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As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)

Eça de Queiroz

* * * * * _O Primo Bazilio_, novo romance de Eca de Queiroz, e um phenomeno artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta obra e preciso discriminar o que n'ella pertence a jurisdiccao da arte e

o que pertence aos dominios da pathologia social.

* * * * * Eis a doenca que este livro accusa:--A dissolucao dos costumes burguezes.

O mais caracteristico symptoma d'esse mal e a falsa educacao. A educacao burgueza tem um defeito fundamental: mantem na mulher a mais terrivel, a mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos ver porque.

Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a representacao da vida exterior e o systema da vida intima.

Basta olhar de fora para as casas, basta considerar o aspecto exterior do templo para se fazer uma idea do que pode ser dentro o culto d'essa religiao--a familia! Comparem-se as nossas edificacoes urbanas, os casaroes da baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as graciosas construccoes arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, com o seu claustro interior, o poco de marmore ao centro do pateo, as galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o pequeno jardim, que e o coracao da casa. Comparem-se com as sabias edificacoes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos predios do bairro central de Lisboa ao pe dos novos predios de esquina de rua no Hanover. As novas casas allemas no stylo gothico francez, modificado segundo as exigencias da civilisacao moderna, sao obras primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensao da hygiene, da moral, da estetica; sao verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor systema de educacao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cores, branca, cor de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terracos cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se cantam os passaros, de balcoes em que desabrocham as flores sempre frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de outros tantos ramalhetes, sao interiormente distribuidos do modo mais elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos nobres prazeres da familia. A disposicao mais escrupulosamente estudada do salao, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa luz e bom ar, permitte as mulheres o saudavel prazer de girar na casa, activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguao sombrio e infecto, com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogao por baixo das cacarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema queimada, sao os sepulchros da saude e da alegria.

E n'essa serie de prateleiras, de gavetoes de familias, que se chamam os _Arruamentos da Baixa_, que e educada a lisboeta.

Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observacao: "Noto um facto que me enche de perturbacao e de horror--n'esta cidade nao ha creancas." Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cor de palha, desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do largo de Camoes, da praca das Flores, do Aterro: la encontramos effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas nao encontramos uma unica creanca, a cuja saude sua mae se tivesse sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaco de tempo a sua preoccupacao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe fresco.

Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa frequentam as lojas ou fazem visitas, onde e que estao as creancas? As creanca estao dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem proposito. Tomar proposito_ e uma locucao essencialmente local e intraduzivel, que quer dizer: aprender a nao saber andar, a nao saber rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A menina so principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito indispensavel para nao tagarellar imprudentemente, para nao contar que houve favas para o jantar ou que o papa ralhou com a mama. Haver favas para o jantar e ralharem o papa e a mama e de resto tudo ou quasi tudo quanto se passa em casa, porque nao ha interesses de espirito, nem ha instructivas occupacoes praticas. Falta o jardim, a grande escola da infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as flores. Tambem nao ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do jornal e os romances das traduccoes baratas. Nenhuma especie de estudo.

Nenhuma applicacao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde aprende o francez e o inglez. Esta educacao completa-se em casa ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educacao sao appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salao tocado no piano diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua funccao sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Nao leu ou nao entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

Nao a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora completamente as leis que regem o universo e que determinam esses phenomenos.

Nao a distraem os interessantes cuidados do _menage_, porque da casa, assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem nenhumas nocoes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tao moralisadores e tao attractivos, teem para ella o caracter de um mister gnobil, desprezivel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a essencia da cozinha nacional, a discricao de uma criadagem villa, que retribue o desprezo de que e objeto traindo, maldizendo e roubando. Da casa o que ella sabe unicamente e que ha duas ou tres salas de apparato que se mostram as pessoas de fora; um quarto mais ou menos infecto, uma possilgueirinha mobilada pelo Garde, em que ella dorme ate as dez ou onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que da respostadas; e uma latrina contendo um fogao em que por meio de varias borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

Na religiao ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias elegantes: as romagens a fonte de Lourdes; a oracao em frente da gruta no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro de Roma; a contriccao aos pes do summo pontifice, coberta de renda preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os orgaos solucam e o sol coado pelas vidracas coloridas se espelha nas couracas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas desembainhadas. Presta ainda bastante consideracao as interessantes ceremonias da elegante religiao nacional, como a do Mez de Maria na bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas acucenas, fresquinha e graciosa, similhante a uma _bomboniere_, ou como a da Semana Santa nos Inglezinhos, a cuja _petite entree_ destinada aos intimos rodam os _coupes_ magnificos da piedade escolhida.

Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do seu _benitier_ barato; pelo Deus da procissao do Carmo e da procissao da Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella nao tem senao duvida ou desdem.

Na moral as suas conviccoes baseiam-se em uma serie de principios theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusao: que o dever consiste na mais habil combinacao que se possa fazer d'essas theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das sociedades corruptas:--o socego.

Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto e, principia a ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com os homens. Percebe entao vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra regiao social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e da _toilette_; com uma cabeca oca; n'um quarto que nao cheira bem; tendo um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcao, que pensa pela cabeca de um jornal barato e mal feito, e uma mae que se enfastia medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta cntra o destroco dos annos e contra o preco crescente dos generos alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o aguadeiro, ralhando com o marido.

Principia entao a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno quarto sem tradicoes, sem historia, como o de uma estalagem; o saguao infecto, onde zumbem no verao as grandes moscas gordas e pesadas; a cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as cacarolas gordurosas e as loucas esbotenadas; a sala pretenciosa e inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos arabes defronte do sofa, a lythographia da mulher que sorri, o album dos retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordao no meio dos cortinados.

Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinccao decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere a sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas mais simples, mais triviaes, e e para se dar um aspecto superior, para se encobrir do que e, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel a respeito dos criados que nao tem, das visitas que nao faz, da opera que nao viu, dos livros que nao le, da modista a que nao vae, dos banhos que nao toma, dos jantares que nao come, das dignidades, das distinccoes ou do luxo que nao usa.

Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas nao lhe sae o que quer: nao sabe organisar aprazivelmente a casa, nao sabe tornar encantadora a familia.

Humilhada, infeliz, comeca a descorcoar a pouco e pouco da sua predestinacao superior. Sente que ha na sua constituicao moral uma falha da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiracoes.

Nao se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que e o resultado da perfeita educacao.

Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheca o facil processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella caira com uma simplicidade tragica.

O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condicoes, e o dandy. Porque o dandysmo e a unica forma sob a qual a distinccao se lhe apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres pensamentos tera para ella menos seduccoes do que uma cabeca bem penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por uma fina risca cor de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de espirito, nenhuma delicadeza de coracao, nenhuma virtude de caracter exercera sobre a imaginacaoo d'ella a fascinacao com que a subjuga a alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, sera aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e se calcar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de Franca, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando as penetrantes essencias de Lubin e a febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pes d'ella, para lhe dizer obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia as outras, _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do seu joelho desformado pela falta de circulacao proveniente de um defeito caracteristico da sua raca, o defeito de nao saber atar as ligas; apezar ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado nacional ... Se, apezar de tudo isso, tao desdenhoso, tao frio, tao gloriosamente corrupto, tracando a perna, descobrindo desleixadamente as suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade attenciosa e benevola as scintillacoes do seu correcto _plastron_ de Poole, e as exhalacoes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu cabello frisado a Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte nao sabera negar.

* * * * * Tal e o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, medonho, tragico, sobre o qual Eca de Queiroz escreveu _O Primo Bazilio_, romance realista.

Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma conviccao social, e e esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo nao tinha senao conviccoes esteticas, e satisfazia assim as necessidades de espirito da sociedade que fez a Revolucao, que caiu no Imperio, que supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros nao pediam a arte de 1830 senao uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas entao cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradicoes gothicas da edade media e fizeram uma restauracao litteraria e burgueza da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipacao da forma mais profunda indifferenca pela questoes sociaes do seu tempo.

Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, phylanthropos.

A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. E uma sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os pontos da sua peripheria ate as mais reconditas intimidades do seu ser.

Esta reconstituicao nao se esta fazendo empyricamente pela revolucao ou pela sentimentalidade, esta-se fazendo scientificamente pela convergencia harmonica de todos os esforcos intellectuaes sobre o mesmo problema. Comprehendeu-se que sao solidarios todos os estudos, os do mundo inorganico e os do mundo organico; que sao correlativas todas as leis desde a da indestructibilidade da materia ate a da evolucao social; que finalmente se nao pode chegar ao conhecimento positivo de nenhum phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle e o elo que prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tao estreita, que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer dos ramos da sciencia se reflecte na direccao de todo o trabalho mental em qualquer das suas manifestacoes, dando por exemplo a theoria zoologica da adaptacao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga, dizemos, a arte nao pode deixar de ter um papel diverso do que tinha ha trinta annos. Esse papel e-lhe imposto fatalmente pela nova orientacao mental da sociedade. A arte moderna nao pode ja hoje basear-se em risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse e para que tenha a importancia de um agente da civilisacao, em factos de caracter scientifico, isto e: em factos que sejam a funccao de leis sociologicas. Queremos factos, nao queremos exclamacoes: _Res non verba_.

Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepcao litteral, que se tirou a designacao _realismo_.

Chamar realismo ao que e puramente grosseiro, ao que e descarado, ao que e torpe, e calumniar o dogma. Uma obra de arte pode conter o maximo numero de torpezas e de obscenidades e nao deixar por isso de ser simplesmente lyrica.

O _Primo Basilio_ e um romance realista porque e a representacao de um facto social visto atravez de uma conviccao scientifica. Luiza, a amante do primo Basilio, e a personificacao tremenda da tendencia morbida de uma epoca. E e n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral dos livros no premio que n'elles se concedia a virtude e no castigo com que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte afflictiva e um facto accessorio, que nao conteria senao esta moral negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as cartas.

A moral d'este livro nao esta em que a prima de Basilio morre depois da queda; esta em que ella--_nao podia deixar de cair_.

Reconhecemos que esta moral e pouco accessivel a maior parte das comprehensoes. Esse e o grande mal do livro, ou antes esse e o grande mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppoe um estado de civilisacao artistica e litteraria superior a que existe na sociedade portugueza. Suppoe manifestacoes parallelas nas applicacoes da philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construccoes, na hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituicoes, na critica dos costumes, na propria critica da arte.

Ora essas manifestacoes nao existem por emquanto n'um estado de vulgarisacao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do _Primo Basilio_. A sociedade portugueza nao comprehendeu ainda de um modo collectivo e solidario, que e urgentemente indispensavel por todas as manifestacoes do pensamento proceder a reconstituicao da educacao burgueza.

De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, a mulher nossa contemporanea: "Eis--aqui esta o modo pavorosamente simples como tu te rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens",--parece um insulto aquellas que sao as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas companheiras de trabalho, as nossas maes, as nossas irmas, as nossas filhas. Essa affirmacao, porem, deixaria de ter um caracter apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: "Eu nao sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenco. Sou uma parte d'essa legiao de trabalhadores dedicados, profundamente honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta ambicao heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na minha qualidade de artista, a ti mulher que me les, o mais que eu posso fazer e commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereco-t'o eu tal como elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e meio forcado das gales, friamente calculador, sovina, absolutamente podre. E e esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito em preconceito, de erro em erro, es trazida, atravez de todos os elementos que constituem a falsa educacao que te deram, a admirar e a proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu pertenco ha uma religiao, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e convergentemente estarao n'este momento--no momento em que eu tenho a concepcao artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensao nova, assento em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. A religiao compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou demittir-se da solucao do teu problema. A politica, emprehender a reforma das instituicoes em vista do teu aperfeicoamente. A moral, fazer-te comprehender a nocao da justica. A sciencia, o determinar com a maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a applicacao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. A critica, finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porem, nao me competia como artista senao uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha these, fazel-a viver na maxima elevacao esthetica: porque meio? por meio da mais perfeita forma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz." Se com a natureza essencialmente artistica de Eca do Queiroz fosse compativel a humildade de uma explicacao n'essas bases, o seu livro teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um artista tem a obrigacao de se nao explicar,--o que seria invadir uma funccao alheia na justa divisao do trabalho intellectual moderno. Ha um gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma religiao do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim como o philosopho deve ser indifferente a theologia, o artista deve ser indifferente a opiniao. Mas esta independencia da philosophia e da arte, se por um lado e a condicao essencial da sua missao perante a pura arte e perante a pura philosophia, por outro lado ella e a principal causa de ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante a comprehensao dos espiritos e a satisfacao das consciencias.

Taes foram as razoes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do _Primo Bazilio_,--uma tao perfeita obra, que a consideramos como sendo uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve gloriar uma litteratura--nos fizemos esta prophecia: Que este livro seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados a observacao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da biologia, instrumentos inuteis--as vezes perigosos--para todo aquelle que nao tem a sciencia de os por em exercicio e de ver por elles a divina revelacao de um novo mundo.

* * * * * O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.

Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: "Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, exclamou:--Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta!" * * * * * O _Diario Illustrado_ nao ousa affirmar de um modo terminante que o sr.

Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._ Ora este caso nao se pode deixar assim envolvido na duvida. Sao historicas as palavras do sr. Sampaio ou sao puramente uma legenda das montanhas, inventada pela imaginacao supersticiosa dos pastores dos carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira de Tarbes? Pode o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra a authenticidade d'aquellas expressoes? Foi effectivamente o sr. Sampaio que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...

Nao seria antes algum dos outros heroes ja celebres na historia da cordilheira dos Pyreneus? Nao seria o paladino Rolando, sobrinho de Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a Durindana na batalha de Roncesvalles? Nao seria o proprio Carlos Magno? Nao seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de Champagne? Nao seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante da belleza da paizagem, entre os valles de Bareges e de Bagnere? Esta o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeca do sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio quem, depois de jantar, a janella da hospedaria, palitando talvez os dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles dizeres? Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assas convicto em suas crencas, assas profundo em suas vistas e assas firme em suas resolucoes, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de jantar:--_Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal phrase nao e uma ficcao, se ella existe realmente fora do estado abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz nao pode cruzar os bracos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tao lucida como a que o _Illustrado_ cita marcou a differenca, toda favoravel a nossa patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! * * * * * Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo especial: 1.º Rir atraz da procissao dos Passos.

2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um viajante.

3.º Nao ter dado pateada a um lente.

4.º Parecer constrangido a dar licao.

5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

* * * * * Os alumos condemnados pela perpetracao dos delictos 1, 2, 3 e 4 appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de expulsao temporaria em alguns dias de cadeia.

Procedendo d'essa forma o Poder Moderador nao tomou em consideracaoa necessidade de fazer proceder a revisao da legislacao academica. O Poder teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sancao dos regulamentos universitarios as familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder mostrou ter um coracao do excellente rapaz alliado a um cerebro de legislador mediocre.

* * * * * Esta pendente da confirmacao regia, segundo nos consta, a pena imposta aos reus do crime n.º 5, julgados ja segundo o direito commum e absolvidos pelos tribunaes civis.

N'esta conjunctura perguntamos: E admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadaos de uma certa classe estejam sujeitos por uma legislacao especial a serem julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punicoes em vez de uma, se as duas sentencas forem conformes; ou sendo simultaneamente tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentencas forem contrarias? Responder-nos-hao que o tribunal academico julga de circumstancias especiaes que nao sao submettidas a apreciacao dos tribunaes ordinarios? Mas n'esse caso o tribunal academico com relacao ao crime de que se trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

Como tribunal escolar a Universidade cabe apenas decidir se o facto de sovar um futrica obsta a que se aprenda uma licao.

Com tribunal de honra a Universidade precisa de nao perder de vista que quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapes, o deshonrado nao e propriamente quem os da, e por via de regra quem os recebe.

Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questoes d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltroes e de covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade que ainda possa haver na mocidade portugueza.

Todo o homem que se nao acha devidamente temperado na sua natureza physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, e um homem corromido, sem o sentimento do respeito devido a dignidde da sua especie, atreito as paixoes mesquinhas, com manhas de reptil.

* * * * * Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameacas da forca alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

Se porem a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros cidadaos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para sempre da instauracao de processos ridiculamente pueris, requerendo das cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de atrophiar no coracao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da velha troca academica por meio da instituicao de exercicios viris, proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

* * * * * No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que Deus segundo Taine e um personagem official com os seus cortezaos e os seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da Providencia n'um discurso da coroa o chefe do estado fez novo discurso para prehencher essa omissao,--na velha, na religiosa, na solemne Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocucao presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras seguintes: "Dir-me-hao que supponho um estado de cousas determinado pela influencia das religioes e comprehendendo os dogmas da theologia e a crenca no livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e perverso sem esperanca, o coracao do homem, dir-me-hao que se fossem abolidas as sanccoes theologicas a raca inteira se modelaria por alguns exemplos de depravacao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladroes e assassinos. Porque e so o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o medo, nao conheceriamos mais do que o instincto natural e desconheceriamos o dever.

"Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes conclusoes. O scelerado nao e em minha opiniao a imagem da humanidade.

_Bebamos e comamos porque temos de morrer amanha_ nao e a consequencia ethica da regeicao dos dogmas.

"As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos sao taes que nenhum christao se envergonharia de as professar, e nenhum christao as censura senao desde que conhece a origem de que ellas procedem.

"Reconheco de todo o coracao e sou o primeiro a admirar a irradiacao espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religiao produz na vida de varias pessoas que conheco. Mas nao posso tambem deixar de confessar que muitas vezes a relligiao passa por estrondosas derrotas ao procurar produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeao da religiao e frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differencas procedem de distinccoes primordiaes de caracter que a religiao e insufficiente para nivelar.

"Da uma verdadeira satisfacao o sabermos que existam no nosso gremio homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_ e cuja vida, nao obstante, experimentada na pedra de toque de uma moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designacao offensiva.

"Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam aquelles termos, nao que eu pense que o _atheismo e o materialismo_, comparados a muitas nocoes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham em si um caracter offensivo.

"Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel a sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um cidadao justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tao firmes na morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles nao esperavam a coroa celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tao zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto emprego dos seus ultimos momentos." Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes e christao, o outro nao.

O christao e Faraday, que Tindal considera um modelo da associacao da fe religiosa com a elevacao moral. O seu caracter e o mais proximo da perfeicao. A religiao era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolacao dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais delicada flor da cavalleria.

O que nao e christao chama-se Darwin. Nao tem o ponto de vista theologico nem a commocao religiosa que constituiam um tao poderoso agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeicao moral de Faraday. "O sr. Darwin, diz Tyndal, e uma natureza candida e simples, um caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; e o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tao docil as ordens da verdade como o patriarcha antigo as ordens do seu Deus." * * * * * Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de verdade, de justica e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente a cultura da intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma moral independente de toda a especulacao theologica. Que fecunda these para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado presente dos espiritos, em que as conviccoes do homem estao geralmente em contradicao com as crencas da esposa e da filha, e em que tao necessario se torna portanto a harmonia moral da familia o principio fundamental da conciliacao das consciencias! * * * * * Na reuniao do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da Haute-Saone, expoe com uma concisao profundamente lucida as causas que determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem escravisados pelos poderes clericaes.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho aos esforcos do obreiro comeca lentamente a operar-se: os trigos crescem. Crescem em virtude de que lei? Tal e a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe respondem aquelles que sao encarregados de o instruir e de o educar. A nocao que elle recebe acerca do modo como o trigo cresce torna-o fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e embair. Qual e o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio e ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador operario acrescenta: "Faz-se geralmente crer ao lavrador europeu que as suas sementeiras se desenvolvem em resultado de uma forca cuja paternidade vem de Isis, ou de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora e o deus de Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a amadurecer nas mesmas condicoes em que amadurecia n'outro tempo. A ruina dos successivos templos e das successivas religioes em nada tem alterado as leis da natureza. E todavia da-se por toda a parte o mesmo estado de coisas: O indio cre que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim ve nos seus o grande Todo. Em outros sitios e Budha. Para os gregos e para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia e o grande Lama. Na Africa e a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

"Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporacoes de sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...

Respondeis-me que e impossivel. E effectivamente impossivel, o que e de certo uma desgraca! Esse porem e o facto historico, que nao podemos deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque sobre as questoes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas geracoes.

"E a guerra, e a guerra de religioes. E tempo de lhe por um termo. E tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a legislacao humana e a moral universal." * * * * * Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestoes de ideas e de principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras conviccoes de sciencia ou de simples bom senso sao consideradas perigosas e banidas das discussoes publicas.

Debalde a historia da civilisacao ingleza n'este seculo nos demonstra que a tolerancia absoluta na manifestacao do pensamento e a primeira garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia das ideas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, evitando assim que a orbita das applicacoes praticas seja invadida pelos principios que nao foram d'ante mao sanccionadas na opiniao e pelas reformas que ella nao exigiu em nome de novas necessidades provenientes de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal e o methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbacoes graves que a impaciencia dos reformadores, nao experimentada na pedra de toque de uma discussao liberrima, lancou na vida pratica de outras nacoes, como succedeu em Franca depois do segundo imperio, que corrompia todos os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

Em Portugal essa importante licao tem sido absolutamente esteril.

Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino mostraram uma ligeira tendencia para produzir ideas, o governo sem nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram manifestar posthumamente as suas ideas solicitando para os seus cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes, vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu morto.

Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que expoem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepcoes theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, a impunidade d'esses professores, dizemos, nao se deve attribuir a tolerancia philosophica do poder. Ella e simplesmente o resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servicos publicos.

Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais vergonhosos e mais crassos alheios a doutrina dos programmas. Ha lentes que estao acima da lei pela mesma razao que ha outros que estao abaixo d'ella:--por falta de inspeccao e de policia.

Um facto recente da-nos a prova mais cabal de que o estado nao e solidario nos progressos scientificos da nacao, e que estes se operam nao sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se armam.

Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruccao primaria! Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores mais mocos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: "_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessao, publicado do _Jornal do Commercio_), _nao e adversario do desenvolvimento da instruccao primaria, porque nao deseja que continue a subsistir o estudo de ignorancia do nosso povo, onde a proporcao dos que sabem ler e de 1 para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., e de 1 para 6.

Mas nao deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.

Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais proprio. Pode haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem e temente a Deus, que nao queira mandar o seu filho a uma escola cujo mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas maiores glorias, embora a instruccao estivesse pouco diffundida, a nacao portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; nao pretende dizer com isto que deixe de se derramar a instruccao, porque tambem e apostolo d'esta idea, mas quer que essa instruccao seja ao mesmo tempo moral e religiosa."_ A affirmativa de que a nacao portugueza attingiu um alto grau de prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruccao estivesse pouco diffundida_, e um erro de historia que o nobre conde quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que nao e pelo excesso de instruccao em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior nao podia realmente ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde quer achar a differenca que distingue esse tempo do tempo actual, compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Braganca.

D. Joao I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um litterato. Teve a honra de hospedar na sua corte o grande pintor Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle so para formar a educacao esthetica de um povo do que dez universidades e vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da corte portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

Dos filhos de D. Joao I um e o infante D. Duarte, o creador da primeira bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.

Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernao Lopes. O ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas navegacoes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal e o senhor D. Augusto, conhecido de todos nos por o termos visto passar no Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte nacional, que o acompanharam e que fizeram grande impressao na City, onde os tomaram por duas vaccas sem pernas. Eram os baus de sua alteza, feitos na rua dos Correeiros.

Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhaes, Diogo Cao, Pedro da Covilha, Gaspar Corte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.

Henrique e seus irmaos souberam attrair a Portugal, que procederam escriptores como Fernao Lopes, Gomes Annes de Azurara, Gil Vicente, Joao de Barros, Damiao de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camoes, talvez o mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de hoje, a nao ser por influencia de alguns professores precitos e apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e que vao para administradores de concelho ou para amanuenses de secretaria.

No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente instruido. E certo que nao sabia ler. Mas saber ler nao constitue propriamente instruccao, mas sim um dos meios de instruccao. Ora o povo dispunha entao de outros meios superiores a leitura. O marinheiro e o soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na confeccao das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo de entao nao sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pode gloriar a litteratura de uma nacao.

A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a instruccao! E conclue d'esse absurdo que um povo pode attingir a prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das accumuladas contradicoes do seu texto, em que s. ex.ª ora e apostolo da instruccao, ora e apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porem, conclue a sua notavel falla mandando para a mesa o seguinte additamento a lei que se estava discutindo: _O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario ensinar ou inculcar doutrinas contrarias a religiao catholica, a moral, a liberdade e a independencia patria sera demittido nos termos d'este artigo, independente da accao criminal que deva ser intentada. Os paes, tutores ou pessoas encarregadas da sustentacao e educacao das creancas podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

Eis ahi o que se nao admitte, porque esta disposicao legislativa proposta por s. ex.ª produz a fixacao legal dos seus principios a respeito da instruccao, isto e: que deve haver instruccao e ao mesmo tempo que a nao deve haver. Nao e outra coisa senao eliminar a instruccao, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena de processo e demissao immediata do professor, aos principios da religiao catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tao profundo abysmo entre a concepcao theologica e a explicacao scientifica dos phenomenos do universo, que toda a conciliacao e hoje impossivel entre o mestre e o padre. Nao duvidamos que o christianismo possa ainda reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes e definitivas conquistas do entendimento humano. O que e certo porem e que a direccao reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano desde a Reforma ate hoje o inhabilita presentemente para realisar essa aspiracao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois interesses oppostos e impossivel. Pedimos licenca ao sr. conde do Rio Maior para lh'o provar.

Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que e o diluvio universal, que lhe pergunta qual e a idade da terra, que lhe pergunta o que e o homem pre-historico, o que sao as florestas carboniferas, o que e o arco-iris, o que e o para-raios, o que e transformacao das especies, o que e a Torre de Babel, o que e o Eden; supponhamos que o alumno faz ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de formular acerca das affirmacoes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.

A essas perguntas o mestre nao pode responder senao com o erro ou com a heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptaram a sua emenda a lei da reforma da instruccao portugueza desejam que o mestre responda pelo erro.

Mas isto e peior do que por de parte a sciencia; isto e, recebel-a para a contradizer e para a destruir; isto e converter a ignorancia publica em uma instituicao do Estado.

Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, a luz de uma lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E apagou-lhe a lanterna.

Quem foi que deixou no mundo esta licao? Foi o theologo.

Um povo ignorante e um povo em trevas, cuja lanterna e a instruccao. O legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz e o sr. conde de Rio Maior.

* * * * * Notemos porem um facto consolador: O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma sensivel diminuicao de forca. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente de um velho sangue que se decompoe e se dessora. A idea que elle tem no cerebro e uma idea que se extingue.

Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissao do professor e o processo pelos tribunaes civis.

Inclinemo-nos diante de tao manifesta mansidao! Nos fins do seculo XVI o _pendao da santa doutrina_, um lugubre pendao negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era entao o professor idealisado pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_, argumentando a doutrina christa a este povo. Todas as mulheres e todas as creancas saiam as portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pes do tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, amortalhada de negro, de cruz alcada, tangendo uma campainha, como quem leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos methodos porque se mortificam os impetos da carne.

Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem os estudantes a missa, do que colhiam nas sacristias uma certidao sobre a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

Hoje a parte disciplinar da nossa educacao religiosa caiu com o pendao negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinaria, resta apenas a cartilha de Padre Mestre Ignacio.

E e sobre essa cartilha solitaria, em torno da qual cairam dissolvidas a uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma instituicao civil, e sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o ensino publico de uma nacao! * * * * * Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ nao cessam de elevar aos ceus em todas as manhas e em todas as tardes: _Meu Deus, tornae ridiculos os nossos inimigos!_ O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da instruccao indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa oracao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das _Farpas_, um cirio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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