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O Crime do Padre Amaro

Eça de Queiroz

- Oh, senhor pároco!

Não, não era um favor... Porque, quando se tratava do serviço de Deus, todos tinham o dever de concorrer na proporção das suas forças... Tratava-se duma menina que se queria fazer freira. Enfim, para lhe provar a confiança que tinha nele, ia-lhe dizer o nome...

- É a Ameliazinha da S. Joaneira!

- Que me diz, senhor pároco?!

- Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o dedo de Deus! É extraordinário...

Contou-lhe então uma história difusa que ia forjando laboriosamente, segundo as sensações que imaginava ver na face pasmada do sineiro. A rapariga desgostara-se da vida, com as desavenças que tivera com o noivo. Mas a mãe que estava velha, que a necessitava para o governo da casa, não queria consentir, supondo que era uma veleidade... Mas não, era vocação... Ele sabia-o... Infelizmente, quando havia oposição, a conduta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornais ímpios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influências do clero... As autoridades, mais ímpias que os jornais, punham obstáculos... Havia leis terríveis... Se soubessem que ele andava a instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o tio Esguelhas?... Impiedade, ateísmo do tempo!

Ora, ele necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferências: para a experimentar, para conhecer as suas disposições, ver bem se é para a Solidão que ela tem jeito, ou para a Penitência, ou para o serviço dos enfermos, ou para a Adoração Perpétua, ou para o Ensino... Enfim, estuda-la por dentro e por fora.

- Mas onde? exclamou, abrindo os braços como na desolação de um santo dever contrariado. Onde? Em casa da mãe não pode ser, já andam desconfiados. Na igreja impossível, era o mesmo que na rua. Em minha casa, já vê, menina nova...

- Está claro.

- De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que você mo há-de agradecer... pensei na sua casa...

- Oh, senhor pároco, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, está tudo às ordens!

- Bem vê, é no interesse daquela alma, é um regozijo para Nosso Senhor...

- E para mim, senhor pároco, e para mim!

O que o tio Esguelhas receava é que a casa não fosse decente e não tivesse as comodidades...

- Oral fez o padre sorrindo, num renunciamento de todos os confortos humanos. Contanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da oração...

De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como sítio retirado e casa sossegada estava a preceito. Ficavam ali, ele e a menina, como os monges no deserto. Nos dias em que o senhor pároco viesse, ele saía a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam acomodar-se, porque o quartito da pobre Totó era ao pé... Mas tinham o quarto dele, em cima.

O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não se lembrara da paralítica!

- Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.

Mas o sineiro tranqüilizou-o, vivamente. Estava agora todo interessado naquela conquista de uma noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu telhado abrigasse a santa preparação da alma da menina... Talvez lhe atraísse a ele a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades da casa. A Totó não embaraçava. Não se mexia da cama. O senhor pároco entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...

- E ela que faz, a Totó? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.

Coitadita, para ali estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e apaixonava-se por elas a ponto de ter febre; outros dias passava-os num silêncio medonho com os olhos cravados na parede. Mas às vezes estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!

- Devia-se entreter, devia ler, disse o padre Amaro para mostrar interesse.

O sineiro suspirou. Não sabia ler, a pequena, nunca quisera aprender. Era o que ele lhe dizia - se pudesses ler, já te não pesava tanto a vida! Mas então? Tinha horror a aplicar-se... O Sr. padre Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...

Mas o pároco não o escutava, todo abismado numa idéia que lhe alumiara a face dum sorriso. Achara subitamente a explicação natural a dar à S. Joaneira e às amigas das visitas de Amélia a casa do sineiro: era a ensinar a ler a paralítica! A educá-la! A abrir-lhe a alma às belezas dos livros santos, da história dos mártires e da oração!...

- Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mãos de júbilo. É em sua casa que se há-de fazer da rapariga uma santa. E disto - e a sua voz deu um grave profundo - um segredo inviolável!

- Oh, senhor pároco! fez o sineiro, quase ofendido.

- Conto consigo! disse Amaro.

Veio logo à sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a Amélia, em que lhe explicava detalhadamente o "arranjinho que fizera para gozarem novas e divinas felicidades". Prevenia-a que o pretexto para ela vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educação da paralítica: ele mesmo o proporia à noite, em casa da mamã. "Que nisto, dizia, há alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com uma boa instrução religiosa as trevas daquela alma. E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!"

Depois, entrou em casa. Como se sentou regaladamente à mesa do almoço, com um contentamento pleno de si, da vida e das doces facilidades que nela encontrava! Ciúmes, dúvidas, torturas do desejo, solidão da carne, tudo o que o consumira meses e meses, além na Rua da Misericórdia e ali na Rua das Sousas, passara. Estava enfim instalado à larga na felicidade! E recordava, abismado num gozo mudo, com o garfo esquecido na mão, toda aquela meia hora da véspera, prazer por prazer, ressaboreando-os mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse - como o lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos invejaram muitos anos. Ah, não tomaria a olhar de lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Também ele agora tinha uma, toda sua, alma e carne, linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho de água-de-colônia! Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê escândalo entre os fiéis, em nada prejudica a eficácia, a utilidade, a grandeza da religião. Todos os teólogos ensinam que a ordem dos sacerdotes foi instituída para administrar os sacramentos; o essencial é que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural que os sacramentos contêm; e contanto que eles sejam dispensados segundo as fórmulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou pecador? O sacramento comunica a mesma virtude. Não é pelos méritos do sacerdote que eles operam, mas pelos méritos de Jesus Cristo. O que é batizado ou ungido, ou seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica igualmente bem lavado da mácula original, ou bem preparado para a vida eterna. Isto lê-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o seráfico concílio de Trento. Os fiéis nada perdem, na sua alma e na sua salvação, com a indignidade do pároco. E se o pároco se arrepende à hora extrema, também se lhe não fecham as portas do Céu. Logo em definitivo tudo acaba bem, e em paz geral... - E o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer o seu café.

A Dionísia, ao fim do almoço, veio saber, muito risonha, se o senhor pároco falara ao tio Esguelhas...

- Falei por alto, disse ele ambiguamente. Não há nada decidido... Roma não se construiu num dia.

- Ah! fez ela.

E recolheu-se à cozinha, pensando que o senhor pároco mentia como um herege. Também, não se importava... Nunca gostara de arranjos com os senhores eclesiásticos; pagavam mal, e suspeitavam sempre...


E mesmo ouvindo Amaro que saía, correu à escada, a dizer-lhe - que enfim, ela tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor pároco tivesse arranjado criada. ..

- A Sra. D. Josefa Dias anda-me a tratar disso, Dionísia. Espero ter alguém amanhã. Mas você apareça... Agora que somos amigos...

- Quando o senhor pároco quiser é chamar-me da janela para o quintal, disse ela do alto da escada. Para tudo o que precisar. De tudo sei um bocadinho; até de desarranjos e de partos... E neste ponto posso até dizer...

Mas o padre não a escutava: atirara com a porta de repelão, fugindo, indignado daquela utilidade torpe assim brutalmente oferecida.


•••


Foi dai a dias que ele falou em casa da S. Joaneira da filha do sineiro.

Na véspera dera o bilhete a Amélia; e nessa noite, enquanto na sala se galrava alto, aproximara-se do piano, onde Amélia, com os dedos preguiçosos, corria escalas, e abaixando-se para acender o cigarro à vela, murmurara.

- Leu?

- Ótimo!

Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava contando uma catástrofe que lera num jornal, sucedida em Inglaterra: uma mina de carvão que desabara, sepultando cento e vinte trabalhadores. As velhas arrepiavam-se horrorizadas. A Gansoso então, gozando o efeito, acumulou loquazmente os detalhes: a gente que estava fora esforçara-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes embaixo gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...

- Desagradável! rosnou o cônego, aconchegando-se na sua poltrona, gozando o calor da sala e a segurança dos tetos.

A Sra. D. Maria da Assunção declarou que todas essas minas, essas máquinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fábrica ao pé de Alcobaça, e parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso Senhor não as via com bons olhos...

- É como os caminhos de ferro, disse D. Josefa. Tenho a certeza que foram inspirados pelo demônio! Não o digo a rir. Mas vejam aqueles uivos, aquele fogaracho, aquele fragor! Ai, arrepia!

O padre Amaro galhofou, - assegurando à Sra. D. Josefa que eram ricamente cômodos para andar depressa! Mas, tomando-se logo sério, acrescentou:

- Em todo o caso é incontestável que há nessas invenções da ciência moderna muito do demônio. E é por isso que a nossa santa Igreja as abençoa, primeiro com orações e depois com água benta. Hão-de saber que é o costume. Com água benta, para lhes fazer o exorcismo, expulsar o espírito inimigo: e com orações para as resgatar do pecado original que não só existe no homem, mas nas coisas que ele constrói. É por isso que se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demônio não se possa servir delas para seu uso.

D. Maria da Assunção quis imediatamente uma explicação. Como em a maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?

O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas pela Extrema-Unção, o demônio ali mesmo, zás, apoderava-se delas!

- É de velhaco! rosnou o cônego com uma admiração secreta por aquela manha tão hábil do Inimigo.

Mas D. Maria da Assunção abanou-se langorosamente, com o rosto banhado num sorriso de beatitude:

- Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a nós é que não nos sucedia isso... Que não nos pilhava desprevenidas!

Era verdade; e todas gozaram um momento aquela certeza deliciosa de estarem preparadas, de poderem lograr a malícia do Tentador!

O padre Amaro então tossiu como para preparar as vias, e apoiando as duas mãos sobre a mesa, num tom de prática:

- É necessário muita vigilância para conservar de longe o demônio. Ainda hoje eu estava a pensar nisso (foi mesmo a minha meditação) a respeito de um caso bem triste que tenho lá ao pé da Sé... É a filhita do sineiro.

As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, numa curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a história picante de alguma façanha de Satanás. E o pároco continuou com uma voz a que o silêncio em redor dava solenidade:

- Ali está aquela rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! Não sabe ler, não tem devoções habituais, não tem o costume da meditação; é por conseqüência, para empregar a expressão de S. Clemente - uma alma sem defesa. O que sucede? Que o demônio, que ronda constantemente e não perde dentada, estabelece-se ali como em sua casa! Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, são frenesis, desesperos, furores sem razão... Enfim o pobre homem tem a vida estragada.

- E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assunção, indignada daquela impudência de Satanás, instalando-se num corpo, num leito, que apenas a estreiteza do pátio separava dos contrafortes da Sé.

Amaro acudiu:

- Tem a D. Maria razão. O escândalo é enorme. Mas então? Se a rapariga não sabe ler! Se não sabe uma oração, se não tem quem a instrua, quem lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...

Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de ombros vergados, numa mágoa de pastor a quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com efeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão verdadeira por aquela pobre criatura, a quem a falta de consolações devia tornar mais intensa a agonia da imobilidade...

As senhoras olhavam-se, magoadas com aquele caso triste de abandono de alma, - sobretudo pela dor que ele parecia trazer ao senhor cônego.

A Sra. D. Maria da Assunção, que percorria em imaginação o abundante arsenal da devoção, lembrara logo que se lhe pusessem alguns santos à cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o silêncio das amigas exprimiu bem a insuficiência daquela galeria devota.

- As senhoras dir-me-ão, talvez, disse o padre Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como as nossas!

- Todos têm direito à graça do Senhor, disse o cônego gravemente, num sentimento de imparcialidade, admitindo a igualdade das classes logo que não se tratava de bens materiais e apenas dos confortos do Céu.

- Para Deus não há pobre nem rico, suspirou a S. Joaneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino do Céu.

- Não, antes rico, acudiu o cônego, estendendo a mão para deter aquela falsa interpretação da lei divina. Que o Céu também é para os ricos. A senhora não compreende o preceito Beati pauperes, benditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que têm; não aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de não serem benditos. É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que prega que os trabalhadores e as classes baixas devem viver melhor do que vivem, vai de encontro à expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão chicote, como excomungados que são! Ouf!

E estirou-se, extenuado de ter falado tanto. O padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovelo sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia lançar a sua idéia, como vinda de uma inspiração divina, propor que fosse Amélia levar uma educação devota à triste paralítica... E hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de concupiscência. A filha do sineiro aparecia-lhe agora, exageradamente, abismada numa treva de agonia. Sentia toda a caridade que haveria em consolá-la, entretê-la, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta ação redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita num puro espírito de fraternidade cristã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental de bom rapaz por aquele miserável corpo pregado numa cama sem nunca ver o sol nem a rua... E ali estava embaraçado, naquela piedade que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido quase de ter falado às senhoras da Totó... Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéia:

- Ó Sr. padre Amaro, se se lhe mandasse aquele livro com pinturas de vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me a alma... Não és tu que o tens, Amélia?

- Não, disse ela, sem erguer os olhos da costura.

Amaro então olhou-a. Tinha-a quase esquecido. Estava agora do outro lado da mesa, abainhando um esfregão: a risca muito fina desaparecia na abundância espessa do cabelo, onde a luz do candeeiro ao lado punha um traço lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a pele da face, dum trigueiro cálido, que uma tinta rosada aquecia; o vestido justo, que se franzia numa prega sobre o ombro, elevava-se amplamente sobre a forma dos peitos, que ele via arfar no ritmo da respiração igual... Era aquela a beleza que mais apetecia nela; imaginava-os duma cor de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim, mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham encontrado só a seda fria... Mas na casa do sineiro seriam dele, sem obstáculo, sem vestido, à disposição dos seus lábios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo tempo consolassem a alma da Totó! Não hesitou mais. E erguendo a voz, no meio do palratório das velhas que discutiam agora a desaparição da Vida dos Santos:

- Não, minhas senhoras, não é com livros que se vale à rapariga. Sabem a idéia que me veio? Era um de nós, o que estiver menos ocupado, levar-lhe a palavra de Deus e educar aquela alma! - E acrescentou, sorrindo: - E a falar a verdade, a pessoa mais desocupada aqui de todos nós é a menina Amélia...

Então foi uma surpresa! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda numa revelação. Os olhos de todas acenderam-se numa excitação devota, à idéia daquela missão de caridade, que partia ali delas, da Rua da Misericórdia... Extasiavam-se, no antegosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, numa assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas que o Céu certamente prodigalizaria. D. Joaquina Gansoso declarou com calor que invejava Amélia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.

- Imaginas que não o faria com a mesma devoção? Já estás com orgulho da boa ação... Olha que assim não te aproveita!

Mas Amélia continuava tomada de um riso nervoso, deitada para as costas da cadeira, sufocando-se para se conter.

Os olhinhos de D. Joaquina chamejavam.

- É indecente, é indecente! gritava.

Calmaram-na: Amélia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fora uma idéia extravagante que tivera, que era nervoso...

- Ai, disse D. Maria da Assunção, ela tem razão em se orgulhar. Que é uma honra para a casa! Em se sabendo...

O pároco interrompeu com severidade:

- Mas não se deve saber, Sra. D. Maria da Assunção! De que serve, aos olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vanglória?

D. Maria vergou os ombros, humilhando-se à repreensão. E Amaro, com gravidade:

- Isto não deve sair daqui. É entre Deus e nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, e não ter elogios nos periódicos. Pois não é assim, padre-mestre?

O cônego ergueu-se pesadamente:

- Você esta noite tem falado com a língua de ouro de S. Crisóstomo. Eu estou edificado; e não se me dava agora de ver aparecer as torradas.

Foi então, enquanto a Ruça não trazia o chá, que se decidiu que Amélia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoção, iria em segredo, para que a ação fosse mais valiosa aos olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralítica, ler-lhe a Vida dos Santos, ensinar-lhe rezas e insuflar-lhe a virtude.

- Enfim, resumiu a Sra. D. Maria da Assunção voltando-se para Amélia, não te digo senão uma coisa: abichaste!

A Ruça entrou com o tabuleiro, no meio dos risos que provocara a "tolice de D. Maria", como disse Amélia, que se fizera escarlate. - E foi assim que ela e o padre Amaro se puderam ver livremente, para glória do Senhor e humilhação do Inimigo.


•••


Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas à paralítica perfizessem ao fim do mês o número simbólico de sete, que devia corresponder, na idéia das devotas, às Sete Lições de Maria. Na véspera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a prática do senhor pároco. Amélia nesses dias erguia-se cedo; tinha sempre alguma saia branca a engomar, algum laçarote a compor; a mãe estranhava-lhe aqueles arrebiques, o desperdício de água-de-colônia de que ela se inundava; mas Amélia explicava que "era para inspirar à Totó idéias de asseio e de frescura". E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito séria, respondendo distraidamente às conversas da mãe, com uma cor nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relógio: enfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ela, depois de uma olhadela ao espelho, saía, dando uma beijoca à mamã.

Ia sempre receosa, numa inquietação de ser espreitada. Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a assustava era o Largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando por trás da janela, exercia uma vigilância incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete, e abaixando o guarda-sol sobre o rosto, entrava enfim na Sé, sempre com o pé direito.

Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida numa luz fosca, amedrontava-a; parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma repreensão ao seu pecado; imaginava que os olhos de vidro das imagens, as pupilas pintadas dos painéis se fixavam nela, com uma insistência cruel, e percebiam o arfar que ao seu seio dava a esperança do prazer. Às vezes mesmo, atravessada duma superstição, para dissipar o descontentamento dos santos, prometia dar-se nessa manhã toda à Totó, ocupar-se caridosamente só dela, e não se deixar tocar sequer no vestido pelo Sr. padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro o não encontrava, ia logo, sem se deter ao pé da cama da Totó, postar-se à janela da cozinha, vigiando a porta maciça da sacristia, de que ela conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.

Ele aparecia, enfim. Era então nos começos de março; já tinham chegado as andorinhas; ouviam-nas chilrear, naquele silêncio melancólico, esvoaçando entre os contrafortes da Sé. Aqui e além, plantas dos lugares úmidos cobriam os cantos de uma verdura escura. Amaro, às vezes muito galante, ia procurar uma florzinha. Amélia impacientava-se, rufava na vidraça da cozinha. Ele apressava-se; ficavam um momento à porta, apertando-se as mãos, com olhos brilhantes que se devoravam; e iam enfim ver a Totó - e dar-lhe os bolos que o pároco lhe trazia no bolso da batina.

A cama da Totó era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de tísica quase não fazia saliência enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores enxovalhados que ela se entretinha a esfiar. Nesses dias tinha vestido um chambre branco, os cabelos reluziam-lhe de óleo; porque ultimamente, desde as visitas de Amaro, viera-lhe "uma birra de parecer alguém", como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se não querer separar dum espelho e dum pente que escondia debaixo do travesseiro e obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que agora desprezava.

Amélia sentava-se um instante aos pés do catre, perguntando-lhe se estudara o ABC, obrigando-a a dizer aqui e além o nome duma letra. Depois queria que ela repetisse sem errar a oração que lhe andava ensinando; - enquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mãos no bolsos, enfastiado, embaraçado com os olhos reluzentes da paralítica que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro tão chupado que se lhe via a saliência das maxilas. Não sentia agora nem compaixão nem caridade pela Totó; detestava aquela demora; achava a rapariga selvagem e embirrenta. A Amélia também pesavam aqueles momentos em que, para não escandalizar muito Nosso Senhor, se resignava a falar à paralítica. A Totó parecia odiá-la; respondia-lhe muito carrancuda; outras vezes persistia num silêncio rancoroso, voltada para a parede; um dia despedaçara o alfabeto; e encolhia-se toda encruada se Amélia lhe queria compor o xale sobre os ombros ou conchegar-lhe a roupa...

Enfim Amaro, impaciente, fazia um sinal a Amélia; ela punha logo diante da Totó o livro com estampas da Vida dos Santos.

- Vá, ficas agora a ver as figuras... Olha, este é S. Mateus, esta Santa Virgínia... Adeus, eu vou lá acima com o senhor pároco rezarmos para que Deus te dê saúde e te deixe ir passear... Não estragues o livro, que é pecado.

E subiam a escada, enquanto a paralítica, estendendo o pescoço sofregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com os olhos chamejantes que lágrimas de raiva enevoavam. O quarto, em cima, era muito baixo, sem forro, com um teto de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que pusera sobre a parede um penacho negro dó fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas - a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma caneca de água, e duas cadeiras dispostas ao lado...

- É para a nossa conferência, para te ensinar os deveres de freira, dizia ele, galhofando.

- Ensina, então! murmurava ela, de braços abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso cálido onde brilhava um branquinho dos dentes, num abandono que se oferecia.

Ele atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos cabelos; às vezes mordia-lhe a orelha; ela dava um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando, com medo da paralítica embaixo. O pároco depois fechava as portadas da janela e a porta muito perra que tinha de empurrar com o joelho. Amélia ia-se despindo devagar; e com as saias caídas aos pés ficava um momento imóvel, como uma forma branca na escuridão do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte. Ela então persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava um suspirozinho triste.

Amélia só podia demorar-se até ao meio-dia. O padre Amaro por isso pendurava o seu cebolão no prego da candeia. Mas quando não ouviam as badaladas da torre, Amélia conhecia a hora pelo cantar dum galo vizinho.

- Devo ir, filho, murmurava toda cansada.

- Deixa lá... Estás sempre com a pressa...

Ficavam ainda uns momentos calados, numa lassidão doce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e além fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bulir alguma telha solta; ou um pássaro, pousando, chilreava e ouviam-lhe o frêmito das asas.

- Ai, são horas, dizia Amélia.

O padre queria detê-la; não se fartava de lhe beijar a orelhinha.

- Lambão! murmurava ela. Deixe-me!

Vestia-se à pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janela, vinha ainda abraçar o pescoço de Amaro, que ficara estatelado sobre o leito; e ia enfim arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralítica sentir embaixo, saber que tinham acabado a conferência.

Amaro não findava ainda de a beijocar: ela então, para acabar, fugia- lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas a cozinha sem olhar para a Totó, e entrava na sacristia.

Amélia, essa, antes de sair, vinha ver a paralítica, saber se gostara das estampas. Encontrava-a às vezes com a cabeça debaixo dos cobertores, que entalava e prendia com as mãos para se esconder; outras vezes, sentada na cama, examinava Amélia com olhos em que se acendia uma curiosidade viciosa; chegava o rosto para ela, com as narinas dilatadas que pareciam cheirá-la; Amélia recuava, inquieta, corando também; queixava-se então de ser tarde, recolhia a Vida dos Santos, - e saía, amaldiçoando aquela criatura tão maliciosa na sua mudez.


•••


Ao passar no largo, àquela hora, via sempre a Amparo à janela. Ultimamente mesmo julgara prudente contar-lhe em segredo a sua caridade com a Totó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e debruçando-se toda na varanda:

- Então como vai a Totó?

- Lá vai.

- Já lê?

- Já soletra.

- E a oração a Nossa Senhora?

- Já a diz.

- Ai, que devoção a tua, filha!

Amélia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava também no segredo, deixava o balcão para vir à porta admirar Amélia.

- Vem da sua grande missão de caridade, hem? dizia, de olho arregalado, balanceando-se na ponta das chinelas.

- Estive um bocado com a pequena, a entretê-la...

- Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois vá, minha santa menina, recados à mamã.

Voltava-se então para dentro, para o praticante:

- Veja o Sr. Augusto aquilo... Em lugar de passar o seu tempo, como as outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flor dos anos com uma entrevada! Veja o senhor se a filosofia, o materialismo, e essas porcarias são capazes de inspirar ações deste jaez... Só a religião, meu caro senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada de filósofos vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a filosofia, mas quando ela, por assim dizer, vai de mãos dadas com a religião... Sou homem de ciência e admiro um Newton48, um Guizot49... Mas (e grave o senhor estas palavras) se a filosofia se afasta da religião... (grave bem estas palavras) dentro de dez anos, Sr. Augusto, está a filosofia enterrada!


48 lsaac Newton (1642-1727), além de grandes descobertas cientificas, teorizou a lei da mecânica universal. (N.E.)

49 François Guizot (1787-1874) definiu uma filosofia da História de caráter libera conservador (N.E.)


E continuava a mexer-se pela farmácia a passos lentos, de mãos atrás das costas, ruminando o fim da filosofia.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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