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Vida de Antero de Quental

Eça de Queiroz

A consciência e uma outra ilusão, uma modalidade efémera, pois que nada de eterno se pode nela realizar. De que serve ter sido, ou procurar ser, justo e bom? Justiça e bondade findam no pó, infecundos como o pó. A vida é um desolado logro. E o melhor é morrer, pois que nos liberta da miséria, da vergonha, do horror da universal falsidade. - Tal era então o sombrio e secreto monólogo de Antero naquele leito estreito - donde ele todavia, quando os seus amigos apareciam, sorria tão alegremente e tão meigamente aos seus amigos.

É que não o deixara nunca o espírito consolante de sociabilidade, e esse adorável bom humor que era nele como um sol imanente por trás de nuvens transitórias, e ainda essa polidez superior, quase transcendente, forma graciosa da caridade, que não lhe consentia alongar por sobre a alma dos outros a sombra dos fantasmas de que a sua andava povoada. Por mais descido e fundo que o seu espírito jazesse, naquele «poço húmido e morno» de que fala num dos seus sonetos, bastava que da borda o chamasse um voz fraternal para que o seu espírito subisse, com compostura risonha, sem vestígios da treva inferior donde emergia, penetrando logo nas alegrias e cuidados alheios, e tomando um interesse acariciador pelas coisas mesmas que, para ele, na vida, eram mais desinteressantes e vãs. Muito bem me recordo de uma noite em que subi à sua alcova com um velho amigo dele e meu, Carlos Mayer. Antero lá estava, estendido no seu leito, com uma manta por cima dos pés, a face emaciada, e sobre ela espalhada aquela sombra, semelhante a um reflexo de coisas negras, que outrora deu a Dente a reputação de descer cada noite ao Inferno. Pois essa mesma face, num momento, se iluminou de afabilidade e graça fácil. Carlos Mayer andava nessa ocasião envolvido na ciência e cuidados de uma grande indústria de destilação - e a conversa rolou sobre máquinas, processos, fermentos, salários, lucros, milhões. Antero circulava ardentemente dentro daquelas questões de química, mecânica, economia, como se elas constituíssem a paixão suprema dos seus dias solitários. O ar do seu quarto de metafísico ficou em breve mais cheio de cifras, de vozes técnicas, que o de um escritório da City. Depois, talvez porque a esse tempo eu me preocupava com a civilização chinesa, deslizámos a conversar da China. Carlos Mayer atacou rancorosamente o Império Florido. Antero, arrojando a manta, exaltou logo o Chinês, e a sua pedagogia, e a sua agricultura, e a sua arte, e a sua sociedade, e a solidez e pureza das suas instituições domésticas - com o saber miúdo e grave de um mandarim. E não era só a erudição que surpreendia, mas o fogoso interesse, como se o seu pensamento habitasse constantemente e só se comprazesse entre a Grande Muralha e o mar Amarelo. E ao mesmo tempo quanta abundância cómica, que finura e firmeza de juízos, que dizer tão luminoso e perfeito! Já tarde, ao alvorecer, Antero chamara o criado estremunhado para nos acompanhar, quando um de nós lhe perguntou por versos. Como Antero não compunha versos por uma faculdade poética bem cultivada, e apenas certos estados da sua razão e da sua sensibilidade cristalizavam naturalmente em verso, era esta uma interrogação familiar sobre a sua saúde moral. E muito facilmente, como dando uma informação intima, Antero tirou de entre as folhas de um livro um papel, e leu sem entono amargo ou dolorido, com a simplicidade corredia de uma nota a lápis, aquele seu poema que Oliveira Martins depois salvou da destruição, o «Hino à Manhã», um dos mais angustiosos lamentos que tem escapado a um forte e altivo coração de homem. Assim podia aquele Antero singular, durante toda uma noite, aplicar à mecânica e à defesa histórica da China um pensamento tão profundamente ferido, tão arquejante ainda das lutas tenebrosas com a Esfinge.

IV

Passaram anos em que não vi Antero, instalado então em Vila do Conde. Sabia que o meu amigo estava quase são, quase sereno. Mas foi uma preciosa surpresa, quando, ao fim dessa separação, chegando ao Porto e correndo com Oliveira Martins a Vila do Conde, avistei na estação um Antero gordo, róseo, reflorido, com as lapelas do casaco de alpaca atiradas para trás galhardamente, e meneando na mão a grossa bengala da Índia que em Lisboa eu lhe dera para amparar a tristeza e a fadiga. Era uma regressão, quase o antigo Antero coimbrão, mais amadurecido, mais doce: - apenas, no lugar da fulva grenha flamante e romântica, alvejava um sereno começo de calva socrática.

Era sobretudo uma ressurreição moral, à velha maneira de Lázaro, uma miraculosa saída do túmulo pessimista e das sombras da negação. Findara a luta implacável, o seu grande coração, enfim, descansava em paz! Como chegara Antero a esse repouso apetecido? Escutando com uma atenção mais grave, mais crente, aquela voz da Consciência, que tanto tempo desconhecera, e que apesar de todos os desenganos e sempre em segredo protesta e afirma o Bem.

Fora atendendo reverentemente essa. doce voz; e conseguindo, por um desesperado esforço do pensamento, penetrar a sua significação; e refazendo, guiado por ela, a sua educação filosófica; e procurando depois a sua confirmação na história, nas doutrinas dos moralistas, nas confissões dos místicos, que ele chegara a descobrir, a compreender bem o fim último e verdadeiro de tudo, não só do homem moral, mas de toda a Natureza, mesmo na sua modalidade física. E essa descoberta é de inefável beleza e contentamento - pois que o fim de tudo é o Bem! O Universo tem por fim o supremo Bem - o Bem é o momento final e augusto de toda a evolução do Universo.

Possuía pois Antero, enfim, a «sua filosofia», essa filosofia que ele tantos anos perseguira como deusa esquiva entre selvas duvidosas, e que fora sempre para os seus amigos, alternadamente, motivo de esperança, de desconfiança, de entusiasmo e de sarcasmo... Mas agora Antero alcançara a deusa esquiva. E a lei moral dessa filosofia (de que ele deu na «Revista de Portugal» um esboço eloquente e poético) consistia em renunciar a tudo quanto limita e escraviza o espírito - egoísmo, paixões, vaidades, ambições, contingências, materialidades do mundo, - e em procurar a união do espírito, assim libertado e limpo de todo o pesado lodo terreno, com o seu tipo de perfeição que usualmente se chama «Deus». Essa união, em que a vontade limitada se dissolve na vontade absoluta, será tanto, mais eficaz quanto mais completa for a renúncia a tudo o que é egoísta, particular, individual. E só pela união com o Ser perfeito, de que essa renúncia é instrumento e condição, se realiza o Bem, o Bem supremo, fim verdadeiro de toda a vida, fim divino a que tende o Universo. Em resumo, a lei moral do homem é o constante aperfeiçoamento e a progressiva santidade.

De toda a filosofia de Antero (que sou bem incompetente para interpretar) só quero reter esta linha ética, porque ela o explica nesses anos de paz e de admirável doçura. A vida de Antero em Vila do Conde era então verdadeiramente edificante - e constituía, sem doutrina, um forte ensino moral. O velho Santo Antão no monte Colzin não vivia um viver mais puro, mais entregue ao ideal, à perfeição, à Vida Eterna, do que Antero naquela casa de Vila do Conde, simplificada até ao cenobitismo, e onde por único adorno, além de livros numa estante de pinho, havia flores das sebes em púcaros de barro. Era aquele o retiro muito nu e muito limpo (porque Antero tinha o asseio e a ordem rígida de uma freira velha) de quem alegremente se despojou de tudo quanto embaraça, atravanca a vida de cada dia, para encetar a alta conquista da liberdade moral. Com ele viviam as duas meninas que adoptara, «as suas pequenas», que então ensinava e educava, e que, pelos cuidados da paternidade, o prendiam ainda ocasionalmente à sociedade. Fora desses cuidados ele só se ocupava com o aperfeiçoamento da sua alma, ou, como diria um católico, com a sua «salvação». Não salvação individual e egoísta, como a dos santos - mas salvação de todos, salvação para todos, penetração lenta no Bem próprio para dele fazer um instrumento do Bem universal. Leituras intermináveis e longamente pensadas; solilóquios constantes de um espírito, que constantemente se confessa para constantemente se corrigir; intensas meditações, em que a sua vida se confundia na vida do Ser, num desejo permanente de sentir na sua consciência de homem latejar a consciência do Universo - eis o abstracto emprego dos seus nobres dias. Outro não era o dos Solitários, nos desertos do Alto Egipto, tentando a suprema fusão com Deus. Como regressos ao mundo donde por virtude e mesmo por gosto se não sequestrara, tinha as suas Visitas ao Porto, a Oliveira Martins. Era o que ele chamava as grandes «dissipações».

Oliveira Martins vivia então na sua linda e recolhida casa das Águas Férreas. Se já houve em Portugal um delicado e grave retiro de estudo e de trabalho, sereno, hospitaleiro, superiormente polido e culto, forte em afeições, fecundo em obras, belo pela consciência e pela ciência, e como espiritualizado pelas correntes de pensamento que nele tão livremente circulavam, foi esse da saudosa casa das Águas Férreas - enquanto não veio bater à porta a Política, disfarçada, trazendo sobre a face torpe a máscara nobre do Civismo. A biblioteca ficava em baixo, abrigada no silêncio propicio de vielas desertas: aí viveu Oliveira Martins os seus dias mais doces, e escreveu os seus livros mais fortes, numa regra e concentração de beneditino, cortadas às vezes por tumultuosas inspirações de artista, como, .quando ao reviver a «História da República Romana», durante quarenta horas, sem descanso, sustentado a café, ele foi empurrando com pena magnífica, através das ruas de Roma, da Porta Carmental ao Capitólio, o triunfo de Paulo Emílio. Antero encontrava aí alguns dos seus companheiros de Coimbra, mais amadurecidos, disciplinados pelo trabalho, cada um ancorado na sua pequena Ítaca, mas conservando todos o gosto das viagens incertas pelos mares da Fantasia. A «encantada e fantástica Coimbra» de outros tempos ressurgia, com mais ordem intelectual, um saber mais positivo, e uma outra consciência da vida e da sua seriedade. E, como em Coimbra, Antero era ainda a curiosidade e o encanto daquelas tertúlias, misturadas de alto critério e de belo riso, onde por vezes toda uma metafísica, em plena expansão, tropeçava e desabava sobre a ponta aguda de um calembour. O seguro renovo de saúde, depois das desesperanças da doença, sobretudo a paz filosófica, tinham robustecido a alegria nata de Antero - e dado à sua natureza, até aí alternadamente meiga e violenta, uma serenidade igual e contemplativa como a luz de um belo dia de Outono. Aquelas indignações de insurrecto, em que outrora constantemente o lançavam os seus instintos de superior justiça, e certos laivos persistentes de radicalismo, eram agora raríssimos nele: e as misérias ou vergonhas da política (que em casa de Oliveira Martins, já director d’«A Província», repercutiam com particular intensidade) só causavam a Antero uma compaixão tranquila. Ele, de resto, ainda acreditava então que misérias e erros provinham do vicio ou da incompetência da pequena casta política que, através de Lisboa, domina a Nação - e que, no fundo do povo, existia, latente mas intacta, uma grande energia viva, capaz de reconstituir, sob a direcção da Virtude e da Capacidade, a ordem na sociedade portuguesa. Mas desse movimento reconstituidor (para que entrevia já os chefes predestinados), Antero só queria ser a testemunha consolada, quando muito o filósofo tutelar. O seu espírito só se interessava pela essência pura das ideias; - e creio que dos também para entreter a solidão espiritual em que o deixara a partida de Oliveira Martins, instalado em Lisboa e na Política, é que Antero esboçou rapidamente algumas ideias, certas tendências do seu espírito, que ele considerava, e com razão (o neo-idealismo crescente da Literatura e da Arte, nestes últimos anos, o prova) serem as tendências gerais do espírito filosófico no fim do século XIX.

Antero, com efeito, vivia muito solitário em Vila do Conde - sem mesmo a companhia das suas «pequenas», que, agora crescidas e necessitando uma educação feminina e doméstica, ele colocara, depois de muito escolher, de muito cogitar, no convento das Doroteias.

Como regressos ao mundo, «grandes dissipações», somente lhe restavam as visitas a Luís de Magalhães, à Quinta do Mosteiro. Antero amava a farta lavoura, a forte vida naturalista e sã que enchiam aquela antiga vivenda de frades. Mas sobretudo lhe era doce, e talvez salutar, ver, em meio de vida tão verdadeira e livre, Luís de Magalhães, robusto, exuberante, patriarcal, com aquela sua clara alma onde a alegria repica de matinas a trindades, arando os seus campos e fazendo os seus versos, como outrora Virgílio. Estas visitas, depois a sua solidão, e sobretudo o motivo que a avivara, a definitiva entrada de Oliveira Martins na acção, levaram Antero a considerar com mais atenção, quase com paixão, a política, os seus actos e os seus homens. Sempre intensamente português, nunca alheio ao que interessava a nação, era natural todavia que a política se tornasse para ele uma realidade mais sentida, desde que um nobre amigo, um irmão, passara das ideias para os factos, e surgia como um reformador, empurrado, aclamado por tantas esperanças puras e crentes. Este novo interesse de Antero não veio senão desmanchar a suave paz intelectual que o envolvia. Seguindo o movimento do mundo político com a curiosidade com que se olha para um mar onde o barco de um irmão anda a manobrar e a rolar - Antero foi recebendo repetidas impressões de tédio e de desesperança. Aquele espírito pacificado, e tão feliz quando contemplava metafisicamente o Universo, porque sentia o fim soberanamente perfeito a que ele marcha na sua evolução - perdia a paz, perdia a felicidade, quando observava o pequeno Portugal, e este curto momento histórico em que ele se debate entre tanta baixeza e miséria moral. É certo que a sua supersensibilidade de artista; de metafísico e de solitário exageravam essa miséria e essa torpeza. E quando uma tarde, passeando por Lisboa, ele confessava a um amigo, com terror sincero, que em todos aqueles homens que se cruzavam, na fria tarde de Inverno, distinguia nitidamente o signo fatídico da aniquilação iminente, e a ferocidade mal escondida de seres esfaimados que se vão entre-devorar - evidentemente estava sofrendo de uma visão e não exercendo o seu destro e lúcido raciocínio. Assim S.

Pacómio, descendo da alta Tebaida a Alexandria, soltava gritos pelas ruas, porque, sob as túnicas moles e bordadas daqueles alexandrinos votados à sensualidade e à falsa dialéctica, ele via claramente o pé de bode que revela os demónios. Mas, de resto, a visão de Antero tinha um seguro núcleo de realidade. E pelo exame dessa realidade, a que ele desfazia não somente todos os fios visíveis mas antevia os prolongamentos ainda encobertos, viera a descrer de Portugal, com uma descrença que lhe era angústia. Angústia bem contraditória num grande intelectual, que sentia o mundo, através de todas as aparências perversas, marchar sublimemente para o. Bem, supremo e consolante momento da evolução do Ser. Que pode importar uma chaga em corpo, que, por efeito mesmo dessa chaga e da sua decomposição, se está transformando no puro espírito, no anjo? Tais contradições, porém, pululam no misticismo, enchem a história dos Santos do Deserto.

E a angústia era tanto mais pungente quanto Antero via o seu grande amigo Oliveira Martins que se debatia, já vacilando, no meio desse mundo por ele considerado de irresgatável torpeza. Hércules partira para limpar as cavalariças de Augias: Antero animara, acompanhara Hércules até às portas da escura infecção: - e agora o lodo, em vez de diminuir sob o esforço (que se julgara invencível) do filho forte de Zeus, parecia crescer, cada manhã mais espesso, para o imobilizar e sufocar.

Desalento amargo para Antero - e repassado de cólera.

Quando eu, justamente por esse tempo, o convidava a traçar na «Revista de Portugal» um «Quadro da Sociedade Portuguesa», ele recusou asperamente, declarando que, a respeito de Portugal, só «podia rugir, vomitar amargores, e esses rugidos e amargores, sem o aliviar, magoariam e contristariam outros». Era ainda aqui o homem que no meio da grande cólera, não esquece a grande caridade.

Dentro dessa caridade estava já a semente de uma nova e definitiva pacificação. Mas tinha ainda de ser fantasticamente iludido, de criar outro imenso fantasma, para o servir com amor. É seguindo fantasmas, através do «palácio encantado da Ilusão», que afinal se vem a repousar deliciosamente na paz do Senhor. Essa singular ilusão foi a Liga Patriótica do Norte. Ele próprio lhe chamava «o seu derradeiro fantasma». Antero acreditou então, e com deslumbrado ardor, em coisas inacreditáveis - na mocidade iniciadora; na contrição dos velhos partidos pecadores; na alma quinhentista de Portugal ressurgindo; no despertar de um povo, com a vontade bem consciente, e formulada em comícios, de ser novamente esforçado e grande! Trazido por uma turba de estudantes, que a força de uma lenda impelia, e que agitavam tochas e bandeiras, deixou o seu retiro de Vila do Conde. Sem ainda saber o que se pedia à sua forte autoridade moral, foi aclamado numa assembleia do Porto, onde os secos burgueses do tristonho burgo se entretocavam o cotovelo, murmurando com desconfiança: - «Quem é ele?» Era um símbolo. Na casa em que se hospedara, tremulava sobre uma varanda o estandarte de Portugal, anunciando, à velha moda feudal, a presença do senhor da terra, defensor das gentes e dos gados. Tão simbólico era que alguns mais exaltados, ou mais estéticos, estudavam a forma de uma dalmática de doge, toda em veludo e arminhos, com que ele devia presidir às sessões da Liga!... E a Liga, que ainda mal nascera, já findava decomposta. Tão decomposta que dentro dela não restava outro movimento senão o fervilhar dos vermes partidários, Regeneradores e Históricos.

Quando se acabaram de elaborar os estatutos, que eram o programa muito complexo da Nova Vida, a Liga já não existia, dispersa, sumida, toda fugida para os hábitos da Vida Velha. Os políticos tinham recolhido aos seus centros: - a mocidade que fora arrancar Antero à metafísica, regressara, cansada desse esforço, às banquetas e aos bocks dos cafés da Praça Nova. Na sessão em que se leram os consideráveis estatutos só havia na vastidão dos bancos, quinze membros que bocejavam. E numa outra final, como ventava e chovia, só apareceram dois membros da Liga; o presidente, que era Antero de Quental, e o secretário, que era o conde de Resende. Ambos se olharam pensativamente, deram duas voltas à chave da casa para sempre inútil, e vieram, sob o vento e sob a chuva, acabar a sua noite em Santo Ovídio.

Assim se sumiu a Liga. E, desfeitas as formas revoltas desse estouvado sonho, Antero reentrou numa paz magnífica. Nunca com efeito, como nessa Primavera, quase toda passada em Santo Ovídio, o conheci tão sereno, tão estável na vida, de uma tão diligente e risonha sociabilidade, movendo o espírito dentro de uma liberdade tão rica. Se algum amargor lhe ficara dessa ilusão derradeira, a que tão candidamente se abraçara e que tão chochamente se esvaíra, decerto a sua ironia lho adoçou ou de todo lho dissipou. Foi talvez mesmo um motivo para subir de novo àquelas alturas do pensamento, donde as coisas se avistam na sua essência e verdade intrínsecas, sem que importem os acidentes, as modalidades e as imperfeições transitórias. Ei-lo pois de novo refugiado na impassibilidade subjectiva, na alva torre de marfim. O seu país, é certo, apodrece... Que importa - se o universo todo, onde ele é apenas uma mancha esverdinhada, se move divinamente para o Bem, para a Verdade, e para a Beleza? A este equilíbrio de alma correspondia então nele uma verdadeira pacificação fisiológica. A não ser por certos cansaços, e pelo hábito de comer como os faquires da Índia uma única vez de sol a sol (o que à nossa voracidade godo-latina se afigura uma deficiência mórbida) Antero possuía todas as facilidades e exterioridades da saúde, começando pelas rosas desabrochadas que lhe resplandeciam em cada face. E neste sossego de alma e de corpo, depois dos tormentos que ambos tinham atravessado, brilhava, com uma luz mais alta e mais visível, a sua excelência moral. Conviver então com Antero foi um encanto e uma educação. Não conheço virtude que ele não exercesse: e com uma graça tão fina e fácil, que a Virtude, através dele, aparecia, não só como a suprema utilidade, mas como a suprema elegância da Vida. A alma de Antero, com efeito, foi sempre superiormente elegante.

Logo os seus modos tinham uma harmonia carinhosa, envolvedora, que era melhor que a boa cortesia social, e que não nascia somente da raça e da cultura, mas do nobre fundo dos instintos, do seu amor e alta caridade humana. Não havia nele nenhum dogmatismo, nem orgulho de casta filosófica; e mesmo sobre doutrinas, e em coisas da sua fé, nunca usava aquela «ponta agressiva da contradição» que todos os teólogos concordam ser a qualidade mais desagradável do Diabo. Era cheio de paciência, de atenção afável, para os seres mais fastidiosos, mais viscosos. Todas as manias e preconceitos o encontravam risonhamente misericordioso. E sem esforço, a cada instante a sua inteligência, acostumada às alturas, descia até às familiaridades da rua, pequeninamente simples com os simples, tão fácil que uma criança podia brincar com ela, semelhante a essa estrela da lenda que era um mundo, e que na cabana da pastorinha vinha prestar os mais humildes serviços, e ser a fagulha que acendia a lenha e a luzinha que tremelejava na candeia.

Por isso Antero cativa «toda a sorte e condições de gentes várias», como diz a Bíblia. Vi lavradores, diplomatas, industriais, toureiros, meros vadios, voltarem da sua companhia gratamente encantados, e cada um louvando nele um dom diverso. qual o bom senso, qual o saber especial, qual a gentil graça, qual a doçura. Tacanhos beatos, de relicário e opa, amavam aquele livre filósofo: e mundanos, de estouvada mundanidade, viviam no entusiasmo daquele asceta. Isto provinha, menos da sua ilimitada aptidão para compreender, que da sua amorável facilidade em se interessar: - e ainda também daquela sua delicada arte, tão rara e benéfica, provando sempre nobre raça e muita humanidade, a arte de «saber escutar». E não só de escutar, mas de ajudar o pensamento dos outros a surgir dos embaraços da expressão perra, a lançar o seu pequenino brilho: - e assim muitos afirmavam que, conversando com Antero, se sentiam inesperadamente mais inventivos, mais inteligentes... A inteligência era a dele, que, como o generoso sol, feito de ouro candente, tudo doura em redor.

Era tocante como atraía as crianças. Muitas noites em Santo Ovídio, quando junto do fogão Antero conversava, sentado no meio de um divã, na sua atitude costumada, com as pernas cruzadas, as duas mãos cruzadas sobre o joelho magro, surpreendi pequenos de seis e sete anos, que, desviando os olhos de algum livro de estampas, o contemplavam maravilhados. Ele possuía, de resto, a subtil ciência de tratar com crianças, sendo ainda ele próprio como uma criança, porque a sua alma, que tanto vivera pela cogitação, nada perdera da candidez - e era assim ao mesmo tempo muito velha e muito inocente.

O motivo desta incomparável sedução era a sua bondade, tão luminosa, tão repassada de intelectualidade.

Antero nesse tempo, tornado verdadeiramente Santo Antero, irradiava bondade. Como naqueles jardins espirituais celebrados pelos místicos, donde se varreram todas as folhas secas, donde se arrancaram todas as ervas más, muito limpos e enfeitados para receber a visita do Senhor - na alma de Antero, de que ele fora jardineiro cuidadoso, não restava erva má ou folha seca, nem egoísmo, nem soberba, nem intolerância, nem desdém, nem cólera. Só as flores do Bem (de cuja duração e perfume ele outrora duvidara) floriam, e tão lindamente e frescamente que o jardineiro agora repousava, e a cada hora de sol ou de crepúsculo o Senhor podia descer e visitar o seu jardim... Quando muito, aqui, além, numa ponta de folha mais lustrosa, corria uma faísca de ironia.

Mas o sarcasmo, esse, inteiramente o abandonara, como arma de batalha que se deixa enferrujar logo que vem a bela e doce paz. Também o meu santo amigo perdera aquela exuberante veia cómica, que fazia da sua conversação como um seguido estalar de foguetes, enchendo o céu de festivo ruído, de estrelas quase verdadeiras, de sulcos cor de ouro, onde se iam levados o nosso pasmo e os nossos ahs! deleitados. O seu conversar agora era calmo e liso, desadornado de todos os brilhos intensos, de uma elegância muito leve, de uma lucidez muito insinuante, sempre risonho, sempre sociável, e tão naturalmente harmonioso que formaria páginas de uma incomparável prosa, só corri ser transcrito, sem necessidade de lima e arte que o apurasse. A grande obra de Antero, na verdade, foi a sua conversação. O que resta em panfletos, artigos, ensaios, representa tão incompletamente o seu pleno, rico, povoado, fecundo espírito, como secas folhas de árvore entre folhas de papel representam um fundo bosque da Florida. Só os que o escutaram, na intimidade, ficaram conhecendo a prodigiosa abundância, originalidade, finura, profundidade e força do seu pensamento. A antiquada comparação do «relâmpago» alumiando subitamente horizontes, campos, estradas, casais, toda uma vastidão de vida e terra que se não suspeitava sob a escuridão, descreve muito graficamente o efeito intelectual de Antero conversando. E o encanto estava em que todo este deslumbramento era produzido com muita simplicidade - quase com humildade.

Tão fortes qualidades morais fundidas numa graça tão cativante, modos tão suaves e amoráveis servindo uma tal energia pensante, faziam de Antero de Quental uma personalidade magnificamente consoladora. No meio da mediocridade espiritual, e da inconsiderada rudeza dos costumes, e do materialismo argentário, os espíritos delicados encontravam na sua intimidade, e mesmo na sua fugidia convivência, um repouso semelhante ao que o corpo cansado e pisado do calor, do pó. dos encontrões de uma feira de gado, recebe ao penetrar na frescura e na elevação de um templo.

Antero possuía uma alma onde, na meiga e intraduzível expressão de França - il faisait très-bon. Por isso todos os intelectuais, que uma vez o encontrassem, lhe conservavam para sempre um sentimento que era misturado de amor e não dissemelhança da devoção. E tínhamos ainda nele um confortante orgulho, pois bem sentíamos que esse homem tão simples, com uma má quinzena de alpaca no Verão, um paletó cor de mel no Inverno, vivendo como um pobre voluntário num casebre de vila pobre, sem posição nem fama, sempre ignorado pelo Estado, nunca invocado pelas multidões, era o elo rijo, o mais rijo elo de fino ouro, que prendia Portugal ao mundo do pensamento. Ora uma nação só vive porque pensa - e pelo que pensa. Cogitat, ergo est. Naquele humilde, pois,.

que se comprazia entre os humildes, estava a mais larga e mais rica soma da verdadeira vida de Portugal.

Como aquela noite de Coimbra em que o conheci, era também de Primavera e de luar a noite derradeira que passámos juntos em Santo Ovídio. De tarde andáramos por sob os nobres e seculares arvoredos da quinta. Depois ele descansou no meu quarto, estendido na cama, com o seu cigarro, como nos tempos escolásticos. Pela varanda, orlada de glicínias, aberta sobre os jardins, entrava frescura, paz, o murmúrio dos repuxos dormentes, todo o aroma esparso das rosas de Maio. Antero amava aquela velha vivenda patrícia, refúgio excelente para um erudito, ou para um magoado da vida que procurasse um ermo ainda florido e onde a severidade fosse risonha. E assim viemos a conversar desta materialidade dos tempos, e estridor das cidades, e exageração da actividade cerebral, e aspereza das democracias, que começam a empurrar tantos seres sensíveis ou mais imaginativos para a quietação religiosa e para o Deserto moral. Antero pensava que uma forte reacção espiritualista e afectiva se seguiria à materialidade deste duro século utilitário e mercenário; - e, rindo, relembrou a sua antiga ideia, a fundação da Ordem dos Mateiros. Estes monges do idealismo teriam por missão o reconstituir, em toda a sua beleza e dignidade primitivas, a vida rural, a mais elevada, porque imolando toda a civilização sumptuária, e portanto todos os apetites, e paixões, necessidades falsas que dela derivam, e reclamando apenas o seu bocado de terra, o seu bocado de pão, conquista socialmente a verdadeira liberdade, e através dela se prepara a atingir espiritualmente a verdadeira perfeição. Mas não era esta a obra melhor dos Mateiros. Toda essa reorganização do mundo, na forma de quietos e fecundos hortos, servia de base a uma alta renovação religiosa. Qual? Antero tendia para uma mistura do platonismo e do budismo. Eu preferia que os Mateiros, retomando a grande obra de cultura que fez a conversão do cristianismo católico em cristianismo histórico, a adiantassem, deslocassem o cristianismo da região da história para a região da psicologia, removessem toda a aluvião eclesiástica e teológica, e descobrissem, revelassem o ponto verdadeiramente divino - o estado da consciência de Cristo... Tudo isto ocorria muito familiarmente, sem pompas exegéticas ou filosóficas; e terminámos mesmo por escorregar da filosofia para a fantasia, organizando a Ordem, os seus estatutos, a sua disciplina, o seu traje, o seu cerimonial. Toda a dificuldade foi que, para esta adorável reconstrução da terra e da humanidade, repercorrendo os nossos amigos, só encontrámos três Mateiros sérios. E eu próprio, tão delicado, reclamava já confortos, regalias estéticas, e uma poltrona no Deserto. Depois apareceu o conde de Resende, que imediatamente pediu o hábito e a enxada, e ofereceu, para se erguer o primeiro mosteiro, uma das suas terras, Canelas ou Resende. A velha quinta de Resende parecia a Antero excelente, quase fatídica para uma obra de conquista espiritual - pois sob os seus históricos arvoredos fora educado Afonso Henriques, de entre eles saíra a velar as armas na Sé de Zamora, e, depois, cavaleiro cristão, a bater o Moiro, e a fundar o reino cristão. Aceitámos a quinta com apostólico fervor. Mas o senhor de Resende teve exigências tão epicuristas a respeito do refeitório, que Antero, indignado, apesar da magnífica oferta, o expulsou logo da Ordem como tinhoso, servo irremediável da carne... Assim riamos, brincando com os problemas, entre o aroma das rosas naquela noite de Maio.

Já tarde acompanhei Antero à casa que ele habitava na Rua de Cedofeita. Conversámos sobre os seus planos - porque agora as «pequenas», crescidas, iam sair das Doroteias, e para as instalar no mundo, devia ele repenetrar no mundo. Pensava pois em voltar à sua ilha, a S. Miguel, como sendo um mundo mais sereno, mais puro, mais fácil. Lisboa, para Antero, era uma Nínive revolta e sórdida. Diante da sua porta aberta ainda nos retardámos em pensamentos ligeiros da vida e da sorte. Por fim: - «Adeus, Santo Antero!» - «Velho amigo, adeus!» Ele mergulhou lentamente na sombra do corredor... E não o vi mais, nunca mais! Foi para S. Miguel, para o seu mundo mais doce, mais fácil... Depois uma tarde, como aquele filósofo Demónax, de quem conta Luciano, «concluindo que a vida lhe não convinha, saiu dela voluntariamente, e por isso muito deixou que pensar e murmurar aos homens de toda a Grécia». O que dele pensam os homens da nossa Grécia, não o sei -pois que de há muito na nossa Grécia uma apagada tristeza traz os homens desatentos e mudos. É morta, é morta a abelha que fazia o mel e a cera! Quem se nutre ainda do gostoso mel? Quem se alumia com a pura cera? Por mim penso, e com gratidão, que em Antero de Quental, me foi dado conhecer, neste mundo de pecado e de escuridade, alguém, filho querido de Deus, que muito padeceu porque muito pensou, que muito amou porque muito compreendeu, e que, simples entre os simples, pondo a sua vasta alma em curtos versos - era um Génio e era um Santo.

In Memoriam, 1896

Fonte: www.virtualbooks.com.br

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