Às seis horas da tarde, Godofredo, em chinelos, no seu gabinete, acabava de lacrar um maço de papéis, quando a campainha retiniu e os seus dois amigos apareceram. Carvalho, apesar da sua indiferença pela etiqueta, fora mudar de fato, estava de sobrecasaca preta: - e ambos traziam um ar grave.
Medeiros, agora muito correto, com o bigode encerado, sentou-se no sofá – na sala onde a criada os introduzira – e começou a tirar lentamente as suas luvas pretas, e olhava Godofredo.
- Estás aí a rebentar de curiosidade? Pois olha, pôr ora nada feito.
Godofredo, que tivera os olhos cravados nele, e estava muito pálido, pareceu respirar melhor. Mas subitamente enfureceu-se. Como nada feito? Então o infame recusava-lhe uma reparação.
Carvalho acudiu:
- Não, senhor. A cada um o que é seu, o Machado nisto anda bem.
- Então?
- Foram as testemunhas, que se mostraram recalcitrantes – disse o Medeiros. – Aqui está o que foi.
Era uma longa história, que o Medeiros contou com detalhes, gozando. Tinham falado ao Machado, que lhes prometeu que dois amigos dele estariam às quatro horas em casa dele, Medeiros. E pontualmente apareceram lá o Nunes Vidal, que ele conhecia perfeitamente , rapaz de experiência em coisas de honra, e o Cunha, o Albertinho Cunha, que pouco falara, estava como um comparsa. Entraram, cumprimentos, etc., tudo muito grave, e toda a amabilidade. Depois vieram à questão: o Nunes Vidal declarou logo que, em princípio, o sr. Machado estava pronto a aceitar todas as condições, todas quaisquer que fossem, propostas pelo sr. Alves. Inteiramente todas. Mas que ele, NunesVidal, e ali o seu amigo Cunha entendiam que o dever das testemunhas, num conflito, era, antes de tudo, procurar paz e conciliação. E que portanto, se em princípio o seu constituinte, o sr. Machado, pôr um excesso de pundonor e orgulho estava disposto a deixar-se matar, eles, suas testemunhas, que tinham tomado nas suas mãos os interesses dele, estavam ali, e tinham vindo ali não só para procurar, tanto quanto possível, o evitar que sucedesse uma desgraça no campo ao seu amigo, mas mesmo que em volta do nome dele se fizesse um escândalo, que o prejudicaria...
- Tudo isto muito bem dito – acrescentou o Medeiros -, tudo muito bem explicado, com bonitas palavras... Sério, gostei do Vidal.
- Ah, rapaz de muito talento – murmurou o Carvalho.
Enfim o Vidal terminara pôr dizer que, tudo bem considerado, não julgavam que houvesse motivo para um duelo grave à pistola.
Outra vez a falta de motivo. Godofredo despropositou:
- Com mil diabos, então que queria esse asno que o Machado me tivesse feito de pior?
Com um gesto, Medeiros conteve-o.
- Não te exaltes, não te exaltes... Deixa estar que lá lhe disse tudo. O Vidal é muito esperto, mas olha que eu não me calei. Pergunta ao Carvalho...
- Andaste como um rábula – disse Carvalho.
- Mas então que diabo disse o Vidal? – exclamou ainda Godofredo.
O Vidal dissera que não havia motivo de sangue, porque o que se passara entre Machado e a senhora fora um simples namoro...
Godofredo teve um gesto furioso. E o Medeiros, erguendo-se também:
- Não te exaltes, escuta. Eu lá lhe disse tudo. Contei-lhe do modo como o apanhaste, e a carta, meu riquinho que tarde a de ontem, e o resto. Apresentei-lhe todos os dados para o convencer que o adultério era completo... Não é verdade, Carvalho?
- Todos.
- Disse-lhe claramente: o meu constituinte, o nosso amigo Alves, é, em toda a extensão da palavra, um marido que... Enfim, necessita reparação. Não é verdade, Carvalho?
Carvalho fez um gesto de assentimento.
- Mas o Nunes provou-me que não. Tinha lido as cartas ele também, o Machado contara-lhe tudo, e depois de Ter combinado, pensado, chegara a este resultado: que não passara de namoro.
Houve um silêncio na sala. Godofredo passeava vivamente, com as mãos nos bolsos. Carvalho examinava vagamente em quadro representando Leda e o cisne. De repente, Godofredo parou, exclamou, com uma voz surda, espaçando as palavras:
- Aí nesse sofá, os vi eu abraçados um ao outro... Que diz a isto o Nunes?
- Esse é que é o único ponto – exclamou Medeiros. – Esse ponto é que se não pode negar porque tu viste, com os teus olhos. Mas o Machado explicou ao Nunes. E o Nunes explicou-nos a nós. Era uma brincadeira, era a rir, era a fazer cócegas...
- E a carta, que tarde a de ontem? – exclamou Godofredo.
- Disse o Nunes que naturalmente se refere a um passeio que vocês deram a Belém. Vocês foram a Belém?
Godofredo pensou um momento. Sim, tinham ido a Belém. Era verdade que tinham todos três ido a Belém.
- Então aí tens. Era a lembrar o prazer de terem ido todos, a patuscada, a passeata, etc...
- De modo que – exclamou Godofredo – fica tudo nisto... Não há nada. Tenho de tragar a afronta.
Medeiros ergueu-se indignado. Ora essa, então pôr quem o tomava ele? Tinha ou não Alves posto a sua honra nas mãos dele e do Carvalho? Tinha. Então não podia supor que eles, seus amigos, o deixassem na lama, miseravelmente...
- Mas – murmurou Alves.
- Mas que? Está claro que te hás-de bater. Foi o que se decidiu. Não há motivo para que seja à pistola, porque foi um simples namoro. Mas como o sr. Machado não tem direito a namorar a tua mulher, há todo o motivo para que seja à espada, um duelo mais simples... Vamos nos encontrar logo com eles em minha casa, às oito horas, e combinar tudo.
- E não temos muito tempo a perder – disse Carvalho puxando o relógio – porque são seis e meia, ainda temos de jantar. Eu estou a cair...
Godofredo ofereceu-lhes então que jantassem lá. De resto ele tinha calculado que apareceriam à hora do jantar e mandara preparar um bocado de assado a mais.
- Não haverá mais que um bocado de assado – disse ele -, mas enfim, em campanha tudo basta... e nós estamos em guerra.
Era a primeira vez que sorria desde a véspera. Mas aquela companhia dos seus amigos ao jantar alegrava-o, evitando-lhe a solidão que ele temia.
E o jantar foi alegre. Tinha-se combinado que não falariam do duelo, nem do caso: mas logo desde o cozido, em todos os momentos que Margarida não estava presente, voltavam a essa idéia, pôr frases curtas e alusões vagas. Pôr fim, Godofredo disse à Margarida que não voltasse sem que ele tocasse a campainha: e então a conversação não cessou mais. Godofredo contou como conhecera Ludovina, e o seu namoro, e o dia do casamento. Depois falou do Machado, mas já sem cólera, chegando mesmo a dizer que era um rapaz brioso. Era ele que o ia buscar ao colégio quando o Machado era pequeno: e às vezes levava-o ao teatro. E estas recordações enterneciam-no, terminou pôr engolir um soluço, disse que se não falasse mais em semelhante coisa. Tocou a campainha, a Margarida trouxe o assado. Houve um curto silêncio, o Medeiros gabou o vinho de Colares. Carvalho, a respeito do Colares, que ele costumava beber em Cabo Verde, lembrou um caso de duelo em que ele lá fora testemunha: e apenas Margarida saiu, contou-o logo: era parecido com o do Alves, também pôr causa duma mulher, mas essa, preta. Isto parecia incrível ao Medeiros. Mas Carvalho gabou a preta, com o olho brilhante:
Em a gente se acostumando, não quer senão daquilo... A preta é grande mulher.
- Mas que diabo, não falemos mais de mulheres – disse Godofredo.
E neste pedido, que ele acompanhou de um vago sorriso, havia como uma resignação na sua desgraça, uma idéia nascente de gozar a vida, na companhia de amigos, nas preocupações do negócio, sem os desgostos que traz invariavelmente a paixão das saias. Então falou-se do Nunes. Medeiros estava contente de num caso tão sério como aquele Ter encontrado pela frente o Nunes, rapaz sério, de experiência e de honra. Estava ao princípio com medo que o Machado tivesse a idéia de nomear para padrinho aquele idiota do Sigismundo, com quem andava sempre. E isto trouxe de novo à conversa o Machado. Então, um pouco animado pelo Colares, Medeiros confessou que já tinha pregado uma ao Machado: tinha sido o amante da francesa com quem ele estivera. Então começou a falar de si, das suas conquistas: e voltou à história da véspera, quando estivera para ser apanhado na cozinha. O Carvalho também tivera uma história assim, em Tomar. Mas aí tivera de saltar pela janela, e caíra em cima duma estrumeira... O Carvalho sabia pior do que isso: um amigo dele, o Pinheiro, não o magro, o outro, o picado das bexigas, que tinha estado escondido num curral de porcos seis horas. Ia morrendo. E quando via um porco punha-se branco como a cal. Então foi entre o Carvalho e o Medeiros um desfilar de anedotas de adultérios. O Godofredo, homem casado e honesto, não tinha destas anedotas: a sua vida fora toda doméstica, sem aventuras, e escutava, bebendo o seu café aos goles, gozando aquele fim alegre de jantar, sorrindo pôr vezes.
E terminou pôr sentir um hálito quente de mocidade, dizer filosófico:
- Homem, é melhor a gente divertir-se pôr sua conta, que os outros se divirtam à nossa custa...
As oito horas aproximavam-se. Carvalho começou a calçar as luvas pretas, Então Godofredo falou em os acompanhar: meter-se-ia dentro do quarto do Medeiros – enquanto se celebrava a conferência na sala -, e eles poupavam assim o trabalho de voltar, a dar-lhe parte do resultado, à rua de São Bento. E – apesar de Carvalho Ter achado isto contra a etiqueta – terminou pôr consentir, pôr não ser coisa muito grave.
Foi-se buscar uma carruagem, e apinhados dentro dela todos três – partiram para a Estrela.
Em casa do Medeiros, o criado já acendera velas nos lustres; e eles tinham apenas subido a escada quando a campainha retiniu. Eram os outros, muito pontuais. Então Godofredo foi esconder-se no quarto: os outros entraram na sala, onde se elevou logo o rumor de vozes. No quarto às escuras, Godofredo, sem ousar chamar o criado, procurava, apalpava, sobre a mesa e o toucador, à cata duma caixa de fósforos. Não achou, mas o seus dedos encontraram um reposteiro, correu-o, e viu diante uma fenda de luz numa porta, pôr trás rumor de vozes. Era, do outro lado, a sala, onde estavam a conferenciar. Adiantou-se, mas topou com um jarro, que rolou com um som de água, entornando água. Então ficou um momento imóvel, depois chapinhando umidade, foi encostar o ouvido à fechadura. Mas tinha-se feito um silêncio, que ele não compreendia. Só pôr vezes um dos amigos do Machado tossia. Que diabo estavam fazendo? Quis espreitar, mas viu, vagamente, um bocado de espelho onde se refletia a luz do candeeiro. Subitamente a luz desapareceu, houve diante dele o quer que fosse de negro, decerto as costas dum deles. Então uma voz elevou-se, era a do Medeiros; dizia “que lhe parecia concludente...” . E foi logo um rumor de duas outras vozes, que se misturavam, cresciam, que ele não podia ouvir. Depois uma outra voz fria, disse muito distintamente:
- Nisto é necessário sobretudo dignidade.
Com efeito era necessário dignidade – e não era digno estar ele ali escutando. Voltou então ao quarto às apalpadelas – e tendo topado com o sofá, sentou-se. Agora não havia rumor, e um ar abafado pesava no quarto. E aquela escuridão trouxe-lhe idéias de doença... No dia seguinte podia ele estar talvez, assim num quarto, às escuras, prostrado num leito; e só, sem ninguém, tratado pela Margarida. Isto causou-lhe um grande horror. Começou a lembrar-se de histórias de ferimentos que ouvira. Um golpe de espada ao princípio fazia apenas um frio – as dores eram depois, longas, nas noites longas, quando os colchões aquecem e o corpo se não deve mover... Então pensou em tudo que dissera o Nunes ao Carvalho: era a primeira vez que o Machado a abraçava, pôr brincadeira. E se isto fosse verdade? Também ela lho dissera, num grito de dor: era a primeira vez. Podia ser bem apenas uma leviandade, um galanteio, o que os ingleses chamam uma flirtations . Deveria perdoar? Não. Mas não era então motivo para haver um duelo. Bastava-lhe expulsar Machado de sua casa. E então outras coisas acudiam-lhe: nunca, como ultimamente, Ludovina fora mais amante. Outrora era ele que lhe devia fazer festas, a provocá-la... Ultimamente era ela, que às vezes, sem motivo, lhe atirava os braços ao pescoço. Podia ele afirmar que ela o não amava? Não. E não era fingido, ele não era tolo, sabia bem conhecer uma emoção sincera. Pôr que consentia então ela na corte do outro? Quem sabe! Coquetismo, vaidade... Em todo o caso isso merecia castigo. Nunca mais a veria; e bater-se-ia com o outro... Depois pensou que nunca manejara uma espada. E o Machado tinha dado lições de esgrima. Decerto era ele que ficaria ferido. E o mesmo terror voltava-lhe. Parecia-lhe que não temeria tanto, a morte brusca, uma bala através do coração. Mas uma ferida grave, que o retivesse na cama semanas, com toda a sua lenta marcha, a febre, a inflamação, o perigo de gangrena. Era horrível. Toda a sua carne tremia, se encolhia a essa idéia. Mas enfim acabou-se, era a honra que o pedia.
De repente ouviu vozes no corredor, risos, todo um barulho cordial de amigos que se despedem. O coração batia-lhe. Tinha caminhado para a porta do quarto. Uma luz apareceu. Era o Medeiros com uma vela, com que alumiava os outros.
- Tudo resolvido – disse entrando.
Atrás dele entrava o Carvalho, dizendo também:
- Está tudo decidido.
Godofredo olhava-os, pálido, a tremer, de nervoso.
- Não te bates – disse o Medeiros pondo o castiçal sobre a mesa.
Que te disse eu logo? – exclamou Carvalho, radiante. Tudo tinha de ficar na mesma, a não haver senso comum.
E foi desta vez ainda, o Medeiros, que explicou a conferência. O Nunes Vidal portara-se com um cavalheirismo extraordinário. Começara pôr dizer que se estivesse convencido que havia ali uma traição do Machado, um crime de adultério com a mulher do seu sócio, ele não se meteria nisso. Dissera-lhes que se eles exigiam o duelo, eles tinham normas de aceitar tudo, sem discutir, hora, e sítio, e estocadas. E, chegado ao terreno, Machado tomaria a espada, deixar-se-ia ferir, como um gentleman. Mas então Nunes apelara para eles, como homens de honra e de bom senso.
- Não foi isto que ele disse, Carvalho?
- E homens de sociedade – acrescentou Carvalho.
- Justamente, e homens de sociedade. Apelou para nós, se nós devíamos consentir um duelo, quando não havia motivos, e quando o Machado, numa carta que o Nunes me deu a ler, lhe afirmava sob a sua sagrada honra de homem, que a sra. dona Ludovina era inocente, perfeitamente inocente. Não houvera mais que umas cartas tolas trocadas, sem importância, e aquele abraço... Ora agora, dizia o Nunes: o que faz um duelo? Compromete a sra. dona Ludovina, faz crer ao público que houve realmente adultério, torna ridículo o sr. Alves e prejudica a firma comercial...
- E o dilema do Nunes – lembrou do lado o Carvalho.
- É verdade, o dilema – gritou Medeiros, recordando-se. – O Nunes apresentou este dilema: os senhores pedem a espada, se houve adultério o duelo à espada é ainda pouco; se o não houve é demais. De maneira que resolvemos que não houvesse duelo...
Godofredo não dizia nada. Mas uma sensação de paz e de serenidade invadia-o silenciosamente. Aquelas grandes afirmações do Nunes, um rapaz de tanta honra, quase o convenciam de que realmente não houvera senão um galanteio. Ele mesmo o dissera: se estivesse convencido que havia adultério, não se teria metido nisso. E não, que era um verdadeiro fidalgo. Ora se era um simples galanteio não havia realmente motivo para que se batessem, e isto dava-lhe um alívio, mil idéias abomináveis desapareciam, outras surgiam, de repouso, de tranqüilidade, talvez de felicidade ainda. Decerto não perdoaria a sua mulher aquele simples galanteio. Não tornaria a falar ao Machado. Mas a vida ser-lhe-ia menos amarga pensando que eles realmente o não tinham traído.
Aquilo consolava o seu orgulho. E mostrava que era um marido rígido, e de honra – expulsando sua mulher só pôr um simples olhar trocado. Assim a sua honra estava salva, o seu coração sofria menos.
E agora invadia-o uma alegria, de sair enfim daquelas idéias violentas de morte, em que andava envolvido, e reentrar na rotina da vida, no seu negócio, nas suas relações, nos seus livros. Mas então, à idéia da rotina, da casa comercial, uma idéia tomou-o, encheu-o de perturbação.
- E o Machado? Eu não posso falar mais ao Machado!
Mas Medeiros tinha discutido esse ponto com o Nunes. E fora o Nunes que tivera uma idéia de bom senso. Aqui está o que o Nunes dissera. Desde o momento em que não há motivo para duelo, não há motivo para que se interrompam as relações comerciais...
Godofredo protestou:
- Então há-de amanhã entrar pelo escritório?
- Quem te diz amanhã, homem? Aqui está o que disse o Nunes, é o que faz o Machado. Amanhã escreve-te uma carta oficial, para que o guarda-livros veja, e o caixeiro, dizendo que vai para fora da terra, com a mãe, e que te pede que olhes pela casa, etc... Depois, ao fim de um ou dois meses, volta, vocês cumprimentam-se, sentam-se cada um a sua carteira, falam no que têm que falar acerca do negócio, e acabou-se. O que não têm é relações íntimas, escusam mesmo de se tratar pôr tu.
E como Godofredo olhava o chão, refletia, os dois caíram sobre ele.
- Tapas assim a boca ao mundo – disse o Carvalho.
- Salvas-te do ridículo – disse o Medeiros.
- Manténs a firma intacta e unida...
- Livras tua mulher de má fama!...
- Conservas um sócio inteligente e trabalhador.
- E talvez um amigo!
Então uma fadiga invadiu Godofredo. Os seus nervos relaxaram. Veio-lhe um desejo de não pensar mais naquele desgosto, não falar mais nisso, dormir tranqüilo; e cedeu, abandonou-se, perguntou com a voz do coração:
- Então vocês acham, em sua honra, que assim tudo fica bem?
- Achamos – disseram ambos.
Godofredo apertou a mão a um, depois ao outro, comovido, quase com lágrimas:
- Obrigado, Carvalho. Obrigado, Medeiros.
Depois, para fazer logo tapar as bocas do mundo, foram ao Passeio Público – onde havia essa noite iluminação e fogo preso, indo primeiro tomar sorvete ao Martinho.
VIII
Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se pôr mil interesses comuns, com a idéia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre o sofá. Mas pôr fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos.
Na véspera da sua chagada Machado escrevera-lhe uma carta, polida, quase humilde, em que se percebia mesmo certo tom de tristeza; dizia-lhe que ia voltar, que no dia seguinte apareceria no escritório, e que esperava que toda a idéia do passado desaparecesse nas suas novas relações, e que estas fossem sempre dominadas pôr uma respeitosa cortesia; acrescentava que compreendendo porém as dificuldades desta nova situação, ele só a aceitava pôr algum tempo para salvar a dignidade e fazer calar a maledicência, reservando-se o deixar a firma logo que o pudesse fazer sem escândalo. Nesse dia, Godofredo foi mais cedo ao escritório, e fez uma coisa hábil: disse ao guarda-livros, diante do caixeiro, que houvera entre ele e o sr. Machado certas desinteligências, e que as suas relações tinham sofrido modificações.. Estas palavras vagas tinham pôr fim evitar a surpresa, os comentários do guarda-livros, quando os visse agora, defronte um do outro, secos, corteses, e tratando-se pôr senhor Alves e senhor Machado. O guarda-livros murmurou que sentia muito; e dali a instantes Machado apareceu. Foi um momento desagradável. Durante todo o resto do dia mal puderam dar atenção ao que faziam: e o menor movimento do Machado, o puxar do lenço, um passo ao soalho despertavam em Godofredo toda a sorte de lembranças desagradáveis. Uma ou duas vezes atravessou-o um desejo violento de o vituperar, acusá-lo de todas as tristezas que agora enchiam a sua vida: mas conteve-se, apenas se vendo impotente para engolir um ou outro suspiro.
A atitude do Machado foi respeitosa e triste. E quase não trocaram uma palavra. O quer que fosse de angustioso pesava no ar. E o estúpido do caixeiro tornava todo este embaraço mais saliente, teimando em andar em bicos de pés, como numa casa onde há um morimbundo.
Outros dias iguais repetiram-se; mas pouco a pouco a presença do Machado deixou de impressionar Godofredo. Já o podia ver sem pensar no sofá. Estabeleceu-se uma rotina. O que entrava pôr último dava os bons-dias polidos ao outro – e depois só falavam em assuntos de negócio; quando não havia que fazer, o Machado saía, abandonando o gabinete a Godofredo, que ficava lendo os jornais no sofá. E isto continuou regular, sem atritos, porque Machado não tinha senão, no fundo, estima pelo bom Alves, e Alves, a seu pesar, conservava um fundo de simpatia pôr aquele rapaz que quase educara. Debalde se dizia a si mesmo que fora do negócio era um traste: o simples tom da sua voz, os seus bonitos modos atraíam-no a seu pesar.
Assim foi que, quando vieram os primeiros dias de outubro, toda aquela tumultuosa agitação que se fizera na vida de Godofredo, e que o trouxera semanas como sonâmbulo, se calmou. Ludovina estava na Ericeira com o pai: e a lembrança daquele momento em que a vira no sofá amarela, que ao princípio fora no coração do pobre Godofredo como uma chaga viva que o menor movimento, o menor atrito, irritava – era como uma ferida ainda, mas cicatrizada, causando apenas uma dessas surdas e vagas dores a que o corpo se habitua. O choque desagradável do encontro com o Machado passara também; no escritório da rua dos Douradores estabelecera-se agora uma rotina de relações frias, corteses, toleráveis. E agora, mais calmo, Godofredo podia reparar mais, sentir mais todos os detalhes daquela vida de viúvo, que devia ser agora a sua para sempre – e só descobria desconforto e tristeza. Ao princípio pensara em deixar a casa da rua de São Bento, ir viver para o hotel; mas depois receou a opinião, a maledicência. Ninguém sabia que ele estava separado de sua mulher. Supunha-se que ela estava a banhos, com o pai, e que Godofredo a ia ver de vez em quando. E ele tinha pôr todos os meios de manter esta ficção. Além disso, que havia de fazer às duas criadas? Porque persistia na idéia de manter o silêncio em torno da sua desgraça, conservando sob chave, ligadas a ele pelo interesse duma boa situação, aquelas duas criaturas que a conheciam. Ficara pois em São Bento, e a sua existência, ali, era desgraçada. Um a um os confortos que ele tanto amava tinham desaparecido – porque as duas mulheres, sem ama que as vigiasse, tendo percebido que o senhor as não despediria, dependia da língua delas, estavam inteiramente relaxadas. A tortura do dia começava para Godofredo às nove horas. Era toda uma tortura para que lhe trouxessem água para a barba: nunca havia água quente; a cozinheira, que se levantava agora tarde, não tinha o lume aceso às dez horas. Depois era outra luta para obter o almoço, e quando vinha, feito à pressa, sem cuidado, sem vaidade, quase o enjoava. Desde agosto que todas as manhãs lhe apareciam os mesmos ovos quentes – ora crus, ora cozidos de todo – e os mesmos bifes córneos, negros, como duas liras de couro tisnado. Ele sentava-se, olhava com horror para o guardanapo sujo. Ai, onde estava o tempo em que Ludovina ela própria lhe is fazer o seus ovos quentes, pelo relógio de areia? Então havia sempre flores na mesa, e o seu Diário de Notícias e o seu Jornal do Comércio estavam ao lado do prato, ele desdobrava-os, sentindo em redor o rumor das saias dela, o calor da sua presença, o vago aroma de vinagre de toilette.
Quando voltava às quatro horas, os restos deste triste almoço ainda estavam sobre a mesa, com o molho dos bifes seco no prato, um resto de chá no fundo da chávena, - tudo sujo e triste sob o vôo das moscas. Pelo chão ficavam migalhas de semanas. Todos os dias se quebrava alguma coisa. E ao fim do mês eram contas enormes, um desperdício, um excesso absurdo de gastos. Já duas vezes encontrara homens na escada, ou visitas para as criadas. A sua roupa suja arrastava pelos cantos – e, quando ele se enfurecia, entrava na cozinha como uma bomba, dava berros, as duas criaturas não respondiam, fingiam uma compunção mais odiosa ainda do que uma resposta insolente. Baixavam a cabeça, davam com respeito uma desculpa absurda, depois ficavam dentro rindo, e bebendo copinhos de vinho.
Mas o pior eram as noites solitárias. Fora sempre um homem muito caseiro, que às nove recolhia, calçava os seus chinelos e gozava o seu interior. Ordinariamente, na sala, Ludovina tocava um bocado de piano; ele mesmo ia acender as luzes, com a devoção de quem prepara um altar, porque adorava a música; e vinha acabar o seu charuto, numa poltrona, ouvindo-a tocar, vendo a massa negra do seu cabelo que lhe pendia nas costas, numa graça de desalinho e de abandono. E havia certas músicas que lhe davam a sensação de Ter o coração acariciado pôr alguma coisa de aveludado e doce, que o fazia desfalecer: sobretudo uma certa valsa Souvenir d’Andalousie... Há quanto tempo ele a não ouvia.
Enquanto durou o verão, todas as tardes dava o seu passeio: mas o espetáculo mesmo das ruas trazia-lhe à memória a sua felicidade perdida. Era uma varanda aberta, com uma senhora de vestido claro tomando o fresco, que lhe recordava a sua casa deserta, onde não havia um rumor de saia; ou era ao anoitecer, uma janela deixando sair a claridade discreta dum serão tranqüilo, e donde vinham sons de piano... Ele, fatigado, com os botins empoeirados, sentia então, dum modo agudo e doloroso, a evidência da sua solidão.
Mas as noites piores eram as que passava no Passeio Público: levava-o lá o horror de estar só; mas aquela solidão entre gente, sob árvores alumiadas a gás, vendo tanto homem levando uma mulher pelo braço, era-lhe mais dolorosa que a sua sala deserta e fria, com o seu piano fechado.
Depois foi pior quando começou o inverno. Novembro foi muito chuvoso Ele voltava do escritório, e, depois do jantar ordinário que comia à pressa, ficava, com os pés nos chinelos, aborrecendo-se e errando da sala para o quarto. Nenhuma cadeira, pôr mais confortável, lhe dava a satisfação de repouso e de bem-estar; e os seus livros queridos pareciam Ter perdido subitamente todo o interesse, desde que não a sentia ao seu lado, costurando à mesma luz a que ele lia. E um pudor, um escrúpulo, uma vaga vergonha impediam-no de ir aos teatros.
Além disso uma inquietação tomava-o constantemente, desde que ela voltara da Ericeira e que a sabia ali na mesma rua, a dez minutos de caminho daquela casa onde ele sofria todas as melancolias da viuvez. Vinte vezes pôr noite, o seu pensamento fazia esse caminho, subia as escadas do Neto, penetrava na sala que ele conhecia, com a sua chaise-longue que ela se costumava sentar quando iam ver o Papá; e vinha-lhe um ciúme, um desespero pensando que a essa hora ela estaria lá sentada, com uma costura ou um livro na mão, tranqüila, sem pensar nele.
O Neto, à volta da Ericeira, viera vê-lo. E cada palavra daquele maroto fora uma punhalada. Tinham gozado muito na Ericeira – não viam ninguém, enfim, porque as circunstâncias da Ludovina não permitiam folias e pic-nics – mas tinham passado bem em família. Ludovina tomara banhos; estava forte, gorda, e nunca ele a vira com tão boa cara; tinha-se aplicado muito ao piano, e parecia resignada e de bom humor. E depois de lha pintar assim tão apetecível saíra, sem dizer a palavra pôr que Godofredo ansiava – uma simples palavra: fazer as pazes.
Porque o desejava ardentemente. Somente não queria das o primeiro passo, pôr orgulho, pôr dignidade, pôr um resto de amuo e de ciúme. Mas entendia que Neto é que devia impor essa reconciliação – e começava agora a odiá-lo, vendo que ele queria conservar a filha em casa. Percebia bem. O patife não desgostava dos trinta mil réis, que lhe vinham assim todos os meses. Pensou mesmo em lhe retirar a mesada. Um sentimento de cavalheirismo impedia-lhe de o fazer.
E o que o torturava não a ter visto ainda. Debalde passava e repassava
pela casa de Neto; debalde ia aos domingos à missa, à igreja
dela; debalde ia passar pela casa da modista dela, uma dona Justina no largo
do Carmo, com a esperança de a ver de lá sair, ou entrar. Nunca
a encontrou até dois dias antes do Natal. Estava nessa manhã,
numa tabacaria ao alto do Chiado, acendendo o charuto, quando se voltou, a
viu pelas costas. Ficou tão perturbado, tão trêmulo, que
em lugar de correr a segui-la, a vê-la, como o seu desejo reclamava
furiosamente, recolheu-se para o fundo da loja, esteve ali a hesitar, a sentir
bater o coração, com o ar pálido e estúpido. De
repente quis vê-la ainda uma vez, mas debalde subiu, desceu o Chiado,
não a encontrou; tinha-a perdido, e foi para casa com uma saudade imensa,
tendo diante dos olhos toda a noite a figura alta, vestida de preto, com uma
flor amarela no chapéu.
O encanto porém quebrara-se, e uma semana depois, ia descendo a Calçada do Correio, avistou-a que subia, com a irmã. Foi a mesma perturbação, o mesmo embaraça, a mesma idéia absurda de se esconder aos pulos, decidiu-se ao encontro: afirmou o passo, deu um leve puxão aos punhos, aprumou-se, marchou. E pelo canto do olho, tremendo todo, viu-a baixar os olhos e corar, perturbada também.
Foi para casa num extraordinário estado de exaltação. Sentia que a adorava, e o coração desfalecia-lhe à idéia deliciosa de a apertar outra vez nos braços. E ao mesmo tempo era um ciúme furioso e vago, ciúme dos outros homens, da rua, dos passos que ela dava, das palavras que poderia dizer a outros, dos olhares que poderia dar a outros. Queria-a para si, ali, debaixo de chave, entre aquelas paredes que eram suas, na prisão dos seus braços. E não pôde parar, em casa, saiu era quase meia-noite, foi olhar as janelas do Neto. Depois voltou, escreveu-lhe uma carta absurda, seis páginas de paixão a que se misturavam ainda acusações. Rasgou-a, ao relê-la, achando-lhe muitas palavras e insuficientemente amorosa. Não dormiu nessa noite. Via constantemente a sua bela face corar, as pálpebras baixarem-se-lhe. E estava como disse o Neto, mais cheia, mais bela. Oh, que mulher divina! E era sua, a sua mulher! Positivamente aquilo não poderia durar, aquela vida infeliz e solitária!
Todo o janeiro passou sem ele a tornar a ver – e a sua paixão crescia. Agora esperava um acaso que os ligasse; cada manhã imaginava que o dia não se passaria sem ele a ver, e estava decidido a falar-lhe. Uma vez já encontrando o Neto, falara vagamente nos inconvenientes daquela separação. O Neto encolhera os ombros, com um ar de melancolia e de dor paternal. Era bem triste, mas que se havia de fazer? Depois, uma noite no Murtinho tornou a falar-lhe. E o Neto disse que refletira, e que estava decidido a ir fazer com a filha uma viajata até o Minho, para evitar falatórios. Godofredo ficou assombrado, não se conteve:
- Mas não há-de ser à minha custa.
E voltou-lhe as costas, veio para casa furioso. Eram sete horas da noite, e havia um luar claro e frio. Ele chegava à sua porta, quando deu de rosto no passeio com Ludovina, que recolhia, acompanhada pela irmã. Instintivamente, desceu vivamente do passeio, afastou-se; mas logo voltou, com uma inspiração, apressou, chamou:
-Ludovina!
Ela parara, voltou-se, espantada. Estavam junto duma loja de mercearia, na luz do gás, e ficaram um defronte do outro, sem achar uma palavra, enleados, com todo o sangue nas faces. Godofredo estava tão perturbado que nem cumprimentou a cunhada, nem sequer a viu. E as suas primeiras palavras foram absurdas.
- Então diz que vais para o Minho?
E ele, numa voz atrapalhada:
Ludovina olhou-o espantada, depois olhou para a irmã.
- Para o Minho? – murmurou.
E ele, numa voz atrapalhada:
- Disse-me teu pai... Eu achei que era a coisa mais ridícula!... Oh, Teresinha, desculpe, que a não tinha visto... Tem passado Bem? E então tu, Ludovina, tens passado bem?
Ela encolheu os ombros:
- Assim, assim...
Ele devorava-a com os olhos, achando-a adorável, naquela capa de veludo que ele lhe não conhecia, e que devia ser nova.
- Diz que te divertisse muito.
Ela teve um sorriso amargo:
- Eu? Boa... – E acrescentou com um vago suspiro: - O que me tenho é aborrecido e chorado.
Um amor, uma piedade imensa invadiu-o E com a voz trêmula, quase chorando:
- Ora essa, ora essa...
Depois, acrescentou ao acaso, já num tom de intimidade, como se desde esse momento a reconciliação estivesse feita:
- Pois aquilo lá em casa não vai bem... A Margarida tem-se desleixado muito. E é verdade, que te queria perguntar... Como diabo se acende o candeeiro de escrever, que não tem sido possível pô-lo em ordem?
Era riu, Teresa também. Ela tinha percebido bem, de ora em diante era outra vez a mulher de Godofredo. Disse:
- Se queres eu lá vou ensinar a Margarida a arranjar isso.
Todo ele foi um grito de alegria:
- Pois vem, pois vem! A Teresinha pode vir também. É um instante.
E subiu adiante, galgou a escada, abriu a porta, desfalecendo de voluptuosidade ao ouvir o rumor das sais dela pela escada acima. Ouvindo vozes, Margarida tinha corrido, e ao avistar as senhoras ficou embatucada.
- Traga cá esse candeeiro de escrever... – gritava atarantadamente Godofredo.
Ludovina e a airmã tinham penetrado na sala de jantar e conservavam-se
de pé, de chapéu, com as mãos nos regalos. Godofredo,
no entanto, como parvo, correra à cozinha, depois entrara no quarto,
depois precipitara-se a acender as luzes da sala das visitas, onde não
havia gás. Ludovina no entanto olhava a sala de jantar, o aparador,
escandalizada já daquele desleixo que ali se sentia – parando
a contemplar indignada uma linda fruteira de cristal que tinha uma asa quebrada.
Godofredo veio encontrá-la assim.
- Ai, isso vai aí uma destruição que nem tu imaginas. Olha, vem cá dentro, vem ver, vem cá ao nosso quarto.
Ele mesmo entrou, ela teve um rubor de virgem que penetra na câmara nupcial; e, apenas entrou, ele apoderou-se dela, arrastou-a para a alcova do lavatório, e ali no escuro, violentamente, freneticamente, beijou-a pelos olhos, pelo cabelo, pelo chapéu, fartando-se da doçura que ela trazia do frio da rua.
Ela disse baixo:
- Não, não, olha a Teresa!
- Manda-a embora, eu vou levá-la – murmurou ele. – Tu ficas, amor, nunca mais nos separam.
Ela consentiu, num beijo.
IX
NO DIA SEGUINTE, num momento de enternecimento, querendo dar à sua
felicidade um meio mais poético – e como o tempo estava adorável
-, Godofredo propôs o irem estar uns dias a Sintra. E aí foi
uma lua-de-mel. Estavam na Lawrence , tinham um pequeno salão para
eles sós; levantavam-se tarde, Godofredo quis champagne ao jantar,
e beijavam-se às escondidas debaixo das árvores. E Godofredo
não a deixava um instante, ávido de gozar de novo aquela intimidade,
que ele julgava perdida, sentindo um prazer infinito em a ver apertar o colete,
encontrar um chambre dela sobre uma cadeira, ou assistir-lhe ao penteado.
Ao fim de quatro dias voltaram; e esta lua-de-mel prolongou-se ainda em Lisboa, cheia e larga, sem considerações pôr despesas, com carruagem da companhia, e camarote em São Carlos. Godofredo queria mostrar-se pôr toda a parte com ela, para tapar as bocas do mundo. Em São Carlos mesmo tomava sempre uma frisa, bem em evidência, fazendo exposição da sua felicidade doméstica. E como Ludovina, com os ares da Ericeira, voltara mais forte, mais cheia, magnífica na sua forte beleza de trigueirona forte, os homens na platéia olhavam-na muito; havia sempre algum binóculo fixo sobre ela.
- Lá estão a olhar – dizia Godofredo. – Estão pasmados de nos ver juntos... Pois é para que saibam.
E à frente do camarote puxava devagar os punhos, sorria à sua Lulu.
Numa dessas noites dava-se a Africana, pela primeira vez. E Ludovina, que durante toda a representação estivera torturada com um par de botinas novas, quis sair no meio do quinto ato; e ele cedeu logo, apesar do prazer que lhe davam os gorgeios patéticos da Alteroni, sob as ramagens das mancenilheiras, à luz trágica da lua cheia. Agasalhou-a, deu-lhe o braço: - e no peristilo, a um canto, esperavam que se aproximasse a carruagem da companhia, quando, de repente, apareceu o Machado, de charuto na boca, enfiando o paletot. Ele decerto não os viu porque continuou, através do peristilo, assobiando, com o seu ar um pouco gingado, de gravata branca, acabando de abotoar o paletot . Mas de repente deu com eles! Um momento pareceu hesitar, ficou enleado, pálido, com os dedos esquecidos nos botões. Depois decidiu-se, tirou profundamente o chapéu. De dentro da gola branca da saída de baile, ela fez um ligeiro movimento de cabeça, baixou os olhos, séria, impassível, imóvel, com a sua grande cauda azul apanhada na mão. E Godofredo, depois de hesitar também um instante, terminou pôr dizer alto um olá Machado, boa noite! Machado saíra vivamente, para fora.
No dia seguinte, quando Godofredo entrou no escritório, Machado já estava à sua carteira. Depois dos cumprimentos secos e usuais, Godofredo esteve um momento remexendo os papéis, lendo a correspondência; depois deu um olhar vago e distraído ao jornal; evidentemente estava preocupado, com o pensamento noutra coisa; e de repente recostou-se, fez estalar os dedos, perguntou ao Machado:
- Então ontem que tal lhe pareceu a Alteroni?
Era a primeira vez que lhe dirigia uma palavra – estranha aos negócios da firma! Machado ergueu-se um pouco nervoso para responder:
- Gostei muito... E você?... Boa voz, hein?
E estas banais palavras, apenas soltas, foram como portas dum dique que se abre. Godofredo erguera-se também – e foi um fluxo de palavras, dum e doutro, ao princípio hesitantes, depois tomando calor, aproximando-os um do outro, formando uma viva corrente de simpatia. Era como dois amigos que se encontram depois duma ausência; e cada um reconhecia no outro aquilo que nele sempre estimara: com um trivial gracejo do Machado sobre o tenor, Godofredo ia rebentando a rir – e uma observação de Godofredo sobre o uníssono das rabecas interessou imensamente o outro, fê-lo pensar que o Godofredo era realmente um grande entendedor de música. Depois Godofredo falou da estada em Sintra. E um momento conversaram sobre Sintra, dizendo cada um os sítios que lá preferia, a impressão que eles lhe davam – como se depois daquela longa separação sentissem a necessidade de conferirem as suas idéias e os seus gostos respectivos. Depois, como Machado tinha de sair mais cedo – o shake-hands que deram à despedida foi profundo, ardente, duma reconciliação completa, unindo-os outra vez e para sempre.
Então, outra vez, a vida de Godofredo foi calma e feliz. Na casa da rua de São Bento entrara de novo a ordem e a alegria; os ovos ao almoço já não apareciam crus ou duros; já à noite o Souvenir d’Andalousie dava a Godofredo aquele não sei quê dos vergéis de Granada, e a todo o momento a voz dela, o frou-frou dos vestidos dela banhavam de alegria o seu coração. E o inverno tinha assim passado, passava a primavera, estava-se nos primeiros calores de março quando, uma manhã, ao sair, ao passar no corredor, avistou entre portas a Margarida que dava sub-repticiamente, e em segundo, uma carta à senhora. Foi como um rochedo que lhe arremessassem contra o peito. Mal atinava com o fecho da porta; imaginou logo outro homem, outro amante, e a sua felicidade, aquela felicidade tão laboriosamente reconstruída, de novo rachada pôr todos os laços. Sentiu um terror, como se se visse vítima dum fado, dum fado terrível e bestial, da fatal incontinência da fêmea. Pensou que seria outra vez o Machado; e passou-lhe nos olhos uma onda de sangue, pensou que desta vez não haveria nem conferências, nem consultas, nem testemunhas, mas que entraria no escritório, e lhe meteria à queima-roupa uma bala no coração.
E sentiu-se tão agitado que não supôs poder tolerar o aspecto do Machado; não foi ao escritório, vagueou pela Baixa, tendo sempre diante dos olhos a mão da criada, o papelinho branco, o ar embaraçado da Ludovina. Entrou em casa, sombrio e taciturno. E não podia estar quieto , ia duma sala a outra, atirava com as portas, com o ar dum homem que sufocava, sentindo em volta de si o ar carregado de engano e de traição; Ludovina espantada terminou pôr lhe perguntar o que tinha ele.
- Nervos – respondeu com mau modo.
E daí a momentos, cedendo a um impulso furioso, voltou-se para ela, declarou que estava farto de mistérios, que aquela vida era um inferno, e que queria saber que papel era o que lhe tinha dado a Margarida.
Ela olhou-o, pasmada daquela violência, daquela voz estridente, levando instintivamente a mão ao bolso do robe de chambre.
Ele seguira-lhe o movimento:
- Ah, tens aí a carta! Deixa ver...
Ela então mostrou-se ofendida com aquela desconfiança. Recomeçavam outra vez as suspeitas, as questões? O que, não podia ela receber um papel sem ele querer meter o nariz!
Ele, pálido, com os punhos fechados, gritou:
- Ou me dás a carta, ou te racho!
Ela fez-se pálida, chamou-lhe malcriado, caiu para o sofá a chorar, com as mãos no rosto.
- Dá-me a carta! – gritava ele em bicos de pés. – Dá-me a carta! E desta vez não há-de ser como da outra vez. Vais para um convento, mato-te!
E não esperou a resposta, arremessou-se sobre ela, torceu-lhe o braço, rasgou a algibeira do robe de chambre, apoderou-se da carta. Mas não podia perceber a letra: era uma garatuja, sem ortografia, num pedaço de papel pautado. Começava minha querida senhora; vinha assinada Maria do Carmo, e falava-se lá de esmola, do pequenito que estava melhor do sarampo e de orações que não deixariam de se rezar pôr aquela boa esmola.
Trêmulo, murcho, humilhado, com o papel na mão, ele veio sentar-se ao lado de Ludovina que chorava entre as mãos, e passando-lhe o braço pela cintura, balbuciou:
- Está bem, vejo que não é nada, desculpa, dize lá o que é.
Ela repeliu-o, pôs-se de pé, toda ofendida. Estava satisfeito? Tinha lido a carta, hein? Era dum homem, não era?...
Ele balbuciou, envergonhado:
- Mas também todos esses mistérios...
E como ela, bela e de pé, limpava os olhos engolindo os soluços, ele não se conteve, teve necessidade do seu perdão, pôs-se de joelhos, e com as mãos postas, murmurou:
- Perdoa, Luluzinha, foi tolice minha...
Com um outro soluço ainda maior, ela bateu-lhe com a ponta dos dedos na face...
E ele então quase chorou também, beijou-lhe as mãos, abraçou-lhe os joelhos, terminou pôr se erguer agarrado às saias dela, encheu-lhe o pescoço de beijos. E ainda na comoção dos dois, entre abraços, ela contou-lhe a história das esmolas secretas que fazia a uma pobre rapariga que conhecera na Ericeira, que um patife seduzira e abandonara com dois filhos, um ainda de mama...
- Mas para que fizeste mistério, meu amor? – continuava ele, comovido e apaixonado.
Ela então confessou que já lhe dera mais de cinco mil réis, - e tinha que ele achasse extravagância...
E a alegria que ele sentia era tão viva que exclamou:
- Qual extravagância! Dá-lhe outros cinco... É pôr minha intenção:
Tudo terminou num beijo.
E então Godofredo sentiu-se envergonhado da sua cólera dessa manhã contra o Machado. Lá pensara outra vez em matar o Machado! E agora sentia a necessidade de o rever, apertar-lhe profundamente a mão – sentindo nesse instante pôr ele uma amizade maior, não sei que reconhecimento vago que o enternecia.
Mas no outro dia, quando entrou no escritório, não se conteve, sem motivo abraçou pela conta o Machado. E o outro correspondeu ao abraço, sem estranhar esta efusão, mas com um modo, um ar de enternecimento, um abandono triste que surpreendeu Alves, e a sua surpresa foi maior quando viu que Machado tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado.
- É minha mãe que está muito mal – disse o Machado, respondendo à interrogação do seu sócio.
E Alves, com a sua alegria cortada pôr aquela dor, só pôde murmurar:
- Diabo!
Era o diabo, era! E o médico não dava esperança. A pobre senhora sofria duma complicação de doenças de fígado, de bexiga, de coração, que pareciam resolver-se agora, num desarranjo total da vida. Na véspera tinha tido um desmaio de duas horas. Ele julgara-a morta: e nessa manhã tinha um alívio, extraordinário, de que ele desconfiava. E o pobre Machado suspirava
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dizendo isto. O amor da mãe fora até aí o seu sentimento mais vivo: eles tinham vivido ambos, sempre juntos; pôr causa dela ele nunca quisera casar, e agora aquela perda parecia tirar da sua vida tudo o que lha tornava cara...
- Deus não há-de querer uma desgraça – murmurou Godofredo comovido...
O Machado encolheu os ombros, e daí a instantes saiu, para voltar para junto da sua pobre doente.
Todos os dias então, três, quatro vezes, Godofredo ia à casa de Machado saber notícias. A pobre senhora piorava: felizmente não sofria, e os seus últimos instantes eram consolados pôr aquele amor em que o filho a envolvia, não se arredando um instante do leito dela, recalcando a dor, escondendo a palidez, animando-a, falando de planos e de idas para o campo, e gracejando como nos bons tempos. Depois uma tarde Godofredo chegou a saber notícias. A criada apareceu com o avental nos olhos. A senhora morrera havia uma hora, como um passarinho. Ele entrou, Machado caiu-lhe nos braços, perdido de choro.
Godofredo não o deixou mais, Passou essa noite com ele: ocupou-se do enterro, dos convites, da compra dun terreno no Alto de São João. E ao outro dia, na solenidade dos pêsames, os amigos da casa davam-lhe a ele apertos de mão, tão sentidos e tão mudos, como ao próprio Machado – reconhecendo, nele, mais que um irmão de Machado, quase um pai.
O enterro foi concorrido; havia vinte carruagens; Godofredo levava a chave do caixão, e no cemitério dirigiu tudo, convidou os amigos mais íntimos para as borlas do esquife, cochichou com os padres, prodigalizou-se, e, quando o caixão desceu à cova, as únicas lágrimas que houveram foram as dele.
No dia seguinte Machado partiu para Vila Franca para casa duma tia; e Godofredo foi levá-lo à estação, ocupou-se da sua bagagem, chorou outra vez ao abraçá-lo.
Passados quinze dias Machado voltou, ocupou outra vez a sua carteira no gabinete de reps verde. Mas não parecia o mesmo. Estava mais sereno, sim, mas tão triste no seu luto, que Godofredo, sempre romântico, pensou de si para si que aqueles lábios nunca mais sorririam.
Depois, vendo-o demorar-se à carteira, sem vontade de ir para casa – para casa agora vazia, para o jantar solitário -, veio-lhe um dos seus bruscos impulsos de bondade, esqueceu tudo, abriu os braços ao Machado:
- O que lá vai! Venha você daí jantar conosco!
E nem o deixou hesitar, quase lhe enfiou o , paletot, arrastou-o pela escada abaixo, chamou uma tipóia, atirou-o para dentro, levou-o em triunfo à rua de São Bento. Machado todo o caminho não disse nada, tremendo àquele encontro, palidecendo já, procurando uma palavra natural para lhe dizer... Logo na escada sentiram o som do piano, e daí a instantes Godofredo, metendo a cabeça através do reposteiro da sala, exclamava radiante:
- Ludovina, trago-te aqui um convidado.
Ela erguera-se, e achou-se diante do Machado, que se curvava profundamente, disfarçando a sua perturbação na profundidade daquela cortesia. Ela fizera-se escarlate – mas a sua voz foi clara e firme, quando lhe estendeu a mão, dizendo:
- Como está, sr. Machado? Então chegou bem?
Ele balbuciou umas palavras, e ficou de pé, esfregando as mãos, devagar – enquanto Ludovina dissipava aquele embaraço, com uma infinidade de palavras, contando a Godofredo uma infinidade de palavras, contando a Godofredo uma visita duns certos Mendonça, e falando do Mendonça, e do Mendonça pequeno, vivamente, nervosa e com as orelhas a arder.
Depois, para dar as suas ordens, apressou-se a sair.
Quando ficaram sós, Godofredo teve esta palavra profunda:
- Isto, quando há boa educação, tudo se vem a acabar bem!
Daí a pouco ela voltou, mais serena, tendo decerto posto na face uma camada de pó-de-arroz. Machado sentara-se no famoso sofá amarelo, e quis-se erguer, dar-lhe esse lugar. Mas ela não consentiu, sentou-se ao lado, na poltrona amarela, e, como se quisesse emendar um esquecimento, apressou-se a dizer dum fôlego, como um recado:
- Eu senti muito a perda que o sr. Machado...
Ele curvava-se, murmurando uma palavra.
E Godofredo acudiu, exclamando:
- Nisso não se fala agora! Devem-se aceitar os decretos de Deus, acabou-se.
Mas uma senhora passara sobre a face comovida de Machado, e um bafo morno de tristeza pesou na sala. E foi esta tristeza que, subitamente, os pôs à vontade. Era como se o Machado, com aquele luto pesado, aquela saudade da mãe, aquele túmulo ainda recente, não fosse o mesmo que ali bebera copos de vinho do Porto, com ela nos braços, sobre o sofá amarelo; mas um outro Machado, um rapaz grave, com uma dor que era necessário consolar, envelhecido, e para sempre incompatível com coisas de amor. Ela achava-o mudado, e olhando-o não se recordava de como ele era noutros tempos; ele também a achava tão estranha, como se fosse a primeira vez que viesse àquela casa. O marido esquecia, eles esqueciam ambos também. E terminaram pôr se olhar, falar, naturalmente, sem embaraço, ela dizendo “sr. Machado”, ele respondendo “vossa excelência” frios, tendo para sempre acabado de estremecer um defronte do outro, como dois carvões apagados.
E o jantar foi tranqüilo, calmo, íntimo, quase alegre.
Então a vida continuou, desenrolando-se, banal e corredia como ela é. O luto de Machado acabou, ele voltou aos teatros, teve outras vezes raparigas espanholas e namorou senhoras. Depois o Neto morreu, de repente, de apoplexia, dentro dum omnibus: e a Teresinha veio viver com a irmã. Ao fim de dois anos Machado casou, com uma menina Cantanhede, pôr quem ele concebera uma paixão absurda, frenética, que não podia esperar, o fez concluir namoro, enxoval, licenças e casamento, tudo dentro dum mês.
Houve um baile. Ludovina apareceu com uma bela toilette, mas dançou pouco, porque houvera um engano nos sapatos – e os que tinha nos pés torturavam-na a ponto que esteve para desmaiar.
Depois ao fim dum ano a pobre Cantanhede morreu de parto – e outra vez
Machado soluçou perdido de choro nos braços de Godofredo; outra
vez Godofredo recebeu a chave do caixão, deu apertos de mão
profundos e mudos, na noite de pêsames. Mas desta vez Ludovina ajudava-o,
Ludovina chorando também, porque ela e a pobre Cantanhede eram íntimas,
não se deixavam, passavam o seu dia a beijar-se. E a dor de Ludovina
foi tão grande quase como a do Machado.
Depois a vida continuou banal e corredia como ela é. Ao fim de dois anos Machado tinha pôr amante uma atriz do Ginásio. E pôr esse tempo houve em casa do Alves um desgosto – o casamento de Teresa, feito contra vontade da irmã e do cunhado, com um empregado da alfândega, um imbecil, um tacanho, sem vintém, sem cabeça, que seduzira a menina pôr ser louro como uma espiga. E foi necessário casá-la porque se definhava, ameaçava de se deitar da janela abaixo, e havia outras desconfianças. Foi necessário casá-la.
E os meses passaram, depois os anos. A firma Alves e Cia. Crescia, enriquecia. O escritório, agora mais largo, mais rico, com seis caixeiros, era à esquina da rua da Prata. Godofredo estava mais calvo, Ludovina engordara: tinham carruagem; e no verão iam para Sintra. Depois Machado casou outra vez, com uma viúva, casamento inexplicável porque nem era bonita, nem rica; tinha apenas uns olhos extraordinários, muito negros, muito pestanudos, muito quebrados, a expirar de langor.
Foi um casamento à capucha – e os noivos partiram para Paris. Voltaram, vieram viver para o pé dos Alves, que agora tinham mudado para um palacete a Buenos Aires. E uma outra grande amizade nasceu logo entre a Ludovina e a senhora dos olhos langorosos: bem depressa Ludovina se tornou a escrava desta curiosa criatura que escravizava também o marido, tinha uma influência absoluta em Godofredo, dominava tudo em redor de si, criados, relações, fornecedores, sem nenhum esforço, sem qualidade nenhuma superior, só com a sua figurinha roliça e os seus olhos pestanudos que expiravam de langor.
Agora as duas famílias vivem junto uma da outra – e ao lado uma da outra vão envelhecendo. No dia dos anos de Ludovina há sempre um grande baile – e, sempre inseparável deste dia, vem à memória de Alves aquele outro dia de anos, em que ele entrou em casa, e viu no sofá amarelo... Mas há quanto tempo isso vai. E esta lembrança agora só faz sorrir. E fá-lo também pensar – porque este fato permanece como o grande acontecimento da sua vida e dele extrai geralmente a sua filosofia e as suas reflexões usuais. Como ele diz muitas vezes ao Machado – que coisas prudente é a prudência! Se naquele dia do sofá amarelo ele se tivesse abandonado ao seu furor, ou se tivesse persistido depois em idéias de vingança e rancor, qual teria sido a sua vida? Estaria agora ainda separado de sua mulher, teria quebrado a sua amizade íntima e comercial com o seu sócio, a sua firma não teria prosperado, nem a sua fortuna aumentado; e o seu interior teria sido o dum solteirão azedado, dependente de criadas, maculado talvez pela libertinagem. Nesses longos vinte anos que tinham passado, quantas coisas belas teria perdido, quantos regalos domésticos, quantos confortos, quantos doces serões de família, quantas satisfações da amizade, quantos longos dias de paz e de honra! A estas horas estaria velho, azedado, com a vida estragada, a saúde arruinada, e aquela vergonha do seu passado queimando-o sempre!
E assim, que diferença!
Tinha estendido os braços à esposa culpada, ao amigo desleal, e, com este simples abraço, tornara para sempre a sua esposa um modelo, o seu amigo um coração irmão e fiel. E agora ali estavam todos juntos, lado a lado, honrados, serenos, ricos, felizes, envelhecendo de camaradagem no meio da riqueza e da paz.
Às vezes, pensando nisto, Alves não pode deixar de sorrir de satisfação. Bate então no ombro do seu amigo, lembra-lhe o passado, diz-lhe:
- E nós que estivemos para nos bater, Machado! A gente em novo sempre é muito imprudente... E pôr causa duma tolice, amigo Machado!
E o outro bate-lhe no ombro também, responde sorrindo:
- Pôr causa duma grande tolice, Alves amigo.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br