Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de si mesmo.
P.J. PROUDHON.
O sr. _Alexandre Herculano_, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.
As armaduras e as flanellas. _A Voz do Propheta_, geremiada de salão. A biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa, Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.--João Felix Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as equarissages.--O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e seus principios politicos.--A casa de detenção nas Monicas. O edificio, as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem se fazendo-se dezembargadores ou coroneis--As curiosidades infantis da Republica Portugueza--_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil: testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero e a nossa.--O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O Sport e o Lagoia. Perfil do _high-life_. Os srs. De Lagrange, De Mouchy, Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas tipoias vencedoras--Representação da comedia _Magdalena_. Os caracteres, os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.--Um anjo catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.--O leilão do espolio de sua magestade imperial.
O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de _Opusculos_ um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do illustre escriptor.
Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou 1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu, formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.
* * * * * Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de cera côr de rosa e olhos de vidro.
E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de _stick_ do primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois dedos de Proudhon e de um copo de Champagne! Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que, n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina _veste Bênoiton_ a que triumpha.
Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro, a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos, graças ás capsulas ferruginosas e ao _Rob Lafecteur_, podendo impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan, chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.
Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses, inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca--na attitude classica dos Abrahões de jardim--suspendem os seus alphanges, como poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta gerações de pardaes! * * * * * Aqui temos nós, por exemplo, _A voz do propheta_, cem paginas sybilinas, em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.
É uma especie de _Dies irae_--de salão.
Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado n'um figle.
Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da caveira de um cyclope.
A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende--ella, desvairada, tambem o não sabe!--mas pisa o tablado a largos compassos tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita natureza humana se desencarrega--ai de nós!--pelo nariz....
O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas palavras: «O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...» E conclue assim: «N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:--Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.» Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam contristadas e attonitas: Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o propheta _banhado em suor frio_ e _repassado de amargura_?! Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma o _ultimo clarão de esperança_? Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido directamente por Deus de _fazer resoar palavras de terror_, explica satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção, destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes consentissem penetrar o sentido da _Voz do propheta_.
A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,--a explicação da voz que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de morte para o povo e para o paiz, é que: A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das proprias ambições _as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque invejosas, espoliadoras, porque miseraveis_;» e Elle, o propheta, Elle, o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle era--cartista! * * * * * Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze, resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ ...»--é que naturalmente Deus era tambem--cartista.
E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia e de rhetorica! * * * * * Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande historiador: Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: _Vae_, o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe tivesse dito--_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a _Voz do propheta_. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio? Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina, authentico e legitimo? * * * * * Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos: Primeiro--Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo em relação aos documentos ainda n'elles existentes»--questão que se acha resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.
Segundo--«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.
Terceiro--«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»--especie de carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.
Herculano quer _um jurado especial encarregado de defender a moralidade, punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em offensa da moral_,--o que nos parece ser, sem a minima duvida, o restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano, sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.
Quarto e ultimo--Uma _advertencia preliminar_, na qual o autor explica que compoz a sua obra _com o fim de_--matar o tédio das longas noites de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos--no inverno pelo menos--são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue--a bisca sueca. O fim moral retira-se, havendo uma perna para o _voltarete_.
E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes! * * * * * Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto, firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que Michelet chama a _indigente correcção de Malherbe_: tem portanto as condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue, nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.
Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica da revolução, que essas conferencias propagavam.
Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «_La légalité nous tue_».
Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as _caixas economicas_, escondendo que a questão de coarctar a miseria não é de estabelecer o _mealheiro_ mas sim de crear o trabalho.
Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra, justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o pensamento ou de disfarçar a verdade.
* * * * * No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios, nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz, no bem estar e na virtude,--n'este momento supremo, um dos mais graves em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos--, um philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno, lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em Cartago e Attila nas margens do Danubio.
* * * * * Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido, desalentado ...
D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os annos nem os desgostos justificam? Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.
Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.
«Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda, e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica: «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo--por ter chegado! Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.
Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.
Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em substituição da vida artistica.
Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A padecer o que? Esta molestia:--a nostalgia da arte.
* * * * * A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é então uma lesão profunda e mortal.
O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo, publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes, amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais póde sem perigo retirar-se d'esse meio.
Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle, elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa, immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam, tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.
Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos, muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos! Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos? Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?...
São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.
Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos! * * * * * Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella! Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza, que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura; João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido, caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos tamancos das suas montanhas do Jura! * * * * * Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato, restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.
Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são absolutamente indifferentes á humanidade.
Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella, radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo d'elle uma força moral.
Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos com o seu desalento.
Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso contentamento de uma alma perseverante e forte.
Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o; ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa, a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na luz.
São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço maior do que escrevel-o; é calal-o.
* * * * * Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons, bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.
Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio plebeu.
Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que escreveu o _Cantico dos canticos_ e edificou o templo.
* * * * * Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.--É a logica do absurdo.
* * * * * A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores uma, idéa da obra.
_O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia, virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores, chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte Palatino_ ...
Tal é Eutropio--traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez--se por ventura houvesse alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix, qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil, agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade! Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios--medico, engenheiro civil e agronomo--vós, que sois na sciencia o mesmo que são na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!...
Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso João, ó feliz Felix.
Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas equarissages litterarias.
A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos sertões.
A verdade é que ninguem vos entende.
Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia; ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus, interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos ... Tudo isso, ó João, antes, mil vezes antes, do que procurar entender-vos! * * * * * Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros: POR JOÃO FELIX BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS SEGUNDO DARWIN E LAMARCK * * * * * O _Tribuno Popular_, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D.
Fernando, escreve estas linhas: _«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello, emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes, entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem os espectadores nocturnos que os escutavam.»_ Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!» Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por Melicio?...
Por Deus! que o _Tribuno Popular_ nol-o diga! Queremos pedir para o peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago.
Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios ... Oh! nós conhecemos a fidalga bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois: _có, có ró, có!_ por Lisboa agradecida.
* * * * * Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos.
* * * * * Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão: Tinham commungado os presos.
* * * * * Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões portuguezas--quando os presos não commungam.
Nós visitámos a casa de detenção--antes da oitava da Paschoa. Eis o que vimos: * * * * * Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde.
Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio.
Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos que apanharam chuva.
Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos em um estreito pateo interior, na sombra--porque tambem ali não chegava o sol--frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos--como um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos, anemicos, tristes.
Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada.
As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão, coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que passavam os domingos.
* * * * * Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho, extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes ensina.
Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina moral.
Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.
Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um capellão, um perceptor.
Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a benzerem-se.» Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar feijões e arroz.
Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem.
Nunca bebem vinho.
O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o _menu_ da enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de correcção! * * * * * Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito camas e uma latrina.
Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.
Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol.
Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que, sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da sua auctoridade por isso que, concluiu elle, _quem dá o pão dá o ensino_.
Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de sua mercê.
* * * * * A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos basta, é que esse director ganha--cinco tostões por dia! * * * * * Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra que possa alterar a exacção rectilinea do quadro! Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem d'aquelle a que nos referimos.
O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal.
A opinião obedece-lhes.
* * * * * Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria.
Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da hygiene!...
Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas, de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio, de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas.
Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia entre os dois travessões de que fallámos.
Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas, custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000 réis.
Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das Monicas.
Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos e quinhentos mil réis! * * * * * Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento portuguez quasi tudo o que existe é erro.
Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim hortelões e jardineiros.
Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,--as noções mais essenciaes á vida.
Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem rapazes em marcha faz d'elles cem homens.
Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento, levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida pelos seus similhantes.
Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente, deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim um emprego elevado e digno do seu tempo.
Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas, embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.
Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser obrigados a rachar lenha ou a britar pedra--os exercicios mais saudaveis para os musculos de quem está parado.
Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os principios oppostos aos principios verdadeiros.
Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o hospital, ou para o cemiterio.
* * * * * Uma derradeira observação: A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são cumplices do crime de vadiagem.
Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho? Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios? Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros? Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã, desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que está inteiramente no seu direito. É um innocente.
Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio.
Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle deseja saber é o seguinte: O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe prohibe ser o que é.
Espera-se resposta.
* * * * * A _Republica Portugueza_, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e dirige-nos as seguintes textuaes perguntas: 1.ª «A redacção das _Farpas_ quer a resolução do problema economico, quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica é insufficiente para garantir o direito?» 2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois seculos?» * * * * * Temos a honra de responder á _Republica Portugueza_: 1.º Aquillo que a _Republica Portugueza_ chama a _formula politica_ não é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras, no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o.
Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na Revolução, está apenas na inepcia.
2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a _Republica Portugueza_ quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a _Republica Portugueza_ não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos: «Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a _revolução_--tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem revolucionarios.» Ora aqui tem a _Republica Portugueza_ como ha quem imagine, a solução dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa licença da _Republica Portugueza_, foi Proudhon.
* * * * * Depois de nos fazer as suas perguntas, a _Republica_ tem a bondade de nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações que nos faz.
* * * * * O folheto brazileiro intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares, tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração portugueza para aquelle imperio.
Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam, nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos pés triumphantes d'este sympathico patriota.
Como, exactamente pelo contrario, São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de ridicularisar o grande imperio,--o que se parece demasiadamente a nossos olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que mentimos, Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe sentir, em algumas linhas rapidas, que as _Farpas_ não são inteiramente uma creação poetica e phantasista.
Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser _As fabulas de Florian_, nem tão pouco os _Contos de Perrault_.
* * * * * Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: _A producção e o commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria_.
* * * * * Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações acerbas, conclue assim: «Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho, o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc., porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas, manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.» Quer isto dizer: O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como a proporção existente entre a exportação e a importação no seu mercado--com uma simples condição--e é: que se lhe concedam alguns pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo, da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos ... Nada mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as substancias alimenticias, como não sendo--substancias alimenticias.
Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto, espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto: que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples _producto de gutta-percha!_ o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja ...
puros _tecidos de algodão!_ os queijos, os alhos, as cebolas, os figos, as passas ... mera _perfumaria!_
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