismo está feita, vai findar o mundo antigo!

Eu considerei, assombrado e arrepiado, o douto historiador. Os seus cabelos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente saía dos seus finos lábios retumbava, terrível e enorme, caindo sobre o meu coração:

- Depois de amanhã, quando acabar o Sabá, as mulheres de Galiléia voltarão ao sepulcro de José de Ramata, onde deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!... "Desapareceu, não está aqui!..." Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém – “ressuscitou, ressuscitou!” E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais à humanidade!

E, atirando os braços ao ar, correu através da praça - onde os pilares de mármore começavam a tombar, sem ruído e molemente. Arquejando, paramos no portão de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de cadeias partidas, segurava os nossos cavalos. Montamos. Com um fragor de pedras levadas numa torrente, varamos a Porta de Ouro; e galopamos para Jericó, pela estrada romana de Siquém, tão vertiginosamente que não sentíamos as ferraduras ferir as lajes negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camelos na debandada de um povo. As ventas da minha égua dardejavam jactos de fumo avermelhado; e eu agarrava-me às crinas, tonto, como se rolasse entre nuvens...

De repente avistamos, alargada, cavada até às serras de Moabe, a planície de Canaã. O nosso acampamento alvejava junto às brasas dormentes da fogueira. Os cavalos estacaram, tremendo. Corremos às tendas; sobre a mesa, a vela que Topsius acendera para se vestir, havia mil e oitocentos anos, morria num fogacho lívido... E derreado da infinita jornada, atirei-me para o catre, sem mesmo descalçar as botas brancas de pó...

Imediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrara na tenda, esparzindo um brilho de ouro...


Ergui-me, assustado. Num largo raio de sol, vindo dos montes de Moabe, o jucundo Pote entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na mão!

Arrojei a manta, arredei os cabelos, para verificar melhor a mudança terrível que desde a véspera se fizera no universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne, com que brindáramos à ciência e à religião. O embrulho da coroa de espinhos pousava à minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola, e com um lenço amarrado na testa, bocejava, pondo os óculos de ouro no bico. E o risonho Pote, censurando a nossa preguiça, queria saber se apetecíamos nessa manhã - "tapioca ou café".

Deixei sair deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no júbilo triunfal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu século, pulei sobre o colchão com a fralda ao vento, bradei:

- Tapioca, meu Pote! Uma tapioca bem docinha e molezinha, que saiba bem ao meu Portugal...

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