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Crónicas de Londres

Eça de Queiroz

Londres, 14 de Abril de 1877

Estamos, parece, nas vésperas da guerra.

A Turquia deu ao ultimato da Rússia uma verdadeira resposta turca – verbosa, altiva, teimosa, cheia do espírito de fatalismo muçulmano: recusa tudo: fazer concessões ao Montenegro, desarmar, mandar embaixadores a Sampetersburgo, aceitar as intervenções alheias, renovar quaisquer garantias, quase discutir: desprende-se assim violentamente das combinações diplomáticas, carrega a espingarda e espera. Era fácil prever esta reacção do orgulho turco.

Há um ano que a Sublime Porta vive num estado de humilhação permanente. A Europa tem-na tratado como um seu subalterno dependente e inconsciente: impõe-lhe constituições, governa as suas finanças, discute a sua administração, usa da sua capital como de uma sala de hotel para instalar conferências, manda comissões impertinentes investigar os seus massacres domésticos, dá razão às províncias que se insurreccionam, força-a a constantes renovações do funcionalismo, censura as suas despesas, decide nos seus tribunais, obriga-a a nomear um parlamento, repreende-a, diz-lhe «chut!», desacredita-a, ralha-lhe, ameaça-a, não admite que ela tenha um espírito de raça, uma tradição histórica, uma necessidade religiosa e trata-a absolutamente como se ela fosse uma povoação de negros perdida no Sul da África.

Esta situação não podia durar. O Turco é inteligente, orgulhoso, bravo, teimoso, fanático; um dia viria em que, enfastiado de ver em roda de si tantos pedagogos a querer dirigi-lo e tantos ferrabrases a franzirem-lhe a testa – devia necessariamente dar dois passos a trás e meter a espingarda à cara.

Foi o que sucedeu.

Aceitando tacitamente a guerra, a Sublime Porta foi hábil. Qualquer nova concessão que fizesse seria inútil: a Rússia sempre quis a guerra; através das declarações adocicadas de paz, da proposta de conferências, das esperanças nas soluções diplomáticas a Rússia ia lenta e seguramente preparando a guerra. A Turquia não a podia evitar; e indo, decisivamente, ao encontro dela mostra ao menos um sentimento de dignidade e de força.

Além disso impelia-a a grande corrente do sentimento nacional; a cólera pública, excitada pelos ulemás, pelo partido da Velha, Turquia. é tão forte que concessões demasiadas ou a demonstração evidente de uma submissão à Europa faria correr um grande risco à dinastia dos Osmanlis.

O actual grão-vizir tinha de mais a mais um interesse de ambição pessoal em se mostrar resistente e enérgico: é que, tendo substituído Midhat Paxá exilado tinha de mostrar as fortes qualidades que o sentimento geral atribui a Midhat: Midhat tem um grande partido, não só em Constantinopla mas em todo o império; ele é considerado como homem capaz de fazer face à Europa, de manter a dignidade da raça turca e de saber morrer com honra: ora o actual grãovizir quer provar, para se manter, que não é um patriota inferior a Midhat: ninguém, na diplomacia, duvida que esta razão de política pessoal influiu poderosamente para a altiva resposta da Turquia ao ultimato da Rússia. Acresce a estas uma outra razão: é que a Turquia não pode licenciar o seu exército e que para o fazer viver tem de o fazer combater. Os Turcos têm quase duzentos mil homens mobilizados, reunidos na fronteira, com grandes esforços e sacrifícios nos dois últimos anos. Que se faria a este exército desmobilizando-o? Num país em que não há caminhos de ferro, quase não há estradas, estes homens, pertencendo às províncias mais afastadas do império, como poderiam voltar às suas casas? O Estado não tem dinheiro para os transportar. Com que recursos pessoais empreenderão eles a viagem? Nesta época do ano, os trabalhos do campo estão feitos; o Estado não tem trabalho que lhes dar, em que se ocupariam eles? A maior parte, em dois anos de acampamento, têm perdido o hábito do trabalho agrícola; o instinto da raça é militar: todo o turco ganha facilmente o hábito de ser soldado; perde mais facilmente o hábito de ser cultivador.

Este exército desmobilizado dispersar-se-ia através de províncias pobres, assoladas pela insurreição, e seria um elemento de desordem, de pilhagem, de deboche, e a renovação das cenas da Bulgária: assim o sentimento nacional, estreitas questões de ambição pessoal, inextricáveis dificuldades financeiras – aí está o que leva a Turquia à guerra.

O imperador da Rússia, por seu lado, é impelido também pelo entusiasmo público.

Um retraimento agora poderia causar como na Turquia um abalo revolucionário em toda a Rússia. E um ódio nacional: os jornais, pela exaltação da sua cólera, pelas narrações permanentes das crueldades e das opressões turcas sobre os cristãos; os comités de Moscovo pela sua vasta influência; o sacerdócio russo por uma prédica irritada e fanática mantêm o espírito nacional num furor permanente contra o Turco; a guerra e considerada santa, sem nenhuma ideia de conquista, de anexação; é possível que a plebe e a rica burguesia mercantil de Moscovo e das cidades pensem em Constantinopla; mas as classes militares, a aristocracia, sabem bem que nem a Inglaterra nem a Áustria lhes permitiriam aumentar o território: e realmente por um puro sentimento, pela libertação dos cristãos que se batem. E no fundo os dois governos – russo e turco são impelidos por um fanatismo contrario.

Qual será o resultado da luta? A desproporção de forças na fronteira é grave: os Russos têm duzentos e setenta e cinco mil homens de infantaria, vinte mil cavalos e novecentas peças de artilharia. Os Turcos têm cento e cinquenta mil homens de infantaria, três mil cavalos e duzentos e dezasseis canhões. Este número inferior é compensado por esta consideração: que o Turco é atacado e o Russo ataca – ora é conhecido que o Russo é o mais vagaroso e insuficiente dos exércitos de ataque e o Turco é um admirável soldado de defesa. Ninguém como ele para manter uma posição: é ainda uma qualidade que a sua religião lhe deu: a impassibilidade.

Os Russos decerto podem mobilizar rapidamente grandes forças, mas aos Turcos basta-lhes levantar o estandarte do Profeta para que todo o maometanismo, sejam quais forem as dissidências de seita, corra às armas.

Kalil Paxá, o embaixador da Turquia em Paris, dizia há dias, como o velhaco sorriso de velho maometano: – Nós esperamos: e a verdadeira guerra havemos de fazê-la com a Arábia e a Índia.

Uma das infelicidades da Turquia é talvez não ter realizado a sua aliança com a Pérsia. A Pérsia podia fazer uma terrível diversão sobre a fronteira asiática da Rússia, e obrigá-la a dividir as suas forças. Mas a aliança persa, segundo os bem informados, foi concluída com a Rússia e o exército persa está armado, disciplinado, instruído, comandado pela Rússia.

Que fará a Inglaterra? Há aqui mesmo mil opiniões. A mais geral, há tempos, era a de absoluta indiferença.

«A Rússia», dizia-se, «não se atreve a tentar uma anexação: mas mesmo que ela vá a Constantinopla, que importa à Inglaterra?» O caminho da Índia não fica por isso menos livre.

Além disso, é digno que a Inglaterra tome o partido de massacradores fanáticos e de devedores insolúveis? E depois de que serve fazermos esforços para conservar a integridade de um país que todos os dias, pela sua relaxação e a sua imprevidência se vai desorganizando a si mesmo? Que se lucrou com o dinheiro, o sangue, que se prodigalizou na guerra de 52? Para que se há-de intervir num duelo que a história e a fé tornam inevitáveis? Assim se falava.

Hoje, porém, perante a crise, a linguagem mudou. «Não se poderia realmente compreender», diz-se agora, «que a guerra não tenha como resultado, dada a vitória da Rússia, uma anexação de território»: daí a desmembração do império e o Russo em Constantinopla: mas então, a Rússia estaria no Mediterrâneo, com um dos fortes portos do mar: o poder inglês teria uma diminuição e a sua posse sobre a Índia, um primeiro perigo. Dai vem-se à conclusão que é necessária fatalmente a intervenção. Diz-se mesmo que à mais pequena escaramuça perdida pelos Turcos – a Inglaterra ocupará Constantinopla. A esquadra, reforçada, está em caminho de Bezoka-Bay – que é a antecâmara de Constantinopla.

Que a Inglaterra concorreu de certo modo para a guerra é evidente: concorreu com os seus meetings sentimentais e humanitários no Verão passado, dando ânimo aos Russos para seguirem a sua ideia agressiva: concorreu com a presença da esquadra em Constantinopla pouco depois, dando ânimo aos Turcos para resistirem à pressão pacifica da Europa: concorreu depois com a ideia do protocolo que, sendo um reconhecimento tácito da justiça e da força da Rússia, lhe deu um aumento de exigência e de hostilidade – e, sendo uma nova humilhação imposta à Turquia, a tomou mais despeitada e mais difícil de condescendências.

É provável, porém, que a guerra não rompa por estas semanas próximas. No protocolo diziase que, dado o caso de uma recusa da parte da Turquia, as potências acordariam numa decisão ulterior a tomar: mas esta decisão, sejam quais forem as combinações diplomáticas que a precedam, terá sempre este resultado – deixar a Turquia em frente da Rússia – e o resultado final, portanto, será igualmente a guerra.

En attendant, o ministro das Finanças apresenta o seu orçamento organizado como se a Inglaterra não tivesse a menor probabilidade de uma complicação militar. E um orçamento cheio de confiança, pacífico e próspero.

A despesa é calculada em setenta e Oito milhões setecentas e noventa e quatro mil e quarenta e quatro libras. A receita é calculada em setenta e nove milhões e vinte mil libras! O Tesouro tem, pois, o saldo a favor de duzentas e vinte e seis mil libras! Apesar deste orçamento invejável, a situação comercial e industrial da Inglaterra não é boa: em todo o reino há uma depressão na actividade. As indústrias do carvão e do ferro têm tido no Norte um período terrível de estagnação. Muitos altos-fornos estão apagados, muitos trabalhos de exploração carvoeira suspensos. Há milhares de homens sem trabalho.

Para se ver a declinação geral do movimento comercial, basta dizer que as grandes companhias de navegação entre a Inglaterra e os Estados Unidos – a Inman, White Star, Guion National – reduziram o número de viagens de paquetes – e que em lugar de saídas semanais têm apenas saídas quinzenais.

Acresce que, na maior parte das indústrias, a progressão crescente das exigências dos operários, justamente neste momento de crise, aumenta as dificuldades: é pelo menos o que afirmam os industriais.

O movimento crescente para a redução das horas de trabalho afecta, dizem eles, certas indústrias mortalmente: uma grande firma do Norte, exploradora de vastas minas de carvão, que empregava três mil operários, cessou os seus trabalhos, que não podem sem perda, afiançam eles na sua declaração, continuar sob o regime das horas reduzidas.

Começa a falar-se, com seriedade e espanto, numa nova descoberta americana, o telefone: é um telégrafo para a transmissão do som. Esta ideia, que nasceu em 1861, tem tido um progresso tão fecundo que há dois meses já se apresentaram perante as provas públicas dois sistemas rivais. O mais perfeito, parece. é o do Dr. Bell. O seu aparelho, que tem a aparência de um sistema telegráfico e um princípio electromagnético, trans-mitiu sons, numa última experiência, feita a cento e quarenta e três milhas; não só o som da voz chega perfeitamente claro, mas distinguem-se as inflexões mais leves. A experiência foi realizada em Boston e Conway, e àquela forte distância distinguia-se uma rabeca de um violoncelo; o rumor, as conversações, as risadas das pessoas que estavam junto do aparelho em Boston eram ouvidas em Conway com a distinta e exacta nitidez com que se ouve numa torrinha o que se canta no palco. Calcula-se que se poderá fazer chegar o som a transatlânticas distancias. Em Filadélfia organiza-se um concerto experimental, em que o público estará a cinquenta milhas dos artistas.

As novidades literárias são escassas. Ruskin, o célebre critico de arte, publicou um livro, que tem causado uma singular surpresa: é um livro íntimo, uma confissão, uma confidência –de quê? De sentimentos? De aventuras? De sofrimentos ou felicidades pessoais? Não: de despesas de casa! Não sabe a gente se há-de achar este livro um começo de imbecilidade senil ou um resto amável de candura infantil. A alta situação literária e crítica de Ruskin, personalidade original de grande relevo, aumenta o espanto. Imaginem o Sr. Alexandre Herculano publicando, de Vale de Lobos, um panfleto de duzentas páginas em que explicasse o que gasta em seus róis, quanto lhe custa a lavadeira, o que emprestou a fulano, a última conta do alfaiate, etc., etc. Uma coisa curiosa se vê no livro de Ruskin – é que gastou em poucos anos uma fortuna de duzentas mil libras! Parte por uma alta filantropia e uma santa caridade – e parte não sabe como; porque, diz ele, viveu quinze anos com tão sórdida economia, privando-se tão asperamente, que apenas gastava, pobre dele, trinta contos de réis por ano! Agora, diz, restam-lhe duzentos e cinquenta contos: acha que não vale a pena conservar uma soma tão mesquinha. Mete na carteira quinze contos para ir viajar este ano, e do resto faz duas partes –uma para dispersar em caridade, outra para empregar de modo que tenha para todo o futuro mil e quinhentos mil réis por ano: porque, diz ele, descobriu que todo o homem que não pode viver com este rendimento não é digno de possuir a vida.

Uma outra curiosidade é a nova revista mensal O Século XIX. Tem por colaboradores os mais altos nomes de Inglaterra, desde Gladstone, que será em breve o primeiro-ministro, até ao cardeal Manning – que pode vir a ser o futuro papa. A originalidade desta revista é que os seus directores pediram a todos os homens ilustres de Inglaterra – políticos, filósofos, professores, críticos – que lhe escrevessem a sua opinião individual sobre esta tese: «Que influência exerce sobre a moral a diminuição da crença religiosa?» Cada um dos homens ilustres deve responder num período curto, sintético, que se grave com a precisão de uma definição e a profundidade de uma máxima. A colecção destas definições filosóficas, reunidas nas últimas páginas de cada número sob o nome de Symposium. é altamente interessante: até aqui a declaração mais explícita é a do professor Fawcet, que diz: «A crença em Deus deve ser para os que a possam gozar um delicado prazer do espírito, mas a moral está acima e fora desses refinamentos da inteligência.».

A season – os três meses elegantes e aristocráticos de Londres – começa lentamente a organizar-se. Ordinariamente, a aristocracia inglesa, depois da Páscoa, vai a Paris: o príncipe de Gales é o primeiro. Passou-se o Inverno no campo, nos castelos, na caça, e antes do encontro oficial em Londres, vai-se respirar a Paris uma larga golfada de civilização: vê-se o último tom das toilettes, os cortes da Primavera na Lafferrière e no Worth, folheia-se o último livro de Goncourt, faz-se uma passagem nos salões do Eliseu, vê-se a novidade da Páscoa na Comédie Française, vai-se ao Café Anglais e à Maison d’Or, à vontade, de chapéu, o que é para uma lady inglesa uma adorável extravagância, e volta-se à representação pesada e solene de Londres. O tempo, porém, tem estado áspero, havendo frio, com o vento do sudoeste que tem um gume gelado, e o Hyde Park tem ainda a parda tristeza da sua solidão de Inverno. A great attraction desta season será, parece, Orleans Club. É um clube de campo: está à beira do Tamisa, numa paisagem amável, nas verduras de um vasto parque. Era uma propriedade do duque de Aumale. Os prazeres do clube serão piquenique no campo, tiro aos pombos, pescas, pólo, críquete, almoços na relva, bailes de musselina, soirées no parque, etc.

Todos os dias dois four-in-hand, conduzidos por membros do clube, levarão a Orleans House os sócios e as convidadas, porque uma feição delicada de Orleans Club é que será também um clube feminino, o que lhe trará inevitavelmente, por um tempo, o encanto e, mais tarde, a ruma.

Um outro clube original está em via de organização. E o clube dos torneios. Este deverá ter uma casa ao pé do Hyde Park, onde às cinco horas se serve o chá às senhoras, entre o campo: o fim principal deste clube será formar torneios e caçadas ao falcão. Faz ligeiramente sorrir o programa gótico e feudal deste clube londrino. A caça ao falcão pode conceber-se desde que se vistam os criados com as cores usadas na partida dos pajens do século XIV, se lhes borde no peito, sobre a seda, os escudos de armas e se lhes deixem crescer os cabelos louros em anéis. Assim poderão levantar no punho o carrancudo falcão com o seu capacete de pele de búfalo e a caça pode ter um aspecto suportavelmente feudal. Mas um torneio! Negociantes da City e banqueiros de capacete e armadura, dando-se golpes de montante, numa quinta particular, ao pé da estação de caminho de ferro! Singular diversão! O último torneio que houve em Inglaterra foi há trinta anos no Castelo de Egliton. Tinha sido aclamada rainha da beleza legendária Lady Seymoun. As festas foram esplêndidas. Ficaram célebres as pessoas do elegante marquês de Londonderry. Houve um episódio. Um homem baixo e grosso, de nariz espesso e fortes bigodes, todo coberto de uma armadura aparatosa, caiu na arena, estatelado, esperneando; levantaram-no e sacudiram-no; estava são, só um pouco humilhado: damas e cavaleiros riram; era um estrangeiro, sem grande importância: quatro anos depois era imperador dos Franceses! Uma curiosidade de Londres – foi o desafio a andar entre o célebre caminhador O’Leary e o seu rival Welton. O desafio foi em Albert Hall e durou seis dias – durante esse tempo, os andarilhos tiveram apenas algumas horas de descanso! O’Leary ganhou, tendo andado quinhentas e vinte milhas; Welton perdeu por dez milhas. O’Leary caminhava com os cotovelos apertados aos rins, calado, olhar direito, tendo agarrado em cada mão, com uma força convulsiva, uma varinha. Welton caminhava bamboleando-se, falando, com um chicote numa das mãos, a outra à cinta – e para se excitar fez-se tocar constantemente à banda alemã de instrumentos de metal uma marcha estridente. Trinta mil pessoas assistiram sucessivamente a este singular desafio. O que se provou? Incontestavelmente que a constituição humana tem um prodigioso poder de resistência, e que esta máquina de carne e ossos não é inferior às de Birmingham. Mas o que é estranho é que no tempo dos caminhos de ferro – se exerça essa preciosa força de resistência, numa arte inútil, obsoleta, quase bárbaras marchas! O grande teatro da Alhambra representa uma peça fantástica, cortada de bailados, que tem, em Inglaterra, uma singular qualidade – e imoral! É a primeira vez que vejo num palco inglês o amante idealizado e o marido apupado! Milhares de pessoas vão sucessivamente saborear aquele escandalozinho gigante. Vejam a censura inglesa! Admite esta farsa impudente, povoada de mulheres quase nuas, e recusa a Dama das Camélias! Mas é que em Inglaterra não existe censura; Lord Chambellan, um velho caturra de outras idades, excêntrico e variável, é a censura. Governa despoticamente do meio do seu mau humor os teatros de Londres, e com tanta inteligência que permite as farsas imorais de um rabiscador idiota – e impede a representação da obra de Dumas, da Academia Francesa!

II

Londres, 14 de Maio [de 1877]

Lembram-se, decerto, de eu lhes dizer na minha última carta que o soldado russo era o mais vagaroso dos soldados de ataque; aí têm a prova: há um mês que começou a guerra, e nem no Danúbio, nem na Ásia Menor, tem havido um facto decisivo: as estradas da România, é verdade, têm estado quase impraticáveis pelas chuvas incessantes e pelos temporais tão oportunos que parecem estar às ordens do sultão e pertencer ao estado-maior turco; é verdade que na Ásia Menor as dificuldades de transporte e de trânsito para um forte exército invasor são consideráveis: todavia repete-se um facto histórico e militar: toda a invasão russa é sempre uma campanha protraída e monótona.

No Danúbio tem havido apenas alguns duelos de artilharia entre os fortes das duas margens, com resultados (consoladores para os humanitários) de algum cavalo morto ou de algum tecto de colmo queimado.

O facto mais enérgico foi a passagem de Hobart Paxá, a bordo de um navio turco, através do fogo das baterias russas. À chegada dos Russos à România e aos portos do Danúbio, Hobbart Paxá estava, em serviço de inspecção, a bordo de um navio de guerra – no Alto Danúbio –, e ficou portanto bloqueado pela instalação fortificada das vanguardas russas. Com uma decisão destemida, toda a força de caldeira, todos os fogos acesos, esperando a cada momento tocar algum torpedo e ir pelos ares, raspou-se à razão de quinze milhas por hora, sob um fogo desesperado dos Russos, incólume e com bandeira alta.

Hobbart Paxá é certamente uma das figuras mais salientes e mais originais desta guerra. E inglês e par de Inglaterra: é filho do conde de Buckinghamshire e herdou o titulo há anos, quando tomou assento na Câmara dos Lordes. Entrou na marinha e pouco tempo depois fezse frade. Serviu a Turquia na insurreição de Creta, e na guerra dos Estados Unidos quebrou muitas vezes, a bordo do seu navio corsário, o bloqueio do Sul. Agora é paxá e almirante turco.

E um homem inteligente, heróico, com sérias qualidades de organizador. Tem quarenta e cinco anos, a barba toda espessa, o olhar agudo, o sobrolho carregado e um certo ar de bonomia altiva. E um aventureiro de bem – ou antes, uma heroicidade disponível, que procura emprego.

Na Ásia Menor a marcha dos Russos tem encontrado dificuldades: tudo o que têm adiantado são duas milhas alemãs; é incontestável que em encontros parciais, mas violentos, os Turcos têm tido vantagens; as forças voluntárias turcas organizam-se com um impulso fanático e duplicam a resistência.

Hoje dizia-se que algumas tribos do Cáucaso se tinham insurreccionado – o que podia cortar as comunicações do exército russo e isolá-lo na Ásia: esta noticia harmoniza-se com o despacho que diz ter o czar ordenado a mobilização do quarto, sétimo e décimo primeiro corpos de exército. Todos os correspondentes são uniformes em elogiar a organização dos Russos: boa cavalaria, equipamentos perfeitos, uma admirável administração, uma disciplina exacta, pagam tudo em ouro na România – e só o que é fornecido pela municipalidade é pago em letras, a três meses. Os Românicos recebem-nos fraternalmente: duvida-se todavia que lhes possam ser de utilidade na guerra. Certamente o príncipe Carlos é prussiano, da Casa de Hohenzollern, bravo, e deseja ardentemente uma reputação militar: mas um românico é apenas um soldado de aparato: admirável nos jardins ou nos cates, com os seus uniformes pesados de bordaduras – não tem as qualidades de resistência, de fé e de tenacidade que fazem o bom soldado. No entanto, são vinte ou trinta mil homens – e quando não sirvam senão para guarnecer os territórios que os Russos forem ocupando são já de uma grande vantagem; são outros tantos milhares de russos desembaraçados das funções ociosas de guarnição e prontos para a campanha activa. O resultado definitivo da guerra não me parece duvidoso: esta é a sétima ou oitava guerra turco-russa – e se os Turcos não têm aprendido nada, os Russos têm aprendido tudo. O Turco é decerto o mesmo soldado bravo, sofredor, activo de outrora; mas a guerra hoje não é uma questão de bravura ou de arranque individual; é uma ciência com processos científicos – e neste ponto a inferioridade turca é absoluta. Desde as pontes importantes que se esquecem de cortar até aos monitores que deixam afundar sem razão – são verdadeiramente os antigos turcos, enchendo o seu cachimbo no momento do perigo e confiando em Alá.

Aqui, naturalmente, a grande preocupação é a atitude futura da Inglaterra; e não é fácil perceber, através das discussões difusas dos jornais e dos debates confusos do parlamento – qual é a verdadeira vontade do país: eu penso que, como o ministério, o país quer intervir. O ministério naturalmente declara, na câmara e nos jornais, a sua neutralidade: mas e realmente uma neutralidade a que declara que conservará a espada na bainha – se os Russos se abstiverem de ideias de conquista? E uma neutralidade condicional. É, rigorosamente, um começo de intervenção. E depois, por esta condição – a abstenção de conquista –, vem pôr de antemão uma condição que a lógica dos factos tomaria mais tarde ou mais cedo inaceitável.

A Rússia pode agora, decerto, declarar que não pretende territórios: mas depois de os ter ocupado terá força, renunciamento bastante para os restituir? Todo o estado vitorioso exige forçosamente, em definitiva, uma compensação aos sacrifícios da guerra: dinheiro ou terreno: ora a Turquia não tem dinheiro, logo há-de pagar com províncias. E isto é tão certo – que o exército russo na Ásia Menor vai acompanhado de uma corte numerosa de funcionários civis, prontos a organizar o país à russa, a maneira que ele for conquistado. De modo que, apenas os Russos se estendam na Ásia Menor ou marchem sobre Constantinopla – a Inglaterra tem de dizer o seu «alto lá».

Em qualquer destes casos, é a Índia que seria ameaçada, ou directamente ou no caminho que lá leva: daí a necessidade imediata de aumentar, num pé-de-guerra paralelo ao da Rússia, o exército da Índia, o que seria um encargo intolerável para a Índia e uma negação dos princípios económicos do Estado. A fazer tal, a Inglaterra prefere fazer a guerra.

Junte-se a isto que a Rússia, desde a sua marcha progressiva na Ásia, e o inimigo natural da Inglaterra: que a Inglaterra quer mostrar a sua força e a sua influência; que está despeitada pela maneira falaz e tortuosa por que a Rússia conduziu as negociações anteriores à guerra – e sentir-se-á a popularidade da ideia da intervenção. Além disso a imprensa ministerial, em artigos frenéticos, pede claramente a guerra: e o Punch tinha razão outro dia – representando as penas aguçadas do Daily Telegraph, do Morning Post, do Pall Mall, espicaçando o enorme Leão Britânico para o fazer erguer-se e rugir.

Este sentimento julgo-o geral: há porém uma corrente de paixão que já por duas vezes tem atravessado o país e que o conserva por um, dois dias, num estado de excitação, desejando a destruição da Turquia, como um pais bárbaro, massacrado, fora da civilização.

Nesses dias fala-se em dar apoio à Rússia: repetem-se as lágrimas choradas sobre os massacres da Bulgária: pede-se que a frota vá bombardear Constantinopla. Esta exaltação de sentimento é levantada artificialmente por Gladstone e pela porção dos liberais que o seguem.

A sua eloquência apaixonada, a sua convicção contagiosa, a altura do seu carácter, arrastam um momento: Gladstone quer que se abandone a Turquia, que se faça uma aliança com a Rússia, que se divida o Império Otomano. E por algum tempo todo o mundo pensa assim.

Mas a exaltação abate-se, a sensibilidade recrescida acalma – a razão prática readquire os seus direitos, e o pais, arrefecido, continua a pensar que o sentimento perturba tudo e não edifica nada, que a sã política do ministério é a antiga tradição da Inglaterra – e que se alguma coisa há a fazer é dar um golpe na Rússia.

A opinião está muito preocupada também de um certo azedume de relações entre a Alemanha e a França. A Alemanha parece querer renovar as antigas reclamações a respeito dos armamentos consideráveis da França. Não é já hoje um segredo para ninguém que a meia demissão do príncipe de Bismarck foi sobretudo causada pela resistência que ele encontrava no imperador em tomar uma atitude francamente hostil à França. Bismarck e Moltke são a alma do partido da guerra – e, se não fosse a forte influência do partido da paz, quem sabe por que novas catástrofes teria passado o Ocidente da Europa. Este partido da paz é representando na corte pelo príncipe imperial e inspirado pela princesa, a Inglesa, como lhe chamam em Berlim: inteligente, instruída, enérgica, correspondendo-se com os homens mais ilustres da Inglaterra, ela tem uma grande influência, naturalmente, em seu marido e, além disso, no imperador. É diz-se, uma das colunas da paz. Um incidente curioso, que me foi particularmente contado, revela de resto a fragilidade desta situação: por ocasião dos anos do imperador da Alemanha tem sido costume do marechal Mac Mahon mandar um ajudante de ordens, com felicitações. Este ano o ajudante tardava. Grande alegria do partido da guerra.

Era uma insolência francesa! Era uma desfeita! Era o primeiro acto hostil da desforra! O príncipe imperial, assustado, vendo o seu pai descontente, mandou um telegrama para Paris, pedindo que o ajudante partisse logo e explicando que comentários perigosos se estavam formando. O ajudante, o marquês de Abzac, estava já em caminho: chegou na véspera dos anos do imperador! Desconsolação do partido da guerra! Triunfo do partido da paz – que levou o imperador a dar uma grã-cruz ao marquês de Abzac.

No entanto, a França prepara tranquilamente a sua Exposição. Uma das curiosidades será a colecção de preciosidades que o príncipe de Gales trouxe da Índia. Ele mesmo foi examinar em Paris o lugar que lhe estava marcado. Diz-se que nessa noite, estando no palco do Théâtre Français e falando-se das peças novas que iriam por ocasião da Exposição, uma linda actriz lhe perguntou bruscamente: – E crê vossa alteza que a Exposição terá lugar? O príncipe, um pouco embaraçado, reflectiu e respondeu: – Com toda a certeza.

O Transval, como sabem, foi anexado. Era previsto.

Não se sabem ainda as razões detalhadas que levaram Sir Theophilus Storey a este passo extremo – mas parece que a dissolução da república era iminente: os bóeres tinham provocado uma guerra e recusavam-se a pagar os impostos para a sustentar: a república, sem meios, sem soldados, estava na véspera de uma invasão: todo o mundo bárbaro que a cerca, estava em armas: era de temer à primeira insurreição que houvesse no Sul de África um levantamento selvagem, em massa. Foi talvez para evitar este grave perigo – que Sir Theophilus Storey interveio. O território do Transval é grande como todo o reino de Itália e não tem mais de um milhão de habitantes. Parece que a anexação foi tranquila, além, naturalmente, dos protestos platónicos. Na acta de anexação o Transval é declarado estado livre, com toda a autonomia do governo local: as línguas holandesa e inglesa são consideradas igualmente oficiais: certos impostos são abolidos – e parece que o sentimento pacífico é tão grande que não foi necessária ainda a presença de tropas inglesas. É mais um grosso bocado do globo que entra para a vastidão da Inglaterra! Por esta ocasião alguns jornais têm falado de Lourenço Marques.

Pintam-no como um país fértil, rico, de grande futuro, em plena anarquia: funcionários, instituições, edifícios, serviços públicos, actividade local – tudo é descrito como num estado desolador de dissolução e de inércia. O Pall Mall, jornal do governo, tem insistido nestes detalhes.

De resto não é raro encontrarmos nos jornais ingleses estas pinturas falsamente carregadas de civilização portuguesa na África: e têm elas tomado um tal carácter de exageração injusta que ingleses estabelecidos na África têm julgado do seu dever estabelecer a justa verdade, e ultimamente nos jornais do Cabo encontravam-se apreciações extremamente favoráveis sobre o funcionalismo português em África – apresentando-o como ilustrado, de vistas liberais e de uma grande benevolência.

As novidades literárias são escassas. Relêem-se os livros velhos – sobretudo os que dizem respeito ao Oriente, à Turquia e à Rússia: em todas as lojas de livros se vêem edições recentes do Alcorão traduzido; e, como a Turquia é preocupação do momento, as revistas literárias dedicam artigos sólidos, laboriosamente compilados pelo método inglês, à literatura e poesia turcas.

Tem-se lido muito, todavia, o novo livro do deputado Jeckins, autor de Xinx’s Baby; este novo romance ou panfleto romantizado chama-se Devil’s Chain («Cadeia do Diabo») e tem-se vendido em pouco tempo vinte mil exemplares! É uma pintura violenta, colérica, da embriaguez em Inglaterra: este grande vício nacional, e as suas fatalidades, está contado em episódios lúgubres, num estilo concentrado e nervoso, a largos traços, de um modo impressionador: vêem-se todas as classes, todos os caracteres, todas as idades, virgens, mães, sacerdotes, operários, juizes, lordes, ministros de Estado, a Inglaterra inteira, arrastada pelo brande, pelo gim, pela aguardente, à perdição, ao vício, à miséria, à desonra, ao crime, à morte! E um pais todo que rola para o abismo, cambaleando de bêbedo. É a grande Cadeia do Diabo! Satanás prende-os uns aos outros por um vício comum – o álcool – e, a grandes vergastadas, vai-os atirando para o inferno.

E, no meio desta catástrofe, um só homem prospera, engorda, sorri e triunfa – o destilador, o preparador do álcool, o dono das mil tabernas. Mas lá lhe vem o seu castigo: o único filho, o único herdeiro, de copo de aguardente em copo de gim, vem a morrer, miserável, num quarto de acaso, vagamente cumpliciado num crime! O livro perde pela sua exageração bíblica. Tratado com mais realidade, causaria mais convicção.

A season vai monótona. Janta-se pouco, recebe-se pouco, dança-se pouco. O tempo tem estado áspero. A grande attraction é naturalmente a exposição anual de pinturas. Não se pode ver em detalhe, porque nestes primeiros tempos a multidão toma às vezes as proporções confusas de uma bernarda.

Empurra-se, escorrega-se, pisa-se, vai-se, é-se levado – e vêem-se de longe, nas paredes, as cores reluzir vagamente e os dourados dos caixilhos cintilar: mais nada.

A primeira impressão, porém, é que a exposição é medíocre: milhares de quadros, imenso talento despendido, uma extraordinária habilidade de execução – mas nenhuma obra que faça pensar.

Os assuntos não têm ideia: são motivos, pretextos para correr: basta dizer que os dois grandes pintores de Inglaterra, Leighton e Millais – um expõe uma «menina vendo-se a um espelho», o outro «um veterano»! E o que estes dois grandes artistas têm a dizer este ano! Quando a gente, no colégio, aprende aguarela, copia assuntos com mais ideia e mais intenção.

Os concertos wagnerianos têm tido um sucesso. São compostos das principais partes das óperas de Wagner, sobretudo da sua última trilogia heróica, Os Nibelungos: muitos dos cantores que executaram a ópera em Bayreuth vieram a Londres – entre eles Madame Madonna, a prima-dona do maestro, a favorita, a sua grande interpretadora.

Nestes concertos, naturalmente, fala-se muito de Wagner, das suas excentricidades, do seu orgulho, do seu génio, dos seus hábitos. Um artista que esteve em casa dele em Bayreuth, conta-me alguns traços curiosos. O maestro trabalha num salão enorme, com janelas imensas que abrem sobre um jardim, em cima de uma mesa de mármore. Está às vezes quinze a vinte dias sem escrever uma nota: de repente a imaginação vem: o maestro sente-a, e veste imediatamente o seu fato de trabalho. E um costume de veludo, à maneira dos camponeses alemães da Renascença. Abre todas as janelas e escreve doze a quinze horas a fio, atirando os papéis de música para o chão, até haver em toda a sala uma camada espessa. Não emenda, nem corrige. Quando não trabalha passeia só pelos campos adoráveis de Bayreuth, com dois enormes cães terra-nova, que o não deixam. Quando em Bayreuth ele entra num café, todo o mundo o segue, se descobre e deixa de fumar! Não há por ai ninguém que queira ir explorar a Roidaima? A Roidaima é a grande maravilha geográfica destes tempos. Viajantes exploradores, na Guiana Inglesa, encontraram ultimamente uma montanha de granito, na forma de um dado colossal: os lados são perfeitamente a pique, perpendiculares: o plano superior está a uma altura de alguns mil pés: com fortes óculos de alcance vê-se que há, em cima, uma floresta, e deduz-se, por pássaros de várias formas que se vêem voar, que além de toda uma flora é toda uma vida animal: haverá homens? Nunca ninguém lá subiu, nunca ninguém de lá desceu; que mistério há ali? Desde o começo do mundo aquele país aéreo está intacto, inexplorado, virgem. É decerto habitado: provam-no as arvores, os pássaros, a água doce que cai em cascatas pelo lado do monte: a largura em cima é de duas léguas.

Que espécie de homens habitam ali? Que raça? Que língua falam? Desde Adão, segundo a Bíblia, ou desde o primeiro macaco, segundo Darwin – habita ali uma tribo, uma nação. Que civilização tem? Que estranhos animais se encontrarão ainda lá? Que estranhas árvores? Os jornais ingleses pedem, à uma, que se organize uma exploração, com balões, para subir lá e ver! Confesso que é tentador: quantas maravilhas a ciência poderá ali encontrar! É bem possível que lá vivam muitas das raças animais que no resto do globo desapareceram.

E que sensação a do explorador que, ao descer da barquinha do balão, ao aportar àquele mundo aéreo – visse um ser felpudo, um imenso macaco humano, fazendo pastar tranquilamente um rebanho de mastodontes?

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