As Farpas (Outubro a Novembro de 1873)

Eça de Queiroz

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. Proudhon.

SUMMARIO

Regresso. Explicações--Historia de uns pés--Modos de morrer. Os Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni, Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na politica, na sciencia, na religião. A tolerancia--Festa veneziana nas aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.

Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados, as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia philosophica dos pontapés nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.

Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia, o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é anemico--O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica--O drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes patrioticos.

Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de tres mezes--os mezes do verão--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a que recomeçam a servir-se tambem as ostras.

Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

* * * * * Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria, supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.

Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.

Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.

Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente: vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da recreio, com os seus amigos, comer um safio! * * * * * Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente recemnascido para a trincadeira nacional.

O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.

Cada um dá o que tem.

A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.

Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não, porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.

De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.

conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de «_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!» Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do gargarejo.

* * * * * No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.

Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.

No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.

Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado--nas caixas das rebecas.

Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar, os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as malas.

Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe pedido as chaves dos pés! Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito, embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um momento, elle então, compadecido--levanta-se.

Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os pés.

Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.

Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle cantava nos pequenos palcos?...

Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um pé só.

* * * * * Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que, officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

Bem feita coisa! * * * * * Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi, para não pôr em equívocos a celestial etiqueta! * * * * * É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão de bom gosto! Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do Padre Eterno.

* * * * * O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções, o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.

Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, sob as folhas dos nenufares.

Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel systema nervoso da monarchia e da constituição.

Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a outra parte.

Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da companhia?! Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados, agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito! * * * * * O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.

O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro horas.

Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.

É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas do que as republicas.

Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.

Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

* * * * * Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das pratas.

* * * * * _Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_ Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr--taes como o dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_; depois: _vinde commigo_.

Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne, a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o entendimento e a alma das lepras mundanaes.

Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut stercora_, como muito bem disse S. Paulo! Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as vossas alegrías celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._ * * * * * Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes _catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--_catholica_? Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de religiões?...

Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da sciencia?...

Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.

A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal, começava no emtanto--por festejar o S. João! Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa, então--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, de presumpção de merecimentos.

Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa, e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima! * * * * * Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas, lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca fé, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião, era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso escriptor.

Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios, eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para conseguir o seu fim.

* * * * * Que pretende a associação catholica? Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque Portugal, é por emquanto independente e livre.

Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não, porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se satisfatoriamente moralisados e instruidos.

Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não, pelas razões seguintes: Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça com o seu grosso marmeleiro argolado.

O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o, inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.

Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a _Nação_, e quasi sempre é rico.

Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação Catholica influe, aconselha ou dirige? O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre ultramontano.

Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.

Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, o sr. conde de Samodães apparece.

* * * * * A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais inviolavel e de mais sagrado? Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.

Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!» Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão os homens? Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da _Illustração_ nem um album que se folheie ...

Estranha perplexidade! Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um _fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve dissertação sobre os novissimos do homem?» Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo: --«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.» * * * * * Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e não os discutis.

No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios, entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis no racionalismo heretico.

No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e prostrar-vos na penitencia e na oração.

Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos bons.

Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, passando, esta palavra séria: Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu, para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade é uma religião.

* * * * * Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.

Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e os senhores liberaes tambem se não retiram.

Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a _Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.

Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um _Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.

4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do Porto! Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas aos seus adeptos.

Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade e sobresaltar o paiz.

É singular esta coincidencia: O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...

Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção dos poderes.

Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a egreja catholica como um perigo para a liberdade! No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo scientifico moderno.

Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.

Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os nossos dias.

O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda o scepticismo de que a tolerancia é o fructo! Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.

Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito para o absoluto.

O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.

Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu á mecanica e Lavoisier á chimica.

Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo, progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da liberdade; na religião o precursor da tolerancia.

Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, de adorações e de preces.

* * * * * Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem, illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O jubilo era indescriptivel.

Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de Caparica.

O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que chega.

Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.

Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas, estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram outra vez--os primeiros.

Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão, tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral, começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

Era immenso a bordo o desalento.

Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem, recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem chegado todos a terra--pelo avesso.

* * * * * Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado jurisconsulto e procurador geral da corôa.

* * * * * É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em que condições, em que circumstancias, em que especial momento da preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.

Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de sua alteza.

E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.

A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame: «Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.

Martens Ferrão de engonsos.» * * * * * Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata, popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação, pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e complicada navegação da vida.

Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.

Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula neutra.

Como diziamos, pois, tal é--el.

* * * * * Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não! É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?! Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza inexperiente e inerme d'_el!_ ...

Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos! Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas! Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o medite! De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos _boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa! Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios possam preservar os principes dos perigos das suas ligações clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na propria convivencia legal das mulheres legitimas! Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.

* * * * * Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.

* * * * * Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes, uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem a fazer-lhes directamente.

Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento supplementar de metterem as facas pela bocca.

... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e comem as facas--sem peixe! Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes predilectos--os faqueiros.

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