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O Conde d'Abranhos

Eça de Queiroz

Alípio Abranhos teve assim o desgosto de passar durante algum tempo por «um grande

chalaceador».

As orelhas abrasaram-se-lhe de vergonha quando, nessa noite, o padre Augusto lhe veio dizer que no Martinho era voz geral que «para chalaça não havia outro!» Quisera estrear-se, mostrando a profundeza de um filósofo, e faziam-lhe a reputação de um folhetinista... Teve rancor ao seu aparte. Negá-lo era impossível: lá vinha ao outro dia no Diário das Câmaras, com esta indicação do movimento (imensa hilaridade).

Teve então de sofrer um martírio mudo, grotesco, de receber parabéns por uma façanha que o vexava. O Cardoso Torres dissera-lhe: – É disso que se quer! E disso que se quer! Vejo que o amigo é homem de pilhéria. E matá-los com dichotes ....

Que agonia! E pior ainda foi quando sua tia lhe escreveu, dizendo que em Amarante, em casa das Neves e das Cunhas, «se tinha falado muito da pilhéria que ele dissera na Câmara, que fizera rir toda Lisboa» e que a opinião de todos era que devia ser muito temido, «por causa das chalaças que soltava». Isto era odioso para um espírito elevado como o de Alípio Abranhos.

Então a sua atitude tornou-se cautelosa. Para destruir aquela falsa, grotesca fama de «chalaceador», assombreou, sublinhou a sua natural seriedade. Tornou bem patente que aquele dito era, nos seus hábitos intelectuais, uma extravagância isolada. Conversava com prudência, evitando tudo o que pudesse ser tomado como «gracejo», «saída» ou «pilhéria». A sua atitude na Câmara era como a afirmação exterior da gra-vidade dos seus pensamentos: conservava-se erecto, com os braços cruzados, a testa franzida, pensativo. E um dia que Cardoso Torres lhe disse: – O amigo recolheu-se ao silêncio. Atire-lhes outro epigrama, homem! Não os deixe...

espicace-os! Alípio respondeu, despeitado: – Quando eu combater a oposição, Sr. Cardoso Torres, há-de ser com a lógica – não com a pilhéria! – Pois sim, mas olhe que o ridículo é uma grande arma.

– Não a sei manejar, Sr. Cardoso Torres.

– Histórias! ... O amigo tem graça... E utilizá-la.

Alípio Abranhos tomou rancor a este cavalheiro, e eu posso mesmo, com afoiteza, datar desta entrevista a sua resolução de se separar do ministério Cardoso Torres.

Entretanto ele compreendia que a maneira eficaz e digna de mostrar à Câmara e ao país a verdadeira feição do seu talento sério, era pronunciar um grande discurso de eloquência grave: preparou-se então com fervor para a sua verdadeira estreia.

Os projectos pueris nesse momento em discussão, não lhe davam a oportunidade de fazer uma oração elevada. Eram medidas subalternas – estradas, um projecto de caminho de ferro, legislação para as colónias – uma série de trabalhos monótonos, em que se comprazia o espírito mesquinhamente prático de Cardoso Torres, e que a maioria votava, distraída, desinteressada, perante as galerias vazias.

Esperava-se, porém, uma Reforma da Instrução, e Alípio Abranhos decidiu fazer nessa ocasião a sua «estreia de estadista».

A composição deste discurso célebre foi feita no meio de preocupações graves de família.

Chegava Março e com ele o nono mês de gravidez de D. Virgínia Abranhos. D. Laura instalarase em casa do genro para se achar mais perto da filha no momento do transe. Uma bela moça de Campolide, a futura ama, já estava em casa, e toda a noite ardiam lamparinas propiciatórias junto de santos especiais.

Entretanto, no seu escritório, Alípio Abranhos, cercado de autores, compunha o seu discurso.

A Condessa, mais tarde, muitas vezes me confessou quanto a afectava, no meio dos seus terrores – pois estava certa de que morreria – ver de repente, às onze horas, à meia-noite, o marido entrar-lhe pelo quarto, de chinelos e robe de chambre, o olhar brilhante, e ler-lhe algum período magnífico que acabava de produzir. Com a roupa sobre o queixo, a face um pouco inchada, que lhe repuxava a pele em torno dos olhos, escutava, olhando a sombra grotesca, de grande nariz, que o perfil de Alípio projectava sobre a parede, e aterrava-se pensando que o menino – ou a menina – pudesse nascer com aquele nariz descomunal, fora de toda a proporção, de tromba, medonho! Enfim o dia chegou. Nessa manhã D. Virgínia tinha sentido de madrugada algumas dores, e isto causou entre D. Laura e Alípio uma pequena altercação ao almoço. A velha devota não compreendia que Alípio Abranhos fosse à Câmara nesse dia, quando sua mulher estava numa crise tão grave e na proximidade de um perigo possível.

– Mas, minha senhora, eu estou inscrito para falar...

– Não há falas nem discursos! O seu dever é estar aqui, a animar a pequena... O seu lugar hoje é em casa! Primeiro que tudo estão os deveres que tem para com sua mulher.

Alípio Abranhos aniquilou-a com esta nobre frase: – Se tenho grandes deveres para com minha mulher, não os tenho menores para com o meu país.

E para terminar o incidente, acrescentou para o criado: – José, vá-me buscar uma tipóia. Fechada! Tomara, logo ao erguer-se, duas gemadas para clarear a voz, fortificá-la, e queria.53 evitar o frio dessa áspera manhã de Março. O tempo, com efeito, inquietava-o: havia um sudoeste brusco no ar enevoado, e ele receava que a chuva afastasse o público da galeria.

Choveu, infelizmente, a torrentes; e Alípio teve o desgosto de ver, ao chegar a S. Bento, que não só a Câmara era menos numerosa do que habitualmente, mas que os bancos das galerias estavam quase desertos.

Os deputados que tinham vindo a pé e traziam as botas encharcadas e os joelhos húmidos passeavam nos corredores; ruidosamente a chuva fustigava a clarabóia. E Alípio não pôde deixar de pensar com despeito, que havia da parte de Deus uma certa ingratidão, fazendo tão chuvosa essa manhã memorável, em que ele vinha à Câmara defender o sagrado princípio da educação religiosa.

– Tem a palavra o Sr. Alípio Abranhos – disse enfim, na sua voz um pouco fanhosa, o presidente, Dr. Antão Carneiro.

Muitas vezes o Conde me confessou que sentiu nesse momento uma agonia: o estômago contraía-se-lhe, e receou um momento que uma súbita dor de ventre o obrigasse a correr à latrina – situação medonha – ou que, de repente, se lhe varresse da memória todo o discurso, que, havia três noites, declamava sucessivamente no silêncio do seu escritório.

Felizmente para o país, nem a memória nem a entranha o traíram... e Alípio Abranhos, nessa fria manhã de Março, fez o primeiro discurso da sua fecunda e grandiosa carreira política.

Este discurso é bem conhecido.2 Alguns dos seus melhores trechos estão transcritos na Selecta para uso dos alunos do 3º ano de português.

O Conde conservou sempre por este primeiro trabalho uma predilecção parcial. Ele é, com efeito, apesar do liberalismo exagerado que o caracteriza – e que mais tarde a experiência, o poder, os anos, o conhecimento dos homens devia tão cabalmente diminuir – a obra literariamente mais bem trabalhada do Conde.

Esse exagero liberal, é, porém, facilmente explicável. Não só, então, ainda moço, o seu espírito, apesar de grave e reflectido, era susceptível de um certo entusiasmo, mas também o discurso, composto sob a influência de recentes leituras de Mirabeau e de Lamartine, tomara naturalmente a ampla retórica liberal que domina as orações desses mestres. Esse excessivo espírito de liberalismo pode-se dizer que é puramente reflexivo: assemelhando-se tanto à eloquência desses inspiradores, o discurso conservou alguma coisa das suas doutrinas. Que é, porém, genuinamente de Alípio Abranhos, atestam-no o estilo, o colorido, o período.

Quem não conhece essa formosa imagem sobre o envenenamento das fontes públicas, comparado ao envenenamento das nascentes do espírito? Que formoso quadro aquele em que descreve o «sombrio vulto de Filipe II» no Escorial! Com que vigor pinta a poesia dos tempos cavalheirescos da Meia Idade! Que página aquela em que descreve a invasão dos Bárbaros e «o cavalo de Atua que, onde pousa a pata, faz secar a erva dos prados!» Que sublime apóstrofe arremessada a Tibério! Que traços de um pitoresco histórico nossa imagem sobre o «sombrio jesuíta, aqui metendo na mão de Ravaillac o punhal regicida, além aperrando a clavina que há-de fazer em estilhaços os vidros do coche de D. José I, depois vertendo na taça de vinho de Chipre que o Papa Clemente leva aos lábios, o veneno negro dos Bórgias!» Que períodos repassados de lágrimas sobre o cadafalso de Luís XVI! Que grandeza épica, descrevendo, através da Europa «o galope triunfante do cavalo branco de Napoleão!» Poderia dizer-se que tudo isto nem sempre vinha a propósito; poderia dizer-se mesmo, como o conhecido litigante ao advogado loquaz: «Não se trata de Roma, de Cartago, nem da destruição de Babilónia: trata-se do meu sobrinho. Fale do meu sobrinho!» Mas a isto deverse- ia responder: «Então reclamai para sempre a supressão da Poesia, da Eloquência e do Génio!» Cada uma destas grandes imagens, destinadas a enriquecer o pecúlio nacional da oratória clássica, era seguida de um estalar entusiasta de «bravos!», de «sublimes!» A voz, muito admirada, tinha uma plenitude metálica e sonora e ia, nas suas ondulações vibrantes, como ondas triunfantes que banham os rochedos da praia, bater os renques de peitos dilatados e extáticos. O gesto foi considerado perfeito, ainda que as frequentes punhadas no rebordo da tribuna, dando um som oco de pau, pareceram demasiadamente impetuosas.

E Alípio, que subira à tribuna «simples Alípio Abranhos» – era, quando desceu, «o nosso inspirado Alípio Abranhos!» Muitas vezes este adjectivo, ou outros paralelos – «o nosso espirituoso, o nosso fértil» – são todo o proveito de uma vida de labor e de produção. Quantos dão tudo o que contém o cérebro, até à última gota, ficando depois, para sempre, com o aspecto grotesco e triste de um limão espremido – cuja recompensa é, ao fim de tanto esforço doloroso, uma sinecurazinha numa repartição do Estado e um adjectivo adiante do nome! Mas, para Alípio Abranhos, a recompensa não se limitou a um adjectivo, e esse discurso foi o começo da sua prodigiosa carreira.

Ao entrar em casa, ainda vibrante das emoções da Câmara, esperava-o outra alegria, mais grave, mais íntima: era pai! Era pai desde as três horas da tarde! Foi sua sogra que lho veio anunciar ao alto da escada, num grito: – E o senhor até a estas horas por fora! Está tudo acabado! E um menino! E com a maior felicidade! ... É um menino! O seu vivo retrato! Não descreverei a cena tocante e doce que se passou no quarto da parturiente, porque a ela não assisti. Não quero, como esses biógrafos de antigos reis e estadistas, que descrevem os gestos e as palavras de cenas passadas em outros séculos, introduzir o elemento imaginativo, o romance, neste trabalho histórico. Mas todos nós podemos conceber a emoção desse pai, saído apenas de um triunfo social para vir gozar inesperadamente um triunfo doméstico, no mesmo dia orador consagrado e pai venturoso.

Dizem-me que Alípio Abranhos, acabrunhado de uma felicidade muito forte, se deixou cair numa poltrona com os olhos banhados de lágrimas, o filho nos braços, envolto nas suas faixas brancas, e murmurou: – Isto é um dia histórico... isto é um dia histórico! Passou-se então dos dois lados da cama onde D. Virgínia, branca como as rendas da fronha, sorria de um vago sorriso exausto – uma tocante troca de impressões exaltadas. Alípio contava o seu discurso e D. Laura o parto.

– A Câmara ergueu-se como um só homem, e eram bravos, eram berros! – As primeiras dores foram terríveis, não é verdade, filha? Estava agarrada ao meu braço, que até tenho a certeza que me deixou uma nódoa negra.

– Coitadinha! Mas o melhor foi quando eu desci; os apertos de mão, os abraços...

– Abraços merece ela, que se portou com muita coragem! E a criança, que saiu como por uma porta aberta...

Ao canto do quarto, o novo ser, tenra vergôntea da casa dos Noronhas, indo dos braços da parteira para os braços da ama, chorava baixinho, com um som de boneca a que se aperta o estômago, nas suas primeiras contrariedades humanas.

Nesse mesmo dia, «em atenção à coincidência do seu nascimento e do triunfo do.papá», como disse o padre Augusto, foi decidido que o menino se chamasse Carlos Benvindo.

Durante o período legislativo desse ano, Alípio Abranhos fez ainda dois discursos, um, sobre política colonial, outro, sobre o projecto do Caminho de Ferro de Leste. Este último é sobremodo eloquente: poder-se-ia chamar a Ode ao Caminho de Ferro.

Nunca o utilitário modo de comunicação foi descrito com tal colorido, com tal vigor de imaginação: «Vede-lo – exclama o orador – esse monstro de ferro, soltando das narinas turbilhões de fumo, semelhante ao Leviatã da fábula! (bravo! bravo!) Vede-lo, atravessando como um relâmpago os mais áridos terrenos: e que maravilhoso espectáculo se nos oferece então: ao contrário do cavalo de Atua, cuja pata fazia secar a erva dos prados, por onde passa este novo cavalo de fogo (bravo! bravo!) brotam as searas, cobrem-se as colinas de vinha, (muito bem! muito bem!) penduram-se os rebanhos nas encostas verdejantes dos montes, murmuram os ribeiros nas azinhagas, ondulam as searas (muito bem!) e o jovial lavrador lá vai, satisfeito e alegre, cantando as deliciosas canções do campo, junto à esposa fiel, coroada das mimosas flores dos prados! (Bravo! Bravo! Sensação!).

Encerradas as sessões, Alípio Abranhos, sua esposa e o tenro Benvindo partiram para Campolide, onde iam passar o Verão.

Foram três meses de concentração, de íntima felicidade. Tinham passado ali, havia um ano, a sua lua de mel, e a sombra de cada árvore, cada moita de flores, possuíam para eles o valor de uma recordação deliciosa: a quinta tornara-se-lhes como uma vasta confidente simpática; era com orgulho que lhe levavam o tenro Bibi, rabujando nos braços da ama, como o fruto vivo do amor que ela protegera.

Mas nem por isso Alípio Abranhos ficou inactivo. Trabalhou muito e ali escreveu trechos, imagens, perorações de futuros discursos. Foi ali também que ele tomou, passeando à tarde na bela alameda de loureiros, como costumava, devagar, com as mãos atrás das costas, a resolução importante que devia ter na sua carreira uma influência tão grave.

O ministério Cardoso Torres, ao fim da última sessão parlamentar, estava gasto. Esta expressão a que eu chamaria, se me não contivesse o respeito, a «gíria constitucional», refere-se a um fenómeno venerável e repetido, que eu nunca com-preendi bem, apesar das explicações benévolas que me foram dadas por conservadores, republicanos e cépticos.

Há ministérios que se gastam. E todavia, esses ministérios, como os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente das secretarias com suficiente regularidade, mantêm no país uma ordem benéfica, não oprimem nem a imprensa nem a consciência, são respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade, ao Alto de S. João, todos os defuntos ilustres, falam nas Câmaras com honrosa correcção, são na vida privada cidadãos estimáveis, e no entanto – ao fim de alguns meses desta rotina honesta, pacata e higiénica – gastam-se.

Gastam-se porquê? Compreende-se que um ministério que luta com dificuldades, que se coloca ao través da opinião pública, se gaste, como ao través de um frágil estacado que uma corrente hostil incessantemente bate. Compreende-se ainda que um governo criado especialmente para resolver certas questões sociais ou políticas, se torne desnecessário, desde que as tenha resolvido, e fique como o zângão que fecundou a abelha e é daí em diante um inútil.

Mas quando se não dá nenhuma destas hipóteses, quando os ministros não foram trazidos do seio da sua família para resolver questões sociais, – ou porque as não haja, ou porque seja um princípio tacitamente estabelecido deixá-las sem resolução – quando,.56 em lugar de se esforçarem contra a larga corrente da opinião, os ministros lhe bolam regaladamente no dorso, não compreendo como um ministério se possa gastar.

Um dia pedi respeitosamente ao Conde d'Abranhos a explicação da palavra e do fenómeno, e S. Exª, o que raras vezes sucedia, deu uma resposta vaga, tortuosa, reticente: – É uma coisa que se sente no ar. É um não sei quê... Sente-se que a situação está gasta...

Não me permitiu o respeito que insistisse, mas, no fundo do meu entendimento, guardo um secreto terror por este fenómeno incompreensível! O ministério Cardoso Torres estava portanto gasto. Calculava-se que ele pudesse talvez sobreviver durante grande parte da próxima sessão, mas, para o fim de Abril, devia desaparecer subitamente, como tinham desaparecido os Bexigosos e a corveta Saragoça! O Partido Nacional retomaria então o poder, e Alípio Abranhos que, agora, era Governo, Influência, Força, Lei, passaria a ser o deputado loquaz de uma oposição estéril, pois que ninguém acreditava que os Reformadores – a que pertencia Cardoso Torres – tendo subido ao poder por um acaso, vissem esse acaso repetir-se. Os Reformadores eram pois, na frase clássica, «um partido sem futuro». O próximo ministério Nacional havia de colar-se às cadeiras do poder durante anos. E poderia, durante anos, Alípio Abranhos ver as suas faculdades, o seu génio, gastarem-se na retó-rica hostil e rancorosa da oposição? Além disso o seu círculo de Freixo não era ainda um círculo certo. Durante esses curtos meses de sessão, Alípio não tivera tempo de prender definitivamente, pela gratidão, pelo interesse, pela lisonja, pelos serviços prestados, os influentes de Freixo. Se os Nacionais dissolvessem a Câmara, quem sabe se Alípio Abranhos não se veria empurrado involuntariamente para as doçuras da vida íntima, fazendo biribi no beicinho do Bibi, sob as sombras de Campolide, enquanto outros, sem a sua eloquência nem os seus estudos, trotariam para Belém, repoltreando-se nas almofadas do poder? Decerto tinha deveres para com Cardoso Torres: fora ele que o nomeara deputado, que lhe abrira as portas da vida pública, que o fizera... Mas, por outro lado, tinha deveres maiores para consigo mesmo, para com a sua carreira, o seu nome, e, sobretudo, para com o tenro Bibi.

Não devia ele tornar-se grande no seu país, para um dia poder apoiar a carreira do Bibi? Tinha ainda deveres para com Virgínia, a quem pesava a obscuridade social, e que, como uma verdadeira portuguesa, ansiava por fazer a sua grande mesura de corte diante de SS. MM.

Tinha enfim deveres para com o país, ao qual não podia negar os serviços do seu alto entendimento! Estas considerações pesou-as bem Alípio Abranhos, nessas horas da tarde em que passeava solitário na alameda de loureiros; e quando em princípios de Novembro voltou para Lisboa, tinha decidido, no segredo da sua alma, passar-se com as suas armas de eloquência e a sua bagagem de saber para o campo inimigo. Ia fazer-se oposição! Esta resolução não a revelou a ninguém, – nem à sua esposa – mas durante meses preparou o grande discurso em que explicaria, como ele disse, «as razões de Estado que me fazem passar destas bancadas estéreis (e designava a maioria) para aqueles bancos fecundos!» (e mostrava a oposição).

Muitas vezes este grande acto político foi chamado uma «indecente traição». Nada mais absurdo. Pergunto eu: que é trair? É abandonar os ideais que se serviram, e passar, sem razão, para o serviço de ideais opostos que até aí se combatiam! Isto é normalmente, materialmente, uma traição.

Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideais opostos? Abandonava Alípio Abranhos ideias queridas, para ir, por interesses grosseiros, defender ideias.57 detestadas? Não.

As ideias que servia entre os Reformadores, ia servi-las entre os Nacionais.

Em Religião, que eram os Reformadores? Católicos, Apostólicos, Romanos. E os Nacionais? Idem.

Em Política, o que eram os Rei armadores? Conservadores constitucionais. E os Nacionais? Idem.

Não tinham ambos o mesmo amor pela dinastia? – O mesmo.

Não eram ambos sustentáculos dedicados da propriedade? – Dedicadíssimos.

Não desejavam ambos a estrita aplicação da Constituição, só da Constituição, de toda a Constituição? – Desejavam-na ambos, ardentemente.

Não eram ambos centralizadores? Eram.

Não estavam ambos firmes na manutenção de um exército permanente? Firmíssimos, ambos.

Não tinham ambos um nobre rancor aos princípios revolucionários? Um rancor nobilíssimo.

E em questões de Instrução, de Imprensa, de Polícia, não tinham ambos as mesmas óptimas ideias? Absolutamente as mesmas.

Não eram ambos patriotas? Fanaticamente! Então? – Pode-se dizer que Alípio Abranhos, indo dos Reformadores para os Nacionais, traía as suas ideias? Não! Certamente não! Mas, dir-se-á, traiu o seu amigo Cardoso Torres.

Distingamos: Em Cardoso Torres há o homem e o político. Trair o homem, seria, por exemplo, (ainda que tal suposição me faz tremer de horror) pôr mão libidinosa no seio respeitável de D.

Josefa Cardoso Torres. Alípio Abranhos fê-lo? O vosso silêncio grave é a melhor resposta! Mas traiu o político, direis. Vejamos: que é um político? E um ser que simboliza um complexo de ideias: só se pode traí-lo, traindo as ideias que ele representa. Ora eu provei suficientemente que Alípio Abranhos não traiu – nem em Religião, nem em Moral, nem em Economia Política, nem em Administração, nem em Pedagogia – as ideias representadas pelo Ex.mo Cardoso Torres.

Onde está pois a traição? Dizei-o. Ah! esses olhares no chão, essa expressão consternada, provam sobejamente que nada tendes a responder aos meus argumentos impecáveis! Passou pois para a oposição o nosso grande Alípio, e com que prodigiosa impressão esse passo foi recebido no país, di-lo a História Constitucional.

Foi no discurso de resposta ao Discurso da Coroa que se viu Alípio Abranhos subir à tribuna, e com palavras comovidas, dizer que a sua consciência, os seus princípios, o seu patriotismo, forçavam-no a separar-se de amigos «cujo estandarte segui» – exclamava – «enquanto julguei que eles levavam o País à conquista do Progresso – mas de quem me separo com dor, ainda que com firmeza, no dia em que vejo que eles impelem a minha Pátria, – esta Pátria que eu amo mais do que amei minha mãe – para os abismos e para a ruína!» (Bravo! Bravo!) Com um grande tacto político, Alípio Abranhos nunca disse claramente, nesse discurso magistral, os factos que lhe provavam que o Ex.mo Cardoso Torres fosse arrastando Portugal aos Abismos; mas os apoiados unânimes, os bravos frenéticos da oposição, mostravam-lhe que, ainda que ele, por respeito aos seus antigos camaradas, calasse esses factos, a oposição os compreendia absolutamente.

Assim, que grande ovação quando Alípio Abranhos traçou o inspirado quadro do estado do País sob a administração Cardoso Torres: «Olhai em redor, e vede este formoso torrão de Portugal, que vós jurastes, nas mãos de El-Rei defender e fazer.58 prosperar; olhai e dizei-me se sois dignos de estar nesses bancos uma hora mais: por toda a parte o esbanjamento da fazenda pública, por toda a parte o patrocinato primando o mérito; a escola, essa fonte pública, seca de instrução; as férteis campinas, desoladas; as estradas que prometestes, cobertas dos pedregulhos e das lamas da incúria; as cadeias, esses depósitos do mal, trasbordando; e o pobre camponês, que sucumbe ao peso dos impostos, regando com lágrimas o grão escasso que lhe dá um solo desolado!» (Bravo! Bravo!). E os ministros, nos seus bancos, com os braços frouxos, a cabeça pendente, sentindo retumbar-lhes aos ouvidos aquela voz, igual a outra que na Antiguidade, do fundo dos ares apostrofara Caim, pareciam contemplar, aterrados, a visão pavorosa da Pátria arruinada! A sensação foi prodigiosa.

Nessa noite, quando, deitado no seu sofá exausto do seu grande feito oratório, Alípio se reconfortava na placidez do chá doméstico, recebeu uma carta do Conselheiro Guedes Navarro, chefe da oposição Nacional, em que lhe dizia, depois de outras considerações: «Como discurso, poucos conheço iguais em Mirabeau ou em Lamartine. E para o partido Nacional uma honra, não só ter recebido nas suas fileiras um homem do seu valor, mas ter dado ocasião a que pronunciasse um discurso de tal elevação. Já não é somente para cumprir o nosso pacto, que lhe será guardada uma pasta na formação de um ministério Nacional. Essa pasta não é, d'ora em diante, a recompensa da sua adesão: é uma necessidade de existência para o partido Nacional, que terá em V. Exª, de futuro, o seu Mirabeau conservador.» Donde se deduz, de resto, que Alípio Abranhos, com um grande alcance político e uma profunda experiência dos homens, não dera aquele passo sem primeiro ter garantidos todos os meios de penetrar no poder, e prestar ao País aqueles altos serviços que lhe estava preparando o seu génio político.

O desespero do governo e da maioria teve um raro carácter de alucinação. Alípio Abranhos passou a ser o infame, o canalha. Nessa mesma noite toda a sua vida foi explorada, rebuscada como uma velha algibeira, na esperança de se encontrar algum escândalo esquecido. Disse-se que fora o amante da velha Madame Gato, que tinha um prostíbulo no Arco do Bandeira; espalhou-se que era filho de um sapateiro de Penafiel, muitas vezes condenado por ladrão; afirmou-se que vivia em desavenças contínuas com sua mulher e que os vizinhos ouviam de noite os gritos das lutas conjugais; contou-se que o velho Dr. Vaz Correia lhe dera pontapés no escritório, por o ter encontrado a falsificar um documento; murmurou-se que era dado em Coimbra a deboches contra a natureza.

Dos artigos dos jornais nem falarei, para não concorrer a desacreditar mais ainda, perante o público, uma instituição a que implicitamente pertenço.

Sentia-se que a sessão seguinte seria, na frase consagrada, «tempestuosa». Com efeito, as galerias trasbordavam de gente: todos os amigos que outrora pertenciam às soirées do Desembargador Amado, e que, agora, começavam a frequentar a casa dos Abranhos, lá estavam. Esperava-se que em presença das recriminações, que não podiam deixar de se produzir da parte da maioria indignada, Alípio Abranhos pronunciaria outro discurso, no qual o orador se mostrasse, na frase que ouvi a não sei que personagem: «Demóstenes multiplicado por três!» Lá estava o coronel Serrão, que idolatrava Alípio, descarregando olhadelas ferozes como cutiladas sobre os «cachorros da maioria!» Lá estava o Conselheiro Andrade, que acompanhava D. Virgínia e a bela Fradinho; lá estava o sobrinho da pobre D. Joana Carneiro, em bicos de pés, na última bancada, e à frente, mais sombrio, mais meditativo, o Doutor.

Antes da ordem do dia, um deputado de estatura hercúlea e de voz de roncão, pediu a palavra.

Era o famoso Gorjão, e a sua presença na tribuna, onde ele subiu, se plantou, fazendo reluzir sob as sobrancelhas espessas um olhar coruscante, revelou suficientemente o plano infame da maioria. Eu classifico este plano com uma palavra: tentativa de assassinato.

O famoso Gorjão representava no partido dos Rei armadores, a que ele de resto sempre pertenceu, o papel que desempenhava nas redacções dos jornais parisienses da Restauração o espadachim, tão poderosamente descrito por Balzac. O espadachim era ordinariamente um antigo oficial da Guarda Imperial, que a Restauração reformara, e que, levado à miséria pelo absinto, o tabaco e as fêmeas, alugava a força do seu pulso e a sua destreza à espada a algum jornal de combate. De olho avinhado, voz catarrosa, bigode erriçado, grande casaco debruado de astracã abotoado até ao pescoço, cabelo à escovinha, chapéu ao lado, este personagem temeroso passava o seu dia na antessala de uma redacção, queimando o cachimbo de espuma, repastando-se nos jornais de histórias de crimes e de roubos, e esperando que pessoas ofendidas subissem as escadas, a pedir a explicação de um artigo muito insultante ou de uma calúnia muito directa. E se algum desgraçado aparecia, o feroz indivíduo erguia a sua enorme estatura, escarrava grosso no chão, e perguntava com voz agressiva e o olho raiado de sangue: – As suas armas? Os seus padrinhos? As ordens! E, ou o ofendido recuava diante da medonha aparição deste cão de fila – ou, ao outro dia, recebia, através de uma entranha essencial, a lâmina infalível da sua espada.

Gorjão era, entre os Reformadores, o espadachim do partido. Ele foi, durante vinte anos, neste país, o papão! A sua barba negra era feroz, e quando descia o Chiado com o chapéu sobre o olho, fazendo sibilar a bengala, um terror invencível contraía o coração dos cidadãos... A sua biografia, desde Coimbra, era uma lenda pavorosa de cabeças partidas, queixos esmigalhados, tremendos heroísmos de pulso. Quando entrava num café, toda a gente se curvava palidamente sobre o periódico ou o copo de genebra, evitando ser notado por ele – pois se dizia que o seu olhar era imediatamente seguido do seu murro. O Marrare, então florescente, era o antro desta fera. Quando ele morreu de um catarro de bexiga, Lisboa sentiu um alívio suave e as costas dos cidadãos endireitaram-se, porque já não as ameaçava de alto a bengala do Gorjão.

A intenção perversa da maioria era, pois, clara: Gorjão, da tribuna, injuriava Alípio; Alípio, bravo, retorquia com irritação; e Gorjão, nos corredores, esmagava Alípio a murros, ou, ao outro dia, nas terras da Pólvora, varava-o com uma espadeirada! Parece hoje provado que tal plano fora resolvido numa reunião da maioria: vergonha eterna! Não procederia de outro modo uma conjuração de zulos, agachados ferozmente entre o alto tojo africano, no Kraal de Cettivayo! Este grosso brutamontes entrara para S. Bento para assassinar a Eloquência, o Patriotismo e o Génio, na pessoa de Alípio Abranhos! Ainda bem que te matou, fera, um providencial catarro de bexiga: a tua bengala não mais oprime os homens livres, e eu posso impunemente, e com regozijo, escarrar-te sobre a sepultura – já que o haver-te escarrado na face ter-me-ia sido impossível, por ser, como sou, de constituição delicada! Com efeito, as fauces do cão de fila abriram-se, e durante uma hora ladrou a injúria; e como ele tinha (meu Deus, sejamos justos com todo o mundo!) uma certa habilidade de prosa, uma experiência astuta da perfídia parlamentar, não o fez claramente, o que lhe atrairia sobre o dorso as severidades do Regulamento. Não pronunciou o nome de Alípio. Falou apenas do traidor, do apóstata, e sob esta designação vilmente vaga, rugiu, com punhadas de atleta, a sua verrina estudada. O desgraçado, porém, participava, como todos os da sua corpulência, da clássica estupidez.dos colossos: não contava com a finura, a habilidade, o génio de Alípio.

Com efeito, o nosso herói deu-lhe uma lição severa: todo o tempo que o Roldão da Baixa trovejou, Alípio, curvado, rufava tranquilamente com os dedos sobre a sua pasta de verniz.

E quando, entre os aplausos da maioria alucinada, o medonho Gorjão terminou, lançando uma apóstrofe «aos cobardes que sob a injúria, em lugar de erguer a cabeça em desafio, rufam, agachados, sobre as mesas» Alípio, que todos esperavam ver pular para a tribuna, tomou serenamente o Diário do Governo, e pôs-se a folheá-lo com pla-cidez.

Dos bancos da maioria saíram vozes: – Que nojo! Que abjecção! Mas o grande homem, pálido, sim, de emoção reprimida, mas sereno na aparência, continuou imperturbável a folhear o Diário do Governo. Assim o plano da maioria falhava. Alípio Abranhos, provocado, insultado, caluniado, lia o Diário do Governo! Esperando provocar-lhe uma cólera fatal, produziam-lhe apenas uma serenidade sublime! Daqui, uma raiva desordenada e outro orador da maioria, o Sr. Albino Peixoto, subir à tribuna: depois do Roldão trovejante, era Simão de Nântua, o melífluo.

Este personagem, com efeito, pela face redondinha e jovial, de óculos de ouro, por todo o seu serzinho barrigudo, pela untuosidade vaga das suas palavras, pela sua plácida polidez, assemelhava-se ao amável filantropo, cheio de provérbios e de virtude, de que fala o livro querido onde aprendemos a soletrar.

O seu discurso foi a repetição das mesmas injúrias, mas em voz suave e chorosa. Os vitupérios que o outro rugira, este lagrimejou-os. Era, de resto, pessoa de uma proverbial pacatez: havia nos seus movimentos a hesitante timidez de um míope que perdeu os óculos; caminhava na vida como na rua, com extremo cuidado, evitando pisar um calo ou uma susceptibilidade.

Em consequência da sua autoridade intelectual (e não, como vilmente se disse, porque deste não tinha medo), Alípio decidiu responder-lhe.

O silêncio que se fez na Câmara quando Alípio Abranhos se ergueu e pediu a palavra, foi um daqueles clássicos silêncios – muito conhecidos e estimados em retórica «que precedem as tempestades».

Começou por dizer que se erguia para responder ao Sr. Albino Peixoto – e só ao Sr. Albino Peixoto – acrescentando estas palavras tão admiradas, tão dignas de ficarem clássicas (ainda que se disse depois perfidamente que ele as imitara de Guizot): – Pode o ilustre deputado acumular as calúnias, elas não chegarão à altura do meu desprezo! Peixoto ergueu-se de um jacto, e erecto palidíssimo: – O ilustre deputado insinua que eu sou um caluniador?...

– Ordem! Ordem! Resposta admirável de Alípio Abranhos: – Eu não quero insinuar que o ilustre deputado é um caluniador. Eu só afirmei, e claramente, que o ilustre deputado acumulou calúnias! – Ordem! Ordem! Leio no extracto da sessão esta infecta interrupção de Gorjão: – Não responda, Peixoto! Para os cobardes, só o escarro ou o chicote...

Alípio Abranhos não se dignou responder-lhe.

Mas o pacífico Peixoto, que decerto a maioria excitava, exclamou lívido: – O desprezo de um homem de bem poderia magoar-me, o desprezo de um traidor.só me regozija! Triunfante réplica de Alípio Abranhos: – Traidores são os que vendem a sua pena e fazem de um jornal um prostíbulo! Esta alusão a certos factos lamentáveis da carreira jornalística de Albino Peixoto, produziu uma tormenta que eu encontro assim descrita no Diário das Câmaras: (Sensação prolongada.

Diversas interrupções que não chegam à mesa dos taquígrafos. Os senhores deputados, de pé, em grande confusão, trocam palavras coléricas. O Sr. Presidente, não podendo fazer-se escutar, suspende a sessão).

O que me resta contar é doloroso. Nos corredores da Câmara, Alípio Abranhos é subitamente interpelado pelo Dr. Albino Peixoto, que se lança de entre um grupo da maioria, e lhe grita: – Retire as palavras que disse, senhor! Alípio, prudente, balbuciou: – Mas colega... mas caro colega...

– Retire as palavras, canalha! – rugiu Peixoto.

Alípio (como ele me disse depois) ia talvez, por amor da dignidade parlamentar, retirá-las, quando Gorjão, intervindo bruscamente, trovejou: – Não retira nada! Entre cavalheiros, estas questões de honra não se tratam assim. Não retira nada! Venha daí, Peixoto...

Arrastou o Dr. Peixoto e, daí a pouco, voltava acompanhado de um certo Sequeira, que depois morreu em África, e dirigindo-se a Alípio Abranhos: – Preciso fazer-lhe uma comunicação séria. Tenha a bondade de nos acompanhar ao gabinete A da Comissão de Fazenda.

Alípio seguiu-o, e, com ele, todos os seus amigos, na expectativa excitante de um conflito inesperado. Porém entraram sós no gabinete A da Comissão de Fazenda e aí Gorjão, que retomara o seu ar pomposo, declarou: – Vimos aqui numa missão de honra. O nosso amigo, Dr. Albino Peixoto, reclama uma satisfação. V. Exª chamou-lhe vendido...

– Mas primeiro tinha-me ele chamado...

– V. Exª chamou-lhe vendido! O que ele tinha chamado a V. Exª é-nos perfeitamente indiferente. V. Exª chamou-lhe vendido, e, ou V. Exª, quando se abrir de novo a sessão dá explicações...

– Eu estou pronto a dar explicações... (Ouço daqui estas palavras precipitadas de Alípio Abranhos, que, com os seus altos princípios de civilização, tinha o horror dos conflitos de força).

– Perfeitamente. As explicações são estas: V. Exª sobe à tribuna e diz: «Declaro que, quando disse que o meu amigo Albino Peixoto era um vendido, menti, e que tenho as provas mais evidentes da sua probidade impecável!» – Então os senhores querem que eu diga publicamente que menti?...

– Não querendo dar esta explicação, tenha a bondade de nos dizer a que horas poderemos encontrar dois amigos seus, para regular as condições do combate...

– Do combate?... Mas, queridos colegas, ponham-se no meu lugar...

A estas palavras tão cordiais, tão conciliadoras, o brutal Gorjão respondeu: – No seu lugar qualquer de nós tinha há muito tempo marcado a hora e as armas! V. Exª que diz? – Ao menos quero consultar alguns amigos...

– Consulte V. Exª os seus amigos.

Consultou, com efeito, dois amigos – mas, infelizmente, escolheu aqueles que.eram menos próprios para promover uma solução humana, sensata e cristã. Não os mencionarei, porque vivem ainda e ocupam altas situações no Estado. Chamarei a um A e ao outro B.

A, fidalgo de alto porte, recebera das tradições da sua raça, um pouco deteriorada, o preconceito clássico do ponto de honra. B, moço estimável, valente, caçador, possuía uma única especialidade: a sua destreza à pistola e ao sabre. Ambos, em questões de honra, tinham a manter uma reputação de seriedade e de valor. De resto, tanto um como o outro, perfeitos cavalheiros, mas, infelizmente, muito predispostos, por índole, a soluções violentas.

Estes dois amigos opinaram, com a unanimidade de um coro antigo, que aceitar tal exigência, era aceitar, implicitamente, uma humilhação infamante. Um homem que se declara mentiroso, fecha diante de si as portas da Sociedade, da Vida Pública e dos seus conhecidos. O Sr.

Abranhos passaria daí por diante a ser um cobarde estabelecido. O medo seria a sua profissão. Tornar-se-ia o homem que se pode insultar sem perigo. B disse-lhe mesmo brutalmente: – Um homem que comete no começo da sua vida pública uma tal cobardia, torna-se, mais tarde ou mais cedo, um armazém de pancada! Mostre que é homem e ninguém o torna a insultar.

Que se podia responder a isto? Havia, sob o ponto de vista social, alguma verdade naquelas frases triviais. Alípio Abranhos ou tinha de ceder às regras absurdas, obsoletas, monstruosas que regulam a sociedade, ou tinha de abandonar essa sociedade e a carreira que um dia lhe daria o delicioso prazer de a dominar.

Mas a ideia de se colocar diante de uma espada desembainhada ou de uma pistola aperrada! Teve, um momento, o desejo furioso de fugir com D. Virgínia, com o Bibi, para um canto ignorado da terra, e aí, vil mas intacto, sem elogios nos jornais, mas com todos os membros no corpo, gozar egoistamente o amor, a paternidade, o repouso, a natureza, o conforto...

Mas consentiria Virgínia em ser a esposa do cobarde Alípio? Não seria cruel condenar Bibi a ser o filho do abjecto Abranhos? Que diriam os jornais? Que diria o coronel Serrão? Que risadas no Marrare! Esta ideia torturava-o. E foi com grande dignidade que respondeu a A e a B: – Eu não tenho medo, os amigos bem o sabem. A minha questão é de princípios. Sou um homem de progresso, e repugna-me esse meio de salvar a honra, à maneira da Idade Média! Mas enfim, a sociedade é a sociedade... Vão-se entender com a fera do Gorjão. Espero-os em casa... Mas prudência, lembrem-se que tenho família.

As negociações foram longas, muito delicadas. Infelizmente, parece que desde a primeira palavra entre as testemunhas, ficou assente a priori, como base natural da argumentação, que «haveria duelo», e, às 8 horas da noite, Alípio recebeu no seu escritório os seus amigos A e B, que lhe anunciaram em voz baixa que ele, Alípio Abranhos, se batia à espada, às sete da manhã, na Cruz Quebrada, e que os do Peixoto lhe deixavam a ele, Abranhos, a escolha do cirurgião que melhor lhe conviesse.

– Um cirurgião! – exclamou Alípio, juntando as mãos, atónito.

– E necessário um cirurgião, para o caso de ser preciso, por exemplo, ligar uma artéria. Enfim, é sempre indispensável um cirurgião...

Alípio curvou-se, calado. Há, em certos silêncios humanos, em certo humano vergar de ombros, uma ironia feroz, que deve fazer corar o destino, envergonhado da sua tirania... Alípio Abranhos ficou só no escritório, prostrado sobre o canapé – tendo diante de si a visão nítida de um corpo retalhado a golpes de espada, que uma viúva pranteia, esguedelhada.

A voz do padre Augusto que, como costumava, dizia algum inocente gracejo à Joana, (bonita criada que eu ainda conheci) tirou-o deste legítimo torpor, e de repente, como um pássaro que subitamente atravessa uma sala aberta, uma ideia de um engenho subtil atravessou-lhe o espírito.

Abriu a porta, chamou o padre, e com uma gravidade que fez arregalar de terror os olhos do bom eclesiástico, murmurou: – Padre Augusto, vou-lhe confiar um grande segredo... Um segredo tremendo, que há-de ficar consigo.

O padre, aterrado, balbuciou: – É em confissão? E segredo de confissão? – Não! – exclamou logo Alípio. – Pelo amor de Deus! Nem por sombras o considere segredo de confissão. Que tolice! Credo! Isso estragava tudo... Fique bem entendido que não é segredo de confissão... Mas é um segredo que lhe confio: bato-me amanhã em duelo! – Caramba! – exclamou o respeitável sacerdote, caindo de chofre no canapé.

Então Alípio, sentando-se junto dele, contou-lhe a história do seu duelo. E terminou dizendo: – Se eu lhe digo tudo isto é para que seja o amigo que amanhã, se houver desgraça, console a Virgininha. E agora adeus, que tenho papéis a pôr em ordem... Mas guarde o segredo, que pode a coisa chegar aos ouvidos da polícia e transtorna-se tudo.

O sacerdote queria objectar, pregar, parabolar – mas Alípio, suave e firme, empurrando-o pelos ombros: – É uma coisa decidida. Adeus. E agora veja lá, padre Augusto, não o vá dizer... Que a polícia, se o sabe, impede a coisa... Adeus. E amanhã, às sete, na Cruz Quebrada. Não se esqueça – às sete – e guarde-me o segredo, amigo.

Padre Augusto foi ao cabide do corredor, agarrou o chapéu, e precipitou-se pela escada, como uma pedra que rola.

Ao outro dia, às sete da manhã – uma manhã clara, fria e seca – quando Alípio com as suas testemunhas chegavam ao sítio aprazado, o Regedor de Belém e seis cabos de polícia, desembocando com fúria de trás de um maciço de árvores, apoderaram-se dos sete cavalheiros (incluindo o respeitável Teles, cirurgião)! Foram postos em liberdade às dez horas, de sorte que D. Virgínia soube por seu marido do perigo que ele correra, e da intervenção providencial, que lho salvara. O seu orgulho foi grande. Alípio tomou para ela as proporções de um d'Artagnan, de um Conde de Monte Cristo! E a sua ternura, os seus afagos, a sua admiração, estavam dando a Alípio momentos deliciosos, quando a Joana lhe veio dizer que os Srs. A e B, desejavam absolutamente falarlhe e esperavam na sala.

– Há-de ser para o almoço... Há sempre um almoço...

Não, não era para este fim honesto: era para lhe dizer – para que A lhe dissesse secamente, sem se sentar, com as mãos nos bolsos das calças, fazendo tilintar nervosamente um molho de chaves: – Está provado – temos a prova evidente – que a polícia foi avisada por um amigo desta casa... Isto é uma brincadeira torpe. Nem as testemunhas do Peixoto, nem nós, somos pessoas com quem se brinque torpemente. O duelo que não pôde ter lugar hoje, há-de ter lugar amanhã, no Lumiar. Se a polícia aparecer de novo, o que não é natural, agora que ela está desprevenida, ficaremos cientes que o mesmo amigo desta casa a avisou, e nesse caso nós todos nos consideraremos ofendidos, e V. Exª terá de se bater por ordem de número, com o amigo Gorjão, o amigo Sequeira, o amigo B, este criado de V. Exª, e depois, com o Peixotinho! Cinco duelos em lugar de um! – Mas eu dou a minha palavra de honra... Eu não tenho culpa... É um assassinato!.

– Temos a honra de desejar a V. Exª muito boas tardes. Aqui estaremos amanhã, às sete. E a mesma tipóia, o cocheiro é seguro... E o Pintado. Não se incomode V. Exª... Criado de V. Exª...

Alípio, só no escritório, teve um grito de revolta: – Aí está o que é um homem de bem meter-se com espadachins! Se ele tivesse posto este negócio nas mãos prudentes do Conselheiro Andrade ou do Fradinho, por exemplo, a solução decerto teria sido outra, toda honrosa, toda amigável; mas entregara-a a dois personagens sôfregos de publicidade, pedantes do ponto de honra – e ali estava agora, empurrado fatalmente para diante de uma espada nua! Que se passou na alma deste grande homem, nessa noite de agonia? Mal sabiam os que passavam, à saída de S. Carlos, pelo Largo do Quintela, que ali, no segundo andar, por trás de uma janela iluminada, havia um Horto, uma hora do Jardim das Oliveiras.

Quantas sensações, ideias, imaginações, se revolveram naquele vasto e complicado cérebro de estadista. Ele revelou-me algumas dessas torturas em detalhe. Ao princípio tentou correr a casa do Petit, e pedir-lhe que lhe ensinasse um bote-secreto, desses de que lera nos romances, que se aprendem em Itália e que inspiram terror nas salas de esgrima. Pensou em fazer o seu testamento, mas pareceu-lhe um mau agoiro lúgubre. Desejou então que houvesse uma revolução, ou um incêndio que devorasse metade da cidade, uma catástrofe social, e ficava a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo do Quintela. Lembrouse com prazer, com esperança, que o Peixotinho sofria de um aneurisma... Quis rezar, mas distraía-se: permanentemente, via a mesma visão da véspera – um corpo traspassado de estocadas, e uma viúva, desgrenhada, soluçando.

Que desespero! E ainda nessa tarde estava tão seguro, já com todo o perigo passado, saboreando as felicitações do seu fácil heroísmo, descansado para sempre, e agora ali se via outra vez, recaído nas agonias da incerteza e nos terrores da Eternidade...

Enfim, ao outro dia, depois de um sono agitado, uma carruagem que parou à porta despertouo.

Dissera na véspera a D. Virgínia que havia, com efeito um almoço de amigos no Farol da Guia, e que deviam sair cedo; e tão persuadida ela ficara, que apenas murmurou, meio a dormir, voltando-se para a parede: – Tem cautela... Não faças excessos, sabes que te dá a dor...

Aludia a certos espasmos nervosos de que ele sofria no estômago.

Partiram. A manhã, muito fria, estava nublada e parda. A e B, justo é dizê-lo, que na véspera se tinham mostrado tão secos, tão cortantes, representavam agora com uma solicitude tocante o seu papel de padrinhos. Enquanto a caleche batia – e parecia a Alípio Abranhos que uma tal velocidade era um exagero irritante – davam-lhe conselhos práticos, tirados da própria experiência e adequados aos conhecimentos elementares que Alípio Abranhos tinha da esgrima: – que se não descobrisse muito; a ponta da espada sempre diante dos olhos do adversário; que nunca recuasse – e a sua solicitude era tão grande, que apagaram os charutos matinais, vendo que o fumo enjoava Alípio. O grande orador, no entanto, como ele me revelou mais tarde, sentia uma lassitude extrema, o desejo mórbido de um sono profundo, de anos, em que nada o perturbasse, nem os despeitos do Peixotinho, nem as crises do Estado, nem a piedade dos seus amigos. Por vezes uma casa, ou uma esquina de rua, recordavam-lhe outras épocas de felicidade tranquila, em que a morte lhe aparecia como uma hipótese distante. A morte!... Maldição! Ia agora talvez para ela, ao trote exagerado, estupidamente exagerado,.65 daquela magra parelha de praça... Lamentou então as coisas boas da vida – os jantarzinhos em família, as carícias de Virgínia, o seu quarto em casa das Barrosos, em Coimbra, e os folhados de cocó, de que gostava tanto! Mas, temendo que o seu silêncio pudesse ser tomado como a prostração do medo, começou a falar com os seus amigos de política com uma prodigiosa lucidez e – segundo me afirmou depois um destes cavalheiros – num tom em que se sentia uma solenidade de testamento.

Chegaram enfim, e viram logo, ao pé de uma árvore magra, o grupo do Peixotinho e dos padrinhos, tagarelando jovialmente.

Depois das saudações tradicionais, os quatro cavalheiros, reunidos ao pé da árvore, falaram baixo, marcaram o terreno, desembrulharam as espadas e colocaram os adversários nos seus lugares, com uma vivacidade muda, que parecia a Alípio Abranhos comparável, segundo o que lera, aos preparativos rápidos e taciturnos dos carrascos sobre o cadafalso.

Apenas colocado, Alípio sentiu com terror tomá-lo um vago enjoo: ou fosse o balanço da tipóia ou o ar frio da madrugada, o estômago, segundo a frase popular, «embrulhava-se-lhe».

Quando lhe deram a sua espada, um suor frio banhou-lhe a testa; uma debilidade esvaía-lhe os rins... Desejou vivamente uma cama, um encosto, mas vendo que o Peixotinho o fixava por trás dos óculos de ouro, resolveu ser heróico e plantou-se firmemente sobre o solo, erecto, esperando o sinal.

A, bateu as palmas – e então, subitamente, viram Alípio esgazear os olhos, abrir a boca e apoiando-se fortemente sobre a espada, debruçado sobre ela, vomitar, vomitar longamente, primeiro resíduos mal digeridos de comida, depois uma baba gelatinosa, e finalmente, com anseios roucos, fezes esverdeadas! A, sustentava-o pelos ombros; B, amparava-lhe a cabeça, e o grande orador, entre os puxões dos vómitos, murmurava com os lábios babados: – É do estômago! ... É um bocado... de indigestão! Todos viram bem que «era do estômago» e ninguém duvidou do seu valor.

Peixoto, porém esquecendo toda a delicadeza, disse alto, com desdém, voltando-se para os seus padrinhos: – Eu esperarei... Deixá-lo vomitar... Que vomite, que vomite! Tanto desprezo indignou Alípio: endireitou-se, pálido, e tomando o ferro, balbuciou: – Estou bem, estou melhor... vamos a isto! E com uma patada na terra mole, ergueu alto a espada.

O Conde contou-me depois que mal tivera consciência da luta; vira os dois longos clarões das lâminas lustrosas, e subitamente sentiu na orelha uma frialdade fina, penetrante. Recuou com um berro: – Estou ferido! Estou ferido na orelha! O cirurgião correu – e a serenidade penetrou longamente, largamente a alma de Alípio, quando o ouviu declarar: – Não é nada; é um golpezito. Com adesivo está pronto em três dias! A honra foi, no cerimonial do estilo, declarada satisfeita; os dois adversários que, segundo dizia a acta, se tinham batido como leões, apertaram-se as mãos, chamando-se Excelências, e Alípio voltou para Lisboa com os seus padrinhos, na tipóia, tapando a orelha com o lenço.

Tal foi este combate histórico.

Os jornais da oposição celebraram o orador que sustentava as suas ideias com a espada e derramava por elas o sangue da sua orelha. D. Virgínia sentiu todo o seu amor.66 flamejar mais alto e mais forte, por este homem que lhe parecia superior aos Roldões e aos Oliveiros.

Os jornais do Governo, esses sim, falaram com escárnio dos vómitos do orador, mas foram bem depressa reduzidos ao silêncio pelos jornais da oposição, que lembraram que anos antes, o Ministro das Obras Públicas, batendo-se em duelo, não vomitara, mas tivera um tão vergonhoso contratempo intestinal, que fora necessário conduzi-lo a uma venda próxima, onde, durante horas, o prostrado estadista circulou lividamente de um banco da cozinha para um recanto do pátio, como sob a influência dissolvente de óleo de rícino tomado sem discernimento! Como, porém, nem a intempestiva indigestão de Alípio Abranhos, nem o desastroso relaxamento do Sr. Ministro das Obras Públicas foram exarados nas actas, o público considerou estas insinuações como meras tácticas de discussão política e a coragem de Alípio ficou estabelecida em bases duradoiras. Mais tarde o Conde tinha mesmo uma certa vaidade neste duelo, a que ele chamava o seu «baptismo de sangue». Pelo menos deveu-lhe um resultado estimável: depois dessa gota de sangue, os comentários irritantes sobre a sua passagem para a oposição foram respeitosamente suprimidos.

Foi por este tempo – se me não enganam os documentos que possuo – que se começou a organizar em torno de Alípio Abranhos um grupo fiel de amigos íntimos, a que se chamou maliciosamente a coterie Abranhos ou a panelinha Abranhos, mas que eu depois designei num folhetim do Globo geralmente estimado, com o nome mais respeitoso e mais justo de «Salão de S. Exª». Não se creia, porém, que eu digo o Salão de S. Exª como diria o salão de M.me Récamier, o salão de M.me de Girardin, ou o salão de M.me Adolphe Adam, ou ainda, numa ordem mais efémera e mais boémia, o salão de M.me Troubetskoï; estes salões são uma pura instituição parisiense, que Londres, Viena, Roma, Madrid, Berlim, copiam, dando-lhe a feição particular da raça, das maneiras e da preocupação nacional. Tudo difere, por exemplo, entre um salão de Berlim e um salão de Roma, desde a decoração das salas até às figuras familiares e características. Num salão berlinense, tudo é duro, estreito, hirto, fortemente destacado, desde a cor viva dos papéis ou das sedas baratas, até à forte iluminação de um gás económico, que dá o mesmo tom áspero ao loiro seco dos cabelos das mulheres e à figura regrada do oficial de Estado-Maior.

Pelo contrário, num salão de Roma, tudo é discreto, de meias-tintas, sóbrio, desde a decoração dos mármores plácidos, dos doirados leves, da luz aristocrática dos candelabros, até à palidez dos rostos, ao frufru subtil das caudas dos cardeais e ao murmúrio brando do italiano, falado por vozes discretas e delicadas.

Não falo por experiência própria. A minha posição subalterna na sociedade nunca me permitiu viajar ou penetrar nesses recintos augustos, mas uma pessoa eminente da minha família, meu bom tio Julião, touriste bem conhecido, tem-me esclarecido sobre estas formas luxuosas das civilizações superiores.

Em Lisboa, porém, o Salão não existe. Não me compete estudar aqui as razões desta deficiência: enuncio somente o facto; portanto, quando digo o Salão do Conde d'Abranhos, quero designar uma reunião pacata e íntima, onde se toma um chá bem servido, se abre uma mesa de voltarete, se toca uma valsa conhecida e se fala no preço dos géneros ou nos «podres» das famílias.

As soirées do Conde d'Abranhos eram desta estimável espécie. Não havia cerimonial nem aparato: às dez horas vinha o chá com torradas e bolachas de água e sal; às vezes duas senhoras enlaçadas valsavam graciosamente; não poucas vezes eu fui chamado a recitar alguma poesia dos nossos grandes líricos; e os homens graves repousavam dos cuidados do Estado num pacato voltarete a Vintém.

Insisto nestes detalhes, para destruir a errada opinião (que tende a introduzir-se na.História Contemporânea) de que o Salão Abranhos era uma caverna política. Não nego decerto que por vezes se não falasse dos negócios públicos, e que, quando o Ex.mo Conde era ministro, as personalidades eminentes da maioria não viessem tomar sem cerimónia a sua chávena de chá. Posso, porém, afirmar, que nunca nestas pacatas soirées se decidiram ou se combinaram os grandes movimentos da política, como sucede nos salões estrangeiros, onde, segundo me tem contado meu bom tio Julião, se tramam, por trás dos leques, golpes de Estado e se decidem os destinos da Pátria entre duas vazas de whist! Os íntimos dos Abranhos, eram, na sua quase totalidade, os antigos familiares do Desembargador Amado.

Era o coronel Serrão – sempre o primeiro a chegar, bufando alto, de aspecto feroz e coração bondoso, sempre com sua filha Catarina, magra e estonteada, de grande cuja, os dentes maus do abuso dos doces, as omoplatas salientes sob o corpete do vestido atabalhoado. Nunca simpatizei com esta família.

Era a excelente D. Joana Carneiro, cujo cirro no estômago alastrava, inspirando geral compaixão, sempre triste, trazendo todas as noites a narração dos sintomas crescentes da sua doença. Acompanhava-a, amiúde, um sobrinho, marialva de calça justa e jaquetão cingido, grande frequentador do Café Central, com voz rouca da noitada da véspera, e sempre acanhado de se encontrar naquela sala, entre senhoras, num lugar onde nem havia fadistas, nem pilecas, nem meios litros. Sua tia, inquieta do futuro, procurava afincadamente colocá-lo numa repartição do Estado.

Era ainda a enorme D. Amália Saraiva, a que também já me referi neste trabalho: os seios fenomenais desta senhora, que se iam desenvolvendo progressivamente com os anos, pareciam dois mundos. Quando desapertasse o vestido fortemente espartilhado que os continha, o trasbordar daquelas duas prodigiosas massas de tecido celular devia ser um espectáculo pavoroso e grandioso! Viúva de um homem que prestara vagos serviços ao Estado, reclamava agora com pertinácia uma justa pensão. Vinha geralmente com sua delicada filha, a tocante Julinha, adorável pela fidelidade e graça juvenil com que recitava A Lua de Londres e outras maravilhas da literatura pátria.

Não devo esquecer o Conselheiro Andrade, agora frequentador assíduo do Salão Abranhos, pequeno, aprumado, escarolado, com o seu perfil de jurista, as suicinhas brancas, o ar próspero. Proprietário abastado do Ribatejo, continuava a dar toda a sua atenção à agricultura, e, como agora escrevia artigos profundos no Arquivo Rural, este lado literário da sua personalidade estabeleceu entre nós uma simpatia, que, vindo de um homem tão opulento, é ainda uma das honras da minha carreira.

Infalível, também, era o Doutor, aquele cavalheiro estimável, mas de aspecto lúgubre, que todos apenas conheciam por este nome: o Doutor. Sempre vestido de preto, sempre de luvas, amarelo como uma cidra, persistia na sua mudez taciturna; porém, continuava a escutar com uma atenção intensa, a testa franzida, piscando vivamente os olhos, como num profundo trabalho cerebral. Respeitador fervente das instituições, das personalidades oficiais, ninguém sabia ainda onde ele vivia, nem de que vivia: mas precipitava-se com tanta veneração (porque era homem de sociedade) a tomar as xícaras vazias das mãos das senhoras, dizia com tanta convicção, na sua voz cavernosa, «tem V. Exª carradas de razão»; que era geralmente considerado como um excelente moço.

Mas a maior animação daquelas soirées era dada, como outrora em casa do Desembargador, pelos nossos conhecidos Fradinhos. O Dr. Fradinho, que teve depois uma tão gloriosa carreira, não passava então de um modesto advogado. Possuía, porém, uma certa fortuna, e com as suas lunetas de ouro e o farto bigode, era na verdade um belo homem. Nada encantava nele todavia como a vivacidade da conversa; não, em boa.68 verdade, que eu jamais lhe ouvisse expor uma ideia original ou um dito faiscante: mas era fecundo e verboso. Ninguém conhecia melhor a nossa legislação, e sobretudo a da Bélgica, o seu país favorito. Era além disso activo, ambicioso, dúctil, e a sua admiração, a sua dedicação por Alípio Abranhos, davam o traço dominante do seu carácter.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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