E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era tão célebre, que lhe chamavam "a donzela".
De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas de estação aos pés do Santíssimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as menores práticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia com uma profunda oração mental, uma meditação de fé, de onde a sua alma saía ágil, como dum banho fortificante; preparando-se para o sono com um destes longos e piedosos exames de consciência, tão úteis, que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarco e Sêneca, e que são a correção laboriosa e sutil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento meticuloso da virtude ativa, empreendido com um fervor de poeta que revê um poema querido... E todo o tempo que tinha vago abismava-se num caos de livros.
Tinha só um defeito o abade Ferrão: gostava de caçar! Coibia-se, porque a caça tira muito tempo, e é sangüinário matar uma pobre ave que anda azafamada pelos campos nos seus negócios domésticos. Mas nas claras manhãs de Inverno, quando ainda há orvalho nas giestas, se via passar um homem de espingarda ao ombro, o passo vivo, seguido do seu perdigueiro - iam-se-lhe os olhos nele... Às vezes, porém, a tentação vencia; agarrava furtivamente a espingarda, assobiava à Janota, e com as abas do casacão ao vento, lá ia o teólogo ilustre, o espelho da piedade, através de campos e vales... E daí a pouco - pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda debaixo do braço, os dois pássaros na algibeira, cosendo-se com os muros, rezando o seu rosário à Virgem, e respondendo aos bons-dias da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.
O abade Ferrão, apesar do seu aspecto "gebo" e do seu grande nariz, agradou a Amélia, logo desde a primeira visita à Ricoça; e a sua simpatia cresceu, quando viu que D. Josefa o recebia com pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano cônego tinha pela ciência do abade.
A velha, com efeito, depois de ter estado só com ele numa prática de horas, condenara-o com uma única palavra, na sua autoridade de velha devota experiente:
- É relaxado!
Não se tinham realmente compreendido. O bom Ferrão, tendo vivido tantos anos naquela paróquia de quinhentas almas, as quais caíam todas, de mães e filhas, no mesmo molde de devoção simples a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono da freguesia, tendo pouca experiência de confissão, encontrava-se, subitamente, diante duma alma complicada de devota da cidade, dum beatério caturra e atormentado; e ao ouvir aquela extraordinária lista de pecados mortais, murmurava espantado:
- É estranho, é estranho...
Percebera bem ao princípio que tinha diante de si uma dessas degenerações mórbidas do sentimento religioso, que a teologia chama Doença dos escrúpulos - e de que na sua generalidade estão afetadas hoje todas as almas católicas; mas depois, a certas revelações da velha, receou estar realmente em presença duma maníaca perigosa; e instintivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos doidos, recuou a cadeira.
Pobre D. Josefa! Logo na primeira noite em que chegara è Ricoça (contava ela), ao começar o rosário a Nossa Senhora, lembra-lhe de repente que lhe esquecera o saiote de flanela escarlate, que era tão eficaz nas dores das pemas... Trinta e oito vezes de seguida recomeçara o rosário, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ela e Nossa Senhora!... Então desistira, de exausta, de esfalfada. E imediatamente sentira dores vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes nas pemas...
O abade pulou:
- Oh minha senhora!...
- Ai, não é tudo, senhor abade!
Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engolia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com. as fezes! Que havia de fazer?
O abade, de olhar esgazeado, limpava o suor da testa.
Mas isto não era o pior: o grave era, que na noite antecedente, estava toda sossegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier - e de repente, nem ela soube como, pôs-se a pensar como seria S. Francisco Xavier nu em pêlo!
O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Enfim, vendo-a olhar ansiosa para ele à espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:
- E há muito que sente esses terrores, essas dúvidas...?
- Sempre, senhor abade, sempre!
- E tem convivido com pessoas que, como a senhora, são sujeitas a essas inquietações?
- Todas as pessoas que conheço, dúzias de amigas, todo o mundo... O inimigo não me escolheu só a mim... A todos se atira...
- E que remédio dava a essas ansiedades de alma...?
- Ai, senhor abade, aqueles santos da cidade, o senhor pároco, o Sr. Silvério, o Sr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre de embaraços... E com uma habilidade, com uma virtude...
O abade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente o rebanho naquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fiéis num terror abjeto do Céu, representando Deus e os seus santos como uma corte que não é menos corrompida, nem melhor, que a de Calígula e dos seus libertos.
Quis então levar àquele noturno cérebro de devota, povoado de fantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror de ofender a Deus... Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... Que é por amor que é necessário servi-lo, não por medo... Que todos esses escrúpulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cair no estômago, eram perturbações da razão doente. Aconselhou-lhe confiança em Deus, bom regime para ganhar forças. Que não se cansasse em orações exageradas...
- E quando eu voltar, disse enfim erguendo-se e despedindo-se, continuaremos a conversar sobre isto, e havemos de serenar essa alma.
- Obrigada, senhor abade, respondeu a velha secamente.
E apenas a Gertrudes daí a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os pés, D. Josefa exclamou, toda indignada, quase choramigando:
- Ai, não presta para nada, não presta para nada!... Não me percebeu... É um tapado... É um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha num sacerdote do Senhor...
Desde esse dia não tornou a revelar ao abade os pecados medonhos que continuava a cometer; e quando ele, por dever, quis recomeçar a educação da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se confessava com o Sr, padre Gusmão, não sabia se seria delicado receber de outro a direção moral...
O abade fez-se vermelho, respondeu:
- Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se ter muita delicadeza nessas coisas...
Saiu. E daí por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe da saúde, de ter falado do tempo, da estação, das doenças que iam, de alguma festa na igreja, - apressava-se em se despedir e ir para o terraço conversar com Amélia.
Vendo-a sempre tão tristonha, interessara-se por ela; para Amélia, as visitas do abade eram uma distração, naquela solidão da Ricoça; e assim se iam familiarizando, a ponto que nos dias em que ele regularmente vinha, Amélia punha um mantelete e ia pelo caminho dos Poiais esperá-lo até junto da casa do ferrador. As conversas do abade, falador incansável, entretinham-na, tão diferentes dos mexericos da Rua da Misericórdia, - como o espetáculo dum largo vale com árvores, plantações, águas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados às quatro paredes caiadas duma trapeira da cidade. Tinha com efeito uma destas conversações semelhantes aos jornais semanais de recreio, o TESOURO DAS FAMÍLIAS ou as LEITURAS PARA SERÕES, em que há de tudo - doutrina moral, histórias de viagens, anedotas de grandes homens, dissertações sobre a lavoura, citação duma boa chalaça, traços sublimes da vida dum santo, um verso aqui e além, e até receitas, como uma muito útil que deu a Amélia para lavar as flanelas sem encolherem. Só era monótono quando falava da sua família paroquiana, dos casamentos, batizados, doenças, questões, ou quando começava as suas histórias de caça.
- Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Córrego das Tristes, quando uma revoada de perdizes...
Amélia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam façanhas da Janota, pontarias fabulosas contadas em mímica, com imitações de vozes de pássaros, e pum, pum de fuzilaria. Ou então era descrições das caçadas selvagens que ele lera com gula - a caça ao tigre do Nepal, ao leão da Argélia e ao elefante, histórias ferozes que arrastavam a imaginação da rapariga para longe, para os países exóticos onde a erva é alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em brasa, e entre cada ramagem reluzem os olhos duma fera... E depois, a propósito de tigres e de malaios, lembrava- lhe um história curiosa de S. Francisco Xavier, e ei-lo lançado, o terrível palrador, na descrição dos feitos da Ásia, das armadas da Índia e das estocadas famosas do cerco de Dio!
Foi mesmo um desses dias, no pomar, em que o abade, tendo começado por enumerar as vantagens que o cônego tiraria de transformar o pomar em terra de lavoura, acabara por contar perigos e valores dos missionários da Índia e do Japão - que Amélia, então em toda a intensidade dos seus terrores noturnos, falou dos ruídos que ouvia na casa e dos sobressaltos que lhe davam.
- Oh, que vergonha! disse o abade rindo; uma senhora da sua idade ter medo de papões...
Ela então, atraída por aquela bondade do senhor abade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite por detrás da barra da cama.
O abade pôs-se sério:
- Minha senhora, isso são imaginações que deve a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodígios no mundo, mas Deus não se põe assim a falar a qualquer, por detrás das barras das camas, nem permite ao demônio que o faça... Essas vozes, se as ouve, e se os seus pecados são grandes, não vêm de detrás da cama, vêm-lhe de si mesma, da sua consciência... E pode então fazer dormir ao pé de si a Gertrudes, e sem Gertrudes, e todo o batalhão de infantaria, que as há-de continuar a ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é necessário é calmar a consciência que reclama penitência e purificação...
Tinham subido ao terraço, falando assim: e Amélia sentara-se fatigada num dos bancos de pedra que ali havia, e ficara a olhar a quinta ao longe, os tetos dos currais, a longa rua de loureiros, a eira, e a distância os campos que se sucediam planos e avivados do tom úmido que lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava de uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos cor-de-rosa tenro... Pensava naquelas palavras tão sensatas do abade, no descanso que gozaria se cada pecado que lhe pesava na alma como um penedo se tomasse ligeiro e se dissipasse sob a ação da penitência. E vinham-lhe desejos de paz, dum repouso igual à quietação dos campos que se estendiam diante dela.
Um pássaro cantou, depois calou-se; e recomeçou dai a um momento com um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amélia sorria, escutando-o.
- É um rouxinol...
- Os rouxinóis não cantam a esta hora, disse o abade. É um melro... Aí está um que não tem medo de fantasmas, nem ouve vozes... Olhe que entusiasmo, o maganão!
Era com efeito um gorjear triunfante, um delírio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.
E Amélia, diante daquele chilrear glorioso dum pássaro contente, subitamente, sem razão, num destes abalos nervosos que vêm às mulheres histéricas, rompeu a chorar.
- Então, que é isso, que é isso? fez o abade muito surpreendido.
Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e de amigo, calmando-a.
- Que infeliz que sou!.., murmurou ela aos soluços.
Ele então muito paternal:
- Não tem razão para o ser... Sejam quais forem as aflições, as inquietações, uma alma cristã tem sempre a consolação à mão... Não há pecado que Deus não perdoe, nem dor que não calme, lembre-se disso... O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que sufoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, sossegá-la, é procurar-me...
- Quando? disse ela toda desejosa já de se refugiar na proteção daquele santo homem.
- Quando quiser, disse ele rindo. Eu não tenho horas para consolar... A igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...
Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amélia foi à residência; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionário de pinho - que o bom abade por suas mãos pintara de azul-escuro, com extraordinárias cabecinhas de anjos que em lugar de orelhas tinham asas, uma obra de alta arte de que ele falava com uma secreta vaidade.
XXII
O padre Amaro acabara de jantar, e fumava, com os olhos no teto, para não
ver o carão chupado do coadjutor que havia meia hora ali estava, imóvel
e espectral, fazendo cada dez minutos uma pergunta que caía no silêncio
da sala como os quartos melancólicos que dá de noite um relógio
de catedral.
- O senhor pároco já não é assinante da Nação?
- Não. senhor, leio o Popular.
O coadjutor recaiu num silêncio, começando logo a coligir laboriosamente as palavras para uma nova pergunta. Soltou-a enfim, com lentidão:
- Não se tornou a saber daquele infame que escreveu o Comunicado?
- Não senhor, foi para o Brasil.
A criada entrou, neste momento, dizendo que "estava ali uma pessoa que queria falar ao senhor pároco". Era a sua maneira de anunciar a presença de Dionísia na cozinha.
Havia semanas que ela não aparecia - e Amaro, curioso, saiu logo da sala fechando a porta sobre si, e chamou a matrona ao patamar.
- Grande novidade, senhor pároco! E vim a correr, que é sério. Está cá o João Eduardo!
- Ora essa! exclamou o pároco. E eu justamente a falar dele! É extraordinário. Olha que coincidência...
- É verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E já estou informada de tudo. O homem está mestre dos filhos do Morgadinho.
- Que Morgadinho?
- O Morgadinho dos Poiais... Se vive lá, ou se vai pela manhã e vem à noite, isso não sei. O que sei é que voltou... E janota, fato novo...
Eu entendi que devia avisar, porque pode estar certo que ele, mais dia menos dia, dá pela Ameliazinha lá na Ricoça... É no caminho para casa do Morgado... Que lhe parece?...
- Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando não serve é que aparece. Então por fim não foi para o Brasil?
- Pelos modos, não... Que a sombra dele não era, era ele mesmo em carne e osso... A sair da loja do Fernandes por sinal, e todo peralta... Sempre é bom avisar a rapariga, senhor pároco, que se não vá ela plantar de janela...
Amaro deu-lhe as duas placas que ela esperava - e daí a um quarto de hora, desembaraçado do coadjutor, ia no caminho da Ricoça.
•••
Batia-lhe forte o coração quando avistou o casarão amarelo,
pintado de novo, o largo terraço lateral em linha com o muro do pomar,
ornado de espaço a espaço no parapeito de vasos nobres de pedra.
Ia enfim, depois de tão longas semanas, ver a sua Ameliazinha! E já
se alvoroçava à idéia das exclamações apaixonadas
com que ela lhe cairia nos braços.
Ao rés-do-chão eram as cavalariças, do tempo da família morgada que outrora ali habitara, agora abandonadas às ratazanas e aos tortulhos, recebendo a luz por estreitas janelas gradeadas que quase desapareciam sob camadas de teias de aranha; entrava-se por um imenso pátio escuro, onde havia longos anos se acastelava a um canto toda uma montanha de pipas vazias; e o lance de escadaria nobre, que levava aos aposentos, era à direita, flanqueado de dois leõezinhos de pedra, benignos e sonolentos.
Amaro subiu até um salão de teto de carvalho apainelado, sem mobília, com a metade do soalho coberta de feijão seco.
E, embaraçado, bateu as palmas.
Uma porta abriu-se. Amélia apareceu um instante, toda despenteada e em saia branca; deu um gritinho, bateu com a porta - e o pároco sentiu-a fugir para o interior do casarão. Ficou muito desconsolado no meio do salão, com o seu guarda-sol debaixo do braço, pensando na boa familiaridade com que entrava na Rua da Misericórdia - que até pareciam as portas abrir-se de si mesmo e o papel das paredes clarear-se de alegria.
Ia bater as palmas outra vez, já quezilado, quando a Gertrudes apareceu.
- Oh, senhor pároco! Entre, senhor pároco! Ora até que enfim! Minha senhora, é o senhor pároco! - gritava, na alegria de ver enfim uma visita querida, um amigo da cidade, naquele desterro da Ricoça.
Levou-o logo para o quarto de D. Josefa, ao fundo da casa, um quarto enorme, onde, num pequeno canapé perdido a um canto, a velha passava os dias encolhida no seu xale, com os pés embrulhados num cobertor.
- Oh, D. Josefa! Como está? Como está?
Ela não pôde responder, tomada dum acesso de tosse que lhe dera a comoção da visita.
- Como vê, senhor pároco, murmurou enfim muito fraco. Para aqui vou, arrastando esta velhice. E vossa senhoria? Por que não tem aparecido?
Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres da Sé. E compreendia agora, ao ver aquela face amarela e cavada, com uma medonha touca de rendas negras, que tristes horas Amélia ali devia passar. Perguntou por ela; avistara-a de longe, mas ela deitara a fugir...
- É que não estava decente para aparecer, disse a velha. Hoje foi dia da barrela.
Amaro quis então saber em que se entretinham, como passavam os dias naquela solidão...
- Eu para aqui estou. A pequena para aí anda.
Depois de cada palavra, parecia abater-se numa fadiga e a sua ronqueira crescia.
- Então não se tem dado bem com a mudança, minha senhora?
Ela disse que não, num movimento de cabeça.
- Deixe falar, senhor pároco, acudiu a Gertrudes que ficara de pé, ao lado do canapé, gozando a presença do senhor pároco. - Deixe falar... É que a senhora exagera também... Levanta-se todos os dias, dá o seu passeinho até à sala, come a sua asita de frango... Temo-la aqui, temo-la arribada... É o que diz o Sr. abade Ferrão, a saúde foge a toda a brida e para voltar vem a passo.
A porta abriu-se. Amélia apareceu, muito escarlate, com o seu antigo robe-de-chambre de merino roxo, o cabelo arranjado à pressa.
- Desculpe, senhor pároco, balbuciou, mas hoje tem sido um dia de balbúrdia...
Ele apertou-lhe a mão gravemente; e ficaram calados, como se estivessem separados pela distância dum deserto. Ela não tirava os olhos do chão, enrolando com a mão trêmula uma ponta da manta de lã que trazia solta pelos ombros. Amaro achava-a mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga de velhice aos cantos da boca. Para romper aquele silêncio estranho, perguntou-lhe também se se dava bem...
- Para aqui vou indo... É um pouco triste isto. É como diz o Sr. abade Ferrão, é muito grande para a gente se sentir em família.
- Ninguém veio para aqui para se divertir, disse a velha sem descerrar as pálpebras, com uma voz seca que perdera toda a fadiga.
Amélia baixou a cabeça, fazendo-se pálida.
Amaro então, compreendendo num relance que a velha torturava Amélia, disse com muita severidade:
- É verdade, não foi para se divertirem... Mas também não foi para se entristecerem de propósito... Pôr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos outros a vida negra, é uma falta horrível de caridade; não há pecado pior aos olhos do Senhor... É indigno da graça de Deus quem tal pratica...
A velha rompeu a choramigar, muito excitada:
- Ai, o que Deus me guardou para os últimos anos da vida...
Gertrudes animou-a. Então, senhora, que até lhe fazia pior estar a afligir-se assim... Ora o disparate! Tudo se havia de remediar com a ajuda de Deus. Saúde não havia de faltar, nem alegria...
Amélia chegara-se à janela, decerto para esconder também as lágrimas que lhe saltavam dos olhos. E o pároco, consternado com a cena, começou a dizer que D. Josefa não estava suportando com a verdadeira resignação duma cristã aqueles dias de doença... Nada escandalizava mais Nosso Senhor que ver as criaturas revoltarem-se contra as dores ou os encargos que ele mandava... Era insultar a justiça dos seus decretos...
- Tem razão, senhor pároco, tem razão, murmurou a velha muito contrita. Eu às vezes nem sei o que digo... São coisas da doença.
- Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e tratar de ver tudo cor-de-rosa. É o sentimento que Deus mais aprecia. Eu compreendo que é duro estar para aqui enterrada...
- É o que diz o Sr. abade Ferrão, acudiu Amélia voltando da janela, a madrinha estranha... Assim arrancada aos hábitos de tantos anos...
Notando então a citação repetida das palavras do abade Ferrão, Amaro perguntou se ele costumava vir vê-las.
- Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amélia. Vem quase todos os dias.
- É um santo! exclamou a Gertrudes.
- Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente dum entusiasmo tão vivo. Pessoa de muita virtude...
- De muita virtude, suspirou a velha. Mas... - calou-se, não ousando decerto exprimir as suas reservas de devota. E exclamou numa súplica: Ai, o senhor pároco é que devia vir por aqui, ajudar-me a levar esta cruz da doença...
- Hei-de vir, minha senhora, hei-de vir. É bom para a distrair, para lhe dar as noticias... E a propósito, tive ontem carta do nosso cônego.
Rebuscou na algibeira, leu alguns períodos da carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passara doente com um furúnculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes passeatas a ver recolher as redes. A S. Joaneira, boa, mas falando sempre na filha...
- Pobre mamã... choramigou Amélia.
Mas a velha não se interessava com as novidades, gemendo a sua ronqueira. Foi Amélia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo Sr, padre Natário, pelo Sr, padre Silvério...
Ia escurecendo já: a Gertrudes fora preparar o candeeiro. Amaro enfim ergueu-se:
- Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja certa que hei-de aparecer de vez em quando. E nada de afligir... Agasalho, boa dieta, e a misericórdia de Deus não a há-de abandonar...
- Não nos falte, senhor pároco, não nos falte!...
Amélia estendera-lhe a mão, para se despedir ali no quarto; mas Amaro gracejando:
- Se não lhe causa incômodo, menina Amélia, sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu perco-me neste casarão.
Saíram ambos. E apenas no salão, a que as três largas vidraças davam ainda uma claridade:
- A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.
- Que mereço eu mais? respondeu ela baixando os olhos.
- Desavergonhada, eu lhas cantarei!... Minha Ameliazinha, se soubesses o que me tem custado...
E falando, ia abraçá-la pelo pescoço.
Mas ela recuou, toda perturbada.
- Que é isso? fez Amaro assombrado.
- O quê?
- Esse modo! Tu não me queres dar um beijo, Amélia? Tu estás doida?
Ela ergueu as mãos para ele, numa suplicação ansiosa, falando toda trêmula:
- Não, senhor pároco, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que pecamos... Quero morrer na graça de Deus... Que nunca mais se fale em semelhante coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se... Agora o que quero é o sossego da minha alma...
- Tu estás tola? Quem te meteu isso na cabeça? Ouve cá...
Foi para ela outra vez, com os abraços abertos.
- Não me toque, pelo amor de Deus, - e vivamente recuou até à porta.
Ele olhou-a um momento, numa cólera muda.
- Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero preveni- Ia que o João Eduardo voltou, que passa aqui todos os dias, e que é bom não se pôr de janela.
- Que me importa a mim o João Eduardo e os outros e tudo o que passou?...
Ele acudiu, transbordando dum sarcasmo amargo:
- Está claro, agora o grande homem é o Sr. abade Ferrão!
- Devo-lhe muito, é o que sei...
A Gertrudes neste momento entrava com o candeeiro aceso. E Amaro, sem se despedir de Amélia, abalou, de guarda-chuva em riste, rilhando os dentes de raiva.
•••
Mas a longa caminhada até à cidade calmou-o. Aquilo na rapariga
por fim era apenas um acesso de virtude e de escrúpulos! Vira-se ali
só naquele casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos
palavrões do moralista Ferrão, longe dele, e tinha-lhe vindo
aquela reação de devota com os seus terrores do outro mundo
e apetites de inocência... Chalaça! Se ele começasse a
ir à Ricoça, numa semana reganhava todo o seu domínio...
Ah, conhecia-a bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava logo
rendida.
Passou porém uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro dia à uma hora marchou para Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas.
A velha ficou toda contente ao vê-lo. É que lhe dava saúde a presença do senhor pároco! E se não fosse a distância, havia de lhe pedir esmola de vir todas as manhãs. Até depois daquela visitinha rezava com mais fervor...
Amaro sorria, distraído, com os olhos cravados na porta.
- E a menina Amélia? perguntou por fim.
- Saiu... Isso agora todas as manhãs é a passeata, disse a velha com azedume. Vai à residência, é toda do abade...
- Ah! fez Amaro com um sorriso lívido. Nova devoção, hem?... é pessoa de muitos méritos, o abade.
- Ai, não presta, não presta! exclamou D. Josefa. Não me percebe. Tem idéias muito esquisitas. Não dá virtude...
- Homem de livros... disse Amaro.
Mas a velha erguera-se sobre o cotovelo, e baixando a voz, com o magro carão aceso em ódio:
- E aqui para nós, a Amélia tem-se portado muito mal! Nunca lho hei-de perdoar... Confessou-se ao abade... É uma indelicadeza, sendo a confessada do senhor pároco, não tendo recebido de vossa senhoria senão favores... É uma ingrata, é uma traiçoeira!...
Amaro fizera-se pálido.
- Que me diz a senhora?
- A verdade! Que ela não o nega. Até se orgulha! É uma perdida, è uma perdida! Depois do favor que lhe estamos a fazer...
Amaro disfarçou a indignação que o revolvia. Riu até. Era necessário não exagerar. Não havia ingratidão. Era uma questão de fé. Se a rapariga pensava que o abade a podia dirigir melhor, tinha razão em se abrir com ele... O que todos queriam é que ela salvasse a sua alma... Que fosse pela direção de fulano ou sicrano, isso não importava... E nas mãos do abade estava bem.
E chegando vivamente a cadeira para o leito da velha:
- Então agora, todas as manhãs vai à residência?
- Quase todas... Que ela não há-de tardar, vai depois de almoço, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me causado isto um desgosto!...
Amaro deu um passeiozinho nervoso pelo quarto, e estendendo a mão à velha:
- Pois minha senhora, eu não me posso demorar, que vim de fugida... Até um dia cedo.
E sem escutar a velha, que lhe pedia com ansiedade que ficasse para jantar - desceu os degraus como uma pedra que rola, meteu furioso pelo caminho da residência, ainda com o seu ramo na mão.
Esperava encontrar Amélia na estrada; e não tardou em a avistar quase ao pé da casa do ferreiro, agachada ao pé do valado, apanhando sentimentalmente florinhas silvestres.
- Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto dela.
Ela ergueu-se, com um gritinho.
- Que fazes tu aqui? repetiu.
Àquele tu, e àquela voz colérica, ela pôs rapidamente um dedo na boca, assustada. O senhor abade estava dentro da casa com o ferreiro...
- Ouve lá, disse Amaro com os olhos chamejantes, agarrando-lhe o braço, tu confessaste-te ao abade?...
- Para que quer saber? Confessei... Não é vergonha nenhuma...
- Mas confessaste tudo, tudo? perguntou ele com os dentes cerrados de raiva.
Ela perturbou-se, e tratando-o ainda por tu:
- Foste tu que me disseste muitas vezes... Que era o maior pecado neste mundo, esconder alguma coisa ao confessor!
- Bêbeda! rugiu Amaro.
Os seus olhos devoravam-na. E, através da névoa de cólera que lhe enchia o cérebro e lhe fazia latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita, com umas redondezas em todo o corpo que ardia por abraçar, com uns lábios vermelhos avivados pelo largo ar do campo que ele queria morder até ao sangue.
- Ouve, disse-lhe cedendo a uma invasão brutal do desejo. Ouve... Acabou-se, não me importa. Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas hás-de ser a mesma para mim!
- Não, não! disse ela com força, desprendendo-se, pronta a fugir para casa do ferreiro.
- Tu mas pagarás, maldita! rosnou o padre por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho com passadas de desesperado.
E não abrandou o passo até à cidade, levado dum impulso de indignação que, sob aquela doce paz dum meio de Outono, lhe sugeria planos de vinganças ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mão. Mas aí, na solidão do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotência. Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade dizer que ela estava grávida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com o abade Ferrão? Era absurdo: um velho de quase setenta anos, de uma fealdade de caricatura, com todo um passado de virtude santa!... Mas perdê-la, não tornar a ter no braços aquele corpo de neve, não ouvir mais aquelas ternuras balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor que o Céu... Isso não!
E era possível que ela, em seis ou sete semanas, tivesse assim esquecido tudo? Naquelas longas noites na Ricoça, só na cama, não lhe viria uma recordação das manhãs no quarto do tio Esguelhas?... Decerto: ele sabia-o da experiência de tantas confessadas que lhe tinham revelado aflitas a tentação muda e teimosa que não deixa a carne que uma vez pecou...
Não: devia persegui-la, e por todos os modos soprar-lhe aquele desejo que agora ardia nele mais alto e mais ruidoso.
Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis páginas, absurda, cheia de implorações apaixonadas, de argúcias místicas, de pontos de exclamação e de ameaças de suicídio...
Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionísia. A resposta veio só á noite, por um rapazito da quinta. Com que sofreguidão rasgou o sobrescrito! Eram apenas estas palavras: "Peço-lhe que me deixe em paz com os meus pecados".
Não desistiu: ao outro dia lá estava na Ricoça a visitar a velha. Amélia achava-se no quarto de D. Josefa, quando ele apareceu. Fez-se muito pálida; mas os seus olhos não deixaram a costura - durante a meia hora que ele ali ficou, ora num silêncio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona, ora respondendo distraidamente à tagarelice da velha, muito faladora essa manhã.
E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia entrar fechava-se rapidamente no quarto: só vinha se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe ''que estava ali o senhor pároco que a queria ver''. Ia, então, estendia-lhe a mão, que ele achava sempre a escaldar - e tomando a sua eterna costura, junto da janela, ia picando o posponto com uma taciturnidade que desesperava o padre.
Tinha-lhe escrito outra carta. Ela não respondera.
Então jurava não voltar à Ricoça, desprezá-la, - mas depois de ter passado a noite, rolando-se pela cama sem poder dormir, com a mesma visão da nudez dela cravada intoleravelmente no cérebro, lá partia de manhã para a Ricoça, corando quando o apontador das obras na estrada, que o via passar todos os dias, lhe tirava o seu boné de oleado.
Numa tarde que chuviscava, ao entrar no casarão, dera com o abade Ferrão que à porta abria o seu guarda-chuva.
- Olá, por aqui, senhor abade? disse ele.
O abade respondeu naturalmente:
- Em vossa senhoria é que não há que estranhar, que vem por aqui todos os dias...
Amaro não se conteve; e tremendo de cólera:
- E que lhe importa ao senhor abade se eu venho ou não? A casa é sua?
Aquela brutalidade tão injustificável ofendeu o abade:
- Pois era melhor para todos que não viesse...
- E por quê, senhor abade? e por quê? gritou Amaro, perdido.
Então, o bom homem estremeceu. Cometera, ali, a culpa mais grave do sacerdote católico: o que sabia de Amaro, dos seus amores, era em segredo de confissão; e era trair o mistério do sacramento, mostrar que desaprovava aquela insistência no pecado. Tirou muito baixo o seu chapéu e disse humildemente:
- Tem vossa senhoria razão. Peço perdão do que disse sem refletir. Muito boas-tardes, senhor pároco.
- Muito boas-tardes, senhor abade.
Amaro não entrou na Ricoça. Voltou para a cidade sob a chuva que batia forte agora. E, apenas em casa, escreveu uma longa carta a Amélia, em que lhe contava a cena com o abade, acabrunhando-o de acusações - sobretudo de lhe trair indiretamente o segredo da confissão. Como das outras, desta carta não veio resposta da Ricoça.
Amaro então começou a acreditar que tanta resistência não podia vir só do arrependimento e do terror do inferno... "Ali há homem", pensou. E devorado dum ciúme negro principiou a rondar de noite a Ricoça: mas não viu nada; o casarão permanecia adormecido e apagado. Uma ocasião, porém, ao aproximar-se do muro do pomar, sentiu adiante no caminho que desce dos Poiais uma voz cantarolar sentimentalmente a valsa dos Dois mundos, e um ponto brilhante de charuto aceso adiantar-se na escuridão. Assustado, refugiou-se num casebre que desmantelava em ruínas do outro lado da estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando, viu então um vulto que parecia embrulhado num xalemanta claro, parado, contemplando as janelas da Ricoça. Um furor de ciúme apossou-se dele, e ia saltar e atacar o homem - quando o viu seguir tranqüilamente ao comprido da estrada, de charuto alto, trauteando:
Ouves ao longe retumbar na serra
O som do bronze que nos causa horror...
Pela voz, pelo xalemanta, pelo andar tinha reconhecido João Eduardo.
Mas teve a certeza que se um homem falava de noite a Amélia ou entrava
na quinta - não era decerto o escrevente. Todavia, receoso de ser descoberto,
não tornou a rondar o casarão.
Era com efeito João Eduardo, que sempre que passava pela Ricoça,
de dia ou de noite, parava um momento a olhar melancolicamente as paredes
que ela habitava. Porque apesar de tantas desilusões, Amélia
permanecera para o pobre rapaz a ela, a bem-amada, a coisa mais preciosa da
terra. Nem em Ourém, nem em Alcobaça, nem pelas estalagens onde
errara, nem em Lisboa, onde chegara como vem à praia uma quilha de
barco naufragado, deixara um momento de a ter presente na alma e de se enternecer
com as saudades dela. Durante esses dias tão amargos de Lisboa, os
piores da sua vida, em que fora fiel de feitos dum cartório obscuro,
perdido naquela cidade que lhe parecia ter a vastidão duma Roma ou
duma Babilônia e em que sentia o duro egoísmo das multidões
azafamadas, esforçava- se mesmo por desenvolver mais esse amor que
lhe dava como a doçura duma companhia. Achava-se menos isolado, tendo
sempre no espírito aquela imagem com quem travava diálogos imaginados,
nos seus infindáveis passeios ao longo do Cais do Sodré, acusando-a
das tristezas que o envelheciam.
E esta paixão, sendo para ele como a indefinida justificação das suas misérias, tomava-o aos seus próprios olhos interessante. Era "um mártir de amor"; isto consolava-o, como o consolara nas suas primeiras desesperações considerar-se "uma vítima das perseguições religiosas". Não era um pobre-diabo banal a quem o acaso, a preguiça, a falta de amigos, a sorte e os remendos do casaco mantêm fatalmente nas privações da dependência: era um homem de grande coração, a quem uma catástrofe em parte amorosa e em parte política, um drama doméstico e social, forçara assim, depois de lutas heróicas, a viajar de um a outro cartório com um saco de lustrina cheio de autos. O destino tornara-o igual a tantos heróis que lera nas novelas sentimentais... E o seu paletó coçado, os seus jantares a quatro vinténs, os dias em que não tinha dinheiro para tabaco, tudo atribuía ao amor fatal de Amélia e à perseguição duma classe poderosa, dando assim, por um instinto muito humano, uma origem grandiosa às suas misérias triviais... Quando via passar os que ele chamava felizes - indivíduos batendo tipóia, rapazes que encontrava com uma linda mulher pelo braço, gente bem atabafada que se dirigia aos teatros, sentia-se menos desgraçado pensando que também ele possuía um grande luxo interior que era aquele amor infeliz. E quando enfim por um acaso obteve a certeza dum emprego no Brasil, o dinheiro da passagem, idealizava a sua aventura banal de emigrante, repetindo-se durante todo o dia que ia passar os mares, exilado do seu país por uma tirania combinada de padres e autoridades e por ter amado uma mulher!
Quem lhe diria então, ao emalar o seu fato no baú de lata, que daí a semanas estaria outra vez a meia légua desses padres e dessas autoridades, contemplando de olho temo a janela de Amélia! Fora aquele singular Morgadinho de Poiais - que não era nem Morgadinho nem de Poiais, e apenas um ricaço excêntrico de ao pé de Alcobaça que comprara aquela velha propriedade dos fidalgos de Poiais, e que, com a posse da terra, recebia do povo da freguesia a honra do título: fora esse santo cavalheiro que o livrara dos enjôos no paquete e dos acasos da emigração. Encontrara-o casualmente no cartório onde ele ainda trabalhava nas vésperas da viagem. O Morgadinho cliente do velho Nunes, conhecia-lhe a história, a façanha do Comunicado, o escândalo no Largo da Sé; e já de há muito concebera por ele uma simpatia ardente.
O Morgadinho tinha com efeito por padres um ódio maníaco, a ponto de não ler no jornal a notícia dum crime, sem decidir (ainda mesmo quando o culpado estava já sentenciado) que "no fundo devia de haver na história um sotaina". Dizia-se que este rancor provinha dos desgostos que lhe dera sua primeira mulher, devota célebre de Alcobaça. Apenas viu João Eduardo em Lisboa e soube da viagem próxima, teve imediatamente a idéia de o trazer para Leiria, instalá-lo nos Poiais, e entregar-lhe a educação das primeiras letras dos seus dois pequenos como um insulto estridente feito a todo o clero diocesano. Imaginava de resto João Eduardo um ímpio; e isto convinha ao seu plano filosófico de educar os rapazitos num "ateísmo desbragado". João Eduardo aceitou, com as lágrimas nos olhos: era um salário magnífico que lhe vinha, uma posição, uma família, uma reabilitação estrondosa...
- Oh, senhor Morgado, nunca hei-de esquecer o que faz por mim!...
- É para meu gosto próprio!... É para arreliar a canalha! E partimos amanhã!
Em Chão de Maçãs, apenas desceu do vagão, exclamou logo para o chefe da estação que não conhecia João Eduardo, nem a sua história:
- Cá o trago, cá o trago um triunfo! Vem para quebrar a cara a toda a padraria... E se houver custas a pagar, sou eu que as pago!
O chefe da estação não estranhou - porque o Morgadinho passava no distrito por maluco.
Foi aí, nos Poiais, logo ao outro dia da sua chegada, que João Eduardo soube que Amélia e D. Josefa estavam na Ricoça. Soube-o pelo bom abade Ferrão, o único sacerdote a quem o Morgado falava, e que recebia em casa, não como padre, mas como cavalheiro.
- Eu como cavalheiro estimo-o, Sr. Ferrão, costumava ele dizer, mas como padre abomino-o!
E o bom Ferrão sorria, sabendo que, sob aquela ferocidade de ímpio obtuso, havia um santo coração, um pai de pobres na freguesia...
O Morgado era também grande amador de alfarrábios, questionador incansável; às vezes os dois tinham pelejas tremendas sobre história, botânica, sistemas de caça... Quando o abade, no fogo da controvérsia, punha de alto alguma opinião contrária:
- O senhor apresenta-me isso como padre ou como cavalheiro? exclamava, empinando-se, o Morgado.
- Como cavalheiro, Sr. Morgado.
- Então aceito a objeção. É sensata. Mas se fosse como padre, quebrava-lhe os ossos.
Às vezes pensando irritar o abade, mostrava-lhe João Eduardo, batendo de alto no ombro do rapaz, numa carícia de amador, como a um cavalo favorito:
- Veja-me isto! Já ia dando cabo de mim. E ainda há-de matar dois ou três... E se o prenderem eu hei-de livrá-lo da forca!
- Isso não é difícil, Sr. Morgado, dizia o abade tomando tranqüilamente a sua pitada. Que já não há forca em Portugal...
Então era uma indignação do Morgado. Não havia forcas? E por que não? Porque tínhamos um governo livre e um rei constitucional! Que se se seguisse a vontade dos padres, havia uma forca em cada praça e uma fogueira em cada esquina!
- Diga-me uma coisa, Sr. Ferrão, o senhor vem defender aqui em minha casa a Inquisição?
- Oh, Sr. Morgado, eu nem sequer falei da Inquisição...
- Não falou por medo! Porque sabe perfeitamente que lhe enterrava uma faca no estômago!
E tudo isto aos gritos e aos pulos pela sala, fazendo um vendaval com as abas prodigiosas do seu robe-de-chambre amarelo.
- No fundo um anjo, dizia o abade a João Eduardo. Capaz de dar a camisa mesmo a um padre, se o soubesse em necessidade... E você aqui está bem, João Eduardo... É não lhe reparar nas manias...
Tinha tomado afeição a João Eduardo, o abade Ferrão: e sabendo por Amélia a famosa legenda do Comunicado quisera, segundo a sua expressão querida, "folhear o homem aqui e além". Conversava com ele tardes inteiras na rua de loureiros da quinta, na residência onde João Eduardo se ia fornecer de Iivros; e sob o "exterminador de padres", como dizia o Morgado, encontrara um pobre moço sensível, com uma religião sentimental, ambições de paz doméstica, e prezando muito o trabalho. Então viera-lhe uma idéia que, sobretudo por lhe ter acudido num dia que saia das suas devoções ao Santíssimo, lhe parecia descida de cima, da vontade do Senhor: era o casá-lo com Amélia. Não seria difícil levar aquele coração fraco e terno a perdoar o erro dela; e a pobre rapariga, depois de tantos transes, extinta aquela paixão que lhe entrara na alma como um sopro do demônio, levando-lhe a vontade, a paz e o pudor de empurrão para o abismo, encontraria na companhia de João Eduardo todo um resto de vida calmo, e contente, um canto suave de interior, refúgio doce e purificação do passado. Não falou nem a um, nem a outro, nesta idéia que o enternecia. Não era o momento agora, que ela trazia nas entranhas o filho do outro. Mas ia preparando com amor aquele resultado, - sobretudo quando estava com Amélia, contando-lhe as suas conversas com João Eduardo, algum dito muito sensato que ele tivera, os bons cuidados de preceptor que estava desenvolvendo na educação dos Morgaditos.
- É um bom rapaz, dizia. Homem de família... Destes a quem uma mulher pode realmente confiar a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse ao mundo, se tivesse uma filha, dava-lha...
Amélia não respondia, corando.
Já não podia objetar àqueles elogios persuasivos a antiga, a grande objeção - o Comunicado, a impiedade! O abade Ferrão destruíra-lha um dia, com uma palavra:
- Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz não escreveu contra os sacerdotes, escreveu contra os fariseus!
E para atenuar este julgamento severo, o menos caridoso que tivera havia muitos anos, acrescentou:
- Enfim, foi uma falta grave... Mas está muito arrependido. Pagou-o com lágrimas, e com fome.
E isto enternecia Amélia.
•••