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Prosas Bárbaras

Eça de Queiroz

E seguiam-no: abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casais: as crianças amavam-no: as mulheres iam presas da luz imortal dos seus olhos: todos queriam errar com ele pelo país de Genezareth, comendo os frutos casuais dos pomares, bebendo como as reses

no fio dos regatos.

Ele explicava Deus de um modo novo: ninguém o conhecia melhor: ele era a consciência viva de Deus. O seu Deus não era Jeová, amigo de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitário, tenebroso, irritável: o seu Deus era o pai, o consolador, o purificador, o eternamente sereno, o eternamente justo.

O Mestre pregava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade, a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrifício.

– Se vos ferirem, oferecei-vos; se vos odiarem, amai; se vos perseguirem, oral! Que mérito há em amar os que nos amam? Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia, era a condenação dos usos do Templo, dos zelos devotos dos fariseus: com efeito, para que são tantas purificações, tantos cilícios, tantos usos de piedade? Para que hão-de os fariseus trazer nas suas túnicas as tiras de papiro, que são o sinal da devoção, e para que dão a esmola, de pé, nas escadarias do Templo, gritando e elevando a moeda? – Quando tu deres a esmola – dizia o Mestre de Nazaré – que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.

E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que ele não era como os mais profetas, não se retirava para o deserto, não se emagrecia em jejuns não rasgava os seus vestidos, não se feria nas rochas agudas; vivia como um simples e como um pobre e se procurara às vezes os lugares retirados, e amava as montanhas é que ai estava mais na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.

João falava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joana, mulher de Khouza, Salomé, Maria de Cleofas e Maria de Magdala, que eu conhecia do Acra, em Jerusalém.

Maria de Magdala, aí e em Tiberíade, tinha tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicável era a essência daquele ser; tinha espasmos, contracções, entusiasmos perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notáveis de então, penetrava em discussões e explicações da Lei, depois andava cercada de fariseus e envolta em devoções; mas tinha o amor dos estofos, e todos os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a criação das moreias em reservatórios, a composição de aromáticos, o estudo das ervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi para Magdala. Aí viu Jesus. pregando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do Mestre, e amava a sua figura delicada e bela. Mas tinha fortes impaciências, erguia discórdias com os discípulos, retirava-se ao deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.

Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser à túnica franjas de Tiro.

Jesus, de resto, aceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os publicanos, todos os pecadores.

Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais, dizia eu, aquele homem que eu vi no Templo, com as indignações de Isaías, é pois suave como o céu de Galileia? Realmente, uma raça tão humana, tão simples, tão abundante, tão. pacífica poderia dar um profeta irritado? – O Mestre é a mesma doçura – dizia-me João.

Donde vinha então aquela cólera, aquele gesto de Messias vingador? – Desde quando é ele assim? – perguntava eu a João.

– Dizes bem. O Rabi mudou desde que chegou a Jerusalém.

IV Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, enquanto eu seguia para o Templo. Ia perturbado, sem centro moral, Ora me vinham desejos de ir à Galileia seguir os passos de Jesus de Nazaré, ora o meu velho orgulho estreito de homem do Templo me suscitava hostilidades ou desdéns.

O Templo abria-se, chegavam os fariseus, os devotos, os doutores aproximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a água das piscinas, acendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velários; os pregões anunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam a instalar-se as escolas rabi nicas; o ouro tinia nas bancas dos cambiadores; havia risadas; ouvia-se o balar das reses.

Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um velho camarada do Templo, Josué, que andava há muito pelas vilas de Galileia para a organização dos soforins nas sinagogas. Era homem conhecedor das tradições e cheio de experiência da vida sacerdotal. Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazaré, filho de Maria de Caná, e os seus companheiros. Ele era douto, sincero, atento, devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado João, a essência do Rabi da Galileia.

Disse-me, com efeito, que vira Jesus na sinagoga de Chorazim; que conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado às portas de Betel; que pregava toda a sorte de impiedades; que combatia a Lei, a tradição e os textos; que falava contrariamente à velha sabedoria judaica, sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os sacerdotes, nem os fariseus; que queria distribuir as riquezas pelos pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; vivia, dormia ao acaso pelos hortos; não tinha casa nem campo; que se associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galileia, sem autoridade entre os doutos e entre os ricos.

Eu ouvia calado estas palavras, que eram todo o espírito dos fariseus e dos doutores. E quando saí do Templo sorri ao átrio de Hanan.

Jesus de Nazaré era-me já simpático e íntimo, pelo sentimento e pela razão. Mas o que era aquele homem? Era um simples visionário? Era um contemplador, cheio da melancolia que dão as espessuras de Galileia, e tomado de um desdém divino? Era um espírito cheio de sabedoria? Era um continuador de Judas Galaunete? Vinha ele pregar contra o imposto e contra o dízimo? Era ele hostil a César, e cheio da tradição dos Macabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das esperanças messiânicas? Vinha ele atacar o espírito do Templo? Encontrei João, conversando no átrio lajeado com um homem da milícia sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura vagamente estrelada de. lâmpadas...

– João – disse eu – diz o que vem fazer a Jerusalém o sábio de Nazaré! João olhou-me: – Vem à festa da Páscoa – disse ele, lento..

– João – insisti – pelo Messias, e pela liberdade do Baptista, prisioneiro de Antipas, diz-me a que vem Jesus, a Jerusalém e ao Templo? – Pregar– disse lodo.

Compreendi, rapidamente, todos os resultados daquela luta original.

– Vai! – lhe disse eu exaltado – diz-lhe que parta, que volte para o lago de Tiberíade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com os que o amam, sossegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as portas de Jerusalém! Diz-lhe que não venha nunca encostar-se como profeta à coluna do Templo! Que volte para a Galileia, que se lembre das pedras que estio à Porta Esterquilinária e que são para lapidar os profetas! João tinha o espanto nos olhos, na voz.

– Eliziell Eliziel! – Que volte, que volte para a Galileia! E subi rapidamente, pela escadaria de granito verde que levava aos interiores de Hanan.

O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre largas peles, arroz e mel.

Ao pé. uma escrava síria, de Damasco, cantava. Jesus Bar-Abbás, defronte, fazia momices.

V No outro dia, casualmente, tive ordem de Caifás para ir à Galileia, em serviço das sinagogas: a concentração dos sacerdotes rituais em Jerusalém obriga assim os oficiais do Templo a sucessivas peregrlnaç8es; porque as sinagogas estio dominadas pelos escribas e pelos soforins, e por isso agitadas em. perpétuas. intrigas.

Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Betsaida, a Chorazim, a todo o país que fora até aí o centro amado de Jesus.

Em toda a região do lago achei muitos espíritos ou mais simples, ou mais lúcidos, ou mais amantes, singularmente ocupados na simpatia e na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabi de Nazaré.

Falavam-me longamente da sua doutrina nas sinagogas, das suas palavras nas colinas: e a figura moral de Jesus acentuava-se, definia-se progressivamente no meu espírito.

Diziam-me que a voz do Mestre era doce, untuosa, que só o seu som cativante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da rede: falava devagar; a silêncios: as altas verdades, as palavras profundas apareciam de repente como uma centelha sai de um diamante tocado de uma luz inesperada. Contava parábolas, histórias; repetia com paciência, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, atentos, outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam pasmados a água.

Ele falava, sossegado, ou afagava uma criança, ou, contando as parábolas. consertava a sua rede.

Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. Tinha um desdém elevado pelas coisas exteriores.

– Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuário – dizia ele. – Olhai as aves do céu, não semeiam, nem ceifam, e o pai dos Céus é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos campos? – Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vede os lírios: não trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão em toda a sua glória não estava vestido como nenhum deles na sua simples candura. E o que Deus faz pelas ervas dos campos que florescem hoje, amanhã secam, não o fará por vós, homens de pouca fé?.

Por isso os discípulos seguiam-no assim, enlevados naquelas ambições ideais, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. Naquele pensamento, o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que assim como se toma da ferrugem, dá à alma a esterilidade.

– Vendei o que possuís – dizia ele – dai o dinheiro em esmolas! Realmente de que servem na Galileia as riquezas? Ali só há a verde Natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul, mais repouso à água; o pobre, o mendigo, é o rei misterioso daquela glória da folhagem e da luz: para ele se vestem as açucenas de branco, para ele resplandecem os regatos.

Jesus glorificava o pobre: naquele evangelho da Galileia, o rico é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: ele tem os largos vestidos fáceis, macios; ele come sobre leitos cobertos de peles; ele enterra os braços nus nas moedas do cofre: o pobre come escassamente as ervas mal cozidas dos hortos; remenda, à candeia, a sua túnica, traz apertada à cintura, tendo sobre ela uma pedra, a moeda de cobre que é a sua fortuna.

Bem: Deus tomará conta do vestuário do pobre. e da brancura do lírio, ele velará para que ao homem não falte o pão e à rola o grão, ele fará no Céu, ao pobre, um saco, um tesouro de boas obras, de glória, sem temor da ferrugem e dos ladrões.

O rico irá para a Gena, para o fogo inextinguível: um cuidado o emagreceu na vida, uma chama o consumirá na existência extra-humana. O pobre estará junto de Deus, e a sua face será imortal e altiva.

– Porque em verdade vos digo – ensinava o Mestre –que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.

Assim falava ele à beira do lago, e, desprendendo os homens dos fatais cuidados do mundo, era o criador da paz e o consolador da vida. Os tédios da existência ordinária, a discórdia dos interesses, as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da miséria, a apatia da necessidade, as aflições da obscuridade, as desconsolações da doença, todos estes antigos demónios desapareciam, e a velha cabeça humana, obscura, cativa, pesada, podia enfim sentir, esperar. repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da terra tem alimentado.

A alma tinha enfim um lugar, o seu lugar, o seu espaço, que era o reino de Deus.

O reino de Deus era o reino das crianças, dos simples, dos deserdados da vida, dos que sofrem, e até do samaritano, e até do pagão e do publicano, e até do que habita Sídon.

Ah! Vós não quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os fariseus, os saduceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os príncipes! vinde vós, pois, os humildes, os repelidos, os lapidados, os enfermos, os culpados, todos os que eles repelem. todos os que eles amaldiçoam! Desgraçados de vós, ó ricos, que estais saciados, porque tereis fome, desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lágrimas! Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existências sacerdotais. Os nossos profetas já tinham, contra o rico ímpio e duro, cóleras terríveis em vingança do pobre que é doce e piedoso. Ora o Rabi feria assim violentamente todo o judaísmo sacerdotal do Templo, porque fazia dos que ele despreza e domina os preferidos, os bem-amados do esposo, os amigos de Deus! Que significa na verdade que o fariseu não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? Que quer dizer que os levitas de Caifa vão lavar à piscina os seus vestidos, se à entrada do santuário tocaram num mendigo ou num publicano? Mas Jesus, na imortal ascensão a que obrigava as almas para o ideal divino, já não somente chamava a si o deserdado, mas chamava o culpado.

– O culpado é infeliz – dizia – merece por isso. Mais que o justo, o calor do meu seio. O filho pródigo merece mais amor do que o filho cuidadoso, porque é triste na sua. alma, e todo em lágrimas.

– Havia uma mulher aqui – dizia-me o homem bom de Chorazim que me explicava estas coisas imortais – que era repelida, mal vista, amaldiçoada; as mães honestas não a queriam ver: só os escribas da sinagoga se aproximavam dela, mas de noite, sob as figueiras do cemitério, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a túnica; e resmungavam maldições.

Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquela palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleofas. Segue Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se sente amante, mais se sente perdoada.

Os pobres galileus, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada palavra, julgavam-se já no Paraíso imortal. Ele ia seguido dos seus, confundido com todas as alegrias, aparecendo nas bodas, e nas noites de noivados misturando-se às danças, com a sua lâmpada na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou montado num pequeno burro, que os discípulos cobriam com as túnicas; às vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, falava às mulheres, escutava os cantares; entrava nos casais, nos hortos; as crianças vinham, vinham as mulheres: «Rabi, Rabi, diz-nos a boa nova: és tu o Messias?» Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores frutos, os vinhos de Safe, os legumes que nadam em azeite; as mães mostravam-lhe os filhos de peito que com as suas pequeninas mãos vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: ele ria, agasalhava-os; quando ele passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho; os doentes vinham tocar as suas mãos, as viúvas limpavam as suas lágrimas: ele falava de Deus, endireitava as canas de milho caídas no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe: – Mestre, tu és bom.

– Bom só é Deus – dizia ele, sorrindo.

– Mestre, que havemos de fazer para entrar no Paraíso? – Amai os outros, dai aos pobres, segui-me.

E seguiam-no todos, enlevados naquele sonho ideal, o mais belo, o mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.

Então o céu, amigo e compassivo, tocou na lacrimosa terra; então pela primeira vez o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez o estreito sorriso do velho conteve a esperança! VI Mal sei dizer o que o meu pobre espírito, educado na antiga lição do cativeiro, sentia ao suave calor humano e feliz daquelas palavras.

Voltei a Jerusalém: passei sobre o Tabor, donde se vê a larga planície de Esdrelon, amada dos heróis, o branco Hermon, Endor, e as montanhas de Galaad: descansei em Djeneia, a cidade dos Levitas, toda escondida entre oliveiras e palmeiras, depois em Detem, onde José foi vendido por seus irmãos; depois na velha Betúlia, pátria da forte Judite: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades de Israel, hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Siquém, junto da qual Abraão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos de Mora: Siloeh, onde se fez a partilha do território entre as tribos, e onde pousou pela primeira vez o tabernáculo, depois da conquista de Canaã.

Depois desviei-me para os lados de Jericó, que estava então cheio de selvas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discípulos de João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lúgubres colinas de Judá, asilo de profetas, túmulo dos heróis: uma madrugada entrei, só, em Jerusalém.

Nesse dia logo subi ao Templo. Junto dos pórticos exteriores, onde trabalhavam. ainda cinzeladores de Cesareia, pedreiros de Samaria, vi, entre homens da Galileia, a alta figura de Jesus de Nazaré. Estavam parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante de um cambiador de moeda, trocava dracmas, atento.

Parei, comovido, a olhar profundamente o Rabi. Ele estava triste: os braços caídos, sem vontade, sem gesto; a cabeça desanimada. Tinha nas feições finas, delicadas, pessoais, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os olhos cheios de infinito, que pareciam olhar do uru lugar inacessível, a testa larga, expressiva como a imobilidade de um céu, assemelhavamse, superficialmente, como o corpo se assemelha à sombra – aos olhos, à testa de Hillel, de jesus de Sirac e de um outro, que era como eles dado às contemplações, à abstracção, ao ideal. A boca tinha uma forma tão pura, tão leve, uma imobilidade tão penetrada de graça, que parecia que dela só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno dos lábios, a linha que era como um arco em descanso, tinham uma gravidade, uma beleza austera, que denunciavam a origem das palavras elevadas, e faziam sentir o profeta, Parecia-me ver-lhe, na parte inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão de energia, que o tornavam um pouco semelhante a Judas Galaunete, o poderoso agitador, em quem a acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.

Ele olhava os trabalhos dos pórticos, com um desdém sereno. Nos galileus sentia-se o constrangimento, o isolamento.

Entrei no santuário: nas câmaras dos serviços dois escribas argumentavam junto da arca do tesouro, com exclamações abundantes. Interroguei-os; disseram-me que o Rabi de Galileia muitas vezes pregara no Templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias da piscina probática; que argumentara com os escribas, e que em casa de Hanan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabi: – Ele é bom e justo; mas não diz coisas novas.

Argumentava-se muito sobre aquela palavra contida e desdenhosa do sábio Gamaliel, entre os privados de Hanan.

– Mas Gamaliel – dizia soberbamente o escriba – é um homem alheio a nós; entretém relações com essa gente da escola de Alexandria; viaja demoradamente em Siquém onde estão os heréticos, e em Cesareia onde estão os romanos, e dá-se à cultura helénica, desprezando a Lei.

– Homem – disse eu – em que despreza Gamaliel a Lei, estudando e sabendo as letras gregas? O escriba riu finamente, como em triunfo: – Pois não diz o Texto – e a sua voz era compassada e enfática – «Estudarás a Lei de noite e de dia, e se assim não fizeres desagradarás ao Eterno?» Ora – e traçava amplamente a capa, tossindo, vitorioso – ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a sabedoria grega num tempo que não seja nem a noite nem o dia.

O outro escriba, que era Eliel, de Efraim, aprovou ruidosamente, batendo no peito.

E sob a sombra pesada do velário saudaram-se, risonhos.

Saí das câmaras levíticas, à hora sétima, quando há nos terraços do Templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a Lei, com as folhas de metal diante de si, em movimentos rítmicos; outros vinham comprar ofertas de pombas e cordeiros: alguns consultavam sobre questões agrárias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do Templo passavam com as reses a levá-las às piscinas; tocavam as trompas que anunciavam a hora dos sacrifícios; os doentes cantavam os salmos; as mulheres levíticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores, espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das primeiras colunas, batendo em discos de metal.

Eu entrei na Galeria de Salomão. toda sonora de vozes. Jesus, cercado de galileus, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosana, ao filho de David!» porque os pobres, os. doentes e as crianças, vendo que ele era entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe o filho de David; os escribas riam; bocejavam desdenhosos.

Alguns fariseus, tomados de exaltação, queriam a convocação do Sanedrim. Um velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadência da escola profética de Israel.

– É um ignorante – diziam, com desprezo, vastos doutores.

Ásperos, zelosos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas eriçadas, insultavamno.

O povo, com o ruído de um arvoredo, falava do Mestre alguns velhos -diziam: – Sim, sim, irmãos, este é um profeta! – É o Cristo! É o Messias! – clamavam grandes vozes.

Muitos iam, correndo, prostrar-se diante da Porta da Arca. bradando: – Graças, Senhor, o Messias chegou! Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo Templo gritando: – É o Messias, é o profeta da Galileia! Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo: – Que dizeis? Vós não conheceis a Lei? – A Lei diz que o Messias virá, e que Elias ressuscitará! –Calai-vos! – bradavam os escribas. – Sois também galileus? Não sabeis que a Escritura diz que o Messias há-de ser da geração de David? E não sabeis vós que este é o filho do carpinteiro José, e de uma mulher da aldeia de Caná? Não vo-lo têm dito todos os que vêm de Nazaré? – É verdade, é verdade – diziam alguns.

– E não sabeis – continuavam – que os Textos dizem que o Messias nascerá em Betlem, e onde nasceu este? Em Nazaré, bem o sabeis.

Uma voz, receosa mas irritada, disse: – Pois ele nasceu em Betlem! – Em Nazaré! – bradaram alguns escribas.

– Sim, sim, em Nazaré – disse à gente.

– É, pois, o Cristo? Ide, homens amaldiçoados, que andais afastados da Escritura! Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no Tyrepeon.

VII Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a Porta dos Rebanhos, atravessado o Cédron, subido a Betânia.

Quando eu voltava para Bezeta, veio a mim um homem muito conhecido em Jerusalém, que era Jesus Bar-Abbás. Era uma figura descamada, torta, arqueada, cheia de cicatrizes, imunda, rindo sempre, em farrapos. Era uma espécie de truão de Jerusalém. Tinha gracejos, farsas, deslocações: espancavam-no, ele ria, estendia uma ponta da túnica, para aparar os dracmas. Encontrava-se com a sua lâmpada em todos os noivados, gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições, em todos os suplícios com uma cântara de posca, para vender aos soldados. Tinha todos os desastres da miséria, do vício, e era servil. Os soldados expedicionários espancavam-no, às vezes prendiam-no, mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado.

Tinha uma voz vibrante, forte para cantar os salmos e imitava os profetas pregando.

Cheirava miseravelmente a alho.

Jesus Bar-Abbás pediu-me um dracma, e disse-me que nessa noite Simeon, um rico do Sanedrim, tinha uma ceia para os oficiais do Templo e sacerdotes, fora das. muralhas, em Betfagé.

Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com o orgulho que fora amigo do gladiador Esterius.

Bar-Abbás fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus átrios.

Nessa noite fui a casa de Hanan. Nos pátios, João aquecia-se ao lume, junto da velha de Cafarnaum.

Caifás e Gamaliel estavam com Hanan. Gamaliel dizia versos gregos: Hanan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caifás, aquilino, duro, áspero, tinha uma atitude desdenhosa. Dois escribas, encruzados no chão, comiam.

Quando o serão ia remoto, repentinamente Caifás mandou-me a casa de Simeon.

O Sanedrim devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: tinha havido exigências do legado imperial sobre os vasos do Templo.

Um escravo negro de Hanan seguia-me com uma lanterna; a noite era negra, quente, mole: ouviam-se apenas uivar os cães.

Em Betfagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a ceia, sob um velário feito à moda grega, suspenso às ramagens dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas lâmpadas resplandeciam. Flores de Damasco, rosas de Jericó, jasmins de Chorazin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros da Perea como serpentes verdes, penetravam o ar da mole vitalidade que dão os aromas. No chão estavam ânforas, grossos cântaros envoltos em palha, jarros cinzelados. Os escravos frígios, com os longos cabelos reluzentes de óleo, giravam apressados.

Havia ali membros do Sanedrim, escribas, sacerdotes, herodianos, saduceus, fariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em sacrifícios, alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos deitados em estrados, cobertos com lãs de Babilónia.

Alguns eram gordos, fortes, vermelhos. Quase todos tinham a fisionomia áspera, adunca, eriçada de barbas. Reluziam cabeças calvas.

O vinho dourado, o vinho de Safed, um falerno de Cesareia, o massico dava uma ampla respiração aos peitos, uma feliz cintilação aos agudos olhos negros. Havia largas risadas.

Fariseus austeros, que se ferem nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos de aço brunido, devoravam com um ruído devoto. Outros tinham olhares ansiosos, e despercebidamente esvaziavam as largas taças de bronze. Alguns decrépitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas mãos trémulas e lívidas levantaram as ânforas! Alguns, estendidos sobre leitos como animais que ruminam, tinham as túnicas soltas, os braços nus. Cabeças enérgicas, duras, mostravam uma expressão irritada, fixa, vazia; os velhos tinham largos risos cínicos. Uns dormiam, outro cantava. Um velho curvado, frouxo, rouco, lembrava as mulheres, e os fariseus riam. Entre esta multidão sacerdotal havia um romano. Era Publius Sextus, lugar-tenente do legado imperial; falava com palavras abundantes, largos gestos. Era pálido, com uma pequena cabeça enérgica e voluntária; era devasso, servil, falso, luxuoso, e vinha de Cáprea. Era ali escutado como um profeta na antiga Israel; falava da Via Ápia, das festas de Roma.

Eu escutava, encostado a uma árvore, na escuridão, concentrado e triste.

– Só em Roma se vive – dizia ele. – Isto é pior que o bairro das Esquílias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem aqui como Evandro recebeu Hércules, com farinha cozida e uma esteira espartana.

– Mas vós outros, os Romanos, sois glutões e amigos do vinho! – disse Nathaul, um escriba, homem invejoso, com lábios carnais.

Mas Publius falava de uma ceia em casa de Ático, antes de vir a Óstia embarcar. com o legado da Síria.

– Quereis saber? – perguntava.

– Dizei, dizei – gritavam curiosamente pela mesa.

– O chão era de mosaicos gregos. Entre as colunas havia largos panos tecidos de aço, pesados, à moda de Cartago. Um vapor de água tépida penetrava os músculos, enlanguescia.

Tínhamos esfregado os braços, o peito, com pedaços de pele de tigre humedecida de óleo. Os membros estavam ágeis, fáceis para as danças, para as escravas! Do tecto calam folhas de rosas húmidas! Todos tinham olhos cintilantes; estendiam-se para escutar alguns estavam de pé, junto de Publius.

– O trinchador – dizia ele – o trinchador, meus amigos, era o próprio Tripherius! Tínhamos lebre, gazela, faisão de Lichtia, cabras da Getúlia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido erva, e tartarugas delicadamente preparadas em molhos da Campânia, na própria concha, polida. transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas nadando no azeite de Venafre! As taças eram de âmbar. Que dizeis vós? Os austeros doutores, os graves herodianos, os fariseus cevados, oleosos, com os beiços luzidios de molhos, a boca riscada de vinho, tinham um olhar ávido, guloso, ímpio, para as palavras de Publius.

Bar-Abbás, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo. Todos admiravam, O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em tecidos diáfanos, correndo em coreias, em volta dos triclínios, e aspergiam a cabeça dos saciados com lilases molhados em falerno! – E falava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz branda, curvando-se: – Que estas mulheres sírias – dizia – têm uns olhos escuros que valem centenares de sestércios.

Os outros riam. Falavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, desejavam.

– Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e tudo ali terminará, como em Sodoma e Nínive! Quem assim falava era um fariseu, Essen, homem magro, lívido, cavado de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e parecia constrangido, isolado.

Tinha vindo para amaldiçoar, para lembrar a morte, e o terror de Jeová! – Devassas, dignas do fogo, para vós, devotos e zelosos! Mas belezas impecáveis, imortais, para quem pode desapertar a rede de ouro em que elas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que as fazem mais apetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que elas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.

Publius falava, inflamado. descomposto: tinha gestos lascivos; bradava os nomes das damas romanas: – Vede Laupella, uma patrícia! E Medulina! E Hillia, que se namorou do actor Urbius, e Hippra, que fugiu com o gladiador Sérgio, e Hipulla, que em plenos jogos megalésios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu na estátua do Pudor! Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam: – Contai, contai! Enchiam as ânforas: arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa, com a cabeça apoiada nos braços, esperavam voltados para Publius, com olhos perturbados.

Os velhos abriam largamente uma boca escura, sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos.

Um escriba da arca do tesouro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz áspera, arrastada. O círculo de cabeças ávidas, duras, curiosas, destacava violentamente no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a túnica clara manchada de vinho; tinha os braços nus. brancos, femininos: e com largos gestos..

– E Túcia, e Túcia – gritava – eu vi-a um dia no teatro, quando o actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascívias o papel de Leda, torcer-se no seu lugar, arrancar a rede dos seus selos, e com os olhos mortalmente lânguidos chamar a altas vozes: «Bactylo, Bactylo, vem!» Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano: – Bactylo, Bactylo! Os velhos torciam-se nos seus triclínios, tomados de riso, de escândalo. Alguns escribas gritavam: «Viva Roma!» Os fariseus tinham olhos terríveis, uma atenção ávida.

Um cortava violentamente o pau do estrado, mordendo os lábios! Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolência dos escravos, queria lançar fogo ao velário e dizia: – Quem conhece Cessénia? Ninguém conhece Cessénia? Cessénia tinha de dote seis milhões de sestércios. Casou com Sertório, o pobre, com a condição de poder escrever diante do marido os bilhetes aos amantes, e poder ir deitar-se uma vez cada mês, para quem entrar, no leito alugado de um lupanar de Suburra! Os escribas riam, esvaziavam as taças, desafogavam o pescoço das túnicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas à cintura, onde está escrita a Lei.

Um, ébrio, com os olhos riscados de sangue, pedia o culto de Baal.

Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclínios, curvados, enroscados, imóveis. Os fariseus torciam o braços, falavam de Tiro.

Publius clamava: – Pois que há de melhor que ver uma patrícia, de longo penteado e saia curta, depois de estar cheia de ostras e lagostas irritantes, beber de um trago numa enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre o mosaico húmido de vinho, cair sobre o nosso peito, gritando em grego: «Minha alma, minha vida, ai!» E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a garganta túmida de suspiros, arquejando! Os escribas, os fariseus estavam cheios de delírio e de vinho. Riam animalmente.

Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão: mordiam as almofadas dos triclínios.

Derramavam o vinho sobre os vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças, exaltados. Um jogava a luta com uma árvore, depois envolvia-a, beijava-a.

Cantavam em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões lascivas.

Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados. Corriam, inflamados, como num mistério sagrado. Alguns gabavam-se de devassidões ocultas. Falavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres, de prostituições sagradas no fundo dos bosques! Publius gritava: – Não sabeis, fariseus, não sabeis a aventura de Lentullus? – Não, não! – bradavam alguns penetrados da alegria, do escândalo, de curiosidades inflamadas.

– Lentullus casa com uma virgem patrícia, neta de cônsules: nove meses depois prepara, segundo o costume, para o filho que vai nascer, o berço de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no às boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da Via Ápia rompe em risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Euríalo, e tinha, como ele, três verrugas no queixo.

A risada fazia o ar sonoro. Publius, de pé, manchado, com a túnica rota, descomposto, gritava: – Ouvi, ouvi! Escutavam com um riso inquieto.

E Publius enfático: – Os actores – dizia – os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta, os truões,. são os pais de todas as crianças que nascem na nobreza romana! Um velho fariseu, elevando sacerdotalmente uma ânfora, gritou com uma voz terrível: – Vivam os truões! A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão. Era bestial e imundo.

Aquele ruído parecia-me triste como um cálice de pedra de sepulcros.

Bar-Abbás, espancado, cambaleava, blasfemando, imundo e jovial.

O vinho começava a domá-los, alguns escorregavam, calam, agitavam-se como agonizantes, e perdiam os espíritos num sono petrificado. Outros penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da erva e da água. Uns falavam como num delírio grotesco. Dois escribas argumentavam, frenéticos, hostis. Um forte e vasto fariseu, de bruços sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, rosa monotonamente uma flor.

Simeon ressonava no seu estrado. Publius no chão húmido. Os escravos deitavam peles sobre os dormentes. Os lampadários extinguiam-se. Vinha um frio húmido.

Cantavam os galos.

Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.

Uma claridade assustada, abatida, aparecia. Eu via ainda reluzirem lâmpadas nos pequenos bazares que estão sob os cedros do Monte das Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cédron; por vezes o grito de um chacal. Via Betânia; ali Jesus dormia sereno, puro, impecável.

Voltei aos pórticos da casa, pela rua areada do pomar. Ali havia um rumor; os escravos, agitados, falavam. Alguns da milícia do Templo tinham encontrado, no Pórtico de David, nas lajes, uma mulher nos braços de um homem. Era uma adúltera; a milícia trazia-a a casa de Simeon, que naquela semana fazia a condenação dos desacatos ao Templo, em nome do Sanedrim. A milícia tinha sido diligente, apressada, minuciosa, porque a miserável era mulher de Bar-Abbás, e todos queriam ver as contorções joviais, o desgosto grotesco do truão! Mas Bar-Abbás estava prostrado, imóvel, enroscado, no chão.

Fui ao lugar do velário; os doutores, os fariseus acordavam; era já manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis; aconchegavam-se nos mantos, lívidos, tomados do frio; procuravam os cintos das túnicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as lâminas da Lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam água clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, mergulhando a cabeça; enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as ervas. Simeon, absorto, sonolento, bocejava.

– Vinde – dizia-lhe eu – tendes serviço; vieram uns da polícia, com uma miserável mulher.

Simeon, trémulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, arrastando os coturnos, para o seu pátio civil. Fariseus, doutores, membros do Sanedrim, seguiam-no.

O pátio era largo, em colunas. Uma lâmpada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.

Os da milícia falavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em cântaros. A mulher, caída sobre o chio, rota, sonolenta, imbecil, soluçava. A túnica aberta deixava ver a forma impecável do seio.

Simeon interrogava.

– Vem presa – dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no silêncio – acharam-na à porta do Templo, no Pórtico de David. Vede-a. Estava em acto de adultério.

– Oh! – disseram todos, indignados.

E fariseus, escribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:.

– Lapidada, lapidada – disseram, irritados.

Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados,. erguendo os mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher adúltera.

Essen afastou-se, e falou junto ao ouvido de Simeon.

– Sim, sim – disse Simeon; e voltando-se para os da milícia: – Esta mulher que seja aqui guardada até à hora sexta.

Eu saí. Os soldados romanos abriam, com estrondo metálico, as portas de Jerusalém. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes das hortas de Betfagé, da Betânia: os camponeses de Betel traziam os sacos de trigo: passavam solenemente as fileiras de camelos. Um beduíno de Idumeia conduzia rebanhos: as reses balavam. Do alto da Torre Antónia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores sentados em seus burros: um vidente clamava! VIII Eu ia triste: o amanhecer, a aparição espiritual da aurora, enche de melancolia depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne. Demais nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu artifício, tão altivos desprezos. Mal dormi, durante o resto da madrugada: à hora quarta, encaminhei-me, obscuro e inconsolado, para os meus mon6-tonos ofícios do Templo. Alguns dos fariseus, dos escribas que se tinham rajado nas relvas de Simeon já argumentavam, ajustavam reses para os sacrifícios.

O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afogava-me na melancolia: pensava nos prados da Galileia, nas águas do lago, nas espessas folhagens: Jerusalém, cidade de pedra escura e de negra intriga, pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: «Se eu fosse um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planícies de Safed, um semeador das planícies de Saron!» A multidão provincial enchia o Templo: havia o ruído de um mercado: a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influência material, dura, mesquinha, sufocante! Ia-me encostar à balaustrada da Galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do Monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuários, de roçar pelos fariseus, escribas, por aquelas hierarquias sacerdotais que me amargavam. As colunas enormes e brancas, as portas esculpidas em bronze irritavam-me: invejava a erva que cresce junto às pedras dos mortos.

Aquela vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria odioso o meu corpo se ele se petrificasse, deixando-me a alma livre. Para qualquer lado que olhasse daquela organização sacerdotal, só via uma hipocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade ou uma humilhação: os sacerdotes que se prostram à entrada do santuário, sustentado por dais levitas risonhos, no seu êxtase enfastiado; os argumentadores vãos, artificiais, vazios; os doentes que cantam os salmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa das suas chagas, tudo me dava um tédio obscuro e atormentado.

Sentia em mim cóleras de bárbaro: agradava-me a ideia de desprezar com um açoute aquele sacerdócio aviltado que vive do Templo, lhe compreende a vaidade e lhe aceita o lucro.

Quantas vezes eu percebi o sorriso imperceptível dos sacerdotes sacrificadores diante da piedade simples e crente de pobres galileus e de provinciais ingénuos! Invejava quase o Romano, o Grego, o mercador de Tiro, que não é de Jerusalém, nem do Templo, que não habita neste espaço duro, entre o Acra e o Moriah, cativos e gementes! Que temos nós em Jerusalém de bom, de justo? – Temos uma pátria? Não – E olhava a Torre Antónia, onde os expedicionários,. com grande ruído, atiravam à barra.

– Temos uma religião, uma fé? Não – E via os sacrificados vestindo os pertuais, para degolar a pomba da rocha sagrada, enfastiados, bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto Mercado. no leito do cortesão de Cesareia! – Temos nós uma ciência, uma lei elevada, forte, justa? Não! – E olhava aqueles estéreis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, e argumentando se os papiros devem ser enrolados ou dobrados para agradar ao Senhor! Até a brancura do Templo, aquelas escadarias novas polidas, aqueles frisos pálidos e nítidos, me faziam o efeito do quer que fosse que não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não habitava Jerusalém! Ambicionava ter a palavra de Isaías, a ciência de Gamaliel. a popularidade de Judas Galaunete, e à frente das multidões do Norte, Gaileus e Samaritanos, gente espontânea e forte, derrubar tudo na escura cidade, desde o pórtico onde ora o fariseu, até à ameia donde escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me, resultados da noite perturbada. ou de um estada elevado de consciência, ou enfim da reacção que em toda a alma honesta aparece um dia, contra o que ela julga, o erro ou a vaidade.

– Ah! Jesus de Nazaré – pensava eu – é o único homem que nos poderia salvar, ou como um Messias, ou como um Macabeu, ou como um simples, que tem a fé e a justiça! Mas terá ele a acção? Aqueles braços consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal terão o vigor de sustentar a velha espada da pátria Judeia? Será ele o homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o cárcere de uma alma melancólica e transcendente? O Rabi de Nazaré tem popularidade na Galileia; as suas máximas largas, onde cabem o pecador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria; a Perea é um país de profetas; o povo de Jerusalém sofre todos os dias a vexação de Roma; todo o país cultivado, que vai até Jopé, é infeliz, porque o tributo devora a seara. Poderá Jesus de Nazaré fazer este movimento popular? Porque a ideia de uma pátria perseguia-me, como uma voz que pede socorro.

– Porque não? – dizia eu – eu surpreendi já nos seus olhos uma vontade dura: porque há-de ele ser apenas abstracção, zomba, símbolo? E pensava em falar a Jesus de Nazaré. Estas ideias aliviaram-me, como inesperadas consolações.

O dia azulava-se, enchia-se de sol imortal. Eu sentia, junto aos pórticos, onde esperam as reses dos sacrifícios, o profundo mugir dos bois: tinha a sensação da Natureza verde, de tempos repousados, contentes.

O Templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga escadaria para o Pátio da Balaustrada: vi Jesus de Nazaré junto do pórtico onde estão as inscrições latinas e gregas de entrada defesa, cercado de galileus, de povo. Os de Jerusalém começavam a atender às palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação farisaica, e limitados num espírito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, nas parábolas do Rabi da Galileia: era o povo do baixo mercado, dos arredores de Betânia, de Betfagé, do Monte das Oliveiras. Os mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos farisaicos, tinham para a palavra do Mestre o riso áspero, o desdém, ou a indiferença.

O Rabi de Nazaré estava triste. Sentia-se decerto Isolado, sufocado, naquele mundo hostil, argumentador. Jerusalém devia pesar à alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da Galileia. as solidões consteladas, os pomares de Chorazim. Naquela alma passava-se uma luta dolorosa entre a fé, a convicção que o retinham em Jerusalém, e os seus instintos todos suaves, idílicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galileia! A sua vida até aí tinha sido larga, fácil como a sua túnica, toda penetrada do amor, da luz paradisíaca do. reino de Deus.

Em Jerusalém a sua vida seria de luta, de intriga, de hostilidade, de desdém. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da água, no ar doce das montanhas da Galileia, na leitura serena da sinagoga de Magdala, no amor humilde dos seus companheiros? O homem muito amado pode ser forte? A felicidade simpática, as intimidades femininas, a piedade dos velhos, podem dar a dureza, a altivez, a atitude indomável? Não, não: em presença daquelas poderosas hierarquias sacerdotais, da hostilidade minuciosa dos escribas, das oposições farisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalém, a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, nele, decerto maior do que a repugnância que devia fazer à sua alma virginal o escárnio, a argumentação vingativa, o opróbrio. Viver sempre na Galileia, pregar o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal-amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu idílio social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz! E estava ele bem certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria compreendida a sua palavra de amor, igualdade. perdão, pobreza., neste mundo todo egoísta, avaro, hierárquico, agonizador, político? Não ia ser repelido por um imenso desdém? Ele só pela sua palavra etérea, pela promessa do reino de Deus, como lutaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milícias, escravos frígios, colunas de mármore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edificações de Herodes, o Grande! Os galileus tomaram, nas suas feições e perfil, da melancolia do Mestre: eles, pobres camponeses ignorantes, sentiam-se esmagados no meio de tantos mármores do Templo, de tanta ciência de doutores, de tantas forças civis! Jesus ia com passos casuais pelos terraços do Templo: os seus olhos tinham um vago inefável: os discípulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas colunas incrustadas de jaspe, ou as lâminas de ouro do santuário: ele olhava, infinitamente triste, com um desdém abatido.

Eu estudava junto dele o movimento provável, lógico, das suas ideias: mas um grande rumor encheu o Templo.

Jesus de Nazaré estava nos altos terraços, donde se domina todo o baixo recinto do Templo.

Pelos pátios, pelas escadarias, aproximava-se uma multidão cheia de vozes, de gritos penetrantes.

Adiante, entre alguns da milícia sacerdotal, armados de paus, couraçados de peles de búfalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, fariseus, herodianos, inflamados de zelo, cheios das vinganças da lei, vinham em volta, com largos gestos de c6lera, ásperas imprecações. Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabelos negros desmanchados, os pés riscados de sangue, a túnica despedaçada, o rosto levemente aquilino, tomado de aflição.

A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores de pombas, os cambiadores de ouro: os escribas saíam do santuário vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavamse, os coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.

Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos fariseus, havia uma curiosidade bárbara: alguns subiam às balaustradas, e estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam avidamente: as aves de sacrifício assustadas esvoçavam, as reses balavam. Os sacerdotes revestidos à porta do santuário sobre a tripeça de bronze olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os pátios..

O Rabi de Nazaré estava no terraço, imóvel, sereno, cercado dos seus galileus: defronte dele havia um espaço batido do sol: os soldados pararam ali, e a mulher caiu sobre a pedra, sufocada, abandonada, torcendo os braços. Era alta, escultural, de fortes cabelos, com uma semelhança pagã.

Então, num grande silêncio, um escriba, que vinha, caminhou para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse: – Rabi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que foi achada em adultério nos pórticos do Templo.

– Lapidada. lapidada – prorrompeu a multidão.

Erguiam-se braços com paus; apareciam rostos Inflamados; sentiam-se os gritos agudos, arrastados, das mulheres.

Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava. Os soldados riam.

O escriba falava, com gestos abundantes: – Rabi – dizia – a lei de Moisés, a nossa lei, diz que a mulher adúltera deve ser lapidada; mas tu, que a comentas, explica a Lei; o que pensas tu, Rabi? Jesus olhou o escriba, serenamente.

– O Rabi de Nazaré perdoa sempre esses pecados – gritou alguém entre a multidão.

Sentiram-se risos. Um velho, áspero, adunco, gritava: – Ele vive com as mulheres possessas; ele vive com os publicanos! E um fariseu bradou: – É o Salomão das mulheres perdidas.

Toda a multidão riu largamente; mas o escriba mostrava o plilectério onde anda escrita a Lei, e exclamava: – Ouve bem, Rabi, a lei de Moisés manda-a lapidar.

O povo cruel dizia num clamor: – Lapidada, que seja lapidada! Alguns fariseus gritavam: – E o Rabi, e o Rabi de Nazaré! Os sacerdotes, escandalizados, faziam ver os centuriões da milícia templária. A multidão era espessa; os mendigos apregoavam posca; os vendedores de Betfagé mostravam pombas enfeitadas de escarlate; os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo os salmos, pedindo dracmas; da Torre Antónia cabeças de legionários espreitavam.

Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou: – Essa é a mulher de Jesus Bar-Abbás.

Uma risada sonora, pesada, tomou o povo os soldados apertavam as costelas; os sacerdotes, junto às portas da ara, riam nas suas longas barbas, fazendo oscilar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto os fariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo: – Esse Rabi de Galileia quer que seja perdoada; é um homem impuro, que despreza a Lei.

Alguns queriam levar o Mestre diante do Sinédrio.

Mas na multidão havia uma oscilação; sentiam-se gritos, risadas joviais, vozes; o povo afastava-se; e de entre a sua escura espessura vinha empurrado, repelido, atirado, um homem.

E vozes alegres bradavam: – Aí vai Jesus Bar-Abbás, aí vai! O homem esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, nessa áspera inquietação, como um boi espantado, junto de Jesus..

Era Bar-Abbás.

Viu a mulher soluçando, caída sobre as largas lajes.

E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com ambas as mãos, violentamente, uma ponta da túnica, estendeu-a para a multidão, gritando: – Quem dá para o luto? O povo ria; bradava: – Lapidai-a, lapidai-a! Bar-Abbás dizia: – Lapidai-a, dai-me para o luto! E ria, com grandes contorções, com visagens. A mulher chorava.

Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os fariseus, os escribas diziam que o Rabi queria o perdão, o desprezo da Lei.

– Fala, Rabi, fala – gritavam-lhe de entre a multidão. Mas Jesus olhava sereno, calado.

Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente, colérica, bradou: – Sim, sim, povo de Jerusalém, o Rabi de Galileia despreza a Lei, quer o perdão da mulher adúltera.

Ergueu-se um clamor inimigo; alguns, zelosos, erguiam paus, pediam a morte.

Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, irritado: – Quem te disse que o Rabi de Nazaré perdoa à mulher adúltera? Ele manda lapidá-la.

Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua estatura, para a multidão, com um olhar inflamado de luz, disse: – Sim, lapidai-a, e aquele de vós outros que se julgar sem pecado, que lhe atire a primeira pedra! A sua voz era forte, côncava, misteriosa, assustava.

A imensa multidão estava calada, absorta; alguns rumores elevaram-se: os fariseus, os escribas afastavam-se, rosnando. Alguns velhos, choravam: vozes diziam: – o Messias, é o Messias! – Todos se dispersavam. Os largos pátios reluziam ao sol, quase desertos.

Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os fariseus, em grupos irritados, concertavam, à porta do santuário, entre os centuriões da milícia templária.

Eu que tantas vezes assistira às lapidações de adúlteras, estava concentrado, absorto: aquela palavra, calda no meio da minha educação judaica, perturbava toda a organização do mundo interior que nos habita. Alegrava-me em ver, com uma palavra simples e genial. a hipocrisia de uma raça ferida na sua essência: tinha admirações Inesperadas pelo espírito harmonioso do Mestre da Galileia.

– Sim, sim – dizia eu – Jesus de Nazaré, pelo seu génio simples e justo. pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela influência poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez, a ser a regeneração de Israel.

Se ele tem apenas o espírito, eu terei por ele a força. Ai de mim, ignorado. fraco, tímido, mais especulativo que activo, como poderia eu ser o homem decisivo de uma insurreição? Mas o tédio da vida presente, uma mocidade ávida de acção, o desdém irreconciliável pelo Templo, e pela sua gente, o prestigio que em mim tinha a vida do agitador judas Galaunete, tudo isso, e o desejo de me aproximar do Mestre da Galileia me levou a procurar Jogo, de Cafarnaum, e a pedir4he. simplesmente, rapidamente, que me levasse a Jesus de Nazaré.

João disse-me que à noite estivesse junto à Porta dos.

Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra Shalon. que era a saudação usada do Rabi, que o seguisse. e pela noite alta falaria a Jesus.

Uma trémula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com aquele homem, a gravidade das Ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais pronto de fé.

IX À hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares que têm a sua raiz na encosta onde assenta o bairro de Bezeta: era num horto, junto ao Monte das Oliveiras, que eu ia ver Jesus de Nazaré.

A noite estava cheia de um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob as largas ramagens: um silêncio doce ocupava a terra. Ouvi apenas um canto, triste, arrastado alguma pobre mulher embalava O filho, chorava o marido levado para as legiões de Roma.

O homem que me guiava abriu uma porta. estreita, de vime: entrei num espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura de água. cheiro de plantas.

A Lua alumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de pedra: aí, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro, o olhar afogado no espaço alumiado, estava Jesus.

Ergueu-se. lentamente, e disse: – Paz.

– Paz e alegria. Rabi – disse eu. – Velavas? – Velo sempre. Bem-aventurado o que vela! Ele é como o servo diligente, que espera acordado ó seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente chegar, corre logo a abrir.

Jesus calou-se, perdendo o olhar no inefável espaço luminoso.

Eu aproximei-me, e com uma voz profunda. convencida, disse: – Creio em ti, Mestre! Jesus olhava, enlevado, transcendente.

Havia um silêncio; eu estava constrangido, e dizia para o chamar às nossas comuns imaginação: – Rabi, o que é necessário, segundo pensas. para alcançar feliz a vida eterna? Jesus pousou em mim, demoradamente. os seus olhos severos.

– Serves o Templo – disse – serves a Lei, e não conheces a Lei; a Lei que diz? – A Lei – disse eu – ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros como a nós.

– E eu digo como a Lei.

E olhava-me, penetrantemente: falava como num sonho, ou a alguém invisível, – Não se pode servir bem a dois amos: um deles se há-de desprezar, outro servir.

Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.

Compreendi que o Rabi não tinha confiança em mim: que me julgava um emissário do Templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho Contra ele.

Respondi com uma dignidade dura: – Tens para mim palavras desconfiadas, Rabi. Chama João. Ele sabe que creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos que o Sanedrim põe por trás das portas dos blasfemadores da Lei. O meu corpo serve e vive no templo, mas muitas vezes o meu espírito tem andado contigo, em desejo e em verdade, no teu lago de Tiberíade. Chama João.

O Rabi considerava-me atento..

– O homem – disse ele – dá testemunho do homem: só Deus conhece os corações.

– Pois bem: tu, que segundo dizem, és hoje o maior vidente de Israel, tu julga, ou condena minha alma.

Dizia isto grave, firme, áspero. Jesus de Nazaré, com o rosto esclarecido, disse-me docemente: – A fé salva.

E depois de um momento: – E quem dizem então os de Jerusalém que eu sou? – Uns, Mestre, dizem que és Elias, ou o Baptista ressuscitado, outros que és o Messias; os fariseus pensam que és um blasfemador ambicioso, ou um simples sincero, a maior parte ignora-te: esta é a verdade.

– E tu quem dizes que eu sou’ – Eu, digo que és um homem justo, e uma elevada consciência das coisas divinas.

Digo que és um homem mandado providencialmente, num tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hipocrisias, vingar a pátria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve ser insurgires-te contra a aristocracia do Templo, contra este espírito estreito de Jerusalém, contra este culto pagão das tradições, contra o fariseu e contra o romano, ser o consolador, ser o vingador! – Homem, em que espírito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a perdê-las.

– E é perdê-las. torná-las justas? É perdê-las, o combater este sacerdócio rico e indiferente, este culto ensanguentado e hipócrita? É perdê-las o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbítrio dos favoritos imbecis de Tibério? – Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.

– Perdoa, Rabi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te pergunto eu agora? Queres ficar eternamente pregando e contemplando no lago de Tiberíade, e andar errante pelos casais? E pensas que isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha seca? Pensas fazer uma revolução na Judeia, acariciando as cabeças loiras das crianças de Chorazim, e contando parábolas, entre os campos, aos simples e às mulheres? Compreendo que a tua ambição não seja maior, e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. Mas então para que vieste a Jerusalém? Para que pregas no Templo? Se tu não és uma iniciativa revolucionária, o que és então? Que és tu, se não és uma forte Intensidade de vontade? As máximas que tu pregas são de Hillel. são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que há coisas novas no teu ensino, mas o que nelas há de grande é a tua força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor do sacrifício, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é a tua mãe de Caná? Não podia teu pai ser levado legionário para Roma? De que nos servem essas parábolas, essas ironias, essas respostas excelentes, se elas não vão ferir a riqueza do saduceu, a hipocrisia do escriba, a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as prédicas do Templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade abstracta, podem combater, vencer um mundo completo, organizado, civil, rico, amado? imaginas que se pode repetir o milagre das trompas de Jericó? Crês tu que um mundo inteiro, tribunais, templos, ofícios, mercados, sacerdócios, escolas, tudo fortemente ligado, se dissipe como uma visão, porque um homem simpático se ergue num caminho e diz: «Amai-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pai celeste!» Não! tal não será, Rabi! – Pela vossa incredulidade! que se tivésseis a fé tanto – eu sei? – como um grão de mostarda, e dissésseis àquele monte: passa-te daí!, o monte passaria! Oh! geração incrédula, geração incrédula, até quando estarei entre ti?.

O Rabi dava largos passos, atormentado, doloroso.

– Rabi, Rabi, escuta-me. Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós sofremos e choramos muito baixo na terra.

Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia: – Escuta, Rabi: consinto que só pela tua palavra, tu possas realizar o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileus simples, liga-te aos homens que têm a força, a ciência e o segredo das coisas humanas: nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias na Judeia. nada se faz sem um profeta! Como tens tu pensado realizar o teu reino de Deus? Pela doçura e pela paciência. ou pela força e pela revolta? Não podes hesitar, se pensas.

Queres fazer um renascimento, com os galileus que te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, com os miseráveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as crianças que te sorriem? – Deus esconde muitas coisas aos sábios, que revela às crianças.

– Para que pregas então no Templo, contra os fariseus e os príncipes? – Deixa pelo espírito dos simples e crianças operar-se a regeneração! – Na verdade, Rabi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que só ø teu ideal pode dar felicidade e sossego? Professas tu o desdém? – Só o desdém dá a paz.

– Dá a inércia, o sacrifício e as virtudes passivas. E se amanhã tu pudesses começar a ver realizado no mundo esse reino dos pobres, dos simples dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada para a tua palavra? Se Visses tudo transformado por uma acção enérgica, revolucionária, pela nossa acção? Jesus caminhava, inquieto, o seu olhar vibrava. As minhas palavras davam-lhe inesperadas perturbações.

Nós víamos o Templo luzir na branca polidez da pedra sob o Luar: eu dizia-lhe, profundo: – Olha, vê o Templo, hoje ali tudo é intriga, artifício, aparato, riqueza, sangue, hipocrisia, vaidade: amanhã seria o lugar mais santo da Terra.

Jesus cobria o Templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto à face: – Ouve: em Jerusalém há descontentes: alguns membros do Sanedrim estão irritados com a família de Elanan, com Beotos; Gamaliel não ama o Templo; o baixo povo do mercado detesta fariseus e escribas, é nosso; a Galileia é nossa, a Perea é nossa; mandar-se-ão emissários a Jopé: toda a Judeia se erguerá: tu serás o profeta. Queres? O teu sonho do lago de Tiberíade será então vivo, real, palpável, existente sob as nuvens! – Queres? A noite era imortalmente bela: havia uma bondade no ar: o mundo parecia-me possuído de um elemento diverso.

Eu falava confusamente, ora contra os fariseus, ora contra os romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal, nem a inércia de um povo egoísta. Uma grande tentação cativava o espírito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos: – Rabi, Rabi, depois do fariseu, será a vez do romano. Tu serás o maior da Judeia: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, terás aniquilado o hipócrita, terás expulso o romano: serás pela justiça igual a Ezequiel, pela força igual aos Macabeus: serás como David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de Israel.

Eu falava exaltado: mostrava-lhe Jerusalém e dizia-lhe: – Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!.

Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e transcendente o céu cheio da Lua serena, o inefável silêncio, a pura beleza do elemento, o profundo mistério onde Deus habita, disse-me: – Vai-te: o meu reino não é deste mundo.

Olhei longamente o Rabi, lamentei o seu desdém, sorri da sua palavra: e calado, concentrado, saí pelo caminho de Betfagé.

Uma claridade aparecia: os galos cantavam. No outro dia, pela hora da tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galileia! [1] Quando, em 1875, começou na Revista Ocidental a publicação de O Crime do Padre Amaro, Teixeira de Vasconcelos escreveu: «Nasceu na Gazeta de Portugal Eça de Queirós e assustou por diferentes vezes os espíritos serenos dos pacificas leitores dela. Não passaram sem observações nossas alguns dos seus realismos exagerados...» Jornal da Noite, 20 de Fevereiro, 1875, Lisboa.

[2] Veja-se Antero de Quental, «In Memoriam» Eça de Queirós, um Génio Que Era Um Santo», pp.

499-502; J. Batalha Reis, «Anos de Lisboa», idem, 442-445, Porto, 1896.

[3] Hoje, Rua do Diário de Notícias.

[4] In A Correspondência de Fradique Mendes..

[5] Veja-se a «Carta a Carlos Mayer»..

[6] «Na Europa o Sul representa... a maneira de ser exterior, como o Norte representa o vago sentimento íntimo...» Eça de Queirós. «Da Pintura em Portugal», Gazeta de Portugal, 10 de Novembro de 1867.

[7] «...Nós... os que estamos neste canto da velha terra portuguesa, com a alma serena, sob o céu claro...» Eça de Queirós, «Sinfonia de Abertura», Gazeta de Portugal, 7 de Outubro, 1866.

[8] «Du Heine de deuxième qualité», Antero de Quental, «Carta a Wilhelm Storck», 14 de Maio, 1887.

[9] Há como se sabe muitas poesias de Heine em verso solto: «Das Nordsee»; etc.

[10] Colégio do Roeder, na Rua do Prior, Lisboa.

[11] H. Heine, «Reisebilder». «Les nuits florenthines», II, pp. 316 e 330 (cito a tradução francesa que Eça de Queirós conheceu); H. Berlioz, «Les Soirées de l’Orchestre» – 16ª, «Paganini», pp. 218-219,2ª ed., Paris, 1854. Depois de contar o episódio que realmente nada tem de fantástico, Berlioz escreve:«Supposez Théodore Hoffmann à ma place: quelle touchante et fantastique élégie il eût ecrit sur ce bizarre incident.» (P. 219.) Foi o que fez Eça de Queirós..

[12] Veja-se «Notas Marginais».

«Luzia um grande Sol, mas negro; o Sol da melancolia...) «Sinfonia de Abertura», Gazeta de Portugal, 7 de Outubro de 1866.

«Un affreux soleil noir d’où rayonne la nuit!» A expressão «Sol negro» é hoje, em parte, cientificamente verdadeira: os raios ultravioláceos da luz solar, podem chamar-se negros, e não são nem luminosos, nem quentes.

Vítor Hugo, «Les Contemplations, (ce qui dit tu bouche d’ombre).

[13] «La guitarre des monts d'Inspruck...» V. Hugo. «Légende des Siècles», Eviradnus.

[14] Veja-se «O Milhafre», «Misticismo Humorístico», no presente volume, e A Correspondência de Fradique Mendes, «Introdução», passim..

[15] «...Baudelaire, Poeta Retórico...» A. Z. (Eça de Queirós), «Leituras Modernas», Distrito de Évora, 6, Janeiro 1876, p. 2. A Correspondência de Fradique Mendes.

[16] Veja-se as quadras em «O Senhor Diabo», no presente volume. e Bernardim Ribeiro, Livro das Saudades, romance de Avalor: com as «Notas Marginais», no presente volume.

[17] Cujas poesias, muito conhecidas desde que foram compostas, só em 1875 apareceram coligidas em volume.

[18] «O Monge», destruída pelo autor e nunca publicada.

...aux voûtes gothiques Des portiques.

Les vieux de pierre athlétiques Priant tout bas pour les vivants! A. de Musset, «Prémières Poésies», Stances, 1828..

[19] Gazeta de Portugal, 7 de Outubro de 1866.

[20] «Constelações, gotas de sombra», in «O Milhafre»..

[21] Veja-se Vítor Hugo, «William Shakespeare»: principalmente, livre II, «Les Génies.», II.

Veja-se também «Macbeth» no presente volume.

[22] Veja-se uma outra profunda definição de Música em «Macbeth», no presente vo1ume.

«A Música deve ser a voz de tudo aquilo que ali está silencioso. sem ter a faculdade de se exprimir e nós termos a possibilidade de o compreender.» É de notar que «Macbeth» reproduzido nas Prosas Bárbaras foi escrito em 1866. Entre os compositores de ópera mencionados nesse escrito de Eça de Queirós, não se acha citado o Ricardo Wagner, cujas óperas, «Tanhauser» (1845) e «Lohengrin» (1850), já existiam. É que essas obras não tinham ainda sido executadas em Lisboa..

[23] «Oh, egoísmo humano, os que vão morrer saúdam-te!» Eça de Queirós, «O Milhafre», «Introdução», Gazeta de Portugal, 6 de Outubro de 1867.

[24] «De l’Allemagne». «Les Dieux en Exil», IX partie, pp. 181-242. «La mer du Nord», «Les Dieux de la Grèce» (cito as traduções francesas que Eça de Queirós conheceu).

[25] «La Sorcière».

[26] Veja-se XIII de «Notas Marginais».

[27]As visões «são as atitudes fantásticas e desmanchadas que a sombra dá às verdades»: «Misticismo Humorístico», no presente volume.

«...à ceux qui ont mis leur foi dons les rêves comme dans les seulets réalités.» Edgar Allan Pöe, Eureka, trad. de Ch. Baudelaire que Eça de Queirós conheceu: «...to those who feel rather than to those think – to the dreamers and those who put faith in the dreams as in the only realities...» Edgar Allan Pöe, idem, II, p. 117. 1876, New York.

[28] Quando se deu, em Paris, o Hamlet com música de Ambroise Thomas, Augusto Machado leu-nos ao piano a partitura.

Há nela uma cantiga fantástica popular norueguesa que eu ouvi mais tarde a Cristina Neilson, que era escandinava, e impressionou francamente Eça de Queirós.

A poesia dessa canção é uma balada sobre assunto fantástico do Norte que então preocupava o espírito de Eça de Queirós.

Desde então ouvia-se cantarolar, a meia voz dolorosa e melodramática, como seguindo as suas visões: «Calme et blonde, dort dans l‘eau profonde la Willis, au regard du feu...».

[29] «Onfália Benoiton», Gazeta de Portugal, 15 de Dezembro de 1867.

[30] Os versos citados na Revista Moderna (20, Novembro 1897, p. 324) não são de Eça de Queirós.

Nunca ele publicou na Revolução de Setembro, em folhetins – como também na Revista Moderna se afirma – os primeiros cantos de um poema, «A Tentação de S. Jerónimo». Existe, com efeito, de Eça de Queirós, mas inédito, um poemeto intitulado «A Morte de S. Jerónimo»..

[31] Revolução de Setembro, 29 de Agosto de 1869..

[32] Depois conde de Resende.

[33] Oficial da marinha portuguesa, e desde 1881 cônsul-geral de Portugal nas ilhas Sandwich.

[34] Veja-se o tom em que Eça de Queirós fala dos seus escritos no Gazeta de Portugal, ao tempo da viagem ao Egipto, in A Correspondencia de Fradique Mendes..

[35] Uma revista francesa (Artiste) havia, em 1856, publicada alguns fragmentos desta obra cuja versão definitiva só apareceu em 1875.

[36] 36 Nem o humorismo, nem a ironia, existem no espírito e na literatura portuguesa.

Camilo tem a graça, a chalaça, o sarcasmo. Não é irónico, nem humorista.

Queirós, sim: por isso é tão pouco português no estilo e nas formas do seu espírito, se bem que o seja nos assuntos dos seus romances de pois das Prosas Bárbaras.

A ironia, tão essencial e típica parte da sua personalidade, da sua estética, do seu estilo – de seu mestre, Reine – não aparece ainda então (no tempo das Prosas Bárbaras).

[37] Veja-se no presente volume.

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