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Costumes do Egito

A miséria da classe mais pobre

Embora uma parcela da população egípcia tivesse, na época em que lá estivemos, uma espécie de "vale de ração", com o objetivo de mensalmente adquirir uma cesta básica em armazéns públicos por um preço bastante baixo, devido aos subsídios do governo, os produtos não eram baratos para o povo em geral. Agora, com a ingerência do FMI depois da Guerra do Golfo para sanear as finanças do Egito e com o governo cortando todos os subsídios de alimentos e serviços públicos, além de manter um câmbio artificial entre a moeda egípcia e o dólar americano, a situação é muito pior. Dois terços dos alimentos são importados. O "povão" nunca come carne.

Vejamos alguns preços de produtos, à época, encontrados no Cairo, em libras egípcias (LE) e dólares americanos (US$):

- café em pó, 1 kg LE 12,80 ou US$ 3,86;

- café solúvel, 200 g LE 10,20 ou US$ 3,08;

- carne para bife, 1 kg LE 12,00 ou US$ 3,62;

- batata, 1 kg LE 1,25 ou US$ 0,37;

- açúcar (cristal), 1 kg LE 2,00 ou US$ 0,60;

- queijo, 1 kg LE 15,00 ou US$ 4,53;

- frango, 1 kg LE 5,00 ou US$ 1,51;

- banana d'água, 1 kg LE 3,00 ou US$ 0,90;

- maçã local (ácida) 1 kg LE 3,00 ou US$ 0,90;

- maçã red, 1 Kg LE 12,00 ou US$ 3,62;

- uva branca, 1 kg LE 1,50 ou US$ 0,45;

- pão de forma LE 2,60 ou US$ 0,78;

- coca-cola, 2 l LE 3,00 ou US$ 0,90;

- leite em pó, 400 g LE 5,75 ou US$ 1,73.

O câmbio utilizado foi de 1 dólar para 3,31 libras, a cotação de 26 de agosto de 1991, data em que terminei de escrever uma "cartinha" de 29 folhas datilografadas para parentes e amigos no Brasil. Aquela "cartinha" acabou se tornando o gérmen deste livro. Quando saímos do Egito, em abril de 1992, o câmbio era de 1 dólar para 3,33 libras. O câmbio pouco tinha mudado. Porém, o pão de forma tinha aumentado para 5 libras e o queijo para 17 libras o quilo.

Muitos egípcios se mostraram bastante criativos frente à alta dos preços. Como me confidenciou um amigo que recentemente voltou do Egito, alguns comerciantes sem escrúpulos descobriram um meio bastante simples de não aumentar os preços: diminuiram o tamanho das embalagens. Os preços do feijão e do arroz não subiram. Mas as embalagens foram decrescendo com o correr do tempo e por fim só continham 400 gramas do produto... Maalêsh!

A verdade é que o povo humilde do Egito só come carne uma vez por ano, na época da Festa do Sacrifício, quando são abatidos carneiros e ovelhas para lembrar Abraão, que quase sacrificou seu próprio filho, ocasião em que os árabes mais ricos distribuem carne aos mais pobres. Senão, no resto do ano, a única alimentação da classe humilde é o aesh, aquele pão redondo, com algumas folhas de alface ou algumas fatias de tomate conseguidas nas "xepas" de final de feira. E o indispensável e onipresente shái (chá), que pode ser local, do Sudão ou do Sri Lanka.

Um chá muito popular no Egito é o de karkadeh (ibíscus), de grande valor medicinal. Uma das bebidas preferidas durante o mês do ramadã, o ibíscus é rico em proteínas, minerais e óleo orgânico, e bom para asma e problemas do estômago.

Com os salários muito baixos e os preços nas nuvens - o mesmo que acontece no Brasil, onde os oligopólios e os comerciantes sem escrúpulos espoliam o povo -, é fácil imaginar a penúria em que se encontra a população mais pobre do Egito. E pobreza, no Egito, é pobreza mesmo. As favelas cariocas, com muitas casas em alvenaria, luz, água por perto, não se comparam, em conforto, aos ranchos de barro batido com estrutura em bambu e cobertura de folhas de tamareira que são os barracos encontrados na periferia do Cairo, ao longo de muitos canais do Rio Nilo e no interior do país. Aquilo é, realmente, pobreza. Miséria semelhante vimos, também, em alguns barracos de refugiados palestinos na cidade de Jericó, quando viajamos a Israel.

Em compensação, a classe mais abastada costuma esbanjar. A mesa sempre tem que ser muito farta. Por isso, há muito desperdício. Foi o que pudemos notar quando íamos a restaurantes ou lanchonetes: invariavelmente, eles pediam uma quantidade enorme de pratos diferentes e deixavam tudo pela metade. Nós, que pedíamos só o que conseguíamos comer, devíamos ser taxados de sovinas.

Alguns preços no Egito eram melhores que no Brasil. Por exemplo, baixelas em aço inox, sapatos, camisas, roupas de couro. Sem dúvida, devido à baixa remuneração da mão-de-obra local. No Brasil deveria ser o mesmo, com os salários, de modo geral, muito baixos. O Brasil consegue a proeza de colocar no mercado produtos com preços de 1º Mundo, pagando salários não de 3º mas de "5º Mundo".

O casamento egípcio

A bem da verdade, o que conseguimos decifrar naquele mundo exótico e surrealista - o Egito - é que a classe mais alta, bem instruída, que tem parabólicas, que fala inglês e passa as férias na Europa, tem um modo de vida bem diferente da classe mais humilde, que deve ser a única a sofrer as desvantagens provenientes dessa sociedade onde os homens ditam as normas.

No Cairo, é uma coisa, a mulher é bastante liberal. No interior do Egito é bem diferente. Lá há ainda o costume do pai exigir um dote para entregar a filha ao futuro marido: pode ser dinheiro, ouro, camelos, bois, ovelhas, carneiros ou terras. Nos grandes centros isso já não acontece.

A virgindade da noiva é uma exigência que muitos egípcios não abrem mão, podendo o noivo anular o casamento se descobrir na noite das núpcias que sua mulher não é mais virgem. Há ainda o costume de muitos noivos exibirem o lençol manchado de sangue, na manhã seguinte à primeira noite, para provar aos familiares e aos amigos que sua mulher era virgem e que foi deflorada. Convém lembrar o aspecto religioso da virgindade, já que o Corão promete mulheres virgens ao fiel muçulmano que atingir o paraíso.

Os rapazes, desde muito cedo, são iniciados no jogo do sexo. Assim, muitos homens, ao se casarem com moças bem mais novas e virgens que não tiveram nenhuma experiência anterior, sentem a responsabilidade da primeira noite e muitas vezes não conseguem completar a relação. A pressão é muito grande para a virilidade do homem. Soumaya Namane Guessous, escritora marroquina que se notabilizou com o livro Além de Todo Pudor, afirmou que há regiões em seu país em que aparece um homem encarregado de intervir nesses casos para completar o defloramento.

A moça árabe, antes do katb al-kitab, o contrato formal do casamento, recebe o shabka (presente) do futuro marido, que são jóias em ouro e diamantes, após chegar a um acordo com o pai da moça. Nessa ocasião, é oficializado o noivado, com a leitura da fatihah, capítulo de abertura do Corão. A família do homem, geralmente, é responsável pela compra ou aluguel da casa. À família da mulher compete providenciar o mobiliário. No Egito, o divórcio é permitido e regulado por leis religiosas.

As jóias que a mulher recebe no noivado e durante sua vida de casada é, de certa forma, uma "poupança" que ela vai fazendo ao longo da vida, para enfrentar algum revés. Alguns egípcios, com salários muito baixos, nos confidenciavam sua agonia em não poderem se tornar noivos, nem se casarem, pois o dinheiro não alcançava o dote exigido pela futura noiva. Muitos se casam com idade avançada, quando só então conseguem dar o dote inicial à noiva.

Embora não seja mais freqüente no Cairo - aliás, muito difícil mesmo -, há casos em que um homem tem duas, três ou até quatro mulheres. Quatro mulheres é o máximo que o Corão permite que o fiel muçulmano tenha. O Amir (Emir, Príncipe) do Kuwait, quando esteve no Rio de Janeiro por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, trouxe "apenas" 10 das 300 mulheres que possui em seu harém. A interpretação do Corão, para ele, assim como para os reis e príncipes da Península Arábica, é mais livre. Naqueles países, cada homem rico possui muitas mulheres, algumas sendo meninas de 11 ou 12 anos compradas na Índia ou na Tailândia por 50 dólares. Em uma coisa o Corão é taxativo e não deixa dúvidas: todas as mulheres têm o mesmo direito, em todos os sentidos. Na sala, na cozinha, na cama.

A explicação que um egípcio me deu dessa vantajosa posição masculina era de que o profeta Muhammad (Maomé) permitia a poligamia por causa das guerras de conquistas islâmicas que havia na época, com um "déficit" muito grande de homens, que morriam nas guerras, deixando muitas viúvas e muita moça para "titia". Que era para evitar a prostituição e para que as mulheres sem marido não enlouquecessem. Eles devem ter gostado do costume: as guerras de conquista acabaram (com exceção de uma ou outra que acontece quando aparece um Saddam Hussein) e os haréns continuam a proliferar por lá, principalmente na Arábia Saudita e nos emirados do Golfo Pérsico. A bem da verdade, deve-se acrescentar que no Ocidente pratica-se uma poligamia mais sucinta, como é o caso daqueles que se divorciam várias vezes durante a vida para procurar novos parceiros. Ou escancarada, caso das pessoas casadas ou solteiras que trocam de parceiros com a mesma freqüência com que se troca uma cueca.

No Egito, a prática da poligamia se restringe às pessoas de muitas posses e não é freqüente nos grandes centros urbanos. Há casos em que várias mulheres dividem a mesma casa com um só marido. E os filhos ficam agradecidos: em vez de uma, eles têm duas mães. Aceitam esse costume com mais naturalidade do que nós, porque desde muito pequenos já convivem com essa tradição.

A poligamia, embora permitida no Egito, traz múltiplos problemas. De acordo com estudos recentes, 50% dos homens que têm uma segunda mulher o fazem devido às diferenças entre eles e suas mulheres ou suas respectivas famílias e 14% porque a mulher não lhes pode dar criança ou lhes dá somente meninas. Outras razões incluem a viagem do marido para o exterior, quando a mulher não o quer acompanhar, ou então quando a mulher adquire doença crônica e não pode mais cumprir com as "obrigações" de esposa. Deve-se destacar que na Turquia - um país muçulmano bastante liberal em seus costumes - a poligamia é proibida.

Casar jovem no Egito é um luxo somente acessível aos ricos. As moças egípcias, que tradicionalmente se casam muito novas, são, dessa forma, muitas vezes incentivadas a se casarem com homens bem mais velhos, às vezes já casados.

O casamento egípcio é muito bonito. O carro que transporta a noiva é todo enfeitado com flores e fitas coloridas. Normalmente, o casamento acontece às quintas-feiras, véspera do feriado semanal muçulmano.

A festa de casamento egípcio começa com uma "procissão" na rua, a zaffa, com tambores, tamborins e trompetes, que produzem uma música rítmica e ensurdecedora. Mulheres emitem um grito característico, o zagharit, como um trinado, ao agitarem rapidamente a língua - como os gritos de índios que se vê nos filmes de faroeste. Não sei como elas conseguem emitir aquele grito característico, qual a técnica utilizada. Mas é bem interessante.

Na frente da procissão vêm os músicos e dançarinos, vestidos com roupas brancas e vermelhas. As damas de honra, normalmente em número de seis, vestindo roupas brancas e carregando longas velas ou candelabros adornados com fitas e flores, marcham ao lado dos noivos, três de cada lado. Um pequeno garoto ou menina, à frente da zaffa, joga pétalas de rosas vermelhas sobre os noivos.

A noiva usa um longo vestido e véu brancos. A procissão chega ao local da recepção e o casal troca cumprimentos com os convidados, para depois se dirigir à kosha, poltrona prateada com grinaldas de flores, no alto de uma plataforma, para uma melhor vista do salão com os convidados.

Após a recepção, os noivos passam juntos a lailat al-dokla (a primeira noite), na mesma cidade onde ocorreu a recepção. Irão passar a noite num hotel ou num apartamento vazio de algum amigo, porém nunca na casa dos pais, o que é considerado de mau agouro. A noiva dá de presente ao marido pijamas de seda, enquanto ele dá uma peça de jóia.

Enquanto os mais pobres fazem apenas uma zaffa na rua, os ricos alugam hotel 5 estrelas, com custos muitas vezes chegando a mais de 60 mil dólares. A festa é de arromba: bufê sofisticado, lembranças em ouro para os convidados, bolo gigantesco e a khosha decorada que parece um sonho, com cadeiras ricamente enfeitadas, onde ficam os noivos. A zaffa é feita em pleno salão, com muita música, cantos-solo de cantores populares famosos, além dos gritos estridentes imitando índio. E - ponto alto de toda festa egípcia - não pode faltar a dança do ventre, com dançarinas escolhidas a dedo.

No oásis de Siwa, perto da Líbia, as celebrações de casamento duram de 7 a 15 dias. A noiva troca de vestido todo dia. Assim, a partir dos 9 anos, as meninas de Siwa começam a preparar os vestidos de noiva com a ajuda da mãe e da avó.

As noivas dos beduínos do Sinai vestem um véu chamado konaa, decorado com moedas de ouro ou prata, conforme o status financeiro da família. O boro, que cobre a face da noiva, é também decorado com ouro ou prata e é considerado parte do dote.

Cada governadoria do Egito tem sua dança nupcial característica. No Alto Egito, por exemplo, há a dança do tahtib, dança da vareta, na qual dançarinos esgrimam com suas varetas ao som do mizmar, um instrumento de sopro rudimentar.

Al-oud, avô do violão

Um aspecto muito importante na cultura árabe é a música. Ao contrário da música ocidental, que normalmente é escrita em tom maior, as melodias árabes são escritas em uma escala exótica, fazendo com que as músicas pareçam soar em tom menor. Isso confere uma certa gravidade e tristeza à música. Enquanto nós usamos uma escala musical de tons e semitons, eles utilizam uma escala que tem intervalos, entre as notas, de até 1 tom e meio, parecendo um pouco com a escala cigana. No início, a música árabe chegava a agredir nossos tímpanos. Mas, aos poucos, fomos nos acostumando a tirar prazer da exuberante música oriental.

A música egípcia é executada, invariavelmente, em compasso quaternário. A cadência é um pouco parecida com o bolero, às vezes em ritmo lento, outras vezes em ritmo frenético. O que não pode faltar na música árabe são os infindáveis trinados, floreios e mais floreios emitidos pelos instrumentos musicais, que nos fazem lembrar um pouco a música barroca.

Os egípcios da época dos faraós nos legaram o alaúde, al-oud em árabe. Levado para a Espanha durante a dominação mourisca, o alaúde se popularizou em toda a Europa, modificando-se através do tempo, tornando-se o avô do violão. O compositor Joham Sebastian Bach também escreveu músicas para alaúde.

Há 3 mil anos atrás, o alaúde era feito de casca de coco, e as cordas de crina e rabo de cavalo. Depois, as cordas eram feitas de tripa de gazela. É o mais antigo instrumento musical oriental de cordas e a base da maior parte das músicas e cantos árabes. Foi primeiro usado no antigo Egito, no período do Novo Reino (1580-1085 a.C.). Uma tumba faraônica, em Lúxor, pertencente a dois altos funcionários do faraó Tuthmosis IV, mostra uma cena com homens e mulheres tocando alaúde.

Convém acrescentar que, além do alaúde, o antigo Egito conhecia ainda outros instrumentos musicais. Uma pintura faraônica mostra 3 mulheres tocando instrumentos distintos de música: a da direita com harpa, ainda sem a coluna para apoio; a do meio com uma espécie de violão com longo braço e uma única corda; e a da esquerda com uma espécie de flauta com 2 tubos. Até parece um rascunho da pintura cubista Os três músicos, de Picasso.

Atualmente, o alaúde é feito de nogueira, pessegueiro ou sândalo, e as cordas - em 5 ou 6 pares - de fios de naylon. A ponta do braço do alaúde, onde são fixadas as cordas, é "quebrada", entortada para trás. O alaúde é fabricado em 3 tipos: o egípcio, o shami (região da Síria, Líbano, Palestina e Jordânia) e o turco. O alaúde egípcio é resistente e tem um som genuinamente "oriental", enquanto o shami é mais fraco e fino. O alaúde turco fica no meio-termo. No Egito, o alaúde tem o formato de uma meia-pera, medindo a caixa 55 cm de largura e 84 cm de comprimento, e o braço 1/3 do comprimento da caixa.

Além do oud, outro instrumento musical bastante popular no Egito é a ribaba. Rudimentar, com uma ou duas cordas e parecida com o berimbau brasileiro, a ribaba é tocada com o auxílio de um arco. O som é estridente e o instrumento consegue emitir uma gama razoável de notas musicais. A ribaba é também um instrumento de auxílio para o recital da Sirra Al-Hilaliyya, a "Ilíada" árabe, um poema épico que é ainda recitado no Alto Egito.

Músicos egípcios famosos como Abdel Wahab, considerado o pai da moderna música egípcia, falecido em 1991, utilizaram o oud de uma maneira muito particular, principalmente como instrumento-solo em orquestras. Poucas horas depois da Revolução de 23 de julho de 1952, o músico egípcio Al-Sonbati pegou seu alaúde e compôs, espontaneamente, a famosa canção nacional Misr, Misr, Misr Omuna (Egito, Egito, Egito nossa Mãe).

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