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As Farpas (Janeiro de 1878)

Eça de Queiroz

E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte: No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das

catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.

Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.

Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.

Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.

* * * * * Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que pretendemos consultar s. exª: * * * * * Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir entretendo.

N'esta hypothese pergunta-se: Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha o capricho de descartar-me? Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros impios e locomotores.

A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.

Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica, e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio dos atheus.

* * * * * Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes: Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim uma affirmação civil.

Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria; não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome! A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.

Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna, era--a perna da igreja.

Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira, de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.

Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de designar a sepultura sagrada.

Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o contrario.

Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha perna.

Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem padre, morrer sem padre.

* * * * * Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova, esquina do Laranjal Porto Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de comparecer.

Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª! Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.

Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha venezianamente na agua.

Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do paiz estavam ahi reunidos. Para que? Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que phenomeno! que revolução! Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum pessoal.

Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma funccionalidade diversa.

Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder, irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação, que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.

A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o aperfeiçoamento e para a felicidade.

Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos das sociedades.

A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas instituições.

Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo debatida entre dois principes.

A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente affirmação d'esse progresso.

A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este seu novo hospede? Não lhe apparecendo! V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.

ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

* * * * * Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

Eis o que ao depois occorreu: * * * * * A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes, choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? --Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: --Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

E deixaram-o ir.

* * * * * Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na redea.

* * * * * Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades officiaes! * * * * * Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao sr. José Dias Ferreira.

Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder, o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso: --A mim, rapazes! E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.

* * * * * Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem assim elle mesmo? Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima! Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

* * * * * O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e, como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.

Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra bolsa do alforge ministerial.

Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra, enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

* * * * * E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com arnica o seu galo.

* * * * * Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.

Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª * * * * * Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores deputados: * * * * * Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde os parapeitos até ao tecto.

Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.

O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.

Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas cahidas do systema que felizmente nos rege.

No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca, lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de cabeça.

Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica constitucional.

Diz mais o orador: --«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados».

E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da camara:--«Muito bem! muito bem!» Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.

Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está, como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de Kant, de Hegel e de Hartman.

Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela indisciplina mental.

Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado politico do imperador Guilherme? Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha? Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.

Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.» A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de esphacelamento cerebral.

Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de caturras?--É unicamente o que perguntamos.

* * * * * O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão social.

A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por fazer.

A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo o principio em que se funda.

A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma Turquia está muito adeante de nós.

Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e dissolvem-se na banalidade.

As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal? * * * * * Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado; quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica de cordas, uma photographa, etc.

Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não pódem constituir principios de programma, são communs a todos os partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

* * * * * Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo, corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no favor da urna.

O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas! Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de _compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o compadre, vou para o partido d'elle.

O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, esse poder é unicamente--o da comadre.

A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras, unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, real; compadrice, comadrice--eis tudo.

* * * * * Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos, socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

* * * * * Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum sepulchrum_!

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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