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Adão e Eva no Paraíso

Eça de Queiroz

Era toda a Animalidade do Paraíso que, sabendo o Primeiro Homem adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperança de o destruir e eliminar da terra a Força Inteligente, destinada a submeter a Força Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava à borda da clareira onde Adão dormia sobre a hortelã e a malva, nenhuma fera avançava. Os longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos os cornos repontavam; cada guarra saída dilacerava com ânsia a terra mole; e os bicos, de cima das ramas, terçavam os fios da Lua com bicadas famintas... Mas nem ave descia, nem fera avançava - porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca, de asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrelas, o peito guardado numa couraça de diamante e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma espada que era de lume - e vivia.

A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando à terra alegre, à terra braviamente alegre, à terra ainda sem andrajos, à terra ainda sem sepulturas, uma alegria superior, mais graves, religiosa e nupcial. Adão acordou: e, batendo as fuscas pálpebras, na surpresa do seu acordar humano, sentiu sobre a ilharga um peso macio e que era doce. Nesse terror que, desde as árvores, não desamparava o seu coração, pulou e com tão ruidoso pulo que, pela selva, os melros, os rouxinóis, as toutinegras, todos os passarinhos de festa e de amor, despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças. - E, oh maravilha! diante de Adão, e como despegado dele, estava outro Ser a ele semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum pêlo mais sedoso, que o contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. Uma coma ruiva, dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, até às suas ancas arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braços peludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da cor do medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se enristava, intumescido. E roçando, num roçar lento, num roçar muito doce, os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Mãe Venerável!

III

ENTÃO começaram, para nossos Pais, os dias abomináveis do Paraíso.

O seu constante e desesperado esforço foi sobreviver - no meio duma Natureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruição. E Adão e Eva passaram esses tempos, que os poemas semíticos celebram como Inefáveis - sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a emendava, numa tão móbil inspiração que, em sítio coberto ao alvorecer por uma floresta, à noite se espelhava uma lagoa onde a Lua, já doente, vinha estudar a sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sobre a coxa de Eva, Eva com os dedos ágeis catando o pêlo de Adão), foram sacudidos pela encosta amena como por um dorso irritado e rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulcão que Jeová improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, de alguma abrigada caverna, quando já sobre ela corria um grande mar inchado que bramava, se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas a boiar. Ou então era o chão, o chão seguro, já social e fertilizado para as searas sociáveis, que de repente rugia como uma fera, escancarava uma insondável goela e tragava rebanhos, prados, nascentes, benéficos cedros com todas as rolas que na sua rama arrulhavam.

Depois eram as chuvas, as longas chuvas Edénicas, desabando em jorros clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, tão desabaladamente que do Paraíso, vasto charco barrento, apenas apareciam as pontas do arvoredo afogado e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos que bramiam no terror das águas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma erguida fraga, gemiam lamentàvelmente, com regatos a escorrer dos ombros, com ribeiras a escorrer dos pés, como se o barro novo de que Jeová os fizera se andasse já desfazendo.

E mais terríficas eram as estiagens. Oh! o incomparável tormento das secas no Paraíso! Lentos dias tristes, após lentos dias tristes, a imensa brasa do Sol candente coriscava furiosamente num céu cor de cobre, em que o ar baço e grosso crepitava e arfava. Os montes estalavam gretados: e as planícies desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos, enovelados, rijos como arames, que eram os restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele seca que se despeja, descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque ardia, fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a abóbada do forno inclementet. Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto animal morto de fome e de sede, abundava a carne podre. No rio, a água que restava mal corria, empoçada pela massa fervilhante de cobras, rãs, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo morno. E nossos Pais veneráveis, com as magras costelas a arquejar contra o pêlo crestado, a língua pendida e mais dura que cortiça, erravam de fonte em fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que assobiava, ao cair, sobre as lajes esbraseadas...

E assim Adão e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da Água, fugindo da Terra, fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim das Delícias.

E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! Ah, Comer - que portentosa empresa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada), tendo já provado os deleites fatais da carne, já não encontrava sabor, nem fartura, nem decência nos frutos, nas raízes e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo - mas nadava alegremente nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com os grãos que o Criador considerara bons - mas voavam nos céus, em triunfal segurança. O coelho, a lebre - que fugas ligeiras no mato cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuía o anzol nem a seta. Por isso, sem cessar rondava em torno das lagoas, nas ribas do mar, onde casualmente encalhava, boiando, algum cetáceo morto. Mas esses achados de abundância eram raros - e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e além, na rocha ou na areia revolta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam também infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam desconsoladamente, sentindo o passo fofo do horrendo espeleu, ou o bafo dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da Lua!

Decerto, a sua ciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos Pais nessa conquista da presa. Que, sob as ramarias da caneleira de onde eles, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado, ou uma tartaruga moça e bisonha se arrastasse para a erva miúda - e eis o repasto seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa Mãe forte, guinchando sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga... Mas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da Terra forçados a afugentar a hiena, com rijos brados, através das clareiras, para lhe roubar um osso fètidamente babujado, que era já o sobejo de um leão morto! E dias piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore, às ervas, aos rebentos, às raízes amargas - conhecendo assim, entre a abundância do Paraíso, a primeira forma de Miséria!

E, através desses trabalhos, não os desamparava o terror das feras! Porque, se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis, eram também uma presa apetecida por todos os brutos superiores. Comer Eva, tão redonda e carnuda, foi decerto o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de roble, não se deteve, e se balançou, e lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, através da ramaria, num rebrilho errante de Sol, o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros, mas ainda dos lentos e fartos herbívoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente escorneariam e espezinhariam nossos Pais, por estupidez, dessemelhança de raça e cheiro, emprego da vida ociosa. E acresciam ainda os que matavam para não serem mortos - porque Medo, Fome e Furor foram as leis da vida no Paraíso.

Certamente nossos Pais eram também ferozes, de tremenda força e perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo pulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os macacos - e bem poderia abocar Adão, com aquela obtusa incapacidade que sempre as jibóias tiveram de distinguir, sob a similitude das formas, a diversidade dos méritos. E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra esses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia, ainda hoje arrepiada, chama o Leo Anticus? Ou contra a hiena-espeléia tão ousada, que, nos primeiros dias do Gênesis, os Anjos, quando desciam ao Paraíso, caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre os bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? Ou contra os cães, os horrendos cães do Paraíso, que, atacando em cerradas e ululantes hostes, foram, nesses começos do Homem, os piores inimigos do Homem!


E entre toda essa bicharia adversa, Adão não contava um aliado. Os seus próprios parentes, os Antropóides, invejosos e farsantes, o apedrejavam com enormes cocos. Só um animal, e formidável, conservava pelo Homem uma majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a enevoada Inteligência de nosso Pai ainda, nesses dias edênicos, não compreendia a bondade, a justiça, o serviçal coração do paquiderme admirável. Por isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento, ele viveu, durante esses trágicos anos, num ansiado terror. Tão ansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondulação, se perpetuou por toda a sua descendência - e é o velho medo de Adão que nos torna inquietos quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.

E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso, entre bichos de formas racionais, polidas, já preparadas para a prosa nobre de Mr. De Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada purificadora de 25 de outubro. Decerto Jeová poupou a Adão o degradante horror de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os paleongologistas, assombrados, deram o nome de Iguanodão! Na véspera do advento do Homem, Jeová, muito caridosamente, afogou todos os Iguanodões nos lodos de um pântano, a um canto escondido do Paraíso, onde hoje se estende a Flandres. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodáctilos. Oh! esses Pterodáctilos!... Corpos de Jacaré, escamosos e penugentos; duas lúgubres, negras, carnudas asas de morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente caído, eriçado de centenas de dentes, finos como os duma serra. E não voava! Descia, de asas moles e mudas, e nelas abafava a presa como num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes das mandíbulas fétidas. E esse funambulesco avejão enturvava o céu do Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por eles torturados - e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando, de além dos montes, se vinha despenhando, com sinistro estridor de asas e bicos, a revoada dos Pterodáctilos.

Como sobreviveram nossos Pais, nesse Jardim de Delícias? Decerto muito faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!

Pois bem, meus amigos! A todos esses furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os Sáurios, e os Pterodáctilos, e a Hiena Espeléia, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional - a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopotâmicos do Gênesis, nesses versículos sutis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas, não trabalhava hoje o Homem das cidades - pois que a Civilização nasceu do desesperado esforço defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade é realmente a obra da fera. Que a Hiena e o Tigre, no Paraíso, começassem por acariciar lânguidamente o ombro peludo de Adão com pata amiga - Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena, partilhando as suas tocas, as suas presas, os seus ócios, os seus gostos bravios. E a Energia Inteligente que o descera da Árvore em breve se apagaria dentro da sua bruteza inerte, como se apaga a faísca, mesmo entre galhos secos, se um frio sopro, vindo de um buraco escuro, não a estimula a viver, para vencer a friagem e vencer a escuridão.

Mas uma tarde (como ensinaria o exato Usserius), saindo Adão e Eva da espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante deles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Então, assim colhido, sem refúgio, na apertada ânsia de defender a sua fêmea, o Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava, um forte galho de teca, arrancado na mata, que findava em lasca aguda... E o pau atravessou o coração da fera.

Ah! Desde essa tarde bendita houve verdadeiramente, sobre a terra, um Homem.

Era já um Homem, e superior, quando lançou um passo espantado e arrancou o pau do seio do monstro estendido e lhe mirou a ponta gotejante de sangue - com a testa toda franzida, no afã de compreender. Os seus olhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Adão compreendera...

Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a tarde, enquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos troncos, cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem lascadas e agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, através da frescura e da sombra, para a obra da primeira Redenção! Selva amável, que foste a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua secular sepultura, tornada negro carvão!... Quando da mata largaram, fumegando de suor, para recolher à toca distante, nossos Pais veneráveis vergavam sob o peso glorioso de dois grossos molhos de armas.

E então não cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais não tinham esburgado a carcaça do Pai dos Ursos - já nosso Pai racha uma ponta do seu cajado vitorioso; entala na fenda um desses seixos afiados e bicudos, em que por vezes se feriam as suas patas, descendo à beira dos rios; e segura o fino estilhaço na racha com os lios, muito arrochados, de uma fibra de enrediça seca. E eis a lança! Como essas pedras não abundam, Adão e Eva ensanguentam as garras, tentando fender os pedregões redondos de sílex em lascas curtas, que venham perfeitas, com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, pouco desejosa de ajudar o Homem que, nos dias genesíacos do grande Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crônicas de Backum). - Mas de novo lampeja a face de Adão, numa idéia que o sulca, como faísca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a rocha, arranca a lasca... E eis o martelo!

Depois, noutra tarde bendita, costeando uma escura e bravia colina, descobre, com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam, um calhau negro, áspero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu peso - e logo pressente nele um maço superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroço o leva, agarrado contra o peito, para martelar o sílex rebelde! Ao lado de Eva, que o espera à beira do rio, logo malha rijamente sobre a pederneira... E oh espanto! uma fagulha salta, refulge, morre! Ambos recuam, se entreolham, num terror quase sagrado! É um lume, um vivo lume, que ele assim arrancou com as suas mãos da rocha bruta - semelhante ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo bate, a tremer. A centelha brilha, a centelha passa, e Adão remira e fareja o escuro calhau. Mas não compreende. E pensativos, nossos Pais veneráveis sobem, com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que é no pendor dum cerro, junto duma fonte borbulhando entre fetos.

E aí, no seu retiro, Adão, com uma curiosidade onde lateja uma esperança, novamente entala o sílex, grosso como uma abóbora, entre os calosos pés, e recomeça a martelar, sob o bafo de Eva, que se debruça e arfa. Sempre a faúlha salta, rebrilha na sombra, tão refulgente como aqueles lumes que, agora, palpitam, olham, de além, das alturas. Mas esses lumes permanecem, através da negrura do céu e da noite, vivos, a espreitar, na sua radiância. E aquelas estrelinhas da pedra ainda não têm vivido e já têm morrido... Será o vento que as leva, ele que tudo leva, vozes, nuvens e folhas? Nosso Pai venerável, fugindo do vento malévolo que ronda no monte, recua até ao fundo mais abrigado da caverna, onde se afofam as camadas de feno muito seco, que são o seu leito. E de novo fere a pedra, despedindo centelha após centelha, enquanto Eva, agachada, abriga com as mãos aqueles refulgentes e fugitivos seres. E eis que dos fenos um fumozinho se eleva, e se engrossa, e se enrola, e através dele, vermelha, uma chama ressalta... É o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da caverna, obscurecida por uma fumaraça cheirosa, onde flamejam alegres, rutilantes línguas, que lambem a rocha. Acocorados à porta da toca, ambos arquejam, no pasmo e terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. E, mesmo através do susto e do espanto, sentem uma doçura muito nova que os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas já o fumo se escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam, incertas e azuladas: em breve só resta um borralho que descora, se acinzenta, se abate em cisco: e a derradeira faúlha corre, tremeluz, passa. O fogo morreu! Então, na alma nascente de Adão, entra a dor duma ruína. Desesperadamente puxa os grossos beiços e geme. Saberá ele jamais recomeçar o feito maravilhoso?... E é nossa Mãe, já consoladora, que o consola. Com as suas rudes mãos comovidas, porque realiza sobre a terra a sua primeira obra, junta outro montão de fenos secos, pousa entre eles o sílex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num faulhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama refulge. Oh triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraíso, e não casualmente rebentada, mas acendida por uma clara Vontade que, agora, para todo sempre, cada noite e cada manhã, poderá repetir com segurança a façanha suprema.

À nossa Mãe Venerável pertence então, na caverna, a doce e augusta tarefa do Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpetua. E, como mãe deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho dos seus cuidados, uma virtude ou graça nova. Agora já Adão sabe que o seu fogo espanta todas as feras e que no Paraíso existe enfim um buraco seguro, que é o seu buraco! Não só seguro, mas amável - porque o lume o alumia, o aquece, o alegra, o purifica. E quando Adão, com um molho de lanças, desce à planície ou se embrenha na selva a caçar a presa, já mata com redobrada ânsia, para recolher depressa àquela boa segurança e consolação do lume. Ah! que docemente ele o penetra, e lhe seca no pêlo a friagem dos matos, e doura como um sol a penedia da sua toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e os enleva, e o guia num cismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de flechas, malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas que correm o pau!... À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora!

E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos, meus irmãos, que nossa Mãe, com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetisa e Sibila, não hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as Rosas: - “Come do fruto do Saber, que os teus olhos se abrirão e serás como os Deuses sabedores!” Adão teria comido a serpente, bocado mais suculento. Nem acreditaria em frutos que comunicam a Divindade e Sapiência, ele que tanta fruta comera nas árvores e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, porém, com a credulidade sublime que sempre no mundo opera as transformações sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide. E persuadindo Adão a que partilhasse do transcendente pomo, muito doce e enredosamente o convenceu do proveito, da felicidade, da glória e da força que dá o Saber! Esta alegoria dos poetas do Gênesis, com esplêndida subtileza, nos revela a imensa obra de Eva nos anos dolorosos do Paraíso. Por ela Deus continua a Criação superior, a do Reino espiritual, a que desenrola sobre a terra o lar, a família, a tribo, a cidade. É Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da Humanidade.

Senão, vede! Quando o bravio caçador recolhe à caverna, derreado sob o peso da caça morta, cheirando todo a relva, e a sangue, e a fera, é ele, decerto, que esfola a rês com a faca de pedra, e retalha as postas, e esburga os ossos (que sôfregamente guarda sob a coxa e reserva para a sua ração, porque contêm a moela preciosa). Mas Eva junta essa pele, cuidadosamente, às outras peles armazenadas; esconde os ossos partidos, porque as suas lascas agudas pregam e furam; e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que sobejou. Ora em breve uma dessas fartas postas esquece, caída junto à fogueira perpétua. O lume alastra, lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, até que um cheiro, desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe venerável. De onde vem ele, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de veado ou de lebre grelha e rechina. Então Eva, inspirada e grave, empurra a carne para a brasa viva; e espera, ajoelhada, até que a espeta com uma ponta de osso, e a retira da chama ruidosa, e a trinca, em sombrio silêncio. Os seus olhos rebrilhantes anunciam outra conquista. E, com a pressa amorosa com que oferece a Maçã a Adão, lhe apresenta agora aquela carne tão nova, que ele cheira desconfiado, e depois devora a rijas dentadas, roncando de gozo! E eis que, por esse pedaço de gamo assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da Humanidade!

A água ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fetos, com a face mergulhada no veio claro. Depois de beber, Adão, arrimado à sua grossa lança, olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou de lume, o Sol sobre o mar - pensando, com arrastado pensar, se a presa será mais certa e as selvas menos cerradas. Mas Eva recolhe logo à caverna, para se entregar, sem descanso, a uma tarefa que a encanta. Encruzada no chão, toda atenta sob a coma crespa, nossa Mãe fura, com um ossinho agudo, buracos finos na orla duma pele, e depois na orla de outra pele. E, tão embebida que nem sente Adão entrar e remexer nas suas armas, une as duas peles sobrepostas, passando através dos buracos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. Adão considera com desdém esse trabalho miúdo que não acrescenta força à sua força. Não pressente ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas serão o resguardo do seu corpo, a armação da sua tenda, o saco do seu farnel, o odre da sua água, e o tambor em que bata quando for um Guerreiro, e a página em que escreva quando for um Profeta!

Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou, uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso Pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de Caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar dos nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade dum bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este é, na História, um momento espantoso! Eis que o Homem domestica o Animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por ele a aliança com o cavalo, depois o domínio sobre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.

Depois, naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava, Eva, errando de vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas raízes, sementes, com o gosto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas novas, que escondia nas fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes caíra, através dos seus dedos, sobre a terra úmida e negra, quando recolhia pela beira da fonte. Uma ponta verde brotou; depois uma haste cresceu; depois uma espiga amadurou. Os seus grãos são gostosos. Eva, pensativa, enterra outras sementes, na esperança de criar em torno do seu lar, num bocado do seu torrão, altas ervas que espiguem, e lhe tragam o grão adocidado e tenro... E eis a seara! E assim nossa Mãe torna possíveis, do fundo do Paraíso, os povos estáveis que lavram a terra.

No entanto, bem podemos supor que Abel nasceu - e, uns após outros, os dias deslizam no Paraíso, mais seguros e fáceis. Já os vulcões lentamente se vão apagando. As rochas não se despenham já com fragor sobre a abundância inocente dos vales. Tão amansadas andam as águas, que na sua transparência se miram, com demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente um Pterodáctilo macula, com o escândalo do seu bico e das suas asas, os céus, onde o sol alterna com a bruma, e os estios se franjam de chuvas ligeiras. E nessa tranqüilidade que se estabelece, há como uma submissão consciente. O Mundo pressente e aceita a supremacia do Homem. A floresta já não arde com a leviandade do restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca, a trave, o remo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. O mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da quilha. A terra torna estável a sua gleba, e molemente se umedece, para quando chegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em filão, e alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.

E pela tarde Adão recolhe contente, com caça abundante. A lareira flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esforço da Vida embelezou, onde já os beiços se adelgaçam, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado num pau, assa e pinga nas brasas. No chão pousam cascas de coco, cheias de clara água da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos. Outra pele, pendurada, abriga a boca da caverna. A um canto, que é a oficina, estão os montões de sílex e o malho; a outro canto, que é o arsenal, estão as lanças e as clavas. Eva torce os fios duma lã de cabra. Ao bom calor, sobre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo nu, com um pêlo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho e do mesmo calor, vela o cão, já crescido, com o olho amorável, o focinho entre as patas. E Adão (oh, a estranha tarefa!), muito absorto, tenta gravar, com uma ponta de pedra, sobre um osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas de um veado a correr!... A lenha estala. Todas as estrelas do céu estão presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer da Humanidade.

E agora que acendi, na noite estrelada do Paraíso, com galhos bem secos da Árvore da Ciência, este verídico lar, consenti que vos deixe, oh Pais veneráveis!

Já não receio que a Terra instável vos esmague; ou que as feras superiores vos devorem; ou que, apagada, à maneira duma lâmpada imperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, vós retrogradeis à vossa Árvore. Sois já irremediavelmente humanos - e cada manhã progredireis, com tão poderoso arremesso para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão, que em breve, dentro dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será Helena e Adão será o imenso Aristóteles.

Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos ficaram na espessura das arvores - e a sua vida é doce. Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de folhas de pendenia, sobre o fofo colchão de musgos que ele, com cuidado, acamou por cima dum catre de ramos cheirosos. Lânguidamente, sem cuidados, preguiça na moleza dos musgos, escutando as límpidas árias dos pássaros, gozando os fios do sol que se emaranham por entre a renda das folhas e lambendo no pêlo dos seus braços o orvalho açucarado. Depois de bem se coçar e bem se esfregar, sobe com pachorra à arvore dileta, que elegeu em todo o bosque pela sua frescura, pela elasticidade embaladora das suas ramagens. Daí, tendo respirado as brisas carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, através das sempre fáceis, sempre fartas ucharias do bosque, onde almoça a banana, a manga, a goiaba, todos os finos frutos que o tornam tão são e alheio a males como as árvores onde os colheu. Percorre então, sociàvelmente, as ruas e as vielas palreiras da espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amáveis de ligeireza e força; galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com ele, duma liana florida, balançam chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda das águas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum velho e facundo chimpanzé contando divertidas histórias de caça, de viagens, de amores e de troças às feras pesadas, que circulam nas relvas e não podem trepar. Cedo recolhe à sua árvore e, estendido na folhosa rede, brandamente se abandona à delícia de sonhar, num sonho acordado, semelhante às nossas Metafísicas e às nossas Epopeias, mas que, rolando todo sobre sensações reais, é, ao contrário dos nossos incertos sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se cala, a sombra escorrega entre os troncos: - e o Orango ditoso desce ao seu catre de pendenias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus - de Deus que ele nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que todavia sobre ele derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da sua Misericórdia.

Assim ocupou o seu dia o Orango, nas Árvores. E no entanto, como gastou, nas Cidades, o seu dia o Homem, primo do Orango? Sofrendo - por ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo - por arrastar consigo, irresgatàvelmente, esse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo - porque nosso Pai Adão, no terrível dia 28 de outubro, depois espreitar e farejar o Paraíso, não ousou declarar reverentemente ao Senhor: - “Obrigado, oh meu doce Criador; dá o governo da Terra a quem melhor escolheres, ao Elefante ou ao Canguru, que eu por mim, bem mais avisado, volto já para a minha árvore!...”

Mas, enfim, desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a abnegação de declinar a grande Supremacia - continuemos a reinar sobre a Criação e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar, insaciàvelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons, o mais puro, o único genuìnamente grande, o dom de o amar - pois que não nos concedeu também o dom de o compreender. E não esqueçamos que Ele já nos ensinou, através de vozes levantadas em Galileia, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos, e que amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e até esses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor, esses Sóis, esses Mundos, essas esparsas Nebulosas, que, inicialmente fechadas, como nós, na mão de Deus, e feitas da nossa substância, nem decerto nos amam - nem talvez nos conhecem.

FIM

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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