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Erva Mate

A ECONOMIA ERVATEIRA

Descrição botânica

O porte da planta de erva mate faz lembrar a laranjeira. As flores são pequenas e dispostas na axila das folhas superiores. O caule é um tronco de cor acinzentada, geralmente com 20 a 25 centímetros de diâmetro, podendo chegar aos 50 centímetros.

A altura é variável, dependendo da idade e do tipo de sítio. Podem atingir 15 metros de altura, mas geralmente, quando podadas, não passam de 7 metros. O pecíolo é relativamente curto, medindo mais ou menos 15 milímetros de comprimento, e tem um formato retorcido. A folha inteira mede de oito a dez centímetros de comprimento por quatro ou cinco de largura. Em relação ao comportamento das flores, a erva mate é uma plantadióica ( ambos os sexos ).

O fruto é uma baga-dupla globular muito pequena, medindo somente de 6 a 8 milímetros. É de cor verde quando novo, passando a vermelho-arroxeado em sua maturidade. Nessa fase, os pequenos frutos atraem os pássaros que deles se alimentam, expelindo depois as sementes envolvidas em dejeções, o que favorece a disseminação das plantas. O fruto bem maduro compõe-se de quatro sementes pequenas, apresentando tegumento áspero e duro.

Distribuição geográfica

A área de dispersão natural da erva mate abrange aproximadamente 540.000km², compreendendo territórios do Brasil, Argentina e Paraguai situados entre as latitudes de 21º e 30º sul, e longitude de 48º 30’e 56º10’oeste, com altitudes variáveis entre 500 e 1000m. A espécie pode aparecer, contudo, em pontos isolados, fora dos limites.

Só no Brasil estão situados 450.000 km² do total. Ocorre também em regiões subtropicais e temperadas da América do Sul. No Brasil, sua área de dispersão inclui a região centro-norte do Rio Grande do Sul, quase todo o estado de Santa Catarina, centro-sul e sudeste do Paraná, sul de Mato-Grosso do Sul, e pequenas áreas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Características climáticas

O clima predominante é temperado sem estação seca, com temperaturas médias anuais de 15º a 17-21º C e com precipitações médias de 1200 a 1500 mm ao ano.

A espécie, entretanto, também é encontrada no tipo climático:

CFA ( clima úmido, com variações de temperatura mensais superiores a 22ºC ); CWA ( temperado ou subtropical com período seco de inverno ); AW ( tropical com período seco no inverno ).

Solo

A presença da erva mate é mais freqüente em solos com baixo teor de nutrientes trocáveis e alumínio, sendo, por isso, considerada tolerante a solos de baixa fertilidade natural. A textura dos solos na região de ocorrência da erva é muito variável.

Os solos preferidos são os que mostram equilíbrio na presença de areia, silte e argila. É mais freqüente em solos de texturas médias entre 15 e 35% de argila, e argilosa acima de 35%. A erva mate prefere solos medianamente profundos a profundos, tendo ocorrência esparsa ou mesmo não ocorrendo em solos rasos.

Com relação à umidade do solo, vegeta preferencialmente em solos com umidade mais permeável ( característica dos solos de regiões em que o clima atuante é o Cfb).

Produção no Brasil

A maior parte do mate produzido no sul do Brasil provém de ervais nativos, totalizando em média cerca de 97% da produção nacional, enquanto que o estado de Mato Grosso do Sul contribui com os restantes 3%. O Rio Grande do Sul diminuiu sua participação de 50% no início dos anos 70 para 25% em 1989.

No mesmo período, o Paraná aumentou em 10% sua participação na produção nacional e é hoje o principal produtor, colhendo 55.000 toneladas de erva, o que representa cerca de 37% do total do país.

O consumo brasileiro da erva mate tem um grande potencial, fundamentando-se basicamente no tradicional chimarrão, chás e derivados. A erva mate em forma de chá tem grande penetração nos estados mais quentes do país.

A região Sudeste é a maior consumidora de chá mate industrializado do Paraná, absorvendo em média mais de 60% do total da produção exportada para outros estados. A região Norte é a que menos consome chá mate, importando apenas 1,2% do total produzido na Paraná. Os estados do Pará, Amazonas e Rondônia são os principais consumidores desta região.

Exportações brasileiras de erva mate

A análise da evolução das exportações brasileiras, em nível dos três maiores estados produtores ( Paraná , Santa Catarina e Rio Grande do Sul), demonstra que praticamente todas as exportações brasileiras de erva mate tem se destinado, desde 1980, ao Uruguai. Apenas em 1988 as exportações para outros países tiveram alguma importância. De uma produção brasileira de aproximadamente 150.000 toneladas ao ano, apenas 20.000 toneladas são exportadas para o Chile e Uruguai. Mas a erva mate brasileira atinge também os mercados da Síria, Alemanha, e começa a conquistar o Japão e os Estados Unidos.

Erva nativa e plantio

O bom convívio entre a erva mate e o pinheiro fazia parte dos conhecimentos ancestrais dos índios da região, que costumavam chamá-las de plantas irmãs. Para os naturalistas que cruzaram o território, ao longo dos séculos XVII e XVIII, essa característica motivou a classificação da erva mate como planta “que gosta particularmente da companhia e abrigo das araucárias”.

Árvore generosa, que rebrota constantemente, de longa vida produtiva, a erva mate crescia numa paisagem paradisíaca e aparentemente eterna, de riquíssima fauna e flora.

A floresta surpreendia pela beleza da vegetação, pela variedade das espécies que abrigava e pela geometria singular traçada pela copa dos pinheiros. Pouco se sabia, porém, sobre os limites de sua área de ocorrência. A primeira tentativa de definir a região nativa da erva mate ocorreu em 1820, com um estudo de Aimé Bonpland, companheiro de pesquisas botânicas de Alexandre von Humboldt.

Com auxílio do método criado por Humboldt de identificar zonas geográficas semelhantes por meio de linhas isotérmicas, Bonplandt traçou uma linha desde a barra do Rio Grande, no Rio Grande do Sul, até a povoação de Vila Rica, no Paraguai. Ao longo dessa linha estavam as principais reservas de erva mate. Essa definição, extremamente precisa para a época, coincidia com as matas de pinheiro do planalto sul-brasileiro, o habitat da erva mate.

Ainda havia, porém, grande confusão sobre as múltiplas variedades já identificadas. Foi o francês Saint Hilaire que acabou classificando definitivamente a erva mate: “Uma interessante planta cresce em abundância nas matas próximas de Curitiba; é essa árvore, conhecida pelo nome de árvore-do-mate ou árvore-da-congonha, que fornece a famosa erva-do-paraguai, ou mate.”

A “árvore de Curitiba”, como dizia Saint Hilaire, encontrava abrigo na região das araucárias. A paisagem dessa floresta é dominada pelo imponente pinheiro (Araucaria angustifolia), árvore de grande porte, exclusiva do hemisfério sul, que pode chegar a 50 metros de altura e até dois metros de diâmetro. Sua área original pode ter atingido cerca de 450.000 quilômetros quadrados, no sul do Brasil.

Com a destruição da grande floresta, acabaram também os ervais nativos. Atualmente, as plantações de erva já são comuns nas áreas dos antigos ervais. No Paraná, as plantações já correspondem a 10% da área dos ervais nativos em exploração. Anualmente, cerca de 15 milhões de mudas de erva mate são plantadas na região sul do Brasil para atender a demanda crescente do produto.

BENEFICIAMENTO PRIMÁRIO - OS BARBAQUÁS

As operações iniciais de preparação da erva mate podem ser assim agrupadas:

COLHEITA

Corte - a partir de março até agosto, época em que a diminuição do calor retarda o movimento da seiva; os galhos da árvore são cortados e empilhados no local onde será feita a preparação.

Sapeco - os galhos são rapidamente assados sobre uma fogueira estreita e comprida com troncos de árvores recém-cortados, não muito grossos e com oito ou dez metros de comprimento. Depois, os pequenos ramos guarnecidos de folhas são arrancados dos galhos maiores e enfardados para serem levados à secagem definitiva.

FASE BARBAQUÁ

Secagem - os ramos são estendidos sobre o barbaquá, uma espécie de estrado armado numa área coberta. Uma tubulação subterrânea, em geral forrada com tijolos, traz o calor do fogo mantido acesso numa área externa ao barbaquá.

Cancheamento - a trituração das folhas é feita em canchas cilíndricas, usando um pesado cilindro de madeira, o malhador, dotado de pinos movidos a tração animal ou mecânica. As canchas são dotadas de piso de madeira, com orifícios que funcionam como uma peneira seletiva. A erva já triturada passa para um recinto assoalhado, sob a cancha furada, pronta para ser ensacada e transportada para o engenho.

O barbaquá tradicional ainda pode ser encontrado nas pequenas propriedades rurais do sul do Paraná. Entretanto, algumas modificações introduzidas nas diferentes fases do processo de preparo da erva mate indicam maior preocupação com a produtividade. Nas propriedades maiores, já existem barbaquás mecânicos, onde até mesmo a operação de sapeco, sem dúvida a mais penosa para os preparadores da erva mate, é feita com o uso de máquinas simples.

A Industrialização - os engenhos

No final do século XIX, o centro de produção de erva mate cancheada estava localizado no sul do Paraná, nos municípios de Guarapuava, Palmas, Palmeira, São Mateus do Sul e União da Vitória. O beneficiamento mais refinado do produto ocorria nos engenhos, onde a erva mate era preparada segundo o gosto dos diferentes consumidores, passando por um processo de seleção mais apurado, com acréscimo ou retirada de talos ou de pó-de-erva.

Os primeiros engenhos eram movidos à energia hidráulica - uma roda d’água movimentava os soques mecânicos - e se distribuíam entre os municípios de Antonina, Curitiba, Lapa, Paranaguá, Palmeira, Ponta Grossa e União da Vitória.

Os engenhos a vapor começaram a ser instalados em Curitiba por volta de 1870, com inovações tecnológicas notáveis, desenvolvidas por engenheiros paranaenses. Tais características deram ao Paraná uma posição pioneira nos primeiros tempos da industrialização no Brasil.

Junto com o parque industrial ervateiro desenvolveram-se atividades complementares, como a produção de embalagens, entre as quais as barricas, feitas de pinho. Contraditoriamente, a ampliação do mercado para o pinho aumentou a pressão sobre a Floresta com Araucária exatamente onde se encontravam os ervais nativos.

O processo de beneficiamento, restrito durante muito tempo ao preparo da ervamate para chimarrão, ganhou um forte impulso com a introdução da erva tostada, utilizada como chá, ampliando de modo significativo o mercado interno do produto.

No final do século XX, a lista de produtos derivados da erva mate cresceu significativamente, e a atividade continua tendo importância econômica. Existem no Paraná, segundo dados de 1996, 207 indústrias ervateiras cadastradas, e a produção anual ultrapassa as 160 mil toneladas. Além das formas tradicionais, a planta mágica dos guaranis é industrializada sob formas mais sofisticadas, como o mate solúvel ou concentrado, o que agrega valor significativo ao produto.

Erva Mate

DESCRIÇÃO DO ESQUEMA DE FLUXO DE PRODUÇÃO

Folha verde

Quando “in natura”, é constituída por folhas e ramos obtidos pela poda da erveira. A folha é formada pelo limbo e pecíolo, os quais resultam, após o processo industrial, em fragmentos, goma e pó. Os ramos são cada uma das divisões e subdivisões do galho.
A erva mate não pode ser artificialmente colorida, esgotada no todo ou em parte, alterada, adicionada de ingredientes e misturada com outros vegetais.

Sapecagem e pré-sapecagem

Este processo, também conhecido como sapeco, é o ato de submeter a erva mate recém-podada (folhas e ramos) à ação rápida das chamas de uma fogueira ou fornalha, com a finalidade de eliminar o excesso de umidade e evitar o enegrecimento das folhas, que comprometeriam seu valor comercial.

Atualmente são utilizados os secadores automáticos, que se diferenciam dos secadores tradicionais (carijos) principalmente no tocante às esteiras rolantes, que secam a erva mate em tempo menor.

Barbaquás

É onde se localiza o conjunto de equipamentos de secagem, feita através de condutos que não permitem a ação direta da fumaça sobre as folhas de erva mate.

Cancheamento

É o processo de trituração da erva mate após a secagem, formada por cancheadores.

Moagem

É o início do processo de industrialização, onde se executa a pulverização de folhas, pecíolos e pedúnculos em moinhos, e se obtém a folha, a goma, o pó e resíduos através de peneiramentos e classificações.

Mistura

Neste setor são determinadas as proporções dos produtos selecionados na moagem, que, após misturados, são classificados como produtos comerciais da erva mate.

Empacotamento

Os produtos comerciais da erva mate, devidamente separados conforme sua classificação, são empacotados e embalados para serem expedidos ao mercado consumidor.

CLASSIFICAÇÃO DE PRODUTOS COMERCIAIS DA ERVA MATE

PN – padrão nacional

O produto cancheado e padronizado é moído e preparado para o consumo com água quente: chimarrão.

No processamento, a erva mate é passada na peneira de 10 mm, resultando:

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PT – padrão tererê

O produto cancheado e padronizado é moído e preparado para o consumo com água fria.

No processamento, a folha da erva mate é passada na peneira de 10 mm, e as outras partes do ramo são passadas na peneira de 12,5 mm, nas seguintes proporções:

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PU – padrão Uruguai

No processamento, a erva mate é passada na peneira de tela nº 14 a 15, resultando no mínimo 50 % de folhas, e no máximo 50 % de pó / goma.

PC – padrão Chile

No processamento, a erva mate é passada nas peneiras de tela nº 14 a 20, resultando em 100 % de folhas.

Beneficiadas – Chás

Conforme o processamento, a erva mate beneficiada preparada para consumo na forma de chás divide-se em duas categorias principais:

PVE – padrão chá verde exportação

PPE – padrão chá tostado exportação

CONHECIMENTO CIENTÍFICO

As primeiras pesquisas

Em antigos compêndios medicinais, encontram-se declarações curiosas a respeito da erva mate. Citando nomes estrangeiros, em grande parte desconhecidos, essas publicações anunciavam que o uso da infusão, em pouco tempo, “refaz da fadiga e excita ao trabalho”.

Uma das mais entusiasmadas declarações deve-se ao dr. Doublet, médico francês que, em sua “Tese Sobre o Mate” apresentada em 1885 na Faculdade de Medicina de Paris, assegurava que “a principal propriedade do mate consiste em duplicar a atividade sobre todas as formas: intelectual, motora e vegetativa, produzindo facilidade, elasticidade e agilidade físicas, sensação de força e bem-estar.”

Erva Mate

Um dos primeiros estudos científicos mais detalhados sobre as propriedades da erva mate realizado em terras brasileiras deve-se a Joaquim Monteiro Caminhoá, professor de Botânica Médica, que publicou em fascículos, entre 1877 e 1884, seus Elementos de Botânica Geral e Médica, durante muito tempo considerado o melhor trabalho de botânica médica escrito no Brasil.

No final do século XIX, as pesquisas apontavam grande vantagem para a erva mate, em comparação com outras infusões:

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