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Cartas Familiares e Bilhetes de Paris

Eça de Queiroz

JOANA D’ARC

I

Meus amigos: aconteceu uma desgraça a Joana d’Arc. A donzela de Orleães, a boa e forte lorena, salvadora do reino de França, foi beatificada pela Igreja de Roma. E (sem malícia voltairiana o digo) com a sua entrada no céu ela está perdendo o prestígio que tinha na Terra, e a sua santidade já irremediavelmente estragou a sua popularidade.

Não havia, contudo, figura da história aperfeiçoada pela lenda que fosse mais popular em França que Joana d’Arc, La Pucelle. Também nenhuma outra concorda mais estreitamente com os gostos, os ideais e as qualidades melhores da raça francesa. Em primeiro lugar, é mulher, e moça, e bela, e loura, e soberbamente feita, como afirmam todas as crónicas, desde a Espanhola até à de João de Metz – e isto desde logo a devia tornar querida a um povo tão sensível, como o francês, às graças e influências da formosura, ao povo que verdadeiramente criou, no culto da Virgem, o culto da mulher, rainha de graça. Depois saíra da plebe, de uma família de lavradores da aldeia de Domremy, na Lorena, que da servidão dos senhores de Joinville tinha passado para o directo domínio da coroa, que trabalhavam a terra por suas mãos ou pastoreavam o gado, enquanto ela ficava fiando à lareira com a mãe, numa simplicidade de vida tão grande que nunca soube ler nem escrever – e a humildade desta origem naturalmente encantou sempre a gente humilde que, no fundo da Inspirada, da companheira do rei de França, encontrava uma irmã em ignorância e pobreza, coberta com um mau saiote escarlate, uma paupercula bergereta. Depois a sua acção no mundo é de guerreira que assalta as muralhas, ergue um pendão, desbarata hostes – e esta é a glória mais amada e popular entre a raça gaulesa, raça de guerra e de ruído, cujo génio não foi ao princípio senão movimento e conquista, e que, como diz Estrabão, é «doida pela espada e sempre sôfrega de brigas». Depois a sua missão foi expulsar o verdadeiro inimigo da França, o inglês invasor; e nenhuma outra poderia exercer mais prestígio entre um povo que con serva como uma das formas do patriotismo a antipatia tradicional pelo Anglo-Saxónio. Enfim, tão profundamente francesa é Joana d’Arc que permanece absolutamente francesa, mesmo naqueles estados de alma que são mais alheios ao génio da França – os de alucinação e de inspiração mística.

Imagine-se uma espanhola, do tipo de Santa Teresa, que recebesse como Joana tão repetidas e visíveis visitas do arcanjo S. Miguel, armado da sua couraça de diamante e transmitindo-lhe o grave recado de Deus, a incumbência heróica de desbaratar os inimigos da Espanha! O que não faria a espanhola – que transportes, que intensidade de paixão trasbordando em gritos e hinos, que arrojos de demência divina! A donzela lorena, essa, cercada de vozes, de claridades celestes, tratada como uma irmã por grandes santas, levada pela vontade de Deus como num rijo vento, conserva-se muito simples, muito prudente, cheia de bom senso, penetrando e decidindo as coisas da guerra e do Estado com o propósito sagaz e bem-avisado de um conselheiro que encaneceu nos negócios.

E isto que dá à pobre pastora, paupercula bergereta, uma tão encantadora originalidade.

Visões, como as dela, quem as não teve na Idade Média? A França, mesmo no tempo de Joana, estava cheia de inspirados que conversavam com Cristo, suavam sangue, arrastavam multidões pelo enlevo das suas prédicas ou a evidência dos seus milagres. Mulheres tomando uma lança, combatendo nos assédios, derrotando astutos capitães, também não eram raras, mesmo nesse prosaico século XV; e, contemporanea mente com Joana, as matronas da Boémia batalhavam nas guerras dos Hussitas como «muito ferozes diabos», segundo diz o velho Monstrelet. Inspiradas e amazonas não faltavam – o que nenhuma tinha, como Joana, era o sério e fino juízo no meio da alucinação mística e doçura e bondade terna em meio dos recontros e da brutalidade das armas. Esta é a sua privilegiada originalidade. E foi ela que atraiu essa esplêndida popularidade de padroeira nacional. Esta glória de Joana, todavia, nem sempre permaneceu intacta e luzente. E bem se pode afirmar que, logo em seguida à sua reabilitação por Calisto III, e como se a França tivesse saldado a sua dívida para com a pastora, que por ela vivera e sofrera, Joana d’Arc começou a ser esquecida. A sua memória devia ser mesmo importuna à coroa e às classes nobres. Ter recebido um trono, e um trono hereditário, das mãos de uma guardadora de ovelhas, nunca pode ser uma recordação agradável para uma velha casa real. O clero, esse não tinha senão interesse em que se estabelecesse um pesado silêncio sobre aquela santa, que ele queimara por um desses enganos tão frequentes nos cleros constituídos, desde o pavoroso engano do Gólgota. E o povo então, em França, ainda não existia como povo francês – era apenas um agregado de povos diferentes, sem comunhão de sentimentos, donde nascesse um culto patriótico por quem tão apaixonadamente trabalhara na unidade da pátria. Creio em verdade que, quando o último daqueles capitães ingleses, para cuja expulsão ela se armara à voz de Deus, deixou o solo de França, já Joana era apenas lembrada com amor por algum obscuro servo da sua aldeia de Domremy, ou por algum grato burguês dessa Orleães que ela salvara.

Os poetas do século XVI todavia ainda cantam a virgem lorena; mas, através do naturalismo pagão da Renascença, ela aparece com feições lamentavelmente deformadas. Já não é a doce, a cândida virgem cristã, iluminada por Deus para tirar da sua dor o pobre reino da França – mas uma valente amazona, amando o sangue, a guerra, e correndo a ela pelo mero e brutal desejo de destruir, de retalhar! Assim a representa um poeta do tempo, armada, como uma Diana, de arco e de flechas, e toda consagrada ao homicida Marte...

Para o ilustre Malherbe, Joana é um hércules feminino, um grosso hércules façanhudo, cuja violenta morte vem como natural conclusão de violentas aventuras, e que:

...Ayant vécu comme un Alcide Devait mourir comme il est mort.

Assim desfigurada pela Renascença, a donzela lorena conserva no entanto uma certa grandeza heróica. Está tornada numa virago, do tipo truculento da nossa padeira de Aljubarrota, mas ainda se impõe pela força, pela bravura, pelo patriotismo. Chega porém Chapelain... Conhecem decerto Chapelain, o único homem, desde que há homens, educado cuidadosa e expressamente pela família para ser um poeta épico! E foi, com efeito, um poeta épico – e de todos os poetas, em todos tempos, o mais estupidamente fastidioso e ridículo. O assunto do seu enorme poema foi (infelizmente para ela) a infeliz Joana d’Arc. Um segundo processo de condenação não teria sido mais funesto à boa libertadora do reino de França do que esta medonha epopeia que a sublimava.

A fogueira atiçada na praça de Ruão apenas a matou –mas o poema de Chapelain tornou a sua memória perfeitamente risível. Com tão difusa pieguice e patetice celebrou este cruel homem durante trinta intermináveis cantos a virgindade de Joana, que ninguém mais depois pôde pensar nessa virgem sem ter a tentação de lhe troçar a virgindade. O poema era tão tolo que pedia represálias. Foi Voltaire que se encarregou das represálias, nessa famosa e conhecida gaiatice a que deu o mesmo nome da epopeia de Chapelain, La Pucelle.

Voltaire fez mal – e decerto hoje, se ressuscitasse, reconheceria que a virgem exaltada e vitoriosa que restituiu a terra de França ao rei de França, merecia melhor que a troça cintilante de um satirista genial. É um erro porém supor, como pretendem agora os católicos e os patriotas, que já no tempo de Voltaire a sua grande facécia sobre a boa donzela lorena fora reprovada. Pelo contrário! Todo o século XVIII aplaudiu a facécia – e a concepção de uma Joana d’Arc patusea e libertina foi considerada como perfeitamente racional. As pessoas mais graves saboreavam e sabiam de cor cantos inteiros da La Pucelle, de Voltaire. O virtuoso Malesherbes, ele próprio, pesadíssima coluna de respeitabilidade, costumava recitar, com gosto, alguns dos trechos mais picantes deste gaiato poema. Era uma ideia geral então, por todos recebida, que só se podia falar da donzela lorena galhofando.

II

Ao nosso século romântico e romanesco, sensível e simpático a todos os complicados e exaltados estados de alma, cheio de uma piedade filial pelo passado e sôfrego de espiritualidade, competia empreender a reabilitação de Joana d’Arc. Já Chateaubriand, no seu majestoso passeio através da história da França, encontrando Joana d’Me, lança aos seus pés, de passagem, algumas maravilhosas flores de eloquência, como as sabia produzir esse mágico renovador do estilo e da imaginação.

Mas a verdadeira reabilitação foi feita realmente por Michelet, em três ou quatro capítulos da História de França, que fixaram a beleza e a grandeza moral de Joana. A figura que Michelet impõe, porém, à nossa adoração não é rigorosamente histórica. Como sempre, aquele vidente da história idealiza e simboliza com excesso e paixão. La Pucelle não era exactamente essa pastorinha doce, toda inocência e bondade, tímida e pensativa, murmurando apenas sublimes palavras de caridade e ternura divina, cheia de horror pela violência e pelo sangue, tão evangelicamente pacífica no meio da guerra que trazia uma bandeira ou um bastão, para que as suas mãos cândidas nem sequer tocassem a espada que fere e mata. Todas as testemunhas contemporâneas nos contam uma outra Joana bem diferente, e talvez mais interessante, por ser mais humana. A virgem lorena, sem ter nada da virago hercúlea e façanhuda que cantavam os poetas da Plêiade, era uma vigorosa e corpulenta moça alegre, quase folgazã, sem timidez, de uma grande audácia de palavra e de acção, cheia de confiança em si e na sua missão e não desistindo por vezes de uma boa e dura briga. É ver como ela graceja como Robert de Baudricourt, capitão de Vaucouleurs, a quem viera pedir salvoconduto e cartas credenciais para se apresentar a Carlos VII. O bravo capitão, com a sua grossa malícia tarimbeira, chasqueia a moça, por escolher a carreira das armas, em lugar de Pucelle responde logo, com agudez e desenvoltura alegre: – Mais tarde, mais tarde! Quando eu tiver cumprido tudo o que Deus me manda, então conto arranjar três filhos, e o primeiro há-de ser papa, e o segundo imperador, e o terceiro talvez rei! O bom capitão acode com redobrada galhofa: – Por Deus!, então quero ser o pai de um deles! Que se têm de ser pessoas de tão grande marca, arranjo assim protector para a velhice! E a donzela lorena replica com singular finura: – Não, não, gentil Robert! Quem os há-de fazer é o Espírito Santo! Linda réplica! Mas como estamos longe da virgem timorata e cândida de Michelet! Em quanto ao seu caridoso horror pela guerra e pelo sangue, é certo que ela disse mais de uma vez, e com sincera dor, que «nunca via derramar sangue francês, sem que se lhe erguessem os cabelos na cabeça»! Assim era para com o sangue francês – mas a sua compaixão diminuía consideravelmente quando se tratava de sangue de borgonheses ou de ingleses. No cerco de Orleães, o seu intendente Aulon conta que a viu repetidamente acutilar o inimigo bastamente e rudemente. No assalto ao bastião de Saint-Loup, Joana planta o seu estandarte nos fossos: os ingleses que estão dentro, uns trezentos, oferecem render-se, se lhes dão vida salva; Joana recusa, gritando «que os há-de agarrar um a um»! São agarrados, e um a um passados a fio de espada. Ela própria fala de uma certa catana tirada a um prisioneiro borgonhês, e de que gostava de se servir, por ser muito cómoda e larga para a boa pranchada. O que mostra que, se a valente virgem nem sempre acutilava, pelo menos sempre pranchava.

De resto, bater com um pau, um rijo bastão, que segundo a moda do tempo ela trazia sempre na mão, era um dos seus hábitos mais espontâneos em dias de acção e de pressa.

Nenhum destes traços diminui La Pucelle – antes a toma mais tocante, porque a mostra mais real.

Em quanto à sua castidade, essa era perfeita, absoluta. O seu heroísmo, a origem celeste da sua missão, a simplicidade infantil da sua virtude, quase a tornavam insexual. Os rudes homens que a cercavam (como eles mesmo contam) não sentiam diante dela nem a fugidia picada de um vago desejo, apesar da sua beleza robusta e grandemente apetecível. Só a sua coragem lhes fazia lembrar que Joana era uma mulher, para mais estranhamente a admirarem.

O duque de Alençon, o mais formoso dos cavaleiros que a seguiam, e o seu preferido como sobrinho do duque de Orleães, a cuja causa ela se votara, conta que muitas vezes dormira ao lado de Joana, debaixo da mesma barraca, e a vira despir a armadura, mostrar o que a couraça escondia (videbat ejus mammas quae pulchrae erant), sem que o importunasse um único desejo de carne e de pecado. Pelo contrário! Dormia mais serenamente, por se sentir sob uma protecção angélica. E se ela para os homens era assim tão pouco mulher – para ela os homens com quem vivia promiscua mente, moços, e galantes, e bravos, eram, pelo lado da virilidade, menos que sombras ou abstracções.

Todas estas feições formam uma Joana d’Arc muito viva, muito real, perfeitamente compreensível, e de todo adorável. Mas, ao lado desta, Michelet compôs uma outra Joana, de uma graça mais frágil, cheia de caridade, da angelidade resignada de uma mártir – e foi essa que a poesia, e a arte, e o povo escolheram para adorar e celebrar. Esta popularidade, esta devoção, subiu ao seu maior fervor, depois dos desastres do Ano Terrível. A França, então, num certo ponto se assemelhava à França dolorosa de Carlos VII – e era que metade do seu território estava invadido pelo estrangeiro, e que os alemães de Moltke, como os ingleses de Bedford, acampavam também em Orleães.

E havia ainda outra lamentável semelhança – é que em Paris se batiam franceses contra franceses, como no tempo dos Borgonheses e dos Armanhacs. Bem natural era que o pensamento dos vencidos se voltasse para a pobre pastora, que outrora, em dias de perigos iguais, fora a grande salvadora. Desta vez não surgira uma donzela inspirada do fundo da Lorena, nem Deus interviera por meio do seu arcanjo S. Miguel.

A própria Lorena deixou de ser terra francesa, e S. Miguel parecia estar aliado com o Hohenzollern. Mas por isso mesmo que não fora salva, a França sentiu e compreendeu melhor a grandeza daquela alma simples e forte, que, outrora, com tanta força e tanta simplicidade a salvara. A mágoa de não ter já uma Joana d’Arc, e estarem para sempre passados os tempos em que eram possíveis as Joanas d’Arc, levou este povo de imaginação e sentimento a amar, com um amor renovado e mais ardentemente expresso, aquela que outrora possuíra, que fora uma raridade no mundo, e que nunca mais poderá ser repetida.

A corações em que as desgraças tinham exaltado a ideia de pátria – Joana apareceu como a encarnação mais bela e mais pura dessa ideia excelsa.

A França começava a viver para a esperança da desforra, e necessitava uma padroeira, como Atenas a tivera em Minerva. Quem poderia ser senão a virgem elegida de Deus, que outrora aparecera com a sua roca à cinta, se oferecera para ser o supremo instrumento de uma desforra milagrosa? Desde então, só desde então, nasceu verdadeiramente em França o culto de Joana d’Arc. Culto sem descrentes e sem heréticos. Aquela pastora que, como devota, era inspirada pelo arcanjo S. Miguel para servir como vassala o rei Carlos VII, encontrou franca adoração mesmo entre os que têm por profissão liberal rir dos arcanjos e abominar os reis. A história, a poesia, a arte, encetaram ardentemente a glorificação da maravilhosa donzela. Os dois capítulos de Michelet, impressos num pequeno volume popular, tornaram-se um manual de patriotismo. Os grandes poetas, é verdade, uns confinados na antiguidade mítica e clássica, outros votados somente à modernidade, outros transviados pela metafísica, outros teimosos ainda sobre o amor e os seus martírios, outros dedicados a um artifício pueril e picaresco, que parece ter relação com a reforma do dicionário, mas que se não sabe realmente a que tende, e que se chama o decadismo – não se ocuparam de Joana d’Arc: e nenhum canto verdadeiramente belo a desforrou da ignomínia de ter sido cantada por Chapelain. Os pintores, porém, e os escultores ressuscitaram com entusiasmo a boa lorena, uns preferindo-a na sua singeleza tocante de guardadora de ovelhas, outros na sua audácia pitoresca de desbaratadora de ingleses. E como em França não há verdadeira glória sem a consagração do teatro – Paris cada noite aplaudiu a donzela, posta magnificamente em melodramas e em pantomimas militares.

Foi então também que por todos os sítios da velha França por onde ela passou, ou triunfante ou humilhada, em Vaucouleurs, em Orleães, em Reims, em Ruão, se ergueram, em sua honra, esses monumentos cuja enumeração cansaria um tão incansável enumerador de monumentos como o velho Pausânias. Em Paris a sua estátua (que é de Fremiet, o animalista, e bem medíocre) não cessou mais de estar coberta de coroas de perpétuas, de flores, de pequeninos ramos de um sou que lá pousava a piedade dos simples. Orleães, que ela libertou, todos os anos celebrava a sua festa cívica. Domremy, e a casa em que ela viveu, tomada relicário, foi um lugar de peregrinação. E o maior número dos três mil volumes que formam hoje a bibliografia de Joana foram publicados neste período de fervor.

Tudo isto constitui mais que a popularidade – é já um culto. A donzela estava tornada em França uma deusa civil.

III

A Igreja não podia ficar alheia a este movimento nacional. É verdade que fora a Igreja que queimara a doce libertadora – e que, depois de a queimar, e para justificar a fogueira, a caluniara atrozmente, não só pela sua voz, já forte, mas pela voz, então terrivelmente dogmática, da sua filha predilecta, a Universidade de Paris. Verdade é também que, passados uns trinta anos, o ilustre papa Calisto III, por um rescrito pontifical, ordenara ao arcebispo de Reims que, assistido de dois bispos e do inquisidor-geral das heresias em França, fizesse a revisão do processo de Joana d’Arc.

A primeira reunião deste tribunal apostólico teve lugar em Paris, na Catedral de Notre-Dame.

Aí compareceu a idosa mãe de Joana, toda de luto e em lágrimas, acom panhada dos seus dois filhos, Pedro e João, e de um grande povo que chorava também e clamava justiça. Estes clamores, estes prantos de uma multidão invadindo uma igreja, a suplicar que se restitua a graça a uma alma condenada, eram frequentes na Meia Idade e ainda no século XV. Os delegados do papa não se comoveram. Ao que parece mesmo, chamaram a mãe de Joana à sacristia para lhe recomendar que se calmasse, não suscitasse embaraços, nem se alargasse em queixumes talvez levianos, pois que os juízes que tinham condenado Joana como herege eram homens revestidos de altas dignidades eclesiásticas, e a quem se não devia imputar facilmente dolo ou injustiça Assim falou na sacristia o arcebispo de Reims. A fogueira nesse momento ainda lhe parecia justa, por ser eclesiástica.

No entanto, em obediência ao rescrito pontifical, começou a lenta e laboriosa revisão do processo de Ruão. E em Ruão mesmo, um ano depois, foi proclamada a decisão dos revisores em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Bem podia enfim secar as suas lágrimas a mãe de Joana. A sentença lavava a boa donzela «de toda a culpa de impostora, bruxaria, magia, cisma, sacrilégio, idolatria, apostasia, blasfémia, e outras práticas abomináveis, por que fora condenada, segundo os artigos do processo, os quais desde agora ficavam cassados, anulados, aniquilados, lacerados, pois que eles revisores diziam, pronunciavam, decretavam, declamavam que tais artigos e processos estavam contaminados de dolo, calúnia, contradição, iniquidade, erro, etc., etc., e etc.!...» Enfim, com toda esta temerosa fraseologia, entornada aos baldes, a Igreja apagava juridicamente a fogueira que trinta anos antes acendera. O corpo puro da donzela lá ficava em torresmos entre os tições da fogueira (exceptuando o coração, que, apesar dos teimosos esforços do carrasco, nunca quis arder, e que foi necessário afogar no Sena). Mas a alma, e isso era a parte importante no século XV, essa ressurgia do lume absolvida e limpa. Depois, tendo concluído este acto que ela considerava mais de misericórdia do que de justiça, a Igreja não se tomou a ocupar de Joana. Os seus afazeres eram consideráveis – e havia outros justos, e sábios, e filósofos, e profetas, que estavam necessitando atenção e fogueira. E não creio que, durante os séculos seguintes, a Igreja desse à donzela um pensamento. E natural mesmo que no século XVIII os galantes abbés, de batina de cetim e pós de íris na coroa, muitas vezes lessem em serões mundanos os trechos picantes de La Pucelle, de Voltaire, com alegria e com gosto.

Quando, porém, há vinte anos, se deu a ressurreição patriótica de Joana, e começou o seu culto civil, a Igreja imediatamente se lançou no movimento com santo calor. Enquanto os seculares pediam simplesmente, para a boa lorena, estátuas e festas – o clero francês, subindo logo aos limites extremos da glorificação, reclamou que ela fosse canonizada. Àquela a quem o génio nacional estava prestando homenagens, que só eram e só podiam ser da Terra, a Igreja, mais rica em Deus, oferecia logo a homenagem suprema – o céu! Neste entusiasmo havia muita sinceridade. Todos os motivos que levavam a multidão leiga a amar e a exaltar Joana actuavam também no espírito do clero – que é grandemente inteligente a patriótico. Mas a este entusiasmo também se misturava muito interesse.

Não era bom, nem útil, que nessa história de Joana, agora sempre lembrada e constantemente mostrada como a maravilhosa realização de todas as virtudes francesas, a Igreja só aparecesse como perseguidora, ao lado do carrasco, com o facho da fogueira na mão evangélica. Por outro lado, convinha que a libertadora do reino de França fosse uma enviada de Deus, como tal reconhecida e venerada pela Igreja, e que, portanto, no espírito do povo a ideia de desforra nacional se misturasse intimamente à ideia de intervenção divina. E, finalmente, desde que Joana d’Arc, outra vez, como no tempo de Carlos VII, tinha o dom de arrastar as multidões, era vantajoso para a Igreja que uma tão grande despertadora de fé, de emoção, de poesia e de patriotismo estivesse colocada sobre um altar, no interior de um templo – porque todo o templo e os altares vizinhos não teriam senão a lucrar com hóspeda tão popular e atraente.

Influíssem estes, influíssem outros motivos, o facto considerável é que o clero francês começou a promover em Roma a canonização de Joana d’Arc com um vigor, uma abundância, um ruído, que inquietaram a França radical e livre-pensadora. Os bispos gritavam todos os dias, num entusiasmo impaciente e textualmente: «Santíssimo Padre, apressai-vos a pôr sobre a fronte de Joana a auréola divina!» E o radicalismo descontente murmurava: «Para quê?...» Em Roma tudo se faz com uma prudente lentidão: e além disso o Sacro Colégio, a Congregação dos Ritos, o papa, todos tendiam a considerar a boa donzela mais como uma república julgou hábil republicanizar Joana d’Arc, instituindo em sua honra uma festa nacional e civil, como a da tomada da Bastilha, com iluminações e danças, de modo a imprimir definitivamente à glorificação de Joana um carácter civil e oficial. Mas esta festa, que devia ser votada pelo parlamento, também se retardou – porque o Estado em França é uma máquina que ainda se move com mais morosidade do que a Igreja. Os bispos então redobravam os esforços, fizeram ressoar todo o Vaticano de súplicas. E a sua íntima intenção lá se ia revelando, pois que uma das vozes eclesiásticas mais potentes e cheias de autoridade, a do padre Monsabré, apresentava como argumento que, desde que a Igreja exaltara na pessoa do reverendo La Salle o ensino católico, para o proteger contra todas as «intervenções nefastas», deveria sem demora exaltar na pessoa de Joana d’Arc o patriotismo católico, para que a pátria francesa pudesse reconquistar o seu lugar no mundo, como verdadeira filha que e, e filha mais velha, de Deus...

O radicalismo e o livre-pensamento empalideceram. O plano dos bispos era manifesto. Assim como tinham tentado monopolizar o ensino, tentavam agora monopolizar o patriotismo – e aferrolhando Joana d’Arc dentro da Igreja, utilizando a sua força em serviço da Igreja, procuravam tornar-se eles os dispensadores exclusivos da fé patriótica, e estabelecer no espírito das multidões a ideia de que a França só pode ser salva pelo heroísmo que os bispos benzem. O livre-pensamento, ao que parece, ainda tentou afastar da cabeça de Joana a auréola que a ia tomar propriedade do clero. Mas era tarde. Leão XIII, cedendo às exigências do episcopado, e certo, de resto, que santificar Joana era ainda honrar a França – canonizou a donzela de Orleães.

Assim temos no calendário uma nova santa, virgem e mártir, e mártir que não sofreu martírio por edictos pagãos de Diocleciano ou de Décio, mas por uma sentença eclesiástica, assinada por bispos. Creio que pela primeira vez se dá o caso singular de a Igreja adorar como santa uma mulher que ainda não há muito queimara como bruxa. E ambos os julgamentos, o que a queimou e o que a santificou, foram dados em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, e sob a garantia da sua inspiração. Tal é a certeza e a infalibilidade da Igreja. E agora que um espírito novo a espiritualiza, e que através das ruínas do fanatismo ela tenta recuar até à pureza primitiva, bem devia realmente a Igreja rever os processos de outros ilustres queimados. Quem sabe se muito deles, bem exami nado de novo o seu caso, não mereceriam passar da fogueira para o altar? E nas trevas inferiores, onde jazem por sentença eclesiástica muitos outros mártires, como Bruno e Savonarola, estão talvez, ao sentir o aroma de incenso que se evola para a antiga sacrílega e nova santa, murmurando amargamente: «E nos

IV

Enfim, eis a donzela de Orleães canonizada – e bem se pode compreender a sofreguidão com que o clero se apoderou dela e a levou em triunfo para a sombra sagrada dos templos, para longe dos mações, dos radicais e dos livre-pensadores, que a maculavam com o bafo impuro do seu entusiasmo literário e racionalista.

Ainda não secara a tinta da sentença beatificadora, e já em Notre-Dame de Paris se estava celebrando, com o devido esplendor, a sua festa, a primeira festa, com órgão e procissão, de Santa Joana d’Arc. O clero todo bradava vitoriosamente, pela voz de monsenhor Gouth- Soulard, arcebispo de Aix: «Joana nostra est! Joana é nossa!»! E o arcebispo de Aix não só afirmava a propriedade da Igreja sobre a alma de Joana, mas sobre todos os seus feitos. «Joana é nossa!«, exclamava o digno prelado numa carta pública.

«Agora só é nossa! Só nós, católicos, temos a propriedade exclusiva dos seus milagres. Vós, racionalistas, guardai os vossos outros grandes homens. Colocai-os no Panteão ao lado do vosso Voltaire. Ninguém vo-los disputa, ninguém vo-los quer. Mas Joana é nossa, nostra est! E o que e do céu não é do mundo!» Assim falava o arcebispo de Aix, em palavras aladas, como diz o bom Homero – e o radicalismo rugia de furor. E ao mesmo tempo aquela numerosa França, que, sem ser radicalista, nem livre-pensadorista, não se reclama todavia da Igreja católica-apostólicaromana, pensava que sendo Joana uma francesa que vivera e sofrera pela França devia pertencer a toda a França. E o próprio Governo republicano se sentia embaraçado, porque realmente a república não podia prestar honras oficiais a uma santa do Paraíso. Arrancar Deus do ensino, secularizar todas as instituições e, conjuntamente, decretar uma gala e iluminar os edifícios públicos em honra de Santa Joana, seria um contra-senso que nada justificaria, nem o facto de Joana ter libertado a França das hostes de Bedford, pois que também Santa Genoveva salvou Paris das hordas de Atila, e nem por isso o Estado lhe celebra a festa. (Pelo contrário! Expulsou-a da sua velha igreja, para lá colocar Victor Hugo e depois Carnot.) E para Joana d’Arc, o primeiro resultado da sua santificação foi o Estado retirar-lhe a aparatosa festa cívica que lhe estava prometendo em nome da pátria.

Em outros tempos, com outro povo, tudo se poderia conciliar – e Joana teria a sua festa religiosa na igreja e a sua festa cívica na praça, como sucede em Portugal a S. João, a Santo António e a S. Pedro. Mas nesta França, dividida em duas Franças, a católica e a não católica, ambas hostis, nada querendo ter em comum, e cada uma conspurcando o que a outra adora, a boa donzela de Orleães, guerreira e santa, nunca poderia reunir e gozar pacificamente e simultaneamente o preito da Igreja e o preito da sociedade civil. Para ela, ou a popularidade secular, e desde logo a desconfiança e a indiferença da Igreja – ou a glória sobre os altares, e desde logo a descrença e a desafeição entre as multidões racionalistas.

E foi o que sucedeu. Apenas o clero a quem ela fora atribuída a instalou devotamente na sua capela nova – não houve mais para a França livre-pensadora, nem Joana d’Arc, nem boa lorena, nem donzela de Orleães. Foi como se a guerreira, que era amada pelo povo, porque no meio dele vivia, se retirasse bruscamente do mundo e o renegasse, para se esconder na sombra devota de uma sacristia. Ninguém mais a compreendeu, nem a reconheceu mais, sob aquela túnica de santa que agora a cobria em vez da armadura de aço, e com aquela palma verde na mão, em lugar da rija espada borgonhesa, que tão bem pranchava nas trincheiras de Orleães. O Estado já passara um traço amargo sobre o projecto de festa nacional com que a queria exaltar. As municipalidades interromperam logo a construção dos monumentos que lhe estavam erguendo. Os escultores abandonaram-na aos santeiros. Os poetas não a celebraram mais em poemas, porque ela agora pertence aos fazedores de loas. E o teatro deixou de pôr Joana d’Arc em melodramas e pantomimas bélicas, desde que ela, pela sua beatificação, voando da Terra ao céu, perdia a sua realidade e se desfazia em mito.

Mas o egoísmo do clero tornou ainda mais aguda esta desafeição. Era de uso em Paris, nestes últimos anos, depor flores e coroas no pedestal da estátua de Joana d’Arc. Nunca lhe faltaram, vistosas e frescas. Para significar claramente, porém, que essas coroas eram dedicadas à guerra e não à santa, os não católicos começaram a pintar-lhe este dístico: «A Joana, queimada por herética. » Os católicos, indignados com essa recordação histórica ultrajosa para a nova santa, vinham de noite arrancar estas coroas e deitá-las ao Sena. Mas quando as substituíam por outras, dedicadas, em largos rótulos «a Santa Joana d’Arc» – eram os livre-pensadores que corriam de noite e arrojavam ao no as coroas devotas... E assim, pela primeira vez desde 1871, se vê a estátua da donzela desguarnecida de flores, com o pedestal nu, como o de uma heroína desdenhada ou de quem se esqueceu o heroísmo.

Pobre Joana d’Arc, tão amada, tão entronizada há pouco na alma da França! Ela mesma esperara outrora, durante as angústias de Ruão, que um dia «todos lhe quereriam bem». E esse dia chegara, reparador e triunfal. Todos lhe «quiseram bem» – e todos lhe “quereriam sempre bem», se ela continuasse pertencendo a todos, ou se as consciências em França não estivessem divididas, como estavam divididos os interesses no tempo dela, quando havia duas Franças, a França dos Borgonheses e a França dos Armagnacs.

Já não há Borgonheses e Armagnacs – e a França politicamente é uma. Mas há uma separação mais funda: de um lado os católicos, do outro os racionalistas. Desde que a boa donzela foi, como santa, entregue ao culto ritual da Igreja, não podia conservar mais o culto afectivo do racionalismo. Para este, o clericalismo é, será ainda por muito tempo, o inimigo. É pois como se Joana passasse, com as suas armas e a sua bandeira, para o inimigo. Decerto, a pobre heroína não tem culpa da sua santificação. E a sua alma não é menos divina por estar divinizada. Mas o bom racionalista não pode, em boa consciência, prestar a sua homenagem patriótica a uma grande figura que está coberta de todos os atributos místicos, a auréola, a palma verde, a túnica de bem-aventurança, e cujos heroísmos foram convertidos em milagres.

A França republicana ainda poderia adorar uma inspirada, mas nunca uma taumaturga.

E se não lhe retira inteiramente nestes primeiros tempos o seu amor – abstém-se pelo menos de o traduzir em uma expressão pública. Para ela, de ora em diante, não mais coroas ante a sua estátua, nem monumentos nas praças, nem livros celebradores, nem festas nacionais – isolada no seu altar, na sombra da igreja, só gozará, cada ano, a sua missa, com tochas, música, sermão. E uma decadência. E aqui está como a santidade mata a popularidade e como uma grande alma, por ter penetrado no céu, se torna esquecida na Terra.

Porque não pode haver dúvida. A Igreja mesmo a esquecerá. Nestes anos chegados, enquanto durar a geração clerical que a conserva, e ela conservar o verniz fresco da uma santa nova, não lhe faltará certamente um culto destacado e ruidoso. Ela é por um motivo de batalha religiosa, como a Helena de uma Tróia devota – e o aparato e estridor do seu culto é uma das formas e das estratégias da batalha. Mas quando os tempos passarem, e vierem novas gerações eclesiásticas, novos bispos, Santa Joana d’Arc não será, para esses, especialmente distinta de outros santos de França, san tificados também pelo seus feitos, como Santa Genoveva ou S. Luís. Terá o seu altar, as duas velas que lhe competem segundo o ritual – e nada mais, nem mesmo uma genu flexão especial dos sacristães. O pó dos tempos, que tudo vai cobrindo, e que cobre também os santos, apagará lentamente o brilho com que ela por ora brilha. Pouco a pouco se tornará uma antigualha da Igreja, como Santa Genoveva. E como hoje já se não escrevem hagiológios, a sua lenda, que já esconde a sua história, cairá no esquecimento. A Igreja tem tantas santas, todas elas com direitos tão iguais ao mesmo culto, que não pode realmente devotar todo o seu fervor e todo o seu cerimonial a uma única, posta num altar mais alto por uma liturgia privilegiada. Santa Joana d’Arc tem de se contentar com o que se contenta Santa Eufrósina. Será uma santa como outras santas, e como elas mal distinta, vaga e perdida na celeste névoa luminosa que a todas envolve. Em cem anos, só algum padre muito erudito saberá ainda os feitos e os milagres da donzela de Domremy. O povo, lançado decerto nos ardores de uma religião nova, terá totalmente esquecido Joana d’Arc, que pertencerá então a um culto, desalojado por outro culto superior. E quando algum curioso de ruínas, nesses dias, penetrando num templo do passado, e avistando sobre um altar vetusto uma figura de mulher com uma bandeira na mão, perguntar de quem é essa imagem poeirenta e desbotada, o guarda trôpego do templo encolherá os ombros sem saber. Se, porém, casualmente, aí passar algum arqueólogo, bom ledor de antigualhas, talvez pare e murmure: – Essa? É uma Santa Joana das muitas Santas Joanas, que fez não sei que milagres, numa batalha com ingleses, para os lados de Reims ou de Orleães.

E a esse tempo, fora, nas praças da cidade, os heróis que não foram canonizados, que ficaram entre os homens, na sua simples glória humana, conservarão as suas estátuas, bem limpas, bem visitadas, sempre contempladas. com uma ou outra flor no pedestal – e serão ainda heróis.

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