Aqui estão os motivos transcendentes por que nós puxávamos a carruagem. Mas vós, desgraçados!... Madame Bernhardt não vos deu oito dias, nem mesmo um solitário e curto dia de feriado – e vós desengatais os cavalos da Dama das Camélias e trotais sob as rédeas de Fedra! Que fareis vós, então, quando de novo possuirdes um imperador ou um rei, e esse imperante, na sua amorosa visita de reconciliação à mocidade, vos der oito, ou talvez (porque no Brasil é tudo grande) dezasseis dias de feriado! Dezasseis dias! Oh!, meus irmãos de alémmar – dezasseis dias! Que fareis então, nesse deslumbramento incomparável? Decentemente não podeis prestar a esse imperante magnífico as horas que destes a uma bela dama, só porque ela recitava Racine – pondo os seus moribundos olhos em alvo. Vós desperdiçastes assim, com uma simples actriz ambulante, a homenagem que a humanidade (pelo menos deste lado do Atlântico) reserva para os profetas, os enviados de Deus, os grandiosos dadores de feriados! E o mais desgraçado é que agora toda a cómica genial ou dançarina sublime que vá ao Brasil espera a vassalagem que prestastes a Sara e que Sara papagueou logo estridentemente ao mundo, em cima da coluna triunfal do Figaro. Certamente em breve recebereis a visita da falada Réjane, de Hading, a bela, ou da muito garota e muito plangente Ivette Guibert. E, arrepiado de horror, já daqui vejo essa Guibert, horas depois de desembarcar na vossa terra, descendo as escadas do hotel, calçando aquelas imensas luvas pretas que são a parte mais considerável do seu talento, e dizendo risonhamente ao criado: – Estou pronta... Mande engatar os estudantes.
E por fim, para findar, sabeis vós qual é o verdadeiro e íntimo horror do vosso caso? E que vós nunca arrancastes essas espadas (que de resto não usais) e nunca na realidade puxastes a essa carruagem que Madame Bernhardt concebeu. Mas todos vós, que tendes algumas noções, mesmo incertas, de metafísica, conheceis o grande princípio de Kant. Este ultraprofundo filósofo estabeleceu que para nada importa a existência ou não existência das coisas – e só importa a crença ou não crença que os homens têm nas coisas. Assim é perfeitamente indiferente que Cristo, como Cristo, existisse realmente numa certa província romana que se chamava a Judeia: o que importa, e importou para a transformação do mundo, foi que os homens acreditassem na existência de Cristo, como Cristo. No universo não existe, com certeza, senão o pensamento – e desde que o pensamento se concretiza e cria um ser ou um facto, esse facto ou esse ser existem, e de uma existência indestrutível, porque participa da indestrutibilidade do pensamento. Ora, hoje toda a Europa culta que lê o Figaro claramente e firmemente crê que vós puxastes a essa carruagem que o fogoso pensamento de Sara criou, para sua maior glória. E, portanto, segundo esse sólido princípio de Kant que todas as escolas reconhecem – vos puxastes... E agora, para todo o sempre, na Europa que lê o Figaro a ideia de estudantes do Brasil se ligará a arreios, a freios e a uma caleche cheia de Bernhardt, que rola, num trote entusiástico, levando entre os varais, em vez de burros, doutores.
Tal é a derradeira criação da pérfida Sara! Quando ela voltar ao Brasil não lhe arranqueis o coração pelas costas. E depois considerai que a inspirada senhora necessitava justificar a cruz da Legião de Honra – e deslumbrar, com uma estupenda lista de triunfos, o Estado, que lha devia resvalar entre o prato e o guardanapo. Por isso no Brasil ela vos atrelou à sua carruagem! Por isso na Canadá arrastou atrás do seu trenó o poder legislativo! Por isso forçou aquelas pobres senhoras do Chile a recitar os folhetins do bom Jules Lemaitre, que é influente na Revista dos Dois Mundos e portanto nos ministérios... E tudo debalde, oh gentil D. Sol! O Estado, obtuso e duro, não se comoveu, não foi ao Grand Hôtel, pé ante pé, meter entre o guardanapo e o prato de Sara a cruz da Legião de Honra. Madame Bernhardt necessita portanto apresentar outra lista de triunfos ainda mais decisivos, de homenagens ainda mais prodigiosas! E para o ano, quando voltar a estação das apoteoses e das cruzes, a boa Madame Bernhardt, rigidamente sincera e verídica, trepará de novo à alta coluna do Figaro, e publicará, perante a Europa atónita, outro Exame de Conciência, em que dirá, com palavras que para sempre ressoarão através da história: — «Nos Estados Unidos do Norte, todas as manhãs, antes de almoço, eu trotava pelas avenidas de Washington montada no presidente MacKinley!»
Paris está em revolta – quase se podia dizer em revolução. Tem havido com efeito todas as cenas clássicas das revoluções parisienses: assalto à Prefeitura de polícia: bar-ricadas feitas com ónibus derrubados: incêndios de quiosques; destruição de cafés; comités em permanência; corte de canos de gás, lançando em treva ruas e bulevares; polícias arremessados ao Sena; e clamores de «viva a anarquia!» Nada falta.
Dizem (talvez exageradamente) que os mortos são quase trinta e que os feridos excedem dois mil! Porquê esta revolta assim sangrenta? Por causa de uma mulher nua e de um senador pudibundo! Não é decerto a primeira vez, desde Helena de Tróia, que os homens se entretrucidam por causa da nudez de uma mulher. Mas é certamente a vez primeira que uma cidade levanta barricadas por causa da pudicícia de um senador. A história é grotesca e lamentável. Os estudantes da Escola de Belas-Artes de Paris organizam todos os anos um baile, que não é público, e que pelos elementos que o constituem se intitula o «Baile das Quatro Artes». E sempre uma festa extremamente fantasista. E onde se poderá produzir mais naturalmente a fantasia do que num baile de artistas, moços e livres, que nos domínios da imaginação têm mesmo o direito nato de serem fantásticos? Ora este ano os escultores do atelier de Falguière resolveram aparecer no baile levando em triunfo sobre um andor, como uma deusa de beleza, e na atitude de Diana armando o arco, uma certa Sara Brown, que é dos mais lindos e perfeitos modelos de Paris. Escuso acrescentar que essa Sara, na sua qualidade de Diana, ia pouco vestida. Na verdade, para cobrir o esplendor do seu corpo, que tem sido reproduzido largamente no mármore e na tela, ela levava apenas (anacronismo deplorável) meias de seda preta e sapatos. Seria de mais, na Grécia, e no tempo de Diana.
Em Paris, em 1893, é talvez pouco – e uma leve túnica, um véu, um cendal, teriam poupado os desastres e o sangue. No entanto, da parte dos estudantes não havia, nesta exibição triunfal da bela Sara, nenhuma intenção.
Eram artistas que em sua casa, numa festa particular onde só se podia penetrar por convite, celebravam com honras pagãs um tipo perfeito de beleza feminina. Penso mesmo que eles mostraram pouca fantasia e invenção – porque repetiram numa noite de festa as ocupações habituais dos dias de escola. A sua profissão, como artistas e escultores, é contemplar, compreender, reproduzir a forma humana. E levando consigo para o baile o modelo nu numa atitude de estátua, estes rapazes transformavam a festa em atelier e não estavam fazendo uma pândega – mas estudando uma lição.
Não pensou, porém, assim o senador Berenger. E aqui aparece este terrível homem.
O senador Berenger é o presidente da Liga contra a Indecência nas Ruas. Os fins desta associação, para quem conhece Paris, e sobretudo a linha dos bulevares da Madalena à Bastilha, não necessitam de ser explicados – nem justificados. E uma útil associação, quase providencial. E quem tenha filhas, e por vezes necessite atravessar com elas os bulevares, deve concorrer, com a sua quota mensal, para a força, eficácia e desenvolvimento da Liga. O seu único defeito é o seu presidente – porque este homem excessivo, que tem setenta anos e uma pudibundice maníaca, não só investe, em nome da Liga contra todas as indecências incontestáveis e patentes das ruas – mas contra todo o acto humano que vagamente se lhe afigure revelar uma tendência impudica. E para este ancião, catónico e caturra, tudo no universo é impudicícia. Uma senhora, para atravessar a lama, levanta um pouco a saia – imediatamente Berenger chama um polícia. Na vidraça de um livreiro, sobre a capa ilustrada de um romance, há uma imagem um pouco decotada – logo Berenger, com os cabelos eriçados de horror, querela do livreiro e do livro. Por trás de uma porta soa o rumor de um beijo – sem demora Berenger pretende arrombar a porta e autuar o cupido. Ultimamente chamou aos tribunais o autor de um livro científico, de medicina, por indecente! É ele que conspira para que se cubram com grossas camisas de lona todas as estátuas antigas do Museu do Louvre e se Berenger triunfasse veríamos nas igrejas S. Sebastião metido castamente dentro de uma longa sobrecasaca de pano preto. Até a nudez dos animais o indigna – e afirmam os seus amigos que ele se prepara a apresentar um projecto de lei para que todos os cães e cavalos de Paris andem de tanga! O seu horror, que lhe amargura a velhice, é que haja dois sexos. Berenger queria que houvesse um só – o neutro. E não podendo realizar esta reforma na humanidade – trabalha para a realizar na gramática. Assim ele evitará o afrontoso escândalo de haver substantivos masculinos e femininos, vivendo promiscuamente, fechados no mesmo dicionário, e fazendo talvez lá dentro poucas-vergonhas! Tal é Berenger.
Imaginem, pois, o furor deste varão castíssimo ao saber do Baile das Quatro Artes, e da bela Sara nua! Trémulo, pulou à tribuna do Senado, e trovejou! Dali correu aos tribunais e querelou! E eis a pobre Sara, a gentil Diana, e os estudantes requintadamente estéticos que a tinham conduzido em triunfo – citados perante o correccional como promotores de indecências públicas.
O furor pudico de Berenger fora grande – mas como dizer o furor artístico dos estudantes? Havia neles muitos sentimentos ofendidos – sentimentos de arte, sentimentos de classe, sentimentos de liberdade, sentimentos de tradição escolar e de tradição estética. E a ideia de que este velho caturra arrastava aos tribunais, como obscenos, artistas de vinte anos, que, à maneira dos seus antigos confrades da Grécia e da Itália, celebravam, numa festa particular, toda sua e somente escolar, a beleza de um modelo, que eles todos os dias copiam na escola, e que o seu mestre Falguière já reproduziu em mármores ilustres – pareceu intolerável. Daí ódio imenso a Berenger. E, portanto, troça imensa organizada contra Berenger. Não sei como procedem os estudantes de São Paulo ou do Rio, para celebrar as suas grandes troças oficiais. Em Coimbra é uma enorme multidão armada de tambores, panelas, latas, ferragens, apitos estridentes, buzinas horrendas, que, alta noite, se acerca da casa do «troçado» e rompe bruscamente num charivari descomunal, que não cessa, vai mesmo crescendo demoniacamente, até que o «troçado» fuja pelos telhados, ou morra de terror, ou se humilhe e implore absolvição. Em Paris a grande troça escolar é feita por meio do monómio, que é uma longa bicha de mil ou dois mil estudantes, serpenteando pelas ruas, berrando o nome do «troçado» e intimando as populações a que o «vilipendiem». E há alguma coisa de imponente e de dramático nesta imensa fila escura, semelhante de longe a uma cobra infindável, que se estende, coleia pelas vielas estreitas do Bairro Latino, e clama, como ultimamente, no mesmo compasso lento e sinistro: «Vilipendiai Berenger! Vilipendiai Berenger!» Ora, quando um destes monómios, domingo passado, ia vilipendiando Berenger, teve um conflito com a polícia. Ou antes, ao que parece, o monómio findara, os estudantes tinham-se estabelecido no Café d’Harcourt, para descansar e refrescar, quando a polícia, despropositadamente, invadiu o café, fez um rolo medonho e brutal. E por grande desgraça, na balbúrdia foi morto um pobre rapaz, que tomava pacificamente o seu bock, que não era estudante, e apenas amigo e camarada de estudantes.
Daqui imediatamente se seguiram todos os incidentes tradicionais de uma revolta académica: imensa excitação; formação de um comité de resistência; intimação ao Governo para que demitisse o prefeito da polícia, responsável pela injustificada brutalidade dos seus agentes; e perante a recusa do Governo, a desordem nas ruas, o assalto à Prefeitura, os recontros sangrentos com as forças policiais, o Bairro Latino em estado de sítio e metade de Paris cheio de baionetas.
O estudantes, geralmente, têm a revolta muito fácil, mas muito curta. E desde que os barulhos são feitos unicamente por estudantes, a ordem renasce de repente, quando uma madrugada eles se sentem esfalfados de tanto berro e de tanto encontrão, e recolhem-se a casa para mudar de roupa e de entusiasmo. Mas em Paris, desgraçadamente, mais que em nenhuma outra cidade, há uma verdadeira classe revolucionária, que é composta das derradeiras, das mais baixas, mais viciosas e mais violentas camadas do proletariado. São os selvagens da civilização (a frase é conhecida). E são eles que tornam qualquer motim em Paris excessivamente perigoso, porque acodem logo a agravá-lo, introduzindo nele a violência bestial, o furor de destruição e a desordem por amor da desordem. Que o motivo do tumulto seja uma justa teoria política, ou uma indignação humanitária, ou um entusiasmo patriótico, o «selvagem», que nada sabe de pátria, nem de humanidade, nem de justiça, corre logo com o seu cacete, a sua faca e a sua lata de petróleo, ávido de desancar, de queimar, demolir.
E foi justamente o que sucedeu nesta simpática arruaça dos estudantes, onde a legítima cólera não excluía uma alegre moderação. O selvagem apareceu e logo tudo tomou um carácter feroz e sangrento. Desde esse momento, o Governo exerceu uma repressão especial – não prudente e adequada a estudantes, mas implacável e adequada a bandidos. E daí se seguiram todos esses incidentes, de que os jornais contam a crónica lamentável, e que pela audácia dos tumultuosos e pela imensa brutalidade da polícia deram por triste resultado, ao que se diz, trinta mortos e dois mil feridos.
E porquê? Por causa do bailarico das Quatro Artes! Por causa também deste calor temeroso que excita os temperamentos. E hoje um facto cientificamente explicado que as revoltas populares só se dão, sobretudo nos países do Norte, durante os meses quentes do ano. O termómetro com quarenta graus à sombra, uma atmosfera pesada e eléctrica, leva as multidões a enfurecer-se por coisas que, durante o Inverno e com as ruas cheias de neve, as deixaria indiferentes. E não compreendo como se não tentou ainda, de um modo metódico (porque casual e irregularmente já se tem feito), sufocar as arruaças por meio de água fria. O sistema já o possuímos, admiravelmente organizado, no serviço de incêndios. Uma. revolta é sempre comparada em literatura a um grande incêndio. E não há motivo para que se não apague, na realidade, por meio de bombas. Três ou quatro bombas a vapor, esguichando sobre uma multidão formidáveis e irresistíveis jactos de água fria, seriam, a meu ver, mais eficazes do que cargas da cavalaria. Uma carga irrita sempre aqueles contra quem ela se dá – e o instinto da coragem, o desespero da desforra, o fundo de heroísmo que têm em si todas as multidões, impele à resistência e à luta. Mas o desforço, a resistência são impossíveis contra uma bomba de incêndio a esguichar. O homem acutilado pela polícia quer acutilar também, porque tem uma arma igual e se sente bravo. O homem alagado, encharcado, perde todo o valor porque se sente grotesco. Não vê ante si outro homem sobre quem se vingue: – vê apenas um longo esguicho de água que o ensopa e o constipa. E uma humilhação acabrunhadora. Não se pode apedrejar um esguicho, nem esfaquear um esguicho.
Diante de um esguicho – só resta fugir para secar. Além disso, as plebes têm um horror imenso à água fria – e tal que afrontaria uma bala, larga a correr diante de um duche. Acresce ainda que não há ninguém que não receie a água, desde que está vestido. Nu, o homem marcha ainda para o elemento líquido. Mas de casaco e de chapéu – não o acomete.
A bomba de incêndio, adoptado este método, não só operaria como afugentadora, mas como sedativa. Calmaria e exaltação e com ela a revolução. E depois seria uma repressão perfeitamente doce, humanitária. Não mais feridos, nem mortos. Apenas molhados. Quando muito, endefluxados. Findo o motim, os vencidos iriam tomar um grande suadouro e a ordem ficaria satisfeita. Ao século XIX competia, dado o seu espírito humanitário, fazer esta reforma considerável na supressão das revoluções.
Desde que não conversamos, meus amigos, este nosso Velho Mundo e os outros mais velhos que se estendem para Oriente têm sido visitados por males inumeráveis, uns trazidos pelas violências da Natureza, outros pela violência dos homens, porque o consciente e o inconsciente (se é que este realmente existe) rivalizaram, como sempre, na produção da dor.
No Japão foi um desses pavorosos «macaréus», que tanto assustavam os nossos navegadores do século XVI, invadindo em desmedido vagalhão léguas de costa e lambendo aldeias, cidades, centenas de milhares de criaturas, como se fossem apenas conchas e areia leve. Na China a costumada trasbordação de rios, afogando nessa noite quinhentos mil chineses, um milhão de chineses, todo um imenso e escuro formigueiro chinês, com a simplicidade com que entre nós um riacho, depois da chuvas, alaga um feijoal em uma horta ribeirinha. Na Índia a peste junta com a fome, à velha maneira oriental, com esse horrendo feitio das expiações bíblicas em que os esfaimados findam por comer os cadáveres, e os pestíferos, aos centos, agonizam à beira dos caminhos, em breve todos brancos de ossadas.
Na Arménia uma prodigiosa matança de trezentos mil cristãos, metodicamente dirigida pelas autoridades muçulmanas, com muita ordem, muito vagar, horas regulamentares para assassinar e para descansar e uma escrupulosa escrituração. Na Turquia e na Grécia uma guerra, que não ressuscitou a luta clássica do orientalismo e do helenismo (porque já não há orientais e ainda menos helenos), mas renovou uma briga entre a cruz e o crescente, briga toda concebida no espírito do século XIX, racionalista e positiva, em que os príncipes cristãos (até o papa) se colocaram num utilitário entusiasmo do lado do crescente, de sorte que a cruz teve de fugir com um dos braços partidos por esses caminhos tessálicos por onde outrora o Grego costumava alegremente acossar o Persa numeroso. Na ilha de Creta, tão querida a Júpiter, horrores inenarráveis, sob a vigilância pensativa e paternal de seis esquadras da Europa. Em Espanha bombas e suplícios. E enfim neste Paris o dia doloroso em que a ciência, sob a forma de um cinematográfico, queimou por seu turno, num vasto auto-de-fé, a religião, representada por piedosas senhoras que celebravam uma festa de devoção e caridade católica...
Mas eu não sei, meus amigos, se estas desgraças realmente vos interessam, vos comovem – porque a distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som. A mesma dura lei física rege desgraçadamente a acústica e a sensibilidade. É sempre em ambas o idêntico e tão racional princípio das ondulações, que vão decrescendo à maneira que se afastam do seu centro, até que docemente se imobilizam e morrem: se elas traziam um som que vinha vibrando – o som cala quando elas param: se traziam um terror que vinha tremendo – o terror finda quando elas findam.
Bruscas, grossas, frementes, rápidas em torno ao choque que as produziu, essas ondulações não são mais, nos horizontes remotos, do que um vago, quase liso arfar, que mal se diferença da inércia. Senão vede! Em Pequim, subitamente, uma tarde, ribomba um pavoroso trovão – e ao mesmo tempo pega fogo na vistosa cabaia de um mandarim muito ilustre, que morre queimado. Por todo Pequim a impressão é tremenda. Até o imperador, filho do Sol, nos seus grandes jardins, estremeceu, aterrado com aquele imprevisto troar de um céu puro: e nas vielas mais sórdidas os coolies mais piolhentos interromperam um momento o seu negro trabalho para lamentar com exclamações o mandarim muito ilustre. Mas aí está! A vinte ou trinta léguas de Pequim o terrifico trovão foi apenas um rumor que se confundiu com o rolar das carroças nas lajes – e, quando se contou nas lojas loquazes dos barbeiros o desastre do mandarim em chamas, só algum nédio funcionário, com sabão na bochecha, murmurou oficialmente algum «ah!» desinteressado e mole...
É que o som do trovão e a emoção do desastre vieram trazidos por ondulações, que, a trinta léguas de Pequim, seu centro vivo, já se alisavam, imobilizavam, morriam.
E quando aqui na Europa, de manhã, sabemos pelo telégrafo bisbilhoteiro do mandarim e do trovão, nem o nosso ouvido sente o mais ténue som, nem o nosso coração a mais ténue piedade.
Não ondularam até nós as ondulações acústicas e emotivas. E é com absoluta placidez que murmuramos: «Houve em Pequim um grande trovão; e – tem graça! – ardeu um mandarim!» Mas então essa confraternidade humana – pela sublime força da qual nada do que é humano deve ser alheio ao homem? Não existe? Oh, certamente – mas para todo o homem, mesmo o mais culto, a humanidade consiste essencialmente naquela porção de homens que residem no seu bairro. Todos os outros restantes, à maneira que se afastam desse centro privilegiado, se vão gradualmente desarmonizando em relação ao seu sentimento, de sorte que os mais remotos já quase os não distinguem da Natureza inanimada. Quando qualquer de nós, no seu quieto e salubre bairro, ouve contar que uma furiosa peste matou trinta mil patagónios, fica exactamente penetrado daquela quantidade de compaixão que o invadiria ao saber que um furacão derrubara trinta mil árvores de um bosque. E de um bosque muito longínquo, de uma região muito desconhecida! Porque se as árvores destruídas fossem as do nosso doce Bosque de Bolonha, que nós amamos, tão ornadas e verdes em Maio, tão puramente vestidas de branca neve quando o Inverno se faz elegante e fino – a nossa mágoa teria uma intensidade infinitamente mais viva do que com a aniquilação desses vastos milhares de patagónios.
E esta estreiteza da emoção deriva de leis tão fatais que não se dá somente nas almas de caridade estreita – mas ainda nas mais ternas e nas mais largas, naquelas que parecem abrigar na sua amplidão do padecer humano... O bom senhor S. Vicente de Paulo, a quem o encontro de uma criancinha tremendo de frio ao canto de uma rua arrancava prantos desolados, que corriam enquanto ele corria com a criancinha sofregamente apertada nos seus braços, só teria um pálido e resignado suspiro quando ouvisse que, também na Tartária, em outras vielas regeladas, outras criancinhas tiri-tavam e choravam – se é que a homem tão ocupado com as misérias de França restava tempo para suspirar com as misérias da Tartária.
E até talvez o muito divino S. Francisco, o adorável pobrezinho de Assis, irmão de todos os seres e para quem os próprios passarinhos das veigas de Itália eram irmãos muito queridos, não sentisse a sua costumada ternura, tão alvoroçada e activa, pelos pobres da Noruega, e não se reconhecesse inteiramente irmão dos pardaizinhos da Finlândia! A superior sapiência das nações já formulou esta lei naquele seu fino adágio: «O coração não sente o que os olhos não vêem.» Para chorar é necessário ver. A mais pequenina dor que diante de nós se produza e diante de nós gema, põe na nossa alma uma comiseração e na nossa carne um arrepio, que lhe não dariam as mais pavorosas catástrofes passadas longe, noutro tempo ou sob outros céus. Um homem caído a um poço na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros sepultados numa mina da Sibéria – e um carro esmagando a pata de um cão, em frente à nossa janela, é um caso infinitamente mais aflitivo do que a heróica e adorável Joana d’Arc queimada na praça de Ruão! A distância e o tempo fazem das mais grossas tragédias ligeiras notícias – onde nenhum espírito são, bem equilibrado, encontra motivo de angústia ou pranto. Hoje certamente ninguém, a não ser algum velho e alto dignitário da Igreja ou do Estado, assistiria, com os olhos secos e o coração quieto, ao suplício de Joana d’Arc – mas nenhum fisiologista garantiria a sanidade intelectual de um sujeito que, na solidão da sua alcova, com as janelas cerradas, se desfizesse em lágrimas por os Ingleses terem outrora supliciado Joana d’Arc.
No entanto, vós observais, amigos, que já repetidamente chorastes (porque sois bons) com dores humanas, não somente sucedidas longe do vosso bairro, mas fora do vosso século; e algum mesmo me mostrará, como emblema irrecusável da confraternidade humana, o lenço sentidamente humedecido na véspera ao escutar os adeuses de Luís XVI aos filhos na prisão do Templo, ou mesmo a antiga Inês de Castro balbuciando as suas súplicas aos pés do antigo Afonso IV! Decerto! E mesmo já muitas vezes tereis sufocado generosos soluços com misérias e tormentos de criaturas que só viveram no mundo aéreo da imaginação e do sonho. Mas quando, onde foi que assim vos comovestes, tão humanamente? Quando? Onde? No teatro, ou nas páginas de um romance, ou mesmo através dos sinceros versos de um poema, quando a arte, encarnando os seres dolorosos que concebeu ou ressuscitando com flagrante e magnífica realidade as figuras mortas da história, torna durante um momento essas criaturas, não somente vossas contemporâneas, mas vossas vizinhas, moradoras no bairro em que morais, respiradoras do ar que respirais, e pertencentes portanto àquela porção de humanidade próxima e tangível, cujas dores se partilham, porque confinam com as nossas... E depois, tal sujeito – que choramingou, no fundo do seu camarote, assistindo à morte da Dama das Camélias, morta pela milésima vez, na sua alcova de lona e papelão – recolherá a casa e lerá no jornal, com absoluta indiferença, mastigando a torrada, que duzentas mulheres, com os filhinhos nos braços, morreram afogadas num naufrágio, longe, nos mares da Indochina! Sim, amigos, essas duzentas mães afogadas nas vagas indochinesas certamente vos serão estranhas, e como não existentes! Se elas tivessem naufragado nos mares dos Açores, já sem dúvida tão patética nova vos arrancaria algum vago murmúrio de simpatia. Mas se elas houvessem perecido, elas e os pobres filhinhos, na baía do Rio de Janeiro, que incomparável catástrofe – e como vós correríeis pelas ruas, pálidos cheios de espanto! Que digo eu? Para vos comover nem seriam necessárias duzentas desgraçadas – bastaria que naufragassem duas, se vós as conhecêsseis de nome e de rosto! Porque, segundo a cruel lei física que regula os fenómenos da emoção – um empregado da Alfândega que caiu de um barco e desapareceu na baía do Rio de Janeiro vale, para o habitante do Rio, mil pescadores despedaçados sobre os rochedos nas costas da Islândia! Ah, esta abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração! Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa outras senhoras costuravam.
Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com um sussurro das fontes, o aroma das roseiras. No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da Natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a Terra.
Ela lia as catástrofes lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas...» As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa – e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio trasbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados...». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!» A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas... Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesma então teve um «oh!» de dolorida surpresa. No Sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilando causara três mortes, onze ferimentos...» Uma curta emoção, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses... Todos lamentaríamos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.
A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno.... E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça: – Santo Deus!...
Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando: – Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista... Esta manhã! Desmanchou um pé! Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia.
Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações... Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br