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São Cristóvão

Eça de Queiroz

Capítulo XVI

Percorreu então longas terras. E por cidades e campos só buscou na simplicidade do seu coração ser útil e bom. Batia à porta das cabanas, perguntava se eram necessários ali dois braços fortes, para todos os trabalhos. Não pedia salário. A côdea menor de pão era a que lhe bastava. E a água tinha-a nos regatos mais frescos. Nenhum serviço por mais forte, ou vil, lhe custava. Limpava todas as imundícies, com um cuidado piedoso: e pedia sempre para si o maior fardo. Tirava a machada das mãos dos lenhadores, para abater as florestas. Puxava os barcos à sirga. Atrelava-se aos varais dos carros. E se um camponês queria mandar o seu burro à igreja, para ser benzido e liberado de todo o mal, ele carregava o burro às costas, com tanto cuidado como se fosse uma donzela. Se o injuriavam, baixava a face humildemente. Se o espancavam, ficava imóvel e quieto sob os golpes. Se o despediam, apanhava o seu bordão e saía suspirando.

Nos caminhos, sentava-se nas encruzilhadas para guiar os peregrinos ou histriões. Se havia algum grande lamaçal, ficava à beira dele para passar aos ombros os homens e os animais. Era ele que partia as rochas, para se construírem caminhos. E nas florestas onde sabia que deviam passar caravanas de mercadores, acendia grandes fogueiras para afugentar os javalis.

Por vezes aceitava servir só um amo. Foi assim o servo de um curandeiro e puxava, como um macho, a grande carriola, onde tilintavam os boiões das ervas simples e dos ungüentos, e que parava nos adros das igrejas à tarde, depois das missas. Mas sentindo que o físico era interesseiro e duro — deixou o serviço. Foi depois o escudeiro de um cavaleiro errante, que encontrou banhando a ferida de uma perna à beira de uma fonte. Cristóvão sarou-lhe a ferida, e começou a seguí-lo nas suas aventuras, caminhando, atrás do seu corcel, com uma maça feita de um pinheiro. Com o cavaleiro fez grandes proezas. Libertou servos que um Senhor duro levara a enforcar por eles não lhe terem tirado o barrete na estrada; desbaratou salteadores que infestavam os bosques; restituiu a um órfão o condado que lhe haviam roubado parentes avaros: — mas, como o cavaleiro tivesse ajudado a salvar uma dama, veio a casar com ela, teve um solar, abandonou os caminhos, e Cristóvão não querendo ficar naquela ociosidade, deixou o bom cavaleiro, levando, como paga, uma bolsa farta de ouro, bons vestidos quentes, que ele logo distribuiu aos pobres.

Então, seguindo o exemplo do cavaleiro, passou a socorrer os oprimidos. De noite, ao passar pelos castelos, derrubava as forcas patibulares. Se sabia de um campo que fora roubado, forçava o ladrão à restituição. Salvou os bandos de mercadores que os Senhores, com grandes lanças, assaltavam nos caminhos para os roubar. Onde soubesse que o Senhor tinha imposto um trabalho excessivo aos servos, ia ele, não outro, fazer o trabalho. Nunca diante dele deixava castigar uma criança. Se, passando num casal, ouvia uma mulher chorar, e rumor de pancadas, quebrava a porta, tirava o pau das mãos do marido. Quando soldados deviam passar numa aldeia, ele ficava de guarda, para impedir as crueldades da tropa. E ninguém ousava afrontá-lo. Já ia, então, envelhecendo. Os seus cabelos tinham se tornado mais crespos, hirsutos: trazia sobre o corpo farrapos, e a barba era rude e forte como um mato. Sob a barba, e sob as sobrancelhas ficava invisível a doçura incomparável do seu olhar, do seu sorrir — e para os que o viam, na verdade o seu aspecto era horrendo e temeroso.

Quando entrava nas cidades, as crianças fugiam, todas as portas se fechavam — e os homens de guarda acudiam a saber de onde viera, a que baronia pertencia, e se tinha licença de vaguear nos caminhos. Ele respondia que só queria trabalhar: e tão humilde e quieto ficava, junto de uma fonte ou ao canto de uma praça, que bem depressa as portas se abriam, e, já sorrindo, as crianças voltavam. Todas faziam lembrar a Cristóvão a Joana da sua aldeia. A essa hora ela devia ser mulher, e talvez, por seu turno, trouxesse pendurada das saias uma criança loura e graciosa como ela fora. Chamava algumas das crianças espantadas, fazia-as saltar sobre os joelhos. Das gelosias as mães sorriam. Já ninguém receava o gigante — e ele sentido-se aceite, começava logo a ajudar as trolhas que erguiam uma casa, ou a um empurrar um carro atolado nas lamas. Bem depressa, todos queriam os serviços daquela força imensa. E era ele que limpava os mercados, caiava as torres de fresco, transportava os fardos, apanhava a neve dos rios no Inverno, regava o pó das ruas no Verão, consertava os telhados, apagava os incêndios — e, sentado à porta dos hospitais, ia enterrar os mortos pobres. Colando a face às altas grades das prisões, consolava os presos, ajudava nos seus trabalhos os forçados, e tendo reunido o seu salário em pão ou em dinheiro, sentava-se num adro, e distribuía-o pelos mendigos.

Ora um dia, saindo de uma cidade, encontrou no caminho um pobre histrião, com uma perna de pau, e acompanhado pela mulher doente, que amamentava o filhinho. Eram tão miseráveis e tristes, ele com uma espada debaixo do braço, ela suspendendo aos ombros um saco de bolas e peloticas, que Cristóvão começou a caminhar ao seu lado. Assim soube que outrora percorriam os caminhos e as feiras, ganhando amplamente a sua vida, e (desde que ele, numa queda, perdera a perna) mostrando cães sábios e um macaco, que faziam sortes maravilhosas. Havia dias, porém, estando numa taberna, numa estrada, a repousar, tinham chegado os escudeiros e homens de armas de um Senhor, que, embriagados, e numa rixa, lhe tinham, a grandes cutiladas, morto o macaco e os pobres cães. Com eles se fora a sua fortuna. Trabalhar não podia, assim manco. E agora só lhes restava mendigarem, até que o frio, a fome, os prostrassem uma noite, a eles e à criança, mortos à beira de um caminho. E o saltimbanco acrescentava: ?Bem feliz és tu, que te fez Deus tão grande, e te podes mostrar nas feiras ganhando mais que um letrado a escrever!? — Decerto, o saltimbanco o tomava a ele, Cristóvão por um desses gigantes que se mostram nas feiras. E apenas assim pensara, Cristóvão, com simplicidade, propôs ao saltimbanco que a troco do pão, e da metade do ganho, o levasse a uma feira, para o mostrar numa barraca. O pobre saltimbanco quase chorou de alegria — e logo dali partiram para uma grande feira, que todos os anos, pelo S. Miguel, se fazia junto de uma grande cidade murada.

Chegaram lá de noite, e tendo obtido licença dos guardas para entrar, o saltimbanco foi logo a um desses judeus que trocam dinheiro, pediu emprestado o que era necessário para construir uma barraca, erguer os estrados, lonas vermelhas, e possuir um tambor que anunciasse o gigante. O judeu, tendo examinado Cristóvão e certo que era um monstro de boa mostra e de boa renda, contou, uma a uma, dez peças de prata na palma do saltimbanco: — e tendo assinado o papel diante do corregedor da feira, o saltimbanco partiu com Cristóvão, a construir a barraca. Toda a noite trabalharam, pregando, martelando, enquanto a mulher do palhaço cosia à pressa uma túnica escarlate para Cristóvão.

Ao outro dia tudo estava pronto, e posta sobre dois postes a grande peça de paninho branco, em que se anunciava o maior gigante e o maior atleta de Navarra e dos Mundos. Cristóvão, sentado numa vasta caixa que um tapete recobria, esperava, enquanto fora o saltimbanco, tocando o tambor, anunciava a maravilha, e a mulher, com cequins de metal nas tranças caídas, como uma moura, esperava diante de um prato de cobre, onde deviam cair as entradas.

A feira era enorme, num vasto prado que defrontava com os muros da cidade. As barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam-se em grandes ruas. No topo dos mastros flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados como orientais, mulheres com plumas nas cabeças, outras com trajes de nações estranhas, conservavam-se por trás dos balcões, onde, segundo a rua, e os mesteres, se desdobravam panos, reluziam jóias em caixas gradeadas, se perfilavam os frascos de essências, se amontoavam as peles, se confundiam as armas tauxiadas. Noutras ruas, sob tendas de lona, havia cozinhas, grandes barricas de cerveja ou e vinho. E os saltimbancos ocupavam um lugar perto do rio, que longos olmeiros assombreavam. Em volta, por toda a vasta planície, era uma confusão de carros descarregados, de pilhas de madeira, de cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos onde se debatiam aves...

Apenas as portas da cidade se abriram, a multidão começou a encher as ruas da feira, onde a erva desaparecera sob os pés. E bem depressa começou o vozear dos pregões, os brados dos que chamavam fregueses, os atabales tocando à porta das tabernas, as sinetas repicando.

Mas ninguém fazia maior barulho que o saltimbanco coxo, rufando desesperadamente o tambor, diante da tenda onde aquele bom gigante esperava, pensativo. Bem depressa, homens do burgo, mulheres com crianças pela mão, os feirantes, começaram a entrar, deixando cair uma moeda de prata no vasto prato de cobre. E apenas se levantava a cortina, era em todos os lábios um longo ah! lento e maravilhado. A barraca era alta, em forma de torre: — e, vestido com uma longa túnica escarlate, bordada a lantejoulas e ouropéis, com um turbante onde ondeavam enormes plumas verdes, um colossal alfanje de pau passado na cinta amarela, Cristóvão era, na verdade, um assombro, e como um ogro disforme dos contos de fadas. Cheio de timidez, não movia os braços: e um grande rubor invadia-o todo diante daquelas faces atônitas, onde havia terror da sua força, e como uma piedade da sua deformidade. As crianças escondiam-se nas saias das mães: — e os homens espantados, queriam apalpar a rijeza dos seus músculos. Cada grupo que saía ia contar nas tabernas, espalhar por toda a feira a maravilha daquele gigante. Já uma lenda circulava — e era ele, não outro, que derrotara o imperador da Ocitânia, matara um grande dragão que infestara os Algarves, e, só com a empurra, derrubara a torre construída pelo Diabo para o Roberto de Normandia. Todo dia uma grande fila esperou à porta da barraca — e à noite sobre o prato de cobre havia um monte de dinheiro esboroado.

Pouco a pouco, Cristóvão habituara-se à multidão — e mesmo, para fazer rir as crianças, fazia esgares, ou agarrava um homem pelas pernas e erguia-o como uma palha ligeira. Depois levantou com dois dedos uma barrica cheia de pedras, torceu com os dentes grossas barras de ferro, e de uma só pancada, com o punho fechado, fendeu uma mó de moinho.

À noite estava coberto de suor: — e enquanto o saltimbanco e a mulher, com a face radiante, faziam as pilhas do dinheiro, ele tomava ao colo e embalava a criancinha, que nos seus braços tinha um sono mais doce.

A sua fama correra no burgo — e o próprio príncipe que ali reinava, e o bispo, vieram em grande comitiva, com cavaleiros e pajens, ver o gigante. Foi grande neles a maravilha. E o príncipe, homem de grandes músculos, queria media as forças com Cristóvão, jogando a qual deles vergaria a mão do outro. E diante daqueles cavaleiros, por humildade, Cristóvão cedeu, e deixou que a mão cabeluda do príncipe vergasse a sua. Os cavaleiros aclamavam o Senhor. E o príncipe, radiante, despejou a sua bolsa cheia de ouro nas mãos de Cristóvão, isentou a barraca do saltimbanco de todos os impostos ao corregedor, e mandou, de noite, moços da cozinha com tochas, trazer uma perna de veado e empadões de sua mesa.

Toda a noite, os saltimbancos, partindo o dinheiro, dava a sua metade a Cristóvão — que ele guardava numa cova, a um canto da barraca, coberto com uma mó de moinho. Depois ia pela feira solitário, e todo o serviço era ele que o fazia. Carregava as barricas de vinho, descarregava os fardos, limpava o chão das barracas, e, à porta das cozinhas, fazia a lavagem dos pratos de estanho.

Mas o fim da feira chegara, e uma noite, em que sentia o barulho das barracas que se desmanchavam, o saltimbanco contou os seus ganhos — e as lágrimas bailaram-lhe na face, porque para sempre estava ao abrigo da miséria. Então Cristóvão desenterrou o seu tesouro e, em silêncio, veio juntá-lo ao dinheiro do saltimbanco, murmurando: ?É para a criança?. Duas moedas de cobre tinham rolado no chão. Cristóvão apanhou-as, beijou-as como uma esmola que lhe atirassem, beijou a criança, saiu da barraca. E, tendo comprado uma broa e um pichel de vinho, deixou a feira que se desmanchava.

Capítulo XVII

De novo Cristóvão correu o mundo, servindo os homens. Pelos descampados e pelos povoados, por longos Invernos, por longas Primaveras, correu o mundo, oferecendo os seus braços. Os anos tinham passado, e Cristóvão era mais velho que os mais velhos carvalhos. Os seus longos cabelos tinham embranquecido, e a sua força já não era tão forte. Mas cada dia o seu coração se enchia de uma ternura maior e mais vaga. Por vezes, sentado numa pedra, à beira de um caminho, olhava as árvores, os campos, os montes, e as simples flores silvestres, e sentia então como o desejo de apertar toda a terra contra o seu peito. Depois pensava que sobre ela viviam tantos miseráveis, tantos humildes, tantos enfermos — e era um desejo de sondar até aos últimos recantos aquele mundo, e de curar cada dor, matar cada fome, tornar o mundo alegre, são, perfeito. Partia então — e através das estradas mendigava para dar aos mendigos. Colocava-se à entrada das pontes, como um socorro sempre pronto — a ajudar um velho ou a carregar um fardo. O seu desejo seria sofrer ele só todas as opressões, carregar ele só todos os fardos humanos. E por vezes parava, olhava em redor, como procurando, nos vastos horizontes, serviços a prestar, fraquezas a socorrer. Depois pensava que eles, inumeráveis decerto se apresentariam cedo aos seus olhos; e partia, ficando triste, quando durante o daí os seus braços tinham permanecido ociosos. Para que lhos dera então Jesus tão grosso e fortes? Ia então sentar-se à entrada das pontes, onde a passagem era maior, como uma força pronta a trabalhar, pronta a socorrer. Se era um cavaleiro que passava, corria a buscar água para dar ao cavalo. Se era um carreteiro, ajudava as mulas a empurrar o carro. Se era um mendigo, mendigava para ele.

Pouco a pouco, a sua bondade ocupou-se dos animais. Também eles sofriam e tinham sobre a Terra o seu quinhão de miséria e de dor. Quando via então um animal carregado, tomava sobre os seus ombros o fardo. Recolhia ossos, pelas esquinas dos mercados, para distribuir aos cães famintos. era o enfermeiro dos animais feridos, a quem lavava as chagas, onde as moscas se prendiam. Um passarinho, voando, enchia-lhe o peito de ternura. E penetrava nas florestas, na esperança de cuidar dos velhos lobos doentes, ou dos veados que morrem de fome pelos tempos de neve.

Depois, pouco a pouco, na sua alma densa e simples veio a nascer lentamente a idéia de que as árvores também sofriam, bem como as florinhas dos campos. E desde então nunca mais cortou um tronco, para dele fazer um cajado. Todo o ramo, partido e seco no chão, o compadecia. Arredava-se para não pisar a erva. E pelos tempos de seca fazia longas caminhadas ao rio para trazer água, e dar de beber às plantas sufocadas pelo pó dos caminhos. Nas pedras mesmo, veio por fim a suspeitar que havia algum sofrimento. A picareta que as cortava, as duras rodas que as vincavam, o sol que as escaldava, a neve que as cobria, não lhes fariam uma dor, que elas guardavam na profundidade da sua mudez? E muitas vezes, com o seu vasto corpo, fez sombra às rochas: com as suas mãos, à maneira de longas pás, livrava as pedras da frialdade do gelo.

A sua ternura abrangia o Universo. Por vezes, de noite, olhando o céu, vinha-lhe como um grande amor pelas estrelas. Elas eram claras e puras. Um momento brilhavam, depois partiam. E a Lua que chegava então era tão triste, que um suspiro, sem som, levantava o coração de Cristóvão. Para onde iam assim todos aqueles astros, correndo, correndo? E viera a pensar que seriam almas subindo, subindo nos espaços, mais altas à medida que eram mais puras, ganhando uma légua por cada bondade que realizavam, e tendendo assim à perfeição, até se tornaram dignas de se abismar no seio sublime de Jesus.

Capítulo XVIII

Assim envelhecia aquele bom gigante. Ora, um dia que caminhava por uma colina ente rochedos, ouviu um rumor de vozes que parecia vir do fundo do despenhadeiro. Desceu, agarrando-se à ponta das rochas. E viu um largo rio, negro e tumultuoso, que corria espumando sobre as rochas que o cortavam, com um mugido sombrio. À beira dele, estava um grupo de mercadores com os seus machos carregados. E do outro lado, eram rochas, a pique, um monte que se elevava, coroado de negros pinheiros.

Cristóvão desceu, apareceu diante dos homens. Todos se juntaram, tirando facalhões do cinto, no terror daquela força e daquela deformidade. Depois, como ele de longe lhes falou com humildade, todos, pouco a pouco, o cercaram, perguntando o que acontecera à ponte que ali havia. Cristóvão não sabia. E então disseram-lhe que aquele era um caminho curto e fácil que havia naquelas terras. Mas tinha aquela passagem lá, o rio tumultuoso. Outrora houvera ali uma ponte de barcas amarradas com correntes. Mas o rio quebrara as correntes, levara as barcas, como palhas secas. Depois tinham lançado uma ponte de madeira e o rio outra vez levara a ponte. No entanto o Senhor daquelas terra morrera, e tendo elas passado a um outro que vivia nas cidades, ninguém mais se ocupara de fazer uma ponte aos viandantes. E agora ali estavam eles, sem poderem passar, e as mulheres e os filhos esperavam-nos, debalde, nas suas moradas para além dos montes.

Cristóvão, no entanto, olhava a águia. E em silêncio mergulhou no rio, e começou a atravessá-lo. A água cobriu seus joelhos, subiu até a à cintura, por fim bateu furiosamente sobre o seu peito, como sobre o pilar de uma ponte. E Cristóvão caminhava. Depois a cinta de Cristóvão saiu da água, depois apareceram os seus joelhos, e a escorrer, ele pôs pé, enfim, nas rochas duras da outra margem, onde um caminho íngreme subia entre as fragas. Cristóvão passara o rio.

Voltou, e abrindo os braços para os mercadores espantados, gritou:

— Quem quer passar?

Um mais novo logo se ofereceu. Cristóvão tomou-o sobre os seus largos ombros, em cada braço carregou um fardo, enquanto os outros ansiosos, rezavam à Virgem. Cristóvão passou — e do outro lado, o mercador radiante, fazia grandes gestos aos companheiros, gritava que o gigante era seguro. Então Cristóvão passou os homens, depois os fardos. E por fim agarrando as mulas, que zurravam espantadas, conduziu para o lado de lá toda a caravana, sem que um pêlo dos animais, ou uma corda dos fardos, ou um sapato dos homens se tivesse molhado. Tendo combinado baixo, os homens puseram-lhe na mão um punhado de dinheiro, deram-lhe um rolo de cordas, e deixaram-lhe pão para uma semana.

Logo nesta tarde Cristóvão, examinando aquele lugar agreste, recolheu troncos quebrados, ramarias secas, e calando a madeira na fenda das rochas, arranjou com a corda um longo, estreito telheiro, onde o seu corpo se abrigasse das chuvas e das neves. Depois, tendo desembaraçado dos pedregulhos o caminho, esperou, sentado na grande solidão, que aparecessem viandantes. Não tardaram a aparecer na outra margem um grupo de frades, que viajavam com o abade, montado numa mula. Apenas os viu, Cristóvão atravessou — enquanto os frades aterrados, lhe faziam acenos, para que se não arriscasse naquelas águas da torrente. Mas quando o viram chegar, enorme, a escorrer água, e com os braços abertos para os receber, hesitam, pensando ser uma cilada do Demônio. A cruz que o abade traçou no ar, e que Cristóvão repetiu sobre peito, logo os tranqüilizou — murmurando entre si que então, certamente, era um auxílio do Senhor. Um por um, arregaçando o hábito, cavalgaram Cristóvão, e no meio do rio, sentindo a água furiosa bater a cinta do gigante, gritavam o nome da Virgem, estrela dos Náufragos. Depois, quando Cristóvão os pousava na outra margem, enxutos, era um espanto, e baixando os hábitos, reapertando as sandálias, riam daquela ponte viva que trabalhava nas águas. O abade passou, passou a sua mula. E os frades deixaram a sua benção ao gigante e um ramo de buxo benzido.

Começou então para Cristóvão uma vida estável, quieta, junto daquele rio. Nas horas em que não havia gente, esperava sentado numa pedra, olhando correr a água, ou então alargava o caminho e construía à beira da água, com pedras, como um cais onde a gente lhe subia para as costas. A cada instante, porém, havia alguém a passar — e como Cristóvão era já conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo gritando: ?Eh gigante!? Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em injúrias. Outros, que o vinho bebido nas tabernas da estrada excitava, arrepelavam-lhe os cabelos. Ele, quieto e humilde, fendia as águas. Por vezes era um cavaleiro que, com a sua pesada armadura, lhe esmagava os ombros, e rindo o espicaçava com os acicates. Outras vezes era uma dama que se horrorizava com a fealdade de Cristóvão, tapava a face, e apenas passada para a outra margem lhe fugia das mãos, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era com os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de guerra, furiosos, mordiam-lhe os braços. E os galgos, latindo, queriam saltar para o rio, entre a indignação dos fidalgos, que atiravam pedras a Cristóvão. Nenhum esforço custava ao bom gigante. Passava os fardos mais duros, grossas barricas de vinho. pedras enormes para a construção das abadias. Passou touros, que iam para um curro de fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de uma cidade, e lhe deixavam sobre a pele o pus das duas fístulas.

Se lhe não pagavam, baixava a cabeça, saudando com humildade. Se lhe pagavam, beijava a escassa moeda de cobre: — e guardava debaixo de uma pedra esse dinheiro, para o repartir com os mendigos.

Assim vivia desde longos anos. A sua cabeça já se vergava, os seus braços já não eram tão fortes. Por vezes, sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os seus membros estavam como troncos nodosos, inchados pela umidade constante. De todo ele saía um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na água, tinham um tom verde, como as estacas de uma levada.

O seu leito de folhas secas era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam, era com um gemido que se erguia. Já lhe levava o dobro do tempo a cortar a corrente — e por isto eram constante as injúrias que recebia. Para se apoiar na água, sentindo que suas forças diminuíam, teve de fazer um grande bastão aguçado, com um tronco. E cada Inverno pensava, com inquietação, se a força lhe sobraria para fender a corrente furiosa do rio mais cheio.

Agora, apenas passava os viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo a pedir, por caridade, que lhe deixassem um pouco de vinho, para tomar nas noites mais duras, como um cordial que o amparasse. Oh! muito pouco, um pichel somente... Ele, cautelosamente, o pouparia.

Ora uma noite de grande Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio mugia furiosamente, Cristóvão, já muito velho, trôpego, com feridas nas pernas, dormia no seu chão molhado — quando fora, na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida gritou: ?Cristóvão! Cristóvão!?

Com um gemido, logo se ergueu aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua choça. E viu diante de si uma criancinha, pisando descalça a relva, com os cabelos a esvoaçar no vento e na chuva, e apertando sobre o peito, com as mãozinhas, a camisa muito branca que o cobria. Espantado, com lágrimas, Cristóvão abriu os braços.

— Oh meu menino, quem te trouxe?

E tremendo toda, no frio e na neve, a criancinha murmurou:

— Cristóvão, Cristóvão, estou sozinho e perdido, e por quem és te peço que me leves para a casa do meu pai!

Já Cristóvão arrancara dos ombros a pele em que se agasalhava, e envolvia nela o corpinho tenro que tremia.

— Oh meu menino, onde é a casa do teu pai?

A criancinha estendeu o braço para o outro lado, onde os montes negros se erguiam. E murmurou muito baixo:

— Além, para além, muito longe...

Mas um espanto tomava Cristóvão. Porque debaixo da pele negra de cabra, de novo a camisinha da criança aparecia rebrilhando na noite negra, toda branca de linho. Muito humilde, baixando para ele a face, o bom gigante disse, muito humilde:

— Oh meu menino, vem que eu te levo ao colo.

A criança estendeu os braços pequeninos. Cristóvão com cuidado e docemente a foi pondo ao ombro. Mas, bruscamente, os seus joelhos vergaram, tocaram a rocha, sob o imenso peso que o esmagava, Ah! quanto pesava o menino! Com custo, se firmou nas suas velhas pernas doridas. Desceu, arrimado ao seu bastão, o caminho escorregadio, mergulhou na água os pés — e logo a corrente mugiu furiosamente em redor, atirando a espuma até os pés da criança. Arquejando, Cristóvão rompeu a água. O vento imenso silvava, e atirava-lhe sobre os olhos, que a umidade embaciava, os seus longos cabelos grisalhos. Ele disse: ?Ah! meu menino, meu menino!? A cada passo sentia que o leito limoso do rio lhe fugia sob os pés. Todo ele tremia, firmado no bordão. E a água, toda branca de espuma, empurrava-o furiosamente, com um marulho medonho. Na densa escuridão, nada distinguia, nem sabia onde estava a outra margem. Grossas pedras de granizo de repente caíram, e o menino, arrepiado, todo se aconchegava à sua face. Já a água temerosa lhe chegava ao peito. Tropeçou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu a água, furiosa, gelada, correndo a roçar-lhe as barbas. Arrojou o bordão, e com as mãos ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal o podia sustentar, grandes vagas já lhe batiam a face. Arquejando, parava para respirar fora da água, e bebia a espuma turva e amarga. Grossas traves que a corrente acarretava, batiam-lhe o corpo. Os seus pés rasgavam-se em pedras agudas. E ele, num esforço enorme, os braços esticados ao alto e todo a tremer, sustentando o menino, arrojava o peito para a frente, com gemidos que eram mais fortes que o vento. Duas vezes os seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a força da torrente; duas vezes, com esforço sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto o menino. A água já lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas umedecia-lhe os olhos. E, sempre arquejando, rompia, com as mãos a tremer todas do peso imenso do menino. Mas os seus pés encontraram uma rocha firme, e a água desceu outra vez até ao peito. Na rocha resvaladiça, porém, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por um esforço da alma, que se empinava arquejando. Mas ia saindo do rio. A água já lhe descera à cintura. E o fragor da corrente parecia abrandado e como remoto. Grandes pedras emergiam da água. Já apenas tinha mergulhado os pés, que ele sentia dilacerados. Um esforço mais, e estava na margem, salvo, apertando contra o peito o menino.

Mas, naquele esforço supremo toda sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: ?Ah! meu menino! meu menino!?

Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.

— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?

— Mais longe, Cristóvão, mais longe...

E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.

Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.

— Onde é a casa de teu pai?

— Muito longe, Cristóvão, mais longe...

Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.

Fonte: pt.wikisource.org

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