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O PRIMO BASÍLIO

Eça de Queiroz

Chegaram a casa a arquejar. Luísa tinha vontade de chorar; deixou-se cair na causeuse, esfalfada, infeliz. Que imprudência, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava doida, desconhecia-se. Que dia aquele! E recordava-o desde pela manhã: o lanche, o champagne bebido pelos beijos de Basílio, os seus delírios libertinos; que vergonha! E ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe Jorge no Alentejo trabalhando por ela, pensando nela... Escondeu o rosto entre as mãos, detestou-se; os seus olhos umedeceram-se.
Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas “tolices” da véspera, e com a sensação indefinida, palpite ou pressentimento, de que não devia ir ao Paraíso. O seu desejo, porém, que a impelia para lá vivamente, forneceu-lhe logo razões; era desapontar Basílio; a não ir hoje não devia voltar, e então romper... Além disso a manhã muito linda atraia para a rua; chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e doce.
E às onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do Conselheiro Acácio que subia da Rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta.
Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:
— Que encontro verdadeiramente feliz!...
— Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem!
— E V. Exª, minha senhora? Vejo-a com excelente aspecto!
Passou-lhe à esquerda com um movimento solene; pôs-se a caminhar ao lado dela.
— Permite-me decerto que a acompanhe na sua excursão?
— Decerto, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar...
— Estive em Sintra, minha querida senhora. — e parando: — Não sabia? O Diário de Notícias especificou-o!
— Mas depois de vir de Sintra?
Ele acudiu:
— Ah! Tenho estado ocupadíssimo! Ocupadíssimo! Inteiramente absorvido na complicação de certos documentos que me eram indispensáveis para o meu livro... — E depois de uma pausa: — Cujo nome não ignora, creio.
Luísa não se recordava inteiramente, O Conselheiro então expôs o título, os fins, alguns nomes de capítulos, a utilidade da obra: era a DESCRIÇÃO PITORESCA DAS PRINCIPAIS CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS FAMOSOS ESTABELECIMENTOS.
- É um guia, mas um guia científico. Ilustrarei com um exemplo: V. Exª quer ir a Bragança; sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locais; com o meu livro percorre os edifícios mais notáveis, recolhe um fundo muito sólido de instrução, e tem ao mesmo tempo o prazer.
Luísa mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véu branco.
— Está hoje muito agradável! — disse ela.
— Agradabilíssimo! Um dia criador!
— Que bom fresco aqui!
Tinham entrado em 5. Pedro de Alcântara; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira umidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.
O Conselheiro então falou do estio; tinha sido tórrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus à sombra! 48 graus! — E com bonomia, querendo logo desculpar a sala daquela exageração canicular: — Mas é que está exposta ao sul! Façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul! Hoje porém está verdadeiramente restaurador.
Convidou-a mesmo a dar uma volta embaixo no jardim. Luísa hesitava. E o Conselheiro puxando o relógio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda não era meio-dia. Estava certo pelo Arsenal; era um relógio inglês. — Muito preferíveis aos suíços! — acrescentou com ar profundo.
Cobardemente, por inércia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Luísa foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto — tinha tempo, tomaria um trem...
Foram encostar-se às grades. Através dos varões viam, descendo num declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças; por trás iam-se elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros sombrios; a cantaria da Encarnação de um amarelo triste; outras construções separadas, até ao alto da Graça coberta de edifícios eclesiásticos, com renques de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a Penha-de-França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde sobressaia uma tira verde-negra de arvoredo. À direita, sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e de Alfama descia com ângulos bruscos até as duas pesadas torres da Sé, de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
— Grande panorama! — disse o Conselheiro com ênfase. — E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
— Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! — exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que “era uma maneira de dizer”. Queria a independência do seu país, morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só nós, minha senhora! — E acrescentou com uma voz respeitosa: — E Deus!
— Que bonito está o rio! — disse Luísa.
Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
— O Tejo!
Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim burguês; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de mármore, que se elevam dentre os maciços e as moitas de dálias, pássaros pousavam.
Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
— Por causa dos suicídios! — acudiu logo o Conselheiro. — E todavia, segundo a sua opinião, os suicídios em Lisboa diminuíam consideravelmente; atribuía isso à maneira severa e muito louvável como a imprensa os condenava...
— Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!
— Se fôssemos andando?... — lembrou Luísa.
O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flor, reteve-lhe vivamente o braço:
— Ah, minha rica senhora, por quem é! Os regulamentos são muitos explícitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos! — E acrescentou:
— O exemplo deve vir de cima.
Foram subindo, e Luísa pensava: — Vai para casa; larga-me ao Loreto.
Na Rua de S. Roque espreitou o relógio de uma confeitaria: era meia hora depois do meio-dia! Já Basílio esperava!
Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.
— Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!
— Já agora quero acompanhá-la, se V. Exª me permite. Decerto não sou indiscreto!
— Ora essa! De modo nenhum.
Uma carruagem da Companhia passava, seguida de um correio a trote.
O Conselheiro, com um movimento ansioso, tirou profundamente o chapéu.
— É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um sinal de dentro. — Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastíssimo talento, uma linguagem muito castigada! — E ia decerto falar das coisas públicas, mas Luísa atravessou para os Mártires, erguendo um pouco o vestido por causa de uns restos de lama. Parou à porta da igreja, e sorrindo:
— Vou aqui fazer uma devoçãozinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, apareça. — Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.
— Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa. — E com respeito: — Muito louvável esse zelo!
Luísa entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do coro calculando: — Demoro-me aqui, ele cansa-se de esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente os pingentes de cristal dos lustres, Havia uma luz velada, igual, um pouco fosca. E as arquiteturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas laterais de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capela, os frontais roxos dos púlpitos, ao fundo dois reposteiros de um roxo mais escuro, e sob o dossel cor de violeta os ouros do Trono. Um silêncio fresco e alto repousava. Diante do Batistério um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente; dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de xales tingidos, curvavam-se; aqui e além, diante de um altar; e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas numa melopéia lúgubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento dobrando-se, batia no peito com desespero.
Luísa subiu ao altar-mor. Basílio impacientava-se, decerto, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face cor de cidra para uma janela na cúpula, e olhando Luísa de lado:
— Vai indo para as duas.
Para as duas! Era capaz de não esperar, Basílio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo áspero de se achar no Paraíso, nos braços dele! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas de espadas, os Cristos chagados, — cheia de impaciências voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Basílio!... Mas demorou-se, queria “fatigar o Conselheiro, deixá-lo ir”. Quando pensou que ele teria partido, saiu devagarinho. — Viu-o logo à porta, direito, com as mãos atrás das costas, lendo a pauta dos jurados.
Começou imediatamente a louvar a sua devoção. Não entrara porque não quisera perturbar o seu recolhimento. Mas aprovava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a imoralidade que grassava...
— E além disso é de boa educação. V. Exª há de reparar que toda a nobreza cumpre...
Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquela linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ela misteriosamente; disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
— Está um dia apreciável!
E ofereceu-lhe bolos à porta do Baltreschi. Luísa recusou.
— Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.
A sua voz vinha agora a Luísa com a impertinência de um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como sonâmbula, cheia de necessidade de chorar.
Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois de hesitar pediu gravatas de foulará a um caixeiro louro e jovial.
— Brancas? De cor? De riscas? Com pintinhas?
— Sim, verei, sortidas.
Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-se, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente pálida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incomodada; ofereceu-lhe água, qualquer coisa...
Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Saiu. O Conselheiro, muito solícito, prontificou-se a acompanhá-la a uma boa farmácia tomar água de flor de laranja... Desciam então a Rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia afirmando que o caixeiro fora muito polido: não se admirava, porque no comércio havia filhos de boas famílias: citou exemplos.
Mas vendo-a calada:
— Ainda sofre?
— Não, estou bem.
— Temos dado um delicioso passeio!
Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a Rua do Ouro. Luísa olhava em redor, aflita; procurava uma idéia, uma ocasião, um acontecimento — e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava.
A vista do Teatro de D. Maria levara-o para as questões da arte dramática: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comédias. Não que se não entusiasmasse com as belezas de um Frei Luís de Sousa! mas a sua saúde não lhe permitia as agitações fortes. Assim por exemplo...
Mas Luísa tivera uma idéia, e imediatamente:
— Ah! Esquecia-me! Tenho de ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.
O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luísa, estendendo-lhe a mão, com a voz rápida:
— Adeus, apareça, hein? — E precipitou-se para o portal do Vitry.
Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados; parou, arquejando; esperou: desceu devagar, espreitou à porta... A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.
Chamou um trem.
— A quanto puder! — exclamou.
A carruagem entrou quase a galope na ruazinha do Paraíso. Figuras pasmadas apareceram à janela. Subiu, palpitante. A porta estava fechada — e logo a cancela do lado abriu-se, e a voz doce da patroa segredou:
— Já saiu. Há de haver meia hora.
Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do coupé, rompeu num choro histérico. Correu os estores para se esconder; arrancou o véu, rasgou uma luva, sentindo em si violências inesperadas. Então veio-lhe um desejo frenético de ver Basílio! Bateu nos vidros desesperadamente, gritou:
— Ao Hotel Central!
Porque estava num daqueles momentos em que os temperamentos sensíveis têm impulsos indomáveis; há uma delícia colérica em espedaçar os deveres e as conveniências; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade!
A parelha estacou, resvalando à porta do hotel. “O Senhor Basílio de Brito não estava, o senhor Visconde Reinaldo, sim.”
— Bem, para casa, para onde eu disse!
O cocheiro bateu, E Luísa, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que lhos fizera conhecer, a ele e a todos os amigos da casa! Vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse à cabeça!...
À porta não tinha troco para o cocheiro. Espere! — disse, subindo furiosa. — Eu lhe mandarei pagar!
— Que bicha! — pensou o cocheiro.
Foi Joana que veio abrir; e quase recuou, vendo-a tão vermelha, tão excitada.
Luísa foi direta ao quarto: o cuco cantava três horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na cabeça, varria tranqüilamente, cantarolando.
— Então você ainda não arrumou o quarto! — gritou Luísa.
Juliana estremeceu àquela cólera inesperada.
— Estava agora, minha senhora!
— Que estava agora vejo eu! — rompeu Luísa. — São três horas da tarde e ainda o quarto neste estado!
— Como a senhora costuma vir sempre mais tarde... — disse Juliana.
E seus beiços faziam-se brancos.
— Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem você com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levante... E não querendo, rua, fazem-se-lhes as contas! Juliana fez-se escarlate e cravando em Luísa os olhos injetados:
— Olhe, sabe que mais? Não estou para a aturar!
E arremessou violentamente a vassoura.
— Saia! — berrou Luísa. — Saia imediatamente! Nem mais um momento em casa!
Juliana pôs-se diante dela, e com palmadas convulsivas no peito, a voz rouca:
— Hei de sair se eu quiser! Se eu quiser!
— Joana! — bradou Luísa,
Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguém! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:
— A senhora não me faça sair de mim! A senhora não me faça perder a cabeça! — E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados: — Olhe que nem todos os papéis foram pra o lixo!
Luísa recuou, gritou:
— Que diz você?
— Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui! – E bateu na algibeira, ferozmente.
Luísa fitou-a um momento com os olhos desvairados e caiu no chão, junto à causeuse, desmaiada.


CAPÍTULO 8

A primeira impressão, mal acordada, de Luísa foi que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ela. Uma, a mais fone, afastou-se; o som frio de um frasco de vidro, pousado sobre o mármore do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:
— Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, Srª Juliana?
— De repente.
— Eu vi-a entrar tão afogueada...
Passos sutis pisaram o tapete; a voz de Joana perguntou-lhe junto do rosto:
— Está melhor, minha senhora?
Abriu os olhos; a percepção nítida das coisas foi-lhe voltando; estava estendida na causeuse; tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovelo, devagar, com um olhar errante, vago:
— E a outra?...
— A Srª Juliana? Foi-se deitar. Também se não achava bem. Foi de ver a senhora, coitada... Está melhorzinha?
Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscilar brandamente:
— Pode ir, Joana, pode ir — disse.
— A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...
Luísa, só, pôs-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, as janelas cerradas. Uma luva ficara caída no chão; ergueu-se, ainda trôpega; foi apanhá-la; esteve a esticar-lhe os dedos maquinalmente, como sonâmbula, pô-la na gaveta do toucador. Alisou o cabelo; achava-se mudada, com outra expressão como se fosse outra; e o silêncio do quarto impressionava-a, como extraordinário.
— Minha senhora — disse a voz tímida de Joana.
— Que é?
— É o cocheiro.
Luísa voltou-se, sem compreender:
— Que cocheiro?
— Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar...
- Ah!
E como a uma luz de gás que salta subitamente e alumia uma decoração, viu num relance, toda a “sua desgraça”.
Ficou tão trêmula que mal podia abrir a gavetinha da cômoda:
— Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido... — balbuciava.
Deu o dinheiro a Joana; e vindo cair sobre a causeuse:
— Estou perdida! — murmurou, apertando as mãos na cabeça.
Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espírito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus amigos, a indignação de uns, o escárnio dos outros; e estas imagens caindo com ruído na sua alma, como combustíveis numa fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.
— Que lhe restava? — Fugir com Basílio!
Aquela idéia, a primeira, a única, apossou-se dela impetuosamente, trespassou-a — como a água de uma inundação que subitamente alaga um campo.
Ele tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu apartamento da Rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas; poria no seu pequeno saco de marroquim alguma roupa branca, as jóias da manhã... E os criados? A casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que lesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul — ou o preto! Mais nada, O resto comprá-lo-ia longe, noutras cidades...
— Se a senhora quer vir jantar... — disse Joana à porta do quarto.
Tinha posto um avental branco, e acrescentou:
— A Srª Juliana está deitada, diz que está com a dor, não pode servir à mesa.
— Já vou.
Tomou apenas uma colher de sopa, bebeu um grande gole de água; e erguendo-se:
— Que tem ela?
— Diz que é uma dor muito forte no coração.
Se morresse! Estava salva, ela! Podia ficar! E com uma esperança perversa:
— Vá ver, Joana, vá ver como está!
Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dor! Iria logo ao quarto dela rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silêncio da morte, nem da lividez do cadáver...
— Está mais descansada, minha senhora — veio dizer a Joana — diz que logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!
— Não.
E entrou para o quarto pensando: — de que serve estar a imaginar coisas? Só me resta fugir.
Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras palavras além do começo, no alto, numa letra muito trêmula: Meu amigo!
Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ela não voltasse, nem à tarde, nem à noite — as criadas, a outra, a infame! iriam logo a Sebastião. Era o íntimo da casa. Que espanto o dele! imaginaria algum acidente, correria à Encarnação, depois à polícia, esperaria numa angústia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de a ver chegar, decepções aterradas, — até que telegrafaria a Jorge! E a essa hora decerto, ela, encolhida no canto do vagão, rolaria, ao ruído ofegante da máquina, para um destino novo!,..
Mas por que se afligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar réis de cozinha e a fazer crochê, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! Para Paris! Viver nas consolações do luxo, em alcovas de seda, com um camarote na ópera!... Era bem tola em se afligir! Quase fora uma felicidade aquele “desastre”! Sem ele nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da sua vida burguesa; mesmo quando um alto desejo a impelisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter!
E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só de um homem; não teria de amar em casa e amar fora de casa!
Veio-lhe mesmo a idéia de ir ter imediatamente com Basílio, “acabar com aquilo por uma vez”. Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bêbedos...
Foi logo arranjar o saco de marroquim. Meteu lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o rosário que lhe dera Basílio, pós-de-arroz, algumas jóias que tinham pertencido à mamã... Quis levar as cartas de Basílio também... Tinha-as guardadas num cofre de sândalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, de onde caiu uma florzinha seca; outra que tinha, na dobra, a fotografia de Basílio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha sete; cinco bilhetes curtos, e duas cartas — a primeira que ele lhe escrevera, tão terna! e a última no dia do arrufo! Contou-as... Faltava, com efeito, a primeira, e dois bilhetes! Tinha-lhas roubado, também... Ergueu-se lívida. Ah que infame! Veio-lhe uma raiva de subir ao sótão, lutar com ela, arrancar-lhas, esganá-la!... Que lhe importava, por fim! — E deixou-se cair na causeuse, aniquilada. — Que ela tivesse uma, duas, todas — era a mesma desgraça!
E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapéu, um xalemanta...
O cuco cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôs o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fustão branco. Era a última vez que ali dormia! Fora ela que bordara aquela coberta de crochê no primeiro ano de casada; não havia uma malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge às vezes vinha vê-la trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou falava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Ali dormira com ele três anos; o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fora naquela cama que ela estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas ele não se deitara — a velá-la, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos, os remédios, com toda a sorte de palavras doces que lhe faziam tão bem!... Falava-lhe como a criancinha pequena; dizia-lhe: “isso vai passar, amanhã estás boa, vamos passear”. Mas o seu olhar ansioso estava marejado de lágrimas! Ou então pedia-lhe: “Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...” E ela queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava, lhe refrescava o sangue!
Nos primeiros dias da convalescença era ele que a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendê-la na causeuse, sentava-se ao pé dela a ler-lhe romances, desenhar-lhe paisagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda dele; não tinha mais ninguém no mundo para a tratar, para sofrer, chorar por ela — senão ele! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque a doença deixara-lhe um vago medo dos pesadelos da febre; e o pobre Jorge, para a não acordar, ah ficava com a mão presa, horas, sem se mover. Deitava-se vestido num colchãozito ao pé dela. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lágrimas; de alegria, decerto, porque ela então estava salva! O médico, o bom dr. Caminha, tinha-o dito: “Está livre de perigo; agora é refazer esse corpinho”. E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho, tinha-as coberto de beijos!
E agora, quando ele soubesse, quando ele voltasse! Quando ao entrar ali na alcova — visse os dois travesseirinhos, ainda! Ela iria longe, com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra língua. Que horror! E ele ali estaria, naquela casa só, chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memórias dela para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinelinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a dele! Dormiria ali só! Já não teria ninguém para o acordar de manhã com um beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: é tarde Jorge! Tudo acabara para ambos. Nunca mais! — Rompeu a chorar, de bruços sobre a cama...
Mas a voz de Juliana falou alto no corredor com Joana. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ela, aquela infame? Os passos achinelados afastaram-se devagar, e Joana entrou com o rol e com a lamparina.
— A Srª Juliana — disse — levantou-se um momento, mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?
— Não — disse da alcova.
Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.
Juliana em cima não dormia. A dor passara-lhe — e agitava-se sobre o enxergão, “com o diabo da espertina”! como tantas outras noites, nas últimas semanas. Porque desde que apanhara a carta no sarcófago vivia numa febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga que a sustentavam, lhe davam saúde! Deus enfim tinha-se lembrado dela! Desde que Basílio começara a vir a casa, tivera logo um palpite, uma coisa que lhe dizia que tinha chegado enfim a sua vez! A primeira satisfação fora naquela noite em que achara, depois de Basílio sair às dez horas, a travessinha de Luísa caída ao pé do sofá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canseira, apanhou enfim a carta no sarcófago! Correu ao sótão, leu-a avidamente, e quando viu a importância da “coisa” arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas; arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, num triunfo:
— Bendito seja Deus! Bendito seja Deus!
E que havia de fazer àquilo? — foi então a sua inquietação. Ora pensava em a vender a Luísa por uma forte soma... Mas onde tinha ela o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge e com ameaças de a publicar, extorquir-lhe um ror de libras por meio de outra pessoa, já se vê, e ela à capa! E em certos dias em que a figura, as toilettes, as passeatas de Luísa a irritavam mais, vinham-lhe venetas de sair para a rua, chamar os vizinhos, ler o papel, pó-la mais rasa que a lama, vingar-se da “cabra”!
Foi a tia Vitória que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo “que para a armadilha ser completa era necessário uma carta do janota”. Começara então o lento trabalho de lha apanhar! Fora preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cera, paciência de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Vitória — que rira, rira!... Sobretudo o bilhete em que Basílio lhe dizia: “Hoje não posso ir, mas espero-te amanhã às duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste à outra, trazê-la no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!...” A tia Vitória, sufocada, a quis mostrar à sua velha amiga, a Pedra, a Pedra gorda, que estava na saleta.
A Pedra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios, tinham sacudidelas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:
— Essa é das boas, tia Vitória! Essa é de mestre. Não, isso merece ir para os papéis! Ai os bêbedos! Raios do diabo!
A tia Vitória, então, disse muito seriamente a Juliana:
— Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já podes falar do alto. E esperar a ocasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ela não desconfiar, e o olho alerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!
E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito consigo — aquele gozo de a ter “na mão”, a Luisinha, a senhora, a patroa, a piorrinha! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem — e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, que eu cá ta tenho armada! Aquilo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente senhora da casa. Tinha ali fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!
E o futuro estava certo! Aquilo era dinheiro, o pão da velhice. Ah! Tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma Salve-Rainha de graças a Nossa Senhora, mãe dos homens!
Mas agora, depois daquela cena com Luísa — não podia ficar de braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sair de casa, pôr-se em campo, fazer alguma coisa. O quê? A tia Vitória é que havia de dizer...
Logo pela manhã às sete horas, sem tomar o seu café, sem falar a Joana, desceu devagar, saiu.
A tia Vitória não estava em casa. Gente na saleta esperava. O Sr. Gouveia, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrando, cuspilhando o seu catarro. Juliana deu os bons-dias em redor, e sentou-se a um canto, direita com a sua sombrinha nos joelhos.
Conversava-se; e uma mulher de trinta anos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um xale de quadrados vermelhos:
— Pois não imagina, Srª Ana, não faz idéia! E uma desgraça! E todas as noites como um carro. Às vezes até acordo com o barulho que ele faz a falar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que o demônio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! E de todo!
— Quem? — perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanário, que falava de pé a um criado alto, de suíças e gravata branca enxovalhada.
— O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!
— Piteireiro, hein? — disse o rapazola, enrolando o cigarro.
— Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro... A mãe, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fora do emprego. Ai! Não estou nada contente, nada contente!
— Pois olhe que por lá também há desgosto grande — disse, baixando a voz, a do xale de quadrados.
Os dois homens aproximaram-se.
— O senhor — continuou ela com gestos aterrados — é um desaforo com a cunhada!... A senhora sabe, e aquilo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam numa bulha pegada. O homem toma as dores da rapariga; a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquilo vem a acabar mal!
— E então se a gente tem lá o seu descuido — disse o da gravata branca com indignação — é aqui del-rei, e daqui e dali!
— Lá a sua gente é sossegada, Sr. João — observou a picada das bexigas.
— É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!
E voltando-se para o trintanário, batendo-lhe no ombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:
— Mas isto sim! Isto é que é levá-la!
O rapazola sorriu com satisfação:
— Ora! São mais as vozes do que as nozes!
— Vá lá, mostra já — disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovelo — mostra lá!
O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do colete de riscadinho um relógio de ouro.
— Muito bonito! Rica prenda! — disseram as duas mulheres.
— Suor do meu rosto — fez ele, acariciando o queixo.
O da gravata branca indignou-se:
— Ora seu maroto! — E baixo para as raparigas: — Suor do seu rosto, hein! — E o serafim da patroa, uma senhora da alta que aquilo são tudo sedas, muitíssimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitíssimo boa mulher; recebe destas lembranças, um relógio de um par de moedas — e ainda fala!
O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:
— E se quiser agora, há de largar a corrente!
— Há de lhe custar muito! — exclamou o da gravata branca.
— Uma gente que tem aí pela Baixa correntezas de casas! Metade da Rua dos Retroseiros é dela!
— Mas muito agarrada! — disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da boca: — Estou com ela há dois meses, e ainda se não desabotoou senão com o relógio e três libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé! — E cofiando o cabelo para a testa: — Não faltam mulheres! E das que têm Dom!
Mas a tia Vitória entrou, muito azafamada, com o xale no braço; e vendo Juliana:
— Olá! Por cá! Tive que dar umas novas; estou na rua desde às seis. Bons dias, Sr. a Teodósia; bons dias, Ana. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá pra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!
Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:
— E então, que há de novo?
Juliana pôs-se a contar longamente a cena da véspera, o desmaio...
— Pois minha rica — disse a tia Vitória — o que está feito, está feito; não há tempo a perder; é mãos à obra! Tu vais ao Brito, ao hotel, e entendes-te com ele.
Juliana recusou-se logo; não se atrevia, tinha medo...
A tia Vitória refletiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouveia, e voltando, fechando a porta do quarto:
— Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?
Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Vitória com desconfiança.
— Tens medo de largar os papéis, criatura? — exclamou ofendida a velha. — Arranja-te tu; então arranja-te tu...
Juliana deu-lhas logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...
— A pessoa — disse a tia Vitória — vai amanhã à noite falar com o Brito, e pede-lhe um conto de réis!
Juliana teve um deslumbramento. Um conto de réis! A tia Vitória estava a brincar!
— Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quase não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate aí o Chiado de carruagem — ainda ontem a vi com uma pequerrucha que tem — pagou trezentos mil-réis. E em belas notas. Pagou-os o janota, já se sabe; foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um mãos-rotas; cai logo...
Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, trêmula:
— Oh tia Vitória, dava-lhe um corte de seda.
— Azul! Até já te digo a cor!
— Mas o Brito é homem muito teso, tia Vitória; se lhe tira as cartas; se lhe faz alguma!
A tia Vitória fitou-a com desdém:
— Sais-me uma simplória! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão; o que vai é uma cópia! Olha quem! O melro que lá há de ir!
E depois de refletir um momento:
— Tu vai-te para casa...
— Não, lá isso não volto...
— Também tens razão. Até ver em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada...
— Mas não haverá perigo, tia Vitória, se o Brito vai à policia...
A tia Vitória encolheu os ombros, e impacientada:
— Olha, vai-te, que me estás a enfrenesiar! Policia! Qual policia! Essas coisas levam-se lá à policia... Deixa a coisa comigo! Adeus — e às quatro para jantar, hein!
Juliana saiu como levada pelo ar! Um conto de réis! Era o conto de réis que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cair na mão, com um tlintlim de libras e um frou-frou de notas! E o cérebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas diferentes, todas maravilhosas; um mostrador de capelista onde ela venderia! Um marido ao seu lado, às horas da ceia! Pares de botinas das boas, das chics. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da arca — para estar mais seguro, mais à mão!
Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietário pacífico e rubicundo — que se afastou escandalizado!
Àquela hora Luísa acordava. E sentando-se bruscamente na cama: — É hoje! — foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrível contraíram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a idéia de ver Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sair pé ante pé às onze horas, ir procurar Basílio ao hotel, quando a voz de Joana disse à porta do quarto:
— A senhora faz favor?
Começou logo a contar, muito espantada, que a Srª Juliana tinha saído de manhã; ainda não voltara; estava tudo por arrumar.
— Bem, arranje-me o almoço, eu já vou... — Que alívio para ela!
Calculou logo que Juliana deixara a casa. Para quê? Para lhe armar alguma, decerto! O melhor era sair imediatamente... Podia esperar Basílio no Paraíso.
Foi à sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, à pressa.
- A Srª Juliana ter-lhe-á dado alguma coisa? — veio dizer Joana assombrada.
Luísa encolheu os ombros; respondeu vagamente:
— Depois se saberá...
Eram onze e meia; foi pôr o chapéu. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de ver entrar Juliana, não se decidia a sair; sentou-se mesmo, com o saco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou enfim. — Ergueu-se; mas parecia que alguma coisa de sutil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar; o seu roupão estava caído aos pés da cama, as suas chinelinhas sobre o tapete felpudo... — Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao álbum, tirou a fotografia de Jorge, meteu-a toda trêmula no saco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, saiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.
À Patriarcal passava um coupé de praça. Tomou-o, mandou-o a ir ao Hotel Central.
O Sr. Brito saíra logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. Decerto algum paquete chegara, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas de oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, falavam, chamavam. Aquele movimento animou-a; veio-lhe um desejo de viagens, do ruído noturno das gares à claridade do gás, da agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!
Deu ao cocheiro a adresse do Paraíso. E à maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam num horizonte abandonado. À porta de um Livreiro julgou entrever Julião; debruçou-se pela portinhola, precipitadamente; não o avistou, teve pena; ia-se sem ver um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoráveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua Malaguenha!
Ao fim da Rua do Ouro o coupé parou num embaraço de carroças, e Luísa viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos óculos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que “tinha uma paixão por ela”; um rapazito roto oferecia-lhe cautelas; e o Castro nédio, com os dois polegares nas algibeiras do colete branco, dizia graças ao rapaz, com um desdém ricaço, dardejando olhadelas sobre Luísa, através dos seus óculos de ouro. Ela, pelo canto do olho, observava-o; tinha uma paixão por ela, aquele homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Basílio atravessou-a, a sua linda figura!... — e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o ver.
O trem partiu enfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado à esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belém, de Pedrouços; pregões cantavam. — Todos ali ficavam nas suas famílias, nas suas felicidades; só ela partia!
Na Rua Ocidental, viu vir a D. Camila — uma senhora casada com um velho, ilustre pelos seus amantes. Parecia grávida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjozinho de jaqueta cor de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bebê se babava. E a Camila, feliz, vinha tranqüilamente pela rua expondo as suas fecundidades adúlteras! Era muito festejada; ninguém dizia mal dela; era rica, dava soirées... — O que é o mundo! — pensava Luísa.
O trem parou à porta do Paraíso, era meio-dia. A portinha em cima estava fechada: e a patroa apareceu logo, ciciando que “sentia muitíssimo, mas só o senhor é que tinha a chavezinha; se a senhora quisesse descansar...” Nesse momento outra carruagem chegou, e Basílio apareceu galgando os degraus.
— Até que enfim! — exclamou abrindo a porta. — Por que não vieste ontem?...
— Ah! se tu soubesses...
E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos nele:
— Basílio, sabes, estou perdida!
— Que há?
Luísa atirara o saco de marroquim para o canapé, e, de um fôlego, contou-lhe a história da carta apanhada nos papéis; as dele roubadas, a cena no quarto... — O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tens dito muitas vezes. Estou pronta. Trouxe aquele saco, com o necessário, lenço, luvas... hein?
Basílio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia atônito os seus gestos, as suas palavras.
— Isso só a ti! — exclamou. — Que doida! Que mulher! E muito excitado: — Isto é lá questão de fugir! Que estás tu a falar em fugir? É uma questão de dinheiro. O que ela quer é dinheiro. E ver quanto quer, e pagar-se-lhe!
— Não, não! — fez Luísa. — Não posso ficar! — Tinha uma aflição na voz. A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo; a todo o tempo podia falar, Jorge saber; estava perdida; não tinha coragem de voltar para casa! — Não sinto um momento de descanso, enquanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não podes, amanhã. Eu vou para algum hotel, onde ninguém saiba; escondo-me esta noite. Mas, amanhã vamos. Se ele sabe, mata-me, Basílio! Sim, dize que sim! — Agarrara-se a ele; procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos dele. Basílio desprendeu-se brandamente:
— Estás doida, Luísa; tu não estás em ti! Pode lá pensar-se em fugir? Era um escândalo atroz; éramos apanhados decerto, com a polícia, com os telégrafos! E impossível! Fugir é bom nos romances! E depois, minha filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro...
Luísa fazia-se branca, ouvindo-o.
— E além disso — continuou Basílio, muito agitado, pelo quarto — eu não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remédio, Luísa. Uma mulher que foge, deixa de ser a Srª D. Fulana; é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho decerto de ir ao Brasil; onde hás de tu ficar? Queres ir também, um mês num beliche, arriscar-te à febre amarela? E se teu marido nos persegue, se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dois polícias, e ir passar um ano ao Limoeiro? O teu caso é simplicíssimo. Entendes-te com essa criatura; dá-se-lhe um par de libras, que é o que ela quer, e ficas em tua casa, sossegada, respeitada como dantes — somente mais acautelada! Aqui está!
Aquelas palavras caíam sobre os planos de Luísa, como machadadas que derrubam árvores. Às vezes a verdade que elas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relâmpago, desagradável como um gume frio. Mas via naquela recusa uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter instalado, pela imaginação, numa segurança feliz, longe, em Paris — parecia-lhe intolerável ter de voltar para casa, de cabeça baixa, sofrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira naquele outro destino, agora que lhe fugiam de entre as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quase indispensáveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A criatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquele perigo a rondar!
Ficara calada, como perdida numa reflexão vaga; e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:

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