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A Relíquia

Eça de Queiroz

Ele pareceu regozijado. E revelou-me então que era um dos médicos que residem no templo - onde os sacerdotes e os sacrificadores sofrem perenemente "dissabores intestinais", por pisarem suados e descalços as lajes frias dos adros.

- Por isso - murmurou ele com uma faísca alegre no olho benigno - o povo em Sião nos chama doutores da tripa!

Torci-me de riso, de gozo, com aquela jocosidade assim sussurrada na austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores intestinais em Jericó, por muito amar os divinos e pérfidos melões da Síria - perguntei ao amável físico se nessas ocorrências ele preconizava o bismuto...

O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparável:

- Tomai goma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Pérsia e vinho negro de Emaús... Misturai, cozei... Deixai esfriar num vaso de prata... Colocai-vos numa encruzilhada, ao nascer do sol...

Mas emudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lajes. Penetramos no soberbo adro, chamado "Pátio das Mulheres"; e nesse instante terminavam as bênçãos que à sexta hora um sacerdote vem ali derramar, do alto da porta de Nicanor.

Severa, toda de bronze - ela deixava entrever, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do santuário, refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas colegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco - uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de liras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...

A sua túnica justa de biso tinha a fímbria orlada de pinhas de esmeralda, alternando com guizos, que tiniam finamente; os pés sem sandálias e tingidos de henê, pareciam de coral; e ao meio da faixa que lhe cingia as costelas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fiéis ajoelhados, quedos, sem um murmúrio, quase pousavam nas lajes a cabeça escondida sob os mantos e sob os véus; e com as cores festivas, onde dominava o vermelho da anêmona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flores e folhagens, numa manhã de triunfo, para passar Salomão!

Com a barba aguda e dura levantada aos céus - o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do ocidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do santuário os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de jóias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol - e com o fumo branco veio rolando, tênue e cheirosa, sobre Israel, a bênção do Muito-Forte. Então os levitas, unissonamente, feriram as cordas das liras; das trombetas curvas subiu um grito de bronze; e todo o povo erguido, com os braços ao céu, entoou um salmo celebrando a eternidade de Judá... E subitamente tudo cessou; os levitas recolhiam pela escadaria de mármore sem um rumor dos pés nus; Eliézer de Silo e o rígido Gamaliel tinham desaparecido sob os pórticos; e o claro pátio em redor resplandecia suntuoso e cheio de mulheres.

Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos, que Topsius mirava neles, como num espelho, as pregas nobres da sua capa; todos os frutos da Ásia e as flores dos vergéis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas portas das câmaras rituais onde se perfuma o óleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra; entre as colunas pendiam em festões, fios grossos de pérolas e de contas de ônix, mais numerosos que no peito de uma noiva; e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossais, pousadas nas lajes, enrolavam-se, cintilando e reclamando as dádivas, inscrições em relevo de ouro, graciosas como versos de cânticos - Queimai incensos e nardos; Ofertai pombas e rolas...

Mas o santo adro resplandecia de mulheres; e meus olhos bem depressa deixaram metais e mármores, para cativadamente se prenderem àquelas filhas de Jerusalém, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no templo o rosto descoberto; ou apenas um fofo véu, de uma musselina leve como ar, à moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura de espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais úmido, enlanguescidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cipro. A abundância bárbara dos ouros, das pedrarias, envolvi-as numa radiância trêmula, desde os peitos fortes até aos cabelos mais crespos que a lã das cabras de Galaade. As sandálias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lajes uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus movimentos ondulados e graves; e os tecidos bordados, os algodões de Galácia, os finos linhos de cores que as cingiam, ensopados nas essências ardentes de âmbar, de malobatro e de bácaris, enchiam o ar de fragrância e de moleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solenemente entre escravas vestidas de panos amarelos, que lhes traziam o pára-sol de penas de pavão, os rolos devotos em que está escrita a lei, sacos de tâmaras doces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicor, e sem mais jóias que um rude talismã de coral, corriam, chalravam, mostrando nus os braços e o colo cor de medronho mal maduro... E sobre todas o meu desejo zumbia - como uma abelha que hesita entre flores de igual doçura!

- Ai Topsius, Topsius! - rosnava eu. - Que mulheres! Que mulheres! Eu estouro, esclarecido amigo! O sábio afirmava, com desdém, que elas não tinham mais intelectualidade que os pavões dos jardins de Antipas; e que nenhuma decerto ali lera Aristóteles ou Sófocles!... Eu encolhia os ombros. Oh esplendor dos céus! Por qual destas mulheres, que não lera Sófocles não daria eu, se fosse César, uma cidade de Itália e toda a Ibéria. Umas entonteciam-me pela sua graça dolente e macerada de virgens de devoção, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela suntuosidade sólida e suculenta da sua beleza. Que largos, escuros olhos de ídolos! Que claros, macios membros de mármore! Que sombria moleza! Que nudezes magníficas, quando à beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabelos pesados, e fossem docemente escorregando os véus e os linhos de Galácia!...

Foi necessário que Topsius me arrastasse pelo albornoz, para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para trás os olhos esbraseados, resfolgando como um touro em maio nas lezírias.

- Ai, filhinhas de Sião! Que sois de vos deixar aqui os miolos!

Ao voltar-me, puxado pelo douto historiador, bati no focinho de um cordeiro branco que um velho conduzia às costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cedro lavrado - onde uma cancela toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silêncio, faiscando.

- É aqui - disse o erudito Topsius - que se dão a beber as águas amargas às mulheres adúlteras... E agora, D. Raposo, aí tem Israel adorando o seu Deus.

Era enfim o adro sacerdotal! E eu estremeci diante daquele santuário, entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos holocaustos; aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; de um pendiam grinaldas de lírios; de outros fios de corais; o outro pingava sangue. Da imensa grelha do altar subia uma fumaça avermelhada e lenta; e em redor apinhavam-se os sacrificadores, descalços, todos de branco - com forquilhas de bronze nas mãos pálidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos cor de céu... No afanoso, severo rumor do cerimonial sacrossanto, confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da água em bacias de mármore, e o estridor das buzinas. Apesar dos aromáticos que ardiam em caçoulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu pus o lenço na face, enjoado com esse cheiro mole de carne crua, de sangue, de gordura frita e de açafrão, que o Senhor reclamou a Moisés, como o dom melhor a receber da Terra...

Ao fundo, bois enfeitados de flores, vitelas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze; mais longe, sobre mesas de mármore, entre pedaços de gelo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas peças de carne, sobre que os levitas balançavam leques de penas, para afugentar os moscardos. De colunas rematadas por faiscantes globos de cristal, pendiam cordeiros mortos, que os netenins, resguardados por aventais de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata; enquanto os vitimários de saião azul, retesando os braços, conduziam baldes de onde transbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeus constantemente limpavam as lajes com esponjas; alguns vergavam sob molhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.

A cada momento algum velho sacrificador, descalço, marchava para o altar, trazendo ao colo um anho tenro que não balava, contente e quente entre os dous braços nus; um tocador de lira precedia-o; levitas atrás transportavam os jarros de óleos aromáticos. Em frente à ara, rodeado de acólitos, o sacrificador lançava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, salmodiando, cortava-lhe uma pouca de lã entre os cornos. As buzinas ressoavam; um grito de animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiaras brancas, duas mãos vermelhas erguiam-se ao ar, sacudindo sangue; da grelha do altar ressaltava, avivada pelos óleos e pela gordura, uma chama de alegria e de oferta: e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.

- É um talho! - murmurei eu, aturdido. - É um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo às mulherinhas...

O sábio olhou para o sol. Depois gravemente, pousando-me no ombro a mão amiga:

- É quase a nona hora, D. Raposo!... E temos de ir fora da Porta Judiciária, para além do Garebe, a um sítio agreste que se chama o Calvário.

Empalideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada aquisição enriqueceria o saber de Topsius - por irmos contemplar no alto de um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e sofrendo; era apenas um tormento para a nossa sensibilidade. Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das águas, que leva ao largo lajeado de basalto onde começam as primeiras casas de Acra. Vizinhas do santuário, habitadas por sacerdotes, elas ostentavam uma profusa devoção pascal, em palmas, lâmpadas, alcatifas penduradas dos eirados; e algumas tinham os umbrais salpicados com sangue fresco de um anho.

Antes de penetrar numa sórdida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldos de esparto, voltei-me para o templo; agora só via a imensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e inderrubável; e a arrogância da sua força e da sua eternidade encheu de cólera o meu coração. Enquanto sobre uma colina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galiléia incomparável amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquela pura voz de amor e de espiritualidade - ali ficava o templo que o matava, rutilante e triunfal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sofismas, a usura sob os pórticos, o sangue sob as aras, a iniqüidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perene incenso... Então, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jeová e à sua cidadela, e bradei:

- Arrasados sejais!

Não descerrei mais os lábios secos até chegarmos à estreita porta nas muralhas de Ezequiá, que os romanos denominavam a Judiciária. E logo aí estremeci, vendo colado num pilar de pedra um pergaminho com três sentenças transcritas - "a de um ladrão de Betebara, a de um assassino de Emá, e a de Jesus de Galiléia!" O escriba do Sanedrim, que conforme à lei ali vigiara para recolher, até que os condenados passassem, algum inesperado testemunho de inculpabilidade, ia partir, com os seus tabulários debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um grosso risco vermelho. E aquele corte final, cor de sangue, passado à pressa por um escriturário que recolhia contente à sua morada, a comer o seu anho, comoveu-me mais que a melancolia dos livros santos.

Sebes de cactos em flor bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo ali resplandecia, festivo e pacífico. À sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos de alfazema e mangerona que se oferecem na Páscoa; e crianças em redor, com o pescoço carregado de amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam à seta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedários, levando mercadorias para Jopé; dous homens robustos recolhiam da caça, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhes a coxa, uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e de abutres amarrados pelas patas; e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao ombro de uma criança que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lira grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma coroa de louro...

Ao fundo de um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante de uma cancela pintada de vermelho, dous servos esperavam, sentados num tronco caído, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius arou, puxou-me o albornoz:

- E este o horto de José de Ramata, um amigo de Jesus, membro do Sanedrim, homem de espírito inquieto, que se inclina para os essênios... E justamente, aí vem Gade.

Do fundo do horto, com efeito, por uma rua de murta e rosas, Gade descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vimes enfiados num pau. Paramos.

- O Rabi? – gritou-lhe o alto historiador, transpondo a cancela.

O essênio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de mirra e de ervas aromáticas; e ficou diante de nós um momento, trêmulo, sufocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a ansiedade.

- Sofreu muito! - murmurou, por fim. - Sofreu quando lhe trespassaram as mãos... Mais ainda ao erguer da cruz... E repeliu primeiro o vinho de misericórdia, que lhe daria a inconsciência... O Rabi queria entrar com a alma clara na morte por que chamara!... Mas José de Ramata, Nicodemo, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as cousas prometidas uma noite em Betânia... O Rabi então tomou a malga das mãos da mulher de Rosmofim, e bebeu.

E o essênio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recomendação suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentidão:

- À noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...

E outra vez desapareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Jopé; e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de misericórdia - era um vinho forte de Tarses, com suco de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas, para insensibilizar os supliciados... Mas eu mal escutava aquele copioso espírito. No alto de um áspero outeiro, todo de rocha e urze, avistara, destacando duramente no claro azul do céu liso, um montão de gente parada; e em meio dela sobrelevavam-se três pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de legionários. Turbado, encostei-me à beira do caminho, num penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a morte uma purificadora li-bertação das formas imperfeitas - não quis ser menos forte, nem menos espiritual; arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a colina temerosa.

De um lado cavava-se o Vale de Hinom, abrasado e lívido, sem uma erva, sem uma sombra, juncado de ossos, de carcaças, de cinzas. E diante de nós o morro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espaços furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O córrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruínas de um casebre de adobe; duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda de um sepulcro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem flor, aonde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tênue, quatro mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas túnicas pobres, choravam como num funeral.

Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro; outra, exausta de lágrimas, jazia numa pedra, com a cabeça caída nos joelhos, e os esplêndidos cabelos louros desmanchados, alastrados até ao chão. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensangüentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lançando ao céu os braços nus, abalavam o morro com gritos - "oh meu encanto, oh meu tesouro, oh meu sol!" E um cão, que farejava entre as ruínas, abria a goela, uivava também, sinistramente.

Espavorido, puxei a capa do douto Topsius - e cortamos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das oficinas de Garebe, serventes do templo, vendilhões, e alguns desses sacerdotes miseráveis e em farrapos, que vivem de nigromancia e de esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dous cambistas, com moedas de ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bênçãos servis. Uma corda de esparto deteve-nos, presa a postes cravados no chão para isolar o alto do morro; e, no sítio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados, dos ramos, escudos de legionários e um manto vermelho.

Então, ansioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas numa fenda de rocha. O Rabi agonizava. E aquele corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão passado entre as pernas - encheu-me de terror e de espanto... O sangue que manchara a madeira nova, enegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos cravos; os pés quase tocavam o chão, amarrados numa grossa corda, roxos e torcidos de dor. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais lívida que um mármore, rolava de um ombro a outro docemente; e por entre os cabelos emaranhados, que o suor empastara, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados - parecendo levar com a sua luz, para sempre, toda a luz e toda a esperança da terra...

O centurião, sem manto, com os braços cruzados sobre a couraça de escamas, rondava gravemente junto à cruz do Rabi, cravando por vezes os olhos duros na gente do templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente à corda, um homem cuja face, amarela e triste, quase desaparecia entre as duas longas mechas negras de cabelo que lhe desciam sobre o peito - e que abria e enrolava com impaciência um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora falando baixo a um escravo ao seu lado.

- É José de Ramata - segredou-me o douto historiador. - Vamos ter com ele, ouvir as cousas que convém saber...

Mas nesse instante, dentre o bando sórdido dos servos do templo e dos sacerdotes miseráveis que são nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruído mais forte, com o grasnar de corvos num alto. E um deles, colossal, esquálido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os braços para a cruz do Rabi, e gritou numa baforada de vinho:

- Tu que és forte, e querias destruir o templo e as suas muralhas, por que não quebras ao menos o pau dessa cruz?

Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as mãos sobre o peito, curvado com infinito escárnio, saudava o Rabi:

- Herdeiro de Davi, oh meu príncipe, que te parece esse trono?

- Filho de Deus! Chama teu pai! Vê se teu pai te vem salvar! rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu bordão.

Alguns vendilhões bestiais apanhavam torrões secos a que misturavam cuspo, para arremessar ao Rabi; uma pedra por fim passou, ressoou cavamente no madeiro. Então o centurião correu, indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasfemando - em quanto alguns embrulhavam na ponta do salão os dedos que escorriam sangue.

Nós acercamo-nos de José de Ramata. Mas o sombrio homem abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sábio Topsius. E, magoados com a sua rudeza, ali ficamos junto de um tronco de oliveira seca, defronte das outras cruzes.

Os dous condenados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, peludo, com os olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costelas a estalar, como se num esforço desesperado quisesse arrancar-se do madeiro - urrava sem descontinuar, medonhamente; o sangue pingava-lhe em gotas lentas dos pés negros, das mãos esgarçadas; e abandonado, sem afeição ou piedade que o assistissem, era como um lobo ferido que uiva e morre num brejo. O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada. Defronte dele uma mulher, macilenta e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos braços uma criancinha nua, e gritava, já rouca: "Olha ainda, olha ainda!" As pálpebras lívidas não se moviam; um negro, que entrouxava as ferramentas da crucificação, ia empurrá-la com brandura; ela emudecia, apertava desesperadamente o filho para que lho não levassem também, batendo os dentes, tremendo toda; e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.

Soldados, sentados no chão, desdobravam as túnicas dos supliciados; outros, com o elmo enfiado no braço, limpavam o suor - ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a posca. E embaixo, na poeira da estrada, sob o sol mais doce, passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos hortos. Um velho picava as suas vacas para o lado da porta de Gená; mulheres, cantando, carregavam lenha; um cavaleiro trotava, embrulhado num manto branco. Às vezes os que atravessavam o caminho ou voltavam dos pomares de Garebe avistavam as três cruzes erguidas; arregaçavam a túnica, subiam a colina devagar através das urzes. O rótulo da cruz do Rabi, escrito em grego e em latim, causava logo assombro. "Rei dos Judeus!" Quem era esse? Dous moços, patrícios e saduceus, com brincos de pérolas nas orelhas e bordaduras de ouro nos borzeguins, interpelaram o centurião, escandalizados. Por que escrevera o Pretor - "Rei dos Judeus?" Era aquele, ali pregado na cruz, Caio Tibério? Só Tibério era Rei da Judéia! O Pretor quisera ofender Israel! Mas em verdade só ultrajava César!...

Impassível, o centurião falava a dous legionários que remexiam no chão em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os saduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas de púrpura nos cabelos empoados de azul, contemplava suavemente o Rabi e aspirava o seu frasco de essências - lamentando decerto aquele moço, rei vencido, rei bárbaro, que morria no poste dos escravos.

Cansado, fui sentar-me com Topsius numa pedra. Era perto da oitava hora judaica; o sol, sereno como um herói que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de Betânia. Diante de nós o Garebe verdejava, coberto de jardins. Junto às muralhas, no bairro novo de Bezeta, grandes panos vermelhos e azuis secavam em cordas às portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo de uma forja; crianças corriam brincando sobre a borda de uma piscina. Adiante, no alto da torre hípica, que estendia já a sua sombra sobre o vale de Hinom, soldados de pé na amurada apontavam a seta aos abutres voando no azul. E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os eirados do palácio de Herodes.

Triste, com o espírito disperso, eu pensava no Egito, nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha - quando avistei, subindo a colina devagar, apoiado ao ombro da criança que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de Jopé, com uma lira presa à cintura. Os seus passos arrastavam-se mais incertos, na fadiga de uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto cor do vinho, que lhe cobria a cabeça, as folhas da coroa de louro pendiam raras e murchas.

Topsius gritou-lhe: "Eh, rapsodo!" E quando ele, tenteando as urzes do caminho, se acercou - o douto historiador perguntou-lhe se das doces ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente, murmurou que uma mocidade imperecível sorri nos mais antigos cantos da Helênia. Depois, tendo assentado a sandália sobre uma pedra, tomou a lira entre as mãos vagarosas; a criança, direita, com as pestanas baixas, pôs à boca uma flauta de cana; e, no resplendor da tarde que envolvia e dourava Sião, o rapsodo soltou um canto já trêmulo, mas glorioso e repassado de adoração, como ante a ara de um templo, numa praia da Jônia... E eu percebi que ele cantava os deuses, a sua beleza, a sua atividade heróica. Dizia o délfico, imberbe e cor de ouro, afinando os pensamentos humanos pelo ritmo da sua citara; Atenéia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a beleza às raças, a ordem às cidades; e acima de todos, sem forma e esparso, o Fado, mais forte que todos!

Mas subitamente um grito varou o céu no alto da colina, supremo e arrebatado como o de uma libertação! Os dedos frouxos do velho emudeceram entre as cordas de metal; com a cabeça descaída, a coroa do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lira helênica, de ora em diante e para longas idades silenciosa e inútil. E ao lado a criança, tirando a flauta dos lábios, erguia para as cruzes negras os olhos claros - onde subia a curiosidade e a paixão de um mundo novo.

Topsius pediu ao velho a sua história. Ele contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesaréia e tocava o honnor junto ao templo de Hércules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heróis; e só havia festas e oferendas para a boa deusa da Síria! Acompanhara depois uns mercadores a Tiberíade; os homens aí não respeitavam a velhice, e tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia às portas dos lagares; e para ganhar o pão duro, tocara a citara grega nos funerais dos bárbaros. Agora errava ali, nessa cidade onde havia um grande templo, e um deus feroz e sem forma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua pátria; sentir o fino murmúrio das águas do Meandro; poder palpar os mármores santos do Templo de Febo Didimeu - onde ele em criança levara num cesto e cantando, os primeiros anéis dos seus cabelos...

As lágrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruínas. E a minha piedade foi grande por aquele rapsodo das ilhas da Grécia, perdido também na dura cidade dos judeus, envolto pela influência sinistra de um deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Ele desceu a colina, apoiado ao ombro da criança, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas nuas, e muda e mal segura do cinto a lira heróica de cinco cordas.

No entanto, em torno às cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E fomos encontrar a gente do templo, com as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo de ouro para o lado do Mar de Tiro, intimando o centurião a que baixasse os condenados da cruz, antes de soar a hora santa da Páscoa! Os mais devotos reclamavam que se aplicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifrágio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indiferença do centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria ele macular o Sabá, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.

- O sol declina! O sol vai deixar o Hébron! - gritou de cima de uma pedra um levita, aterrado.

- Acabai-os, acabai-os!

E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos lânguidos, movendo os braços cheios de manilhas de ouro:

- Atirai o Rabi aos corvos! Dai às aves de rapina a sua páscoa!

O centurião, que espreitava o alto da Torre Mariana, onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro - acenou devagar com a espada. Dous legionários, lançando pesadamente ao ombro as barras de ferro, marcharam com ele para as cruzes. Eu, arrepiado, agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus, o centurião parou, erguendo a mão...

O corpo branco e forte do Rabi tinha a serenidade de um adormecimento; os pés empoeirados, que há pouco a dor torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão, como se o fossem em breve pisar; e a face não se via, tombada para trás molemente por sobre um dos braços da cruz, toda voltada para o céu onde ele pusera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei também o céu; rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...

- Quem reclamou o corpo deste homem? - gritou, procurando para os lados, o centurião.

- Eu, que o amei em vida! - acudiu José de Ramata, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.

O escravo que esperava junto dele, depôs logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruínas do casebre, onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.

E por trás de nós, fariseus e saduceus que se tinham juntado, estranhavam com azedume que José de Ramata, um membro do Sanedrim, assim solicitasse o corpo do Rabi para o perfumar e lhe fazer soar em tomo as flautas e os prantos de um funeral... Um deles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias de óleo, afirmava que sempre conhecera José de Ramata inclinado para todos os inovadores, todos os sediciosos... Mais de uma vez o vira falar com esse Rabi junto ao Campo dos Tintureiros... E com eles estava Nicodemo, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que estão de ambos os lados da Sinagoga de Cirenaica...

Outro, rubicundo e mole, gemeu:

- Que será da nação, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os frutos da terra devem ser igualmente para todos!...

- Raça de Messias! - bradou o mais moço com furor, atirando o bastão contra as urzes. - Raça de Messias, perdição de Israel!


Mas o saduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mão, ligada em tiras sagradas:

- Sossegai; Jeová é grande; e tudo em verdade determina para melhor... No templo e no conselho não faltarão jamais homens fortes que mantenham a velha ordem; e em cima dos calvários, felizmente, hão de sempre erguer-se as cruzes!...

E todos sussurraram:

-Amém!

No entanto o centurião, com os soldados atrás levando ao ombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condenados, vivos e cheios de agonia, pediam água - um pendido e gemendo; outro torcido, com as mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: “É tempo, vamos”.

Com os olhos alagados de água amarga, tropeçando nas pedras, desci ao lado do fecundo crítico a colina de imolação. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma, pensando nessas cruzes vindouras, anunciadas pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh dura miséria! Sim! De ora em diante por todos os séculos a vir, iria sempre recomeçando em torno à lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto às escadas das forcas - este afrontoso escândalo de se juntarem sacerdotes, patrícios magistrados, soldados, doutores e mercadores para matarem ferozmente, no alto de um morro, o justo que, penetrado do esplendor de Deus, ensine a adoração em espírito ou cheio do amor dos homens, proclame o reino da igualdade!

Com estes pensamentos recolhi a Jerusalém - em quanto as aves mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Garebe...

Escurecera e era a hora da ceia pascal, quando chegamos à casa de Gamaliel; no pátio, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amável físico Eliézer de Silo.

Na sala azul, de teto de cedro, perfumada de malobatro, o austero doutor já nos aguardava estendido no divã de correias brancas, com os pés nus, as largas mangas arregaçadas e pregadas no ombro - e ao lado um bordão de viagem, uma cabaça de água e uma trouxa, emblemas rituais da saída do Egito. Defronte dele, numa mesa incrustada de madrepérola, entre vasos de barro com flores pintadas, açafates de filigrana de prata, transbordando de fruta e pedaços cintilantes de gelo, erguia-se um candelabro em forma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pálida chama azul e, com os olhos perdidos no seu brilho trêmulo, as mãos cruzadas no ventre, Eliézer, o benigno doutor da tripa, sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto dele dous escabelos, recobertos com tapetes da Assíria, esperavam por mim e pelo sagaz historiador.

Sede bem-vindos - rosnou Gamaliel. - Grandes são as maravilhas de Sião; deveis vir esfomeados...

Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruído nas sandálias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de túnica amarela, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.

A um lado tínhamos, para limpar os dedos, um bolo de farinha branca, fino e mole como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de pérolas, onde negrejava, entre ramos de salsa, um montão de cigarras fritas; no chão jarros com água de rosa. Cumprimos as abluções; e Gamaliel, tendo purificado a boca com um pedaço de gelo, murmurou a oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o molho de açafrão e saumura.

Topsius, bom sabedor das maneiras orientais, arrotou fortemente, por cortesia, demonstrando fartura e deleite; depois, com uma febra de anho entre os dedos, afirmou, sorrindo aos doutores, que Jerusalém lhe parecera magnífica, formosa de claridade, e bendita entre as cidades...

Eliézer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:

- Ela é uma jóia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra, para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor...

- No centro da Terra!... - murmurou o historiador, com douto espanto.

Sim! E, ensopando um pedaço de bolo no molho de açafrão, o profundo físico explicou a Terra. Ela é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalém a santa, como um coração cheio de amor do Altíssimo; em redor a Judéía, rica em bálsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras, onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos... E por cima o céu, sonoro e sólido.

- Sólido!... - balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.

Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarela da Média. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabor, trincasse uma cigarra frita. E Rabi Eliézer, sábio entre todos nas cousas da natureza, revelava a Topsius a divina construção do céu.

Ele é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de cristal; por cima delas constantemente rolam as grandes águas; sobre as águas flutua, num fulgor, o espírito de Jeová... Estas lâminas de cristal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma música doce e lenta, que os profetas mais queridos por vezes ouviam... Ele mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altíssimo essa harmonia, tão penetrante e suave, que as lágrimas uma a uma lhe caíam nas mãos abertas... Ora, nos meses de Quisleu e de Tebé os furos das lâminas coincidem, e por eles caem sobre a terra as gotas das águas eternas, que fazem crescer as searas!

- A chuva? - perguntou Topsius, com acatamento.

- A chuva! - respondeu Eliézer, com serenidade.

Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus óculos de ouro, que faiscavam de sábia ironia; mas o piedoso filho de Simeão conservava sobre a face, emagrecida no estudo da lei, uma seriedade impenetrável. Então o historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber, do esclarecido físico, por que tinham os cristais do céu essa cor azul que enleva a alma...

Eliézer de Silo elucidou-o:

Uma grande montanha azul, invisível até hoje aos homens, ergue-se a ocidente; ora, quando o sol abate, a sua reverberação banha o cristal do céu e anila-o. E talvez nessa montanha que vivem as almas dos justos!...

Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: "Bebamos, louvando o Senhor!"

Ergueu uma taça cheia de vinho de Siquém, pronunciou sobre ela uma bênção - e passou-ma, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: "À sua, muitos e felizes!" E Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu - "à prosperidade de Israel, à sua força ao seu saber!"

Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de túnica amarela, que fazia ressoar sobre as lajes com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida pascal - as ervas amargas.

Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicória, macela, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solenemente, como cumprindo um rito. Elas representavam as amarguras de Israel, no cativeiro do Egito. E Eliézer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.

Mas Topsius lembrou, fundado nos autores gregos, que todos os legumes amolecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloqüência, lhe enervam o heroísmo; e com torrencial erudição citou logo Teofrasto, Êubulo, Nicandro na segunda parte do seu Dicionário, Fênias no seu Tratado das Plantas, Défilo e Epicarmo!

Gamaliel, secamente, condenou a inanidade dessa ciência - porque Hecateu de Mileto, só no primeiro livro da sua Descrição da Ásia, encerra cinqüenta e três erros, quatorze blasfêmias e cento e nove omissões... Assim dizia o leviano grego que a tâmara, maravilhoso dom do Altíssimo, enfraquece o intelecto!...

- Mas - exclamou Topsius com ardor - a mesma doutrina estabelece Xenofonte no livro segundo do Anábasis! E Xenofonte...

Gamaliel rejeitou a autoridade de Xenofonte. Então Topsius, vermelho, batendo com uma colher de ouro na borda da mesa, exaltou a eloqüência de Xenofonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverência por Sócrates!... E enquanto eu partia um empadão de Comagênia, os dous facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Sócrates. Gamaliel afirmava que as vozes secretas ouvidas por Sócrates, e que tão divina e puramente o governavam, eram murmúrios distantes que lhe chegavam da Judéia, repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava, encolhia os ombros, com desesperado sarcasmo. Sócrates inspirado por Jeová! Ora lérias!

No entanto era certo (insistia Gamaliel, já lívido), que os gentílicos iam emergindo da sua treva, atraídos pela luz forte e pura que derramava Jerusalém; porque a reverência pelos deuses aparecia em Ésquilo, profunda e cheia de terror; em Sófocles, amável e cheia de serenidade; em Eurípides, superficial e cheia de dúvida... E cada um dos trágicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!

- Oh Gamaliel, filho de Simeão - murmurou Eliézer de Silo -, tu, que possuis a verdade, para que dás acesso no teu espírito aos pagãos?

Gamaliel respondeu:

- Para os desprezar melhor dentro em mim!

Farto de tão clássica controvérsia, acheguei a Eliézer um covilhete de mel do Hébron - e contei-lhe quanto me agradara o caminho do Garebe entre jardins. Ele concordou que Jerusalém, cercada de vergéis, era doce à vista como a fronte da noiva toucada de anêmonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios de açougues, junto ao morro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrância de Siloé...

- Fui ver Jesus - atalhei severamente. - Fui ver Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanedrim...

Eliézer, com oriental cortesia, bateu no peito demonstrando mágoa. E quis saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhara comigo o pão de aliança, esse Jesus que eu fora assistir na sua morte de escravo.

Eu considerei-o, assombrado:

- É o Messias!

E ele considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.

Oh raridade! Eliézer, doutor do templo, físico do Sanedrim, não conhecia Jesus de Galiléia! Atarefado com os enfermos que, pela Páscoa, atulham Jerusalém (confessou ele) não fora ao Xisto, nem à loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hanão, onde as novas voam mais numerosas que as pombas; por isso nada ouvira da aparição de um Messias...

De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem "o consolador", porque traria a consolação a Israel. E haveria dous Messias: o primeiro, da tribo de José, seria vencido por Gogue; o segundo, filho de Davi e cheio de força, venceria Magogue. Antes dele nascer começariam sete anos de maravilhas; haveria mares evaporados, estrelas despregadas do céu, fomes e tais farturas que até as rochas dariam fruto; no último ano correria sangue entre as nações; enfim ressoaria uma voz portentosa; e, sobre o Hébron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!

Dizia estas cousas peregrinas, fendendo a casca de um figo. Depois com um suspiro:

- Ora, ainda nenhuma dessas maravilhas, meu filho, anunciou a consolação!...

E atolou os dentes no figo.

Então fui eu, Teodorico, ibero, de um remoto município romano, que contei a um físico de Jerusalém, criado entre os mármores do templo, a vida do Senhor! Disse as cousas doces e as cousas fortes; as três claras estrelas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as águas de Galiléia; o coração dos simples palpitando por ele; o reino do céu que prometia e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...

- Depois os padres, os patrícios e os ricos crucificaram-no!

Doutor Eliézer, volvendo a remexer o açafate de figos murmurou pensativamente:

Triste, triste!... Todavia. meu filho, o Sanedrim é misericordioso. Em sete anos, desde que o sirvo, apenas tem lançado três sentenças de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça; mas Israel tem sofrido tanto com inovadores, com profetas!... Enfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a verdade é que estes figos, de Beftagé, não valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E nesse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o helenismo e as escolas socráticas, empinado, de óculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

- Sócrates é a semente; Platão a flor; Aristóteles o fruto... E desta árvore, assim completa, se tem nutrido o espírito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se; doutor Eliézer também, arrotando com efusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

- Aleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egito!

Findara a ceia pascal. O esclarecido historiador, que limpava o suor da controvérsia, olhou logo vivamente o relógio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio de Ofel... O doutor da lei conduziu-nos à varanda, alumiada palidamente por lâmpadas de mica, mostrou-nos a íngreme escada de ébano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliézer num aposento cerrado por cortinas de Mesopotâmia - de onde saiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lira.

Que doce ar no terraço! E que alegre essa noite de Páscoa em Jerusalém! No céu mudo e fechado como um palácio onde há luto, nenhum astro brilhava; mas o burgo de Davi e a colina de Acra, com as suas iluminações rituais, pareciam salpicadas de ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em óleo lançavam uma chama ondeante e vermelha. Aqui e além, nalguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um colar de jóias no pescoço de uma negra. O ar estava docemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor, e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, víamos esvoaçar, claras e curtas, as túnicas de gregos dançando a calabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hípica, a Mariana, a Farsala, se conservavam escuras; e o mugido das suas buzinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.

Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite pascal. Havia luzes em Siloé. Nos acampamentos, sobre o Monte .das Oliveiras, ardiam fogos claros; e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.

Só uma colina, além do Garebe, permanecera em treva. Nessa hora, por baixo dela, numa ravina entre rochas, alvejavam dous corpos despedaçados, onde os bicos dos abutres, com um ruído seco de ferros entrechocados, faziam a sua ceia pascal. Ao menos outro corpo, precioso invólucro de um espírito perfeito, jazia resguardado num túmulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canela e de nardo. Assim o tinham deixado nessa noite, a mais santa de Israel, aqueles que o amavam - e que desde então, para todo o sempre, mais entranhadamente o amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima; e agora entre as casas de Jerusalém, cheias de luzes e cheias de cantos - alguma havia, escura e fechada, onde corriam lágrimas sem consolação. Aí o lar esfriara, apagado; a lâmpada triste esmorecia sobre o alqueire; na bilha não havia água, porque ninguém fora à fonte; e sentadas na esteira, com os cabelos caídos, aquelas que o tinham seguido de Galiléia falavam dele, das primeiras esperanças, das parábolas contadas por entre os trigais, dos templos suaves à beira do lago...


Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalém quando no terraço surgiu, sem rumor, uma forma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canela e de nardo. Pareceu-me que dela irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lajes - e o meu coração tremeu. Mas dentre os pálidos panos uma bênção saiu, grave e familiar:

- Que a paz seja convosco.

- Ah! que alívio! Era Gade.

- Que a paz seja contigo!

O essênio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, imóvel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:

- A lua vai nascer... Todas as cousas esperadas se estão cumprindo... Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardá-lo até ao oásis de Engada?

Ergui-me, atirando os braços ao ar, num terror!... Acompanhar o Rabi! Ele não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, numa horta do Garebe?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engada. Agarrei ansiosamente o ombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e à sua autoridade...

O meu douto amigo parecia enleado numa pesada incerteza:

- Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além disso não temos armas!

- Vinde comigo! - acudiu Gade, ardentemente. - Passaremos por casa de alguém que nos dirá as cousas que convém saber, e que vos dará armas!...

Ainda trêmulo, sem me desamparar do sapiente historiador, ousei balbuciar:

- E Jesus?... Onde está?

- Em casa de José de Ramata - segredou o essênio, espreitando em roda como o avaro que fala de um tesouro. - Para que nada suspeitasse a gente do templo, mesmo na presença deles depositamos o Rabi no túmulo novo, que está no horto de José. Três vezes as mulheres choraram sobre a pedra que, segundo os ritos, como sabeis, não fechava inteiramente o túmulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabi. Alguns serventes do templo olharam, e disseram: “Está bem”. Cada um recolheu à sua morada... Eu entrei pela porta de Gená, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vêm no livro de Salomão, fazê-lo reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotizado e o sofrimento... Vinde pois, vós que o amais também e credes nele!...

Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta capa; e descemos, num cauto silêncio, pela escada que, do terraço, levava a um caminho de pedra miúda colado à muralha nova de Herodes.

Longo tempo marchamos na escuridão, guiados pelas roupagens brancas do essênio. Dentre casebres em ruínas, por vezes um cão saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma árvore, triste e mole como se saísse da sua sepultura; e roçando o meu braço, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas de alho que fôssemos dormir ao seu leito que ela perfumara de nardo.

Paramos finalmente diante de um muro, a que uma esteira grossa de esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava água levou-nos a um pátio rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira; o chão mole como lodo abafava o rumor das nossas solas.

Gade, três vezes espaçadas, soltou o grito dos chacais. Nós esperávamos no meio do pátio, à borda de um poço, coberto com tábuas; o céu, por cima, guardava a escuridão dura e impenetrável de um bronze. A um canto, enfim, sob a varanda, um clarão vivo de lâmpada surgiu - alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lançara, sobre a cabeça, a ponta de um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sopro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.

Gade cortou a desolada mudez:

- Que a paz seja contigo, irmão! Estamos prontos.

O homem pousou devagar a lâmpada sobre a tampa do poço, e disse:

- Tudo está consumado.

Gade, estremecendo, gritou:

- O Rabi?

O homem atirou a mão para abafar o grito do essênio. Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos, que reluziam como os de um animal do deserto:

- São cousas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O vinho narcotizado fora bem preparado pela mulher de Rosmofim, que é hábil e conhece os simples... Eu tinha falado ao centurião, um camarada a quem salvei a vida na Germânia, na campanha de Públio. E, quando rolamos a pedra sobre o túmulo de José de Ramata, o corpo do Rabi estava quente!


Mas calou-se; e, como se o pátio fechado sob o céu negro não fosse bastante secreto e seguro, tocou no ombro de Gade, e sem um rumor dos pés nus recolheu à escuridão mais densa sob a varanda, até às pedras do muro. Nós, rente a ele e mudos, tremíamos de ansiedade; e eu senti que uma revelação ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os mistérios.

- Ao anoitecer - segredou o homem por fim, como um murmúrio triste de água correndo na sombra - voltamos ao túmulo. Olhamos pela fenda; a face do Rabi estava serena e cheia de majestade. Levantamos a pedra, tiramos o corpo. Parecia adormecido, tão belo, como divino, nos panos que o envolviam... José tinha uma lanterna; e levamo-lo pelo Garebe, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte encontramos uma ronda da coorte auxiliar. Dissemos: "é um homem de Jopé que adoeceu, e que nós levamos à sua sinagoga". A ronda disse: "passai". Em casa de José estava Simeão, o Essênio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas; e tudo fora preparado, até à raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira. Demos-lhe a beber os cordiais, chamamo-lo, esperamos, oramos... Mas ai! Sentíamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!... Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra saiu-lhe dos lábios. Era vaga, não a compreendemos... Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono... Depois estremeceu; um pouco de sangue apareceu-lhe ao canto da boca... E, com a cabeça sobre o peito de Nicodemo, o Rabi ficou morto!

Gade caiu pesadamente de joelhos, soluçando; e o homem, como se todas as cousas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lâmpada ao poço. Topsius deteve-o, com avidez:

- Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?

O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os braços na escuridão e tão perto das nossas faces, que eu sentia o seu bafo quente:

- Era necessário, para bem da terra, que se cumprissem as profecias! Durante duas horas José de Ramata orou, prostrado. Não sei se o Senhor lhe falou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: "Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!" Depois, por sua ordem, enterramos o Rabi numa caverna que ele tem, talhada na rocha, por trás do moinho...

Atravessou o pátio, tomou a sua lâmpada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gade, erguendo a face, o chamou através dos seus soluços:

- Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o outro túmulo, onde as mulheres de Galiléia o deixaram, ligado e envolvidos em panos, com aloés e com nardo?

O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:

- Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...

Então Topsius arrastou-me pelo braço, tão arrebatadamente, que tropeçávamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros caídos... E vi uma praça, rodeada de pálidos arcos, triste e fria, com erva entre as fendas das lajes dessoldadas, como numa cidade abandonada. Topsius estacou; os seus óculos faiscavam:

- Teodorico, a noite termina; vamos partir de Jerusalém!... A nossa jornada ao passado acabou... A lenda inicial do cristianismo está feita, vai findar o mundo antigo!

Eu considerei, assombrado e arrepiado, o douto historiador. Os seus cabelos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente saía dos seus finos lábios retumbava, terrível e enorme, caindo sobre o meu coração:

- Depois de amanhã, quando acabar o Sabá, as mulheres de Galiléia voltarão ao sepulcro de José de Ramata, onde deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!... "Desapareceu, não está aqui!..." Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém – “ressuscitou, ressuscitou!” E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais à humanidade!

E, atirando os braços ao ar, correu através da praça - onde os pilares de mármore começavam a tombar, sem ruído e molemente. Arquejando, paramos no portão de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de cadeias partidas, segurava os nossos cavalos. Montamos. Com um fragor de pedras levadas numa torrente, varamos a Porta de Ouro; e galopamos para Jericó, pela estrada romana de Siquém, tão vertiginosamente que não sentíamos as ferraduras ferir as lajes negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camelos na debandada de um povo. As ventas da minha égua dardejavam jactos de fumo avermelhado; e eu agarrava-me às crinas, tonto, como se rolasse entre nuvens...

De repente avistamos, alargada, cavada até às serras de Moabe, a planície de Canaã. O nosso acampamento alvejava junto às brasas dormentes da fogueira. Os cavalos estacaram, tremendo. Corremos às tendas; sobre a mesa, a vela que Topsius acendera para se vestir, havia mil e oitocentos anos, morria num fogacho lívido... E derreado da infinita jornada, atirei-me para o catre, sem mesmo descalçar as botas brancas de pó...

Imediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrara na tenda, esparzindo um brilho de ouro...


Ergui-me, assustado. Num largo raio de sol, vindo dos montes de Moabe, o jucundo Pote entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na mão!

Arrojei a manta, arredei os cabelos, para verificar melhor a mudança terrível que desde a véspera se fizera no universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne, com que brindáramos à ciência e à religião. O embrulho da coroa de espinhos pousava à minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola, e com um lenço amarrado na testa, bocejava, pondo os óculos de ouro no bico. E o risonho Pote, censurando a nossa preguiça, queria saber se apetecíamos nessa manhã - "tapioca ou café".

Deixei sair deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no júbilo triunfal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu século, pulei sobre o colchão com a fralda ao vento, bradei:

- Tapioca, meu Pote! Uma tapioca bem docinha e molezinha, que saiba bem ao meu Portugal...

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