Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  São Cristóvão (Eça De Queiroz)  Voltar

São Cristóvão

Eça de Queiroz

Capítulo I

Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sob as frondes ressoavam as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas, um lenhador, um servo, de surrão de estamenha, que rijamente trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua égua carregada de lenha, recolheu, pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.

Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de pele de coelho, rezava uma ave-maria. Ao passar na lagoa, mais reluzente, sob a amarelidão da tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda de ouro nova, deixou um molho de carqueja e de achas para o ermita, que ali erguera a sua choça de rama. E adiante, num pinheiral, apesar de já luzir no alto a estrelinha da tarde, e o bom trabalhador ter fome, parou até encher o saco de uma velhinha que, tremendo, e arrimada a um bordão, apanhava agulhas e pinhas. A velha murmurou: "Deus te dê alegria em tua casa!"

Longamente ainda, ora por caminhos claros que soavam como lajes, ora sob a ramaria alta, por veredas fofas de musgo, tilintavam no silêncio e na penumbra os guizos da égua. E a noite cerrava-se, quando para além de um ponte de tabuado que tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento agosto, o povoado apareceu entre o arvoredo do vale, com a capela branca e toda nova que o Senhor do castelo andava erguendo a S. Cosme.

O lenhador, com a sua égua, meteu por uma longa alameda de faias, atrás de um carro que chiava lentamente, carregado de mato. A estacada, que outrora cercava a aldeia, apodrecera sob os sóis, sob as chuvas, ao abandono durante longos e fartos anos de paz: e as cabanas repousavam entre os pomares, em segurança e fartura. Dos tetos, bem cobertos de colmo, seguros por lascas de lousa, subia o fumo lento e cheiroso das pinhas e agulhas ardendo com abundância nas lareiras. Em todas as cortes grunhiam porcos. Pelas quelhas mais escuras, as raparigas passavam para os serões, sem temor, com a sua roca à cintura. Por trás dos muros de adobe, morria o murmúrio dormente dos terços e das coroas realizadas em coro, nas contas. Raramente um rafeiro latia por trás da cancela ou das sebes. No adro, o forno senhorial ainda ardia, tanta era a fartura do pão a cozer. E junto da fonte toldada pelas ramagens de um olmeiro, no banco de pedra onde aos domingos os velhos vinham julgar os pleitos de gados ou de águas, os dois arqueiros do castelo, que todas as noites rondavam a aldeia, dormiam sem cuidados, como frades, com os seus arcos caídos no chão.

Lentamente, ao rumor lento dos guizos, o bom lenhador e sua égua passaram, ao fim do povoado, a alta taberna do Galo Preto, que estendia através da estrada a sua comprida vara enfeitada de louro. Dois romeiros, com vieiras na murça de burel, bebiam à porta por grossos pichéis de estanho. Dentro um pobre menestrel, de longa guedelha caída sobre o gibão em farrapos, tangia a sua viola de três cordas: e um frade mendicante com a sacola entre os joelhos, um caldeireiro com os tachos de latão e a ferramenta pousada ao lado no chão de terra negra, jogavam dados sobre um banco, na penumbra das grossas pipas, que tinham todas uma cruz branca, para que os maus espíritos não azedassem o vinho.

O bom lenhador apressava sua égua: e bem depressa, do alto de um cerro coberto de azinheiras, avistou embaixo o rio, o largo rio escuro que corria, mudamente, sob os quatro arcos de uma velha ponte romana, que tinha ao meio uma capelinha nova, onde palidamente, na névoa úmida, bruxuleava uma lâmpada. Para além, na outra margem, era uma longa colina suava, onde se erguia, acompanhado de arvoredos e cercado de muralhas como uma cidadela, um mosteiro rico de Domínicos.

Mas, descendo o cerro, o caminho estreito, por onde, sob a estrelada mudez da noite, iam tilintando os guizos da égua, corria fundo e negro entre altos barrancos. E como aí, por vezes, de noite, aparecia um estranho pastor, de cabelos cor de fogo, e seguido por dois lobos familiares, o bom lenhador murmurou, voltado para o santo lugar onde nasce a estrelinha d'alva, o nome do anjo Gabriel.

Depois, sem temor, atravessou o pinheiral. Já então trilhava as terras do solar do seu Senhor. Vastos pastios de gado, campos onde se fizera a ceifa, desciam até o rio, que um choupal bordava, escuro e cheio e rouxinóis. E sobre um forte outeiro, logo o Castelo apareceu, negro, formidável, com altas muralhas, os grandes cata-ventos em forma de dragões e de aves heráldicas no cimo de cada torre, e, na mais alta, a chama clara do seu alto farol.

Uma calçada de grossas lajes, orlada de faias, conduzia ao terreiro, para onde abria, sob a torre de menagem, a estreita porta chapeada de ferro e a ponte levadiça, que sempre descida, naqueles doces anos de paz, tinha as cadeias de ferro enferrujadas. De um lado do terreiro havia um pequeno alpendre, coberto de rama, onde se vendia, à vasilha, o bom vinho branco das vinhas senhoriais. Do outro lado, negrejavam os grossos barrotes das forcas patibulares. Um velho olmo assombreava o banco de pedra, onde, pelas tardes de verão, o Senhor vinha julgar os delitos, receber vassalagens, ou marcar as portagens devidas pelos mercadores que, com longas récuas de machos carregados, passavam por dentro das suas terras. Nenhuma claridade saía das janelas das torres, mais esguias que fendas. As rãs coaxavam na água negra dos fossos.

O bom lenhador costeou as compridas muralhas, onde por vezes uma mancha mais clara na pedra negra era como uma cicatriz de batalha numa face requeimada; e passando pela alta cancela de uma sebe, que ao longe se perdia nos prados escuros, penetrou por uma estreita poterna, aberta na muralha como uma fenda abobadada, e guardada por um cão enorme, cuja corrente de ferro arrastava na lajes.

Dentro, no vasto recinto murado, para além de um poço de bordas baixas, encimado por um pombal, a casa senhorial erguia a sua fachada simples e severa, de onde saía, através dos vidros miúdos encaixilhados em chumbo, a claridade pálida dos brandões da sala, ao lado da luz mais vermelha das cozinhas. Um torreão redondo, com balcão, erguia a uma esquina o seu agudo teto de escamas de lousa, encimado por um vasto cata-vento em forma de bandeira desdobrada. Aos cantos da casa, esguios dragões alados, voltavam para o pátio as goelas escancaradas, por onde as chuvas se escoavam nos regueiros da cisterna. E a lanterna de um servo, que passava sobre o terraço, alumiava grossas filas de abóboras pousadas no parapeito, secando ao sol.

O bom lenhador descarregou a égua na tercena de lenha. Depois, tirando o seu barrete de pele de coelho, empurrou a grossa porta da cozinha, armada de puas de ferro. Sob a chaminé, enfeitada de réstias de cebola e de ramos de louro seco, tão vasta que abrigava, de cada lado da lareira, um longo banco de carvalho. Uma chama clara de troncos, ardendo sobre brasido, alumiava as paredes caiadas, onde pendiam de ganchos de ferro odres de vinho, caldeirões reluzentes, e os sacos de especiarias. Com o seu longo avental de couro, um barrete de couro na cabeça raspada, o mestre cortava sobre um cepo imenso de pau, um anho esfolado. Um servente, de braços nus, regava de molho, com uma longa colher de ferro, as grossas peças de carne que assavam nos espetos, mais longos que lanças de guerra. Dois lebréus brancos enroscados dormiam diante do lume. E rente do muro, sentados em tripeças, já os moços das abegoarias, os pastores, os cordoeiros, esperavam a ceia, calados, com os seus gorros na mão.

Mas um pajem, de longos cabelos encaracolados, e trazendo um jarro lavrado, ergueu ao fundo a grossa cortina de estamenha, que tapava uma imensa porta em arco, ornada com duas cabeças de lobos. E o bom lenhador dobrou humildemente o joelho, entrevendo para além, já alumiada para a ceia, por tochas de cera, a sala senhorial: a vasta mesa atapetada de ervas frescas; as duas lanças transversais por cima, suspensas do teto por correntes de ferro, carregadas de grossos pães de sêmea; a alta cadeira de espaldar, no topo, encimada por um alto brasão, tendo ao lado um poleiro, onde dormiam dois falcões; a imensa chaminé de pedra, ao fundo, com figuras em relevo que agitavam armas. Todos os servos se tinham erguido. E quase imediatamente, arrastando os seus sapatos de pano amarelo, o despenseiro apareceu, calvo e gordo, com o seu molho de chaves. Era ele que distribuía a ração aos pastores, aos cordoeiros, aos tosquiadores, aos forneiros, e aos outros servos do domínio que não ceavam na cozinha do solar; e bem depressa o bom lenhador recebeu no seu saco de estopa o pão de sêmea, o pichel de vinho, e a posta de carne salgada, devida nos dias de grande corte.

De novo o bom lenhador empurrou, sem ruído e humildemente a porta da cozinha. Passou a poterna da muralha, que abria para os jardins e para o jogo da bola. Atravessou a rua de limoeiros que dividia os jardins e o pomar, onde docemente cantavam na sombra os repuxos e a água das regas; ladeou a casa do cabanal e a eira, alvejando, toda caiada de fresco, sob a claridade das estrelas; e passando entre abegoarias e a liça dos pajens, que desenrolava entre mastros enfeitados de bandeirolas a sua pista areada de saibro, saiu por uma porta da alta estacada, que circundava a quinta senhorial. Para além eram vastos prados, pastagens descendo até ao rio, onde uma larga avenida de olmos abrigava a cordoaria do castelo. Um outro cerrado de sebe espinhosa cercava estas fartas dependências rurais, defendidas ainda por armadilhas para os lobos, valas erriçadas de puas, e pequenas torres de adobe onde ardia uma lanterna.

O bom lenhador passou esta sebe, e meteu pelas azinhagas, a caminho da sua cabana, aninhada entre pinheiros e faias à orla da floresta, que, desde os coutos onde todo o dia trabalhava, vinha pelo interior das terras vestindo vale e monte. Por entre os troncos dos pinheiros mansos, o largo rio alvejava embaixo à claridade das estrelas. Os pirilampos faiscavam na ponta das sebes. Um aroma de madressilva adoçava o ar.

O bom lenhador atravessou, sobre uma ponte feita de troncos, um riacho que saltava entre rochas, onde os pajens da castelania vinham pescar trutas. Um rouxinol cantava embaixo entre a ramaria dos choupos. Adiante havia uma cruz de pedra coberta de heras, que tinha um braço partido. Piedosamente o bom lenhador tirou o seu barrete de pele de coelho. O seu coração simples, nessa noite, sentia como um contentamento desacostumado. Ouvindo o sino do mosteiro, que nas colinas além do rio tocava a Vésperas, murmurou uma salve-rainha, com uma devoção maior, certo de que a Virgem o escutava, debruçada do Céu, toucada de todas aquelas estrelas que rebrilhavam mais que o ouro. Já, a distância, sob o céu pálido, se arredondavam os cimos dos arvoredos, onde se escondia a sua cabana. A mulher, a boa companheira, esperava por ele fiando à lareira. Estugou o passo e, subitamente, da sombra de um chorão debruçado à beira do caminho, surgiu um moço de olhos brilhantes como lumes, coberto com uma túnica branca, encostado a uma vara branca, que parou diante dele, e disse sorrindo:

— Entra contente na tua morada, que teu filho há de ser um grande santo!

E subitamente desapareceu. Um aroma vivo, como de incenso misturado a cravos, passou de leve no ar. E as relvas altas do prado, ondeavam, dobradas, como se as roçasse um manto de seda fina.

O bom lenhador ficara imóvel, tremendo, na sombra que se adensou, mais cerrada, sob as ramagens das faias. E mal compreendia a quem tão docemente falara aquele moço, de olhos mais claros que lumes de altar. A sua boa companheira não lhe dera ainda um filho naqueles longos anos, tão serenamente passados, desde a manhã de Natal em que por sobre a neve dura brilhando ao sol, ao fino som da rabeca que o menestrel tangia, coroada de rosas, ele a trouxera à cabana construída por suas mãos, com as madeira por suas mãos rachada. Como poderia pois, no seu lar que nenhum riso de criança alegrava, crescer, para sua glória, um grande santo?... Arrepiado, penetrou por sob a ramaria, espreitando, escutando, na esperança e no terror de surpreender ainda uma claridade, um rumor daquele mensageiro estranho, que vestia de branco como os anjos. Todo o bosque estava mudo e ermo. Então entrou na sua alma simples um grande medo de todos os seres invisíveis que, vindos de Céu, ou vindos do Inferno, de repente surgem nos caminhos escuros. Começou a correr por uma estreita azinhaga até aos castanheiros que abrigavam a sua cabana. Uma fenda de luz saía da porta, entreaberta à frescura doce da noite. O rafeiro que o aguardava, com sua coleira eriçada de pregos, latiu alegremente. Entrou, limpando na face o suor que o alagava.

Sentada à lareira numa tripeça, a sua boa companheira esperava fiando. A panela de ferro fervia, suspensa por uma corrente sobre o lume. A um canto da arca, as malgas vidradas, as canecas de estanho reluziam bem limpas; sobre a palhoça do catre, o lençol de estopa era branco e fresco. Todo o dia a boa companheira lidara para o asseio do seu lar. O lenhador pendurou junto à chaminé o seu machado, e, nem à ceia, nem deitado junto dela no catre, revelou à mulher o encontro com aquele moço de olhos resplandecentes. Receava que ela, tão séria e justa, repreendesse o seu orgulho. Por que mandaria Deus um anjo, com tão maravilhoso recado, a um rude servo, de saião de estamenha? Decerto não fora a ele que o moço, brilhante de claridade, anunciava a santidade de um filho.... Se Deus os tivesse escolhido para tão grande ventura, não seria por ele, rude como os troncos da sua mata, mas pela sua boa companheira, tão séria, diligente no trabalho, clara de alma, compassiva aos mais pobres, sempre alegre e tão leal! Nela e não nele, estavam decerto os méritos divinos.

E enquanto ela, direita, robusta, e corada como uma maçã, enchia as malgas da ceia, o lenhador sentia abrir-se no seu coração, como uma flor que sob o orvalho reflorescesse, uma ternura doce e melhor por aquela que, em tantos anos tornara a sua pobre cabana lugar mais apetecível que a casa rica de um senescal ou o castelo do seu Senhor.

Capítulo II

Era o tempo das vindimas nas vinhas da castelania. Uma manhã, cedo, ao cantar das calhandras, quando o bom lenhador prendia ao cinto seu machado, partindo para o castelo onde ia rachar a lenha miúda, a sua companheira, que se sentara na arca com os braços cruzados, disse de repente, toda séria e vermelha:

— Meu homem, vamos ter um filho.

Ele ficou diante dela, mudo, como no espanto de um milagre. Depois balbuciou, pediu uma certeza. Ela estava tão segura, que já na véspera, enquanto ele andava trabalhando no souto, fora ao Mosteiro comungar, para que a Santa Hóstia fosse o primeiro alimento da criancinha que em si trazia, e que assim recebia logo o corpo e o sangue de Jesus. O bom lenhador tornou a emudecer, como deslumbrado, coçando a barba rude. Então a boa companheira, pensando que ele, assim silencioso, se amargurava na alma com aquele filho que vinha para ser, como eles, um servo, preso àquela terra de florestas como qualquer carvalho que só serve para render, e quando não rende se abate, lembrou quanto a vida servil era fácil e branda nos domínios do bom castelão. Já tão velho, paternal, o bom Senhor amava os seus servos, e velava por eles como searas dos seus campos. Havia tantos anos que as masmorras estavam vazias, que o senescal perdera as chaves. Sempre que os homens eram chamados para compor os telhados ou limpar os fossos, voltavam contentes com bom salário. Quando, montado na sua mula, percorria as terras, parava a aconselhar os trabalhadores, sem mesmo consentir, nos dias de vento, que eles tirassem os seus barretes. O preço da moagem, e o da fornada, no moinho e no forno senhoriais, fora por ele abaixado... E a boa menina, herdeira daquele domínio, onde haveria outra tão caridosa e suave? Era ela que ligava, com seus dedos mais brancos que os de uma Nossa Senhora, a feridas dos pegureiros. Se a ventania levantava o colmo de uma cabana, logo ela o mandava consertar. Nos grandes frios, distribuía pelos velhos vinho antigo e peles de carneiro... Se a vida era assim fácil e branda na castelania, bem podiam eles estar contentes com o filhos que lhes nascia, para ser um servo contente sob aqueles bom senhores.

— Não é verdade, meu homem?

A face do lenhador resplandecia, como um ouro sem liga sob um raio de sol.

— Bendito seja Deus por eu ter te conhecido, mulher!

Apertou fortemente nos braços a companheira valente, e partiu para o trabalho. Pelo caminho que levava ao castelo, sorria, vaga e deslumbradamente, para o céu e para as árvores. E a cada instante lhe alvoroçava a alma aquela promessa lançada, sob a escuridão das faias, pelo moço de olhos resplandecentes. Era esse, pois, o filho anunciado que se devia tornar um grande santo? Quase assustado, não ousava crer num tão maravilhoso favor de Deus. Um servo gerar um santo! Quando o seu Senhor, tão poderoso, doador de capelas, acolhedor de peregrinos, que fora em moço libertar Jesus Cristo das maldades dos Turcos, não lograva o favor de um filho, para governar as suas terras, seria ele, servo rude, de saião de estamenha, rachador de madeira, o escolhido por Deus para dar àquelas gentes o dom maravilhoso de um santo, para as proteger, e chamar sobre elas a amizade dos Céus? Tal não podia ser, e mesmo em o pensar, em o esperar, ele sentia confusamente o perigo de um orgulho que ofenderia Jesus e os outros santos, e desde logo alhearia a sua proteção do menino que lhe ia nascer.

Decidiu então não pensar mais naquela promessa: mas quando ao recolher à cabana, de noite, passava junto ao bosque de faias, os seus passos, a seu pesar, se tornavam mais lentos, e parava, escutava, com o coração a bater tão fortemente, que as suas pancadas ansiosas eram como as que se dão a uma porta fechada sobre um tesouro. E a mudez, a negrura impassível do bosque davam uma indefinida, fugitiva tristeza ao seu coração, como se uma água fresca, em hora de sede, se lhe secasse entre as mãos.

Entrando, porém, na cabana, todo ele sorria contente, vendo a sua companheira que fiava já a teia do enxoval. Ele tomava a um canto as madeiras que escolhera com carinho, as ferramentas que lhe emprestara o carpinteiro do castelo, e trabalhava no berço do menino: - porque em ambos todas as ocupações, todos os pensamentos eram unicamente em serviço daquele filho, que lhes parecia milagroso e raro como uma estrela que de repente brotasse, e começasse a dardejar os seus raios na ponta de um galho seco. Ambos começavam a ter ambições: ela quereria ser, depois de criar o menino, a tecedeira do castelo; ele pensava no lugar do chefe-mateiro, que estava velho e pedira ao Senhor para repousar. Quando o inverno começou, consideravam mesmo quanto a sua cabana era desabrigada e rude; e o bom mateiro começou todas as manhãs, mal luzia a primeira claridade, a trabalhar nos reparos, pondo colmo novo no teto, tapando fendas, preparando um chão de tabuado, onde mais tarde os pezinhos nus do menino não sentissem a frialdade da terra negra. Depois limpou, areou a horta, que cercou de um silvado, defendendo, isolando mais o seu lar, que ia encerrar um tesouro.

Por vezes a sua companheira queria ajudá-lo nestas tarefas piedosas. Ele não consentia, num receio constante que se fatigasse, viesse mal àquele corpo precioso, que a seu pesar, por vezes, imaginava escolhido por Deus, e que contemplava então com pasmo como um relicário numa capela. Era sempre para ela a malga maior, a fatia mais larga de pão, no desejo de a sentir forte, comunicando força ao seu filho. Procurava por toda a floresta mel silvestre, para misturar ao vinho que ela bebia aquecido à lareira; e como a moleira do moinho senhorial, junto ao rio, assistia na hora dolorosa a todas as servas da castelania, o pobre mateiro não cessava de a servir, de lhe levar sacos de pinha, de lhe rachar a lenha,e mesmo arregaçando as mangas da estamenha, pretendia limpar as rodas da azenha. A boa comadre, cruzando os braços sobre o avental enfarinhado, dava os seus conselhos; e já por ordem dela, o bom mateiro todas as noites, com uma longa vara, batia as ramas do arvoredo que abrigava a sua cabana, para que não viesse nelas pousar alguma coruja, que, piando de noite, faria nascer a criança medrosa e com os olhos tortos. Mas o seu maior cuidado era queimar na lareira galhos de azinho, para que o leite da mãe fosse abundante e forte.

O inverno no entanto viera, tormentoso e negro: e nos longos crepúsculos, sentados na tripeça, ao lume da lareira, estes dois servos simples pensavam somente no seu filho. Ele contava, recontava na memória as peças de ouro poupadas naqueles longos anos e enterradas debaixo da arca, e noutras ainda que pouparia, para pagar o padre-mestre que ensinasse ao seu filho as letras e o latim... Por que não? Quantos filhos de servo tinham cantado missa nova! E a seu pesar, aterrado sob o orgulho incorrigível, via o seu filho com uma mitra cravejada de ouro, em vestes recamadas de ouro, atravessar sob um pálio os caminhos da aldeia, juncados de rosas e de erva-doce. A mãe, essa, calada, movendo o seu fuso, só via o seu filho pequenino, muito gordo, com a face cheia, lisa, e corada como uma manhã, rindo sobre o seu colo.

Uma noite, que ela assim pensava, adormeceu, fatigada de ter lidado, já pesada, todo aquele dia de Abril, quente e longo. E quase imediatamente se viu sentada, no adro da capela, na aldeia, um domingo de festa, no primeiro dia de maio: em volta as raparigas dançavam, ao som da rabeca que tocava um menestrel; os moços mais fortes lutavam sobre a relva; um servo do castelo vendia vinho de uma grande pipa enfeitada de louro; e um cavaleiro, todo armado, segurava um cavalo de grandes crinas, tão bravo que ninguém o podia montar... E eis que, de repente, o seu filho aparece com um gibão de pano azul, um capuz escarlate como o filho de um mercador, e logo derruba na luta os mais fortes, amansa o corcel indomável, faz empalidecer de amor todas as raparigas só com volver os olhos radiantes, e, tomando a rabeca do menestrel, começa tão divinamente a tanger, que todos os pássaros saíam das ramarias, e vinham maravilhados, pousar nos seus ombros largos. Ela tremia, num infinito orgulho. E em roda todos, erguendo os barretes, gritavam:

— Eis o mais belo, o mais destro, o mais forte! Seja ele o Rei de Maio!

Acordou ao clamor triunfal. O seu homem areava o seu machado. E quando ela, ainda ofegante, lhe contou o seu sonho, ele permaneceu muito tempo pensativo, porque os sonhos são como tapeçarias que os anjos desenrolam e em que estão bordados, em cores claras, os destinos que hão de ser.

Ambos acordavam de manhã, a um grande canto de pássaros tão alegre e ruidoso como se todas as cotovias e melros, da floresta, estivessem celebrando uma festa sobre o colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava estranhamente um fresco cheiro de verduras e flores novas. Mas a mulher do lenhador não se podia erguer, num cansaço que a tornava mais pálida que um linho muito lavado: e bem depressa, gemendo, pediu ao seu homem que fosse buscar a moleira caridosa e hábil, porque chegava a sua hora de glória e de dor. E, ainda gemendo, a boa mulher começou logo a sua oração a Santa Margarida.

Atirando o machado que apertara ao cinto de couro, o bom lenhador correu através dos campos, ansiosamente, pisando sem dor os milhos novos, saltando as sebes em flor. A moleira carregava um saco cheio sobre o seu jumentinho branco. Descarregou logo o saco, saltou sobre o jumento, e através das azinhagas, a moleira galopando, o lenhador correndo, pararam à porta da cabana, quando do seu beiral se erguia, tomando o vôo, um casal de pombas brancas. Era um feliz prenúncio: - e enquanto o lenhador ia prender o jumentinho no eido, a moleira entrou na cabana depois de riscar no chão uma cruz com o pé, murmurando o nome de Santa Margarida. Mas voltou logo, trazendo nas mãos um largo cinto de couro, com que a boa fiandeira apertava as saias, e gritou pelo lenhador, para que ele corresse à capela, atasse o cinto na corda do sino, e repicasse nove repiques, rezando nove ave-marias. Eis de novo o bom lenhador correndo, com o cinto apertado ao peito, preciosamente: desceu aos choupais, frescos e cheios de sombra; correu ao comprido do rio, todo reluzente de sol, que uma grossa barca, com armas de um D. Abade e toda carregada de pipas, subia lentamente à sirga; galgou os lameiros, onde os gados pastavam, ao som das flautas dos pegureiros; abalou pela estrada, por diante da taberna do Galo Preto, de onde os carvoeiros da mata o chamavam, erguendo alegremente os pichéis de estanho... Ele, sem escutar, seguiu: mas teve de parar, de repente, porque dos lados da ponte, com um lampejar de armas e um brilho de sedas claras, desembocava um rica cavalgada, a caminho do castelo. Um clarim soava triunfalmente; guardas barbudos e graves traziam as lanças erguidas, ao alto; uma bandeira, no ar, desdobrava o seu grande brasão de cores estridentes; os pajens, empoeirados dos caminhos, conduziam à rédea azêmolas carregadas de pesados cofres pintados a escarlate e ouro; - e um fidalgo, moço, de barba negra, com um falcão no punho, ria de cima do seu alto corcel, coberto com um xairel de veludo azul, com um frade que cavalgava ao lado, numa mula toda branca. Galgos ágeis corriam em roda; e um troço de lanças seguia, erguendo grande poeira.

Curvado, cosido contra a sebe espinhosa, com o seu barrete na mão, o bom mateiro saudava humildemente, esperava com o coração a bater de ansiedade. Ao seu lado, outros vilões dobravam o joelho; e um velho alto murmurava que aquele era um barão de outras terras, que chegava para noivar com a filha do bom castelão. Mas de repente alguns cavaleiros paravam: uma das azêmolas, espantada, atirara ao chão os cofres de escarlate e ouro: e um senescal, correndo logo, reclamou todos os vilões ali juntos para virem erguer os cofres, carregar novamente a azêmola. E o bom mateiro lá se adiantou, aflito, com os olhos quase enevoados de lágrimas, mal podendo atar as cordas que prendiam os cofres nas andilhas da azêmola. Três vezes o senescal o injuriou. E a sua pobre companheira sofrendo por não repicarem os santos sinos que amansariam a sua dor!

Mas o animal, carregado de novo, aquietou, levado à rédea pelos pajens; e os cavaleiros trotaram na poeira, que o sol dourava. Então, livre, o lenhador correu desesperadamente à capela que servos do senhor andavam caiando de fresco. Ajudado pelo sacristão, um velho corcunda a quem ele às vezes rachava lenha, atou o cinto de couro à corda grossa do sino: - e bem depressa, no azul cheio de sol, cantava alegremente os novos repiques devotos. Para maior segurança acendeu ainda, num altar duas velas a Santa Margarida. Depois, confiado na misericórdia do Céu, recolheu à sua cabana.

Os olhos quase se lhe enevoavam de lágrimas, quando, da azinhaga por onde ia arquejando, a avistou, sob as grandes árvores. Mas não lhe pareceu neste instante tão escura e humilde. O Sol, que batia em redor nas ramagens, tinha um desacostumado esplendor. A cruz branca, que ele pintara na porta para afugentar os demônios, reluzia, como feita de uma luz clara. Das sebes, a seu lado, saía um aroma mais doce que incenso. As grandes papoulas entre a erva, as flores silvestres, pareciam maiores, com grandes cores de festa. Regatos que não via, borbulhavam alto, com um som fresco do riso.

Ele pasmava desta beleza, que nunca vira nestes caminhos familiares. E eis que subitamente, do lado do rio, rompem, num repique festivo, os grandes sinos do Mosteiro, e do lado do castelo a sineta da capela lança também pelo azul um repique argentino. Todo o céu tinha um alegria de festa. E quando chegou à porta da sua cabana, os pinheiros em redor, movendo as altas ramas, pareciam cantar.

Entrou. Sobre o catre, a sua companheira jazia imóvel, branca como o lençol, já composto e liso, que a cobria. E diante do lume que estalava, a moleira, abatida sobre uma tripeça, sustentava no colo o menino, estendido num pano branco... Mas o pobre lenhador, que estendera os braças, como se ante ele se abrissem as portas do Céu — recuou espavorido. O seu filho era um monstro.

Escuro, coberto de uma pela rugosa e áspera; com uma face vaga, informe, onde as feições faziam como vagas protuberâncias nodosas, as mãos enormes enclavinhadas sobre o ventre felpudo; torto das pernas que findavam em dois pés agudos, como os de um fauno, todo ele parecia uma raiz sombria, raiz de árvore estranha, ainda negra da terra de que fora arrancada. E nem gemia. Era como o rudimento de um ser vegetal!

Duas lágrimas amargas e lentas rolaram pela barba do lenhador. Deu um passo para a beira do catre. Na face branca, e como morta, de sua companheira, duas lágrimas corriam também, como na amargura de um sonho desfeito.

Capítulo III

Como aquele ser informe decerto ia morrer, o próprio pai, aterrado e chorando, o batizou e lhe deu o nome de Cristóvão.

Durante três dia, durante três noites, Cristóvão não mamou, não gemeu, imóvel no berço, que o lenhador e sua companheira constantemente velavam, numa esperança teimosa. sentindo naquela pele rugosa e dura o calor de um sangue forte. Uma tarde que ambos cansados tinham adormecido, sentiram subir, de entre os lençóis do berço que rangia, um rumor singular como o lento balar de um anho muito robusto. Cristóvão descerrara as pálpebras moles, e eles viram enfim os seus olhos de um azul-pálido, como a flor da pervinca. A mãe, radiante, arrebatou-o contra o seio que a abundância de leite sufocava: - e em poucos sorvos, largos e fundos, Cristóvão esvaziou um dos peitos.

Começou então a viver uma vida intensa e rápida. Dormindo, a sua respiração era mais que uma brisa entre ramos; ao acordar os seus gritos abalavam a cabana; e na sua voracidade, sem parar, secava o leite da mãe, chupava através de um pano largos pedaços de mel silvestre, e ficava trincando com impaciência o dedo que, para o consolar, o pai lhe metia entre as gengivas, mais duras que pedras.

E, no entanto, aquela monstruosidade, que o assemelhava a uma grossa e negra raiz, compunha em formas familiares de um corpo grosseiro, mas humano. A pele, perdida a aspereza negra, era lisa e vermelha como uma casca de maçã: a cabeça emergia dos ombros como uma decisão de começar a vida; e as pernas agora direitas, com dois grandes pés chatos, eram tão fortes que, se as agitava, quase fazia tombar o berço.

E bem depressa, com terror da mãe, não coube no berço. Como era no calor de maio, o bom lenhador fazia com musgo seco, recoberto de um mantéu, um leito na horta, onde o deitavam sob uma mimosa em flor. Mas Cristóvão rolava para fora do mantéu, procurando a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com delícia, como num elemento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava já transparecer o brilho de um dente. Começaram então a aparecer, voando, por sobre os legumes da horta, borboletas de cores prodigiosas, como o lenhador nunca vira. Uma roseira seca havia um ano, e que tinha apenas o tronco mirrado, rebentou em grandes rosas que perfumavam todo o ar. Os melros que ali acudiam, fazendo um canto incessante e festivo, emudeciam quando a enorme criança dormia, com seus grossos punhos fechados. A mimosa, todas as árvores em redor, vieram estendendo as suas ramarias, como toldos de abrigo, para o lado onde se estendia o mantéu. E um dia a mãe, entreabrindo a porta do eido, avistou, espantada, um enorme veado, que por cima da sebe, com os altos paus entre a folhagem, contemplava Cristóvão, com a gravidade de um avô.

Era então tão pesado que a boa mulher vergava, mal o podia transportar da porta para o berço. E todavia tinha só seis meses. A moleira que parava, com o seu jumentinho carregado de sacos, diante da cabana, para o ver, pasmava das suas cores vermelhas, da sua força, dos seus membros perfeitos e daquele sossego em que permanecia, todo um longo dia de verão, sentado, cravando na mesma pedra ou no mesmo ramo os seus olhos azulados, sem brilho e sem vida. E ela via nesta transformação um milagre de Santa Ana.

Muito antes do Natal, Cristóvão começou a andar. Já corria toda a horta, era quase da altura da sebe — e se, para se segurar, atirava a mão a um ramo, o ramo rachava como sob o esforço de um homem forte. O pai vivia no encanto e deslumbramento desta força magnífica: - e seu prazer era contemplar a criança erguendo uma grossa panela de ferro, ou caminhar para a lareira abraçado a duas imensas achas de lenha. Não duvidava que ele viria a ser o homem mais valente de toda a castelania, e já o imaginava soldado, com uma pesada armadura, comandando os terços da castelania. No coração da mãe havia uma surda, vaga tristeza, por aquele crescer maravilhoso de força e de formas. Já o não podia trazer ao colo; Cristóvão tinha apenas um ano, e já não era o seu menino, o seu pequenino. Os ternos cuidados da sua maternidade eram já para ele inúteis. Não necessitava amparar-lhe os passos, nem meter-lhe na boca a comida. Enorme, tão forte como ela, Cristóvão, quando tinha fome levantava a tampa da arca e partia ao meio as broas mais duras. O lenhador marcara na parede, com um traço branco, a altura do filho, pelo Natal: - e cada dia os riscos subiam mais alto, quase rente à prateleira da louça. Aos dois anos a sua cabeça pequenina, coberta de uma lã espessa e loura, já dava pelo cinto do lenhador. Os saiozinhos de pano que ela cosera com tanto amor, jaziam inúteis no fundo da arca, sem que ele tivesse jamais sido bastante pequenino para se mostrar, com eles, pela sua mão, aos domingos, no adro da aldeia. E quando o via, ainda mudo e inocente como uma criança de peito, e já tão grande, enchendo quase a porta da cabana, onde costumava estar horas, parado, a olhar monotonamente o ar e o sol, a pobre mãe, desconsolada, sentia uma lágrima umedecer-lhe a face.

O que a consolava era senti-lo tão manso e doce. Se ela, assustada, lhe tirava o machado do lenhador, que ele gostava de erguer, ou se o afastava do lume, que incessantemente o atraía, ele não mostrava nem resistência nem impaciência. Não era mais inerte um fardo de lã. Permanecia longas horas na tripeça em que o sentava, ou à sombra , debaixo da cerejeira da horta. O seu encanto era ver fiar a mãe, atento profundamente ao rodar, ao cantar do fuso. E a cada instante lhe tomava a mão, para nela pousar um beijo mudo, sem brilho, que não findava. Ela apertava-o ao seu coração, murmurando, desolada:

— Por que não és tu mais pequenino?

E, no entanto, já perto dos quatro anos, não falava. O único som que saía, cavo e grosso, dos seus lábios cor de aurora, era: Han! Han! Se tinha sede apontava com o grande dedo, rosnava: Han! Han! Para sair mostrava a porta,e grunhia, com os olhos vagos, para a mãe: Han! Han! A pobre mulher já perdera a esperança de o ouvir chamar mãe e pai. Já não duvidava de ter concebido um mudo, um imbecil. E na sua dor, num resto de orgulho, não permitia que Cristóvão transpusesse a sebe da horta, descesse abaixo, aos caminhos, com receio que os trabalhadores da floresta, as vizinhas da aldeia, o encontrassem, descobrissem a sua monstruosidade, lamentassem a tristeza do seu lar.

Mas o que sobretudo a aterrava era a insensibilidade de Cristóvão à dor, como coisa diabólica. Uma vespa mordera-o na face, e ele nem chorava, nem a pele lhe inchara. Sentava-se indiferentemente sobre musgo fresco, ou sobre as selvas espinhosas. E um dia mergulhara a mão na água a ferver, e retirara-a, quieto, como se ela fosse de pedra.

— Ai! meu homem — murmurava a pobre mãe — que malogro o nosso!

Ele suspirava, sombriamente. Toda a sua alegria, diante daquela robustez primeira do filho, tão prometedora, se mudara em dor constante, perante a sua deformidade — porque Cristóvão não falava, tinha a simplicidade de um serzinho no berço, e já lhe dava pelo ombro, forte como ele, com grandes músculos, mãos formidáveis que brandiam no ar a sua machada tão facilmente como uma varinha de olmo. Já não falava do seu filho aos outros servos da castelania, carvoeiros, serradores, companheiros da floresta. Se ao menos Cristóvão falasse, tivesse naquela estatura de homem, os modos de um homem... Iria com ele para o trabalho, não revelaria a sua idade — e seria como um companheiro moço e robusto que habitava no seu lar. Mas, assim, imenso, com uma vasta face, os ombros de atleta, ele passava horas, esgaravatando a terra, como uma criancinha, contemplando de rastos o caminhar das formigas, ou, quieto, chupando um dedo.

Já na aldeia, entre os servos do castelo. corria que o filho do lenhador era um monstro. Decerto fora algum feiticeiro, seu inimigo, que assim lhe lançara uma sorte temerosa. E alguns, mais afoitos, vieram rondar, espreitar em torno da cabana de Cristóvão, para ver o enfeitiçado. A pobre mãe, uma tarde, sentira grossas risadas, rente à sebe da horta; adivinhara estas curiosidades que vinham escarnecer a dor do seu lar. Tinha agora sempre fechada aquela porta da sua cabana, tão limpa, tão honesta, e por onde até aí ela deixara passar os olhares de todos, tão livremente como os raios do Sol. Quando alguma comadre da aldeia, alguma serva do castelo, a chamava de fora, ela antes de abrir, empurrava para fora, para o escuro das árvores, o seu pobre monstro, que lá ia movendo os pés tardos, com a baba ao canto do queixo. O seu desejo seria erguer em torno de sua morada um muro, um alto cerrado de tábuas, que a isolasse de toda a terra. E juntamente sofria em ter assim enclausurado o seu pobre Cristóvão, naqueles escassos palmos de cabana e de horta, em o trazer escondido como um fruto amaldiçoado, de que ela se envergonhava. Toda a sua alma simples e reta andava afogada em tristeza e sombra. E já não duvidava que a monstruosidade do seu filho, era o castigo que a Virgem Maria dera ao seu orgulho de mãe. Tão certa andara de que o seu Cristóvão seria divinamente lindo como o Menino Jesus que S. José erguia nos braços, que a Virgem se escandalizara no fundo dos Céus. E bem justamente! Como poderia o fruto, de um ventre servil, ser igual em beleza ao fruto de um ventre divino?

Uma tarde que assim pensava, movendo o seu fuso, sentiu na horta um rumor, e como pedras batendo a folhagem da cerejeira. Inquieta, abriu o loquete, e viu três pajens do castelo que por trás da sebe, joviais e cruéis, escarneciam o seu filho, e lhe atiravam, como a um bicho numa toca, pedras e torrões secos. E Cristóvão, mais forte que os pajens, mas sem compreender, apenas erguia a mão ante a face, imóvel no meio da horta assoalhada. Ela arrebatou-o desesperadamente para dentro, atirou a porta, enquanto os pajens, ofendidos com a audácia da serva, apedrejavam os muros da cabana. Desde esse dia a pobre mãe começou a definhar. Era uma dor surda, um desconsolo de tudo, que a deixava longas tardes imóvel, com a roca esquecida na cinta, o fuso caído no chão, perdida, entorpecida numa melancolia sem fim e sem nome. Todo o trabalho lhe pesava como um fardo inútil. Quase lhe custava a vestir Cristóvão, que nem o seu grosso gibão de estamenha sabia enfiar, e que quase fazia corar a pobre mãe, com o seu enorme corpo nu, grande como o dela, e que lhe parecia a nudez de um estranho, de um homem, que invadira o seu lar. À noite, silenciosa e pálida, repelia a sua malga de caldo,que Cristóvão logo devorava em silêncio. E não queria que o seu homem, assustado, chamasse o físico do castelo. Para quê? "O meu mal, murmurava, há de crescer e crescer..." As tardes na cabana eram tristes como as de um hospital. Tão fraca que se não podia mover do catre, ela contemplava o seu homem, sentado ao lado, com um longo olhar de saudade, o olhar umedecido de quem vai partir. Ele, com as mãos dela entre as suas, só instava para que ela experimentasse alguns dos remédios, que aconselhava a moleira, contra aquela míngua de corpo: e para o contentar, ela acedeu a atar ao pescoço um saco onde estava metida uma rã e a comer um caldo de margaridas apanhadas à lua cheia. Mas, sem dor, sem agonia, o seu pobre corpo ia como que desaparecendo, tão magro e transparente que ela via a vermelhidão da lareira através das mãos abertas.

Desde que ela adoecera, Cristóvão não abandonara a beira do catre, pasmando para a mãe, ansiosamente, como no esforço de compreender porque ela ficava deitada e de olhos adormecidos, quando sol envolvia a cabana, e até as árvores tinham acordado. Por vezes tocava-lhe o braço, o ombro, com um pequenino gemido triste. Ela murmurava, com toda a sua alma: "Meu pobre filho! meu pobre filho!" Mas voltava o rosto amargamente, se o via ir, com os seus passos lentos e balançados de urso doméstico, erguer com uma só mão a pesada bilha de água, esvaziá-la de um trago.

Era então o fim do outono. Já o lenhador, ao recolher, sacudia o saião, todo molhado da umidade da floresta: e um grande vento por vezes gemia nos pinheirais. Toda a noite a candeia ficava acesa. Numa enxerga, ao lado da lareira, Cristóvão dormia sob peles de cabra, fazendo um grande vulto na sombra, ressonando tão fortemente como uma forja. E a pobre mulher, o homem ao lado, sentado na tripeça, entorpecido de fadiga e de sono, não dormia, pensando no abandono e na tristeza em que caíra aquela pobre cabana, de que ela fizera um ninho tão doce! Quem cozinharia a sopa do seu homem, quem trataria daquele pobre monstro, que nem sabia enfiar o seu gibão? Um grande soluço sacudia o seu peito magro: - e o lenhador despertando, estremunhado, arranjava a manta que cobria o catre, ou ia remexer nas brasas da lenha.

Uma noite, em que havia um grande silêncio no arvoredo e no ar, porque caía a neve, ela sentiu um grande frio que lhe passava no rosto, e através do desmaio que a tomava, estendeu a mão, apalpando para dizer para sempre adeus ao seu homem. E os seus olhos vagos e lentos encontraram então os olhos do seu Cristóvão, que se erguera, embrulhado numa pele de cabra, e estava aos pés do catre, atento, e como esperando, num espanto. Moveu os lábios para lhe pedir que se deitassem se agasalhasse, mas só pôde suspirar, desfalecida... E pareceu-lhe que, diante, o seu filho começava a crescer visivelmente; já os seus cabelos ruivos tocavam o teto da cabana; o colmo esgarçou, e, através da abertura, Cristóvão crescia para o céu mais alto que os pinheiros, já com a face perdida entre os flocos de neve; e tão feio e monstruoso que as estrelas fugiam pelo ar, como almas assustadas. Deu um grito. O pobre lenhador despertou, debruçando logo sobre ela, a tremer. A sua companheira parecia adormecida. Então Cristóvão veio lentamente em torno do catre, e pondo as mãos, de leve, sobre os cabelos que um suor umedecia, gritou:

— Ó mãezinha, mãezinha, não durmas!

Cristóvão falara! O seu filho falava! Um rubor de infinito contentamento subiu-lhe ao rosto macerado, que ficou imóvel, sorrindo: - e a boa fiandeira partiu desta terra para o além...

voltar 123456avançar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal