Ella então olhou-me, fez-se extremamente pallida:
--Mas, senhora condessa, que quer isto dizer?
--Dá-m'o. Dá-m'o, Betty. Pensas que me quero matar?
Ella calou-se.
--Oh, doida! disse eu, rindo. Se me quizesse matar não t'o pedia. Mas sou
feliz... Passaram-se outras cousas, vês tu? Não t'as digo, mas sou feliz.
Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com elle.
E com a voz mais baixa, como envergonhada:
--É ás dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar.
--Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lh'o dou. O frasco
d'opio está aqui n'esta gaveta do lavatorio. Não lhe faça isto mal, meu
Deus!
--Não, não, minha Betty! Ah! está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não
me faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a
conversar commigo. São cinco horas. Para as dez pouco falta. Não custa
esperar. Está então n'aquella gaveta o frasco... Bom. Sabes, Betty? sou
feliz. Não quero dormir. Conta-me uma historia.
A pobre creatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos
fitos na gaveta do lavatorio. Betty fallava, fallava! Eu ouvia as suas
palavras sem comprehender, como se ouve um murmurio d'agua.
X
A tarde descia no emtanto, e eu sentia uma inquietação, uma angustia
crescente.
Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes
d'aquella noite. Não o exigirá de certo. Nada seria mais terrivel do que
ter de redigir e colorir o meu crime. Perdôe-me a confusão afflicta das
minhas palavras e os arabescos tremulos da minha lettra.
Eram dez horas da noite: fui á casa n.^o... Rytmel estava lá. Achei-o
pallido, e instinctivamente estremeci. Conversámos. Enquanto elle fallava,
eu olhava-o ávidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que
devia fazer a carteira onde estavam as cartas. E revolvia com a mão humida
o bolso do meu vestido: tinha n'elle o frasco d'opio. Era um frasco de
crystal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmel
n'essa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam explicar-me a
sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham realmente da verdade do
seu coração? Era uma rhetorica artificial á flor dos labios, enganadora,
como um panno de theatro? Não o sabia: só as cartas d'ella m'o poderiam
revelar, e elle tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a
carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha
infelicidade insondavel, ou a immensa pacificação do meu futuro! Podia
porventura hesitar?--Elle fallava no emtanto. Eu tremia toda. Olhava
fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé d'uma garrafa de
crystal da Bohemia. O reposteiro da alcova achava-se corrido; dentro
estava escuro.
Betty tinha ido commigo, e ficára n'um quarto distante, que dava para uns
terrenos vagos...
--E se houvesse um desastre! pensei eu de repente. Não ha pessoas que
succumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no
tumulo?
Mas eu via sempre a saliencia da carteira, que me tentava como uma cousa
resplandecente e viva. Podia approximar-me d'elle de repente,
enfraquecel-o ao calor das minhas palavras, ir levemente, astuciosamente,
arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu
_coupé_, e fugir. Mas se elle resistisse? Se perdesse a consciencia da sua
dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse
violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas?
Não podia ser. Era necessario que dormisse tranquillamente! Se as cartas
fossem innocentes, simples, inexpressivas como eu ajoelharia depois, ao pé
do seu corpo adormecido, como esperaria com uma ancia feliz que elle
acordasse! que aurora sublime acharia elle nos meus olhos quando os seus
se abrissem! Mas se houvesse nas cartas a culpa, a traição, o abandono?!
Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com agua. Bebia aos pequenos
golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de
achar um momento meu, bastante para deitar duas gotas de opio no copo.
Tive um expediente trivial, estupido.
--Rytmel, disse eu, como n'um theatro, como nas comedias de Scribe, com
uma voz imbecilmente risonha,--vá dizer a Betty, que póde ir, se quizer. A
pobre creatura dormiu pouco, está doente.
Elle saiu; ergui-me. Mas ao approximar-me da mesa, defronte do copo,
fiquei hirta, suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a
mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessario, eu tinha-o
ouvido fallar, voltava, sentia-lhe os passos, ia entrar... Tirei o frasco,
e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvasiei-o no
copo.
Elle entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula em suor frio,
e, não sei por quê, sentindo uma infinita ternura, disse-lhe sorrindo, e
quasi chorando:
--Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim.
Elle sorriu. E--meu Deus!--approximou-se, creio que sorriu, e tomou o
copo! E com o copo na mão:
--E sabe, disse elle, que ninguem o crê mais do que eu!... Se não fosse o
teu amor como poderia eu viver?
E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da
agua, parecia-me vagamente esverdeada. Via as scintilações do crystal
facetado.
Finalmente bebeu!
... Desde esse momento fiquei n'um terror. Se elle morresse? Meu Deus, por
que? Não se dá opio ás creanças, aos doentes? não é elle a clemente
pacificação das dôres? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua
amiga, tão terna com elle, para me absolver d'aquella aventura imprudente!
Ainda que seja culpado, amal-o-hei! pensava eu. Pobre d'elle! Não lhe
bastava ter de dormir assim forçadamente n'um somno pesado e cruel?
Amal-o-hia, culpado. Trahida, amal-o-hia ainda!
Elle entretanto estava calado, no sophá, com a cabeça encostada. De
repente pareceu-me vel-o empallidecer, ter uma ancia, sorrir. Não sei o
que houve então. Não me lembra se fallámos, se elle adormeceu brandamente,
se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro.
Achei-me ajoelhada ao pé d'elle. Devia ser meia noite. Estava immovel,
deitado no sophá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o livido,
não me attrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto em uma
distracção idiota. Cobri-o com uma manta.
--Vae accordar dizia eu machinalmente.
Compuz-lhe os cabellos ligeiramente desmanchados. De repente a idéa da
morte appareceu-me nitida, e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de
todas as cousas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura...
--Rytmel! Rytmel!
E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei,
olhei-o ávidamente, precipitei-me sobre o corpo d'elle, envolvi-o,
gritando suffocada:
--Rytmel! Rytmel!
Ergui-o: a hallucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pendeu-lhe
inanimada. Desapertei-lhe a gravata. Amparei-o nos braços, e n'esse
momento senti o volume, a saliencia que na sua casaca fazia a carteira.
Veiu-me a idéa das cartas. Tudo tinha sido pelo desejo de as lêr.
Tirei-lhe a casaca; era difficil; os seus musculos estavam hirtos. Junto
com a carteira havia outros papeis e um masso de notas de banco. Ao
tomal-os, os papeis e as cartas espalharam-se no chão. Apanhei-as,
apertei-as na gravata branca e metti tudo no bolso.
Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos
em Rytmel. Pela primeira vez via contracção mortal do seu rosto. Chamei-o,
fallei-lhe! Estava frenetica! Porque não queria elle acordar? Empurrei-o,
irritei-me com elle. Porque estava assim, porque me fazia chorar? Tinha
vontade de lhe bater, de lhe fazer mal.
--Acorda! acorda!
Insensivel! Insensivel! Morto! Ouvi passar na rua um carro. Havia pois
alguem vivo!
De repente, não sei por que, lembrei-me que tinha esvasiado o frasco!
Deviam ser só duas gotas! Estava morto!
Gritei:
--Betty! Betty!
Ella appareceu, arremessei-me aos seus braços. Chorei. Voltei para junto
d'elle. Ajoelhei. Chamei-o. Quiz dar-lhe um beijo: toquei-lhe com os
labios na testa. Estava gelada. Dei um grito. Tive horror d'elle. Tive
medo do seu rosto livido, das suas mãos geladas!
--Betty, Betty, fujamos!
Consciencia, vontade, raciocinio, pudor, perdi tudo aos pedaços. Tinha
medo, sómente medo, um medo trivial, vil!
--Fujamos! Fujamos!
Não sei como saí.
Fóra da porta vi ao longe, no começo da rua, uma luz caminhar! caminhava,
crescia! Havia alguem, vestido de vermelho, que a trazia! Parecia-me ser
sangue! A luz crescia. Esperei, a tremer. Aquillo caminhava para mim.
Approximava-se! Eu estava encostada á porta, na sombra, fria de pedra. A
luz chegou: vi-a. Era um padre, era outro homem com uma opa vermelha e uma
lanterna. Iam levar a alguem a extrema uncção...
Amparei-me no braço de Betty, e principiei a andar,
sem saber para onde, como louca.[*]
[*] Seguiam-se as linhas em que se contava o encontro que teve commigo, as
quaes linhas elimino por se referirem a successos que eu mesmo narrei e
que v. sr. redactor, já conhece.--A. M. C.
CONCLUEM AS REVELAÇÕES DE A. M. C.
I
Convidada a expor o que sabia, a condessa disse de viva voz, com humildade
e com firmeza, a causa e o modo como involuntariamente matara Rytmel.
--Eis as cartas e as notas que elle trazia comsigo--concluiu ella,
collocando sobre a mesa um masso de papeis atados n'uma gravata branca. As
minhas derradeiras disposições, accrescentou, estão feitas. Dêem-me o
destino que quizerem. Inflijam-me o castigo que mereço.
Estavamos todos calados. F... adiantou-se para o centro da sala e ergueu a
voz:
--Castigar é usurpar um poder providencial. A justiça humana que se
apodera dos criminosos não tem por fim vingar a sociedade, mas sim
protegel-a do contagio e da infecção da culpa. Todo o crime é uma
enfermidade. A acção dos tribunaes sobre os criminosos, posto que nem
sempre cesse de facto, cessa effectivamente de direito no momento em que
termina a cura. Sequestrar aquelles em que o mal deixou de ser uma
suspeita physiologica, e por conseguinte uma verdade scientifica, é fazer
á sociedade uma extorsão, que, por ser muitas vezes irremediavel não deixa
de ser monstruosa e horrivel. Todo aquelle que não é pernicioso, é
necessario, é indispensavel ao conjuncto dos sentimentos, ao destino das
idéas, á arithmetica dos factos no problema da humanidade. A natureza do
acto que estamos ponderando, as rasões que o determinaram, as
circumstancias que o revestiram, a intenção que lhe deu origem, tudo isto
nos convence de que a liberdade d'esta senhora não póde constituir um
perigo. Encarcerada e entregue á acção dos tribunaes, seria uma
causa-crime, interessante, escandalosa, prejudicial. Restituida a si
mesma, será um exemplo, uma lição.
E approximando-se da porta, correu a chave que a fechava por dentro,
abriu-a de par em par, e dirigindo-se á condessa, com voz respeitosa e
grave, accrescentou:
--Vá, minha senhora: tem a mais plena liberdade. Poderia disputar-lh'a a
justiça official, não póde empecer-lh'a a rectidão dos homens de bem a
quem foi entregue a decisão da sua causa. O seu futuro, violentamente
assignalado pela desgraça, não pertence aos criminosos, pertence aos
desgraçados. Leve-lhes a melancolica lição d'estes desenganos, e permitta
Deus que perante a suprema justiça, possam os beneficios obscuros e
ignorados que houver de espalhar em volta de si, compensar os erros que
atravessaram o seu passado! Os vestigios da sua culpa ficarão sepultados
n'esta casa.
Nós abrimos-lhe passagem para que sahisse. A condessa, n'uma pallidez
cadaverica, vacillava; faltavam-lhe as forças; não podia sustentar-se em
pé. O mascarado alto deu-lhe o braço. Ella fez um movimento como se
tentasse fallar; o seu rosto contrahiu-se n'uma profunda expressão de dôr;
hesitou um momento; por fim comprimiu os beiços no lenço e sahiu abafando
uma palavra ou estrangulando um soluço.
Momentos depois ouvimos a carruagem affastando-se com aquillo que fôra no
mundo a condessa de W...
Haviamos accordado no modo de occultar o cadaver, o que se tornava tanto
mais facil quanto era inteiramente ignorada a assistencia do capitão em
Lisboa.
Vieramos para o pavimento inferior do predio, a uma casa terrea, a que se
descia por quatro degraus para baixo do solo. Era ao fim da tarde.
Estavamos alumiados com a luz das velas, porque não entrava na loja a luz
do dia. Tinha-se cavado uma profunda cova. Sentia-se o cheiro humido e
acre da terra revolvida. Dois dos individuos a que tenho chamado os
mascarados, seguravam duas serpentinas em que ardiam dez velas côr de
rosa. Do travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e
prateadas as teias de aranhas rasgadas pelo peso do pó.
Desenrolámos o fardo que tinhamos collocado junto da cova, e contemplámos
pela derradeira vez a figura do morto estendido sobre a sua manta de
viagem.
Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o collete e vestido a casaca
azul de botões de ouro, em cuja carcella se via ainda pendida uma rosa
murcha. A cabeça d'elle, na luz a que estava sujeita, era de uma expressão
ideal. Os olhos, de que se não viam as pupillas, apagados e immoveis,
davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigas estatuas.
Nos labios entre-abertos parecia pairar um leve sorriso sob o bigode
arqueado. Os anneis do cabello, despenteados pelo contacto da manta em que
viera envolto o cadaver, destacavam na lividez da fronte como um vello de
ouro n'uma superficie de marfim.
Havia um silencio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relogios que
tinhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face
do morto. Eu fitando-o com os olhos marejados de lagrimas, pensava
melancolicamente...
Pobre Rytmel! Se n'este momento solemne, em que o teu corpo espera á beira
da cova pelo seu descanço eterno, te faltam na terra as pompas funebres
devidas á tua jerarchia; se te não seguiu até aqui um prestito de
uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua
derradeira morada as orações de um padre e a luz de um cirio, cubra-te ao
menos a benção da amisade! Descendente de lords, moço, intelligente e
bello, quando todas as flores que perfumam a vida desabrochavam debaixo
dos teus passos, apaga-se de subito no firmamento a estrella que presidiu
ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente mais despresivel no fundo de
uma sepultura sem lapide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurar a
ultima expressão da tua felicidade, á luz das mesmas velas que alumiaram o
teu derradeiro beijo! Os outros desgraçados que morrem têem ao menos na
terra um logar assignalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ir
os que os amaram chorar por elles. É mais cruel o teu destino: tu morres e
desappareces! Não ensombrarão a tua campa as arvores tristes dos
cemiterios. As aves que passarem nos ceus não baixarão a beber da agua que
as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoleu. A lua, terna amiga dos
mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos cyprestes, a brancura
da tua campa. O orvalho das madrugadas não chorará nas flores do teu
jazigo. As abelhas não murmurarão em torno das rosas plantadas sobre o teu
corpo. As borboletas brancas não adejarão no fluido de ti mesmo que
podesse romper do seio da terra para a luz da manhã no aroma dos
jasmineiros e dos goivos. Tua mãe, pensativa e pallida, procurará debalde
a grade em que se ampare ao dobrar os joelhos e levantar para o céu esse
olhar de interrogação em que a lembrança dos filhos mortos se envolve como
na tunica luminosa de uma ressurreição.
O _mascarado alto_, curvou-se sobre o cadaver de Captain Rytmel e ergueu-o
vigorosamente pelos hombros. Nós amparámos o corpo e descemol-o ao fundo
da cova. O mascarado, ajoelhando-se depois no chão, cobriu com um lenço o
rosto do morto e disse, como se estivesse fallando a uma creança
adormecida:
--Descança em paz! Eu irei dizer a tua mãe o logar em que repousa o teu
corpo, e voltarei a ajoelhar-me sobre esta sepultura depois de ter
recebido no meu proprio seio as lagrimas que ella derramar por ti. Adeus,
Rytmel! adeus!
E impelliu em seguida para dentro da cova uma grande porção da terra
amontoada aos pés. A terra desabou de chofre sobre o cadaver, levantando
um som baço e molle.
II
Examinámos depois os papeis de Rytmel afim de coordenarmos os seus
negocios. Verificou-se a existencia de mil e trezentas libras em notas do
banco de Inglaterra. Entre as cartas não havia uma só letra de miss Shorn.
Nenhum de nós tinha o espirito bastante socegado para poder reentrar
immediatamente nos assumptos triviaes da existencia. Resolvemos permanecer
ali até que decorressem alguns dias sobre a catastrophe de que tinhamos
sido testemunhas.
O predio em que estavamos foi comprado em nome de lady... a mãe de Rytmel,
e n'elle se guardaram todos os objectos que lhe tinham pertencido. Um
cofre de ferro, damasquinado d'ouro e destinado a receber as cinzas do
morto, foi collocado no logar em que elle se achava sepultado.
O _mascarado alto_ dispunha-se a partir para Londres quando tivemos
noticia da publicação das cartas do doutor n'este periodico. A condessa
declarou que se entregaria á policia, se não levantassemos na imprensa as
suspeitas formuladas na carta de _Z..._ ácerca da probidade do medico, e
se F... se não desdissesse categoricamente das injurias que nos dirigira
na carta imtempestivamente mandada ao dr... por intermedio de Friedlann. A
condessa auctorisava-nos a tornarmos publica a sua historia, dizendo que
tinha deixado para sempre de pertencer ao mundo, para o qual a biographia
que ella lhe legava seria talvez um exemplo proficuo.
Foi então, sr. redactor, que determinámos referir-lhe todos os pormenores
d'este doloroso acontecimento, occultando ou substituindo os nomes das
pessoas que tiveram parte n'elle, e deixando á sociedade a faculdade de as
descobrir e o direito de condemnal-as ou absolvel-as.
A condessa resolveu em seguida entrar em um convento, que ella mesma
escolheu depois de miudas indagações. O _mascarado alto_ acompanhou-a e eu
segui-o a uma villa da provincia do Minho, onde existe ainda, regido com
todo o rigor ascetico do estatuto, um velho convento de carmelitas
descalças, habitado por cinco ou seis religiosas. Estas mulheres
decrepitas vivem como d'antes na pobreza de que fizeram voto, mantendo a
oração, a penitencia e o jejum com a mesma exaltação mystica, com o mesmo
fervor catholico dos primeiros annos das suas nupcias com o divino esposo.
Trazem os pés nus e o corpo constantemente envolto na aspereza estreme do
burel. Não usam roupas de linho nem algodão. Em nenhum dia do anno se
permittem carne ás suas refeições. Comem juntas no antigo refeitorio,
havendo sempre uma que revesadamente se prostra á entrada da sala, segundo
o primitivo uso da ordem, para que as outras lhe passem por cima ao entrar
e ao sair da mesa. Não têem patrimonio de nenhuma especie, nem outro algum
rendimento que não seja o producto dos trabalhos que fazem. Furtadas a
toda a convivencia externa, vivem na clausura mais estreita e na miseria
extrema. Ninguem no mundo tornou a ver as moradoras d'aquella casa desde
que entraram n'ella. As que morrem são enterradas pelas outras no claustro
e cobertas com uma pedra lisa, sem nome e sem data, Não ha distico nem
outro signal que difference as que deixam de existir. A morte para todas
ellas começa no momento em que transpõem o limiar da portaria. Dentro tudo
é sepulchro. A morte é simplesmente a mudança de cubiculo.
Tal foi a casa escolhida pela condessa para recolhimento e asylo do resto
de seus dias.
O exterior do edificio era mysterioso e lugubre. Cingia-o em toda a sua
amplitude uma alta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as
casas habitadas pelas freiras ao exame de fóra. Era um predio emparedado.
A muralha, que media a altura de quatro andares, era da côr da estamenha,
sombria e triste, manchada de grandes nodoas esverdeadas e negras como o
capuz de um ermita, uma especie de lençol em que se enrolasse para o
enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta facha se recolhia,
formando o pateo por onde se entrava para o convento, cuja porta, mordida
pelos annos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo
atravez dos grossos varões de uma grade de ferro. Pelas juntas
desarticuladas das grandes pedras que lageavam o pateo, rompiam moitas de
ortigas, com a rudeza de cabellos hirsutos, sahidos pelos rasgões de um
barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde seguro por
uma corda de esparto pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os
andrajos das pobres da visinhança, que vinham laval-os ao pé do poço, e
n'esse recinto os deixavam a enxugar juntamente com as enxergas
dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do
pateo pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma sineta
interior. A este signal via-se n'uma abertura da alvenaria rodar no muro
um cylindro de madeira, que por um movimento vagaroso mettia para dentro a
sua superficie concava e mostrava para fóra o seu interior convexo.
Parecia quando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a
palpebra, deixando vêr uma orbita sem olho. Este apparelho chamma-se a
roda. A condessa pronunciou ahi uma palavra, a que respondeu de dentro uma
especie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da porta negra ao
fundo do pateo.
Quando a porta se abriu e o primo da condessa lhe apertou pela ultima vez
a mão, as lagrimas, que até ahi conseguira difficultosamente reprimir,
saltaram-lhe dos olhos.
--Acha horrivel, não é verdade? perguntou-lhe ella com um sorriso em que
transparecia a extranha luz da resignação das martyres antigas. Que queria
que eu fizesse, meu querido amigo? Matar-me? Prostituir-me á convivencia
da sociedade? Não posso. Falta-me o valor para sacrificar ao meu
infortunio a salvação da minha alma, e escuso de dizer-lhe que me falta
igualmente a intrepidez precisa para sacrificar ao socego ordinario da
vida o pudôr do meu coração. Bem vê pois que acceitei a solução mais
suave. Coitado! como lhe doe a tristeza do meu destino! Deixe estar:
prometto-lhe morrer breve, se me não succeder aquella desgraça receada por
Santa Thereza de Jesus: que o prazer de me sentir morrer me não prolongue
mais a vida!
Entregando-lhe em seguida o capuz e o manto de casimira em que fôra
envolvida:
--Adeus, meu primo,--disse-lhe ella deixando-se beijar na testa,--adeus!
Peça a Deus que me perdôe, e aos vivos que me esqueçam.
Aos primeiros passos que ella deu para lá da porta, esta fechou-se do
mesmo modo porque havia sido aberta, sem que ninguem mais fosse visto,
tendo mostrado um buraco lobrego, negro e profundo como a guela de um
abysmo, e a amante de Rytmel entrou no claustro. Os ferrolhos interiores
rangeram successivamente nos anneis, expedindo uns sons intercortados,
similhantes a soluços arrancados de uma garganta de ferro.
O _mascarado alto_ passou parte d'essa noite na villa, esperando a
mala-posta que partia á uma hora. Ao subirmos juntos á carruagem ouvimos
uma especie de rebate em dois sinos de uma igreja. Perguntámos o que era.
O deputado da localidade, que nos acompanhava no _coupé_, respondeu,
atirando fóra um phosphoro com que accendera um charuto:
--São as carmelitas que pedem o soccorro da caridade, porque não teem que
comer.
O cocheiro fez estalar o açoite, e a berlinda partiu a galope, abafando o
vozear entristecido das sinetas com o estrepito que ia fazendo pelas
calçadas estreitas e tortuosas da povoação.
Pouco mais tenho que contar-lhe.
O conde de W... recebeu em Bruxellas uma carta de sua mulher contendo
estas linhas:
«Destituo-me voluntariamente da minha posição na sociedade. De todos os
direitos que por ventura podesse ter, um só peço que não seja contestado:
o direito de acabar. Supplico-lhe que me permitta desapparecer, e que
acredite na sinceridade da minha gratidão eterna.»
O doutor está, como elle mesmo disse, nos hospitaes de sangue do exercito
francez.
Frederico Friedlann partiu repentinamente, no mesmo dia em que lançou no
correio a carta de F..., para ir encorporar-se na segunda _landwer_ do seu
paiz.
F... e Carlos Fradique Mendes achavam-se ha dias em uma quinta dos
suburbios de Lisboa escrevendo, debaixo das arvores e de bruços na relva,
um livro que estão fazendo de collaboração, e no qual--promettem-n'o elles
á natureza mãe que viceja a seus olhos--levarão a pontapés ao exterminio
todos os trambolhos a que as escolas litterarias dominantes em Portugal
têem querido subjeitar as inviolaveis liberdades do espirito.
Se me é licito por ultimo fallar-lhe de mim, saberá, sr. redactor, que
estou recolhido em uma pequena casa na provincia. Se ainda se lembra de
Therezinha, não extranhará que eu accrescente que estou casado ha dias.
Precisava d'isto o meu coração: da paz de um lar tranquillo. Presencear as
profundas commoções romanescas da vida é como ter assistido a um grande
naufragio: sente-se então a necessidade consoladora das cousas pacificas;
então mais que nunca se reconhece que o ser humano só póde ter a
felicidade no dever cumprido.--_A. M. C._
A ULTIMA CARTA
Sr. redactor do _Diario de Noticias_.--Podendo causar reparo que em toda a
narrativa que ha dois mezes se publica no folhetim do seu periodico não
haja um só nome que não seja supposto, nem um só logar que não seja
hypothetico, fica v. auctorisado por via d'estas lettras a datar o
desfecho da alludida historia--de Lisboa, aos vinte e sete dias do mez de
setembro de 1870, e a subscrevel-a com os nomes dos dois signatarios
d'esta carta.
Temos a honra de ser, etc.
Eça de Queiroz.
Ramalho Ortigão.
INDICE
Prefacio da 2.^a edição
Exposição do Doutor ***
Intervenção de Z
De F... ao medico
Nota
Segunda carta de Z...
Narrativa do mascarado alto
As revelações de A. M. C.
A confissão d'ella
Concluem as revelações de A. M. C.
A ultima carta
* * * * *
Fonte: www.dominiopublico.gov.br