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As Farpas (Março a Abril de 1873)

Eça de Queiroz

Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90 habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali existem são na proporção de--1 para 3:021 habitantes _livres_; além do que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e sociedades sabias, entre as quaes _As duas palavras aos leitores das Farpas_ nos citam as seguintes: _associação commercial, sociedade musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação typographica, instituto pharmaceutico_, e finalmente a famosa _associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim

promover o melhoramento da raça cavallar_.

É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes _livres_, e vinte _sociedades sabias!_ Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do _jockey-club_, encarregados do melhoramento da raça cavalar! No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras palavras extrahidas de um _Retrospecto commercial de 1872_, publicado no _Jornal do Commercio_: «Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que apertada em um circulo estreito.» Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um circulo estreito.» Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e Avé-Lallemant, acha bem o auctor das _Duas palavras aos leitores das Farpas_ não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo, informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de Janeiro.

Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As _Farpas_ não fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.

Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro estabelecimento do mundo.

Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão--em pleno uso das suas faculdades.

O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota alienado,--como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial para o receber--é recolhido na cadeia.

Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do estado da civilisação na sua patria.

* * * * * Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.

Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha resumida nas seguintes datas que extrahimos do _Livro Branco_: Em 7 de junho de 1859--começa a negociação o encarregado de negocios interino no Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno--prosegue o sr. Mathias de Carvalho. Em dezembro de 1871--principia negociações para um egual tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de 1872--terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872--é assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção postal, nem a convenção litteraria! Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho--a sr.ª Emilia Adelaide.

* * * * * Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, aos leitores das _Farpas_, e ao mundo, o seguinte: 1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes, entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus, Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, por um patriota brazileiro ... e anonymo! 2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos _syllabus_ do Catete ou das _bulas_ da rua do Ouvidor?! * * * * * Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.

* * * * * As «corridas» do Campo Grande--Extraordinario successo de dandysmo! Não assistimos, mas lemos que esteve o _high-life_, o famoso _high-life_, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar! Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no Campo Grande, em volta do lago--o _high-life_ ...

A aristocracia nos seus _landeaux_, com enormes cocheiros gordos, de barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.

A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis, empoados, descobertos, com os tricornes na mão.

Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz _truffada,_ repimpados em _daumonts,_ com uma _carvajal_ nos beiços e uma marta zibelina debaixo dos pés.

A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a pelle especial dos estranhos climas do _cold-cream,_ da decocção indiana aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e de _ess-bouquet,_ dentro dos seus _broughams_ ou em pequeninos coupés de flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um ramalhete de cem francos ou um microscopico _kings' charles,_ descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III trazia mettida na manga ...

Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os postilhões, as _victorias_, as _americanas_, os _poney-chaises_ ... os _grooms_ em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os _sportmen_ em _breaks_ ou em _dog-cart_....

Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia.

Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.

Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos ditos que partem do fundo dos _coupés_.

De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer, e encontram-se os olhares que fazem scismar.

Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno, calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes, languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.

As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas e dos cantos de Ossian.

Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes aerias de volupluosidade indefinida.

Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam, ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na opera, os fofos _coupés_, os quentes _cachemires_, e os finos jantares.

Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo dinheiro illimitado ...

E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os cavalleiros passam, e as _toilettes_ scintillam, a pobre natureza ao longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de Malines! Tal é o perfil das «corridas»; tal é o _high-life_.

Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o crêmos.--Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao _Collete Encarnado_.

Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da praça.... _Alea jacta est!_ Elles partem nos seus fiacres, ao trote.--_Montjoie et Saint-Denis!_ O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.

_Hurrah!_ * * * * * Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias! Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia! * * * * * Hontem no theatro de D. Maria--primeira representação da _Magdalena_, especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas ás curiosidades do _chic_, na Baixa.

* * * * * N'este drama ha tres typos principaes: _O amante_--Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro--de Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico--sob os symptomas lancinantes e urgentissimos da colica.

_A noiva_--Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões, não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama finalmente senão uma coisa--o talento!... Pobre rapariga! desditosa burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!... a divina inspiração!... o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa, humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a _toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça: _A amante do noivo_--Uma actriz que foi educada no convento com a noiva o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento, com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma _lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_; celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias, em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de _pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz extravasado.

_O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,--de sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer perder aos outros.

O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno cáe.

* * * * * Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.

O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta _ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.

Pois bem: é essa mulher que se vae embora--notae-o bem, minhas queridas burguezas!--é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós, está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.

O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e sairdes com elles.

Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas derrancado ou extincto.

As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle, serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca luctar.

Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de Saxe--inalteravel mimo de galeria ou de étagère.

Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.

Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas por dia.

Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o vicio.

Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados, quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam--por enjoar a virtude.

Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.

Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem as escadas das casas em que ha mulheres honestas.

E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...

Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os dramaturgos! Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por discutida?...

* * * * * Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados os nossos antecessores.

* * * * * Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.

Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,--á marquez de Pombal.

Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte, esse Luiz XIV de caserna.

Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa, guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.--O que quer que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do genio! As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres--tudo bronze, macisso, pesado.

As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.

Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho, enche os salões e vae deitando os lanços.

O pregoeiro--_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_ Um adelo--_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim, porque é de mosaico!_ Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.

Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.--Extranho espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso! * * * * * Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.

Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.

Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.

N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.

Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.

Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria--uma visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo, marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes, decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do _Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena: ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.

E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão os principios politicos de suas excellencias os executores testamentarios da fallecida soberana.

Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....

Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma senhora.

Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias, que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens--a constipação intestinal dos principes! * * * * * O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz fallecida.

O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o valor de cada coisa.

S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade! * * * * * Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce consolação--tão sensivel ás almas sublimes--de receber duzentas libras a maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã--como mulher e como rainha! * * * * * Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada, embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso throno,--tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa cova aberta,--fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia: «Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado--por trez mil e seiscentos!» * * * * * SCENAS DE RELIGIÃO.--Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte: «Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do Santissimo d'aquella freguezia.

«Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de estrellas de oiro de lindo effeito.

«Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes, e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites de senhora.» * * * * * Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.

Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.--O amor dos corações puros e das consciencias boas! Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo effeito! Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo Ignacio--_incorporeas mentes_--com esta descripção que o _Diario Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos! Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel, Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo anjo--Almeida Fernandes?! Como ficarão vexados e humilhados no Céo--os outros--quando o cherubim Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos homem a imagem da caridade! Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador! Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes--no Empireo! Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.

Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino, acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado em Deus ... de filó! E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira: Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós--para nos tomar medida. _Amen_! * * * * * Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas entendem os principios do direito perante a revolução.

Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_, periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os direitos do povo.

O _Pensamento Social_ diz assim: «Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.

Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu: «Companheiros e companheiras.--Declaro-lhes que cada vez que tenho de entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.

Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos, porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com pancada.

«Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não, que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.--_Palmira da Conceição_.» * * * * * Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é uma pequena nossa senhora apparecida--da fabrica lisbonense de fiação e tecidos! Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o actual anjo Almeida Fernandes--nas festividades populares.

* * * * * Ha pequenas differenças: O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres sociaes._ O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro inquieto de Alcantara.

O anjo caminha gravemente--enfunado, crespo de folhos e de rendas, como um peru armado--a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica _Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o mundo velho.

A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence, mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na futura organisação social.

O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.

A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação e de erros de prosodia.

O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.

Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.

Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

O trabalho--bem o sabemos--é uma coisa augusta e sagrada. O commercio--desculpem-nos os senhores proletarios--é tão sagrado como o trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.

Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha, para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento Social_, orgão das classes operarias.

* * * * * Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece perfeitamente logico este jornal.

Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada temos que objectar.

Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte: Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas, associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em fabrica, levantar os cortumes.

Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o _Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.

* * * * * Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos burguezes--deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios--são na actual organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon: «Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.» * * * * * Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe pôr brincos.

Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ...

Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens--as genuflexões, o incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico--pela verruma! Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos! Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos! Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa Caetanos, 30, Lisboa.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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