— Que bem que vou passar agora! — pensava.
Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, deitou-lhe
os braços ao pescoço, e com a cabeça no ombro dele:
— Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão
boa rapariga a Mariana!
Mas nessa noite a febre voltou. Julião, de manhã achou-a pior.
— Crescimentos... — disse descontente.
Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou toda
surpreendida de ver Luísa doente; e debruçando-se sobre ela,
disse-lhe logo ao ouvido:
— Tenho que te contar!
Apenas Jorge e Julião saíram, desabafou, sentada aos pés
da cama, — com uma voz ora baixa pela gravidade da confidência,
ora aguda pelo ímpeto da indignação:
Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandara a Tuí,
o grande ladrão, tinha escrito à Gertrudes, à criada,
que não estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude
mudara de povoação; que ele não queria saber mais desse
negócio e que até o achava esquisito; que oferecia o seu préstimo
em Tuí, — tudo isto numa boa letra de escrevente público,
num português horrível, — e do dinheiro nem palavra!
— Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu, se não fosse pela
vergonha, ia direita à polícia... Ah! Os galegos pra mim acabaram!
Por isso o Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca
lançou a sorte!... — Porque se já não acreditava
na honestidade dos galegos, não perdera a fé no poder das bruxas.
Que ela não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe
onde estaria agora a mulher! Ai, era de endoidecer!... Que te parece, hein?
Luísa encolheu os ombros, muito abafada na roupa, as faces escarlates,
cerravam-se-lhe os olhos numa sonolência pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe
vagamente um “suadouro”, suspirando; e, como Luísa não
lhe podia dar consolações, saiu para ir à Encarnação
desabafar com a Silveira.
Nessa madrugada Luísa piorou. A febre recrudescera. Jorge inquieto,
vestiu-se à pressa, às nove horas da manhã, foi buscar
Julião. Descia a escada rapidamente, abotoando ainda o paletó,
quando o carteiro subia, tossindo o seu catarro.
— Cartas? — perguntou Jorge.
— Uma pra senhora — disse o homem. — Há de ser pra
senhora...
Jorge olhou o envelope; tinha o nome de Luísa, vinha da França.
— De quem diabo é isto? — pensou. Meteu-a no bolso do paletó,
e saiu.
Daí a meia hora voltava com Julião, num trem.
Luísa dormitava, amodorrada.
— E preciso cautela... Vamos a ver... — murmurou Julião
coçando devagar a cabeça, enquanto do outro lado do leito Jorge
o olhava ansiosamente.
Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo.
A Mariana, abafada num casabeque, servia com os dedos vermelhos, inchados
de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a névoa do
ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando na alma.
A que se podia atribuir semelhante febre, — dizia, muito desconsolado.
Tão extraordinário! Havia seis dias, ora melhor, ora pior...
— Estas febres vêm por tudo — replicou Julião, partindo
tranqüilamente uma torrada. — Às vezes por uma corrente
de ar, às vezes por um desgosto. Tenho eu, por exemplo, um caso curioso:
um sujeito, um Alves, que esteve para falir, e que viveu, coitado, durante
dois meses em torturas. Há duas semanas, por um golpe de fortuna, —
a velhaca às vezes tem destes caprichos — arranjou todos os seus
negócios, viu-se livre. Pois senhor, desde então tem uma febre
assim, tortuosa, complexa, com sintomas disparatados... O que é? É
que a excitação nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma
revolução no sangue. Pode muito bem dar à casca. Faz
então a falência geral, a grande, aquela em que o credor é
implacável, saca à vista, e... per omnia saecula!
Ergueu-se, e acendendo o cigarro:
— Em todo o caso um repouso absoluto. É necessário ter-lhe
o espírito em algodão em rama. Nada de palestra, nada de frases,
e se tiver sede, limonada. Até logo!
E saiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia
ao Posto Médico.
Jorge voltou à alcova: Luísa ainda dormitava. Mariana, sentada
ao pé numa cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não
tirava de Luísa os seus grandes olhos vagamente espantados.
— Tem estado muito inquieta — murmurou.
Jorge apalpou a mão de Luísa que ardia, conchegou-lhe a roupa.
Beijou-a devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janela, defronte da
alcova. — E passeando no escritório, voltavam-lhe as palavras
de Julião: são febres que vêm por um desgosto! Pensava
na história do negociante, recordava aquele estado de abatimento e
de fraqueza de Luísa que o preocupava tanto, ultimamente, tão
inexplicável! Ora, tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião
estivera tão animada! Nem a morte da outra lhe fizera abalo! —
De resto acreditava pouco nas febres de desgosto! Julião tinha uma
medicina literária. Pensou mesmo que seria mais prudente chamar o velho
Doutor Caminha...
Ao meter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma
carta: era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luísa.
Tornou a examiná-la com curiosidade; o sobrescrito era banal, como
os que há nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia
a letra; era de homem, vinha da França... Atravessou-o um desejo rápido
de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar
um cigarro.
Voltou à alcova. Luísa permanecia na sua modorra: a manga do
chambre arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua penugem
loura; a face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente,
no adormecimento das pálpebras finas; um anel do cabelo caíra-lhe
sobre a testa, e pareceu a Jorge adorável e tocante com aquela cor,
a expressão da febre. Pensou, sem saber por que, que outros a deveriam
achar linda, desejá-la, dizer-lho, se pudessem... Para que lhe escreviam
de França? Quem?
Voltou ao escritório, mas aquela carta sobre a mesa irritava-o: quis
ler um livro, atirou-o logo impaciente; e pôs-se a passear, torcendo
muito nervoso o forro das algibeiras.
Agarrou então a carta, quis ver, através do papel delgado do
envelope; os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar
um ângulo do sobrescrito. Ah! Não era delicado aquilo!... Mas
a curiosidade, que governava o seu cérebro, sugeriu-lhe toda a sorte
de raciocínios, com uma tentação persuasiva: —
Ela estava doente, e podia ter alguma coisa urgente: se fosse uma herança?
Depois ela não tinha segredos, e então em França! Os
seus escrúpulos eram pueris! Dir-lhe-ia que a abrira por engano. E
se a carta contivesse o segredo daquele desgosto, do desgosto das teorias
de Julião! ... Devia abri-la então para a curar melhor!
Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. Num relance ávido
devorou-a. Mas não compreendeu bem; as letras embrulhavam-se; chegou-se
à janela, releu devagar:
Minha querida Luísa.
Seria longo explicar-te, como só anteontem em Nice — de onde
cheguei esta madrugada a Paris —- recebi a tua carta que pelos carimbos
vejo que percorreu toda a Europa atrás de mim. Como já lá
vão dois meses e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com
a mulher, e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres,
manda um telegrama e tem-lo aí em dois dias. Vejo pela tua carta que
não acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negócios.
És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como
tu dizes, todas as ilusões sobre o amor, porque foi realmente quando
saí de Lisboa que percebi quanto te amava, e não há dias,
acredita, em que me não lembre do Paraíso. Que boas manhãs!
Passaste por lá por acaso alguma outra vez? Lembras-te do nosso lanche?
Não tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero ver-te,
porque sem ti Lisboa é para mim um desterro.
Um longo beijo do
Teu do C.
Basílio.
Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o para
cima da mesa, disse alto:
— Sim, senhor! Bonito!
Encheu o cachimbo de tabaco maquinalmente, com os olhos vagos, os beiços
a tremer: deu alguns passos incertos pelo escritório: — de repente
arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janela, bateu com
as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa,
rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo
as mangas, batendo com os pés, louco!
Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ela à alcova de Luísa.
Mas a lembrança das palavras de Julião imobilizou-o: que esteja
sossegada, nada de frases, nenhuma excitação! Fechou a carta
numa gaveta, meteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os
olhos raiados de sangue, sentia idéias insensatas alumiarem-lhe bruscamente
o cérebro, como relâmpagos numa tormenta — matá-la,
sair de casa, abandoná-la, fazer saltar os miolos...
Mariana bateu ligeiramente à porta, disse-lhe que a senhora o chamava.
Uma onda de sangue subiu-lhe à cabeça; fitava Mariana, estúpido,
batendo as pálpebras:
— Já vou — disse com a voz rouca.
Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto manchado,
envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabelo; e ao
entrar na alcova, ao vê-la, com os seus grandes olhos dilatados onde
a febre reluzia, teve de se agarrar à barra do leito, porque sentiu,
em redor, as paredes oscilarem como lonas ao vento.
Mas sorriu-lhe:
— Como estás?
— Mal — murmurou ela debilmente.
Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado.
Ele veio, sentou-se sem a olhar.
— Que tens? — disse ela chegando o rosto para ele. — Não
te aflijas. — E tomou a mão que ele pousara à beira do
leito.
Jorge, com um repelão seco, sacudiu a mão dela, ergueu-se bruscamente
com os dentes cerrados; sentia uma cólera brutal; ia-se, com medo de
si, de um crime, quando ouviu a voz de Luísa, arrastando-se, numa lamentação:
— Por quê, Jorge? Que tens?...
Voltou-se; viu-a meio erguida com os olhos abertos para ele, uma angústia
no rosto; e duas lágrimas caíam-lhe, silenciosamente.
Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços.
— Que é isto? — exclamou a voz de Julião à
porta da alcova.
Jorge, muito pálido, ergueu-se devagar.
Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços
diante dele:
— Tu estás doido? Pois tu sabes que ela está num estado
daqueles, e vais-te pôr a fazer-lhe cenas de lágrimas?
— Não me pude conter...
— Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lha
por outro? Estás doido!
Estava realmente indignado. Interessava-se por Luísa como doente. Desejava
muito curá-la; e sentia uma satisfação em exercer o domínio
de pessoa necessária naquela casa, onde as suas visitas tinham tido
sempre uma atitude dependente; mesmo agora, ao sair, não se esquecia
de oferecer negligentemente um charuto a Jorge.
Jorge foi heróico, durante toda essa tarde. Não podia estar
muito tempo na alcova de Luísa, a desesperação trazia-o
num movimento contraditório; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe,
conchegava-lhe a roupa com as mãos trêmulas; e como ela dormitava,
ficava imóvel a olhá-la feição por feição,
com uma curiosidade dolorosa e imoral, como para lhe surpreender no rosto
vestígios de beijos alheios, esperando ouvir-lhe nalgum sonho da febre
murmurar um nome ou uma data; e amava-a mais desde que a supunha infiel, mas
de um outro amor, carnal e perverso. Depois ia-se fechar no escritório,
e movia-se ali entre as paredes estreitas, como um animal numa jaula. Releu
a carta infinitas vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o
sem cessar: Como tinha sido? Onde era o Paraíso? Havia uma cama? Que
vestido levava ela? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?
Foi reler todas as cartas que ela lhe escrevera para o Alentejo, procurando
descobrir nas palavras sintomas de frieza, a data da traição!
Tinha-lhe ódio então, voltavam-lhe ao cérebro idéias
homicidas — esganá-la, dar-lhe clorofórmio, fazer-lhe
beber láudano! E depois imóvel, encostado à janela, ficava
esquecido num cismar espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos
passeios que dera com ela, palavras que ela dissera...
Às vezes pensava — seria a carta uma mistificação?
Algum inimigo dele podia tê-la escrito, remetido para França.
Ou talvez Basílio tivesse outra Luísa em Lisboa, e por engano
ao sobrescritar o envelope tivesse escrito o nome da prima; e a alegria momentânea
que lhe davam aquelas fantasias fazia-lhe parecer a realidade mais cruel.
Mas como fora? Como fora? Se pudesse saber a verdade! Tinha a certeza que
sossegaria, então! Arrancaria decerto do seu peito aquele amor como
um parasita imundo; apenas ela melhorasse, levá-la-ia a um convento,
e ele iria morrer longe, na África, ou algures... Mas quem saberia?...
JULIANA!
Era ela que sabia! Decerto! E todas as condescendências dela por Juliana,
os móveis, o quarto, as roupas, compreendeu tudo! Era a pagar a cumplicidade!
Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E estava na vala, morta,
sem poder falar, a maldita!
Sebastião, como costumava, veio à noitinha. Não havia
ainda luzes, e, apenas ele entrou, Jorge chamou-o ao escritório, calado,
acendeu uma vela, tirou a carta da gaveta.
— Lê isto.
Sebastião ficara assombrado ao ver o rosto de Jorge. Olhava a carta
fechada, e tremia. Apenas viu a assinatura, uma palidez de agonia cobriu-lhe
o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde ele
se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre a mesa,
sem uma palavra.
Jorge disse então:
— Sebastião, isto pra mim é a morte. Sebastião,
tu sabes alguma coisa. Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade!
Sebastião abriu devagar os braços e respondeu:
— Que te hei de eu dizer? Não sei nada!
Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lhas, e procurando o seu olhar ansiosamente:
— Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãe,
por tantos anos que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!...
— Não sei nada. Que hei de eu saber?
— Mentes?
Sebastião disse apenas:
— Podem-te ouvir, homem!
Houve um silêncio! Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas
pelo escritório, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se
diante de Sebastião, quase suplicante:
— Mas dize-me ao menos o que fazia ela! Saía? Vinha aqui alguém?
Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz:
— Vinha o primo às vezes, ao princípio. Quando D. Felicidade
esteve doente, ela ia vê-la... O primo depois partiu... Não sei
mais nada.
Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstrata.
— Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que
lhe fiz eu para isto? Eu, que a adorava, àquela mulher!
Rompeu a chorar.
Sebastião ficara de pé junto à mesa, estúpido,
aniquilado.
— Foi talvez uma brincadeira, apenas... — murmurou.
— E o que diz a carta? — gritou Jorge, voltando-se numa cólera,
sacudindo o papel. — Este Paraíso! As boas manhãs lá
passadas! É uma infame!...
— Está doente, Jorge — disse apenas Sebastião.
Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião,
imóvel, fatigava a vista contra a chama da luz. Jorge então
fechou a carta na gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão
lúgubre e resignado:
— Queres vir tomar chá, Sebastião?
E não tornaram mais a falar na carta.
Nessa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto estava impassível,
de uma serenidade lívida.
Foi daí por diante o enfermeiro de Luísa.
A doença, depois de uma marcha incerta durante três dias, definiu-se:
eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranqüilo.
Jorge passava os seus dias ao pé dela. D. Felicidade vinha ordinariamente
pelas manhãs; sentava-se aos pés da cama, e ficava calada, com
uma face envelhecida; aquela esperança na mulher de Tuí tão
subitamente destruída, abalara-a como um velho edifício a que
se tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruína; e só se
animava quando o Conselheiro aparecia pelas três horas a saber da “nossa
formosa enferma”. Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um
tom profundo, conservando o chapéu na mão, sem querer entrar
na alcova, por pudor:
— A saúde é um bem que só apreciamos quando nos
foge!
Ou:
— A doença serve para aquilatarmos os amigos.
E terminava sempre:
— Meu Jorge, as rosas da saúde bem cedo reflorirão nas
faces de sua virtuosa esposa!...
De noite Jorge dormia vestido, num enxergão sobre o chão; mas
apenas cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava ler:
começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas;
esquecia o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar:
era sempre a mesma idéia — como tinha sido? Conseguira reconstruir
aproximadamente, com lógica, certos fatos; via bem Basílio chegando,
vindo visitá-la, desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a
ver aqui e além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a compreender
que o dinheiro era para Juliana. A criatura tivera alguma exigência:
tinha-os surpreendido? Possuía cartas?... E encontrava, naquela reconstrução
dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se arremessava
sofregamente. Então começava a recordar os últimos meses
desde a sua volta do Alentejo, e como ela se mostrara amante, e que ardor
punha nas suas carícias... Para que o enganara então?
Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as
gavetas dela, esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa-branca,
as caixas de colares, de rendas: viu bem o cofre de sândalo: estava
vazio, nem o pó de uma flor seca! As vezes punha-se a fitar os móveis
no quarto, na sala, a sondá-los como se quisesse descobrir neles os
vestígios do adultério. Ter-se-iam sentado ali? Ele teria ajoelhado
aos pés dela, acolá sobre o tapete? Sobretudo o divã
tão largo, tão cômodo, desesperava-o; tomou-lhe ódio.
Veio a detestar mesmo a casa, como se os tetos que os tinham coberto, os soalhos
que os tinham sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o
torturava sobretudo eram aquelas palavras — o Paraíso, as boas
manhãs...
Luísa então já dormia tranqüilamente, Ao fim de
uma semana os crescimentos desapareceram. Mas estava muito fraca: no dia em
que pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessário
vesti-la, trazê-la amparada para a chaise longue: e não dispensava
Jorge, queria-o ali, ao pé, com exigências de criança!
Parecia receber a vida dos seus olhos, a saúde do contacto das suas
mãos. Fazia-lhe ler o jornal pela manhã, e vir escrever para
ao pé dela. Ele obedecia, e mesmo aquelas instâncias eram para
a sua dor como carícias consoladoras. E porque o amava decerto!
Sentia então, maquinalmente, abertas de felicidade. Surpreendia-se
dizer-lhe ternuras, a rir com ela, esquecido, como dantes! E, estendida na
chaise longue, Luísa, contente, percorria antigos volumes da Ilustração
francesa, que lhe mandara o Conselheiro, — “onde”, segundo
ele lhe dissera, “podia, ao mesmo tempo que se divertia com os desenhos,
adquirir noções úteis sobre importantes acontecimentos
históricos”; ou, com a cabeça reclinada, saboreava a felicidade
de melhorar, de estar livre das tiranias da outra, das amarguras do passado.
Uma das suas alegrias era ver entrar a Mariana com o seu jantarzinho disposto
num guardanapo sobre o tabuleiro; tinha apetite, saboreava muito o cálice
de vinho do Porto, que Julião recomendara; quando Jorge não
estava, fazia longas conversações com Mariana,, palrando baixo,
consolada, e lambendo colherinhas de gelatina.
Às vezes, calada, com os olhos no teto, fazia planos. Dizia-os depois
a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; à
volta começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras
da sala; porque queria ocupar-se muito da casa, recolhida; ele não
voltaria ao Alentejo, não sairia de Lisboa, não é verdade?
E a sua vida seria daí por diante de uma doçura contínua
e fácil.
Mas Luísa às vezes achava-o “macambúzio”.
Que tinha? Ele explicava pela fadiga, pelas noites maldormidas... Se adoecesse,
ao menos, dizia ela, que fosse quando ela estivesse forte para o tratar, para
o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé
de si, passava-lhe a mão pelos cabelos, com o olhar quebrado, porque
com as forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento
amoroso. Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado!
Luísa, só consigo, tinha outras resoluções. Não
tornaria a ver Leopoldina, e freqüentaria as igrejas. Saía da
doença com uma vaga sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos
pesadelos de que lhe ficara uma indistinta idéia aterrada, vira-se
às vezes num lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços,
do meio de chamas escarlates: for-mas negras giravam com espetos em brasa,
um rugido da agonia subia para a mudez do céu: e já lhe tocavam
o peito línguas de fogueiras, quando alguma coisa de doce e de inefável
de repente a refrescava; eram as asas de um anjo luminoso e sereno, que a
tomava nos braços; e ela sentia-se elevar, apoiando a cabeça
contra o seio divino, que a penetrava de uma felicidade sobrenatural; via
as estrelas de peno, ouvia frêmitos de asas. Aquela sensação
deixara-lhe como uma recordação saudosa do céu. E aspirava
a ela, nas debilidades da convalescença, esperando ganhá-la
pela pontualidade à missa, e pela repetição de coroas
à Virgem.
Enfim uma manhã veio à sala, e abriu pela primeira vez o piano;
Jorge, à janela, olhava para a rua — quando ela o chamou, e sorrindo:
— Estou a detestar, há tempos, aquele divã — disse.
— Podia-se tirar, não te parece?
Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder
logo; disse, enfim, com esforço:
— Sim, parece...
— Estou com vontade de o tirar — disse ela saindo da sala, arrastando
tranqüilamente a longa cauda do seu roupão.
Jorge não pôde destacar os olhos do divã. Veio mesmo sentar-se
nele: passava a mão sobre o estofo às listras; e sentia um prazer
doloroso em verificar que fora ali!
Principiara a vir-lhe agora uma espécie de resignação
sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras, falar com felicidade de futuros
tranqüilos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ela tinha-se
arrependido decerto, amava-o: para que havia de criar a sangue-frio uma infelicidade
perpétua? Mas quando a via com os seus movimentos lânguidos estender-se
na chaise longue, ou ao despir-se mostrar a brancura do seu colo — e
pensava que aqueles braços tinham enlaçado outro homem, aquela
boca gemido de amor numa cama alheia — vinha-lhe uma onda de cólera
bruta, precisava sair para a não esganar!
Para explicar os seus maus humores, os seus silêncios, começou
a queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes dela, então, as interrogações
mudas do seu olhar inquieto faziam-no mais infeliz — por se sentir amado,
agora que se sabia traído!
Um domingo enfim Julião deu licença a Luísa para se deitar
mais tarde, e fazer à noite as honras da casa. Foi uma alegria para
todos vê-la na sala, ainda um pouco pálida e fraca, — mas,
como disse o Conselheiro, restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!
Julião que veio às nove horas achou-a como nova. E abrindo os
braços, no meio da sala:
— E que me dizem à novidade? — exclamou. — A peça
do Ernesto teve um triunfo!...
Assim tinham lido nos jornais. O Diário de Notícias dizia mesmo
que o “autor chamado ao proscênio no meio do mais vivo entusiasmo,
recebera uma formosa coroa de louros”. Luísa declarou logo que
queria ir ver!
— Mais tarde, D. Luísa, mais tarde — acudiu com prudência
o Conselheiro. — Por ora é conveniente evitar toda a comoção
forte. As lágrimas que não deixaria de derramar, conheço
o seu bom coração, podiam produzir uma recaída. Não
é verdade, amigo Julião?
— Decerto, Conselheiro, decerto. Eu também quero ir. Quero convencer-me
por meus olhos...
Mas o ruído de uma carruagem, lançada a trote largo, que parou
à porta, interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.
— Aposto que é o autor! — exclamou ele.
E quase imediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se
na sala: ergueram-se com ruído, abraçaram-no: mil parabéns!
Mil parabéns. E a voz do Conselheiro, dominando as outras:
— Bem-vindo o festejado autor! Bem-vindo!
Ernesto sufocava de júbilo. Tinha um sorriso imobilizado; as asas do
nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto,
enfunado de orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como num agradecimento
instintivo a multidões aplaudidoras.
— Aqui estou! Aqui estou — disse.
Sentou-se ofegante; e, com um modo amável de Deus-bom-rapaz, declarou
que os últimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento
para vir ver a prima Luísa. Tinha tido naquela noite um instante de
seu, mas devia voltar às dez horas para o teatro: até nem mandara
a tipóia embora...
Contou então largamente o triunfo. Ao princípio tivera “grandes
cólicas”. Todos as tinham, os mais acostumados, os mais ilustres!
Mas apenas o Campos disse o monólogo do primeiro ato — e como
o disse! haviam de ver, uma coisa sublime! — os aplausos romperam. Tinha
agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo autor, salvas de palmas...
Ele viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, a Jesuína
por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delírio! O Savedra do Século
tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakespeare! O Bastos da Verdade
tinha afirmado: és o nosso Scribe! Houve uma ceia. E tinham-lhe dado
uma coroa.
— E serve-lhe? — acudiu Julião.
— Perfeitamente; um bocadinho larga...
O Conselheiro disse com autoridade:
— Os grandes autores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são
sempre representados com as suas respectivas coroas.
— E o que eu lhe aconselho, Sr. Ledesma, — acudiu Julião,
erguendo-se e batendo-lhe no ombro — é que se faça retratar
de coroa!...
Riram.
E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado:
— O Sr. Zuzarte não dispensa o seu epigramazinho...
— E a prova da glória, meu amigo. Nos triunfos dos generais vitoriosos,
em Roma, havia um bobo no préstito!
— Eu não sei! — disse Luísa muito risonha. —
É uma honra para a família!...
Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a coroa,
como se tivesse direito a usá-la...
E Ernestinho voltando-se logo para ele:
— Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei à esposa...
— Como Cristo...
— Como Cristo — confirmou o Ernestinho, com satisfação.
D. Felicidade aprovou logo:
— Fez muito bem! Até é mais moral!
— O Jorge é que queria que eu desse cabo dela — disse Ernestinho,
rindo tolamente. — Não se lembra, naquela noite...
— Sim, sim... — fez Jorge, rindo também, nervosamente.
— O nosso Jorge — disse com solenidade o Conselheiro — não
podia conservar idéias tão extremas. E decerto a reflexão,
a experiência da vida...
— Mudei, Conselheiro, mudei — interrompeu Jorge.
E entrou bruscamente no escritório.
Sebastião, inquieto, foi devagar ter com ele. Estava às escuras.
— Aqueles idiotas não se calarão? Não se irão?
— disse ele abafadamente, agarrando o braço de Sebastião.
— Sossega!
— Oh Sebastião! Sebastião! — E a sua voz tremia,
com lágrimas.
Mas Luísa, da sala, gritou:
— Que conspiração é essa aí dentro às
escuras?
Sebastião apareceu logo, dizendo:
— Nada, nada. Estávamos lá dentro... — E acrescentou
baixo: —
O Jorge está fatigado. Está adoentado, coitado!
Notaram, quando ele voltou — que tinha com efeito o ar esquisito.
— Não, realmente não me sinto bem, estou incomodado!
— E a débil D. Luísa precisa o repouso do seu leito —
disse o Conselheiro erguendo-se.
Ernestinho que não se podia demorar, ofereceu logo ao Conselheiro e
a Julião — “a sua carruagem, que era uma caleche, se iam
para a Baixa...”
— Que honra — exclamou Julião olhando Acácio —
irmos na tipóia do Grande Homem!
E enquanto D. Felicidade se agasalhava, os três desceram.
No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços:
— Ora aqui vou eu entre os representantes dos dois grandes movimentos
de Portugal desde 1820. A Literatura — e cumprimentou Ernestinho —
e o Constitucionalismo! — e curvou-se para o Conselheiro.
Os dois riram, lisonjeados.
— E o amigo Zuzarte?
— Eu? — E baixando a voz: — Até há dias um
revolucionário terrível. Mas agora...
— O quê?
— Um amigo da Ordem! — gritou com júbilo.
E desceram, contentes de si e do seu país, para se meterem na tipóia
do Grande Homem!
No outro dia Jorge foi ao ministério, onde não tinha aparecido
nos últimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença
dos desconhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que todo o mundo
sabia; nos olhares mais naturais via uma intenção maligna, e
nos apertos de mão mais sinceros uma irônica pressão de
pêsames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a
terem conduzido ao rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame
do Paraíso. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada.
E logo no corredor ao entrar ouviu Luísa cantarolando, como outrora,
a Mandolinata!
Estava-se a vestir.
— Como estás tu? — perguntou, pondo a um canto a sua bengala.
— Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...
Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
— E tu? — perguntou-lhe ela.
—Pra aqui ando — disse tão desconsoladamente que Luísa
pousou o pente, e com os cabelos soltos veio pôr-lhe as mãos
nos ombros, muito carinhosa:
— Que tens tu? Tu tens alguma coisa. Estranho-te tanto há dias!
Não és o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de
réu... Que é? Dize.
E os seus olhos procuravam os dele, que se desviavam perturbados.
Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo à “sua mulherzinha”.
— Dize. Que tens?
Ele olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:
— Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, podes ouvir... Luísa!
Vivo num inferno há duas semanas. Não posso mais... Tu estás
boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!
E estendeu-lhe a carta de Basílio.
— O que é? — fez ela muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe
na mão.
Abriu-a devagar, viu a letra de Basílio, num relance adivinhou-a. Fixou
Jorge um momento de um modo desvairado, estendeu os braços sem poder
falar, levou as mãos à cabeça com um gesto ansioso como
se sentisse ferida, e oscilando, com um grito rouco, caiu sobre os joelhos,
ficou estirada no tapete.
Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Ele quis que Joana
corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito,
olhando-a, enquanto Mariana toda trêmula desatacava os espartilhos da
senhora.
Sebastião veio logo. Felizmente havia éter, fizeram-lho respirar;
apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ela:
— Luísa, ouve, fala! Não, não tem dúvida.
Mas fala. Dize, que tens? Ao ouvir a voz dele desmaiou outra vez. Movimentos
convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.
Luísa parecia adormecida agora, imóvel, branca como cera, as
mãos pousadas sobre a colcha; e duas lágrimas corriam-lhe devagar
pelas faces.
Um trem parou. Julião apareceu esbaforido.
— Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito
mal! — disse Jorge.
Fizeram-lhe respirar mais éter; despertou outra vez. Julião
falou-lhe, tomando-lhe o pulso.
— Não, não, ninguém! — murmurou ela retirando
a mão. Repetiu com impaciência: — Não, vão-se,
não quero... — As suas lágrimas redobravam. E como eles
saíam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na
chamar: — Jorge!
Ele ajoelhou-se ao pé da cama, e falando-lhe junto do rosto:
— Que tens tu? Não se fala mais em tal. Acabou-se. Não
estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa.
Não quero saber, não.
E como ela ia falar, ele pousou-lhe a mão na boca:
— Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não
sofras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos amanhã para o campo,
e esquece-se tudo. Foi uma coisa que passou...
Ela disse apenas com a voz sumida:
— Oh! Jorge! Jorge!
— Bem sei... Mas agora vai ser feliz outra vez... Dize, que sentes?
— Aqui — disse ela, e levava as mãos à cabeça.
— Dói-me!
Ele ergueu-se para chamar Julião, mas ela reteve-o, atraiu-o; e devorando-o
com os olhos onde a febre se acendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os
lábios. Ele deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão.
— Oh, minha pobre cabeça! — gritou ela.
As fontes latejavam-lhe, e uma cor ardente, seca, esbraseava-lhe o rosto.
Como era habituada a enxaquecas, Julião tranqüilizou-os; recomendou
um sossego imóvel e sinapismos de mostarda aos pés, —
até que ele voltasse.
Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de pressentimentos, de sustos,
suspirando às vezes.
Eram então quatro horas; caía uma chuva miudinha, enevoada;
a alcova tinha urna luz lúgubre.
— Não há de ser nada... — dizia Sebastião.
Luísa agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça,
torturada pela dor crescente, cheia de sede.
Mariana acabava de arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada daquela
casa, onde só vira desgosto e doença; mas só o pousar
sutil dos seus passos fazia sofrer Luísa, como se fossem marteladas
sobre o crânio.
Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto dela inquietou-o.
Acendeu um fósforo, aproximou-lho do rosto; e aquela luz fez-lhe dar
um grito com se um ferro frio lhe trespassasse a cabeça.
Os olhos dilatados tinham um reluzir metálico. Conservava-se muito
quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dores penetrantes que a
dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma expressão
de aflição serena e muda.
Julião fez logo pôr três travesseiros, para lhe conservar
a cabeça alta. Fora caía o crepúsculo úmido. Andavam
em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relógio da parede
para afastar o tique-taque monótono. Ela começava agora a murmurar
sons cansados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos;
ou imóvel gemia de um modo contínuo e angustioso. Tinham-lhe
envolvido as pernas num longo sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove
horas começou a delirar; a língua tornara-se-lhe branca e dura,
como de gesso sujo.
Julião fez logo aplicar na cabeça compressas de água
fria. Mas o delírio exacerbava-se.
Ora tinha um murmúrio espesso, um vago rosnar modorrento — onde
os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Basílio voltavam incessantemente;
depois debatia-se, esgarçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se,
os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupila se sumia.
Sossegava mais; dava risadinhas de uma doçura idiota; tinha gestos
lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como num gozo
tépido: depois começava a respirar ansiosamente, vinham-lhe
expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros
e nos colchões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então
a apertar a cabeça freneticamente: pedia que lha abrissem, que a tinha
cheia de pedras, que tivessem piedade dela! — e fios de lágrimas
corriam-lhe pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora
os pés nus ao vapor de água a ferver, carregada de mostarda;
um cheiro acre adstringia o ar do quarto. Jorge falava-lhe com toda a sorte
de palavras consoladoras e suplicantes: pedia-lhe que sossegasse, que o conhecesse;
mas de repente ela desesperava-se, gritava pela carta, maldizia Juliana —
ou então dizia palavras de amor, enumerava somas de dinheiro... Jorge
temia que aquele delírio revelasse tudo a Julião, às
criadas; tinha um suor à raiz dos cabelos — e quando ela, um
momento, julgando-se no Paraíso e nas exaltações do adultério,
chamou Basílio, pediu champagne, teve palavras libertinas, Jorge fugiu
da alcova alucinado, foi para a sala às escuras, atirou-se para o divã
a soluçar, arrepelou-se, blasfemou.
— Está em perigo? — perguntou Sebastião.
— Está — disse Julião. — Se sentisse os sinapismos,
ao menos! Mas estas malditas febres cerebrais...
Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado.
E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fora:
— Ouve lá, é necessário cortar-lhe o cabelo, e
rapar-lhe a cabeça.
Jorge olhou-o com um ar estúpido:
— O cabelo? — E agarrando-lhe os braços: — Não,
Julião, não, bem? Pode-se fazer outra coisa. Tu deves saber.
O cabelo não! Não! Isso não, pelo amor de Deus! Ela não
está em perigo. Pra quê?
Mas aquela massa de cabelo era o diabo, impedia a ação da água!
— Amanhã, se for necessário. Amanhã! Espera até
amanhã... Obrigado, Julião, obrigado!
Julião consentiu, contrariado. Fazia então umedecer constantemente
as compressas da cabeça, e como Mariana trêmula, desjeitosa,
molhava muito o travesseiro, foi Sebastião que se colocou à
cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, de onde
a água gotejava lentamente; tinham jarros fora da varanda, na sala,
para dar à água uma frialdade gelada. O delírio alta
noite acalmara um pouco. Mas o seu olhar injetado tinha um aspecto selvagem:
as pupilas pareciam apenas um ponto negro.
Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos,
olhava para ela: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim,
quando ela tivera a pneumonia; e melhorara! Até ficara mais linda,
com tons de palidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para
o campo quando ela convalescesse; alugaria uma casinha; voltaria à
noite no ônibus, e vê-la-ia de longe na estrada vindo ao seu encontro
com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ela gemia, ele erguia os olhos
sobressaltado; e não lhe parecia a mesma; afigurava-se-lhe que se ia
dissipando, desaparecendo naquele ar de febre que enchia a alcova, no silêncio
mórbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o,
e recaía na sua imobilidade.
Joana, em cima, rezava. As velas, com uma chama alta e direita, extinguiam-se.
Enfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os caixilhos da
vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não
chovia; a calçada secava. O ar tinha uma vaga cor de aço. Tudo
dormia; e uma toalha, esquecida à janela das Azevedos, agitava-se ao
vento frio, silenciosamente.
Quando entrou na alcova Luísa falava com uma voz extinta; sentia muito
vagamente os sinapismos, mas a dor de cabeça não cessava. Começou
a agitar-se — e o delírio daí a pouco voltou. Julião,
então, determinou que se lhe raspasse o cabelo.
Sebastião foi acordar um barbeiro na Rua da Escola — que veio
logo, com um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou
a tirar imediatamente de um saco de couro as navalhas, as tesouras, devagar,
com as mãos moles da gordura das pomadas.
Jorge foi refugiar-se na sala; parecia-lhe que grandes pedaços mutilados
da sua felicidade caíam com aquelas lindas tranças, destruídas
às tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos
penteados que ela usava, noites em que os seus cabelos se tinham desmanchado
nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam à luz... Voltou
ao quarto, atraído irresistivelmente; sentiu na alcova o ruído
seco e metálico das tesouras; sobre a mesa, numa caixa de sabão,
estava um velho pincel de barba, entre flocos de espuma... Chamou Sebastião
baixo:
— Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! E demais.
Que ande depressa!
Foi à sala de jantar, errou pela casa; a manhã fria clareava;
erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens de um tom alvadio.
Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a mesma
lentidão mole; e tomando o seu chapéu desabado, saiu em bicos
de pés murmurando num tom funerário:
— Estimo as melhoras. Deus há de permitir que não seja
nada...
O delírio com efeito daí a um hora acalmou; — e Luísa
caiu numa sonolência prostrada com gemidos fracos, que saíam
de seus lábios como a lamentação interior da vida vencida.
Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o Doutor
Caminha. Era um médico velho que tratara sua mãe, e que curara
Luísa da pneumonia, no segundo ano de casada. Jorge conservara uma
admiração agradecida por aquela reputação antiquada;
e agora a sua esperança voltava-se sofregamente para ele, ansiando
pela sua presença como pela aparição de um santo.
Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu
correndo, para ir a casa do doutor Caminha.
Luísa, que saíra um momento do seu torpor, sentiu-os falar baixo.
A sua voz extinta chamou Jorge:
— Çortaram-me o cabelo... — murmurou tristemente.
— E para te fazer bem — disse-lhe Jorge, quase tão agonizante
como ela. — Cresce logo. Até te vem melhor.
Ela não respondeu; duas lágrimas silenciosas correram-lhe pelos
cantos dos olhos.
Devia ser a sua última sensação; a prostração
comatosa ia-a imobilizando, apenas a sua cabeça rolava num movimento
doce e vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço
triste; a pele empalidecia como um vidro de janela, por trás do qual
lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruídos da rua que começavam
não a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em
algodão.
Ao meio-dia D. Felicidade apareceu. Ficou petrificada quando a viu tão
mal; e ela que a vinha buscar para irem à Encarnação,
talvez às lojas! Tirou logo o chapéu, instalou-se; fez arranjar
a alcova, tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compor a cama
— “porque não havia pior para um doente que desarranjo
no quarto”; e muito corajosamente animava Jorge.
Uma carruagem parou à porta. Era o doutor Caminha, enfim!... Entrou
atabafado no seu cachenê de quadrados verdes e pretos queixando-se muito
do frio; — e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que pôs
dentro do chapéu metodicamente, adiantou-se para a alcova com um passo
cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito
coladas ao crânio pela escova.
Julião e ele ficaram sós na alcova.
No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pálido
como cera, com os olhos vermelhos como carvões.
— Vai-se-lhe pôr um cáustico na nuca — veio dizer
Julião.
Jorge devorava com o olhar ansioso o doutor Caminha, que se pusera a calçar
tranqüilamente as suas luvas de casimira, dizendo:
— Vamos a ver com o cáustico. Não está bem... Mas
há ainda pior. E eu volto, meu amigo, eu volto.
O cáustico foi inútil. Não o sentia, imóvel e
branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe de
repente nos nervos da face como vibrações fugitivas.
— Está perdida — disse Julião baixo a Sebastião.
D. Felicidade ficou muito aterrada, falou logo nos sacramentos.
— Pra quê? — resmungou Julião impaciente.
Mas D. Felicidade declarou que tinha escrúpulos, que era um pecado
mortal; e chamando Jorge para o vão da janela, toda trêmula:
— Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...
Ele murmurava como assombrado:
— Os sacramentos!
Julião chegou-se bruscamente, e quase zangado:
— Nada de tolices! Qual sacramentos! Para quê? Ela nem ouve, nem
compreende, nem sente. E necessário deitar-lhe outro cáustico,
talvez ventosas, e é o que é! Isso é que são os
sacramentos!
Mas D. Felicidade escandalizada, muito abalada, começou a chorar. Esqueciam
Deus, e em Deus é que está o remédio! — dizia,
assoando-se com estrondo.
— Pelo que Deus faz por mim... — exclamou Jorge, saindo do seu
torpor. E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:
— Por que realmente, que fiz eu para isto? Que fiz eu?...
Julião ordenara outro cáustico. Havia agora na casa um movimento
alucinado. Joana entrava de repente com um caldo inútil que ninguém
pedira, os olhos muito vermellios de chorar. Mariana soluçava pelos
cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para rezar,
fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o doutor Barral.
E Luísa no entanto estava imóvel; uma cor macilenta ia-lhe dando
às faces tons cavados e rígidos.
Julião extenuado pediu um cálice de vinho, uma fatia de pão.
Lembraram-se então que desde a véspera não tinham comido,
e foram à sala de jantar onde Joana, sempre lavada em lágrimas,
serviu uma sopa, e ovos. Mas não achava as colheres, nem os guardanapos;
murmurava rezas, pedia desculpa; enquanto Jorge, com os olhos inchados, fitos
na borda da mesa, a face contraída, fazia dobras na toalha.
Depois de um momento pousou devagarinho a colher, desceu ao quarto. Mariana
estava sentada aos pés do leito; Jorge disse-lhe que fosse servir os
senhores; e apenas ela saiu, deixou-se cair de joelhos, tomou uma das mãos
de Luísa, chamou-a baixo; depois mais forte:
— Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze
por melhorar. Não me deixes neste mundo, não tenho mais ninguém!
Perdoa-me. Dize que sim. Faze sinal que sim ao menos. Não me ouve,
meu Deus!
E olhava-a ansiosamente. Ela não se movia.
Ergueu então os braços ao ar numa desesperação
alucinada.
— Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a! — E arremessava
a sua alma para as alturas: — Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!
Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas
tudo lhe pareceu mais imóvel. A face lívida cavava-se; o lenço
que lhe envolvia a cabeça desarranjara-se, via-se o crânio rapado,
de uma cor ligeiramente amarelada. Pôs-lhe então a mão
na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito,
correu para fora do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando
pausadamente as luvas.
— Doutor! Está morta! Veja. Não fala, está fria...
— Então! Então! — disse ele — nada de barulho,
nada de barulho!
Tomou o pulso de Luísa, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração
expirante de uma corda.
Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas
eram inúteis.
— Já as não sente — disse o doutor sacudindo o tabaco
dos dedos.
— Se se lhe desse um copo de conhaque?... — lembrou de repente
Julião. E vendo o olhar espantado do doutor: — As vezes estes
sintomas de coma não querem dizer que o cérebro esteja desorganizado;
podem ser apenas a inação da força nervosa exausta. Se
a morte é irremediável não se perde nada; se é
apenas uma depressão do sistema nervoso, pode-se salvar...
O doutor Caminha, com o beiço descaído, oscilava incredulamente
a cabeça:
— Teorias! — murmurou.
— Nos hospitais ingleses... — começou Julião.
O doutor Caminha encolheu os ombros com desprezo.
— Mas se o doutor lesse... — insistiu Julião.
— Não leio nada! —- disse o doutor Caminha com força
— tenho lido demais! Os livros são os doentes... — E curvando-se,
com ironia: — Mas se o meu talentoso colega quer fazer a experiência...
— Um copo de conhaque ou de aguardente! — pediu Julião
à porta.
E o doutor Caminha sentou-se comodamente “para gozar o fracasso do talentoso
colega”.
Levantaram Luísa; Julião fez-lhe engolir o conhaque; quando
a deitaram ficou na mesma imobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o relógio,
viu as horas, esperou; havia um silêncio ansioso; enfim o doutor ergueu-se,
tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo
buscar silenciosamente o chapéu começou a calçar as luvas.
Jorge foi com ele até à porta:
— Então, doutor? — disse, agarrando-lhe com uma força
desvairada o braço.
— Fez-se o que se pôde — disse o velho, encolhendo os ombros.
Jorge ficou estúpido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas vagarosas
nos degraus caíam-lhe com uma percussão medonha no coração.
Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou
os olhos; Jorge pôs as mãos para ele, com uma ansiedade humilde:
— Então não é possível mais nada?
O doutor fez um gesto vago, indicou o céu.
Jorge voltou para o quarto, encostando-se às paredes. Entrou na alcova,
atirou-se de joelhos aos pés da cama, e ali ficou com a cabeça
entre as mãos num soluçar baixo e contínuo.
Luísa morria: os seus braços tão bonitos, que ela costumava
acariciar diante do espelho, estavam já paralisados; os seus olhos,
a que a paixão dera chamas e a voluptuosidade lágrimas, embaciavam-se
como sob a camada ligeira de uma pulverização muito fina.
D. Felicidade e Mariana tinham acendido uma lamparina a uma gravura de Nossa
Senhora das Dores, e de joelhos rezavam.
O crepúsculo triste descia; parecia trazer um silêncio funerário.
A campainha, então, tocou discretamente; e daí a momentos apareceu
a figura do Conselheiro Acácio.
D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lágrimas, o Conselheiro
disse lugubremente:
— Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!
Explicou “que encontrara por acaso o bom doutor Caminha, que lhe contara
a fatal ocorrência”! Mas muito discretamente não quis entrar
na alcova. Sentou-se numa cadeira, colocou melancolicamente o cotovelo sobre
o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. Felicidade:
— Continue as suas orações. Deus é imperscrutável
em seus decretos.
Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luísa; olhou então
Sebastião, fez-lhe o gesto de alguma coisa que voa e desaparece...
Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face enterrada
no leito:
— Jorge — disse baixinho Sebastião.
Ele levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabelos nos olhos, as olheiras
escuras.
— Vá, vem — disse Julião. E vendo o espanto do seu
olhar: — Não, não está morta, está naquela
sonolência... Mas vem.
Ele ergueu-se, dizendo com mansidão:
— Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.
Saiu da alcova.
O Conselheiro levantou-se, foi abraçá-lo com solenidade:
— Aqui estou, meu Jorge!
— Obrigado, Conselheiro, obrigado.
Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preocupar-se com um
embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpá-lo; desapertou as pontas,
e viu os cabelos de Luísa. Ficou a olhá-los, erguendo-os, passandoos
de uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer:
— Fazia tanto gosto neles, coitadinha!
Tomou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o
afastar do leito. Ele debatia-se docemente; e, como uma vela ardia sobre a
mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a:
— Talvez a incomode a luz...
Julião respondeu comovido:
— Já não a vê, Jorge!
Ele soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre
ela; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com cuidado para a não
magoar, esteve a olhá-la um momento; depois pousou-lhe sobre os lábios
frios um beijo, outro, outro, murmurava:
— Adeus! Adeus!
Endireitou-se, abriu os braços, caiu no chão.
Todos correram. Levaram-no para a chaise longue.
E enquanto D. Felicidade num pranto aflito fechava os olhos de Luísa,
o Conselheiro, com o chapéu sempre na mão, cruzava os braços,
e oscilando a sua calva respeitável, dizia a Sebastião:
— Que profundo desgosto de família!
Depois do enterro de Luisa, Jorge despediu as criadas, foi para casa de Sebastião.
Nessa noite pelas nove horas o Conselheiro Acácio, muito abafado, descia
o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de ver um doente
na Rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luisa, do enterro, da
aflição de Jorge.
— Pobre rapaz! Aquilo é que é sofrer! — disse Julião
compadecido.
— Era uma esposa modelo! — murmurou o conselheiro.
De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não
pudera ver o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia profundamente.
E acrescentou:
Ultimamente lia eu que aos grandes golpes sucedem sempre sonos prolongados.
Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do grande desastre
de Waterloo!
E passado um momento, continuou:
— E verdade. Fui ver o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...
— E interrompendo-se, parando: — Porque eu entendi que era o meu
dever dedicar um tributo à memória da infeliz senhora. Era o
meu dever, e não me eximia a ele! E estimo tê-lo encontrado,
porque quero saber a sua opinião conscienciosa e desassombrada.
Julião tossiu, e perguntou:
— E um necrológio?
— E um necrológio.
E o Conselheiro, apesar de “não achar próprio, na sua
posição, o entrar em cafés públicos”, lembrou
a Julião que poderiam descansar um momento no Tavares, se não
estivesse muita gente, e ele poderia ler-lhe “a produção”.
Espreitaram.
Estavam apenas, a uma mesa, dois velhos calados defronte dos seus cafés,
com os chapéus na cabeça, apoiados a bengalas de cana-da-Índia.
O moço dormitava ao fluido. Uma luz crua e intensa enchia a sala estreita.
— Há um silêncio propicio — disse o conselheiro.
Ofereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma
folha de papel pautado, murmurou: — Infeliz senhora! — inclinou-se
para Julião, e leu:
NECROLÓGIO
À MEMÓRIA DA SRª D. LUÍSA MENDONÇA DE BRITO
CARVALHO
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?
— É do imortal Garrett! — E continuou com uma voz lenta
e lúgubre:
— “... Mais um anjo que subiu ao céu! Mais uma flor pendida
na tenra haste que o vendaval da morte, em sua inclemente fúria, arremessou
mal desabrochada para as trevas do túmulo...”
Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o
curvado a remexer o seu café, prosseguiu com entonações
mais funerárias:
— “Detende-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão
cedo arrancada às carícias do seu talentoso cônjuge. Ali
soçobrou, como baixel no escarcéu da costa, a virtuosa senhora,
que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra
de se aproximar do seu lar! Por que soluçais?”
— Um café, ó Antônio! — bradou a voz rouca
de um sujeito grosso de jaquetão, que se sentou ao pé, pondo
com ruído a bengala sobre a mesa e deitando o chapéu para o
cachaço.
O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz:
— “... Não soluceis! Que o anjo se não pertence
à terra pertence ao céu!...”
— O sô Guedes esteve já por ai? — perguntou a voz
rouca.
O criado disse de trás do balcão, limpando com uma rodilha as
travessas de metal:
— Ainda não, Sr. D. José!
— “... Ali, — continuou o conselheiro — seu espírito,
librando-se nas cândidas asas, entoa louvores ao Eterno! Então
cessa de pedir ao Onipotente mercês e favores para derramar sobre a
cabeça do dileto esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará
nas regiões celestes, pátria das almas de tão subido
quilate...” — E a voz do conselheiro aflautava-se para indicar
aquela ascensão paradisíaca.
— E ontem à noite esteve cá, o sô Guedes? —
insistiu o sujeito de jaquetão com os cotovelos sobre a mesa, fumando
como uma chaminé.
— Esteve tarde. Lá pelas duas horas.
O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por trás dos vidros
da luneta escura fuzilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas de autor interrompido.
Mas prosseguiu:
— “... E vós, ó almas sensíveis, vedei as
lágrimas vertendo-as, não percais de vista que o homem deve
curvar-se aos decretos da Providência...
E interrompendo-se:
— Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge! — Continuou:
— “... da Providência. Deus conta mais um anjo, e a sua
alma brilha pura...
— Esteve com a pequena, o sô Guedes? — fez o sujeito, quebrando
no mármore da mesa a cinza do charuto.
O conselheiro suspendeu-se, pálido de raiva.
— Deve ser pessoa da mais baixa extração! — rosnou
com ódio.
E o criado erguendo a vozinha fina de trás do balcão:
— Nada, não; tem vindo agora com uma espanhola daí de
cima da rua.
Uma magrinha, com cabelo riçado, uma capa vermelha...
— A Lola! — acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se
com voluptuosidade à recordação da Lola.
O Conselheiro agora apressava-se:
— “... E de resto, o que é a vida? Uma rápida passagem
sobre o orbe, e um vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exércitos,
de que todos somos indignos vassalos”.
E com esta frase monárquica o conselheiro terminou.
— Que lhe parece, com franqueza?
Julião sorveu o fundo da chávena, e colocando-a devagar no pires,
lambendo os beiços:
-- É para imprimir?
— Na Voz Popular, com tarjeta preta.
Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se:
— Está muito bom. Muito bom, Conselheiro!
E Acácio procurando o troco para o moço:
— Creio que está digno dela, e de mim!
E saíram calados.
A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de chuva tinham
caído. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou:
— Ai, esquecia-me! Sabe a novidade, conselheiro? A D. Felicidade recolhe-se
à Encarnação.
— Ah!
— Disse-mo agora. Eu fui justamente vê-la antes de ir ver um doente
à Rua da Rosa. Estava com uma febrezita. Coisa de nada!... A comoção,
o susto! E deu-me parte: recolhe-se amanhã à Encarnação.
O conselheiro disse:
— Sempre conheci naquela senhora idéias retrógradas. É
o resultado das manobras jesuíticas, meu amigo! — E ajuntou com
a melancolia do liberal descontente: — A reação levanta
a cabeça!
Julião tomou familiarmente o braço do conselheiro, e sorrindo:
— Qual reação! É por sua causa, ingrato!...
O conselheiro estacou:
— Que quer o meu nobre amigo insinuar?
— Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma coisa grave...
— O quê? Acredite...
— O que eu também descobri, seu maganão! Que o conselheiro
tem duas travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-mo
ela! — E rindo muito, dizendo-lhe adeus! adeus! desceu rapidamente a
Rua do Alecrim. O conselheiro ficou imóvel, no largo, de braços
cruzados, como petriflcado. — Que infeliz senhora! Que funesta paixão!
— murmurou enfim.
E acariciou o bigode, com satisfação.
Como tinha de passar a limpo o Necrológio apressou-se a entrar em casa.
Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as responsabilidades
de prosador distraíram-no das preocupações de homem;
e até às onze horas a sua bela letra cursiva e burocrática
desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglês, no silêncio
do seu Sancta Sanctorum. Terminava quando a porta rangeu, e a Adelaide, com
um xale fone pelos ombros, veio dizer, numa voz constipada:
— Então hoje não se faz nené?
— Não tardo, minha Adelaide, não tardo!
E releu, baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não
era comovente; queria terminar por uma exclamação dolorosa,
prolongada como um ai! Meditou, com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça
entre os dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar,
passou-lhe a mão pela calva: aquele doce roçar amoroso fez decerto
saltar a idéia como uma faísca, porque tomou rapidamente a pena,
e acrescentou:
— “Chorai! chorai! Enquanto a mim, a dor sufoca-me!”
Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto num tom plangente:
— “Chorai! chorai! Enquanto a mim, a dor sufoca-me!” —
E passando o braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou:
— Está de fazer sensação, minha Adelaide!
Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fora bem preenchido e digno; de manhã
certificara-se com regozijo no Diário do Governo, que a família
real “passava sem novidade”; cumprira o dever de amigo, acompanhando
Luisa aos Prazeres numa carruagem da Companhia; a alta das inscrições
assegurava-lhe a paz da sua pátria; compusera uma prosa notável;
a sua Adelaide amava-o! E decerto se deliciou na certeza destas felicidades,
que contrastavam tanto com as imagens sepulcrais que a sua pena revolvem,
porque Adelaide ouviu-o murmurar:
— A vida é um bem inestimável! — E acrescentar como
bom cidadão:
— Sobretudo nesta era de grande prosperidade pública.
E entrou no quarto com a cabeça ereta, o peito cheio, os passos firmes,
erguendo alto o castiçal.
A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cansada da constipação
— e de uma hora de ternuras, que tivera à tardinha com o louro
e meigo Arnaldo, caixeiro da Loja da América.
Àquela hora dois homens desciam duma carruagem à porta do Hotel
Central; um trazia uma ulster de xadrez, o outro uma longa peliça.
Um ônibus quase ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens.
Um criado alemão, que conversava embaixo com o porteiro, reconheceu-os
logo, e tirando o coco:
— Oh Sr. D. Basílio! Oh senhor visconde!
O Visconde Reinaldo, que batia os pés nas lajes, rosnou de dentro da
sua peliça:
— E verdade, aqui estamos outra vez na pocilga!
Mas àquela hora?
— A que horas queria você que chegássemos? Às horas
da tabela, talvez! Doze horas de atraso, essa bagatela! Em Portugal é
quase nada...
— Houve algum transtorno? — perguntava o criado com solicitude,
seguindo-os pela escada.
E Reinaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:
— O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre!
Abjeto país!... — E desabafava a sua cólera com o criado:
tê-la-ia desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bílis:
— Há um ano que a minha oração é esta: Meu
Deus, manda-lhe outra vez o terramoto! Pois todos os dias leio os telegramas
a ver se o terremoto chegou... e nada! Algum ministro que cai, ou algum barão
que surge. E de terremoto nada! O Onipotente faz ouvidos de mercador às
minhas preces... Protege o país! Tão bom é um como outro!
— E sota, vagamente reconhecido a uma nação, cujos defeitos
lhe forneciam tantas pilhérias.
Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou — que não
havia senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro
andar — a cólera de Reinaldo não conheceu restrições:
— Então havemos de dormir no mesmo quarto? Você pensa que
o Sr. D.Basilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio?
Mas quem diabo se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente
o que me espanta! — E encolhendo os ombros com rancor: — É
o clima, é o clima que os atrai! O clima, este prodigioso engodo nacional!
Um clima pestífero. Não há nada mais reles de que um
bom clima!...
E não cessou de invectivar o seu país, enquanto o criado à
pressa, sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um
frango frio e Bourgogne.
Reinaldo vinha vender a última propriedade, e acompanhara Basílio
que voltava a terminar “o secante negócio da borracha”.
E não cessava de rosnar soturnamente de dentro da peliça:
— Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!
Basilio não respondia. Desde que chegara a Santa Apolônia, recordações
do Paraíso, da casa de Luísa, de todo aquele romance do verão
passado, começavam a voltar, a atraí-lo com um encanto picante.
Fora encostar-se à vidraça. Uma lua fria, lívida, cota
agora entre grossas nuvens cor de chumbo; às vezes uma grande malha
luminosa caía sobre a água, faiscava: depois tudo escurecia:
vagas mastreações desenhavam-se na obscuridade difusa: e algum
fanal de navio tremeluzia friamente.
— Que fará ela a esta hora! — pensava Basílio. —
Naturalmente, deitava-se... Mal sabia que ele estava ali, num quarto do Hotel
Central.
Cearam.
Basílio levou a garraflnha de cognac para a cabeceira da cama: e com
a cara coberta de pó-de-arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos
sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma lassidão
confortável.
— E amanhã estou-te daqui a ver — disse Reinaldo. —
Vais-te logo meter com a prima!
Basílio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo teto; certas recordações
das belezas dela, do seu temperamento amoroso, trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade:
espreguiçou-se. — Que diabo! — disse — é uma
linda rapariga! Vale imenso a pena! — Bebeu mais um cálice de
cognac, e daí a pouco dormia profundamente. Era meia-noite.
Àquela hora Jorge acordava, e sentado numa cadeira, imóvel,
com soluços cansados que ainda o sacudiam, pensava nela. Sebastião,
no seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Médico, estendido
num sofá, lia a Revista dos Dois Mundos. Leopoldina dançava
numa soirée da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria
as nuvens e agitava o gás dos candeeiros ia fazer ramalhar tristemente
uma árvore sobre a sepultura de Luísa.
Daí a dois dias pela manhã Basílio, no Rocio, procurava,
com o olhar em redor, um coupé decente. Mas o Pintéus, avistando-o
de longe, lançou logo a parelha. Cá está o Pintéus,
meu amo! Parecia encantado de tornar a ver o Sr. D. Basilinho, e apenas ele
lhe disse:
— Lá acima, à Patriarcal, ó Pintéus!
— A casa da senhora? Pronto, meu amo. — E endireitando-se na almofada,
bateu.
Quando a tipóia parou à porta de Jorge — o Paula saiu
para a rua, a estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor
debruçou-se logo na janela. E imóveis arregalavam os olhos.
Basílio tocara a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o
charuto, tomou a puxar o cordão com força.
— As janelas estão trancadas, meu amo — disse o Pintéus.
Basílio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas,
a casa tinha um aspecto mudo.
Basílio dirigiu-se ao Paula:
— Os senhores que ali moram, estão pra fora?
— Já não moram — disse o Paula soturnamente, passando
a mão sobre o bigode.
Basílio fixou-o, surpreendido daquela entonação fúnebre.
— Onde vivem agora então?
O Paula escarrou, e cravando em Basílio um olhar desolado:
— V. Sª é o parente?
Basílio disse sorrindo.
— Sou o parente, sou.
— Então não sabe?
— O que, homem de Deus?
O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça:
— Pois sinto dizê-lo. A senhora morreu.
—Que senhora? — perguntou Basílio. E fez-se muito branco.
— A senhora! A Sra D. Luisa, a mulher do Sr. Carvalho, o engenheiro...
E o Sr. Jorge está em casa do Sr. Sebastião. Ali ao fim da rua.
Se V. Sª lá quer ir...
— Não! — fez Basílio com um gesto rápido
da mão. Os beiços tremiam-lhe um pouco. — Mas que foi?
— Uma febre! Rapou-a em dois dias!
Basílio dirigiu-se ao coupé devagar, com a cabeça baixa.
Olhou mais uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéus
bateu para a Baixa.
O Paula então aproximou-se do estanque:
— Não lhe fez muita mossa! Fidalgos! Canalha! — murmurou.
A estanqueira disse lamentosamente:
— Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dois padre-nossos
por alma...
— E eu! — suspirou a carvoeira.
— Há de lhe isso servir de muito! — rosnou o Paula, afastando-se.
Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquelas mortes na rua traziam-no
desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! E todas as noites
lia a Nação que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com
rancor de artigos devotos que o exasperavam, o impeliam para o ateísmo;
e o descontentamento das coisas públicas inclinava-o para a comuna.
Como ele dizia, achava tudo uma porcaria.
Foi decerto sob este sentimento que, voltando à porta do estanque,
disse às vizinhas com um ar lúgubre:
— Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é? —
Fazia um gesto que abrangia o Universo. Fitou-as dum modo irado, e rosnou
esta palavra suprema:
— Um monte de estrume!
Ao descer a Rua do Alecrim, Basilio viu o Visconde Reinaldo à porta
do Hotel Street. Mandou parar o Pintéus, e saltando do coupé:
— Sabes?
— O quê?
— Minha prima morreu.
O Visconde Reinaldo murmurou polidamente:
-- Coitada!...
E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia
estava glorioso: um friozinho sutil errava; no ar luminoso, leve, trespassado
de sol, as casas, os galhos das árvores, os mastros das faluas, as
mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os
sons sobressaíam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia
como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam
a cor do leite; e ao fundo as colinas faziam na pulverização
da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.
E os dois, passeando devagar, iam falando de Luisa.
O Visconde Reinaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se
tinha deixado morrer por um tempo tão lindo! — Mas em resumo,
sempre achara aquela ligação absurda...
Porque enfim fossem francos: que tinha ela? Não queria dizer mal “da
pobre senhora que estava naquele horror dos Prazeres”, mas a verdade
é que não era uma amante chic: andava em tipóias de praça;
usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia
numa casinhola, não possuía relações decentes;
jogava naturalmente o quino, e andava em casa de sapatos de ourelo; não
tinha espírito, não tinha toilette... que diabo! Era um trambolho!
— Para um ou dois meses que eu estivesse em Lisboa... — resmungou
Basílio com a cabeça, baixo.
— Sim, pra isso talvez. Como higiene! — disse Reinaldo com desdém.
E continuaram calados, devagar. Riram-se muito dum sujeito que passeava governando
atarantadamente dois cavalos pretos: — Que faéton!
Que arreios! Que estilo! Só em Lisboa!...
Ao fundo do Aterro voltaram; e o Visconde Reinaldo passando os dedos pelas
suíças:
— De modo que estás sem mulher...
Basílio teve um sorriso resignado. E, depois dum silêncio, dando
um forte raspão no chão com a bengala:
— Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!
E foram tomar xerez à Taverna Inglesa.
Fonte: www.lol.pro.br