O Egito sempre fora uma civilização pautada na manutenção da ordem e das coisas como elas sempre haviam sido, por isso, nada mais natural que os períodos de maiores progressos desta civilização tenham sido justamente aqueles em que a manutenção das coisas, pela falta de uma autoridade central forte, se havia tornado impossível. Já havia sido assim no Primeiro Período Intermediário e seria assim também no Segundo.
Como já foi dito, por volta de 1800, povos estrangeiros, provavelmente vindos da Ásia, conseguiram transpor os “Muros do Príncipe” (nome pelo qual fora batizada a cadeira de fortalezas do Delta oriental) e se instalar naquela fértil região do Egito. A esses povos, Mâneton, e possivelmente também os Egípcios do início do II milênio, chamou Hicsos.
Os Hicsos, com seus carros de guerra, suas armas de bronze e uma vida acostumada a marchas constantes, puderam romper as defesas Egípcias instaladas no Delta e, delas se apoderando, se instalar na região sem dar ao governo central da XII, e depois da XIII, Dinastia a chance de expulsa-los de lá.
Por cerca de 250 anos o Egito esteve mergulhado num período de conflitos constantes onde chegaram a existir até três Dinastias concorrentes. Inicialmente havia a XII Dinastia (a Dinastia oficial) governando do Fayum e com autoridade sobre todo o Alto Egito, esta foi substituída pela XIII Dinastia que, por algum tempo, ainda conseguiu manter o controle sobre as mesmas regiões; se bem que esse controle era; como vimos; apenas relativo na medida em que o Faraó só podia se dizer soberano absoluto do próprio Fayum. No Delta ocidental, com o intuito de se defenderem de Líbios e de Hicsos, as populações se uniram e formaram a efêmera XIV Dinastia. No Delta oriental, baseados na cidade de Avaris, os Hicsos estabeleceram a XV Dinastia, sendo que depois conseguiram conquistar também as regiões do Delta ocidental e assim, estabelecer a XVI Dinastia naquela região.
Todos esses movimentos militares fizeram com que o Egito tivesse sua soberania estilhaçada. Com efeito, com o Delta nas mãos de estrangeiros, o comércio com o Mediterrâneo se tornava impossível, bem como as expedições ao Sinai se tornavam impraticáveis (pela proximidade da região com o Delta oriental e, portanto, com o centro de poder dos Hicsos).
Sem os minérios do Sinai e sem o comércio com Biblos e Creta, a XIII Dinastia não teve escolha a não ser se limitar a explorar o máximo que podia a Núbia. Contudo, os esforços militares que tais expedições demandavam começaram a também se tornar inviáveis. Parecia que o fim havia chegado à civilização Egípcia.
De fato, desde a unificação do Egito, nunca havia ocorrido o que viria a ocorrer: por volta de 1700, depois de já terem submetido todo o Delta ao poder de Avaris (sua capital fortificada), os Hicsos começaram a subir o Nilo e assaltar também o Alto Egito. Uma a uma as cidades Egípcias foram sendo tomadas e, rapidamente a XIII Dinastia foi deposta do poder. O Egito passava, pela primeira vez em sua História, a ser controlado por estrangeiros.
Na realidade, os Hicsos nunca conseguiram submeter todo o Egito ao seu domínio, havia regiões no extremo sul que se mantiveram independentes, além disso, o próprio Fayum nunca aceitou o domínio estrangeiro e parece que a XIII Dinastia continuou Reinando na região por todo o Segundo Período Intermediário.
Mesmo assim o ímpeto migratório, que havia trazido os Hicsos sabe-se lá de onde até o Egito, cessara. A invés de seguir sua marcha para o ocidente, os Hicsos decidiram se estabelecer no Egito. Estavam desejosos de se Egipcianizar. Parecem ter adorado a cultura Egípcia, tanto assim que ao tomarem o poder nacional (ou a maior parte dele), adotaram Set, justamente o Deus dos Estrangeiros, dos Desertos, dos Animais (seus cavalos, por exemplo) e do Caos, como seu Deus Dinástico. Era a volta, depois de tantos séculos passados desde o final da II Dinastia, de Set ao trono do Egito.
A tomada do poder pelos Hicsos devolveu a independência à Núbia, pois, com efeito, os estrangeiros que não haviam conseguido atingir nem mesmo as regiões mais ao sul do próprio Egito, jamais conseguiriam transpor as cataratas do Nilo para impor seu domínio à Núbia. Outras importantes mudanças trazidas pelos Hicsos ao Egito foram a introdução da criação de cavalos e da fundição do bronze.
A situação da população, no entanto, não era das melhores, se por um lado há suspeitas de que durante o Primeiro Período Intermediário tenha havido um resfriamento do clima da África Central de modo a ocasionar cheias muito diminutas, no caso do Segundo Período Intermediário essas suspeitas se comprovam através de documentos da época. Com efeito, a política centralizadora dos últimos Monarcas da XI Dinastia fez com que os diques de irrigação pública fossem desvinculados das tarefas dos Nomarcas e vinculados às tarefas do Faraó. No entanto, se por um lado essa medida visava criar uma maior interação entre as regiões. Por outro, com a falência do poder central, os diques estavam fadados a também deixarem de ser cuidados, o que, certamente, ocasionaria fome e más colheitas (independentemente de cheias menos potentes do Nilo).
Seja como for, o fato é que existem relatos de fome extrema assolando o Egito em todas as partes, mas, sobretudo no Alto Egito. É compreensível que, com o fracasso da agricultura, os homens se voltassem para o extermínio dos animais como forma de busca por alimentos. Porém, depois que os animais de criação se esgotaram e que os poucos animais disponíveis também já haviam rareado, não sobraram alternativas a algumas populações além do extermínio mútuo, em outras palavras, o canibalismo.
Em algumas localidades do centro da África essa prática ainda hoje ocorre. Em geral ela tem caráter muito mais místico (com o indivíduo que come a carne absorvendo as qualidades daquele que é devorado) do que gastronômico. No entanto, não é de se estranhar que acabe se tornando um recurso de uma comunidade assolada pela fome. É a luta pela sobrevivência: vale qualquer coisa!
Aos poucos, o governo dos Hicsos foi se fragmentando dentro de si próprio. Parece que uma facção dissidente fundou no Delta ocidental uma nova Dinastia, a XVI. Além disso, em Tebas, no Alto Egito, os Sacerdotes de Amon, que ainda dispunham de algum poder e de muita organização (algo que naqueles tempos difíceis se fazia mais importante do que qualquer outra coisa), iniciaram uma luta contra os invasores estrangeiros. Por volta de 1650 eles nomearam Nebkheperrá Inyotef VII como Faraó, o que constituía um cisma decisivo dentro do poderio Hicso.
Assim como Amon havia comandado a reunificação do Egito após o Primeiro Período Intermediário, também ele (mais precisamente seu clero) o fez no Segundo Período Intermediário. A situação, contudo, era diferente da anteriormente encontrada. Dessa vez os Spat não se haviam tornado independentes como após o declínio do Antigo Império, além disso, dessa vez havia um inimigo externo dentro das terras do Egito e esse inimigo precisava ser combatido.
Se, como vimos na leitura das “Admoestações de Ipuwer”, o simples fato de estrangeiros serem tratados como iguais, no final do Antigo Império, já causava aos Egípcios uma grande dor; imaginemos então o que não lhes causaria a sensação de serem governados por “Príncipes de Países Estrangeiros” (significado da palavra Hicsos, proveniente do termo hekau-khasut).
Por quase cem anos os soberanos da XVII Dinastia de Tebas deram combate aos invasores. Inicialmente eles estavam em desvantagem, mas, motivados pelo orgulho nacional e talvez pela fome, não desistiram de suas intenções.
A sorte Egípcia começou a mudar por volta de 1633, ano em que os registros sobre a XIII Dinastia de Iti-tauí, no Fayum, desaparecem completamente. É de se supor que estes soberanos locais, mas vivendo dentro de uma verdadeira “torre de marfim” dentro de um oceano de caos tenham se unido, se rendido ou mesmo sido destruídos e conquistados pelos soberanos da XVII Dinastia de Tebas.
De qualquer maneira, a aquisição de uma região produtiva como o Fayum havia se tornado depois das reformas operadas nele pela XII Dinastia para a causa da luta contra os Hicsos pode ter sido fundamental. É possível que a estabilidade da dieta tenha sido novamente alcançada, o que deu mais ânimo para a continuidade das lutas que, em 1567, expulsaram os Hicsos do Egito, reunificando-o outra vez.
Como já foi explicado, não se sabe ao certo de onde provinham os Hicsos. Se eram um povo só ou uma leva de vários povos. Não se sabe nada sobre seus cultos originais ou mesmo sobre seu destino após sua expulsão do Egito.
Os seres humanos, em geral, tendem a não suportar a realidade do não-saber, por isso, formulam teorias, investigam, pesquisam, lêem e, em última instância, acreditam... Sendo assim, aonde chegamos?
Bem, não se sabe sobre um povo que tenha sido expulso do Egito e que se tenha tornado uma ameaça invasora em qualquer outra região do norte da África ou do Oriente Médio, sim, pois estas duas rotas seriam as mais prováveis para um povo que nunca tinha ousado sequer chegar até as cataratas do Nilo e que, para faze-lo teria que cruzar Tebas, o centro de poder daqueles que os estavam expulsando. Como não se tem notícias sobre tal leva migratória, o que se pode acreditar é que os Hicsos não tenham de fato sido expulsos, mas, sim, sido assimilados pela população Egípcia.
Mas espere, você não disse e reforçou que os Egípcios não consideravam os estrangeiros como pessoas? Sendo assim, como podem tê-los aceito no seio de sua população mesmo depois de terem sofrido com sua dominação?
Bem, a resposta a essa pergunta é óbvia, se bem que não definitiva. Os Hicsos devem ter sido escravizados pelos Egípcios e, dessa forma, terem sido forçados a pagar pelos anos em que os oprimiram com seu domínio.
Espere aí! Conheço essa história de povo que impôs seu domínio sobre o Egito e que depois de se ver derrotado acabou escravizado... Sim, os Hicsos devem ser os Hebreus! Certo?
Para sermos sérios, não podemos confirmar nem recusar completamente esta hipótese. É sim bastante plausível que os Hicsos tenham sido Hebreus errantes que, por volta do início do século XVIII a.C. invadiram o Delta oriental do Egito em busca de terras melhores do que as suas. Como se sabe, a região que hoje corresponde a Israel e à Cisjordânia nem sempre foi habitada por Hebreus (ou Judeus, mas me referirei a este povo como Judeus apenas depois da criação do Judaísmo, não antes). Este povo pode muito bem ter sido um dos primeiros Povos do Mar, oriundos dos confins da Ásia e introduzidos no contexto do Crescente Fértil. É verdade que quando me referi ao Médio Império, disse que Senuosret III teria realizado uma expedição militar à Palestina, no entanto, não disse que povos ele teria combatido na região. Não é possível saber com certeza. Talvez até mesmo os próprios Hebreus que, como recém-chegados à região, talvez estivessem causando problemas com tentativas de ataques ao Sinai, quem sabe?
Realmente é tentador, especialmente para os Judeus e Cristãos de hoje, pensar que os Hicsos podem ter sido os Hebreus, afinal, isso justificaria que a Bíblia está correta no que tange a tais episódios contados no livro do Êxodo (livro que também é parte integrante do Torah dos Judeus). Porém, pensando de um ponto de vista mais cético, também temos que concordar que o Velho Testamento é uma compilação (obviamente de caráter fortemente ideológico) dos principais acontecimentos da História do Crescente Fértil dos quais se tinha conhecimento através da tradição oral. Muitas Histórias nele presentes foram modificadas pelo passar dos séculos e acabara sendo compiladas de modo a parecerem um amontoado de provações de Javeh (o Deus dos Judeus e Cristãos) para com seus filhos. Nesse contexto, podemos depreender do Velho Testamento diversas passagens da História de outros países, mas, em especial, como estudaremos mais adiante, do Egito.
Neste trabalho, até mesmo como forma de poupar especulações demasiadas, mas também como forma de melhor interar o leitor com aquilo que está lendo, considerarei que os Hicsos eram Hebreus e, sendo assim, que, após sua derrota frente aos Tebanos, acabaram servindo como escravos no Egito.
No entanto, recomendo muita atenção ao leitor para um assunto de suma importância: o filme “Os Dez Mandamentos”, onde Charleton Heston interpreta Moisés, principal responsável, pela formação do imaginário popular moderno acerca da vida no Egito Antigo e, sobretudo, acerca da vida dos Hebreus no Egito, em nada tem de verdadeiro. Eu poderia escrever um outro texto apenas sobre esse filme (e talvez um dia eu o faça), mas, por agora, o que mais importa e ressaltar que os Hebreus ainda não eram Monoteístas quando (e se) estiveram em cativeiro no Egito. Como explicaremos mais adiante, o Monoteísmo Hebreu ainda demoraria alguns séculos para surgir.
Este é o período mais nebuloso da História do Egito no que se refere às práticas funerárias. Com efeito, não sabemos como os Hicsos enterravam seus mortos, ou mesmo se o faziam, porque, pelo fato de Avaris se localizar no Delta, e pelo fato de aquela região ser freqüentemente alagada sendo semi-pantanosa, a maior parte dos vestígios arqueológicos acabou destruída. Mesmo Mênfis, capital secular do Egito tem suas escavações muito dificultadas pela destruição das águas do Nilo. Sendo assim, infelizmente, nada sabemos sobre as práticas funerárias Dinásticas dos Hicsos.
Contudo, no tocante às práticas funerárias da população nesse período, sabemos que a mumificação, bem como o sepultamento o mais digno possível, continuaram ocorrendo. A XIII Dinastia do Fayum, enquanto existiu, construiu pirâmides naquela região e os Faraós da XVII Dinastia de Tebas iniciaram a construção de túmulos escavados nas rochas. Com efeito, os túmulos nas rochas foram a saída encontrada para combater os saques generalizados que se abateram sobre as tumbas Faraônicas no Segundo Período Intermediário, de forma ainda mais epidêmica do que no Primeiro.
Outra inovação introduzida nos enterramentos do final do Segundo Período Intermediário, especialmente nas primeiras tumbas escavadas nas rochas, foi o Livro dos Mortos. Esses livros eram longos pergaminhos ricamente pintados e decorados que continham informações importantes sobre como ser bem sucedido no julgamento dos Deuses no Tribunal de Osíris. Não havia qualquer garantia de que o portador de tais livros adentraria em Amentet, o livro servia apenas como uma espécie de “cola”, um lembrete para que o morto não se esquecesse do que deveria declarar e de como agir na presença dos Deuses. É possível que tais livros tenham sido criados para evitar que o choque da presença Divina atrapalhasse o raciocínio do morto. Porém, também há indícios de que bem cedo estes Livros dos Mortos tenham se tornado uma grande forma de arrecadação financeira do Clero de Amon em Tebas.
Fonte: www.klepsidra.net