Como já foi mencionado, as causas para a descentralização política que ocorreu no final do Antigo Império ainda são um tanto obscuras, mas, por outro lado, suas conseqüências são bem claras.
Primeiramente, deve-se saber que num país como o Egito Antigo, onde não havia estradas e onde o único meio de comunicação entre as diferentes regiões era o Nilo, a ausência ou fraqueza de uma autoridade central ocasiona certamente um aumento dos particularismos regionais. Como já mencionei, os Egípcios não se consideravam seres humanos superiores aos demais, se consideravam apenas seres humanos, coisa que os não Egípcios não eram; também o Egito não era o melhor lugar do mundo era apenas o mundo, sendo que o restante das regiões consistia numa espécie de cópia mal feita de sua perfeição.
Diante de tamanha arrogância, é natural que o declínio da Maat e a ascensão das autoridades locais em detrimento do Semi-Deus de Mênfis ocasionaria tremendo impacto na sociedade Egípcia.
Para se compreender o que aqui se fala é interessante que se note que o Egito foi o primeiro Estado-Nação do mundo, ou seja, a primeira região onde a política, a religião e as manifestações artísticas trabalharam juntas no sentido de construir uma identidade nacional, sendo esta aceita (muito mais do eu imposta) por todas as partes do Reino. A arte Egípcia se desenvolveu de forma a criar formas perfeitas, muito mais do que os Greco-Romanos, que construíam suas estátuas e faziam suas pinturas para retratar a aparência estética dos homens, os Egípcios, com suas figuras sóbrias, retilíneas e (no caso da pintura) chapadas, ou seja, sempre na posição padrão (tórax de frente, cabeça de perfil e membros trabalhando no sentido de mostrar a atividade do indivíduo), imprimiam uma noção de perfeição aos homens.
Os artistas Egípcios nunca retratavam velhos e doentes como eles realmente eram, mas como deveriam ser, ou seja, perfeitos. A arte do Vale do Nilo também desenvolveu a técnica, posteriormente muito utilizada na Europa Medieval, de representar os indivíduos mais importantes, bem como os Deuses, com estaturas maiores do que aqueles menos importantes, dessa forma, para a arte, não importava a real estatura de um indivíduo, mas sim sua importância social (mulheres, a menos que fossem muito importantes eram sempre retratadas como sendo menores do que os homens), o Faraó era sempre o maior de todos os indivíduos a ser retratado, afinal, era um Deus. Mesmo que o faraó estivesse sentado, os demais indivíduos seriam menores do que ele, ou, na pior das hipóteses, estariam prostrados de joelhos adorando-o com a face colada ao chão.
A arte correspondia ao exato pensamento Egípcio de relação hierárquica, uma vez que ninguém, nem mesmo o Tjati, podia falar com o Faraó ou sequer olha-lo nos olhos. Quando o Faraó conversava com alguém, referia-se a si mesmo na terceira pessoa e também assim era referido por seus interlocutores, com efeito, ninguém falava com o Faraó, mas, tão somente, em sua presença.
Para Platão, a arte Egípcia era uma representação mais realista do mundo do que a Grega, visto que a Grega, por retratar as imperfeições, segundo o Filósofo, não conseguia discernir entre o real e o imaginário, enquanto que a arte Egípcia, ao retratar os indivíduos sempre no esplendor de sua forma física, sem emoções ou desequilíbrios, conseguia ver o âmago (e porque não a alma) de cada um, conseguia ver sua verdadeira essência, como ele realmente era. Na realidade, os Egípicios foram os primeiro a pensarem os homens como seres feitos à imagem e semelhança dos Deuses (tradição que certamente se espalhou pelo Mediterrâneo Oriental) e, dessa forma, perfeitos. De um certo ponto de vista, a arte Medieval, talvez pelas fortes influências de Fayum (no Egito), talvez por algum outro motivo, guardou em si muitos dos aspectos da arte Egípcia (considerada por críticos de arte como sendo uma arte Pré-Perspectivista, ou seja, sem a capacidade de retratar figura em perspectiva, com impressão tridimensional), enquanto que a arte Renascentista, ao regatar os padrões da arte Greco-Romana Clássica, ao se julgar mais evoluída de um ponto de vista artístico, acabava se chocando com a opinião de um dos mais cultuados Filósofos Antigos na época do Renascimento: Platão.
Segundo as datações de Mâneton, depois do longo governo de Pepi II se inicia a VII Dinastia que ele retrata como sendo uma Dinastia de “70 Reis que Reinaram por 70 dias”. É óbvio que a VII Dinastia não deve ter tido 70 soberanos e também é óbvio que estes soberanos não governaram apenas um dia cada. Essa colocação de Mâneton é muito mais possivelmente uma licença poética para mostrar que a VII Dinastia foi um período de disputas e crises onde a autoridade central tinha pouca ou nenhuma legitimidade, afinal, o governo, em meio a uma crise terrível (como já foi visto) teria passado às mãos de alguém que não tinha a legitimidade do sangue Real para governar, visto que Pepi II teria sobrevivido à morte de seus filhos.
Em meio a esse período de crise (ou, segundo alguns, no final do governo de Pepi II, o que não é muito diferente em termos da grandeza da crise), surgiu no Egito a primeira narrativa de que se tem notícia na História a conter a forma de conto narrativo linear. Essa história, conhecida como “As Admoestações de Ipuwer” fala sobre as tragédias que se abatiam sobre o Egito naquele momento e conta a peregrinação de um sábio chamado Ipuwer até o palácio Real de Mênfis para alertando o Faraó, conseguir salvar o Egito. Vejamos a versão dessa história compilada por Brigitte Évano, traduzida por Eduardo Brandão e publicada no Brasil pela Companhia das Letras:
Nada vai bem no Egito. De norte a sul, o país parece estar atravessando uma crise de loucura. Uma grande infelicidade se abate sobre o Reino do Velho Faraó. Tudo anda às avessas.
O Nilo transborda, mas ninguém aproveita para cultivar os campos. As mulheres ficam estéreis, os homens são dizimados pelas doenças. Nas cidades, os acontecimentos se aceleram de maneira inquietante. Ninguém mais paga imposto. O país inteiro está à beira do abismo.
Ante essa situação, os grandes, os que costumam tratar dos negócios do Reino, estão desconsolados. Eram ricos antigamente, agora são obrigados a vestir farrapos e o estômago deles chora de fome.
Enquanto isso, os pobres possuem os mais belos objetos, e os que antigamente não tinham, meios nem para comprar sandálias de viajem, agora andam em liteiras douradas.
Os que não tinham pão possuem agora paióis de trigo, mas neles não há mais Escribas capazes de controlar os estoques.
As que não possuíam nem mesmo uma caixa de metal ordinário, vivem agora rodeadas de arcas ricamente ornamentadas, repletas de tecidos suntuosos.
As que eram obrigadas a se debruçar sobre a superfície da água para ver sua imagem, possuem agora mil espelhos.
O sábio Ipuwer contempla todas essas mudanças inquieto.
Não é tanto a reviravolta das situações que o faz estremecer e temer pelo futuro. Porque, afinal de contas, se se trata-se apenas do mundo pelo avesso, se os pobres tivessem ficado ricos, mas continuassem a fazer o Reino funcionar corretamente, enquanto os que outrora foram ricos passassem a ocupar o lugar dos pobres, o Reino do faraó poderia continuar enfrentando os anos por vir.
Mas as coisas não são tão simples. Não há mais estabilidade, nenhuma situação dura o bastante para que a boa marcha do país seja assegurada.
Ipuwer decide ir ao palácio conversar com o velho Faraó.
O palácio Real não parece afetado pela tormenta que atinge a todos. Os guardas estão a postos, a vida corre tranqüila, como se nada de errado estivesse acontecendo lá fora.
Ipuwer pede uma audiência, que lhe é concedida de muito má vontade. O sábio começa a suspeitar de alguma coisa.
Quando se apresenta diante do Faraó, está decidido a lhe contar a verdade, por mais que isso possa lhe custar, porque ele sabe perfeitamente que suas palavras vão ser consideradas verdadeiros crimes de lesa-majestade.
De fato, o Faraó vive como antigamente, e Ipuwer suspeita de que ele não está a par dos acontecimentos. Seus conselheiros, felizes por escapar do tumulto permanecendo no palácio, escondem-lhe a verdade.
Ipuwer começa assim seu discurso:
“Sabedoria, inteligência e direito estão contigo, mas tu deixas o país presa da desordem. Ninguém mais respeita tuas ordens. O país gira como o torno de um oleiro e tu nada fazes.”
Sem deixar ao Faraó tempo para replicar, Ipuwer continua:
“Mentiram-te, o país está entregue às chamas, os homens se matam de uma ponta à outra do Reino, os próprios templos já não são respeitados. Faraó, vê o estado do teu país! Fica sabendo que és culpado que és culpado pelo que lhe sucede! Tu te trancaste em teu palácio sem procurar saber o que acontece lá fora. No entanto, devias suspeitar de que teus conselheiros estavam te mentindo. Age já, restabelece a ordem, se ainda podes faze-lo!”
Ipuwer percebe no rosto do velho Faraó sinais de cólera. Sabe que sem dúvida vai perder a vida por ter ousado dizer a verdade. Contudo, teme, ainda mais que isso, que seja tarde demais para restabelecer a ordem às margens do Nilo.
O Faraó, porém, não está com raiva dele: está é furioso contra os que o enganaram por tanto tempo.
Agradece, pois, a franqueza de Ipuwer e pede-lhe que o ajude a trazer o Egito de volta à normalidade.
É certo que nesta tradução das “Admoestações de Ipuwer” não constam todos os trechos da obra, afinal, não é uma tradução literal, apenas uma compilação que dá sentido ao texto. No entanto, o principal erro dela é justamente o fato de ter (possivelmente para que o texto ficasse apto à leitura infantil) retirado o trecho em que Ipuwer se queixa ao Faraó de que “Estrangeiros vieram para o Egito... em todos os lugares eles se tornaram gente”. Esse trecho nos dá a clara noção de dois pontos muito importantes da História Egípcia. Em primeiro lugar, com o crescente fluxo de estrangeiros para o Egito (iniciado com as capturas e recrutamentos durante a expansão e concluído com as invasões, especialmente do Delta, por Líbios), a ordem social que garantia que os Egípcios seriam gente, coisa que os estrangeiros não podiam ser, acabou abalada. Por outro lado, é possível perceber que a crise estava muito forte, visto que o governo não era capaz de evitar que estrangeiros adquirissem poder em seu próprio território.
Uma breve análise das “Admoestações de Ipuwer” nos dá ainda outros elementos sobre a sociedade Egípcia e sobre seu autor. Possivelmente o texto data do final do governo de Pepi II, visto que fala num velho Faraó, o que este certamente era. Em outra medida, podemos presumir que o texto deve ter sido escrito por um Escriba, alguém importante e que se julgava sábio, mas que jamais encontrou ou teria tido a oportunidade de encontrar o Faraó, visto que não conhecia os procedimentos de etiqueta adotados em sua presença. Podemos ainda presumir que este indivíduo respeitava a autoridade Faraônica e via nela a única chance de restauração da Maat que havia sido fortemente abalada. É possível que o autor das “Admoestações de Ipuwer” fosse um Escriba de algum Spat, ou templo, mas não da corte, visto que não detinha muitas informações sobre esta e, em seu texto, parece idealiza-la, como alguém que nunca a vira realmente. Outra conclusão lógica a que pode se chegar é a de que o autor da obra vivia no Baixo Egito, isso porque apenas essa região foi de fato invadida por estrangeiros. Nas demais, estes habitavam como escravos ou empregados (mercenários no caso de Mênfis), mas apenas o Delta foi de fato invadido e teve partes submetidas. Essa conclusão também explicaria a motivação da criação da obra, ou seja, buscar no Faraó um auxílio para se livrar do domínio estrangeiro. Por fim, os mesmos fatos que nos levam a crer que o autor não conhecia a corte e que vivia no Delta podem nos levar a crer que talvez o texto não tenha sido escrito durante o governo de Pepi II, visto que este Faraó deve ter se popularizado muito devido ao longo tempo em que governou, o que implicaria no fato de uma região submetida e sem contato com Mênfis não ter condições de saber se ele ainda vivia ou não, tendo assim, mencionado o velho Faraó como sendo também um possível símbolo da arcaicização do regime decadente.
Como vimos, a VII Dinastia não parece ter tido força alguma e, além disso, não deve ter tido uma longa duração sendo logo substituída pela VIII Dinastia. Esta Dinastia, que também governava a partir de Mênfis, pode ter sido um pouco mais duradoura do que sua antecessora, no entanto, também não logrou controlar o país e, assim como na VII Dinastia, nenhum Monarca da VIII mereceu destaque nas listas de governantes do Egito.
Por volta de 2170, uma nova Dinastia, a IX, se estabelece no Fayum, uma região semi-pantanosa localizada na margem ocidental do Nilo, próxima ao lago Moeris (atual Birket Karun). Essa região, apesar de ser muito produtiva, coisa que era rara em regiões não banhadas pelo Nilo, costumava ser alagada anualmente com as cheias do rio, visto que, por se tratar de uma planície pantanosa dotada de um grande lago, constituía o escoadouro propício para as águas da enchente. Justamente por essa razão, o Fayum, apesar de produtivo, até então não havia sido muito densamente habitado, pois as pessoas temiam a fúria das enchentes.
Pois bem, por volta da data referida, em Herakleópolis, no Fayum, Achtoes estabeleceu a IX Dinastia. A partir dessa região a IX Dinastia conseguiu gradualmente retomar sua autoridade central. Pouco a pouco as populações do Baixo Egito foram sendo submetidas e os invasores Líbios derrotados. Porém, um esforço reunificador do Egito estava além das possibilidades daquela Dinastia, tanto por seu centro de poder se localizar fora das margens do Nilo, quanto por não dispor do precioso cedro Fenício obtido outrora pelo comércio com Biblos. A falta do cedro não permitia que embarcações de grande porte fossem construídas e, sendo assim, o ímpeto expansionista destes Monarcas estava limitado.
Paralelamente, no Alto Egito, por volta dessa mesma data, estabeleceu-se um novo Reino unificado do Alto Egito. A capital desse Reino era uma cidade bem ao sul chamada de Tebas (não se deve confundir esta cidade com a cidade Grega de mesmo nome, este nome não é o verdadeiro nome da cidade, mas apenas o nome pelo qual ela foi conhecida pelos Gregos e que, sendo assim, passou adiante na História). Chamaremos a Dinastia de Tebas de XI, pelo fato de que em Herakleópolis, num curto período de tempo, a IX Dinastia acabou sendo substituída (por razões ignoradas, mas, possivelmente questões de sucessão) por uma nova: a X Dinastia.
A História da reunificação do Alto e do Baixo Egito foram diferentes, no caso do Baixo Egito, a IX e a X Dinastias conseguiram obter o apoio dos Nomarcas na luta contra os povos invasores (havia Líbios vindos do ocidente e, talvez, Hebreus vindos da Palestina, isso porque, ainda na VI Dinastia, há indícios de que Hebreus tenham atacado as minas do Sinai, o que teria motivado uma expedição punitiva Egípcia em direção à Palestina. É claro que esse argumento é muito fraco para sustentar que os Hebreus (numa época anterior ao seu monoteísmo e à sua unificação) tenham tido fôlego para aproveitar a fraqueza de seu vizinho poderoso e invadi-lo, essa hipótese parece apenas uma conveniência para justificar teses Bíblicas de que os Hebreus depois de um breve período de estabelecimento como senhores no Egito, teriam sido por estes derrotados e escravizados, o que sustentaria a teoria de Moisés e do êxodo). Por isso, a ascensão da Monarquia se deu como uma espécie de esforço conjunto para o restabelecimento da Maat. No caso do Alto Egito, no entanto, a situação parece ter sido bem diferente, Mentuhotep I, parece ter sido um Nomarca da região de Tebas que, através de sua força militar, herdada em parte das forças militares Faraônicas do Antigo Império, iniciou a submissão dos Nomarcas do Alto Egito. Sendo assim, nessa região, a violência imperou e a união se deu pela força e pela imposição, não pela busca do bem comum.
Por volta de 2133, talvez mais tarde, o Egito era novamente composto de dois Reinos: o Alto Egito e o Baixo Egito e ambos estavam prontos para se enfrentar rumo a uma nova unificação.
O enfraquecimento da Monarquia centralizada, como já explicamos, fortaleceu os líderes regionais, em especial no Alto Egito. Estes indivíduos passaram a receber os tributos para si próprios em vez de ter que entrega-lo ao Faraó, além de, por vezes (enquanto a VI Dinastia ainda existia), receberem financiamentos do governo Real.
Como o ímpeto unificar do Antigo Império havia partido do Alto Egito, não é difícil imaginar que esta região sempre houvesse sido mais desenvolvida e poderosa do que seu par do norte. Sendo assim, é muito provável que os Nomarcas mais influentes estivessem situados nos Spat dessa região. Para se ter uma idéia, o Museu do Cairo conta com oito despachos proferidos num só dia por um Faraó da VI Dinastia em direção a seu Tjati no Alto Egito. Esses despachos pediam auxílio para resolver problemas na corte. Não se sabe a resposta do Tjati, se é que houve uma, mas a mera existência de tais pedidos desesperados nos mostra que algo estava errado na ordem das coisas. Era o Faraó quem deveria ajudar os seus subalternos e não o contrário, se ele estava fraco a ponto de ter que necessitar da ajuda do Tjati, então é possível que este, por sua vez, estivesse forte a ponto de poder recusar este pedido.
Com efeito, o norte estava praticamente fora do controle do Faraó e nas mãos de invasores Líbios (com certeza) e Hebreus (talvez), sendo assim, é muito provável que as forças armadas do Egito estivessem concentradas no sul, sob as ordens dos Nomarcas da região, o que fez com que a militarização da região favorecesse a ascensão de líderes capazes de reivindicar o poder central, coisa que pode ter desencadeado as crises da VII e VIII Dinastias.
Com o enriquecimento dos Nomarcas do sul e o enfraquecimento dos Faraós, aqueles pararam de se contentar em construir suas tumbas na Necrópole Real, como verdadeiros satélites da tumba Faraônica, na prática, em seus Spat eles eram mais poderosos do que o Faraó e assim passaram a se comportar. Construíam tumbas em suas próprias regiões e se faziam adorar por suas populações como os verdadeiros Reis que haviam se tornado.
Esse crescimento do poder local em detrimento do central gerou, no plano filosófico, uma transformação do pensamento acerca da vida após a morte. Se antes todo o Egito estava ligado à vida do Faraó através da manutenção da Maat, agora se fazia impossível acreditar nisso, caso contrário todos passariam a estar condenados após suas mortes, visto que no mundo real a Maat estava totalmente desequilibrada, como nos relatam as “Admoestações de Ipuwer”. Dessa maneira, volta-se à idéia antiga de que cada um poderia ser imortal desde que tivesse seguido em vida uma estrita norma moral e de que recebesse os devidos cuidados devidos em seu funeral.
O principal trauma sofrido pela civilização Egípcia no final do Antigo Império foi o saque das tumbas Reais de Sakkara e, especialmente, das Pirâmides de Gizé. Até então os Faraós eram reverenciados como verdadeiros Deuses sobre a terra, criaturas dotadas de poderes inimagináveis e, portanto, dignas de culto e obediência, nunca de predação e vandalismo.
Pois bem, a preocupação com possíveis ladrões de sepultura sempre foi grande, não foi à toa que os Faraós optaram por amontoar seus túmulos em Necrópoles, uns próximos dos outros, faziam isso porque sabiam da existência de ladrões de sepultura que atormentavam o descanso de dignatários e Reis desde os tempos dos Spat, sendo assim, reunindo os túmulos em um único lugar, a vigilância seria facilitada, bastava manter um pelotão de guardas constantemente na Necrópole e que os ladrões não lograriam entrar.
De fato, as “Admoestações de Ipuwer” contém diversos trechos que a obra por mim utilizada não anota, no entanto, como já expliquei, aquela obra não é completa, mas tão somente uma compilação dos dados contidos no famoso e incompleto pergaminho Egípcio. Um trecho muito importante que pode ser inserido naquele já transcrito é esse que segue abaixo:
Olhai agora, algo nunca acontecido se realizou: o Rei foi levado pelos homens pobres... alguns irresponsáveis despojaram a terra de seu Rei... homens se rebelam contra as Uraeus que fazem a paz das Duas Terras. Olhai, o segredo da terra, cujos limites são desconhecidos, foi posto à mostra. O palácio pode ser destruído em uma hora... As esposas dos nobres trabalham agora no campo, e seus maridos, em casas pobres. Mas aquele que nunca dormiu nem mesmo num leito de tábuas possui agora uma cama própria... Os donos de belas roupas estão em andrajos. Mas aqueles que nunca costuraram para si possuem agora os mais belos linhos... Ela, que nunca possuiu uma pequena mala para guardados, possui agora um baú, e aquela que se olhava nas águas vê-se agora nos próprios espelhos... os filhos dos nobres são atirados contra as paredes... empregados falam o que querem...
Muitos lamentos sérios que haviam sido excluídos daquela primeira transcrição constam desta, neles se pode ter mais pertinentemente a noção de que uma revolução, ou talvez uma invasão por povos inimigos que estivessem despojando os Nomarcas de seus bens, estava acontecendo. Porém, para a relevância deste trecho do trabalho, acredito que o ponto mais importante seja o que trata do fato de o rei ter sido levado pelos pobres. O que isso significaria?
É óbvio que não podemos pensar em um seqüestro Real ou coisa do gênero, mesmo porque Ipuwer está se queixando ao próprio Faraó. Fica latente que ele se refere às múmias de Faraós já mortos e ao saque de seus túmulos.
Agora vejamos, os Egípcios dispunham de diversos dispositivos capazes de enganar os ladrões de sepultura, dando-lhes a impressão de que outros já haviam chegado antes. Além disso, instalavam armadilhas, como nas Grandes Pirâmides (fossos, portas falsas e outros tipos delas) e talvez até maldições, coisa que não é comprovada, contra os invasores dos túmulos. Mesmo assim os ladrões conseguiam entrar e roubar os tesouros das tumbas?
Sim, conseguiam. Temos que pensar que ao contrário do que nos dizem filmes com “A Múmia”, dentre outros, os Egípcios não conheciam ou utilizavam quaisquer tipos de fechaduras ou cadeados. Tais peças só foram introduzidas no Vale do Nilo com a chegada dos Romanos. Por essa razão, o trabalho dos ladrões era facilitado.
É óbvio que saquear um edifício monumental como qualquer das Grandes Pirâmides não é algo que se possa fazer num dia, ou mesmo de uma só vez. É trabalho para meses, talvez até anos de saques contínuos. Porém, com o colapso da autoridade central, certamente nem as Pirâmides nem quaisquer outras coisas eram guardadas. Sendo assim, os saques foram constantes. Tumbas feitas para abrigar um morto e seus tesouros para toda a eternidade eram abertas e despojadas num ato até mesmo sacrílego da parte dos ladrões, porém, como já mencionamos, os clãs de ladrões de sepultura (dos quais alguns sobrevivem até nossos dias, é certo que com modificações em suas atividades, hoje são ladrões de antiguidades) eram seguidores de Set, o deus rival, o inimigo de Hórus, o Deus Falcão da Realeza, portanto, despojar o túmulo, a múmia e a eternidade de uma das antigas manifestações do Hórus vivo era até mesmo uma obrigação religiosa de tais ladrões.
É possível que os saques às tumbas Régias tenham acelerado o processo de multi-polarização das tumbas dos Nomarcas em seus próprios Spat em detrimento da antiga centralização desta em torno da tumba Faraônica, agora não mais um lugar seguro. Porém, além disso, os saques às tumbas Régias das Dinastias do Antigo Império, durante o Primeiro Período Intermediário, fez com que, como veremos, as práticas funerárias futuras fossem drasticamente alteradas.
Fonte: www.klepsidra.net