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As Farpas - Eça de Queiroz

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As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)

Sumário

Leis organicas das sociedades e disposicoes regulamentares dos estados: de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanccao penal. O caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituicao da raca humana pela gymnastica. Reconstituicao da ideias parlamentares pela mesma gymnastica. Indicacao de alguns exercicios para uso dos dignos pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nacao_. Mostra-se que o milagre nao presta. Ensina-se a _Nacao_ o que sao milagres e prova-se-lhe que ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse personagem desde o seculo XVI ate a ultima facada no Bairro Alto--A

ideia velha e a ideia nova.--Uma opiniao de Tyndal acerca dos atheus.

Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin acerca das rasoes porque crescem os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei da instruccao primaria mostrou nao ser aquelle philosopho nem aquelle carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A educacao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltroes. A covardia, instituicao publica, etc.

Todos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como pertencendo a duas classes distinctas: 1.º Crimes resultantes da infraccao das leis organicas da sociedade; 2.º Crimes resultantes da infraccao das disposicoes regulamentares dos Estados.

Emquanto as sociedades se nao acham constituidas segundo o direito absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, isto e, emquanto as sociedades nao attingem um desenvolvimento intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua organisacao, distinguindo o que n'ellas e difinitivo e organico do que e convencional e contingente,--n'essas sociedades nao podem dar-se senao os crimes da segunda d'aquellas classes. E assim que vemos nas civilisacoes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entraram no periodo scientifico da sua evolucao moral, como presentemente succede em toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., tomaram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que nos referimos, porque se comprehendeu que elles nao violam unicamente um regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregacao que constitue o grande ser collectivo.

* * * * * A sabedoria da legislacao penal manifesta-se na mais justa e perfeita demarcacao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios repressivos da infraccao das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a punicao imposta a contravencao dos seus estatutos regulamentares, distinguindo graduacoes na culpa segundo a importancia dos interesses

feridos pela perpetracao do delicto.

E em virtude d'este criterio que sao punidos com severidade, unanimemente exigida pela opiniao, os attentados contra o interesse do commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois interesses sao considerados os mais importantes das sociedades modernas; ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, pela razao de que os governos se julgam impotentes para vibrarem arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por conseguinte a civilisacao rejeita como um acto de prepotencia e de vinganca.

Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: "Sao mais do que crimes, sao verdadeiros erros!" Posto isto, vejamos qual e o estado da mentalidade portugueza afferido pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e as respectivas sanccoes penaes.

* * * * * Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

No caso de Joanna Pereira vemos tres reos confessos e convictos de tres crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por meio da chlorophormisacao; o carroceiro, da remocao de um cadaver; todos tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

Como procede a sociedade? Nao tomando conhecimento de nenhum d'estes attentados e despedindo os reos em paz! No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo e accusado de ter falsificado uma certidao de edade para o fim de salvar um mancebo do recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a oito annos de degredo para a costa ds Africa! O primeiro caso e um triplice attentado contra a ordem social. A sociedade nao so o nao pune mas nem sequer o julga.

O segundo e uma contravencao de um regulamento administrativo. A sociedade nao so o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

* * * * * Nao analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnacao d'este e uma iniquiedade monstruosa.

O crime do que e accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a oito annos de degredo, e crime unicamente perante a letra de um regulamento de caracter nao so transitorio mas arbitrario--o regulamento do servico militar.

O parocho foi condemnado por tentar salvar do servico um recruta.

Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, so pode involver intencao criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.

Viciar a data de uma letra ou de um contrato e indubitavelmente um grave crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o da propriedade. Mas alterar a data de uma certidao de baptismo, para o facto de isemptar do servico militar um cidadao, nao e offender um interesse social; e o contrario d'isso: e servir o interesse que todas as sociedades teem em que deixe de haver militares.

* * * * * O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios a civilisacao e a humanidade. Daria em resultado a eliminacao do militarismo e da guerra.

Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores nao foram punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os mortos.

Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_ Finalmente, para o facto da seleccao da especie, os maridos seriam substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, convertendo aos pianos, reforcados pela aguardente, nos unicos instrumentos da perpetuidade da raca.

* * * * * Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos unicamente a sociedade os nossos cumprimentos.

* * * * * Por occasiao de se discutir no parlamento a reforma da instruccao primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopcao da gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opiniao de que a gymnastica tinha um caracter immoral.

S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as maos e de pernas para o ar. Isto effectivamente nao seria bem visto. E comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porcao de rubor pensando que ao dirigir n'um salao as suas homenagens a uma dama esta podera vir um dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeca no espaco que medeia entre o tapete e o lustre.

Cremos porem que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.

ex.ª tenha da coisa que fora das feiras se nao chama a _sorte de forcas_ mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

* * * * * Um illustre medico allemao, o doutor Schreber, director do instituto orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformacoes do nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciacoes na configuracao dos ossos da bacia, viciacoes que inhabilitam muitas mulheres de serem maes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na escola e que so podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher podera chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de s. ex.ª para alvo das suas predileccoes pelo pugilato athletico.

* * * * * O mesmo doutor Schreber assevera que e indispensavel introduzir o uso da gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas mulheres padecam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente frequente e resultante da posicao forcada em que as raparigas se conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja a espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente depois a operar sobre a regiao abdominal de s. ex.ª as experiencias dynamometricas, cuja perspectiva lanca no animo pudibundo do digno procere um tao ligitimo horror.

* * * * * A physiologia moderna tem mostrado que a saude nao e mais que o justo e perfeito equilibrio das differentes forcas inherentes ao nosso organismo. A hygiene tem provado com muitas observacoes e fundada nas mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de todos os nossos membros e de todos os nossos orgaos e o unico meio de manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisacao d'esse exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulacao do sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a loucura sao outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes revelacoes, demonstra que existem estreitas e precisas relacoes de causa para effeito entre as variacoes da circulacao e os differentes graus de actividade cerebral. A abolicao da memoria, a perversao das sensacoes, todos os casos de nevropathia cerebral sao resultantes de uma falta de cadencia na vibracao dos centros sensitivos causada por um embaraco da circulacao sanguinea no encephalo. Na Italia estao-se curando as alienacoes mentaes pela transfusao do sangue. O medico Ponza, do Grande Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos de cura de alienados pela transfusao hypodermica.

Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispoe para activar e regularisar a circulacao, de tanta importancia para a actividade central, e a gymnastica.

O celebre hygienista Lacassagne diz: "Um exercicio muscular geral, feito em boas condicoes, produz os effeitos de uma transfusao de sangue." * * * * * Ha estados morbidos cuja localisacao no organismo escapa muitas vezes a indagacao e a sagacidade dos clinicos. Esta-se doente sem haver apparentemente perturbacao alguma nas funccoes physiologcas. O symptoma, frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na diminuicao do noso peso com relacao a unidade do nosso volume. A mais segura medida da saude e a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio para tornar mais denso o corpo humano? Ha. E o regimen da gymnastica. O doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de gymnastica militar da Faisanderie, em Franca, constatou, pelas observacoes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto e acrescentar a densidade de 6 ate 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de exercicio.

* * * * * Em um paiz onde a tisica faz tao grande numero de victimas como em Portugal, e util accrescentar ainda que uma das propriedades da gymnastica e desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo doutor Burq.

* * * * * A forca muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a densidade, n'uma proporcao de 15% nos quatro primeiros mezes dos exercicios gymnasticos.

* * * * * A hygiene de musculatura e um facto de primeira importancia para a saude desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos tecidos vivos se reconheccu que a sede principal da combustao respiratoria e o musculo. Os differentes estados do musculo influem directamente na composicao do sangue. O exercicio e portanto um poderoso modificador do sangue e como tal actua em todas as forcas do nosso organismo. Mas nao ha senao uma especie de exercicio com propriedades hygienicas e therapeuticas: esse exercicio e a gymnastica.

* * * * * Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faca o obsequio de considerar que so e um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allema. O doutor Sebreber demonstra que a unica occupacao que sujeita quem a exerce a um exercicio inteiramente harmonico, e a occupacao da jardinagem. Todo aquelle que nao for jardineiro tem de appellar para um methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido equilibrio as acquisicoes e os dispendios de cada um dos seus orgaos.

* * * * * Taes sao, resumidamente expostas, algumas das razoes que militam em favor da gymnastica. Em contraposicao a estes argumentos nao sabemos senao de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos mais fervorosos para que s.ex.ª nao core diante da gymnastica, impedindo assim o paiz de por em pratica o melhor meio de regenerar a sua constituicao atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, de reagir contra a hypocondria e contra a preguica, contra a atonia dos nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a gotta, contra as affeccoes pulmonares, contra as escrophulas, contra a obesidade e contra a idiotismo.

* * * * * Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licenca para incluir o mesmo sr. Vaz Preto, estao contaminados por enfermidades que a gynmastica previne e corrige. De modo que uma boa administracao pedia que gymnastica nao so fosse decretada para as escolas mas tambem para as duas casas do parlamento.

Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemas, suecas, os exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova quanto estes exercicios sao uteis nao so ao desenvolvimento physico mas ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que n'aquellas em que a gymnastica nao existe.

Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, esqueceu uma disposicao--precisamente a unica que teria alcance--um artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes em cada sessao, as suas locubracoes legislativas, para fazerem gymnastica ao som de um orgao, como nas escolas americanas.

O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por que--digamol-o francamente--o que e o _cachenez_ do nobre duque presidente senao o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma mais caracteristico de que s.ex.ª nao tem gymnastica nos musculos do pescoco e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da felicidade do paiz, que tao estreitamente depende da preciosa saude do nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos seguintes movimentos: Voltar vigorosamente a cabeca para a direita e para a esquerda (100 vezes); fazer girar o pescoco, na sua maxima flexao, sobre o peito e sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros (100 vezes); fazer o movimento de quem mede bracas (100 vezes); tomar fortes e profundas aspiracoes de ar (25 vezes). Depois do que, s.ex.ª reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomecaria a meditar sobre a felicidade da patria.

No mesmo sr. Vaz Preto o que e verdadeiramente a revolta do seu pudor perante a adopcao da gymnastica nas escolas senao o indicio de uma lesao mental concomitante e ate certo ponto compensadora da obesidade? Pois nao e sabido que jamais a excessiva nutricao deixa de ser acompanhada reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios seguintes: Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz ate o limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).

Depois do que, s. ex.ª revestiria ameacadoramente as suas calcas e continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

* * * * * Se porem a todas estas consideracoes for insensivel o sr. Vaz Preto, n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: Velar-lhe a face! * * * * * A _Nacao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre cego ja ve, a paralytica ja anda_.

* * * * * Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nacao_ desse cabimento nas suas columnas um milagre tao miseravel, tao safado, tao reles como esse! Com effeito! foi entao para isso, para esse milagrotesito de cacaraca, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para os fazer ver e para os fazer andar os levou tao longe?! ... Ora muito obrigado! muito obrigado pelo seu favor! A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que collaboraram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinacao teem obrigacao restricta de abrirem immediatamente uma subscripcao para o fim de indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que lhes deram. Porque nos--e a _Nacao_ bem o sabe!--nos temos devocoes locaes, temos devocoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affiancam, sob a auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos resultados obtidos pela romagem.

Pois que! A agua de Lourdes ao pe da bica, na propria gruta, por conta e na presenca da santa, nao ha de dar mais effeitos no consumidor do que a agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas vezes impuras, quantas vezes com mas rolhas?! Nao vimos nos ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa locomotores com agua das latas?! E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento para se metter as estradas e para ir por ahi fora em bracos ate Lourdes, chega la e nao obtem mais nada senao o que obteve a outra sem sair do largo de S. Roque? E ainda ousam dizer-nos--o que nao pode ser senao por escarneo--que ella _andou!_? Olha a grande facanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era correr, correr a sete pes, e trazer de la para esse fim cinco pernas a maior do que as que levou! Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaro que lhe fazia o milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na sua devida altura, que o homem nao so principiasse a ver pelos olhos mas que visse tambem por outros membros.

Isso entao ja valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que a _Nacao_ o publicasse em telegramma: "O padre cego appareceu-lhe um olho em cada buraco do nariz e esta-lhe a vir outro na cova do ladrao, pelo qual ja le as suas rezas de costas na cama com o breviario por baixo do travesseiro. A paralytica ja deitou seis pernas novas e esta com dois grandes furunculos nos hombros: suppoe-se que sejam as azas a romper. Quando se lhe espremem os carnicoes bota pennas. Infinitos louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cor dos voadouros vemos que a paralytica nos sae pedrez!" Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda ordem, porque os ha muitos maiores.

* * * * * Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se coisas ao pe das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito e zero.

O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doencas, das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que nao podemos por em duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario demonstrada por casos de protecao, de conversao e de curas miraculosas_, pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos exemplos.

Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botao dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar emquanto caem e continuam a leitura em baixo, tracando a perna n'um estado do satisfacao ineffavel.

O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreicao do Var, com um escapulario ao pescoco, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica illeso. "Nao nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!" disse por essa occasiao um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lancar ao meio das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e o escapulario encontrou-se intacto. "Apenas, diz o padre Huguet na obra citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco." (Pag. 17.) Um soldado na batalha de Novara ve cair em torno d'elle todo o regimento, elle e o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braco. (Pag.

20.) Um desgracado, querendo suicidar-se, lanca-se ao mar quatro vezes consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o a praia, recusando-se obstinadamente a submergil-o. O desgracado recorda-se entao que traz ao pescoco um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado o escapulario em terra. Foi somente com esta condicao que o mar se resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) Alem de livrar de todos os perigos, sem excepcao, durante a vida, o escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleccao dos escapularios da Immaculada Conceicao, do Rosario, do Carmello, etc._, diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes sao arrebatadas pelos escapularios. Parece que nao ha dia em que um milhao de diabos nao roguem esta praga medonha:--Que nos levemos os escapularios! As approvacoes pontificaes de todos os papas, desde Joao XXII ate Pio IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que arranje a morrer com o escapulario na sexta feira a meia noite, podem os facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hao de ver por um oculo! O uso do escapulario e extremamente commodo: nao obriga a encargos de nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, da confissao e da communhao. Tambem nao priva o penitente de qualquer prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º Guglielmi. O essencial e nao o tirar nunca, nem mesmo _quando voluntariamente se vae peccar_: e o que mais particularmente prescreve o dito padre Guglielmi.

De todos os escapularios o que mais se recommenda a eleicao dos devotos e o do Sagrado Coracao de Jesus, porque este escapulario nem sequer precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo seguinte: Sobre um pequeno retalho de la branca--retalho quadrado ou oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a virtude--applica-se um coracao de flanella encarnada, bem talhado e cosido a pesponto, de modo que imite a coroa de espinhos acompanhada de algumas gotas de sangue bordadas a seda. Aparte, em uma tirinha de panno patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripcao sacramental: _Suspende! Esta comigo o coracao de Jesus_! Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um d'estes escapularios, deital-o ao pescoco e ficar livre, para a vida e para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do alto das torres, atirar-se as voragens do fogo e do mar, e metter-se debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, nao fara a _Nacao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nacao_, o mais que faz e unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? Ha umas tantas coisas que a _Nacao_ ate devia ter vergonha de as dizer ... O que a _Nacao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a esse pescoco, para a _Nacao_ ficar entao sabendo o que sao milagres! Porque a _Nacao_ nao sabe o que sao milagres! Por o padre cego a ver e por a paralytica a andar nao passa de uma habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! Vir a feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de proposito para fazer perder a gente o gosto pelas devocoes ...

Emquanto a nos o que a _Nacao_ tem e o espirito maligno no corpo do jornal! Cruzes, demonio! * * * * * Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de satisfacao a sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um fadista. O que temos que perguntar e: Porque se nao prendem os fadistas todos? * * * * * Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significacao analoga a esta--o _fadista_.

Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em toda a sua pureza esta raca de bravos de viella, sem officio nem beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, frecheiros com as mulheres, soberboes e insolentes com os mesteiraes e com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursoes nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e acoitando os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e adormecidos.

Entre os alludidos fidalgos figurava como grao-mestre da ordem, como capitao da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmao do senhor rei D. Joao V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse interessantissimo principe, cujas tropelias crearam, durante um seculo, em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcancar com um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se despegara da verga, que dobara no ar por entre as enxarceas e caira por fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais tarde, com a illuminacao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e com a creacao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruacas, os combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razao biologica de que toda a forca organica que se nao exerce se elimina, o antigo valentao plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o espirito da facanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da vadiice, e tomou entao o nome de--fadista.

O fadista nao trabalha nem possue capitaes que representem uma accumulacao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploracao do seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que elle espanca systematicamente. Nao tem domicilio certo. Habita successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da policia. Esta inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. E um anemico, um covarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito e concavo, os bracos sao frageis, as pernas cambadas, as maos finas e pallidas como as das mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e triplice calco na mola. E habitado por uma molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de constituicao normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com um soco. Elle sente isso e e traicoeiro pelo instincto do inferioridade.

Nao ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.

Nao ha senao uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A guitarra debaixo do braco substitue n'elle a espada a cinta, por meio da qual se acamaradavam com a nobreza os pimpoes seus ascendentes do seculo XVI. E pela prenda de guitarrista que elle entra de gorra com os fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe composto de bacalhau e graos de bico polvilhados de vermelho por uma camada de colorau picante. Por effeito da tradicao na orientacao mental da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos alcouces de Alfama, que sao levantados bebedos dos becos mal afamados, que fallam em calao e que fazem trocas no Colete Encarnado e na Perna de Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compoe-se hoje principalmente de jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educacao do lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes de pandega. Usa como elles a bota fina de tacao apiorrado ou o salto de prateleira, a calca estrangulada no joelho e apolainada ate o bico do pe, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapeo arremessado para a nuca pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beico pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplacao imbecil; o tronco do corpo caido mollemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pe para fora; o _cachucho_ da amante reluzindo na mao pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a mao na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeca alta, esticando as cordoveias do pescoco e entoando as melopeias do fado, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devocoes religiosas a Virgem Maria, com uma voz solucada, quebrada na larynge, acompanhada da expressao physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miseravel.

De resto o fadista nao tem vislumbres de senso moral. Explica os seus meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condicoes especiaes em que ama e e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a todos os machos.

* * * * * E da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os incorrigiveis da criminalidade.

A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informacoes de um inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir em tres cathegorias. A primeira cathegoria e composta de individuos que verdadeiramente nao deveriam ter entrado nunca na prisao. Sao lancados nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo ou de caracter, a qual nao obsta a que elles tenham uma moralidade tao sa como a de qualquer de nos. A segunda cathegoria pertencem individuos, mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se tornarem bons ou maus segundo a direccao que recebam. A terceira cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, e rebelde a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os conselhos. Para estes a cadeia e um logar improrio; seria preciso confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo nao fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado nao teria senao proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe conviria principalmente dar instraccao; emquanto aos terceiros o melhor expediente seria a morte.

E util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: E ou nao e da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja incorrigibilidade e em muitos d'elles attestada por varios julgamentos repetidos? A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: E.

N'este caso pergunta-se: Pode a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a justica mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? Nao. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de que o Estado e cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade e irresponsavel da perversidade individual, nao succede o mesmo, e a sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que e ella que sustenta, ao abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

Dado o fadista, a sociedade nao pode certamente evitar o criminoso. A sociedade porem pode evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a instituicao concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

Desde que um cidadao deixe de poder explicar unicamente pelos supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o Estado tem o dever de o prender, nao para encarcerar mas para coagir ao trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

* * * * * O mais perigoso de todos os animaes vadios e o homem. Comparado com elle o cao, ainda quando damnado, pode-se considerar inoffensivo. E todavia a policia, que tem para o cao que ainda se nao damnou as precaucoes da rede e da carroca, nao tem para o vadio, em pleno exercicio do seu contagio, senao um expediente repressivo: o de lhe archivar a photographia no commisariado geral.

Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios de garantir a seguranca publica: tire o retrato aos caes e deite a rede aos fadistas.

* * * * * Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legioes contrarias, arrojaram-se encarnicadamente uns sobre os outros, esmurraram-se, esguedelharam-se, cuspiram-se na face em odes, acoitaram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regioes lombares das musas.

Mysterio sobre as causas que moveram tao crua guerra entre duas escolas poeticas alias tao pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que ellas existissem: a escola da _Idea Velha_ e a escola da _Idea Nova_! * * * * * Os da Idea Velha dizem que nao ha nada como a idea d'elles. E fundam-se para isto em que e uma idea solida, experimentada, garantida.

O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta annos.

Ergueu-a do chao como morta, chuchada, espipada, moida pelas pegadas de duas geracoes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idea Velha por uma ponta e pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot e levou-a comsigo a sociedade, onde a receberam bem. Cercaram-a varios outros nao menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do que aquelle que a levantara do chao. Andou pelo braco de um e pelo braco de outro recebendo declaracoes de affecto e dadivas de amor. Mao tao dedicada quao firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, as solemnidades publicas, as casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na _Grinalda_ e no _Almanach de Lembrancas_; dedicou versos a Lapa dos Esteios, a Stoltz e a Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e as Gracas nas notas da versao portugueza dos _Fastos_. Foi da Assemblea da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmaram, para lhe serem agradaveis, o seu amor a lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou finalmente nas altas regioes officiaes. Foi aos pacos dos nossos reis! De quando em quando observava-se que ella comecava de repente a encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fora insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opiniao, e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo a Idea Velha. O poder moderador, com a sua real coroa na cabeca e o seu real manto as costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.

Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, achando-se tao chupados e tao desfallecidos como a propria idea que eram chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, tinham tido a honra de bufar a mesma idea e pelo mesmo canudo que servira a primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assemblea da Galocha e os empregados publicos do Gremio nao o permitiam, e torcendo altivamente o bico das peras, diziam que a Idea se nao se podia por a merce da populaca infrene e ignara. Vivendo assim a custa do sopro dos poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a Idea, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoco a condecoracao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, ajoelhou-se-lhe aos pes e propoz-lhe leval-a as aras de Hymenen; ella porem, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas exclusiva do vate. Este, de pura dor, pregou na parede um prego e suspendeu n'elle, por um laco de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

Nos ultimos annos a Idea Velha desapparecera do bulicio do seculo e da communicacao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.

Algumas pessoas devotas tinham-lhe ja resado por alma. Soube-se agora, com grande satisfacao dos que a conheceram no galarim, que a Idea Velha ainda esta viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares onde nao ha outra idea de dentro para o servico da familia.

* * * * * Os da Idea Nova teem esta falha notavel: suppoem que a Idea velha vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, que prepondera nos destinos do mundo, E veem-se mocos honestos e engracados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como se fosse uma forca da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que ha meio seculo nao passa do um artificio convencional e de uma superfetacao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em nenhum dos interesses do espirito ou do coracao do homem no tempo presente.

* * * * * _O Primo Bazilio_, novo romance de Eca de Queiroz, e um phenomeno artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta obra e preciso discriminar o que n'ella pertence a jurisdiccao da arte e

o que pertence aos dominios da pathologia social.

* * * * * Eis a doenca que este livro accusa:--A dissolucao dos costumes burguezes.

O mais caracteristico symptoma d'esse mal e a falsa educacao. A educacao burgueza tem um defeito fundamental: mantem na mulher a mais terrivel, a mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos ver porque.

Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a representacao da vida exterior e o systema da vida intima.

Basta olhar de fora para as casas, basta considerar o aspecto exterior do templo para se fazer uma idea do que pode ser dentro o culto d'essa religiao--a familia! Comparem-se as nossas edificacoes urbanas, os casaroes da baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as graciosas construccoes arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, com o seu claustro interior, o poco de marmore ao centro do pateo, as galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o pequeno jardim, que e o coracao da casa. Comparem-se com as sabias edificacoes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos predios do bairro central de Lisboa ao pe dos novos predios de esquina de rua no Hanover. As novas casas allemas no stylo gothico francez, modificado segundo as exigencias da civilisacao moderna, sao obras primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensao da hygiene, da moral, da estetica; sao verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor systema de educacao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cores, branca, cor de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terracos cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se cantam os passaros, de balcoes em que desabrocham as flores sempre frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de outros tantos ramalhetes, sao interiormente distribuidos do modo mais elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos nobres prazeres da familia. A disposicao mais escrupulosamente estudada do salao, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa luz e bom ar, permitte as mulheres o saudavel prazer de girar na casa, activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguao sombrio e infecto, com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogao por baixo das cacarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema queimada, sao os sepulchros da saude e da alegria.

E n'essa serie de prateleiras, de gavetoes de familias, que se chamam os _Arruamentos da Baixa_, que e educada a lisboeta.

Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observacao: "Noto um facto que me enche de perturbacao e de horror--n'esta cidade nao ha creancas." Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cor de palha, desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do largo de Camoes, da praca das Flores, do Aterro: la encontramos effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas nao encontramos uma unica creanca, a cuja saude sua mae se tivesse sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaco de tempo a sua preoccupacao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe fresco.

Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa frequentam as lojas ou fazem visitas, onde e que estao as creancas? As creanca estao dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem proposito. Tomar proposito_ e uma locucao essencialmente local e intraduzivel, que quer dizer: aprender a nao saber andar, a nao saber rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A menina so principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito indispensavel para nao tagarellar imprudentemente, para nao contar que houve favas para o jantar ou que o papa ralhou com a mama. Haver favas para o jantar e ralharem o papa e a mama e de resto tudo ou quasi tudo quanto se passa em casa, porque nao ha interesses de espirito, nem ha instructivas occupacoes praticas. Falta o jardim, a grande escola da infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as flores. Tambem nao ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do jornal e os romances das traduccoes baratas. Nenhuma especie de estudo.

Nenhuma applicacao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde aprende o francez e o inglez. Esta educacao completa-se em casa ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educacao sao appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salao tocado no piano diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua funccao sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Nao leu ou nao entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

Nao a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora completamente as leis que regem o universo e que determinam esses phenomenos.

Nao a distraem os interessantes cuidados do _menage_, porque da casa, assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem nenhumas nocoes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tao moralisadores e tao attractivos, teem para ella o caracter de um mister gnobil, desprezivel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a essencia da cozinha nacional, a discricao de uma criadagem villa, que retribue o desprezo de que e objeto traindo, maldizendo e roubando. Da casa o que ella sabe unicamente e que ha duas ou tres salas de apparato que se mostram as pessoas de fora; um quarto mais ou menos infecto, uma possilgueirinha mobilada pelo Garde, em que ella dorme ate as dez ou onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que da respostadas; e uma latrina contendo um fogao em que por meio de varias borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

Na religiao ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias elegantes: as romagens a fonte de Lourdes; a oracao em frente da gruta no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro de Roma; a contriccao aos pes do summo pontifice, coberta de renda preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os orgaos solucam e o sol coado pelas vidracas coloridas se espelha nas couracas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas desembainhadas. Presta ainda bastante consideracao as interessantes ceremonias da elegante religiao nacional, como a do Mez de Maria na bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas acucenas, fresquinha e graciosa, similhante a uma _bomboniere_, ou como a da Semana Santa nos Inglezinhos, a cuja _petite entree_ destinada aos intimos rodam os _coupes_ magnificos da piedade escolhida.

Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do seu _benitier_ barato; pelo Deus da procissao do Carmo e da procissao da Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella nao tem senao duvida ou desdem.

Na moral as suas conviccoes baseiam-se em uma serie de principios theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusao: que o dever consiste na mais habil combinacao que se possa fazer d'essas theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das sociedades corruptas:--o socego.

Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto e, principia a ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com os homens. Percebe entao vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra regiao social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e da _toilette_; com uma cabeca oca; n'um quarto que nao cheira bem; tendo um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcao, que pensa pela cabeca de um jornal barato e mal feito, e uma mae que se enfastia medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta cntra o destroco dos annos e contra o preco crescente dos generos alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o aguadeiro, ralhando com o marido.

Principia entao a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno quarto sem tradicoes, sem historia, como o de uma estalagem; o saguao infecto, onde zumbem no verao as grandes moscas gordas e pesadas; a cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as cacarolas gordurosas e as loucas esbotenadas; a sala pretenciosa e inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos arabes defronte do sofa, a lythographia da mulher que sorri, o album dos retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordao no meio dos cortinados.

Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinccao decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere a sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas mais simples, mais triviaes, e e para se dar um aspecto superior, para se encobrir do que e, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel a respeito dos criados que nao tem, das visitas que nao faz, da opera que nao viu, dos livros que nao le, da modista a que nao vae, dos banhos que nao toma, dos jantares que nao come, das dignidades, das distinccoes ou do luxo que nao usa.

Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas nao lhe sae o que quer: nao sabe organisar aprazivelmente a casa, nao sabe tornar encantadora a familia.

Humilhada, infeliz, comeca a descorcoar a pouco e pouco da sua predestinacao superior. Sente que ha na sua constituicao moral uma falha da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiracoes.

Nao se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que e o resultado da perfeita educacao.

Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheca o facil processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella caira com uma simplicidade tragica.

O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condicoes, e o dandy. Porque o dandysmo e a unica forma sob a qual a distinccao se lhe apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres pensamentos tera para ella menos seduccoes do que uma cabeca bem penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por uma fina risca cor de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de espirito, nenhuma delicadeza de coracao, nenhuma virtude de caracter exercera sobre a imaginacaoo d'ella a fascinacao com que a subjuga a alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, sera aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e se calcar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de Franca, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando as penetrantes essencias de Lubin e a febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pes d'ella, para lhe dizer obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia as outras, _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do seu joelho desformado pela falta de circulacao proveniente de um defeito caracteristico da sua raca, o defeito de nao saber atar as ligas; apezar ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado nacional ... Se, apezar de tudo isso, tao desdenhoso, tao frio, tao gloriosamente corrupto, tracando a perna, descobrindo desleixadamente as suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade attenciosa e benevola as scintillacoes do seu correcto _plastron_ de Poole, e as exhalacoes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu cabello frisado a Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte nao sabera negar.

* * * * * Tal e o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, medonho, tragico, sobre o qual Eca de Queiroz escreveu _O Primo Bazilio_, romance realista.

Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma conviccao social, e e esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo nao tinha senao conviccoes esteticas, e satisfazia assim as necessidades de espirito da sociedade que fez a Revolucao, que caiu no Imperio, que supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros nao pediam a arte de 1830 senao uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas entao cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradicoes gothicas da edade media e fizeram uma restauracao litteraria e burgueza da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipacao da forma mais profunda indifferenca pela questoes sociaes do seu tempo.

Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, phylanthropos.

A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. E uma sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os pontos da sua peripheria ate as mais reconditas intimidades do seu ser.

Esta reconstituicao nao se esta fazendo empyricamente pela revolucao ou pela sentimentalidade, esta-se fazendo scientificamente pela convergencia harmonica de todos os esforcos intellectuaes sobre o mesmo problema. Comprehendeu-se que sao solidarios todos os estudos, os do mundo inorganico e os do mundo organico; que sao correlativas todas as leis desde a da indestructibilidade da materia ate a da evolucao social; que finalmente se nao pode chegar ao conhecimento positivo de nenhum phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle e o elo que prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tao estreita, que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer dos ramos da sciencia se reflecte na direccao de todo o trabalho mental em qualquer das suas manifestacoes, dando por exemplo a theoria zoologica da adaptacao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga, dizemos, a arte nao pode deixar de ter um papel diverso do que tinha ha trinta annos. Esse papel e-lhe imposto fatalmente pela nova orientacao mental da sociedade. A arte moderna nao pode ja hoje basear-se em risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse e para que tenha a importancia de um agente da civilisacao, em factos de caracter scientifico, isto e: em factos que sejam a funccao de leis sociologicas. Queremos factos, nao queremos exclamacoes: _Res non verba_.

Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepcao litteral, que se tirou a designacao _realismo_.

Chamar realismo ao que e puramente grosseiro, ao que e descarado, ao que e torpe, e calumniar o dogma. Uma obra de arte pode conter o maximo numero de torpezas e de obscenidades e nao deixar por isso de ser simplesmente lyrica.

O _Primo Basilio_ e um romance realista porque e a representacao de um facto social visto atravez de uma conviccao scientifica. Luiza, a amante do primo Basilio, e a personificacao tremenda da tendencia morbida de uma epoca. E e n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral dos livros no premio que n'elles se concedia a virtude e no castigo com que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte afflictiva e um facto accessorio, que nao conteria senao esta moral negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as cartas.

A moral d'este livro nao esta em que a prima de Basilio morre depois da queda; esta em que ella--_nao podia deixar de cair_.

Reconhecemos que esta moral e pouco accessivel a maior parte das comprehensoes. Esse e o grande mal do livro, ou antes esse e o grande mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppoe um estado de civilisacao artistica e litteraria superior a que existe na sociedade portugueza. Suppoe manifestacoes parallelas nas applicacoes da philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construccoes, na hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituicoes, na critica dos costumes, na propria critica da arte.

Ora essas manifestacoes nao existem por emquanto n'um estado de vulgarisacao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do _Primo Basilio_. A sociedade portugueza nao comprehendeu ainda de um modo collectivo e solidario, que e urgentemente indispensavel por todas as manifestacoes do pensamento proceder a reconstituicao da educacao burgueza.

De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, a mulher nossa contemporanea: "Eis--aqui esta o modo pavorosamente simples como tu te rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens",--parece um insulto aquellas que sao as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas companheiras de trabalho, as nossas maes, as nossas irmas, as nossas filhas. Essa affirmacao, porem, deixaria de ter um caracter apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: "Eu nao sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenco. Sou uma parte d'essa legiao de trabalhadores dedicados, profundamente honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta ambicao heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na minha qualidade de artista, a ti mulher que me les, o mais que eu posso fazer e commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereco-t'o eu tal como elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e meio forcado das gales, friamente calculador, sovina, absolutamente podre. E e esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito em preconceito, de erro em erro, es trazida, atravez de todos os elementos que constituem a falsa educacao que te deram, a admirar e a proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu pertenco ha uma religiao, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e convergentemente estarao n'este momento--no momento em que eu tenho a concepcao artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensao nova, assento em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. A religiao compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou demittir-se da solucao do teu problema. A politica, emprehender a reforma das instituicoes em vista do teu aperfeicoamente. A moral, fazer-te comprehender a nocao da justica. A sciencia, o determinar com a maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a applicacao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. A critica, finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porem, nao me competia como artista senao uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha these, fazel-a viver na maxima elevacao esthetica: porque meio? por meio da mais perfeita forma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz." Se com a natureza essencialmente artistica de Eca do Queiroz fosse compativel a humildade de uma explicacao n'essas bases, o seu livro teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um artista tem a obrigacao de se nao explicar,--o que seria invadir uma funccao alheia na justa divisao do trabalho intellectual moderno. Ha um gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma religiao do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim como o philosopho deve ser indifferente a theologia, o artista deve ser indifferente a opiniao. Mas esta independencia da philosophia e da arte, se por um lado e a condicao essencial da sua missao perante a pura arte e perante a pura philosophia, por outro lado ella e a principal causa de ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante a comprehensao dos espiritos e a satisfacao das consciencias.

Taes foram as razoes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do _Primo Bazilio_,--uma tao perfeita obra, que a consideramos como sendo uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve gloriar uma litteratura--nos fizemos esta prophecia: Que este livro seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados a observacao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da biologia, instrumentos inuteis--as vezes perigosos--para todo aquelle que nao tem a sciencia de os por em exercicio e de ver por elles a divina revelacao de um novo mundo.

* * * * * O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.

Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: "Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, exclamou:--Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta!" * * * * * O _Diario Illustrado_ nao ousa affirmar de um modo terminante que o sr.

Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._ Ora este caso nao se pode deixar assim envolvido na duvida. Sao historicas as palavras do sr. Sampaio ou sao puramente uma legenda das montanhas, inventada pela imaginacao supersticiosa dos pastores dos carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira de Tarbes? Pode o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra a authenticidade d'aquellas expressoes? Foi effectivamente o sr. Sampaio que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...

Nao seria antes algum dos outros heroes ja celebres na historia da cordilheira dos Pyreneus? Nao seria o paladino Rolando, sobrinho de Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a Durindana na batalha de Roncesvalles? Nao seria o proprio Carlos Magno? Nao seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de Champagne? Nao seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante da belleza da paizagem, entre os valles de Bareges e de Bagnere? Esta o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeca do sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio quem, depois de jantar, a janella da hospedaria, palitando talvez os dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles dizeres? Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assas convicto em suas crencas, assas profundo em suas vistas e assas firme em suas resolucoes, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de jantar:--_Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal phrase nao e uma ficcao, se ella existe realmente fora do estado abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz nao pode cruzar os bracos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tao lucida como a que o _Illustrado_ cita marcou a differenca, toda favoravel a nossa patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! * * * * * Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo especial: 1.º Rir atraz da procissao dos Passos.

2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um viajante.

3.º Nao ter dado pateada a um lente.

4.º Parecer constrangido a dar licao.

5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

* * * * * Os alumos condemnados pela perpetracao dos delictos 1, 2, 3 e 4 appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de expulsao temporaria em alguns dias de cadeia.

Procedendo d'essa forma o Poder Moderador nao tomou em consideracaoa necessidade de fazer proceder a revisao da legislacao academica. O Poder teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sancao dos regulamentos universitarios as familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder mostrou ter um coracao do excellente rapaz alliado a um cerebro de legislador mediocre.

* * * * * Esta pendente da confirmacao regia, segundo nos consta, a pena imposta aos reus do crime n.º 5, julgados ja segundo o direito commum e absolvidos pelos tribunaes civis.

N'esta conjunctura perguntamos: E admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadaos de uma certa classe estejam sujeitos por uma legislacao especial a serem julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punicoes em vez de uma, se as duas sentencas forem conformes; ou sendo simultaneamente tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentencas forem contrarias? Responder-nos-hao que o tribunal academico julga de circumstancias especiaes que nao sao submettidas a apreciacao dos tribunaes ordinarios? Mas n'esse caso o tribunal academico com relacao ao crime de que se trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

Como tribunal escolar a Universidade cabe apenas decidir se o facto de sovar um futrica obsta a que se aprenda uma licao.

Com tribunal de honra a Universidade precisa de nao perder de vista que quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapes, o deshonrado nao e propriamente quem os da, e por via de regra quem os recebe.

Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questoes d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltroes e de covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade que ainda possa haver na mocidade portugueza.

Todo o homem que se nao acha devidamente temperado na sua natureza physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, e um homem corromido, sem o sentimento do respeito devido a dignidde da sua especie, atreito as paixoes mesquinhas, com manhas de reptil.

* * * * * Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameacas da forca alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

Se porem a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros cidadaos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para sempre da instauracao de processos ridiculamente pueris, requerendo das cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de atrophiar no coracao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da velha troca academica por meio da instituicao de exercicios viris, proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

* * * * * No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que Deus segundo Taine e um personagem official com os seus cortezaos e os seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da Providencia n'um discurso da coroa o chefe do estado fez novo discurso para prehencher essa omissao,--na velha, na religiosa, na solemne Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocucao presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras seguintes: "Dir-me-hao que supponho um estado de cousas determinado pela influencia das religioes e comprehendendo os dogmas da theologia e a crenca no livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e perverso sem esperanca, o coracao do homem, dir-me-hao que se fossem abolidas as sanccoes theologicas a raca inteira se modelaria por alguns exemplos de depravacao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladroes e assassinos. Porque e so o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o medo, nao conheceriamos mais do que o instincto natural e desconheceriamos o dever.

"Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes conclusoes. O scelerado nao e em minha opiniao a imagem da humanidade.

_Bebamos e comamos porque temos de morrer amanha_ nao e a consequencia ethica da regeicao dos dogmas.

"As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos sao taes que nenhum christao se envergonharia de as professar, e nenhum christao as censura senao desde que conhece a origem de que ellas procedem.

"Reconheco de todo o coracao e sou o primeiro a admirar a irradiacao espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religiao produz na vida de varias pessoas que conheco. Mas nao posso tambem deixar de confessar que muitas vezes a relligiao passa por estrondosas derrotas ao procurar produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeao da religiao e frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differencas procedem de distinccoes primordiaes de caracter que a religiao e insufficiente para nivelar.

"Da uma verdadeira satisfacao o sabermos que existam no nosso gremio homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_ e cuja vida, nao obstante, experimentada na pedra de toque de uma moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designacao offensiva.

"Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam aquelles termos, nao que eu pense que o _atheismo e o materialismo_, comparados a muitas nocoes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham em si um caracter offensivo.

"Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel a sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um cidadao justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tao firmes na morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles nao esperavam a coroa celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tao zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto emprego dos seus ultimos momentos." Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes e christao, o outro nao.

O christao e Faraday, que Tindal considera um modelo da associacao da fe religiosa com a elevacao moral. O seu caracter e o mais proximo da perfeicao. A religiao era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolacao dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais delicada flor da cavalleria.

O que nao e christao chama-se Darwin. Nao tem o ponto de vista theologico nem a commocao religiosa que constituiam um tao poderoso agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeicao moral de Faraday. "O sr. Darwin, diz Tyndal, e uma natureza candida e simples, um caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; e o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tao docil as ordens da verdade como o patriarcha antigo as ordens do seu Deus." * * * * * Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de verdade, de justica e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente a cultura da intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma moral independente de toda a especulacao theologica. Que fecunda these para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado presente dos espiritos, em que as conviccoes do homem estao geralmente em contradicao com as crencas da esposa e da filha, e em que tao necessario se torna portanto a harmonia moral da familia o principio fundamental da conciliacao das consciencias! * * * * * Na reuniao do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da Haute-Saone, expoe com uma concisao profundamente lucida as causas que determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem escravisados pelos poderes clericaes.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho aos esforcos do obreiro comeca lentamente a operar-se: os trigos crescem. Crescem em virtude de que lei? Tal e a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe respondem aquelles que sao encarregados de o instruir e de o educar. A nocao que elle recebe acerca do modo como o trigo cresce torna-o fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e embair. Qual e o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio e ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador operario acrescenta: "Faz-se geralmente crer ao lavrador europeu que as suas sementeiras se desenvolvem em resultado de uma forca cuja paternidade vem de Isis, ou de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora e o deus de Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a amadurecer nas mesmas condicoes em que amadurecia n'outro tempo. A ruina dos successivos templos e das successivas religioes em nada tem alterado as leis da natureza. E todavia da-se por toda a parte o mesmo estado de coisas: O indio cre que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim ve nos seus o grande Todo. Em outros sitios e Budha. Para os gregos e para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia e o grande Lama. Na Africa e a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

"Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporacoes de sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...

Respondeis-me que e impossivel. E effectivamente impossivel, o que e de certo uma desgraca! Esse porem e o facto historico, que nao podemos deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque sobre as questoes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas geracoes.

"E a guerra, e a guerra de religioes. E tempo de lhe por um termo. E tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a legislacao humana e a moral universal." * * * * * Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestoes de ideas e de principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras conviccoes de sciencia ou de simples bom senso sao consideradas perigosas e banidas das discussoes publicas.

Debalde a historia da civilisacao ingleza n'este seculo nos demonstra que a tolerancia absoluta na manifestacao do pensamento e a primeira garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia das ideas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, evitando assim que a orbita das applicacoes praticas seja invadida pelos principios que nao foram d'ante mao sanccionadas na opiniao e pelas reformas que ella nao exigiu em nome de novas necessidades provenientes de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal e o methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbacoes graves que a impaciencia dos reformadores, nao experimentada na pedra de toque de uma discussao liberrima, lancou na vida pratica de outras nacoes, como succedeu em Franca depois do segundo imperio, que corrompia todos os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

Em Portugal essa importante licao tem sido absolutamente esteril.

Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino mostraram uma ligeira tendencia para produzir ideas, o governo sem nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram manifestar posthumamente as suas ideas solicitando para os seus cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes, vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu morto.

Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que expoem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepcoes theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, a impunidade d'esses professores, dizemos, nao se deve attribuir a tolerancia philosophica do poder. Ella e simplesmente o resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servicos publicos.

Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais vergonhosos e mais crassos alheios a doutrina dos programmas. Ha lentes que estao acima da lei pela mesma razao que ha outros que estao abaixo d'ella:--por falta de inspeccao e de policia.

Um facto recente da-nos a prova mais cabal de que o estado nao e solidario nos progressos scientificos da nacao, e que estes se operam nao sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se armam.

Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruccao primaria! Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores mais mocos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: "_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessao, publicado do _Jornal do Commercio_), _nao e adversario do desenvolvimento da instruccao primaria, porque nao deseja que continue a subsistir o estudo de ignorancia do nosso povo, onde a proporcao dos que sabem ler e de 1 para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., e de 1 para 6.

Mas nao deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.

Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais proprio. Pode haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem e temente a Deus, que nao queira mandar o seu filho a uma escola cujo mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas maiores glorias, embora a instruccao estivesse pouco diffundida, a nacao portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; nao pretende dizer com isto que deixe de se derramar a instruccao, porque tambem e apostolo d'esta idea, mas quer que essa instruccao seja ao mesmo tempo moral e religiosa."_ A affirmativa de que a nacao portugueza attingiu um alto grau de prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruccao estivesse pouco diffundida_, e um erro de historia que o nobre conde quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que nao e pelo excesso de instruccao em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior nao podia realmente ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde quer achar a differenca que distingue esse tempo do tempo actual, compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Braganca.

D. Joao I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um litterato. Teve a honra de hospedar na sua corte o grande pintor Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle so para formar a educacao esthetica de um povo do que dez universidades e vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da corte portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

Dos filhos de D. Joao I um e o infante D. Duarte, o creador da primeira bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.

Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernao Lopes. O ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas navegacoes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal e o senhor D. Augusto, conhecido de todos nos por o termos visto passar no Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte nacional, que o acompanharam e que fizeram grande impressao na City, onde os tomaram por duas vaccas sem pernas. Eram os baus de sua alteza, feitos na rua dos Correeiros.

Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhaes, Diogo Cao, Pedro da Covilha, Gaspar Corte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.

Henrique e seus irmaos souberam attrair a Portugal, que procederam escriptores como Fernao Lopes, Gomes Annes de Azurara, Gil Vicente, Joao de Barros, Damiao de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camoes, talvez o mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de hoje, a nao ser por influencia de alguns professores precitos e apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e que vao para administradores de concelho ou para amanuenses de secretaria.

No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente instruido. E certo que nao sabia ler. Mas saber ler nao constitue propriamente instruccao, mas sim um dos meios de instruccao. Ora o povo dispunha entao de outros meios superiores a leitura. O marinheiro e o soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na confeccao das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo de entao nao sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pode gloriar a litteratura de uma nacao.

A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a instruccao! E conclue d'esse absurdo que um povo pode attingir a prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das accumuladas contradicoes do seu texto, em que s. ex.ª ora e apostolo da instruccao, ora e apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porem, conclue a sua notavel falla mandando para a mesa o seguinte additamento a lei que se estava discutindo: _O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario ensinar ou inculcar doutrinas contrarias a religiao catholica, a moral, a liberdade e a independencia patria sera demittido nos termos d'este artigo, independente da accao criminal que deva ser intentada. Os paes, tutores ou pessoas encarregadas da sustentacao e educacao das creancas podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

Eis ahi o que se nao admitte, porque esta disposicao legislativa proposta por s. ex.ª produz a fixacao legal dos seus principios a respeito da instruccao, isto e: que deve haver instruccao e ao mesmo tempo que a nao deve haver. Nao e outra coisa senao eliminar a instruccao, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena de processo e demissao immediata do professor, aos principios da religiao catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tao profundo abysmo entre a concepcao theologica e a explicacao scientifica dos phenomenos do universo, que toda a conciliacao e hoje impossivel entre o mestre e o padre. Nao duvidamos que o christianismo possa ainda reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes e definitivas conquistas do entendimento humano. O que e certo porem e que a direccao reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano desde a Reforma ate hoje o inhabilita presentemente para realisar essa aspiracao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois interesses oppostos e impossivel. Pedimos licenca ao sr. conde do Rio Maior para lh'o provar.

Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que e o diluvio universal, que lhe pergunta qual e a idade da terra, que lhe pergunta o que e o homem pre-historico, o que sao as florestas carboniferas, o que e o arco-iris, o que e o para-raios, o que e transformacao das especies, o que e a Torre de Babel, o que e o Eden; supponhamos que o alumno faz ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de formular acerca das affirmacoes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.

A essas perguntas o mestre nao pode responder senao com o erro ou com a heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptaram a sua emenda a lei da reforma da instruccao portugueza desejam que o mestre responda pelo erro.

Mas isto e peior do que por de parte a sciencia; isto e, recebel-a para a contradizer e para a destruir; isto e converter a ignorancia publica em uma instituicao do Estado.

Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, a luz de uma lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E apagou-lhe a lanterna.

Quem foi que deixou no mundo esta licao? Foi o theologo.

Um povo ignorante e um povo em trevas, cuja lanterna e a instruccao. O legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz e o sr. conde de Rio Maior.

* * * * * Notemos porem um facto consolador: O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma sensivel diminuicao de forca. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente de um velho sangue que se decompoe e se dessora. A idea que elle tem no cerebro e uma idea que se extingue.

Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissao do professor e o processo pelos tribunaes civis.

Inclinemo-nos diante de tao manifesta mansidao! Nos fins do seculo XVI o _pendao da santa doutrina_, um lugubre pendao negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era entao o professor idealisado pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_, argumentando a doutrina christa a este povo. Todas as mulheres e todas as creancas saiam as portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pes do tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, amortalhada de negro, de cruz alcada, tangendo uma campainha, como quem leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos methodos porque se mortificam os impetos da carne.

Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem os estudantes a missa, do que colhiam nas sacristias uma certidao sobre a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

Hoje a parte disciplinar da nossa educacao religiosa caiu com o pendao negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinaria, resta apenas a cartilha de Padre Mestre Ignacio.

E e sobre essa cartilha solitaria, em torno da qual cairam dissolvidas a uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma instituicao civil, e sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o ensino publico de uma nacao! * * * * * Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ nao cessam de elevar aos ceus em todas as manhas e em todas as tardes: _Meu Deus, tornae ridiculos os nossos inimigos!_ O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da instruccao indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa oracao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das _Farpas_, um cirio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

As Farpas (Janeiro de 1878)

SUMÁRIO

A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar, Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.

A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os

partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.

No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.

Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.

Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da grande alma do povo.

Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de Ville a Republica de 48.

Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas, os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no isolamento austero da independencia o do sacrificio.

Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno e do Bernardo Palissy.

A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma, resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.

Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.» [Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.] É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi egualmente o braço constantemente pronto para resistir.

Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da liberdade de pensamento! O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a força do trabalho; Littré, a força da philosophia.

D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não tem partido.

Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus similhantes! Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela consciencia e pela verdade! * * * * * Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um symbolo ultrajante para a dignidade humana.

A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos principios de justiça social constantemente professados pelo immortal artista.

Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar puerilmente que se deve ser _Fier d'être français Quand on regarde la colonne!_ Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o Grande!!_ Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.

A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes da geração actual o sol de Austerlitz.

Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.

* * * * * Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.

Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.

Feliz homem! * * * * * A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_, representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus pensadores.

Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um novo elemento social--o povo.

José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e decide da sorte dos imperios.

Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, procedera da roda dos expostos.

Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus inimigos.» * * * * * Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella natureza essencialmente desgraçada.

Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico, jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e da lingua.

Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação, repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente aggravada por uma falsa educação.

Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame, de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios da sua inquieta o attribulada existencia.

A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.

O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa, conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás mulheres nervosas.

Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.

Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas physicas.

Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre, tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro imperfeitamente orientado.

Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_ nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços, estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom sitio amado, uma velha canção querida.

Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.

Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.

Inutilmente. Elle estava morto.

Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.

O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela maledicencia.

* * * * * Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_ o folhetim seguinte: _Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais caldo_.

Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.

Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto, que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda responsabilidade.

Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave, contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem substancia.

Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho, esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão, deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.

Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.

A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.

Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome, pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.

O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos, recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.

Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa, todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa convicção.

Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens energicos e audaciosos.

Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas, e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.

Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.

Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever da esposa.

Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.

Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão, encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais civilizadas da Europa.

Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos circos o trabalho de fazer rir o publico.

Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas esse importantissimo.

Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos seus.

Sua _Irmã de Caridade_ * * * * * Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a! Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.

Revêde-vos na vossa obra.

Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de _cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.

Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós mesmo pelo que lhe ensinastes.

* * * * * Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres? As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_ uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas portuguezas: «Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!» Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.

Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa, tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene, pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir nos adversarios senão admiração e respeito.

É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30 por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.

Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.

Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar! Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber licores para os botequins? As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir lá buscar.

* * * * * Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras, encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_ Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de _abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!) O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas algemas! Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.

* * * * * O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos: Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de que não tomei ease chá.

Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal, que eu ingeria em grandes dozes.

A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão, não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não tinha pia.

A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.

Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro braças de solo cobertas por esse velho tecto.

A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da saudade eterna dos seus netos.

A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos folhetins dos periodicos.

* * * * * Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.

Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.

* * * * * Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.

Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes que sua magestade ouvira--um solo de cornetim! Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.

Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.

A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.

Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.

Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.

Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.

O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.

Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes, ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_ E a posteridade nos abençoará.

* * * * * Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente uns aos outros: --Não viram por ahi a hydra? Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.

Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito imperfeito do verbo Mexer.

* * * * * N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.

Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para salvar a situação da falta da hydra: * * * * * O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.

Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.

Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente enterrado.

N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.

* * * * * Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.

* * * * * Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro ainda parece pouco.

O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica romana.

* * * * * Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião, cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.

Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do orbe pela larga benção incondicional de Jesus.

Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das podridões privilegiadas.

Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.

Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.

És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela cidade inteira.

E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte: No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das

catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.

Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.

Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.

Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.

* * * * * Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que pretendemos consultar s. exª: * * * * * Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir entretendo.

N'esta hypothese pergunta-se: Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha o capricho de descartar-me? Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros impios e locomotores.

A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.

Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica, e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio dos atheus.

* * * * * Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes: Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim uma affirmação civil.

Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria; não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome! A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.

Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna, era--a perna da igreja.

Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira, de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.

Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de designar a sepultura sagrada.

Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o contrario.

Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha perna.

Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem padre, morrer sem padre.

* * * * * Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova, esquina do Laranjal Porto Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de comparecer.

Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª! Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.

Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha venezianamente na agua.

Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do paiz estavam ahi reunidos. Para que? Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que phenomeno! que revolução! Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum pessoal.

Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma funccionalidade diversa.

Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder, irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação, que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.

A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o aperfeiçoamento e para a felicidade.

Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos das sociedades.

A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas instituições.

Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo debatida entre dois principes.

A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente affirmação d'esse progresso.

A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este seu novo hospede? Não lhe apparecendo! V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.

ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

* * * * * Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

Eis o que ao depois occorreu: * * * * * A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes, choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? --Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: --Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

E deixaram-o ir.

* * * * * Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na redea.

* * * * * Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades officiaes! * * * * * Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao sr. José Dias Ferreira.

Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder, o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso: --A mim, rapazes! E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.

* * * * * Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem assim elle mesmo? Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima! Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

* * * * * O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e, como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.

Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra bolsa do alforge ministerial.

Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra, enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

* * * * * E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com arnica o seu galo.

* * * * * Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.

Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª * * * * * Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores deputados: * * * * * Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde os parapeitos até ao tecto.

Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.

O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.

Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas cahidas do systema que felizmente nos rege.

No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca, lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de cabeça.

Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica constitucional.

Diz mais o orador: --«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados».

E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da camara:--«Muito bem! muito bem!» Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.

Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está, como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de Kant, de Hegel e de Hartman.

Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela indisciplina mental.

Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado politico do imperador Guilherme? Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha? Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.

Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.» A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de esphacelamento cerebral.

Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de caturras?--É unicamente o que perguntamos.

* * * * * O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão social.

A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por fazer.

A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo o principio em que se funda.

A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma Turquia está muito adeante de nós.

Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e dissolvem-se na banalidade.

As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal? * * * * * Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado; quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica de cordas, uma photographa, etc.

Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não pódem constituir principios de programma, são communs a todos os partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

* * * * * Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo, corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no favor da urna.

O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas! Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de _compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o compadre, vou para o partido d'elle.

O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, esse poder é unicamente--o da comadre.

A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras, unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, real; compadrice, comadrice--eis tudo.

* * * * * Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos, socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

* * * * * Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum sepulchrum_!

As Farpas (Janeiro a Fevereiro de 1873)

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande

universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON

SUMMARIO

As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.

Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os

srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.

A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome e Pickuick.

Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.

Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da immobilidade oriental.

Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido, tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o paiz tem de responder aos cumprimentos do rei! Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas, alargar-se d'estes termos.

_Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!» _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!» Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.

* * * * * Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e provam entre uns e outros, de partido para partido, que são effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa, que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias, segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho, operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios, pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade, assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira, sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis, surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra, riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo tem de aprender a ser digno e honrado! * * * * * Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_ da Companhia.

Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando definitivamente á companhia das carroagens este simples recado: «Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas, avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.» Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os srs. deputados votariam calados.

Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma constituitiva do poder não nos importa. O problema politico interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico, em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede viveres.» Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado; o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei, tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia! Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do socego e da ordem.

Hoje porém: Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores; Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si mesmas; Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados a maior parte dos poderes delegados nos governantes; Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por via da eleição representem a vontade popular: Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy, considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte de poder que ellas asseguram ao povo.

Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e uma monarchia parlamentar.

A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder executivo--um presidente eleito.

A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder executivo--um rei hereditario.

O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos, para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.

N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e de juizo para governar.

Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade, nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill, Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e monarchia representativa.

A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um presidente eleito.

O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.

Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a França poderia introduzir na organisação do trabalho.

A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente distincção: um e outro affirmam um governo livre.

A differença que existe entre governos livres e governos que o não são, é: Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.

Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.

Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que não seja--a de desafinarem.

Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e livre sob a monarchia portugueza.

Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns, ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que elle encerra....

E que digamos a suas excellencias: Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes eleitos.

Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na monarchia parlamentar.

Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo portuguez? Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei! Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e pedirá--herva.

* * * * * Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.

deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na republica, e teremos--a escravidão na monarchia.

* * * * * Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta, e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia e que parece não ter caracter.

Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi, tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.

D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo o machinismo constitucional.

Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz todo ha um surdo descontentamento geral.

Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou seccas.

Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos, promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae de fadiga, apupado e corrido.

Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade! A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está hypothecada.

Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos! Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo, dando dinheiro e recebendo papeis.

A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

* * * * * A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos, pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente, dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar, assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento, lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles, lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a rebaixa.

* * * * * Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas; faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada, e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante, a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto, a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario, para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel, na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

* * * * * O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer não seja para nós um irremediavel perigo.

Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem immediatamente de manter os abusos.

Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a melhor politica.

Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se como se é homem de bem.

Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela falta da virtude.

Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a gangrena e a dissolução latente do estado.

Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a liberdade.

Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma, acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade aos negros e dar a paz á America.

* * * * * Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê prudente e justo.

No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa, Theagenes em Megara.

O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o desfallecimento e a morte.

Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse principio sob a sua forma philosophica--na razão.

* * * * * O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais intelligentemente armadas e equipadas da Europa....

A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler o jornal e tomar o café--para os estribos.

O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os desde hoje e para todo sempre invenciveis.

Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando, com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas, scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os pés! De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse de piugas.

* * * * * Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os pés quentes! Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.

Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz! * * * * * Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por Tavira_.

Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira! Eis a moção: «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam ameaçal-a, e passa á ordem do dia.» Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos os srs. deputados.

* * * * * O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase: «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia constitucional.» Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.

Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que apparecer.

E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente illibados.

* * * * * Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa ha dois annos.» Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus collegas, mandando para a mesa a seguinte moção: «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á independencia, e passa á ordem do dia.» Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente: Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

* * * * * Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de Palhés e a villa de Mangualde.» Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha: «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde, passa á ordem do dia--e a abotoar-se.» * * * * * Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

* * * * * Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua moção: «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e as instituições.» Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_! O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra conspirações continuadas.

O partido historico caiu victima de uma conspiração.

O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se ao mais a que se podia chegar_.» Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira! * * * * * Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.

Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.

Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.

* * * * * Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.

Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se, faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro, trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em funeral.

Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada, entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

Dizia-se fallando-se d'ella: «Deixou pouco.» «Que fez ella ao que tinha?» «Que miseravel! que mesquinha!» E um jornal catholico escreveu: «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em cautellas de vinte e cinco.» Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os homens deseguaes.

Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos, levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo, suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou o descanço eterno.

E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria, interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em similhantes condições e com eguaes amarguras! Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de considerar-se menos que quaesquer outros.

* * * * * É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito pela mulher digna e virtuosa que morreu.

* * * * * Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes feridos e dois mortos.

Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que ninguem era ferido.

Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas, levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento, satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido

para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.

Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.

delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que delicto? _«Por abuso de defesa»_.

Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de defeza_.

* * * * * Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.

Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar: contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.

Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores, por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã, espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!» E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja! Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...

Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.

Melicio vela! * * * * * A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.

* * * * * Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo, ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.

Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.

Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.

deputado, com voz pausada e firme disse: «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle a quem verdadeiramente podemos chamar ...» Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante, bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por um raio de enthusiasmo fecundo e creador! O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.

Vozes: Muito bem! muito bem!) * * * * * Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi, á beira dos golphos innundados de azul ...

Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia, a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu? Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX, por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens com brisa fresca!_ * * * * * Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras seguintes: Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e inspirada voz! Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta assembléa, labio tão selecto como attico! Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu immortal amigo, o sr. Jayme Moniz! (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...

(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.

Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros, emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de um desconhecido).

* * * * * _Áquelle que jurou assassinar-me_ Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir, consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto: «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz? Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.» Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem de occupar-se do caso.

Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...

Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente, sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha opinião: Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa! Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem ordinariamente comsigo.

Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final fecha o discurso.

Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram, violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln e o jornalista Courrier.

Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que, dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia! Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e implacaveis da desgraça! No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?! Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia, affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso, sentia a displicencia, a melancholia.

Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

Vermes! O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre! Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago! E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens, que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa, mas discreta.

A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha, um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente! Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas! --Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...

--O que trazia o bigode assim?...

--Esse mesmo! --Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...

E algumas outras coisas doces e impereciveis.

E do meu amigo dirão apenas: «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.» Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_, isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão branco.

* * * * * Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar, promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão, perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque, emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas, encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com o vate: _Aos infieis, senhores, aos infieis!_ * * * * * D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do ministro do reino.

O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua pasta para ir adoptar o seu livro.» O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos de membro do actual gabinete.

É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.

O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer o chão.

Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa, era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos sorrisos, com a malevolencia das allusões? Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?! Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra domestica.

A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão publica da sua virtude.

Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas! As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.

Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.

Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem, pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos, inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que viveu.

Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter passado no mundo.

O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

* * * * * Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos periodicos portuguezes são--anonymos.

* * * * * Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é este:--não assignar.

Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas as antipathias que tenha podido suscitar.

Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

* * * * * A primeira razão por que se não assigna é esta: A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja, convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.

N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da dignidade e da razão.

Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo, perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma catastrophe para a justiça.

Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado: quanto mais se lê peor se escreve.

Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.

Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_ foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe, salchicheiro.

Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de magnezia.

* * * * * Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.

Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema representativo nacional.

Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico, abalisam uma época, enquadram um seculo.

Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual: «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.» * * * * * O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos, teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois varões extraordinarios! No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia! Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não! nunca!» Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á geographia--e á canalha! Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó perra vil! E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica, os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões! Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama, a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais tarde a virtuosa mãe de seus filhos! Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de ôlho de perdiz! Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das peninsulas! * * * * * Agora--Barros.

Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

Como o explica, como o justifica elle? Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas! * * * * * Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem, sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo, magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo: «Elle tem alguma coisa na cabeça!» Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria parisiense de Champfleury! Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal! Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades o povo--e o passarinho! Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos! Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos, como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...

Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as amplidões do azul em phantasticos arabescos....

E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa! Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima! * * * * * Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava! O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme: Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres visitas n'um só bote! E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

* * * * * Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes! Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus maiores! O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

* * * * * No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens, novos ceus, novas floras e novas faunas.

Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil pessoas.

Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e com a Russia européa.

Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos! Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão gelados nove mezes por anno.

Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os Strelitz.

Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as caravanas do chá....

E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada, comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785 letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais subditos do grande Filho do Ceu.

E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo, fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo! E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um barril immundo para um fino cristal facetado! * * * * * A camara dos srs. deputados....

Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.

deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco que palpita, ao longe! E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça, abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....

A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso: Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um barril, uma pipa ou um tonel! E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte: «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer vasilhas.» Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face da Europa a este milagre: _Engarrafar vasilhas_.

* * * * * E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro, aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã camoeza! Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá! Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario, um capitalista ou um sabio.

Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.

Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás grande.

Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem, no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.

Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no teu voltarete.

Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem orthographia, nem mão de redea! O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o, como o foste--na politica! Não tornes cá.

Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.

As Farpas (Junho de 1883)

LISBOA EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA

Ironia, verdadeira liberdade. Es tu que me livras da ambicao do poder, da escravidao dos partidos da veneracao da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mistificacoes da politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande universo, e da adoracao de mim mesmo.

P.J. PROUDHON.

Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em nome do rei.

Sumário

Rasao d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel parallelo--As instituicoes nacionaes e _As Farpas_--A educacao do principe. Como elles a fizeram. Como nos a aconselhamos--A instruccao de sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas convivencias. O seu theor de vida--Intervencao de sua magestade a rainha na direccao intellectual de seu augusto filho--O principe, o homem, o cidadao, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A viagem--Crise pedagogica--A renovacao mental de sua alteza--De como o principe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao throno, a familia, a sociedade e a natureza--Sua alteza porem fara o que for servido.

LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883

SENHOR!

E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos

traz por meio de carta aos pes interinamente reaes de vossa alteza.

O Sec. 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia garante a todo o cidadao o direito de communicar por escripto com o Poder Executivo, e e d'esse direito que hoje tomamos a libertade de usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em que vossa alteza e o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.

Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio da sua educacao como principe, como cidadao e como ser vertebrado, correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr.

D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.

Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar vossa alteza em sua peregrinacao de estudo pratico atravez dos homens e das coisas da civilisacao entre gentes extranhas.

Seguimos as indigitacoes da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois abrigavamos a conviccao indestructivel de que os redactores d'_As Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opiniao publica e pelo consenso geral da corte para a honrosa e ardua missao de que se tratava.

Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando, atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo, quaes as instituicoes nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para encontrar os varoes comprovadamente aptos para se incumbirem no momento presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que e que vemos?... Ou antes: O que e que vossa alteza ve? Porque, em nossa acrysolada modestia, nos preferimos perante essa interrogacao remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chao e os claques debaixo do braco, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa alteza.

Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as instituicoes patrias, ve para um lado as duas camaras, a Sociedade Geographica, a Universidade de Coimbra e o salao da senhora D. Maria Kruz; e para o lado opposto, a outra banda, ve vossa alteza _As Farpas_, quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 reis o volume, que sera a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.

Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas o reinado de vossa alteza, procurarao a porfia imitar esta obra sublime.

Porem de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos pois os classicos da lingua, nos outros, para esse tempo. Seremos os Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As academias archivarao, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordao nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cas, pora os seus reaes oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dira, batendo com os nos dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda: --O velho rei Carlos foi tao bom e tao prasenteiro rei como o principe seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o immortalisarem no eterno jubilo das gentes! E vossa alteza solucara de saudosa magoa sobre as cabecas infantis da sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta perspectiva do seu reinado lhe faltou a projeccao grandeosa d'esta obra cathedralesca.

Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.

Que e que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso dos ultimos quinze annos em beneficio da educacao de vossa alteza ou da educacao d'alguem que seja n'este mundo? Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada! Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente fizeram com um projecto de lei sobre a instruccao secundaria, o qual Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e porta-alaude da sua corte, arrancou a ferros das entranhas da musa para o mandar para a mesa como uma especie de gemea administrativa da _Delphina do mal_.

Como vossa alteza nao era a esse tempo regente soberano do reino, e se achava ainda entao sob o dominio da auctoridade paterna, nao sabemos se lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...

Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor! Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e ma lingoa, sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e em substituicao pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador berrava: --Eu ca, snr presidente, nao me importa com Tito Livio, nem me importa com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que e do que os rapazes precisam para ir para leis! Outro queria religiao, porque sem religiao o que e o homem? O homem sem religiao e, com licenca, um bruto. E citava Renan que fora visinho d'elle em Paris e que nao era bruto. Porque? Porque tinha temor de Deus,--de noite, as escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira do predio.

Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos lyceus, porque muita canalha junta nao aprende nada. Um menino ate dois e o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educacao capaz.

Houve mais um que pediu institutos de instruccao secundaria para a mulher, pela rasao de que, segundo elle, se tornava mister que a mulher, _que e ja a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual! E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou enternecido, com os olhos em alvo: _E indispensavel, snr. presidente, que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro ao lado um do outro, de maos dadas_. Egualmente textual! Emfim, ao cabo de vinte dias de discussao, a decencia obrigou a agarrar no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares; mas como esta camara o nao quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito de o por em verso. E consta agora que o vao aproveitar sob a forma de magica no theatro de D. Maria.

Logo depois da instruccao publica nao viu vossa alteza como elles pegaram n'uma questao d'arte?!...

Lembra-se um de fallar no leilao do diplomata Zea Bermudez, o qual reunia as qualidades do mais excellente homem uma pequena colleccao d'arte com _quatro potes etruscos_.

Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa presenca de espirito, camara e governo menearam as cabecas familiarmente, como se cada um dos legisladores nao tivesse feito desde muito pequeno outra coisa senao jogar a pucara com potes d'esses.

Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes exprimiram com unanimidade: --Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente! --O paiz, snr presidente, nao pode consentir que preciosidades de tao inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus extrangeiros!...

--Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em potes.

E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito supplementar de 5 contos de reis. Para que, senhor? Para proteger a arte nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos, nem livros, nem coisa nenhuma, alem do snr. conde de Almedina, e a qual a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe, so seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras! Tal e a camara, o serenissimo principe! E a Geographica pode vossa alteza crer que e outra que tal. A sabia corporacao da rua do Alecrim nao passa de um parlamento como o de S.

Bento, com a differenca de que, em vez de ser electivo, e de assignatura, a cinco tostoes por mez, e n'elle a rhetorica e consultiva em vez de ser deliberante. E a camara ou a ante-camara dos aprendizes a deputados e a ministros; e o vitello mamao de que a representacao nacional e o boi gordo.

Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o trinchante mor da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros e lh'o sirva sem casca: ahi esta o geographo.

Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.

Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo, considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso foco do saber exercia sobre a imaginacao da mocidade, deliberou com prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de instruccao--o melhor e por-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e applauso geral dos doutos.

Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.

Este centro intellectual esta indubitavelmente acima de todos os outros e exerceu na educacao nacional uma influencia doce e benefica. E certo que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_ presidida por essa dama, e nao pelos degraus sordidos da sociedade geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados e iam a ministros.

A esta intervencao senhoril, que por algum tempo deu a politica portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graca, um fugitivo _odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres entre a avidez das ambicoes e o respeito pelas escovas d'unhas.

De resto ha para todos os effeitos uma differenca consideravel entre o entrar na vida dando o braco a uma senhora, e o entrar levado em charola pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.

A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer a sua antiga corte a amisade, a conversacao e o cha das suas quintas-feiras.

Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa alteza como com minha avo torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o primeiro dia da sua existencia ate hoje jamais desfilaram os olhos desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e muito em especial dos de vossa alteza serenissima.

Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje de mascara, ja de coronel de comedia, ja de tabeliao de entremez.

De uma vez levaram-o as corridas de cavallos vestido de funccionario publico: calca ate abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados, jaquetao, collarinho alto, chapeu redondo, grilhao de ouro no relogio e luva branca. Vossa alteza podera fazer uma ideia da figura que estava dignando-se de olhar por um binoculo as avessas para o prior da Lapa.

Era aquillo em louro, sem a coroa e sem o annel liturgico.

_As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que vossa alteza tinha direitos inilludiveis a nao ser confundido por meio dos nefandos artificios do algibebe da corte com um padre pequeno. Que vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por um simples phyloxera.

_As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de flanella, meias de la, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem luvas.

Hoje, que vossa alteza e um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o decidir quem tinha razao: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de vossa alteza, se nos, seus criticos.

Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instruccao secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que era abusar da submissao de um jovem principe, innocente e ingenuo, o por defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho, pilhado na lobrega escuridao da metaphysica universitaria, e posto na Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rape ao outro, a explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.

Apesar de todas as nossas objeccoes, esse nefasto humanista amargurou os dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe acreditar que o epicherema era tao indispensavel ao homem como o proprio pao.

Se tinhamos rasao ou nao sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que e homem ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca ate hoje nem do epicherema nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborao tremebundo, seu mestre.

Quando foi da nomeacao do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrao, do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a educacao de vossa alteza nao era precisamente a piscina da pudica Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos bar-bacas aposentados da magistratura e da academia.

Os resultados confirmaram quanto por essa occasiao predissemos. Os pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fora da natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosiere de Nanterre, cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animacao as engommadeiras virtuosas.

Conhece vossa alteza a _Educacao de um principe_, de Edmond About? Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tao importante aos principes como o proprio livro de Machiavel.

Em licao digna das nossas mais graves meditacoes, About mostra-nos a tragica situacao do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.

E alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestacoes geraes do regosijo da corte por occasiao do feliz consorcio do principe herdeiro, applaudindo incondicionalmente as dancas e as cantatas, e queixando-se apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecao na caixa, e confiados os timbales ao moco da real capella, haviam-se retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da regia mansao. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido, mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e metendo-lhe na mao os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o vozeirao restaurado por duas gemadas, partira a pressa para ir levantar os vivas a Republica n'uma manifestacao de provincia para que estava escripturado.

Tudo pois era silencio e trevas no regio alcacar, quando o monarcha se ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos duros encargos da publica governacao espreitando um momento pela fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridao o salao de baile, mudo, apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de coroa para baixo e de chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que dormia sentado ali assim. Gritos de pavao do monarcha aterrado, e cortezaos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com o chapeu de bicos na cabeca, abracado a espada dos reis seus avos.

--Que faz voce aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz acre.

--Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora nao tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.

--Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo na testa e com os bracos cruzados no peito.

Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem a real presenca, enrolados a pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das orelhas, o rei disse-lhes: --Esse jumento que ahi esta, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados) esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de um principe para com a sua princeza. E e para isto que eu tenho tido aqui a engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora muito bem: vou deixar-vos a sos por espaco de cinco minutos com tao repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio, elle nao estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara deve saber para nao vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira, decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo tres perus gordos e emborrachados! Uma vez a sos com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito pranto nos bracos uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se lembrava de haver jamais lido nos auctores coisa alguma relativa aos _deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.

Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia, que a pena ultima lhes seja commutada.

Piedade, principe, piedade! Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a sua familia, com a sua corte?...

Compulse vossa alteza essa colleccao immarcescivel e a cada momento encontrara n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do palacio; acerca dos discursos da coroa, dos uniformes, das libres, dos cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das cacadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.

Quem foi que mais ardentemente pugnou para que nao pegasse a vossa alteza e a seu augusto irmao a alcunha piegas dos _cabecas louras_ e dos _louras creancas_, que lhes puzeram os noticiaristas? Quem mais do que nos se esforcou em obstar que sua magestade a rainha cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da rhetorica sordida de procissao e do fogo preso, de bambolim de murta e de peixe frito?...

Nao faremos a vossa alteza a injuria de o suppor assaz destituido de bom gosto para nao comprehender quanto a notoriedade, levada ate esse ponto de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do recato, que e a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.

Por todos estes titulos julgavamos nos ter a certeza de ser os individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de instruccao.

Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto d'Aguiar e Martens Ferrao, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas linhas telegraphou a Eca de Queiroz nos seguintes termos: _Eca de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite ir extrangeiro principes, e se vae._ E recebemos a seguinte resposta: _Ramalho Ortigao--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir Collares burros, e nao vou._ Havieis-nos pois lancado a ambos ao ostracismo ... Maldicao e prudencia! O preclaro major Quillinan, que tao galhardamente defendeu ha pouco a honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de sua magestade fidellissima nao haver prestado a consideracao devida ao feito alludido, elle, major Quillinan, nao mais volvera a soccorrer-nos nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente as ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan da licenca! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue a vontade, que o bebe por conta do lavrador.

Regala-te para ahi, o vibora sedenta! Nos porem, senhor,--como se diz na "Vie Parisienne"--_nao somos esse major_.

Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os derradeiros conselhos que a nossa dedicacao a vossa alteza nos inspira, para que a todo o tempo se nao diga que um mesquinho despeito nos reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso, sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.

Fomos vilmente preteridos--e certo--por esse cavalheiro ... Um chimico, senhor! um perfumista desaproveitado! um baldroqueiro de drogas! um troquilha de liquidos de laboratorio, nojosos e peconhentos! Alem d'isso, um gordo descommunal, um gordo inverosimil! um d'estes gordos que nao passam as alfandegas sem que as apalpadeiras venham e lhe ponham o visto! um gordo que vae alarmar a Europa, e que vossa alteza, em justa satisfacao da curiosidade dos povos, se ha de ver forcado a exhibir a avidez do publico na feira de Saint-Cloud ou na feira _au pain d'epices_, a dois sous por cabeca. Elle, do alto de um estrado, dira a Franca:--_Messieurs! je suis jeune fille, je suis nee a Marseille, j'ai seise ans, je pese 150 kilos, tatez mon mollet, S.V.P_! E vossa alteza, de casaca e gravata branca, piscando o olho ao povo, com malicia, tera de acrescentar: --_Il n'y a pas de coton la dedans, messieurs!_ Elle demais a mais usa uma luneta forrada de cautchu ...

E e este homem que vae ser o real olheiro de vossa alteza atravez do que ha que ver por esse mundo! Um olheiro, de galochas de borracha na vista! Um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se nao viu nunca senao ate metade do ventre, porque da outra metade ate os pes principia para o seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno incognoscivel! Que, pela nossa parte, tome vossa alteza nota que nao pretendemos sensurar ninguem! Uma vez que os paes de vossa alteza decidiram que esse cavalheiro nos devia substituir para o acompanhar, nos nao temos que dizer senao que vae muito bem acompanhado. Vae lindo! Nao haja duvida nenhuma que vae perfeito! E todavia e possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do algebrismo technico da sciencia que tao gloriosamente professa e que, quando vossa alteza o consulte sobre o _menu_ da sua ceia no cafe Anglais ou sobre o governo do seu _cob_ na Avenue des Potins, elle lhe responda pela formula KO+2S0 cubed, ou KO,2S0 cubed, a qual formula nao e precisamente a da elegancia mais garantida, posto que seja, sem questao alguma, a do bissulfato de potassa.

Antes de entrarmos agora na ordem dos conselhos que o nosso mister de criticos nos impoe o dever sagrado de ministrar a vossa alteza, consideremos por um momento o estado presente da educacao que vossa alteza vae concluir na sua proxima viagem.

Um jornal insuspeito, o _Commercio de Portugal_, resume o programma d'essa educacao no seguinte quadro: _"Conhece o principe o latim, francez, inglez, italiano, allemao, hespanhol, e estuda o grego. Faz com muito aproveitamento o curso de humanidades; tendo ahi principalmente alargado os estudos sobre a historia universal e patria. Estuda um curso regular de sciencias naturaes e mathematicas. Nas sciencias sociaes, que pode-se dizer constituem a_ SCIENCIA DO GOVERNO _para um principe, o curso de disciplinas seguido por sua alteza tem sido o seguinte, que indicamos mais desenvolvidamente por entendermos que muito interessa saber-se.

Comecou pelo estudo aprofundado da philosophia, especialmente dirigido para o estudo superior da philosophia do direito.

Em 1878 comecou os estudos de philosophia racional e moral, e historia systematica da philosophia.

Preparado assim, comecou em seguida o estudo de direito natural ou da philosophia do direito. Passou depois a estudar o direito publico interno e politico;--direito constitucional portuguez; e historia tanto antiga como moderna das instituicoes politicas da nacao; organisacao da administracao publica em Portugal nos seus differentes ramos; leitura e explicacao do codigo administrativo e das leis eleitoraes.

Estudo comparado das instituicoes politicas das principaes nacoes cultas e analyse de seu systema eleitoral.

Parallelamente e em licoes alternadas, sua alteza seguiu o estudo sistematico da historia do direito publico da Europa, seguindo como base a notavel obra "Le droit public et l'Europe moderne," do Vicomte Lagueroniere.

Estudos dos principaes tratados porque foi alterada a carta e a organisacao politica da Europa desde os tratados de paz de Westphalia ate a actualidade.

Estudo dos trabalhos do conde de Cacour sobre a organisacao do reino de Italia, e da correspondencia diplomatica mais importante sobre os grandes acontecimentos politicos contemporaneos, seguindo esse estudo pela excellente colleccao dos_ ARCHIVES DIPLOMATIQUES _.

Estudo dos principaes tratados diplomaticos de Portugal com a Inglaterra; tratado de Bombaim 1661; tratado de Metwen 1703; tratados d'allianca e de commercio de 1810; tratados da quadrupla allianca 1834; tratados para a repressao do trafico de 1817 e 1822, e tratado de commercio d'este mesmo anno.

Terminado o estudo especial do direito publico interno, e parallelamente ainda com o estudo das disciplinas, que ficam indicadas, comecou sua alteza a estudar o curso de Direito Publico Internacional, segundo uma introduccao dos principios, que dominam este ramo importante da sciencia do direito, e da theoria das nacionalidades, seguindo depois o estudo especial sobre o_ DROIT INTERNACIONAL CODIFIE, _de Bluntschli, 1880._ Sua alteza esta ainda cursando estas disciplinas.

Em maio de 1872, comecou sua alteza conjuntamente com o estudo do direito publico internacional o curso de economia politica, seguindo especialmente o_ TRAITE D'ECONOMIE POLITIQUE SOCIAL, _de Joseph Garnier (1880), comprehendendo muito especialmente o estudo do systema fiduciario nas differentes nacoes, e dos caminhos de ferro e canaes, como meios economicos.

Actualmente em seguimento a economia politica, estuda a sciencia de fazenda segundo o_ TRAITE DES FINANCES, _de Joseph Garnier (1883) com applicacao a organisacao de Portugal.

Para complemento do plano de estudo de sciencias sociaes, que foi adoptado ainda faltam outras disciplinas. N'esse estudo, e nos outros, continuara sua alteza finda que seja a sua viagem.

Com licoes de duas horas, e com uma exacta applicacao, o principe tem podido vencer os estudos difficeis e variados, que ficam indicados.

Assim educam os reis de Portugal os seus filhos." E claro que estas informacoes procedem directamente do paco. Tudo o comprova: as datas, os titulos dos compendios e as suas edicoes, a ordem detalhada dos estudos, as horas de licao, etc. Estamos por tanto em frente de um testemunho authentico, de um documento historico.

Analysemol-o.

Vossa alteza e bastante moco ainda e bastante robusto para que o seu cerebro haja resistido as influencias d'esse regimen aniquilador de toda a intelligencia.

Note pois vossa alteza, em primeiro logar, a lingoa de preto em que esta redigida esta exposicao.

Para dizer uma coisa tao simples, o stylo do mestre de vossa alteza rabeia na confusao mais contorcida e mais comichosa, em lucta com a pobresa de um vocabulario estreitissimo, de creada de servir. _Comecou pelo estudo aprofundado ... Depois comecou os estudos de philosophia ...

Comecou em seguida o estudo do direito ... Parallelamente seguiu o estudo systematico ... seguindo como base, etc._ Mas, Deus piedoso! isto nao e escrever, isto e cocar-se. Quem nao pode exprimir-se melhor e que vae ter furunculos, e nao deve escrever, deve tomar salsa parrilha.

Para julgar um tal plano de estudos, basta que vossa alteza um dia, as escondidas d'esses senhores, abra um livro de um pedagogista, seja qual for. Em qualquer artigo de encyclopedia vossa alteza lera, de resto, que o fim da educacao e preparar o homem para a mais perfeita felicidade d'elle mesmo e para a felicidade dos seus similhantes em virtude da sua adaptacao mais fecunda ao meio physico, ao meio economico, ao meio politico, ao meio esthetico, ao meio moral. Na parte relativa aos conhecimentos, ou a instruccao propriamente dita, a educacao tem por objecto fazer-nos conhecer as manifestacoes ou os phenomenos do universo, principiando naturalmente por estabelecer as diversas categorias em que esses phenomenos se dividem. _O cathecismo da doutrina do real_, (citamos o que ha de mais elementar), reduz succintamente todos os phenomenos que a educacao tem por fim submetter a nossa investigacao as seis ordens seguintes: 1.--Os phenomenos da quantidade, da forma, da extensao e do movimento, ou phenomenos _mathematicos_.

2.--Os phenomenos do movimento dos astros, da sua dimensao, das suas distancias respectivas etc., ou phenomenos _astronomicos_.

3.--Os phenomenos do calor, da luz, da electricidade, do magnetismo, da acustica, ou phenomenos _physicos_.

4.--Os phenomenos de combinacao e de decomposicao, ou phenomenos _chimicos_.

5.--Os phenomenos proprios aos seres vivos, ou phenomenos _biologicos_.

6.--Os phenomenos do desenvolvimento das sociedades, ou phenomenos _sociaes_.

Entre estas diversas ordens de phenomenos ha uma correlacao de dependencia successiva. De sorte que se nao podem conhecer os phenomenos da 6.ª categoria sem conhecer as da 5.ª; nao se podem conhecer as da 5.ª sem conhecer as da 4.ª; e assim por diante.

Nao se aprende a astronomia e a physica terrestre sem nocoes mathematicas. Nao ha chimica sem uma constituicao anterior da physica.

Nao ha phenomeno vital que se comprehenda sem o conhecimento previo da synthese chimica. Nao ha finalmente facto social que se defina scientificamente sem o conhecimento da synthese biologica.

As sciencias cujas leis regem os phenomenos dos differentes grupos a que nos referimos acham-se hoje constituidas e chamam-se as sciencias fundamentaes.

Cada uma d'estas sciencias se estuda por um methodo que lhe e privativo e a que corresponde o desenvolvimento progressivo das nossas faculdades.

Assim o methodo das mathematicas e o do _raciocinio_ por deduccao; o da astronomia e a _observacao_; o da physica e a _experiencia_; o da chimica e a _analyse_; o da biologia, assim como o da anthropologia, ou biologia applicada ao homem, e a _comparacao_; o da sociologia e a _observacao critica_ e a _filiacao historica_.

A enunciacao d'esta ordem hierarquica dos conhecimentos deve-se a Augusto Comte; e esta e a parte da doutrina d'esse poderoso renovador da mentalidade humana que ninguem ate hoje discutiu nem contestou nas grandes linhas geraes. Esta methodisacao e tao clara, tao consistente e tao fecunda, que nao ha hoje systematisador que a nao adopte como a mais segura das chaves para a coordenacao das ideias.

Emquanto a applicacao d'este principio a educacao diz Spencer: "Que na educacao se deve proceder do simples para o composto e uma verdade sobre a qual em certa medida todos se fundam. O espirito desenvolve-se. Como todas as coisas que se desenvolvem, elle progride do homogeneo para o heterogeneo; e como um systema normal de educacao e a contraposicao objectiva d'essa marcha subjectiva, deve conter a mesma progressao. Esta formula assim interpretada tem um alcance muito maior do que a primeira vista parece; porque o seu principio implica nao somente que temos de proceder do simples para o composto no ensino de cada um dos ramos da sciencia, mas que outro tanto devemos fazer com relacao ao conhecimento total. Como o espirito nao comeca por dispor senao d'um pequeno numero de faculdades activas, e que as faculdades desenvolvidas mais tarde entram successivamente em accao ate chegarem a funccionar todas simultaneamente, segue-se que o ensino nao deve abracar primeiro senao um pequeno numero d'objectos, successivamente accrescentados ate que se comprehendam todos. Nao e somente na especialidade que a educacao deve proceder do simples para o composto, e tambem no conjuncto." Em seguida Spencer accrescenta, de accordo com todos os pedagogos modernos, que a educacao da creanca deve concordar no modo adoptado e na ordem seguida com a educacao da humanidade considerada historicamente. A genese da sciencia no individuo nao pode seguir uma marcha differente da genese da sciencia na raca. E n'este ponto Spencer invoca o nome de Comte e curva-se respeitosamente deante d'elle, porque a ordem positivista dos estudos corresponde exactamente a evolucao dos conhecimentos na humanidade, a qual principiou por investigar os factos cosmologicos e inorganicos mui longo tempo antes de attender as leis biographicas e a vida historica da especie.

Vejamos agora a luz d'estes principios como os pedagogos de vossa alteza regularam a distribuicao dos conhecimentos que foram incumbidos de ministrar-lhe.

_Sua alteza_--diz a informacao que analysamos--_comecou pelo estudo aprofundado da philosophia_.

Esta simples proposicao inicial basta pelo seu profundo alcance pathologico para sobre ella se diagnosticar a inepcia verdadeiramente tragica que presidiu a educacao intellectual de vossa alteza.

Principiar pela philosophia!! Mas a philosophia e precisamente a ultima das coisas que se ensinaria a um homem, se a philosophia fosse coisa que se impuzesse a alguem pelo dogmatismo dos mestres.

O que e uma philosophia senao um systema de leis, deduzidas pelo espirito de cada um da confrontacao das causas e dos effeitos dos phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos prever, a mais longa distancia da nossa comprehensao pessoal, o destino do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza? Como e pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de instruccao primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis correlacoes de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na abstraccao psychologica de fim e de origem? O principio fundamental de todo o systema de educacao e de ensino e--como ja vimos--que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de applicacao.

Como e entao que a vossa alteza ensinaram leis de applicacao sem o conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos factos particulares? Que especie de philosophia e esta que vossa alteza aprendeu, tao extranhamente e tao miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a nocao dos numeros?...

E a _instauratio magna_ de Baccon? E o scepticismo systematico de Descartes? E o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? E o deismo de Locke ou o de Voltaire? E o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? E o scepticismo de Berkeley? E o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? E o encyclopedismo de Condorcet? E o sentimentalismo de Rousseau? E o idealismo de Kant e de Hegel? E o pessimismo de Hartmann e de Schopenhauer? E o eclectismo do snr Cousin? E o revolucionismo de Proudhon? E o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? E o evolucionismo de Darwin? E o positivismo de Comte ou de Littre? A informacao que tao opportunamente baixou da aula de vossa alteza a redaccao do _Diario de Portugal_ arranca o nosso espirito perplexo a esta cruel duvida.

Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu e a _philosophia racional e moral_.

Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a negacao de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia _objectiva_ ou uma philosophia _materialista_, da a perceber d'esse modo que ha uma philosophia _subjectiva_ e uma philosophia _espiritualista_, mas que nao e d'essas que se trata.

Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que e _racional e moral_ a philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma philosophia _immoral_ e uma philosophia _irracional_, opposta a essa. E triste o pensar que vossa alteza esta desde de 1878 a estudar uma coisa que se convertera n'um systema de _irracionalidade_ e n'uma doutrina de _desmoralisacao_ desde que vossa alteza se de ao ligeiro trabalho de virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.

O programma que tem regulado a instruccao de vossa alteza accrescenta que vossa alteza tem estudado essa philosophia na _direccao do estudo superior da philosophia do direito_, e que _assim preparado comecou em seguida o estudo do direito natural_.

Perante uma tao espantosa affirmativa deitamos abaixo das estantes todos os livros de "direccao philosophica" desde a mais remota antiguidade ate os nossos dias.

Interrogamos avidamente as tradicoes egypcias do tempo das dynastias pharoonicas, contemporaneas das pyramides e anteriores de quatro mil annos a era de Christo, os vestigios que restam dos papyrus do _Ritual funerario_ e do _Livro dos mortos_.

Interrogamos quanto se sabe ao presente da passagem no tempo e no espaco da philosophia chineza do _Y-King_ e do _Chou-King_.

Inquirimos tambem, posto que com mais reserva, bem entendido, quanto se deslinda para a especulacao philosophica dos mythos e dos emblemas indecentes das religioes e das liturgias phallicas da Chaldea e da Syria.

Relemos com olho pressuroso, e manuseamos com mao nervosa e ligeira tudo quanto o snr Vasconcellos Abreu tem feito a merce de nos communicar a respeito dos systemas philosophicos e mais systemas dos Aryas.

Consultamos Thales de Mileto e Democrito, Socrates e Platao, Aristoteles, Zenon e Epicuro, Pomponacio e Averroes, todos os escholasticos, todos os platonicos, todos os peripateticos, todos os epicuristas, todos os pantheistas, todos os scepticos, todos os materialistas, e todos os atheus, sem excepcao d'um so, desde os _Dialogos da Natureza_ do seculo XVII ate o nosso moderno _Trinta_, comprehendendo todos os atheus verdadeiros e todos os atheus fingidos, desde Vanini, que morreu queimado como impio pelo parlamento de Tolosa, ate um bom tendeiro nosso amigo que deixou de ir a missa ha mais de um anno, para nao se comprometter com os socios do club _Gomes Leal_.

Pois bem: ao cabo de tao laboriosas excavacoes eruditas e de tao vastas investigacoes historicas, podemos asseverar, sob nossa palavra de honra, a vossa alteza, que nada encontramos nem nas tradicoes, nem nos livros sabios, nem na conversacao viva dos doutos, que nos possa dar, ainda que mui remotamente, ideia alguma do que venha a ser o _estudo de uma philosophia especialmente dirigido para o estudo de outra philosophia_, como aquella de que tao gloriosamente se trata no quadro dos conhecimentos propinados a vossa alteza pelos seus venerandos mestres.

O _Direito Natural_, em que se diz que vossa alteza entrou depois do preparo da _philosophia especialmente dirigida para a philosophia_, e a reliquia rarissima de um estado mental que desappareceu da esphera philosophica, mas cujos vestigios tivemos a fortuna de poder encontrar ainda entre os ferros-velhos da historia do pensamento.

Parece que houve com effeito, em tempos, o que quer que fosse a que se deu o nome hoje archaico de _Direito Natural_.

Alem da gente anonyma e desconhecida que com mao mysteriosa taberneia em Portugal o ensino publico e o de vossa alteza, ninguem mais ignora hoje em dia que todo o Direito e um producto da civilisacao, e nunca uma manifestacao ou uma obra da natureza. Nas sociedades rudimentares nao se conhece o Direito. Nas sociedades civilisadas o Direito varia, segundo as concepcoes intellectuaes que dirigem o progresso em cada uma d'essas sociedades. E d'ahi vem que o Direito e eterno. E eterno precisamente porque e progressivo, como e progressiva a moral e a arte, e nao porque seja um ideal innato a natureza do homem.

O erro da velha denominacao de _Direito Natural_ procedia de que os philosophos desconheciam a natureza, e em sua boa fe a consideravam recta e justa. Mas Darwin veio. Desde entao ficou demonstrado que, pelos processos porque ella opera na formacao dos aggregados humanos, a natureza e immoral e e iniqua.

A lei do universo basea-se sobre o concurso d'estes dois grandes agentes: a _luta pela vida_ e a _seleccao natural_. A luta pela vida e o estado permanente de todos os seres, para os quaes a creacao e uma eterna batalha. A sorte do conflicto decide-a a seleccao natural. Como? Fixando na especie, pela adaptacao ao meio, os seres mais fortes, e expulsando os seres inferiores. Por isso o professor Haeckel affirma: "A theoria de Darwin estabelece que nas sociedades humanas, como nas sociedades animaes, nem os _direitos_ nem os _deveres_ nem os _bens_ nem os _gosos_ dos membros associados podem ser eguaes." Ora o que e que estabelece o Direito? O Direito estabelece precisamente o contrario d'isso: a egualdade dos deveres reciprocos para a mais equitativa distribuicao dos bens.

O Direito portanto nao so nao e uma emanacao da lei natural, mas e uma reaccao contra essa lei.

A natureza e o triumpho brutal decretado ao forte. A sociedade e a proteccao consciente assegurada ao fraco. A creacao funda _a luta pela vida_. A sociedade organisa o _auxilio pela existencia_.

Uma civilisacao e tanto mais adeantada quanto mais ella submette ao seu dominio as fatalidades naturaes. E e assim que o homem, de conquista em conquista, chegara um dia, como diz Buechner, ao paraizo futuro, ao paraizo terreal, d'onde nao veio mas para onde vae, e que nao e um dom divino primitivo mas o fructo derradeiro do trabalho humano.

Todo aquelle que, no meio d'este esforco compacto da intelligencia de cada um para o progresso geral, se detem no caminho a aprender com os seus pedagogos a coisa a que elles ainda chamam o _Direito Natural_, esta por esse facto fora da civilisacao e fora da humanidade.

Se o nosso intento fosse perturbar o doce repouso dos perceptores de vossa alteza, poderiamos perguntar como e possivel ensinar todo o direito que vossa alteza aprende, sem previamente fazer conhecer os grandes phenomenos que o Direito tem por fim dirigir e que se chamam a _nacao_, a _familia_, a _propriedade_, o _trabalho_, etc.

Poderiamos perguntar ainda quem e que assume a responsabilidade de ensinar a vossa alteza a _historia patria_ e a _historia universal_ antes de se haverem recusado a exercer essa funccao os individuos idoneos, os que pelos seus estudos especiaes demonstraram na imprensa ou no professorado ser os mais conhecedores d'essa materia, como o snr

Pinheiro Chagas, o snr Oliveira Martins e o snr Theophilo Braga.

Poderiamos perguntar mais, se a lingoa nao sera em uma nacionalidade um facto tao importante, pelo menos, como o direito, e se e permittido que, no quadro dos estudos de um principe de vinte annos, se nao diga uma so palavra relativa ao conhecimento dos grandes escriptores, depositarios das tradicoes historicas e das tradicoes poeticas da sua patria.

Poderiamos perguntar, finalmente, como e que a _Economia politica_, a qual Mac Culloch tao concisamente diffiniu dizendo que a _sciencia economica e a sciencia dos valores_, se pode ensinar a um menino de redoma, sem nocao alguma dos elementos constitutivos dos valores; sem o conhecimento das sciencias que produzem a riqueza, como sao a mechanica, a physica e a chimica; sem a minima ideia das materias primas que as industrias transformam, nem dos instrumentos que effectuam essas transformacoes, nem dos movimentos commerciaes que modificam e alteram de logar para logar o valor dos productos; um menino que o vacuo enorme do seu quadro d'estudos nos mostra na ignorancia absoluta do que e o milho, do que e o trigo, do que e o arroz, do que e o assucar, do que e o algodao, do que e a la, do que e o carvao, do que e o ferro; de um menino que nunca foi a uma lavoura, nem a uma officina, nem a uma fabrica; de um menino que nunca viu em exercicio uma charrua, um torno, uma serra, uma broca, uma bomba, uma maquina de vapor ou um moinho de vento; um menino que nunca olhou de perto para esse instrumento vivo de todas as transformacoes industriaes, que se chama o obreiro; um menino emfim que nunca sahiu so, e que a sua mae nunca levou as compras, a tenda, ao talho ou a feira; e que, sabendo todos os direitos que ha--naturaes e sobrenaturaes, publicos e particulares, nacionaes e internacionaes,--so nao sabe ainda como se faz o pao que come e o vinho que bebe, o tecido que o veste e a vela que o alumia, nem quanto custa o kilo da carne ou o litro do azeite! Nos porem nao pretendemos affligir os mestres de vossa alteza. O mestre e irresponsavel, pela boa razao de que o mestre e nullo na direccao intellectual do homem.

E por esse motivo que _As Farpas_ propuzeram sempre que a instruccao de vossa alteza se fizesse, como a dos demais cidadaos, nas escolas publicas do seu paiz. Porque a forte, a fecunda, a verdadeira licao nao vem da auctoridade dogmatica dos mestres, vem do livre impulso dado ao espirito e dado ao caracter pela convivencia dos condiscipulos e dos companheiros.

E n'essa intima communhao de interesses com individuos da mesma raca, da mesma nacao, da mesma idade, que o homem comeca a comprehender a primeira e a mais importante nocao social, a nocao da solidariedade humana, o mecanismo de todo o verdadeiro progresso, tendente ao triumpho final das forcas sympathicas sobre as forcas egoistas, a adaptacao mais perfeita do individuo a communidade.

E nao e somente o rhythmo do egoismo e da sympathia que se forma e se regularisa nas relacoes de convivencia com os nossos similhantes. Sao as curiosidades intellectuaes que despertam, e os conhecimentos que se transmittem no sentido dos problemas mais importantes para a geracao a que pertencemos.

Metade d'aquillo que valemos, moralmente e intellectualmente, devemol-o aos contactos e as suggestoes dos individuos que nos teem rodeado atravez da existencia. E esta uma divida que poucos se lembram de pagar, reconhecendo com veneracao os beneficios da amisade. Todas as maes estao prontas sempre a declinar sobre as "mas companhias" dos seus filhos a responsabilidade dos seus desvarios. Sao rarissimas aquellas que sabem agradecer, como collaboracao dos seus desvelos, a parte enorme que as "companhias boas" tiveram na formacao do espirito e na formacao do caracter, na intelligencia, na dignidade, na honra, na gloria dos seus filhos.

O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos vinte annos de idade elle tinha aprendido com James Mill, seu pae, tudo quanto a sciencia pode ensinar a um sabio e a um philosopho. E todavia Stuart Mill conta-nos na sua autobiographia que, ao perguntar um dia a si mesmo se seria feliz, uma vez realisadas nas instituicoes e nas ideias todas as reformas que elle projectava crear, a sua consciencia lhe respondera:--nao. "Senti-me entao desfallecer,--diz elle;--todas as fundacoes sobre que se tinha architectado a minha vida se desmoronaram de repente." Mais tarde elle sentiu a dor, sentiu depois o amor, o amor apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submettendo _a forca dissolvente da analyse_; e foi so entao que elle se sentiu homem, revivendo para a natureza, forte da grande forca que a natureza lhe communicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coracao palpitante de uma mulher que elle amou--elle o sabio, o philosopho, o reformador frio e implacavel--com o amor illimitado, enthusiastico, cavalheiresco, que as velhas legendas lyricas attribuem aos grandes amantes celebres.

A educacao ministrada a vossa alteza pelos mesmos processos por que se ministra o alimento as gallinhas nas cevadeiras mechanicas, apesar de o nao ter feito um sabio como Stuart Mill, impediu-o egualmente de se fazer um homem.

Nao basta, para educar um mancebo, vir o snr Martens Ferrao ou o snr Santa Monica duas ou tres vezes por dia com a bomba da papa espiritual, abrir-lhe o bico, carregar n'um piston, e encher-lhe o papo de doutrina haurida nos compendios do snr Jose Garnier.

Hoje em dia, menos do que nunca, se podem incutir a um homem opinioes feitas, introduzindo-lh'as por injeccao pedagogica. Ja Stendhal dizia que estamos n'um seculo em que somente sera escutado o homem que tiver opinioes individuaes. So os timidos, os preguicosos e os tolos e que teem como suas as opinioes em gyro. Ora as opinioes individuaes so se adquirem pela livre critica da opiniao da massa, que e indispensavel conhecer e tratar.

E o que ha muito tempo comprehenderam todas as familias reinantes acerca da educacao dos seus filhos.

Os principes de Orleans sentaram-se nos mesmos bancos com os filhos dos burguezes do seu tempo no lyceu Henri IV.

O principe real da Allemanha fez os seus estudos na universidade de Bonn. Seu filho o principe Wilhelm seguiu o seu curso na mesma universidade, tendo por condiscipulos o principe de Saxe-Meiningen, filho do grao-duque de Baden, e o principe d'Oldembourg. Os que passaram em Bonn de 1878 a 1880 viram esses principes, envolvidos com os demais estudantes, e vestidos como elles, de chapeu mole e veston abotoado, irem a pe para a universidade com a pasta de couro debaixo do braco, beberem juntos o _meiwein_ nos cafes, e passearem de sapatos ferrados e cachimbo nos beicos pelos suburbios de Bonn, em Godesberg ou em Heisterbach.

O principe Frederico Alexandre Carlos, hoje rei regente de Wurtemberg, fez os seus estudos nas universidades de Berlim e de Tubing.

O principe Carlos Alexandre, grao-duque de Saxe-Weimar-Eisenach, e alumno das universidades de Iena e de Leipzig.

O principe Christiano Augusto Frederico, principe herdeiro de Slesvig-Holstein-Souderbourg, e alumno da universidade de Bonn.

O principe Frederico Guilherme, grao-duque de Mecklembourg-Strelitz, e egualmente formado em Bonn.

O principe Ernesto IV, duque reinante de Saxe-Cobourg-Gotha, auctor da conhecida Viagem do Egypto, fez em Bonn um curso de philosophia e um curso de economia politica.

O principe reinante da Servia, Milao Obrenovitch, fez os seus estudos em Paris, no lyceu Louis-le-Grand.

Os filhos da rainha de Inglaterra foram educados nas universidades de Cambridge e de Oxford; e todos elles, assim como os filhos do principe imperial da Allemanha, sabem um officio. Uns sao lithographos, outros sao torneiros, outros encadernadores, outros typographos. Se vossa alteza houvesse aprendido um officio, como _As Farpas_ propuseram em tempo opportuno, vossa alteza teria obtido entao a singular aptidao cerebral que anda ligada ao mais perfeito desenvolvimento da coordenacao dos movimentos nervosos e musculares, e forrar-se-hia agora, na convivencia dos seus primos da Allemanha e da Inglaterra, a desconsoladora melancolia que sempre invade os espiritos inferiores em capacidade, entre os homens eguaes em condicao.

Os dois filhos do principe de Galles estao presentemente estudando na Suissa, com a simplicidade de dois jovens cidadaos da sabia e modesta republica helvetica.

O rei Affonso XII de Hispanha, o principe da Hollanda, o principe Eugenio Napoleao, etc, fizeram egualmente os seus cursos nas escolas publicas, conviveram n'ellas com homens de todas as opinioes politicas e de todas as opinioes religiosas, aprenderam a distinguil-os pelo seu valor pessoal, fizeram-lhes favores, receberam-os d'elles, crearam finalmente um circulo de affeicoes, ligadas as memorias da mocidade, e constituindo um dos mais doces e dos mais nobres encantos da vida.

Vossa alteza, que ate hoje nao teve ainda um companheiro e um amigo, conserva em folha um dos principaes instrumentos da actividade humana, o seu coracao, e n'elle, improdutivo e inutil, o capital precioso dos seus affectos desempregados.

Em um exordio sentimental que precede a exposicao dos estudos de vossa alteza publicada no _Diario de Portugal_, leem-se as seguintes linhas: _Sua magestade a rainha quiz especialmente tomar a seu cuidado seguir dia a dia com grande discernimento, e extremado cuidado a educacao dos seus filhos._ Deploravel, serenissimo senhor, profundamente deploravel, similhante intervencao! E realmente preciso que os pedagogos de vossa alteza abusem de mais do encyclopedismo da sua ignorancia na materia que professam para nao terem devidamente aconselhado sua magestade n'este importante assumpto.

A missao da mae na educacao do homem termina quando este chega aos quatorze annos. Charles Robin o disse. Ate essa idade sao os sentimentos que inspiram os actos, e e a mae que cumpre dirigir os sentimentos. Dos quatorze annos em deante sao as ideias que dirigem as accoes.

As psychoses, assim como as manifestacoes anathomicas e as funccoes physiologicas, caracteristicas da puberdade, encerram segredos que nenhuma mae tem direito de devassar na educacao de um rapaz, assim como nenhum pae tem direito analogo na educacao de uma menina.

Toda a mae que intervem fiscalmente nas legitimas curiosidades intellectuaes de um mancebo offende egualmente o pudor d'elle e o d'ella.

Nao sabemos se vossa alteza adquiriu ja a firme e clara comprehensao de que nao veio ao mundo trazido do Norte n'um cabaz ornado de topes azues e cor de rosa, ou achado entre as violetas do jardim sob uma folha de couve. Se vossa alteza chegou ja com effeito ao conhecimento da secreta verdade embriologica que destroe essa ingenua e graciosa legenda da sua meninice, vossa alteza comecou desde esse dia, pela subita renovacao do amor e do respeito a sua mae, a ser para ella o verdadeiro filho, mas cessou para todo sempre de ser o alumno d'essa senhora.

Desde que um homem entra no periodo da virilidade a mulher em cuja convivencia elle tem que educar as suas faculdades estheticas e as suas faculdades criticas e a sua noiva ou e a sua amante.

A personalidade sagrada d'aquella que nos deu o ser e preciso, para a honra, para a dignidade, para o encanto carinhoso da familia, que fique para sempre extranha aos processos pedagogicos com que cada um de nos arrancou da arvore da sciencia e mordeu com a voracidade dos reprobos o fructo delicioso e terrivel do bem e do mal.

O amor maternal e o anjo legendario do eden, que, perante a curiosidade scientifica do homem e do gladio de sangue que o expulsa da innocencia, cobre o rosto lacrimoso e se encerra eternamente na alvura immaculada das suas azas desdobradas e pendentes.

E e preciso que assim seja, para que um pouco de ceu fique no fundo do coracao d'aquella que nos deu a luz, e junto da qual e ineffavelmente doce para todo o homem ir, de longe a longe, dessedentar-se das amarguras ardentes da vida desilludida pousando os beicos com veneracao no cristalino veio abencoado de cuja corrente humilde e melodiosa, escondida no mais longinquo e mais ridente valle do passado, gotejou sobre a nossa infancia a perola da candura.

Considere agora vossa alteza os resultados em que a sua educacao comecou ja a fructificar.

Vossa alteza, na idade de vinte annos, continua a assistir todos os dias ao santo sacrificio da missa, e nao fez ainda a um companheiro ou a um amigo o sacrificio pessoal de um lapis ou de uma penna d'aco.

Vossa alteza frequenta ainda regularmente o tribunal da penitencia. Em periodos determinados o cardeal bispo do Porto vem ouvir de confissao a vossa alteza. Sua eminencia reverendissima recolhe no sacrario do seu peito a narrativa dos peccados que vossa alteza nao perpetrou e dos beneficios que vossa alteza egualmente nao distribuiu. Depois do que, feito o acto de contricao, elle o absolve em nome de Deus Padre Todo Poderoso, fazendo-lhe por elle a solemne promessa de um commodo e confortavel thronosinho rutilante de estrellas o espera nas alturas da Via Lactea para o dia em que vossa alteza resolver honrar a celestial mansao com a sua agradavel presenca, indo trocar um aperto d'azas com os anjos, que o esperam saudosos no Empyreo.

Para os effeitos celestiaes e evidente que nao pode haver melhor vida que a que vossa alteza tem, nem melhor morte que a que lhe esta destinada.

A unica coisa de recear e que a historia nao seja por ventura tao acommodaticia como a providencia, porque, no dizer de um outro padre mestre, o patriarcha Voltaire, a historia so diz bem d'aquelles que praticam o bem. Ella e de um desprezo incivil com todos os que delicadamente se encerram na missao discreta de nao praticar coisa alguma.

E n'esse bello socego que no tempo antigo se endurecia o coracao aos tyrannos e que ainda hoje se engorda o figado aos patos. Nao e porem com tal regimen que de ordinario se desenvolve nos homens o sentimento da responsabilidade, o espirito do sacrificio e o amor do dever.

E no emtanto as escolas de medicina, as escolas polytechnicas, a universidade, a escola naval e a escola do exercito trasbordam de uma mocidade, contemporanea de vossa alteza, a qual vae entrar agora no conflicto da vida civil e reorganisar a sociedade sobre a qual vossa alteza ha de reinar um dia. Do espirito d'essa mocidade, das suas tendencias, das suas aspiracoes, das suas vistas futuras, e vossa alteza em Portugal o unico homem da sua idade que nao tem conhecimento algum.

Creado no meio de cavalheiros de cincoenta a sessenta annos, conservadores e cortezaos, mais velhos ainda pelas suas ideias que pelos seus annos, vossa alteza so conhece do seu tempo os individuos que cessaram de tomar parte no movimento d'elle e pertencem pela sua immobilidade mental as geracoes mortas.

Vossa alteza chegou a maioridade; as cortes da nacao prestaram-lhe venia; em torno de vossa alteza quarenta ou cincoenta servidores, antigos militares, antigos ministros, antigos magistrados, beijam-lhe a mao em cada manha, fazendo alas, de dorso curvo e d'olhos no chao, para que vossa alteza passe, intemerato c magestoso, da sala em que lhe servem o seu latim para a sala em que lhe servem a sua merenda; vossa alteza e o herdeiro presumptivo do throno, e o regente do reino em nome do rei, e o senhor de Guine e da conquista, navegacao, commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India; e todavia nao e senhor de tomar simplesmente um bilhete de re no vapor da outra banda e de ir a Cacilhas, sem licenca previa de sua augusta mae.

Todos os dias a augusta mae de vossa alteza pede a nota das suas licoes, e, sempre que vossa-alteza nao decorou inteiramente o seu verbo, a excelsa soberana prohibe-o de se ir divertir, isto e, de ir a noite aos Recreios Witoyne entre dois homens de dragonas e de espada a cinta, como quem vae preso para o calabouco.

Quando porem ha graves negocios pendentes da deliberacao do poder executivo, medidas excepcionaes de administracao, tratado importante que assignar com alguma potencia extrangeira, ajustes de paz ou declaracoes de guerra eminentes, entao, quer vossa alteza tenha satisfeito as suas licoes quer nao, sua magestade a rainha nao se oppoe a que vossa alteza saia, porque vossa alteza e conselheiro d'estado desde os desoito annos, e sempre que os grandes negocios da republica se complicam, vossa alteza tem por missao deslindal-os.

Se coincidentemente com um conflicto politico nas relacoes internacionaes do paiz occorre algum erro palmar no thema de vossa alteza, entao a pena disciplinar de reclusao por negligencia no estudo e substituida pela privacao de sobremeza, afim de que vossa alteza corrigido como mau estudante, va ao mesmo tempo salvar a patria como bom conselheiro.

Alem de conselheiro d'estado, vossa alteza e alferes de lanceiros e e segundo tenente da armada.

E summamente extranhavel--nao o esconderemos--que honrando a carreira das armas por meio da adopcao d'essas duas patentes assumidas _in absentia_, vossa alteza nao honre egualmente as profissoes liberaes, dignando-se de assumir tambem algum diploma nas carreiras scientificas e litterarias.

Nao pretenderiamos que logo aos quinze annos de idade o tivessem feito doutor de capello e socio de merito da Academia. Poderiam porem com vantagem, segundo nos parece, comecar por nomeal-o associado provincial da Academia, por exemplo, e pharmaceutico.

Mais tarde, no dia em que vossa alteza celebrou o seu 16. deg. anniversario natalicio, teriam podido eleval-o a categoria de segundannista da faculdade de philosophia e a socio do Instituto. E assim consecutiva e progressivamente. De sorte que, hoje em dia, exactamente assim como e alferes do exercito e segundo tenente da armada, vossa alteza poderia muito hem--creia-o--ser socio effectivo da Academia e bacharel formado em direito.

Nao podemos tao pouco attingir as razoes mysteriosas em virtude das quaes vossa alteza nao foi ainda nomeado capellao. Dados os habitos de devocao de vossa alteza, nada mais commodo do que essa patente eclesiastica. A qualquer hora a que se levantasse para se entregar aos seus estudos, vossa alteza faria, a barba e diria a missa a si mesmo; e logo em seguida sem mais perda de tempo, vestido d'alferes, iria tirar significados.

Vossa alteza digna-se talvez de sorrir docemente a ideia comica de ser o seu proprio capellao ... Vossa alteza e extremamente bom e amavel em sorrir. Esperamos que vossa alteza tera egualmente o espirito sufficiente e a malicia precisa para comprehender perfeitamente que nao e, em rigor, muito menos padre do que e tenente de si mesmo.

Tal e, senhor, o absurdo grottesco da etiqueta corteza, na qual o obrigam a vegetar trabalhosamente como uma bella e rica planta de ar livre dentro de uma estufa podre.

Vossa alteza tem sido submettido aos rigores tenebrosos d'esse regimen no proposito de o tornar mais perfeito e mais feliz.

Esta succedendo a vossa alteza o mesmo que succede aos povos a que os reis procuram dar a felicidade por meio da tyrannia. Os povos agradecem, mas preferem o infortunio, porque o coracao do homem aspira eternamente a liberdade, e vae para ella com mais ou menos lentidao mas n'um esforco constante, como vae a crescenca da planta para a parte d'onde lhe vem a luz.

Ora como nos nao parece justo que para os povos se peca uma coisa, e aos principes se offereca a coisa contraria, toda a nossa opiniao acerca da educacao de vossa alteza se resume n'isto: Que o libertem! Para conhecer a realidade do mundo, unico fim serio da sciencia, e preciso entrar no combate da vida como entravam na lica os paladinos bastardos--sem pae e sem padrinho.

Os principes nao constituem excepcao a esta lei geral da formacao dos homens. Da educacao de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sahiram senao doentes e pedantes.

Na sagracao dos czares ha uma ceremonia de alta significacao symholica: o imperador nao se confirma em quanto por tres vezes nao haja descido do throno e penetrado so na multidao; e isto quer dizer que na convivencia do povo a auctoridade e o valor dos monarchas recebe uma tao sagrada unccao como a da santa chrisma.

Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.

Veja vossa alteza Carlos Magno, que so aos quarenta annos e que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educacao de camara comecou por fazer um poltrao. Aos quinze annos nao se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu emfim sobre si mesmo pela sua unica forca pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro comecou por aprender a manobra, servindo como grumete. Para se fazer militar comecou por tambor na celebre companhia dos jovens boyardos. E para reconstituir a nacionalidade russa comecou por construir navios, a machado, como official de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Tambem nao teve mestres, e foi comsigo mesmo que elle aprendeu a lingua allema e a lingua hollandeza. Veja vossa alteza, emfim, todos aquelles que no governo dos homens tiveram uma accao efficaz, e reconhecera se e na licao dos mestres ou se e no livre exercicio da forca e da vontade individual que se criam os caracteres verdadeiramente dominadores, como o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Ignacio, como o de Luthero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de Washington, como o de Lincoln.

Vossa alteza acha-se precisamente agora na grande crise de toda a sua vida, no momento psychologico da escolha entre a sujeicao a direccao inepta dos seus pedagogos e a reaccao da sua vontade para uma educacao nova, como a que deram a si mesmos Pedro I na Russia e Carlos XII na Suecia.

A proxima viagem e a occasiao propria, e a unica, para se tomar essa resolucao suprema. Vossa alteza tem ate hoje vivido no carcere da obediencia. Fazem-o circular agora pela Europa, de corte em corte, como um animal domesticado pelo snr Martens Ferrao e trabalhando a voz do snr Aguiar, dentro da jaula da disciplina.

E chamam-lhe a isso uma viagem! Mas nao e mais do que uma nova licao isso! a licao derradeira, fatal e tremenda, exaltando, confirmando e fixando do modo mais perigoso no espirito de vossa alteza os erros de todas as outras licoes funestas que lhe teem dado.

E preciso que vossa alteza se compenetre bem, n'este momento e de uma vez para sempre, como principe, como rei, como cidadao e como homem, para regra de todo o seu procedimento presente e futuro, quer de si para cima, quer de si para baixo,--que o regimen da obediencia e o systema da negacao do caracter. O homem so e um homem desde o instante em que, perante o conflicto da consciencia e da autoridade, elle aprende a ser um rebelde. A obediencia e a forma forrada de cebo ou de manteiga em que se molda a massa saponancea dos servis, mas em que perde o feitio, porque se quebra ou porque se esboroa, a nobre personalidade humana.

Submisso a vontade dos seus preceptores, vossa alteza ficara para sempre um principe de forma, pretensioso, apelintrado e piegas, bonito para ornar uma pendula barata n'um salao chinfrin, ou para se por em cima de um kake coberto d'assucar, em pompa de sobremesa, n'uma boda labrega.

Vossa alteza preferira de certo ser aquillo para que a simples natureza o destinou--um nobre ser vivo, um bello e forte rapaz altivo, inrelligente e honrado.

Em presenca pois da companhia obrigatoria e nefasta dos semsaboroes officiaes incumbidos de o guardar, vossa alteza, apenas transposta a fronteira, nao tem senao um d'estes dois partidos que tomar relativamente aos seus aios, pedagogos, camareiros e mestres:--subjugal-os a sua unica e exclusiva vontade, corrompendo-os: ou desfazer-se d'elles fugindo.

Encaremos com serenidade e firmeza cada uma d'essas duas solucoes.

A corrupcao do mestre pelo alumno tem sido por vezes vantajosamente intentada, com resultados satisfactorios para a rasao e para a humanidade.

Cumpre-nos sobre este ponto referir a vossa alteza o que succedeu com a educacao do fallecido marquez de Niza, um dos raros e derradeiros homens de espirito que produsiu a aristocracia portuguesa para encanto do mundo elegante na Europa e para horror e escandalo da corte geba e caturra dos paes de vossa alteza. A velha e veneranda senhora marqueza de Niza, avo do actual conde da Vidigueira fidalgo da casa de vossa alteza, tinha sobre a educacao do seu filho os mesmos preconceitos lamentaveis que affligem o coracao amantissimo da mae de vossa alteza. Para dirigir a educacao do joven marquez veio expressamente de Roma para o solar dos Nizas, auctorisado por um breve pontificio, o mais sabio e o mais veneravel dos monges toscanos. A presenca austera do abalisado pedagogo, a sua fronte pensativa e pallida, a sua longa barba negra esparsa no escapulario do habito, a compostura das suas maneiras, o recolhimento singelo do seu porte, a alta e preciosa cultura do seu espirito encyclopedico e a sua extremada devocao, puseram em todos os velhos parentes da familia um sentimento profundo de respeito, de veneracao e de confianca illimitada.

Nos intervallos dos exercicios litterarios e dos exercicios religiosos, quando o monge depois de haver feito a sua licao de musica, tomava elle mesmo a rebeca do seu alumno e accordava n'elle os primeiros sentimentos estheticos, tocando por sua mao um _nocturno_ ou um _tremolo_, era tao viva e tao pungente, sob a vibracao do seu arco magistral, a voz do violino, que nao so o pequeno marquez impallidecia, tocado de uma nova e extranha commocao mysteriosa, mas a propria senhora marquesa chorava, docemente enternecida, subjugada pela expressao penetrante da melodia que o grande artista, humildemente oculto sob a roupeta d'esse frade, espargia em torno de si n'um lento soluco orvalhante de perolas.

Terminada a educacao theorica, era preciso completal-a na pratica por meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abencoado por sua mae, purificado pela eucharistia e pela confissao geral, partiu para Paris com o seu preceptor.

Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus, parecia disposto a passar, sem solucao de continuidade, da innocencia de um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando o numero das contas. Os dois pocos de santidade tinham-se convertido em dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final uma carta do padre. Explicacoes evasivas, e rasoes debeis, com um perfume fortissimo de _patchouli_, que era entao o cheiro da moda, o cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu.

Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario para Paris. Mas nem esta suppressao violenta dos meios determinou uma mudanca sensivel em tao lastimoso estado de coisas. Para obter noticias positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de proposito a Paris o procurador da casa, e so entao se veio no conhecimento do occorrido.

O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne n'um gabinete do cafe inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maitre d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal, deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas a traicao pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e implacavel bigode.

Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes nao enviariam nem mais dez reis, o marquez tremeu. O padre entao ralhou, fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educacao do seu filho, para que tanto elle como o seu mestre nao estivessem perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.

E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braco e acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um theatro que os escripturou como violinos.

Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commocao capitosa da musica que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu braco com a galanteria de meridionaes as duas actrizes que por ventura se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam juntos beber a sua _chope_ em _partie carree_ na calmante frescura dos boulevards.

Os pedagogos de vossa alteza nao estao no caso do do marquez de Nisa. A nos, pelo menos, nao nos consta que o snr Martens Ferrao toque algum instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro sao rebeldes a arte, e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o arnez theologico do seu amavel aio.

E e preciso isso, a picada, da arte no intimo do coracao de um homem, para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos _gentlemen_.

Quando elles nao teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real senhor, e deixal-os ser o que sao, e nao lhes bolir. Incorruptos sao insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.

Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.

Parece uma bicha de sete cabecas, ao primeiro aspecto. Pura illusao! Le-se a historia de todas as evasoes celebres: e a coisa mais simples d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter uma pouca de terra para dar para feijoes, e vossa alteza tem diante de si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

Tudo mais e simples detalhe.

Convira apenas que n'uma estacao de bufete, em qualquer linha de caminho de ferro, vossa alteza, encontre a sua disposicao, do lado opposto a linha, um cavallo pronto e ligeiro.

Uma palavra telegraphica de vossa alteza a redaccao d'_As Farpas_, e _Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps, o esperara no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante, immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aco, de ventas altas, redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pes, prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.

Um pulo a sella, redea baixa, e avante! Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que rebente ahi assim! a jurisprudencia que desmaie! a chimica que caia para a banda! a etiqueta que estoire! A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza e livre.

Quem ousara constrangel-o, coagil-o, violental-o? Vossa alteza e verdade que e um principe, mas e tambem um homem, chegou a maioridade, e o unico e exclusivo senhor de si mesmo.

Todos os pavilhoes dos paizes livres,--da Franca, da Suissa, da Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da America--subirao desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua forca e de toda a sua gloria na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade sacrosanta de _touriste_.

Todos os codigos e todos os tribunaes do mundo estao abertos para lhe prestar defesa e homenagem.

Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a purpura as costas, a coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de noite na mao e um chapeu de chuva debaixo do braco, vossa alteza tem a sua disposicao, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus inviolaveis direitas d'homem provido de uma chapelleira e de um guia Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.

Se a corte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem impor-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto, chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

--Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal e a palavra da forca publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo civilisado.

Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, nao houve mais forcas humanas que o obrigassem a voltar a estopada do seu reino.

A nos outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente, como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdem de toilette e de maneiras, havia n'elle a distinccao dolente de um antigo sangue nobre, a alta aristocracia cancada e fastienta da preclara familia de Nassau.

Nao houve cartas regias, nem negociacoes diplomaticas, nem enredos, nem violencias, nem ameacas, nem esforcos d'ordem alguma que o levassem a demover jamais de Paris a sua mala grande.

Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as convivencias da _Maison Doree_, encontrou-se com Citron, de passagem, no foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abracou o filho pela cintura com effusao e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente: --O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo la para baixo para a Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a minha abdicacao, e vou ja la dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a.

Acceite os meus parabens.

Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou: --Espera-me entao aqui um momentosinho, que eu venho ja ...

Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz na rua Auber, firme e feliz na inveterada conviccao de que e melhor ser um _viveur_ morto do que um rei vivo.

Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um _entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os individuos que devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista, para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda, tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaco de Magalhaes para o levar ao mundo onde a gente se diverte.

Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em Paris.

Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas suas verdadeiras bases a educacao de vossa alteza? Nada mais simples! Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos e toda a gente. Vossa alteza fara sabiamente o que faz toda a gente que se instrue, isto e, comecara a aprender tudo aquillo que o trato do mundo em que entra lhe mostrar que nao sabe.

Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, as seis horas da manha; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaco galopar para o Bois de Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balao, e em seguida almoca no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de Franca e ouve a licao do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues a Escola de Medicina e assiste a preleccao do snr Charcot. Vae com os pintores ao Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five o'clock_.

A' noite--como se nao e principe impunemente--as conveniencias exigem a toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. E inutil dizer que se nao poem condecoracoes. So os porteiros, os dentistas e os prestidigitadores e que usam hoje esse arrebique de mau genero.

A noite convem a idade e a posicao de vossa alteza uma hora de conversacao mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillee_ n'um pequena theatro.

Um so dia d'estes prehenchera melhor a educacao de vossa alteza do que seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de Lagueroniere, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o snr Marlens Ferrao debrucado em cima do hombro de vossa alteza, a explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios antigos e dos gatos velhos, tao propicio as somnecas! De quando em quando sera util que vossa alteza va ao Bullier beber cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a um _croquis_ de impressao na floresta de Fontainebleau, indo em seguida provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.

Ouvira talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro tempo as _cortezas_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a ninguem.

Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio social o mais importante beneficio. Ella e o apparelho dispersor do dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a cocotte nao desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

De tempos a tempos la surge no horisonte um filho-familia, desolhado, casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e as burguezas romanticas de que uma d'essas mas mulheres o trahiu e o abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, a qual a perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

Se ellas nao tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posicao social que ficavam para a velhice os filhos-familias que se apaixonam por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de ficar ao pe d'ellas para toda a vida! Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces horripilado perante, este genero de conversacao. E certo porem que, se d'este mesmo assumpto Homero nao houvesse feito um poema, o mesmo snr pudico Viale nao teria hoje a _Illada_ para n'ella dar licoes a vossa alteza.

Para os reis insalubres, productos de velhas racas nobres, aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento excessivo do azul no sangue, sao frequentemente utilissimas as mulheres da categoria a que nos estamos referindo ...

(O snr Martens Ferrao contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha incommodado, e talvez melhor retirar-se, porque nos temos de continuar ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a _timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a deem!) A gloria do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se essa elegante e espirituosa mulher nao tivesse feito ao rei de Franca a alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidao enorme de coisas encantadoras, que enobrecem a civilisacao moderna, nao teriam jamais vindo ao mundo. A essa ligacao, providencial para a arte, devemos hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de Watteau, as _pates tendres_ de Sevres, as mimosas estatuetinhas de Saxe, os mais lindos relogios e os mais graciosos canapes do mundo.

Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est des notres!_ Ha fortes probabilidades para crer que de nenhum dos mestres de vossa alteza elle dissesse outro tanto.

Vossa alteza vae ponderar talvez que e bem destituida de grandeza, vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...

Ai de nos! a vida e em realidade assim, magnanimo senhor! Ninguem e grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam, das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus similhantes.

E binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao ramerrao passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando tornal-o, na orbita da sua aptidao pessoal, ou mais justo, ou mais rico ou mais bello.

Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra, impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a aspiracao immortal do espirito do homem.

E preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.

E preciso amar fora da esphera de todos os interesses pessoaes creados pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela profissao ou pela gerarchia. E preciso amar pela abnegacao e pelo sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. E preciso amar uma ideia, uma propensao da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressao da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset, Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fora da massa obscura do vulgo, e ser um homem.

Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo! Nao ha hoje em dia educacao especial para o officio de rei nem para outro qualquer officio. Ha uma instruccao geral e ha uma instruccao technica para cada modo de vida. A educacao essa e una e indivisivel.

Em todo o estado e em toda a condicao social o homem bem educado e um homem superior. O homem sem educacao, por mais alto que o colloquem, fica sempre um subalterno.

No regimen de liberdade e de iniciativa, em que comecam agora a viver as sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis mais solidamente equilibrados nos seus thronos nao sao senao os homens mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os moles principes dos reinos da Italia, que o avo materno de vossa alteza unificou, como em tao pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tao fortemente instruidos, das pequenas nacoes confederadas da Allemanha, e pondere como estes persistem na tradicao e na continuidade historica! Portanto, e em conclusao: Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na sua pessoa a patria um cidadao instruido; a humanidade um homem justo; a natureza um sadio e valente animal.

A seus paes, aos seus mestres e a sua corte, e doloroso mas e indispensavel que vossa alteza de egualmente aquillo que lhes deve:--desgostos! Esquecia-nos tocar n'uma questao secundaria, mas opportuna: a questao dos meios, na previsao de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estao a disposicao de vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redaccao, e nos abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justica e do bom senso, as despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma subscripcao nacional.

Poderiamos consagrar aqui algumas consideracoes as vantagens economicas que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio.

Desde este momento porem a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza poe em nosso labio o sello da reserva.

Faremos fervorosos a subscripcao.

O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macoco, e tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza nao e menos do que Macoco, e nos somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito so o outro dia e que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nos somos os descendentes d'aquelles que ha alguns centos d'annos descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe perfeitamente--nunca o mandamos botar a folha! Aos pes de vossa alteza.

_Ramalho Ortigao_.

As Farpas (Junho a Julho 1882)

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder, da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON

Sumário

A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella consta--Presente estado das ideias--A religião--A politica--A moral--A arte--Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus resultados--Dois annos depois--A celebração do centenario do Marquez de Pombal considerada como symptoma psychologico--Do estadista em geral e do Marquez em particular--Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo secundario na classe dos estadistas--Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot, Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e outros--Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama--Coerção da agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos direitos civis, coerção do pensamento--Arruamento geral de todas as actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da Baixa.--Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez--A estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço--Parallelo do cavallo e do cavalleiro--Pede-se o esquecimento para um e uma charrua

para o outro.

* * * * * Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em rigor definir-se do seguinte modo:--Ajuntamento fortuito de quatro milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_--e é exactamente o que é--mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é a ideia.

* * * * * Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que constitue a nacionalidade de um povo.

Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?...

Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada, n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

* * * * * Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de categorias diversas.

Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para esse fim.

Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de terra.

Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista, e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus se manifesta sob a forma de dedo,--o bem conbecido _dedo de Deus_.

Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da Baixa.

Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje desprestigiada e choca.

Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si dissidencias acrimoniosas de detalhe.

Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar, engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas, desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha, desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o que seja, deram o nome de _eterna essência._ Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras, com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo d'ella.

Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem muitas vezes a alliança da familia.

* * * * * Passemos á politica.

N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,--é evidente.

Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica, Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias, davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades, absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes, representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e para ahi é que elles não vão.

Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

São ainda--affirma-se geralmente--habeis parlamentares, o que quer dizer que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como estéril.

Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores, consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam, principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos de cabellos tingidos.

Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados, fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados, castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional, lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela separação dos interesses operou a separação das energias.

É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o effeito de si proprio.

Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa affirmação em evidencia de facto.

Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se chama--_a questão da fazenda_.

Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado, começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia--aliás desagradavel, cumpre dizel-o--mas de que elle, governo em exercicio, não tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos tem os outros dois! A corôa pela sua parte--e é este o mais augusto do todos os seus privilegios--é successivamente da opinião de todos os tres ministerios; e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam, por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit--por uma extranha birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo negativo, em uma não existencia,--augmenta sempre atravez das contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que passou no estado de consolidação para o saco de traz.

A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar de saco, ella cresce.

Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará, collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.

No emtanto o problema de augmentar a riqueza--unico meio de prover aos encargos--é considerado como absolutamente extranho á _questão da fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha ligado aos progressos da industria.

Ora emquanto á industria ... Mas este novo ponto pode ficar para outra vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:--a liga dos governados para o despreso convicto dos que governam.

* * * * * Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada á protuberancia de cada calo.

Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs--da moral publica e da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente latitudinaria--a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa, de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada, o interesse.

Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das transacções entre o homem e o infinito? Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas determinadas pela constituição do meio.

Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque, corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda correlativamente as sympathias dos individuos.

Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença, enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das orelhas, o rei disse-lhes: --Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados) esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio, elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira, decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração--o _stylo furriel dos batalhões da carta_.

Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos do publico? Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos insubmissos e o grupo dos domesticados.

Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta, para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa, e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas paginas de poema, de romance ou d'historia.

A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis barrigas, todas postiças.

Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados da Baixa.

Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as aventuras de telhado,--pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha, tremem-lhes as pernas, e acocoram.

Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal, Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica, nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade casta--_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é cynico.

Em compensação ha outros termos--os termos proprios de sociedade, que elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre--_do Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras, retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos incivis do gado vacum.

O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos, que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais profundas as nossas dissidencias estheticas.

Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.

Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem, rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas, que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._ Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua periodicidade, o burguez em espectativa exclama;--A canalha d'esta vez ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça! * * * * * De cima abaixo, como vêem,--na religião, na politica, na moral, na arte--esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a cohesão da ideia portugueza.

N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam como gotas d'oleo n'um papel passento.

No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía do repositório.

De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

* * * * * Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.--_E'a prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se elle ainda respira ou não_--disseram então esses homens ingenuos. E, sem receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:--_Vereis amor da patria não movido de premio vil_.

Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado, no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve eslas linhas.

Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas, ainda que immodestamente, o registam.

Foi essa a primeira vez--será provavelmente a ultima--que a redacção d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião, este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o desprezo dos seus similhantes.

As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.

Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um carcere.

Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,--a tristeza de ser só,--na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr verdades em evidencia.

Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_ pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É preciso uma broca.

As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica, indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se uma vez participantes no movimento do seu tempo.

Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario, publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu durante trez dias com trez noites.

--É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?--perguntava-se aos chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos nossos reis e nas estalagens.

A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem; reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos, os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar pela gargalhada as mandibulas do publico.

Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito, cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para cohesão social do espirito portuguez.

Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma poesia eterna.

A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes cidadãos nas crises de decadencia nacional,--um estimulo supremo de energia e de revivescencia patriotica.

Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e cobarde.

Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte pbrase: _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a philosophia da representação nacional portugueza no presente momento historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:--«A camara aguarda as determinações do governo.» A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

* * * * * Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões parecia poder-se deduzir: _Primeiro_--Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da nação, perdera por esse facto a rasão de ser,--o que de resto elle proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além do muito que já brilhava pela inanidade.

_Segundo_--Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

_Terceiro_--Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica assim como a ordem social e a ordem economica.

* * * * * Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria: _Primeiro_--Em minar systematicamente as instituições, approximando d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

_Segundo_---Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações, elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

_Terceiro_--Em confederar as corporações de todos os trabalhadores associados---duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao velho regimen de auctoridade inutil,--especie de iniciação pacifica e fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

* * * * * Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido d'essas soluções? * * * * * Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.

Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar um _troca-tintas,_ apenas.

N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro ventos do seculo.

Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia, Protectora dos Portuguezes,_--nova coisa que os do Porto abriram agora á gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a especie de contacto com o movimento social ou com os interesses intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma pudicicia de vestal velha.

Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias geraes.

Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de Melpomone.

* * * * * Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros dentro.--Truz truz truz! --Quem é? --Está em casa o governo? --Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.

ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as, explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as, estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem explique as coisas! Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram, desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de Serpa.

* * * * * Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o congresso das associações confederadas.

Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga, para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um symptoma culminante e preciossimo.

Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe canonisado pelo enthusiasmo popular.

* * * * * O marquez de Pombal é um estadista, um governante,--o que quer dizer--a mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

Buckle...--pois que é bom citar auctordades extranbas sempre que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos insuspeitos--Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva, foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa: dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é criminoso perante a historia.--Não somos nós que o dizemos é Bukle na sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da maquina politica.

Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo, depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento em que principiaria a ser necessaria.» Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.

E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das sociedades.

Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve: «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos thronos e os que compõem os gabinetes--toda a gente o sabe--são simplesmente os servos d'aquelles homens.» Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por Spencer.

Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por simples trabalhadores.

O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_ calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro, eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.

Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado? Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.

Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador Napoleão.

O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em produzir trabalho.

Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um modesto professor como Adão Smith.

Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e da fauna do mundo moderno.

Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós da _Declaração dos direitos do homem_? Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade de trabalho.

A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

Na Europa já não ha d'isso.

Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos governantes.

A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as precederam.

A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.

O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel Bernouilli, etc.

Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

* * * * * Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

Durante o seculo XVIII--diz Michel Chevalier--vemos successivamente passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.

Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro Campomanes e Florida Blanca.

D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier, deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal carece de originalidade.

Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional, reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu no governo das monarchias modernas.

As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._ Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor, da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão o penetraram inteiramente.

A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das alcovas.

Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro ministro na côrte de Lisboa.

Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego; suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução no seu paiz.

Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam ministrado.

O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao _tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II transfere para os membros das academias e das universidades a censura até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto, finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.

Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos; hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje não paga um _sou_.

Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.» A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem bens, nem crenças, nem opiniões.

O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe privilegiada.

Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões, todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo, desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que produzem e aquelles que consommem.

Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na prosperidade ou na riqueza, publica,--a companhia do Maranhão, a de Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar liberdade.

O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma cidade.

O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não reclame.

Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.

Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa; n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.» Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião--a d'lle, e o publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas, como se faz aos pudins.

Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.

José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do mundo civilisado.

A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.

No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas: ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte, sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a toda a área da ordem social.

De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o temperamento e a paixão.

Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha, taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,--o arroz, o vinho, a manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura, a philosophia, a historia, a moral e a canella.

A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima, vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para pensar, de cebo para resistir.

Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio do principe e escarmento dos subditos.

Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta traição.

O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora; assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens, perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal, morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada de pé descalço.

Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio! Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia, assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por um laço de fita.

E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem participado na aggressão ao principe.

Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos, despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e destruir.

É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.

Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.

No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça, Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753, como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.

Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas espavoridos e cegos.

Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira, unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira, o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.

A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum, em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra, em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas, seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.

Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.

Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.

A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o resultado de um equivoco.

Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos, minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.

Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses mesmos principios.

Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe retardar a queda_.

A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.

Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de fabrico.

A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.

Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na cabeça.

Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo secularisado todo o seu programma de poder.

Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V: _Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.

Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_, elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.

A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das formas de jesuitismo applicado ao ensino.

A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os seus alumnos nos domingos e festas de guarda.

Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á cepa torta da intelligencia.

Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.

O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de cada anno lectivo.

Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto maior será a confusão do seu cerebro.

A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão dogmatico ou metaphysico.

A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.

Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.

Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo, secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.

O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do quadrado,--com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o trambolho de chumbo que os afunde.

As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

O historiador snr Henri Marlin pergunta: «O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e da verdade.» O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.

A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez, incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de Carvalho--feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de cacete e uma espessura de baluarte--fez de Portugal á força de leis e de sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.

O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a casca.

Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de batina e a ovos molles.

O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente, escorraçava-o e perseguia-o,--que é sempre assim que os reis pagam aos plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo, a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação da minha alma, e assim não sei o que será de mim.» O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes, produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme--a obediencia geral.

Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.

Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar este personagem sem ideias nenhumas.

Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um contemporaneo do marquez de Pombal--o que aliás a chronologia parece demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel--nós permittir-nos-hemos contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.

José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com que nos governou o marquez de Pombal.

Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o pacto constitucional.

Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._ A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade, _creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a _liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa, Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que governos como o de Pombal lhe opposeram.

Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.» A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa: que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso moral da humanidade.

Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou a salvação do povo_.

A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet, envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade ingenita.

* * * * * Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.

Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar, terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em que é necessario que a gente se colloque.

Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira, em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo charlatanismo dos seus tyrannos.

O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres ainda de talento que de pudor.

Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de uma charrua.

Lisboa 10 de junho de 1882.

As Farpas (Março a Abril de 1873)

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de si mesmo.

P.J. PROUDHON.

Sumário

O sr. _Alexandre Herculano_, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.

As armaduras e as flanellas. _A Voz do Propheta_, geremiada de salão. A biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa, Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.--João Felix Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as equarissages.--O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e seus principios politicos.--A casa de detenção nas Monicas. O edificio, as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem se fazendo-se dezembargadores ou coroneis--As curiosidades infantis da Republica Portugueza--_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil: testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero e a nossa.--O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O Sport e o Lagoia. Perfil do _high-life_. Os srs. De Lagrange, De Mouchy, Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas tipoias vencedoras--Representação da comedia _Magdalena_. Os caracteres, os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.--Um anjo catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.--O leilão do espolio de sua magestade imperial.

O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de _Opusculos_ um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do illustre escriptor.

Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou 1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu, formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.

* * * * * Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de cera côr de rosa e olhos de vidro.

E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de _stick_ do primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois dedos de Proudhon e de um copo de Champagne! Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que, n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina _veste Bênoiton_ a que triumpha.

Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro, a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos, graças ás capsulas ferruginosas e ao _Rob Lafecteur_, podendo impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan, chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.

Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses, inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca--na attitude classica dos Abrahões de jardim--suspendem os seus alphanges, como poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta gerações de pardaes! * * * * * Aqui temos nós, por exemplo, _A voz do propheta_, cem paginas sybilinas, em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.

É uma especie de _Dies irae_--de salão.

Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado n'um figle.

Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da caveira de um cyclope.

A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende--ella, desvairada, tambem o não sabe!--mas pisa o tablado a largos compassos tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita natureza humana se desencarrega--ai de nós!--pelo nariz....

O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas palavras: «O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...» E conclue assim: «N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:--Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.» Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam contristadas e attonitas: Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o propheta _banhado em suor frio_ e _repassado de amargura_?! Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma o _ultimo clarão de esperança_? Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido directamente por Deus de _fazer resoar palavras de terror_, explica satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção, destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes consentissem penetrar o sentido da _Voz do propheta_.

A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,--a explicação da voz que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de morte para o povo e para o paiz, é que: A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das proprias ambições _as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque invejosas, espoliadoras, porque miseraveis_;» e Elle, o propheta, Elle, o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle era--cartista! * * * * * Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze, resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ ...»--é que naturalmente Deus era tambem--cartista.

E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia e de rhetorica! * * * * * Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande historiador: Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: _Vae_, o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe tivesse dito--_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a _Voz do propheta_. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio? Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina, authentico e legitimo? * * * * * Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos: Primeiro--Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo em relação aos documentos ainda n'elles existentes»--questão que se acha resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.

Segundo--«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.

Terceiro--«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»--especie de carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.

Herculano quer _um jurado especial encarregado de defender a moralidade, punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em offensa da moral_,--o que nos parece ser, sem a minima duvida, o restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano, sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.

Quarto e ultimo--Uma _advertencia preliminar_, na qual o autor explica que compoz a sua obra _com o fim de_--matar o tédio das longas noites de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos--no inverno pelo menos--são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue--a bisca sueca. O fim moral retira-se, havendo uma perna para o _voltarete_.

E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes! * * * * * Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto, firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que Michelet chama a _indigente correcção de Malherbe_: tem portanto as condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue, nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.

Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica da revolução, que essas conferencias propagavam.

Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «_La légalité nous tue_».

Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as _caixas economicas_, escondendo que a questão de coarctar a miseria não é de estabelecer o _mealheiro_ mas sim de crear o trabalho.

Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra, justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o pensamento ou de disfarçar a verdade.

* * * * * No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios, nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz, no bem estar e na virtude,--n'este momento supremo, um dos mais graves em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos--, um philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno, lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em Cartago e Attila nas margens do Danubio.

* * * * * Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido, desalentado ...

D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os annos nem os desgostos justificam? Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.

Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.

«Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda, e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica: «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo--por ter chegado! Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.

Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.

Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em substituição da vida artistica.

Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A padecer o que? Esta molestia:--a nostalgia da arte.

* * * * * A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é então uma lesão profunda e mortal.

O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo, publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes, amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais póde sem perigo retirar-se d'esse meio.

Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle, elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa, immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam, tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.

Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos, muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos! Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos? Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?...

São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.

Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos! * * * * * Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella! Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza, que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura; João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido, caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos tamancos das suas montanhas do Jura! * * * * * Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato, restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.

Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são absolutamente indifferentes á humanidade.

Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella, radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo d'elle uma força moral.

Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos com o seu desalento.

Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso contentamento de uma alma perseverante e forte.

Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o; ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa, a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na luz.

São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço maior do que escrevel-o; é calal-o.

* * * * * Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons, bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.

Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio plebeu.

Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que escreveu o _Cantico dos canticos_ e edificou o templo.

* * * * * Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.--É a logica do absurdo.

* * * * * A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores uma, idéa da obra.

_O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia, virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores, chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte Palatino_ ...

Tal é Eutropio--traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez--se por ventura houvesse alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix, qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil, agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade! Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios--medico, engenheiro civil e agronomo--vós, que sois na sciencia o mesmo que são na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!...

Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso João, ó feliz Felix.

Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas equarissages litterarias.

A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos sertões.

A verdade é que ninguem vos entende.

Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia; ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus, interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos ... Tudo isso, ó João, antes, mil vezes antes, do que procurar entender-vos! * * * * * Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros: POR JOÃO FELIX BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS SEGUNDO DARWIN E LAMARCK * * * * * O _Tribuno Popular_, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D.

Fernando, escreve estas linhas: _«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello, emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes, entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem os espectadores nocturnos que os escutavam.»_ Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!» Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por Melicio?...

Por Deus! que o _Tribuno Popular_ nol-o diga! Queremos pedir para o peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago.

Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios ... Oh! nós conhecemos a fidalga bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois: _có, có ró, có!_ por Lisboa agradecida.

* * * * * Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos.

* * * * * Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão: Tinham commungado os presos.

* * * * * Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões portuguezas--quando os presos não commungam.

Nós visitámos a casa de detenção--antes da oitava da Paschoa. Eis o que vimos: * * * * * Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde.

Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio.

Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos que apanharam chuva.

Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos em um estreito pateo interior, na sombra--porque tambem ali não chegava o sol--frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos--como um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos, anemicos, tristes.

Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada.

As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão, coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que passavam os domingos.

* * * * * Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho, extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes ensina.

Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina moral.

Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.

Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um capellão, um perceptor.

Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a benzerem-se.» Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar feijões e arroz.

Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem.

Nunca bebem vinho.

O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o _menu_ da enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de correcção! * * * * * Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito camas e uma latrina.

Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.

Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol.

Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que, sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da sua auctoridade por isso que, concluiu elle, _quem dá o pão dá o ensino_.

Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de sua mercê.

* * * * * A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos basta, é que esse director ganha--cinco tostões por dia! * * * * * Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra que possa alterar a exacção rectilinea do quadro! Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem d'aquelle a que nos referimos.

O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal.

A opinião obedece-lhes.

* * * * * Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria.

Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da hygiene!...

Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas, de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio, de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas.

Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia entre os dois travessões de que fallámos.

Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas, custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000 réis.

Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das Monicas.

Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos e quinhentos mil réis! * * * * * Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento portuguez quasi tudo o que existe é erro.

Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim hortelões e jardineiros.

Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,--as noções mais essenciaes á vida.

Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem rapazes em marcha faz d'elles cem homens.

Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento, levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida pelos seus similhantes.

Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente, deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim um emprego elevado e digno do seu tempo.

Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas, embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.

Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser obrigados a rachar lenha ou a britar pedra--os exercicios mais saudaveis para os musculos de quem está parado.

Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os principios oppostos aos principios verdadeiros.

Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o hospital, ou para o cemiterio.

* * * * * Uma derradeira observação: A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são cumplices do crime de vadiagem.

Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho? Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios? Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros? Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã, desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que está inteiramente no seu direito. É um innocente.

Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio.

Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle deseja saber é o seguinte: O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe prohibe ser o que é.

Espera-se resposta.

* * * * * A _Republica Portugueza_, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e dirige-nos as seguintes textuaes perguntas: 1.ª «A redacção das _Farpas_ quer a resolução do problema economico, quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica é insufficiente para garantir o direito?» 2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois seculos?» * * * * * Temos a honra de responder á _Republica Portugueza_: 1.º Aquillo que a _Republica Portugueza_ chama a _formula politica_ não é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras, no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o.

Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na Revolução, está apenas na inepcia.

2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a _Republica Portugueza_ quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a _Republica Portugueza_ não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos: «Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a _revolução_--tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem revolucionarios.» Ora aqui tem a _Republica Portugueza_ como ha quem imagine, a solução dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa licença da _Republica Portugueza_, foi Proudhon.

* * * * * Depois de nos fazer as suas perguntas, a _Republica_ tem a bondade de nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações que nos faz.

* * * * * O folheto brazileiro intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares, tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração portugueza para aquelle imperio.

Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam, nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos pés triumphantes d'este sympathico patriota.

Como, exactamente pelo contrario, São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de ridicularisar o grande imperio,--o que se parece demasiadamente a nossos olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que mentimos, Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe sentir, em algumas linhas rapidas, que as _Farpas_ não são inteiramente uma creação poetica e phantasista.

Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser _As fabulas de Florian_, nem tão pouco os _Contos de Perrault_.

* * * * * Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: _A producção e o commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria_.

* * * * * Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações acerbas, conclue assim: «Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho, o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc., porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas, manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.» Quer isto dizer: O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como a proporção existente entre a exportação e a importação no seu mercado--com uma simples condição--e é: que se lhe concedam alguns pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo, da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos ... Nada mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as substancias alimenticias, como não sendo--substancias alimenticias.

Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto, espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto: que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples _producto de gutta-percha!_ o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja ...

puros _tecidos de algodão!_ os queijos, os alhos, as cebolas, os figos, as passas ... mera _perfumaria!_

Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90 habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali existem são na proporção de--1 para 3:021 habitantes _livres_; além do que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e sociedades sabias, entre as quaes _As duas palavras aos leitores das Farpas_ nos citam as seguintes: _associação commercial, sociedade musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação typographica, instituto pharmaceutico_, e finalmente a famosa _associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim

promover o melhoramento da raça cavallar_.

É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes _livres_, e vinte _sociedades sabias!_ Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do _jockey-club_, encarregados do melhoramento da raça cavalar! No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras palavras extrahidas de um _Retrospecto commercial de 1872_, publicado no _Jornal do Commercio_: «Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que apertada em um circulo estreito.» Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um circulo estreito.» Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e Avé-Lallemant, acha bem o auctor das _Duas palavras aos leitores das Farpas_ não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo, informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de Janeiro.

Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As _Farpas_ não fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.

Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro estabelecimento do mundo.

Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão--em pleno uso das suas faculdades.

O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota alienado,--como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial para o receber--é recolhido na cadeia.

Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do estado da civilisação na sua patria.

* * * * * Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.

Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha resumida nas seguintes datas que extrahimos do _Livro Branco_: Em 7 de junho de 1859--começa a negociação o encarregado de negocios interino no Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno--prosegue o sr. Mathias de Carvalho. Em dezembro de 1871--principia negociações para um egual tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de 1872--terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872--é assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção postal, nem a convenção litteraria! Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho--a sr.ª Emilia Adelaide.

* * * * * Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, aos leitores das _Farpas_, e ao mundo, o seguinte: 1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes, entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus, Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, por um patriota brazileiro ... e anonymo! 2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos _syllabus_ do Catete ou das _bulas_ da rua do Ouvidor?! * * * * * Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.

* * * * * As «corridas» do Campo Grande--Extraordinario successo de dandysmo! Não assistimos, mas lemos que esteve o _high-life_, o famoso _high-life_, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar! Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no Campo Grande, em volta do lago--o _high-life_ ...

A aristocracia nos seus _landeaux_, com enormes cocheiros gordos, de barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.

A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis, empoados, descobertos, com os tricornes na mão.

Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz _truffada,_ repimpados em _daumonts,_ com uma _carvajal_ nos beiços e uma marta zibelina debaixo dos pés.

A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a pelle especial dos estranhos climas do _cold-cream,_ da decocção indiana aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e de _ess-bouquet,_ dentro dos seus _broughams_ ou em pequeninos coupés de flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um ramalhete de cem francos ou um microscopico _kings' charles,_ descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III trazia mettida na manga ...

Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os postilhões, as _victorias_, as _americanas_, os _poney-chaises_ ... os _grooms_ em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os _sportmen_ em _breaks_ ou em _dog-cart_....

Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia.

Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.

Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos ditos que partem do fundo dos _coupés_.

De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer, e encontram-se os olhares que fazem scismar.

Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno, calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes, languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.

As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas e dos cantos de Ossian.

Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes aerias de volupluosidade indefinida.

Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam, ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na opera, os fofos _coupés_, os quentes _cachemires_, e os finos jantares.

Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo dinheiro illimitado ...

E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os cavalleiros passam, e as _toilettes_ scintillam, a pobre natureza ao longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de Malines! Tal é o perfil das «corridas»; tal é o _high-life_.

Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o crêmos.--Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao _Collete Encarnado_.

Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da praça.... _Alea jacta est!_ Elles partem nos seus fiacres, ao trote.--_Montjoie et Saint-Denis!_ O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.

_Hurrah!_ * * * * * Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias! Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia! * * * * * Hontem no theatro de D. Maria--primeira representação da _Magdalena_, especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas ás curiosidades do _chic_, na Baixa.

* * * * * N'este drama ha tres typos principaes: _O amante_--Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro--de Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico--sob os symptomas lancinantes e urgentissimos da colica.

_A noiva_--Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões, não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama finalmente senão uma coisa--o talento!... Pobre rapariga! desditosa burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!... a divina inspiração!... o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa, humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a _toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça: _A amante do noivo_--Uma actriz que foi educada no convento com a noiva o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento, com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma _lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_; celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias, em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de _pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz extravasado.

_O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,--de sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer perder aos outros.

O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno cáe.

* * * * * Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.

O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta _ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.

Pois bem: é essa mulher que se vae embora--notae-o bem, minhas queridas burguezas!--é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós, está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.

O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e sairdes com elles.

Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas derrancado ou extincto.

As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle, serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca luctar.

Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de Saxe--inalteravel mimo de galeria ou de étagère.

Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.

Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas por dia.

Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o vicio.

Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados, quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam--por enjoar a virtude.

Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.

Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem as escadas das casas em que ha mulheres honestas.

E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...

Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os dramaturgos! Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por discutida?...

* * * * * Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados os nossos antecessores.

* * * * * Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.

Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,--á marquez de Pombal.

Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte, esse Luiz XIV de caserna.

Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa, guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.--O que quer que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do genio! As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres--tudo bronze, macisso, pesado.

As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.

Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho, enche os salões e vae deitando os lanços.

O pregoeiro--_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_ Um adelo--_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim, porque é de mosaico!_ Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.

Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.--Extranho espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso! * * * * * Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.

Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.

Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.

N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.

Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.

Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria--uma visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo, marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes, decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do _Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena: ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.

E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão os principios politicos de suas excellencias os executores testamentarios da fallecida soberana.

Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....

Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma senhora.

Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias, que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens--a constipação intestinal dos principes! * * * * * O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz fallecida.

O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o valor de cada coisa.

S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade! * * * * * Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce consolação--tão sensivel ás almas sublimes--de receber duzentas libras a maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã--como mulher e como rainha! * * * * * Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada, embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso throno,--tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa cova aberta,--fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia: «Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado--por trez mil e seiscentos!» * * * * * SCENAS DE RELIGIÃO.--Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte: «Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do Santissimo d'aquella freguezia.

«Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de estrellas de oiro de lindo effeito.

«Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes, e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites de senhora.» * * * * * Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.

Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.--O amor dos corações puros e das consciencias boas! Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo effeito! Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo Ignacio--_incorporeas mentes_--com esta descripção que o _Diario Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos! Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel, Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo anjo--Almeida Fernandes?! Como ficarão vexados e humilhados no Céo--os outros--quando o cherubim Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos homem a imagem da caridade! Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador! Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes--no Empireo! Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.

Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino, acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado em Deus ... de filó! E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira: Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós--para nos tomar medida. _Amen_! * * * * * Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas entendem os principios do direito perante a revolução.

Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_, periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os direitos do povo.

O _Pensamento Social_ diz assim: «Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.

Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu: «Companheiros e companheiras.--Declaro-lhes que cada vez que tenho de entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.

Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos, porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com pancada.

«Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não, que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.--_Palmira da Conceição_.» * * * * * Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é uma pequena nossa senhora apparecida--da fabrica lisbonense de fiação e tecidos! Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o actual anjo Almeida Fernandes--nas festividades populares.

* * * * * Ha pequenas differenças: O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres sociaes._ O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro inquieto de Alcantara.

O anjo caminha gravemente--enfunado, crespo de folhos e de rendas, como um peru armado--a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica _Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o mundo velho.

A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence, mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na futura organisação social.

O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.

A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação e de erros de prosodia.

O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.

Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.

Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

O trabalho--bem o sabemos--é uma coisa augusta e sagrada. O commercio--desculpem-nos os senhores proletarios--é tão sagrado como o trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.

Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha, para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento Social_, orgão das classes operarias.

* * * * * Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece perfeitamente logico este jornal.

Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada temos que objectar.

Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte: Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas, associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em fabrica, levantar os cortumes.

Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o _Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.

* * * * * Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos burguezes--deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios--são na actual organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon: «Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.» * * * * * Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe pôr brincos.

Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ...

Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens--as genuflexões, o incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico--pela verruma! Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos! Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos! Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa Caetanos, 30, Lisboa.

As Farpas (Novembro a Dezembro de 1882)

Sumário

Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de

faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

* * * * * «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....

Está approvado.» Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

* * * * * Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma venia e diz: «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz, digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!» E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

* * * * * Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da oratoria sacra.

Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e para este effeito invisivel.

Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta, tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem com as marionettes.

N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte: «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de accordo.» Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas para approvar.

* * * * * Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos! Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a herva crescer.

* * * * * Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros perigos, apertando-se de mais com o fiado.

Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em nossas intimidades com o Divino.

É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito divino.

Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda no espaço, Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de apoplexia.

Acontecem d'estas ás vezes! Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera terrestre.

* * * * * O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja, pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e d'hostias quotidianas.

Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

* * * * * Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba, abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

* * * * * O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já, por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos cherubins no gallinheiro celeste.

* * * * * O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da parte do snr. França Neto.

Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um simples ciprestal sentado,--com defluxo.

Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.

Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

* * * * * Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é, a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está morto, e nunca mais resuscitará.» Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela religião.

Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por decretos ou por castigos humanos.

«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós, entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a deem em toda a parte onde fordes escravos.» Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.» * * * * * Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na historia das ideias clericaes.

O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a liberdade.

Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a _liberdade da sciencia_.

Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.

Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da civilisação.

Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no gremio da egreja.

N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais liberaes, julgaram impossivel transpôr.

* * * * * Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

* * * * * A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a todas as sessões.

Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim as adhesões da mulher? Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre d'aldeia e o padre de sala.

* * * * * Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os aventureiros e os mysticos.

Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos pretos do que elles são.

Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões inhospitas e selvagens.

Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para o outro: --Saboroso padre! benza-o Manipanso! * * * * * O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e estonteadores.

As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila no arraial.

Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte, saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

* * * * * O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres, onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o boleeiro, o creado de farda e a preta.

As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso dos seminarios.

É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas: --Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto chão! E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_ --Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo! Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga: «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.» Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação, posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

Alguém á noite pergunta: --Que é feito do padre João? E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto, responde lentamente: -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por meio de uma ligeira admoestação corporea.

--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado! --Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi pelo lado _cunhos_.

* * * * * De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e pecaminosa.

Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles foram manufacturados.

* * * * * Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que, apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes! Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes de Castello Melhor. Que contraste! Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.

Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas, por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido, trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito e a pratica da devoção.

O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se vae para padre, isto é, por simples estupidez.

Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

* * * * * Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que debalde, transformal-as em obras.

Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço, lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o infestam, sevandijam e conspurcam.

Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.

Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições vigentes.

O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas de pistola.

Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres dos seus compatriotas.

Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá: _A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de consternação em que todos se achavam_.

E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza profunda de tão excelso quão sensivel principe.

* * * * * Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano, se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós ousariamos formular humildemente uma debil pergunta: Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não têem os povos egualmente? Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis como os reis choram pelos seus bons subditos? Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz a queda de um honrado cidadão que morre? Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é perfeitamente a mesma coisa! Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que acaba de passar o seu coração generoso e paternal! Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes, quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e das proezas do tiro ao alvo.

* * * * * Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista, os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade, tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

* * * * * A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da banca e o dos parceiros.

O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei, elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores, mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim _algum dinheiro e mobilia._ Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos e desapercebidos.

No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para as jogatinas.

Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder discutir com ellas sobre esta questão.

* * * * * O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da Senhora da Luz.

No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro circulos concentricos.

A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das apostas.

Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas, particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em que scintillava um olho de gato e um rubi.

Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas que tinha mais proximo de mim.

Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas cartas que em seguida sahia do baralho.

Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei 100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o trez de espadas que se achava na mesa.

Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a direita ou para a esquerda das cartas.

O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro: --Mata o rei? Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme: --Mato-o, sim senhor! Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das cartas 3$000 que tinha posto.

O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso que comprimia nos dedos.

A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma parada egual á minha.

Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo bem caracteristicamente mediocre.

Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma recebida n'esse mesmo dia.

Fiquei na batota até pela manhã.

Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã pautava luminosamente d'azul.

Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados raivosamente pelos pontos.

O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e o collarinho esverdinhado de transpiração.

O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas convulsões da bronchite.

A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.

Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir d'ali embora sosinho.

Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um sovaco.

--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz estrangulada.

E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós os olhos torvos! --Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da janella.

E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso: --Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000, para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a modo que me está a appetecer isso, a mim! E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras, remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o sempre velados pelo mysterio.

* * * * * Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada batota! Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém, que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse solto.

E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal assalta e sequéstra as batotas! Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da chalaça! * * * * * Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro _Frei Bandalho_.

Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á vulgarisação da litteratura jornalistica.

Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o _Bisborria_ e o _Pulha_.

A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

* * * * * S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de _Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.» Inclinemo-nos com reverencia! Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

Tornemos a inclinar-nos! E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos meiados do decimo setimo seculo.....

Prostremo-nos por terra! * * * * * D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte: «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul, impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello, pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do conde de Sabugosa.» É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a pena de experimentar....

De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos os gostos d'horta ou de capoeira.

O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

* * * * * Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos de escamas de corvina.

Tambem folgamos muito com isto.

Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das artes do desenho.

Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de suas boas mestras!

Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor Leopoldo! Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos

estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

* * * * * Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis aprehendidos.

O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.

Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que empalmou do bolo.

A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais propriamente--uma _vacca_.

* * * * * Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes, implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos baralhos.

Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente gracejo_.

O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser chamado a resolver questões d'olhos.

Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena que entre esses dois amantes se passou! O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e ironica: --Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho! se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não! E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

Oh! amor!... amor! Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito jornal o serafim a que nos reportamos.

Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em juizo.

Diz o jurado: _Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o ôlho á queixosa?_ Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo XVII pelas damas illustres.

Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta obrigação d'este é por-se de rôjos.

* * * * * Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas, terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de Bragança Junior.

Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia da patria.» Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio a descobrir que ella era unicamente um lenço.

Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

* * * * * Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do moveis artisticos.

Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta senhora.

O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao desafogo de alguns commentarios.

* * * * * A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.

Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.

João v.

Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos ferros-velhos.

* * * * * É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas, alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

* * * * * Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta quanto talvez ephemera.

Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe, definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e bem dissolvente! Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta _nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora! * * * * * Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que foi victima o mais bello gato de sua magestade! Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da real camara a raparem-o á escovinha.

Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito! * * * * * Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a reconhecel-o e a lamental-o.

* * * * * Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente, diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções archeologicas.

* * * * * «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.

Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da nação portuguesa!» * * * * * Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em pé outra vez.

Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje, se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no primeiro repente gostamos d'elle.

Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa, nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece, estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu! Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em ninguem.

Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os peiores de todos! Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados, prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora e o arcebispo de Bragança.

O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é que é fazenda.

Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é gallinha! Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o _Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do exercito das trevas_.

Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres melros. Rua, que é a sala dos cães! Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos, escusa-se de bispos.

Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim? E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.

Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...-- Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a _Nação?..._ Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções que ha pouco demos á nossa cosinheira: --Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

* * * * * Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais propicio para cardinalisar Masella.

Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha, encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

Oh! não.

Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na distribuição dos barretes phrygios.

O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito tostões e meio.

De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro, presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse dizer em tal conjuntura: --Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

* * * * * Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

Eis o caso: * * * * * Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava pessimos alguns dos bispos propostos.

--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca, desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião precisamente opposta á que eu tenho!?...

--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.

ex.ª me consultava....

-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam, _quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e liberrimo governo da nação portugueza.

--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho e snr, agora, o vereis! _--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional, monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...

Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...

Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim? Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

* * * * * Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada folha: _O nuncio desacatou sua excellencia_.

Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos periodicos ministeriaes.

_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou um calor_.

* * * * * Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por occasião d'este jubiloso successo.

* * * * * E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem, nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas, incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem, de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão? * * * * * Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima, que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres pensadores?...

Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas: Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso, prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês! Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino? Vejamos, sinceramente: Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem confessar mulheres?...

Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais a fallar n'isso.

Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados, que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos? Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo: --Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os bispos.

Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo! * * * * * A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato republicano de opposição ao governo.

Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

Parabens a sua excellencia! * * * * * Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia, passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do Carnaxide.

Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados gorgeios.

Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo magestoso acima do narravel.

Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da vida em direcção á faia virente.

Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco ao lado.

Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para as nuvens, exclamou: Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos negocios do reino.

Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão! E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a exprimir-se em prosa: --Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano? Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de penna e de governação.

Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um brando meneio para o pendôr da collina, perguntou: --Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na quebrada da serra? E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de Nossa Senhora Apparecida, --Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes _Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao templo!...

Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via publica: D. Miguel foi á Sé, Sentou-se n'uma cadeira, E disso para os malhados: Esta perna está inteira! Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram submissos em giolhos.

E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez repetir aos montes e ás hervinhas: Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes de nunca ter visto Lisboa.

Gloria pois a s.ex.ª! * * * * * Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

A patria explorava-o e ria-se d'elle.

Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o agraciou a regia munificencia.

Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio extrangeiro.

Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente, instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

Lisboa 15 de dezembro de 1882.

_Ramalho Ortigão._

As Farpas (Outubro a Novembro de 1873)

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. Proudhon.

Sumário

Regresso. Explicações--Historia de uns pés--Modos de morrer. Os Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni, Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na politica, na sciencia, na religião. A tolerancia--Festa veneziana nas

aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.

Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados, as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia philosophica dos pontapés nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.

Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia, o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é anemico--O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica--O drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes patrioticos.

Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de tres mezes--os mezes do verão--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a que recomeçam a servir-se tambem as ostras.

Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

* * * * * Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria, supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.

Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.

Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.

Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente: vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da recreio, com os seus amigos, comer um safio! * * * * * Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente recemnascido para a trincadeira nacional.

O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.

Cada um dá o que tem.

A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.

Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não, porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.

De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.

conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de «_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!» Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do gargarejo.

* * * * * No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.

Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.

No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.

Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado--nas caixas das rebecas.

Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar, os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as malas.

Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe pedido as chaves dos pés! Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito, embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um momento, elle então, compadecido--levanta-se.

Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os pés.

Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.

Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle cantava nos pequenos palcos?...

Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um pé só.

* * * * * Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que, officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

Bem feita coisa! * * * * * Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi, para não pôr em equívocos a celestial etiqueta! * * * * * É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão de bom gosto! Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do Padre Eterno.

* * * * * O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções, o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.

Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, sob as folhas dos nenufares.

Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel systema nervoso da monarchia e da constituição.

Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a outra parte.

Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da companhia?! Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados, agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito! * * * * * O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.

O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro horas.

Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.

É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas do que as republicas.

Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.

Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

* * * * * Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das pratas.

* * * * * _Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_ Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr--taes como o dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_; depois: _vinde commigo_.

Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne, a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o entendimento e a alma das lepras mundanaes.

Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut stercora_, como muito bem disse S. Paulo! Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as vossas alegrías celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._ * * * * * Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes _catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--_catholica_? Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de religiões?...

Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da sciencia?...

Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.

A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal, começava no emtanto--por festejar o S. João! Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa, então--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, de presumpção de merecimentos.

Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa, e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima! * * * * * Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas, lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca fé, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião, era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso escriptor.

Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios, eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para conseguir o seu fim.

* * * * * Que pretende a associação catholica? Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque Portugal, é por emquanto independente e livre.

Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não, porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se satisfatoriamente moralisados e instruidos.

Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não, pelas razões seguintes: Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça com o seu grosso marmeleiro argolado.

O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o, inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.

Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a _Nação_, e quasi sempre é rico.

Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação Catholica influe, aconselha ou dirige? O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre ultramontano.

Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.

Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, o sr. conde de Samodães apparece.

* * * * * A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais inviolavel e de mais sagrado? Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.

Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!» Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão os homens? Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da _Illustração_ nem um album que se folheie ...

Estranha perplexidade! Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um _fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve dissertação sobre os novissimos do homem?» Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo: --«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.» * * * * * Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e não os discutis.

No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios, entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis no racionalismo heretico.

No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e prostrar-vos na penitencia e na oração.

Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos bons.

Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, passando, esta palavra séria: Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu, para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade é uma religião.

* * * * * Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.

Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e os senhores liberaes tambem se não retiram.

Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a _Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.

Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um _Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.

4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do Porto! Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas aos seus adeptos.

Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade e sobresaltar o paiz.

É singular esta coincidencia: O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...

Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção dos poderes.

Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a egreja catholica como um perigo para a liberdade! No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo scientifico moderno.

Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.

Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os nossos dias.

O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda o scepticismo de que a tolerancia é o fructo! Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.

Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito para o absoluto.

O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.

Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu á mecanica e Lavoisier á chimica.

Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo, progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da liberdade; na religião o precursor da tolerancia.

Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, de adorações e de preces.

* * * * * Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem, illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O jubilo era indescriptivel.

Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de Caparica.

O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que chega.

Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.

Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas, estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram outra vez--os primeiros.

Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão, tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral, começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

Era immenso a bordo o desalento.

Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem, recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem chegado todos a terra--pelo avesso.

* * * * * Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado jurisconsulto e procurador geral da corôa.

* * * * * É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em que condições, em que circumstancias, em que especial momento da preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.

Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de sua alteza.

E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.

A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame: «Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.

Martens Ferrão de engonsos.» * * * * * Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata, popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação, pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e complicada navegação da vida.

Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.

Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula neutra.

Como diziamos, pois, tal é--el.

* * * * * Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não! É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?! Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza inexperiente e inerme d'_el!_ ...

Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos! Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas! Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o medite! De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos _boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa! Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios possam preservar os principes dos perigos das suas ligações clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na propria convivencia legal das mulheres legitimas! Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.

* * * * * Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.

* * * * * Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes, uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem a fazer-lhes directamente.

Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento supplementar de metterem as facas pela bocca.

... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e comem as facas--sem peixe! Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes predilectos--os faqueiros.

Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a

Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.

O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente, escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e de madame de Sevigné.

* * * * * O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir na rebelião contra o governo da Alemanha.

D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos confortos policiaes.

O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro, elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.

E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a christandade! Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de Lambert.

* * * * * A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao constitucionalismo monarchico.

O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe, pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para que missão o invoca.

Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual, culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho, para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do propheta Samuel.

N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.

Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit jus regis qui vobis imperaturus est_.

Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e um gibão roto nos cotovellos! Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um _entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte, até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle.

Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de baixo.

Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé? A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.

N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que é? Pois bem! É a benzina! * * * * * A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o authentico manifesto politico de um principe proscripto.

Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples traço encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,--o que nos parece de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.

Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio da nossa raça! Que degeneração! O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava, com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação, comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador, o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde, a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.

O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.

A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o partido liberal portuguez.

Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_, foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_, figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes concentravam-se.

Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia! * * * * * Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.

Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira Martins.

A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos, não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.

A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas inteiramente fóra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.

O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade, a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.

Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da politica da sociedade moderna? Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_? Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema representativo? Não nos parece.

O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas, não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.

* * * * * É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata, tão viva, tão humana: «Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza da fabrica--_manufactura de algodão e de pobres_--não pode servir-nos. O não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, se funde a feria? A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na _fabrica_ ...» * * * * * A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que, pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.

* * * * * Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.

Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira medica.

A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.

Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.

Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.

Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.

A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.

* * * * * Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se dignarão responder-nos.

* * * * * O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do presente inverno com um jantar _prié_.

Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.

marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.

É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação finalmente, com a idealidade, com o espirito.

* * * * * Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar, tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau, procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos; sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres--ellas que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações, as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas sobre um ramo de rosas.

Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo do gosto.

* * * * * Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne, lhe pedira a palavra.

Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi: _Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.

* * * * * Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em irem ... para a mesa! Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, venciam batalhas, conquistavam reinos.

Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae! E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer, quanto sois capazes de amar.

Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato, contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás salchichas com couve lombarda! * * * * * Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres! Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros! Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros, ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--não o esqueçaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma coisa tão facil, que se traz como as patronas! É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus senhores! Em nome de D. Urraca! * * * * * A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.

Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.

Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;--é o termo technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente--o cano.

* * * * * Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é substituido pelo _mot d'ordre_.

Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual, isto é--livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado á casa de correcção installada no convento das Monicas.

* * * * * Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.

Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é: demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de analyse. Porque nós--talvez o não tenhaes comprehendido bem--nós não somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a sua grande arma contra os tyrannos.

O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.

* * * * * De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.

Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no nariz.

* * * * * Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.

Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide: AOS MOLHADOS POR UMA FRIA TARDE NO PEGO DO MEXILHOEIRO A GLORIA RECONHECE N'ESTE MONUMENTO OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS Á CONSTIPAÇÃO

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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