As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)

Eça de Queiroz

SUMMARIO Leis organicas das sociedades e disposicoes regulamentares dos estados: de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanccao penal. O caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituicao da raca humana pela gymnastica. Reconstituicao da ideias parlamentares pela mesma gymnastica. Indicacao de alguns exercicios para uso dos dignos pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nacao_. Mostra-se que o milagre nao presta. Ensina-se a _Nacao_ o que sao milagres e prova-se-lhe que ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse personagem desde o seculo XVI ate a ultima facada no Bairro Alto--A ideia velha e a ideia nova.--Uma opiniao de Tyndal acerca dos atheus.

Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin acerca das rasoes porque crescem os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei da instruccao primaria mostrou nao ser aquelle philosopho nem aquelle carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A educacao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltroes. A covardia, instituicao publica, etc.

Todos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como pertencendo a duas classes distinctas: 1.º Crimes resultantes da infraccao das leis organicas da sociedade; 2.º Crimes resultantes da infraccao das disposicoes regulamentares dos Estados.

Emquanto as sociedades se nao acham constituidas segundo o direito absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, isto e, emquanto as sociedades nao attingem um desenvolvimento intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua organisacao, distinguindo o que n'ellas e difinitivo e organico do que e convencional e contingente,--n'essas sociedades nao podem dar-se senao os crimes da segunda d'aquellas classes. E assim que vemos nas civilisacoes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entraram no periodo scientifico da sua evolucao moral, como presentemente succede em toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., tomaram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que nos referimos, porque se comprehendeu que elles nao violam unicamente um regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregacao que constitue o grande ser collectivo.

* * * * * A sabedoria da legislacao penal manifesta-se na mais justa e perfeita demarcacao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios repressivos da infraccao das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a punicao imposta a contravencao dos seus estatutos regulamentares, distinguindo graduacoes na culpa segundo a importancia dos interesses feridos pela perpetracao do delicto.

E em virtude d'este criterio que sao punidos com severidade, unanimemente exigida pela opiniao, os attentados contra o interesse do commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois interesses sao considerados os mais importantes das sociedades modernas; ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, pela razao de que os governos se julgam impotentes para vibrarem arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por conseguinte a civilisacao rejeita como um acto de prepotencia e de vinganca.

Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: "Sao mais do que crimes, sao verdadeiros erros!" Posto isto, vejamos qual e o estado da mentalidade portugueza afferido pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e as respectivas sanccoes penaes.

* * * * * Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

No caso de Joanna Pereira vemos tres reos confessos e convictos de tres crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por meio da chlorophormisacao; o carroceiro, da remocao de um cadaver; todos tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

Como procede a sociedade? Nao tomando conhecimento de nenhum d'estes attentados e despedindo os reos em paz! No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo e accusado de ter falsificado uma certidao de edade para o fim de salvar um mancebo do recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a oito annos de degredo para a costa ds Africa! O primeiro caso e um triplice attentado contra a ordem social. A sociedade nao so o nao pune mas nem sequer o julga.

O segundo e uma contravencao de um regulamento administrativo. A sociedade nao so o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

* * * * * Nao analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnacao d'este e uma iniquiedade monstruosa.

O crime do que e accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a oito annos de degredo, e crime unicamente perante a letra de um regulamento de caracter nao so transitorio mas arbitrario--o regulamento do servico militar.

O parocho foi condemnado por tentar salvar do servico um recruta.

Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, so pode involver intencao criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.

Viciar a data de uma letra ou de um contrato e indubitavelmente um grave crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o da propriedade. Mas alterar a data de uma certidao de baptismo, para o facto de isemptar do servico militar um cidadao, nao e offender um interesse social; e o contrario d'isso: e servir o interesse que todas as sociedades teem em que deixe de haver militares.

* * * * * O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios a civilisacao e a humanidade. Daria em resultado a eliminacao do militarismo e da guerra.

Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores nao foram punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os mortos.

Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_ Finalmente, para o facto da seleccao da especie, os maridos seriam substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, convertendo aos pianos, reforcados pela aguardente, nos unicos instrumentos da perpetuidade da raca.

* * * * * Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos unicamente a sociedade os nossos cumprimentos.

* * * * * Por occasiao de se discutir no parlamento a reforma da instruccao primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopcao da gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opiniao de que a gymnastica tinha um caracter immoral.

S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as maos e de pernas para o ar. Isto effectivamente nao seria bem visto. E comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porcao de rubor pensando que ao dirigir n'um salao as suas homenagens a uma dama esta podera vir um dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeca no espaco que medeia entre o tapete e o lustre.

Cremos porem que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.

ex.ª tenha da coisa que fora das feiras se nao chama a _sorte de forcas_ mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

* * * * * Um illustre medico allemao, o doutor Schreber, director do instituto orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformacoes do nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciacoes na configuracao dos ossos da bacia, viciacoes que inhabilitam muitas mulheres de serem maes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na escola e que so podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher podera chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de s. ex.ª para alvo das suas predileccoes pelo pugilato athletico.

* * * * * O mesmo doutor Schreber assevera que e indispensavel introduzir o uso da gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas mulheres padecam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente frequente e resultante da posicao forcada em que as raparigas se conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja a espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente depois a operar sobre a regiao abdominal de s. ex.ª as experiencias dynamometricas, cuja perspectiva lanca no animo pudibundo do digno procere um tao ligitimo horror.

* * * * * A physiologia moderna tem mostrado que a saude nao e mais que o justo e perfeito equilibrio das differentes forcas inherentes ao nosso organismo. A hygiene tem provado com muitas observacoes e fundada nas mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de todos os nossos membros e de todos os nossos orgaos e o unico meio de manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisacao d'esse exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulacao do sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a loucura sao outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes revelacoes, demonstra que existem estreitas e precisas relacoes de causa para effeito entre as variacoes da circulacao e os differentes graus de actividade cerebral. A abolicao da memoria, a perversao das sensacoes, todos os casos de nevropathia cerebral sao resultantes de uma falta de cadencia na vibracao dos centros sensitivos causada por um embaraco da circulacao sanguinea no encephalo. Na Italia estao-se curando as alienacoes mentaes pela transfusao do sangue. O medico Ponza, do Grande Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos de cura de alienados pela transfusao hypodermica.

Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispoe para activar e regularisar a circulacao, de tanta importancia para a actividade central, e a gymnastica.

O celebre hygienista Lacassagne diz: "Um exercicio muscular geral, feito em boas condicoes, produz os effeitos de uma transfusao de sangue." * * * * * Ha estados morbidos cuja localisacao no organismo escapa muitas vezes a indagacao e a sagacidade dos clinicos. Esta-se doente sem haver apparentemente perturbacao alguma nas funccoes physiologcas. O symptoma, frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na diminuicao do noso peso com relacao a unidade do nosso volume. A mais segura medida da saude e a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio para tornar mais denso o corpo humano? Ha. E o regimen da gymnastica. O doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de gymnastica militar da Faisanderie, em Franca, constatou, pelas observacoes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto e acrescentar a densidade de 6 ate 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de exercicio.

* * * * * Em um paiz onde a tisica faz tao grande numero de victimas como em Portugal, e util accrescentar ainda que uma das propriedades da gymnastica e desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo doutor Burq.

* * * * * A forca muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a densidade, n'uma proporcao de 15% nos quatro primeiros mezes dos exercicios gymnasticos.

* * * * * A hygiene de musculatura e um facto de primeira importancia para a saude desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos tecidos vivos se reconheccu que a sede principal da combustao respiratoria e o musculo. Os differentes estados do musculo influem directamente na composicao do sangue. O exercicio e portanto um poderoso modificador do sangue e como tal actua em todas as forcas do nosso organismo. Mas nao ha senao uma especie de exercicio com propriedades hygienicas e therapeuticas: esse exercicio e a gymnastica.

* * * * * Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faca o obsequio de considerar que so e um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allema. O doutor Sebreber demonstra que a unica occupacao que sujeita quem a exerce a um exercicio inteiramente harmonico, e a occupacao da jardinagem. Todo aquelle que nao for jardineiro tem de appellar para um methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido equilibrio as acquisicoes e os dispendios de cada um dos seus orgaos.

* * * * * Taes sao, resumidamente expostas, algumas das razoes que militam em favor da gymnastica. Em contraposicao a estes argumentos nao sabemos senao de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos mais fervorosos para que s.ex.ª nao core diante da gymnastica, impedindo assim o paiz de por em pratica o melhor meio de regenerar a sua constituicao atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, de reagir contra a hypocondria e contra a preguica, contra a atonia dos nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a gotta, contra as affeccoes pulmonares, contra as escrophulas, contra a obesidade e contra a idiotismo.

* * * * * Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licenca para incluir o mesmo sr. Vaz Preto, estao contaminados por enfermidades que a gynmastica previne e corrige. De modo que uma boa administracao pedia que gymnastica nao so fosse decretada para as escolas mas tambem para as duas casas do parlamento.

Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemas, suecas, os exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova quanto estes exercicios sao uteis nao so ao desenvolvimento physico mas ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que n'aquellas em que a gymnastica nao existe.

Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, esqueceu uma disposicao--precisamente a unica que teria alcance--um artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes em cada sessao, as suas locubracoes legislativas, para fazerem gymnastica ao som de um orgao, como nas escolas americanas.

O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por que--digamol-o francamente--o que e o _cachenez_ do nobre duque presidente senao o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma mais caracteristico de que s.ex.ª nao tem gymnastica nos musculos do pescoco e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da felicidade do paiz, que tao estreitamente depende da preciosa saude do nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos seguintes movimentos: Voltar vigorosamente a cabeca para a direita e para a esquerda (100 vezes); fazer girar o pescoco, na sua maxima flexao, sobre o peito e sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros (100 vezes); fazer o movimento de quem mede bracas (100 vezes); tomar fortes e profundas aspiracoes de ar (25 vezes). Depois do que, s.ex.ª reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomecaria a meditar sobre a felicidade da patria.

No mesmo sr. Vaz Preto o que e verdadeiramente a revolta do seu pudor perante a adopcao da gymnastica nas escolas senao o indicio de uma lesao mental concomitante e ate certo ponto compensadora da obesidade? Pois nao e sabido que jamais a excessiva nutricao deixa de ser acompanhada reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios seguintes: Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz ate o limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).

Depois do que, s. ex.ª revestiria ameacadoramente as suas calcas e continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

* * * * * Se porem a todas estas consideracoes for insensivel o sr. Vaz Preto, n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: Velar-lhe a face! * * * * * A _Nacao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre cego ja ve, a paralytica ja anda_.

* * * * * Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nacao_ desse cabimento nas suas columnas um milagre tao miseravel, tao safado, tao reles como esse! Com effeito! foi entao para isso, para esse milagrotesito de cacaraca, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para os fazer ver e para os fazer andar os levou tao longe?! ... Ora muito obrigado! muito obrigado pelo seu favor! A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que collaboraram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinacao teem obrigacao restricta de abrirem immediatamente uma subscripcao para o fim de indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que lhes deram. Porque nos--e a _Nacao_ bem o sabe!--nos temos devocoes locaes, temos devocoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affiancam, sob a auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos resultados obtidos pela romagem.

Pois que! A agua de Lourdes ao pe da bica, na propria gruta, por conta e na presenca da santa, nao ha de dar mais effeitos no consumidor do que a agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas vezes impuras, quantas vezes com mas rolhas?! Nao vimos nos ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa locomotores com agua das latas?! E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento para se metter as estradas e para ir por ahi fora em bracos ate Lourdes, chega la e nao obtem mais nada senao o que obteve a outra sem sair do largo de S. Roque? E ainda ousam dizer-nos--o que nao pode ser senao por escarneo--que ella _andou!_? Olha a grande facanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era correr, correr a sete pes, e trazer de la para esse fim cinco pernas a maior do que as que levou! Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaro que lhe fazia o milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na sua devida altura, que o homem nao so principiasse a ver pelos olhos mas que visse tambem por outros membros.

Isso entao ja valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que a _Nacao_ o publicasse em telegramma: "O padre cego appareceu-lhe um olho em cada buraco do nariz e esta-lhe a vir outro na cova do ladrao, pelo qual ja le as suas rezas de costas na cama com o breviario por baixo do travesseiro. A paralytica ja deitou seis pernas novas e esta com dois grandes furunculos nos hombros: suppoe-se que sejam as azas a romper. Quando se lhe espremem os carnicoes bota pennas. Infinitos louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cor dos voadouros vemos que a paralytica nos sae pedrez!" Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda ordem, porque os ha muitos maiores.

* * * * * Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se coisas ao pe das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito e zero.

O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doencas, das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que nao podemos por em duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario demonstrada por casos de protecao, de conversao e de curas miraculosas_, pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos exemplos.

Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botao dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar emquanto caem e continuam a leitura em baixo, tracando a perna n'um estado do satisfacao ineffavel.

O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreicao do Var, com um escapulario ao pescoco, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica illeso. "Nao nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!" disse por essa occasiao um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lancar ao meio das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e o escapulario encontrou-se intacto. "Apenas, diz o padre Huguet na obra citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco." (Pag. 17.) Um soldado na batalha de Novara ve cair em torno d'elle todo o regimento, elle e o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braco. (Pag.

20.) Um desgracado, querendo suicidar-se, lanca-se ao mar quatro vezes consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o a praia, recusando-se obstinadamente a submergil-o. O desgracado recorda-se entao que traz ao pescoco um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado o escapulario em terra. Foi somente com esta condicao que o mar se resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) Alem de livrar de todos os perigos, sem excepcao, durante a vida, o escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleccao dos escapularios da Immaculada Conceicao, do Rosario, do Carmello, etc._, diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes sao arrebatadas pelos escapularios. Parece que nao ha dia em que um milhao de diabos nao roguem esta praga medonha:--Que nos levemos os escapularios! As approvacoes pontificaes de todos os papas, desde Joao XXII ate Pio IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que arranje a morrer com o escapulario na sexta feira a meia noite, podem os facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hao de ver por um oculo! O uso do escapulario e extremamente commodo: nao obriga a encargos de nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, da confissao e da communhao. Tambem nao priva o penitente de qualquer prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º Guglielmi. O essencial e nao o tirar nunca, nem mesmo _quando voluntariamente se vae peccar_: e o que mais particularmente prescreve o dito padre Guglielmi.

De todos os escapularios o que mais se recommenda a eleicao dos devotos e o do Sagrado Coracao de Jesus, porque este escapulario nem sequer precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo seguinte: Sobre um pequeno retalho de la branca--retalho quadrado ou oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a virtude--applica-se um coracao de flanella encarnada, bem talhado e cosido a pesponto, de modo que imite a coroa de espinhos acompanhada de algumas gotas de sangue bordadas a seda. Aparte, em uma tirinha de panno patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripcao sacramental: _Suspende! Esta comigo o coracao de Jesus_! Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um d'estes escapularios, deital-o ao pescoco e ficar livre, para a vida e para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do alto das torres, atirar-se as voragens do fogo e do mar, e metter-se debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, nao fara a _Nacao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nacao_, o mais que faz e unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? Ha umas tantas coisas que a _Nacao_ ate devia ter vergonha de as dizer ... O que a _Nacao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a esse pescoco, para a _Nacao_ ficar entao sabendo o que sao milagres! Porque a _Nacao_ nao sabe o que sao milagres! Por o padre cego a ver e por a paralytica a andar nao passa de uma habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! Vir a feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de proposito para fazer perder a gente o gosto pelas devocoes ...

Emquanto a nos o que a _Nacao_ tem e o espirito maligno no corpo do jornal! Cruzes, demonio! * * * * * Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de satisfacao a sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um fadista. O que temos que perguntar e: Porque se nao prendem os fadistas todos? * * * * * Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significacao analoga a esta--o _fadista_.

Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em toda a sua pureza esta raca de bravos de viella, sem officio nem beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, frecheiros com as mulheres, soberboes e insolentes com os mesteiraes e com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursoes nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e acoitando os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e adormecidos.

Entre os alludidos fidalgos figurava como grao-mestre da ordem, como capitao da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmao do senhor rei D. Joao V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse interessantissimo principe, cujas tropelias crearam, durante um seculo, em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcancar com um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se despegara da verga, que dobara no ar por entre as enxarceas e caira por fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais tarde, com a illuminacao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e com a creacao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruacas, os combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razao biologica de que toda a forca organica que se nao exerce se elimina, o antigo valentao plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o espirito da facanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da vadiice, e tomou entao o nome de--fadista.

O fadista nao trabalha nem possue capitaes que representem uma accumulacao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploracao do seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que elle espanca systematicamente. Nao tem domicilio certo. Habita successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da policia. Esta inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. E um anemico, um covarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito e concavo, os bracos sao frageis, as pernas cambadas, as maos finas e pallidas como as das mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e triplice calco na mola. E habitado por uma molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de constituicao normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com um soco. Elle sente isso e e traicoeiro pelo instincto do inferioridade.

Nao ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.

Nao ha senao uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A guitarra debaixo do braco substitue n'elle a espada a cinta, por meio da qual se acamaradavam com a nobreza os pimpoes seus ascendentes do seculo XVI. E pela prenda de guitarrista que elle entra de gorra com os fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe composto de bacalhau e graos de bico polvilhados de vermelho por uma camada de colorau picante. Por effeito da tradicao na orientacao mental da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos alcouces de Alfama, que sao levantados bebedos dos becos mal afamados, que fallam em calao e que fazem trocas no Colete Encarnado e na Perna de Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compoe-se hoje principalmente de jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educacao do lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes de pandega. Usa como elles a bota fina de tacao apiorrado ou o salto de prateleira, a calca estrangulada no joelho e apolainada ate o bico do pe, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapeo arremessado para a nuca pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beico pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplacao imbecil; o tronco do corpo caido mollemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pe para fora; o _cachucho_ da amante reluzindo na mao pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a mao na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeca alta, esticando as cordoveias do pescoco e entoando as melopeias do fado, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devocoes religiosas a Virgem Maria, com uma voz solucada, quebrada na larynge, acompanhada da expressao physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miseravel.

De resto o fadista nao tem vislumbres de senso moral. Explica os seus meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condicoes especiaes em que ama e e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a todos os machos.

* * * * * E da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os incorrigiveis da criminalidade.

A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informacoes de um inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir em tres cathegorias. A primeira cathegoria e composta de individuos que verdadeiramente nao deveriam ter entrado nunca na prisao. Sao lancados nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo ou de caracter, a qual nao obsta a que elles tenham uma moralidade tao sa como a de qualquer de nos. A segunda cathegoria pertencem individuos, mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se tornarem bons ou maus segundo a direccao que recebam. A terceira cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, e rebelde a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os conselhos. Para estes a cadeia e um logar improrio; seria preciso confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo nao fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado nao teria senao proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe conviria principalmente dar instraccao; emquanto aos terceiros o melhor expediente seria a morte.

E util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: E ou nao e da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja incorrigibilidade e em muitos d'elles attestada por varios julgamentos repetidos? A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: E.

N'este caso pergunta-se: Pode a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a justica mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? Nao. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de que o Estado e cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade e irresponsavel da perversidade individual, nao succede o mesmo, e a sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que e ella que sustenta, ao abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

Dado o fadista, a sociedade nao pode certamente evitar o criminoso. A sociedade porem pode evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a instituicao concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

Desde que um cidadao deixe de poder explicar unicamente pelos supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o Estado tem o dever de o prender, nao para encarcerar mas para coagir ao trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

* * * * * O mais perigoso de todos os animaes vadios e o homem. Comparado com elle o cao, ainda quando damnado, pode-se considerar inoffensivo. E todavia a policia, que tem para o cao que ainda se nao damnou as precaucoes da rede e da carroca, nao tem para o vadio, em pleno exercicio do seu contagio, senao um expediente repressivo: o de lhe archivar a photographia no commisariado geral.

Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios de garantir a seguranca publica: tire o retrato aos caes e deite a rede aos fadistas.

* * * * * Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legioes contrarias, arrojaram-se encarnicadamente uns sobre os outros, esmurraram-se, esguedelharam-se, cuspiram-se na face em odes, acoitaram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regioes lombares das musas.

Mysterio sobre as causas que moveram tao crua guerra entre duas escolas poeticas alias tao pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que ellas existissem: a escola da _Idea Velha_ e a escola da _Idea Nova_! * * * * * Os da Idea Velha dizem que nao ha nada como a idea d'elles. E fundam-se para isto em que e uma idea solida, experimentada, garantida.

O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta annos.

Ergueu-a do chao como morta, chuchada, espipada, moida pelas pegadas de duas geracoes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idea Velha por uma ponta e pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot e levou-a comsigo a sociedade, onde a receberam bem. Cercaram-a varios outros nao menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do que aquelle que a levantara do chao. Andou pelo braco de um e pelo braco de outro recebendo declaracoes de affecto e dadivas de amor. Mao tao dedicada quao firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, as solemnidades publicas, as casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na _Grinalda_ e no _Almanach de Lembrancas_; dedicou versos a Lapa dos Esteios, a Stoltz e a Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e as Gracas nas notas da versao portugueza dos _Fastos_. Foi da Assemblea da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmaram, para lhe serem agradaveis, o seu amor a lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou finalmente nas altas regioes officiaes. Foi aos pacos dos nossos reis! De quando em quando observava-se que ella comecava de repente a encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fora insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opiniao, e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo a Idea Velha. O poder moderador, com a sua real coroa na cabeca e o seu real manto as costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.

Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, achando-se tao chupados e tao desfallecidos como a propria idea que eram chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, tinham tido a honra de bufar a mesma idea e pelo mesmo canudo que servira a primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assemblea da Galocha e os empregados publicos do Gremio nao o permitiam, e torcendo altivamente o bico das peras, diziam que a Idea se nao se podia por a merce da populaca infrene e ignara. Vivendo assim a custa do sopro dos poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a Idea, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoco a condecoracao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, ajoelhou-se-lhe aos pes e propoz-lhe leval-a as aras de Hymenen; ella porem, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas exclusiva do vate. Este, de pura dor, pregou na parede um prego e suspendeu n'elle, por um laco de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

Nos ultimos annos a Idea Velha desapparecera do bulicio do seculo e da communicacao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.

Algumas pessoas devotas tinham-lhe ja resado por alma. Soube-se agora, com grande satisfacao dos que a conheceram no galarim, que a Idea Velha ainda esta viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares onde nao ha outra idea de dentro para o servico da familia.

* * * * * Os da Idea Nova teem esta falha notavel: suppoem que a Idea velha vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, que prepondera nos destinos do mundo, E veem-se mocos honestos e engracados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como se fosse uma forca da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que ha meio seculo nao passa do um artificio convencional e de uma superfetacao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em nenhum dos interesses do espirito ou do coracao do homem no tempo presente.

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