Esses princípios confirmam todos em que não permitem nada na síntese empírica que possa alcançar o entendimento e ao encadeamento contínuo de todos os fenômenos; quer dizer, à unidade de seus conceitos. Porque o Entendimento é aquele em que é possível a unidade da experiência onde todas as percepções devem encontrar o seu lugar.
É maior o campo da possibilidade e o da realidade, e o desta que o da necessidade? Questões são estas interessantes ao extremo e que exigem uma solução sintética, porém que entram nos foros da razão, porque equivalem quase a perguntar se todas as coisas como fenômenos pertencem ao conjunto e ao todo de uma só experiência, da qual toda percepção indicada é somente uma parte, e por conseguinte não poderia ligar-se a outros fenômenos, ou se as minhas percepções podem pertencer (no seu encadeamento geral) a algo mais que a uma única experiência possível.
Em geral o Entendimento não nos dá “a priori” a experiência mas, apenas, a regra, segundo condições subjetivas e absolutas da sensibilidade e da apercepção, as úmcas que possibilitam essa experiência. Entrementes, foram possíveis outras formas da intuição (Espaço e Tempo), ou outras formas do Entendimento (a forma discursiva do pensamento ou a do conhecimento pelos conceitos), não poderíamos, de forma alguma, concebê-las nem compreendê-las e, se isso fosse possível, não pertenceria sempre à experiência como único conhecimento no qual os objetivos nos foram dados.
Porque devem existir mais percepções que as que em geral constituem o todo da nossa experiência possível, e pode, por conseguinte, existir outro campo diferente da matéria? A respeito disto nada pode dizer o Entendimento, que apenas se ocupa da síntese do que está dado.
Além disso, a pobreza dos nossos raciocínios comuns com os quais criamos o grande império da possibilidade, do qual toda coisa real (todo objetivo de experiência) é somente uma mínima parte, e tão patente que salta à vista.
Tudo o que é real é possível; resultando dai, naturalmente, segundo as leis lógicas da inversão, esta proposição particular: algumas coisas possiveis são reais. O que também significa: existem muitas coisas possíveis que não são reais.
Parece, é certo, que pode ser posto o número do possível muito por cima do real, porque é preciso acrescentar algo àquele para que resulte isto. Mas desconheço esta adição ao possível, porque o que seria preciso acrescentar seria impossível. A única coisa que no meu entendimento poderia acrescentar-se à conformidade com as condições normais da experiência é o entrosamento com alguma percepção, e o que está entrosado com uma percepção, segundo as leis empíricas, é real, embora não seja imediatamente percebido.
Mas não podemos deduzir pelo que é dado, e menos ainda se nada nos foi dado (porque nada, absolutamente nada, pode ser pensado sem matéria), que no entrosamento universal, com aquilo que nos é dado na percepção, possa existir outra série de fenômenos, e por conseguinte seja possível mais de uma experiência, a única que tudo compreende.
Porém, o que é possível apenas sob as próprias condições, simplesmente possíveis, não o é sob “todas as relações”. E sem embargo, a questão deve ser considerada sob este ponto de vista geral quando se trata de sabermos se há possibilidade das coisas se estender além da experiência.
Mencionei estas questões apenas para não deixar qualquer lacuna no que pertence, segundo a opinião geral, aos conceitos do Entendimento. Porém, na realidade, a possibilidade absoluta (que é a que vale sob todos os conceitos) não é um simples conceito do Entendimento e não pode ter nenhum uso empírico; pertence exclusivamente à Razão, que sobrepuja todo uso empírico possível do Entendimento.
Foi por isso que nos contentamos com uma ligeira observação crítica, deixando as coisas no mesmo estado em que estavam até que mais tarde façamos das mesmas um estudo meticuloso. Antes de terminarmos este quarto número e com ele o sistema de todos os princípios do Entendimento puro, devo explicar por que chamei de postulados aos princípios da modalidade.
Não considero aqui essa palavra no sentido que lhe deram alguns filósofos modernos contra a teoria dos matemáticos, aos quais propriamente pertencem; quero dizer, como significando uma proposição que foi dada como imediatamente certa, porém sem justificá-la nem demonstrá-la.
Porque se admitirmos que deve conceder-se um assentimento absoluto logo à primeira vista e sem dedução das proposições sintéticas por evidentes que estas sejam, destrói-se com isso toda crítica do Entendimento. Como não faltam pretensões absurdas às quais nem a fé comum é recusada (sem ser uma autoridade), nosso Entendimento ficaria aberto a todas as opiniões sem que fosse possível negar sua aceitação a proposições que, mesmo ilegítimas, exigiriam serem aceitas como verdadeiros axiomas.
Assim, pois, quando uma determinação “a priori” é acrescida sinteticamente ao conceito de uma coisa, é preciso unir necessariamente a uma proposição dessa espécie, senão uma prova, pelo menos uma dedução da legitimidade desta asserção.
Mas, os princípios da modalidade não são objetivamente sintéticos, porque os predicados da possibilidade, da realidade e da necessidade, não estendem sequer o conceito a que se aplicam, quando acrescentam algo à representação do objetivo. E, embora sejam sempre sintéticos, não o são, entretanto, senão subjetivamente; isto é, que aplicam ao conceito de uma coisa (do real), do qual nada mais dizem, a faculdade de conhecer onde tem sua origem e base.
Se esse conceito é idêntico no Entendimento com as condições formais da experiência, chama-se então como possível ao seu objetivo; mas, se estiver encadeado com a percepção (com a sensação como matéria dos sentidos) e determinado por ela mediante o Entendimento, chama-se real ao seu objeto, e se, finalmente, está determinado pelo entrosamento das percepções segundo conceitos, então o seu objetivo é necessário.
Os princípios da modalidade não exprimem, pois, com referência
a um conceito, apenas que o ato da faculdade de conhecer que o produz. Entretanto,
denominam-se postulados em Matemática à proposição
prática que somente contém a síntese pela qual obtemos
um objeto e produzimos o conceito; com uma linha dada descrever de um
ponto determinado um círculo numa superfície.
Semelhante proposição não pode ser demonstrada porque
o procedimento exigido é justamente aquele que produzimos primeiramente,
o conceito dessa figura.
Podemos, portanto, da mesma forma, postular os princípios da modalidade,
posto que não estende seu conceito das coisas (18) senão
que se limitam a mostrar a maneira como esse conceito em geral está
ligado à faculdade de conhecer.
Uma coisa mui digna de nota que nós não podemos perceber pela categoria só a possibilidade de alguma coisa, mas que tenhamos sempre necessidade de uma intuição para descobrir a realidade objetiva do conceito do entendimento.
Tomemos, por exemplo, as categorias de relação.
Como primeiro, qualquer coisa pode existir como sujeito e não como simples determinação de outra coisa; quer dizer, como pode ser substância; ou, segundo, porque um algo é, outro também deve ser; por conseguinte, como algo em geral pode ser causa; ou, terceiro, como quando muitas coisas são, porque uma existe, algo nas outras a segue, e reciprocamente, e como um comércio de substâncias pode assim estabelecer-se.
Simples conceitos não podem indicar-nos isso.
E assim se dá com todas as outras categorias. P. ex.: como uma coisa pode ser idêntica a muitas, quer dizer, como pode ser uma quantidade etc.. Assim, enquanto a intuição falta não se sabe pelas categorias, se pensa um objeto, nem se em geral pode convir-lhe um objeto; por onde se vê que por si mesmos não são conhecimentos, mas simples formas de pensar, que servem para transformar em conhecimentos as intuições dadas. Resulta também que nenhuma proposição sintética podemos tirar somente das categorias.
Quando digo, por exemplo, que em toda existência há uma substância, quer dizer, algo que só como sujeito pode existir e não como simples predicado, ou que uma coisa é um “quantum”, em tudo isso nada há que nos sirva para sair de um conceito dado a uni-lo a outro. Assim, pois, nunca se pôde provar por simples conceitos puros do entendimento uma proposição sintética; esta, por exemplo: tudo que existe acidentalmente tem uma causa. Quanto nisto se tem feito é demonstrar que, sem esta relação, não compreenderíamos a existência acidental; quer dizer, que não podemos conhecer “a priori", pelo entendimento, a existência de tal coisa.
Mas não se segue disto que esta relação seja a condição da possibilidade da coisa mesma. Se recordamos nossa prova do princípio de causalidade, que tudo que ocorre (todo evento) supõe uma causa, se advertirá que não podemos realizá-la mais do que em relação aos objetos da experiência, por conseguinte como princípio do conhecimento de um objeto dado na intuição empírica e não só por conceitos.
Não se pode, porém, negar que esta proposição: todo evento tem uma causa, não seja evidente para todos por simples conceitos; mas então o conceito de acidente está já entendido de tal maneira que contém, não a categoria de modalidade (como algo cuja não existência pode conceber-se) mas a de relação (como algo que só pode existir como conseqüencia de outra coisa); e, neste caso, a proposição é por completo idêntica a esta outra; tudo o que não pode existir, senão como conseqüência, tem sua causa. Com efeito, quando queremos dar exemplos de existência acidental, recorremos sempre a mudanças e não à simples possibilidade de conceber o contrário.
Mudança, porém, é sucessão, e, como tal, não é possível mais senão por uma causa, e cuja não-existência, por conseguinte, em si é possível. Reconhece-se desse modo a contingência em que não pode existir senão como efeito de uma causa. Quando se admite, pois, uma coisa como contingente, é uma proposição analítica dizer que tem uma causa.
Todavia, é mais notável que para compreender a possibilidade de coisas pelas categorias, e, por conseguinte, para demonstrar a realidade objetiva destas últimas, tenhamos sempre necessidade, não só de intuição, como também de intuições exteriores. Tomemos, por exemplo, os conceitos puros de relação e achamos:
1.° Para dar ao conceito de substância na intuição algo de fixo que corresponda (provando com isto a realidade objetiva desse conceito), temos necessidade de uma intuição no espaço (da intuição da matéria), porque só o espaço determina constantemente, enquanto que o tempo, e por conseguinte, quando se encontra no sentido interior, transcorre sem cessar.
2.° Para apresentar a mudança como intuição correspondente
ao conceito de causalidade, somos obrigados a tomar como exemplo o movimento,
como mudança no espaço; e somente assim podemos fazer-nos
perceptíveis mudanças cuja possibilidade não pode
compreender nenhum entendimento puro.
Mudança é união de determinações contraditoriamente
opostas entre si na existência de uma só e mesma coisa. Mas,
como agora é possível que de um estado dado siga, na mesma coisa,
outro estado que lhe seja oposto? Coisa é esta que não
pode compreender nenhuma razão sem exemplos, não podendo ser
inteligível sem uma intuição. Esta intuição
é a do movimento de um ponto no espaço, cuja existência
em diferentes lugares (como conseqüência de determinações
contrárias) nos faz perceber a mudança; porque, ainda para que
possamos conceber mudanças internas, é mister que nos representemos
o tempo de uma maneira figurada, como forma do sentido traçado
desta linha (pelo movimento), e, por conseguinte, nossa existência sucessiva
em diferentes estados por uma intuição exterior.
A razão consiste em toda mudança como algo fixo na intuição, ainda que para poder ser percebido supõe como mudança e que não se encontre no sentido interno nenhuma intuição fixa.
3.° Enfim, a categoria de reciprocidade não pode ser compreendida, quanto a sua possibilidade, só pela razão; e, por conseguinte, a realidade objetiva desse conceito não pode ser apercebida sem intuição, e intuição exterior no espaço. Com efeito, como conceber a possibilidade de que, existindo muitas substâncias, da existência de uma resulta algo (com efeito) na da outra, e reciprocamente; e que, por conseguinte, pela razão que existe algo na pri meira que só pela existência da segunda pode compreender-se, deva suceder outro tanto com a segunda com respeito à primeira?
Porque isto é necessário para que exista reciprocidade; mas que não pode compreender-se de coisas que subsistem umas de outras por sua substância, completamente isoladas. Assim, Leibnitz, ainda, atribuindo uma reciprocidade às substâncias do mundo, mas às substâncias tais como as concebe só o entendimento, teve necessidade de recorrer à intervenção da divindade; porque viu com razão que esse comércio de substâncias era incompreensível só por sua existência.
Mas nós outros podemos fazer-nos admissível a possibilidade desta reciprocidade de substâncias como fenômenos, representando-as no espaço, por conseguinte, na intuição exterior; porque o espaço contém “a priori” relações formais exteriores como condições da possibilidade de relações reais em si na ação e na reação, por conseguinte, na reciprocidade. Assim mesmo é fácil provar que a possibilidade de coisas como quantidades, e, por conseguinte, a realidade objetiva da categoria de quantidade, não podem ser expostas senão na intuição exterior, nem aplicadas depois ao sentido interno senão por meio dessa intuição. Para não ser prolixo deixo os exemplos ao cuidado do leitor.
Toda esta observação é de grande importância, não só para confirmar nossa precedente refutação do idealismo, como também ainda para, quando se falar do conhecimento em si a simples consciência interna, e a determinação de nossa natureza sem o auxílio de intuições empíricas, fazer-nos ver os estreitos limites da possibilidade de semelhante conhecimento.
Esta já é a última conseqüência de toda esta seção. Todos os princípios do entendimento puro não são mais do que princípios “a priori” da possibilidade da experiência; com esta unicamente se relacionam todos os princípios sintéticos “a priori”, e sua mesma possibilidade radica por completo nesta relação.
Fonte: Virtual Boock OnLine