Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor Leopoldo! Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.* * * * * Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis aprehendidos.
O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que empalmou do bolo.
A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais propriamente--uma _vacca_.
* * * * * Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes, implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos baralhos.
Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente gracejo_.
O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser chamado a resolver questões d'olhos.
Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena que entre esses dois amantes se passou! O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e ironica: --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho! se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não! E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
Oh! amor!... amor! Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito jornal o serafim a que nos reportamos.
Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em juizo.
Diz o jurado: _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o ôlho á queixosa?_ Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo XVII pelas damas illustres.
Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta obrigação d'este é por-se de rôjos.
* * * * * Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas, terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de Bragança Junior.
Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia da patria.» Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio a descobrir que ella era unicamente um lenço.
Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
* * * * * Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do moveis artisticos.
Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta senhora.
O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao desafogo de alguns commentarios.
* * * * * A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
João v.
Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos ferros-velhos.
* * * * * É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas, alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
* * * * * Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta quanto talvez ephemera.
Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe, definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e bem dissolvente! Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora! * * * * * Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que foi victima o mais bello gato de sua magestade! Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito! * * * * * Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a reconhecel-o e a lamental-o.
* * * * * Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente, diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções archeologicas.
* * * * * «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da nação portuguesa!» * * * * * Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em pé outra vez.
Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje, se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no primeiro repente gostamos d'elle.
Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa, nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece, estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu! Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em ninguem.
Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os peiores de todos! Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados, prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora e o arcebispo de Bragança.
O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é que é fazenda.
Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é gallinha! Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do exercito das trevas_.
Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres melros. Rua, que é a sala dos cães! Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos, escusa-se de bispos.
Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim? E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...-- Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a _Nação?..._ Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções que ha pouco demos á nossa cosinheira: --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
* * * * * Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais propicio para cardinalisar Masella.
Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha, encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
Oh! não.
Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na distribuição dos barretes phrygios.
O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito tostões e meio.
De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro, presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse dizer em tal conjuntura: --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
* * * * * Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
Eis o caso: * * * * * Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava pessimos alguns dos bispos propostos.
--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca, desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião precisamente opposta á que eu tenho!?...
--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
ex.ª me consultava....
-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam, _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e liberrimo governo da nação portugueza.
--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho e snr, agora, o vereis! _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional, monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim? Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
* * * * * Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada folha: _O nuncio desacatou sua excellencia_.
Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos periodicos ministeriaes.
_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou um calor_.
* * * * * Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por occasião d'este jubiloso successo.
* * * * * E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem, nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas, incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem, de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão? * * * * * Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima, que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres pensadores?...
Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas: Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso, prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês! Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino? Vejamos, sinceramente: Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem confessar mulheres?...
Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais a fallar n'isso.
Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados, que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos? Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo: --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os bispos.
Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo! * * * * * A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato republicano de opposição ao governo.
Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
Parabens a sua excellencia! * * * * * Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia, passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do Carnaxide.
Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados gorgeios.
Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo magestoso acima do narravel.
Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da vida em direcção á faia virente.
Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco ao lado.
Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para as nuvens, exclamou: Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos negocios do reino.
Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão! E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a exprimir-se em prosa: --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano? Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de penna e de governação.
Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um brando meneio para o pendôr da collina, perguntou: --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na quebrada da serra? E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de Nossa Senhora Apparecida, --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao templo!...
Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via publica: D. Miguel foi á Sé, Sentou-se n'uma cadeira, E disso para os malhados: Esta perna está inteira! Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram submissos em giolhos.
E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez repetir aos montes e ás hervinhas: Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes de nunca ter visto Lisboa.
Gloria pois a s.ex.ª! * * * * * Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
A patria explorava-o e ria-se d'elle.
Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o agraciou a regia munificencia.
Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio extrangeiro.
Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente, instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
Lisboa 15 de dezembro de 1882.
_Ramalho Ortigão._
Fonte: www.dominiopublico.gov.br
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