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Escola dos Annales

 

O problema histórico: uma revolução epistemológica.

Nos anos trinta, os historiadores franceses Marc Bloch e Lucien Febvre se engajar em uma luta intelectual contra os historiadores profissionais e positivista e seu líder, Charles Seignobos.

A fundação, em 1929, a revista Annals of história econômica e social, sinaliza o início da revolução.

Contra a história fatual, cronológica e crítica política pelo sociólogo Simiand no início do século, esses historiadores irá propor uma nova forma de história fundada no primado da questão sobre o evento: o problema da história. A grande mudança é epistemológico.


Marc Bloch (1886-1944)


Lucien Febvre (1878-1956)

Promover multidisciplinar (economia, demografia, sociologia, geografia, antropologia), a renovação do foco (tudo é história) e da diversificação das fontes (material escrito, oral), a nova história está dando atenção prioritária aos grupos - e não os indivíduos - de estruturas sócio-econômicas e fenômenos mais geral que evoluíram lentamente - ao invés de eventos. Forma narrativa que estabelece os fatos e as ordens sem explicação, sem causa ou hipótese anterior, sem escolher ou fazer o objeto pertence a uma história positivista que devemos abandonar. Assim, os fatos não são dadas, mas construídas pelo historiador em termos de uma hipótese, questionando, problema, muitas vezes definido a partir desta solicitação. Para ser verdadeiramente científico, o historiador deve, segundo eles, dar destaque para a teoria, para explicar os fenômenos e, a longo prazo.

O histórico do tempo

Segundo o historiador Fernand Braudel, a figura central da segunda geração dos Annales, o tempo histórico é pontuado por três períodos de tempo: tempo curto, o tempo médio e longo tempo. Queima contra a história "do curto período de tempo que o historiador deve ser cuidadoso, Braudel reafirma o" valor excepcional do tempo longo ". Ele argumenta que a realidade histórica está escondido nas profundezas da história, e que eventos, estes "oscilações curtas, rápido e nervoso" sobre a superfície da história são necessariamente superficial, como também ligada ao tamanho do indivíduo. a metáfora de verticalidade associada com a pluralidade de tempo em Braudel n 'não é novo é encontrado em Marx, por exemplo A idéia é simples:.. eventos diretamente observáveis ??esconder uma realidade mais profunda podemos alcançar a "verdadeiras causas" atores que fogem pelo mergulho mais profundo. frase de Braudel, nas estruturas e mecanismos sociais, atores reais da história.

História narrativa do problema histórico

A história narrativa, história política associada com foco estreito no individual (os "grandes homens") e, portanto, o evento vai ser removido. Em suma, o objeto de estudo da história não é nem o indivíduo nem o evento, mas o "fato social total" que não pode ser apreendido no "tempo social". A rejeição da narrativa é uma conseqüência direta do deslocamento da história política à história social e econômica uma vez que estes historiadores comparam a individual, político e de eventos na história.

François Furet, membro da terceira geração da escola dos Annales, com foco na transição entre história narrativa ea história problema.

Ele disse que o desenvolvimento da historiografia visitou o marco marcado pelo declínio da história narrativa abandonada pelos historiadores profissionais ea transição para a história-problema traz muitas mudanças, incluindo os dois principais são:

1) tempo de pausa como um objeto da história. O historiador não está mais tentando dizer o que aconteceu. Ele constrói seu objeto de estudo por periodização eo desenvolvimento de boas pergunta
2)
ruptura com a história eo evento único, porque já não é descrever o evento, mas para explicar o problema. Em suma, a tendência dominante historiográfica dos Anais é marcado pelo duplo movimento do objeto de estudo (indivíduos em todos os fatos sociais) ea abordagem epistemológica (o estudo da ocorrência o problema).

Fonte: www.er.uqam.ca

Escola dos Annales

Livro - A Revolução Francesa da Historiografia - 1929-1989

Peter Burke

Apresentação

Em seu famoso livro sobre a história da historiografia, Fueter chama a atenção pára o fato de que toda nova abordagem histórica se origina de um acontecimento quedetermina o rumo da própria história. A insatisfação que os jovens Marc Bloch e LucienFebvre demonstravam, nas décadas de 10 e 20, em relação à história política, semdúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricascomplexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes – homens oupaíses – ignorando que, aquém e além dele, se situavam campos de forças estruturais,coletivas e individuais que lhe conferiam densidade e profundidade incompatíveis como que parecia ser a frivolidade dos eventos. Se a história, como sempre pretendeuFebvre, era filha de seu tempo, não seria possível continuar a fazer esse tipo de históriaconvencional que nem correspondia aos anseios de uma humanidade que vivia, nessasdécadas, momentos de convulsões e rupturas com o passado, nem conseguia respondersatisfatoriamente às exigências do novo homem que daí surgia.

A necessidade de uma história mais abrangente e totalizante nascia do fato deque o homem se sentia como um ser cuja complexidade em sua maneira de sentir,pensar e agir, não podia reduzir-se a um pálido reflexo de jogos de poder, ou demaneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do momento. Fazer uma outra história,na expressão usada por Febvre, era portanto menos redescobrir o homem do que, enfim,descobri-lo na plenitude de suas virtualidades, que se inscreviam concretamente em suasrealizações históricas. Abre-se, em conseqüência, o leque de possibilidades do fazerhistoriográfico, da mesma maneira que se impõe a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a outras ciências do homem os conceitos e os instrumentos que permitiriam aohistoriador ampliar sua visão do homem. Como em Michelet, não se desprezava osubjetivo, a individualidade, como em Marx ou em outros historiadores que assentavamsuas análises no econômico e no social; não se esquecia de que as estruturas sempre têmalgo a dizer a respeito do comportamento do homem; e como Burckhardt, afirmava-seque o homem não se confinava a um corpo a ser mantido, mas também um espírito quecriava e sentia diferentemente, em situações diferençadas.Talvez resida nessa intenção de diversificar o fazer historiográfico a maiorcontribuição de Bloch e Febvre, quando, além de produzirem uma obra pessoalsignificativa, fundaram a revista Annales , com o explícito objetivo de fazer dela uminstrumento de enriquecimento da história, por sua aproximação com as ciênciasvizinhas e pelo incentivo à inovação temática.

Duas personalidades, dois temperamentos, duas maneiras de abordagem do homem harmonizando-se numa combinação que possibilitou o franqueamento dasfronteiras da história, permitindo de um lado a liberdade humana e a individualidadepreservadas, e de outro, a ação do homem presente no interior de estruturas que alimitam, condicionam e mesmo determinam. Essa tensão criativa entre liberdade edeterminismo tornou possível a colaboração entre os dois historiadores e a criação dos Annales. E com isso, uma renovação dos estudos historiográficos, que atinge sua plenaexpansão e efervescência com a chamada História Nova.

Peter Burke chama a atenção em seu texto para o fato de que se se fizesse, na época, uma previsão quanto aonascimento de uma nova história, a França não seria uma das favoritas para ser seuberço, visto que em outros países, na Alemanha por exemplo, pareciam existir melhorescondições para que tal ocorresse.

Mas foi na França que ela nasceu. Talvez possamosencontrar uma explicação no fato de que, depois da Revolução Francesa e com osurgimento da historiografia romântica, a sensibilidade histórica do povo francêsaguçou-se, permitindo que a história se enraizasse em seu cotidiano. Sem dúvida, a obrahistórica e pessoal de Michelet muito contribuiu para essa transformação, pois ele foinão apenas o grande historiador da Revolução, mas também o homem que transformouo fato histórico na saga de uma nação.

Creio que se pode dizer que com Michelet a história penetrou nos hábitos danação, pois sua obra conseguiu “realizar uma verdadeira ressurreição da ... vidanacional”. Embora os historiadores ligados à Escola dos Annales – e Peter Burke éapenas mais um exemplo – busquem, aquém do século XIX, as origens do trabalhohistórico que realizam recuando até os gregos, sem dúvida devem a Michelet nãoalgumas de suas qualidades, mas, o que me parece mais importante, a criação do climaemocional e intelectual necessário para que a ciência histórica se transformasse numanecessidade do homem francês.

Se a conquista do Oeste americano encontrou sua glorificação no popular faroeste , transformado num tema cinematográfico por excelência, a Revolução Francesa permitiu aos historiadores franceses encontrarem o meio de fazer ouvir sua voz,constituindo-se numa fonte contínua para as mais criativas escolas historiográficas.

O livro de Peter Burke sobre a Escola dos Annales tem, ao lado de suasmúltiplas virtudes, a de propiciar ao leitor culto e ao especialista uma visão sintética eabrangente do que ela foi e é atualmente. A capacidade de Burke, de em poucaspalavras, situar um problema, estabelecer vinculações e classificações, permite usufruirde seu domínio sobre ó que escreve, transferindo ao leitor, mesmo quando nãointegralmente familiarizado com os problemas temáticos e metodológicos, ou com asinúmeras ramificações da História Nova, um conhecimento que o habilitará aprogramar-se para um estudo mais sério e sistemático.Por outro lado, permite compreender que o engajamento histórico não é uma viade mão única e que buscar o conhecimento do homem integral e total – preocupaçãoconstante de Marx – não deve limitar-se a vê-lo como prisioneiro de estruturasasfixiantes, mas também como um espírito capaz de ser livre por sua criatividade.

Afirmou Lévi-Strauss, em seu livro O Pensamento Selvagem , que sua ambiçãoera realizar, ao nível da superestrutura, o que Marx realizara ao nível da infra-estrutura.Inspirados pela tensão estrutura e individualismo, nascida de Bloch e Febvre, umasignificativa contribuição foi dada pela História Nova para que se alcançasse o ideallevistraussiano. E Peter Burke nos põe diante desse fato com simplicidade ecompetência. Da mesma maneira que nos permite tomar conhecimento e compreenderpor que todas as grandes questões da historiografia contemporânea passamnecessariamente pelos historiadores vinculados, direta ou indiretamente, à História Nova . Por todas essas qualidades e por vir preencher mais uma lacuna de nossabibliografia histórica, o livro de Peter Burke, lançado no Brasil ao mesmo tempo de suaedição inglesa, será um título obrigatório na biblioteca de todos os amantes da história.

São Paulo, 5 de agosto de 1990.

Nilo Odália


Escola dos Annales - Peter Burke

Prefácio

Da produção intelectual, no campo da historiografia, no século XX, uma importante parcela do que existe de mais inovador, notável e significativo, origina-se da França. La nouvelle histoire , como é freqüentemente chamada, é pelo menos tãoconhecida como francesa e tão controvertida quanto La nouvelle cuisine (Le Goff,1978). Uma boa parte dessa nova história é o produto de um pequeno grupo associado àrevista Annales, criada em 1929 3 . Embora esse grupo seja chamado geralmente de a“Escola dos Annales ”, por se enfatizar o que possuem em comum, seus membros,muitas vezes, negam sua existência ao realçarem as diferentes contribuições individuaisno interior do grupo.

O núcleo central do grupo é formado por Lucien Febvre, Marc Bloch, FernandBraudel, Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie. Próximos dessecentro estão Ernest Labrousse, Pierre Vilar, Maurice Agulhon e Michel Vovelle, quatroimportantes historiadores cujo compromisso com uma visão marxista da históriaparticularmente forte no caso de Vilar – coloca-os fora desse núcleo. Aquém ou alémdessa fronteira estão Roland Mousnier e Michel Foucault. Este aparece esporadicamenteneste estudo em razão da interpenetração de seus interesses históricos com osvinculados aos Annales.

A revista, que tem hoje mais de sessenta anos, foi fundada para promover umanova espécie de história e continua, ainda hoje, a encorajar inovações. As idéiasdiretrizes da revista, que criou e excitou entusiasmo em muitos leitores, na França e noexterior, podem ser sumariadas brevemente. Em primeiro lugar, a substituição datradicional narrativa de acontecimentos por uma história-problema. Em segundo lugar, ahistória de todas as atividades humanas e não apenas história política. Em terceiro lugar,visando completar os dois primeiros objetivos, a colaboração com outras disciplinas,tais como a geografia, a sociologia, a psicologia, a economia, a lingüística, aantropologia social, e tantas outras. Como dizia Febvre, com o seu característico uso doimperativo: “Historiadores, sejam geógrafos. Sejam juristas, também, e sociólogos, epsicólogos” (Febvre, 1953, p.32). Ele estava sempre pronto “para pôr abaixo oscompartimentos” e lutar contra a especialização estreita.De maneira similar, Braudel escreveu O Mediterrâneo como o fez para “provar que a história pode fazer mais do queestudar jardins murados".

O objetivo deste livro é descrever, analisar e avaliar a obra da escola dos Annales . Essa escola é, amiúde, vista como um grupo monolítico, com uma práticahistórica uniforme, quantitativa no que concerne ao método, determinista em suasconcepções, hostil ou, pelo menos, indiferente à política e aos eventos.

Esse estereótipodos Annales ignora tanto as divergências individuais entre seus membros quanto seudesenvolvimento no tempo. Talvez seja preferível falar num movimento dos Annales ,não numa “escola”.

Esse movimento pode ser dividido em três fases. Em sua primeira fase, de 1920a 1945, caracterizou-se por ser pequeno, radical e subversivo, conduzindo uma guerrade guerrilhas contra a história tradicional, a história política e a história dos eventos.Depois da Segunda Guerra Mundial, os rebeldes apoderaram-se doestablishement histórico. Essa segunda fase do movimento, que mais se aproxima verdadeiramente deuma “escola”, com conceitos diferentes (particularmente estrutura e conjuntura) e novosmétodos (especialmente a “história serial” das mudanças na longa duração), foidominada pela presença de Fernand Braudel.

Na história do movimento, uma terceira fase se inicia por volta de 1968. Éprofundamente marcada pela fragmentação. A influência do movimento, especialmentena França, já era tão grande que perdera muito das especificidades anteriores. Era uma“escola” unificada apenas aos olhos de seus admiradores externos e seus críticosdomésticos, que perseveravam em reprovar-lhe a pouca importância atribuída à políticae à história dos eventos. Nos últimos vinte anos, porém, alguns membros do grupotransferiram-se da história socioeconômica para a sociocultural, enquanto outros estãoredescobrindo a história política e mesmo a narrativa.

A história dos Annales pode assim ser interpretada em termos da existência detrês gerações, mas serve também para ilustrar o processo cíclico comum segundo o qualos rebeldes de hoje serão o establishement de amanhã, transformando-se, por sua vez,no alvo dos novos rebeldes. Mesmo assim, algumas de suas preocupações básicaspermanecem, pois a revista e os indivíduos a ela associados oferecem o mais sistemáticoexemplo, neste século, de uma interação fecunda entre a história e as ciências sociais.

Este breve estudo do movimento dos Annales pretende atravessar diversasfronteiras culturais. Objetiva, de um lado, tentar compreender o mundo francês, deoutro, explicar, tanto quanto possível, a década de 20 às gerações posteriores e a práticado historiador para sociólogos, antropólogos, geógrafos e outros cientistas sociais. Elese apresenta sob a forma de uma história que busca harmonizar uma organizaçãocronológica a uma temática.

O problema com esse tipo de combinação, aqui ou em qualquer outro estudohistórico, é o que se conhece como “a contemporaneidade do não-contemporâneo”.Braudel, por exemplo, embora fosse excepcionalmente aberto, às novas idéias, mesmonuma idade avançada, não alterou fundamentalmente sua maneira de ver e escrever ahistória, desde os anos 30, quando planejava seu Mediterrâneo , até a década de 80,quando trabalhava seu livro sobre a França.

Daí a necessidade de ter tomado algumasliberdades com a ordem cronológica.

O livro é, ao mesmo tempo, algo mais e algo menos do que um estudo dehistória intelectual. Não aspira a ser o estudo acadêmico definitivo sobre o movimentodos Annales , o que, espero, alguém faça no século XXI. Só então poderão ser utilizadasfontes às quais não tive acesso, como os rascunhos manuscritos de Marc Bloch ou ascartas não publicadas de Febvre e Braudel. Seu autor irá precisar tanto de umconhecimento especializado da história da historiografia, quanto da história da Françado século XX.

O que tentei escrever é algo bem diferente. É um ensaio de caráter mais pessoal.Já me descrevi, algumas vezes, como um “companheiro de viagem” dos Annales.

Emoutras palavras, um historiador de fora que, como muitos outros estrangeiros, buscousua inspiração no movimento. Tenho acompanhado seu destino de maneira muitopróxima nestes últimos trinta anos. Mas, ao mesmo tempo, Cambridge ésuficientemente afastada de Paris para tornar possível escrever uma história crítica dascontribuições dos Annales.

Embora Febvre e Braudel tenham sido excelentes políticos acadêmicos, poucoserá dito, nas páginas que se seguem, sobre esse aspecto do movimento – a rivalidadeentre a Sorbonne e o, Hautes Études, por exemplo, ou a luta pelo poder de nomeações esobre a elaboração dos curricula. Resisti também, com algum remorso, à tentação deescrever um estudo etnográfico dos habitantes do 54, Boulevard Raspail, seusancestrais, os casamentos endogâmicos, as facções, as relações chefe-subordinado, osestilos de vida, as diferentes mentalidades e tantas outras coisas.

Concentrar-me-ei, ao invés disso, nos melhores livros produzidos pelosmembros do grupo, e tentarei avaliar sua importância na história da historiografia.

Podeparecer paradoxal discutir um movimento que foi mantido coeso por uma revista,utilizando livros e não artigos. Foram, porém, as monografias que produziram a longo prazo o maior impacto, quer sobre o público profissional, quer sobre o público em geral.

O movimento tem sido freqüentemente discutido como se pudesse ser atribuídoa apenas três ou quatro de seus membros. As realizações de Lucien Febvre, Marc Bloch,Fernand Braudel e outros são realmente espetaculares. Contudo, como no caso demuitos movimentos intelectuais, esse é um empreendimento coletivo para o qualcontribuições significativas foram feitas por um bom número de indivíduos. Isso é maisóbvio no caso da terceira geração, mas também e verdadeiro para a era de Braudel,valendo mesmo para o tempo de seus fundadores. Trabalho em equipe foi um sonho deFebvre desde 1936.

Depois da guerra, o sonho tornou-se realidade. Projetos detrabalho em equipe sobre a França incluíam a história da estrutura social, a história daprodutividade agrícola, a história do livro no século XVIII, a história da educação, ahistória da habitação e mesmo um estudo dos conscritos no século XIX, com autilização da informática.

Este estudo conclui-se com uma discussão acerca das reações, entusiásticas oucríticas, ao movimento dos Annales , um balanço de sua acolhida em diferentes partesdo mundo e por diferentes disciplinas, e uma tentativa de situá-lo na história dahistoriografia. Meu objetivo (apesar da relativa brevidade deste ensaio) é dar ao leitorcondições de compreender o movimento como um todo.

Naturalmente, devo bastante a conversas mantidas com membros do grupo dos Annales , especialmente com Fernand Braudel, Emmanuel Le Roy Ladurie, Jacques LeGoff, Michel Vovelle, Krzystof Pomian, Roger Chartier e Jacques Revel, em Paris outambém em locais mais exóticos, do Taj Mahal ao Emmanuel College.

Gostaria de agradecer à minha esposa, Maria Lúcia, a meu editor, JohnThompson, e a Roger Chartier, por seus comentários aos esboços iniciais deste estudo.Sinto-me igualmente em débito comJuan Maiguashca, que acendeu meu entusiasmopelos Annales, cerca de trinta anos atrás, e com os diálogos mantidos com Alan Baker,Norman Birnbaum, John Bossy, Stuart Clark, Robert Darnton, Clifford Davies, NatalieDavis, Javier Gil Pujol, Carlo Ginzburg, Ranajit Guha, Eric Hobsbawm, GáborKlaniczay, Geoffrey Parker, Gwyn Prins, Carlos Martinez Shaw, No Schoffer, HenkWesseling e outros que, como eu, tentaram mesclar seu envolvimento com os Annales com uma certa distância crítica.

1 - O Antigo Regime na Historiografia e seus Críticos

Lucien Febvre e Marc Bloch foram os líderes do que pode ser denominadoRevolução Francesa da Historiografia. Para interpretar as ações dos revolucionários,contudo, é necessário conhecer alguma coisa do antigo regime que desejavam derrubar.Para sua descrição e compreensão, não é suficiente permanecer nos quadroshistoriográficos restritos da situação francesa do início do século, quando Febvre eBloch eram estudantes. Torna-se necessário examinar a história da historiografia na sualonga duração.

Desde os tempos de Heródoto e Tucídides, a história tem sido escrita sob umavariada forma de gêneros: crônica monástica, memória política, tratados de antiquários,e assim por diante. A forma dominante, porém, tem sido a narrativa dos acontecimentospolíticos e militares, apresentada como a história dos grandes feitos de grandes homens– chefes militares e reis. Foi durante o Iluminismo que ocorreu, pela primeira vez, umacontestação a esse tipo de narrativa histórica.

Por volta de meados do século XVIII, um certo número de escritores eintelectuais, na Escócia, França, Itália, Alemanha e em outros países, começou apreocupar-se com o que denominava a “história da sociedade”. Uma história que não selimitava a guerras e à política, mas preocupava-se com as leis e o comércio, a moral e os“costumes”, temas que haviam sido o centro de atenção do famoso livro de Voltaire Essai sur lés moeurs.

Esses estudiosos abandonaram o que John Millar de Glasgow chamara “aquelaface comum dos eventos que recobre os detalhes do historiador vulgar”, paraconcentrarem-se na história das estruturas, tais como o sistema feudal ou a constituiçãobritânica. Alguns deles dedicaram-se à reconstrução de comportamentos e valores dopassado, especialmente à história do sistema de valores conhecido corno “cavalaria”;outros à história da arte, da literatura e da música. Por volta do final do século, essegrupo internacional de estudiosos havia produzido um conjunto de obras extremamenteimportante. Alguns historiadores, como Edward Gibbon em seu Declínio e Queda do Império Romano , integraram à narrativa dos acontecimentos políticos esse novo tipo dehistória sociocultural.

Contudo, uma das conseqüências da chamada “Revolução Copernicana” nahistória ligada ao nome de Leopold von Ranke, foi marginalizar, ou re-marginalizar, a história sociocultural. Os interesses pessoais de Ranke não se limitavam à história política. Escreveu sobre a Reforma e a Contra-Reforma e não rejeitou a história dasociedade, da arte, da literatura ou da ciência. Apesar disso, o movimento por eleliderado e o novo paradigma histórico elaborado arruinaram a “nova história” do séculoXVIII. Sua ênfase nas fontes dos arquivos fez com que os historiadores que trabalhavama história sociocultural parecessem meros dilettanti.

Os epígonos de Ranke foram, porém, mais intolerantes que o mestre e, numaépoca em que os historiadores buscavam profissionalizar-se, a história não-política foiexcluída da nova disciplina acadêmica. As novas revistas profissionais fundadas nofinal do século XIX, tais como Historische Zeitschrift (1865), Revue Historique (1876) e a English Historical Review (1886), concentravam-se na história dos eventos políticos.O prefácio do primeiro volume da EHR declarava sua intenção de dedicar-se aos temas da Política e do Estado”. Os ideais dos novos historiadores profissionais foram sistematizados em compêndios sobre o método histórico, como, por exemplo, o doshistoriadores franceses Langlois e Seignobos, Introduction aux études historiques (1897).

Mesmo no século XIX, alguns historiadores foram vozes discordantes. Michelete Burckhardt, que escreveram suas histórias sobre o Renascimento mais ou menos namesma época, 1865 e 1860, respectivamente, tinham uma visão mais ampla da históriado que os seguidores de Ranke. Burckhardt interpretava a história como um campo emque interagiam três forças – o Estado, a Religião e a Cultura –, enquanto Micheletdefendia o que hoje poderíamos descrever como uma “história da perspectiva dasclasses subalternas”, em suas próprias palavras “a história daqueles que sofreram,trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seussofrimentos” (Michelet, 1842, p.8).

Não podemos esquecer que a obra-prima do velho historiador francês Fustel deCoulanges, A Cidade Antiga (1864), dedicava-se antes à história da religião, da famíliae da moralidade, do que aos eventos e à política. Marx também oferecia um paradigmahistórico alternativo ao de Ranke. Segundo sua visão histórica, as causas fundamentaisda mudança histórica deveriam ser encontradas nas tensões existentes no interior dasestruturas socioeconômicas.

Os historiadores econômicos foram, talvez, os opositores mais bem organizadosda história política. Gustav Schmoller, professor em Estrasburgo, nesse tempopertencente à Alemanha (1872), por exemplo, foi o cabeça de uma importante escolahistórica. Uma revista de história social e econômica foi criada em 1893, a Vierteljahrschrift fur Sozial – und Wirschaftsgeshichte . Na Grã-Bretanha, algunsestudos clássicos de história econômica, como os de William Cunnigham, Growth of English Trade , e J.E. Thorold Roger, Six Centuries of Work and Wages , datam de 1882e 1884, respectivamente (Coleman, 1987, pp. 38ss). Henri Hauser, Henri Sée e Paul Mantoux, na França, começaram a escrever sobre história econômica no final do séculoXIX (Hauser; 1899; Sée, 1901; Mantoux, 1906).

O domínio, ou como dizia Schmoller, o “imperialismo” da história política, erafreqüentemente contestado na última parte do século XIX. J.R.Green abria sua Short History of English People afirmando claramente ter “devotado mais espaço a Chaucerdo que a Crécy, a Caxton do que à insignificante disputa entre os yorkistas elancastreanos, à lei dos pobres de Elisabete do que à sua vitória de Cadiz, à ReformaMetodista do que à fuga do Jovem Pretendente (Charles Edward Stuart)”.

Os fundadores da nova disciplina, a sociologia, expressavam pontos de vistasemelhantes. Augusto Comte ridiculizava o que chamava de “insignificantes detalhesestudados infantilmente pela curiosidade irracional de compiladores cegos de anedotasinúteis”, e defendia o que chamou, numa frase famosa,”uma história sem nomes”(Comte, 1864, lição 52). Herbert Spencer queixava-se de que “As biografias dosmonarcas (e nossas crianças aprendem pouco mais do que isso) pouco esclarecem arespeito da ciência da sociedade” (Spencer, 1861, pp. 26ss). Da mesma maneira,Durkheim despreza os acontecimentos particulares, nada mais do que “manifestações superficiais”; a história aparente mais do que a história real de uma determinada nação (Durkheim, 1896, p.v.).

Por volta de 1900, as críticas à história política eram particularmente agudas, eas sugestões para sua substituição bastante férteis. Na Alemanha, nesses anos, ocorreua chamada “controvérsia de Lamprecht”. Karl Lamprecht, professor em Leipzig,colocava em oposição à história política – nada mais do que uma história de indivíduos– a história cultural ou econômica, considerada como a história do povo.Posteriormente, definiu a história “primordialmente como uma ciênciasociopsicológica”.

Nos Estados Unidos, o famoso estudo de Frederick Jackson Turner sobre “osignificado da fronteira na história americana” (1893) produziu uma clara ruptura com ahistória dos acontecimentos políticos, ao passo que, no início do novo século, ummovimento foi lançado por James Harvey Robinson sob a bandeira da “Nova História”.De acordo com Robinson, “História inclui qualquer traço ou vestígio das coisas que ohomem fez ou pensou, desde o seu surgimento sobre a terra”. Por método, “A NovaHistória deverá utilizar-se de todas as descobertas sobre a humanidade, que estão sendofeitas por antropólogos, economistas, psicólogos e sociólogos”.

Nessa mesma época, na França, a natureza da história tornou-se o objeto de umintenso debate. A estreiteza intelectual do establishment histórico não deve ser, porém,exagerada. O fundador da Revue Historique , Gabriel Monod, conciliava seu entusiasmopela “história científica” alemã com sua admiração por Michelet, a quem conhecera pessoalmente e cuja biografia escrevera. Era por sua vez admirado por seus alunosHauser e Fcbvre.

Por outro lado, Ernest Lavisse, um dos mais importantes historiadores ematividade na época, era o editor geral da História da França, publicada em dez volumes,entre 1900 e 1912. Seus interesses pessoais estavam voltados para a história política, deFrederico, o Grande, a Luís XIV. Contudo, a concepção histórica subjacente a esses dezvolumes era muito mais abrangente. A seção introdutória foi escrita por um geógrafo, ovolume dedicado ao Renascimento, por um historiador da cultura, e o próprio balançoda época de Luís XIV, escrito por Lavisse, dedicou parte substancial às artes e,particularmente, à política das artes.

Portanto, é inexato pensar que os historiadoresprofissionais desse período estivessem exclusivamente envolvidos com a narrativa dosacontecimentos políticos.

De qualquer forma, os historiadores eram vistos dessa maneira pelos cientistassociais. O desprezo de Durkheim pelos eventos já foi mencionado; seu seguidor, oeconomista François Simiand, foi mais longe nesse sentido, quando, num famoso artigo,atacou o que chamou de “os ídolos da tribo dos historiadores”. Segundo ele, havia trêsídolos que deveriam ser derrubados: “o ídolo político”, “a eterna preocupação com ahistória política, os fatos políticos, as guerras, etc., que conferem a esses eventos umaexagerada importância”; o “ídolo individual”, isto é, a ênfase excessiva nos chamadosgrandes homens, de forma que mesmo estudos sobre instituições eram apresentadoscomo “Pontchartrain e o Parlamento de Paris”, ou coisas desse gênero; e, finalmente, o“ídolo cronológico”, ou seja, “o hábito de perder-se nos estudos das origens” (Simiand,1903).

Os três temas seriam caros aos Annales, e a eles retornaremos. O ataque aosídolos da tribo dos historiadores fazia uma referência particular a um dos chefes tribais,o protegido de Lavisse, Charles Seignobos, professor da Sorbonne e co-autor de umadas mais conhecidas introduções ao estudo da história. Talvez tenha sido por essarazão que Seignobos se transformou no símbolo de tudo aquilo a que os reformadores seopunham. De fato, ele não era exclusivamente um historiador político, pois escreveratambém sobre civilização. Estava interessado na relação entre a história e as ciênciassociais, embora não tivesse a mesma visão dessa relação que Simiand ou Febvre. Estespublicaram duras críticas a seu trabalho. A crítica de Simiand apareceu numa novarevista, a Revue de Synthèse Historique, fundada por um grande empreendedorintelectual, Henri Berr. Sua intenção, encorajar historiadores a colaborar com outrasdisciplinas, especialmente com a psicologia e a sociologia, na esperança de produzir oque ele chamava de “psicologia histórica” ou “coletiva” (Siegel, 1983). Em outraspalavras, o que os americanos chamam de “psico-história” é consideravelmente anterioraos anos 50 e ao famoso estudo de Erik Erikson sobre o Young Man Luther (Erikson,1954).

O ideal de Berr, uma psicologia histórica construída através de uma cooperaçãointerdisciplinar, teve grande ressonância em dois jovens que escreveram para a suarevista. Seus nomes: Lucien Febvre e Marc Bloch.

2 - Os Fundadores: Lucien Febvre e Marc Bloch

O movimento dos Annales , em sua primeira geração, contou com dois líderes:Lucien Febvre, um especialista no século XVI, e o medievalista Marc Bloch.

Emborafossem muito parecidos na maneira de abordar os problemas da história, diferiambastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo, veementee combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas;Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um amor quase inglêspor qualificações e juízos reticentes.

Apesar, ou por causa dessas diferenças,trabalharam juntos durante vinte anos entre as duas guerras.

I – OS ANOS INICIAIS

Em 1897, Lucien Febvre foi admitido na Escola Normal Superior, entãoseparada da Universidade de Paris. Era uma pequena escola superior, mas altamentequalificada intelectualmente, sendo conhecida como “o equivalente francês do Jowett’sBalliol” (Lukes, 1973, p. 45). Aceitava pouco menos de quarenta alunos por ano e eraorganizada segundo as linhas tradicionais da escola pública britânica (os estudanteseram todos internos e a disciplina rígida) (Peyrefitte, 1946). O ensino era ministradoatravés de seminários dirigidos por professores altamente competentes nas diferentesdisciplinas, e através de aulas expositivas.

Aparentemente, Febvre foi “alérgico” aofilósofo Henri Bergson, embora muito tenha aprendido com quatro de seus colegas.

Um deles foi Paul Vidal de la Blache, um geógrafo interessado em colaborarcom historiadores e sociólogos. Fundou uma nova revista, os Annales de Géographie (1891), visando a incentivar essa aproximação.

O segundo desses professores foi ofilósofo e antropólogo Lucien Lévy-Bruhl, criador do conceito de “pensamento pré-lógico” ou “mentalidade primitiva”, um tema que surgiria nos trabalhos de Febvre nadécada de 30. O terceiro foi o historiador da arte Émile Mâle, um dos pioneiros aconcentrar-se não na história das formas, mas na das imagens, na “iconografia”, comodizemos hoje. Seu famoso estudo sobre a arte religiosa do século XIII foi publicado em1898, o mesmo ano em que Febvre ingressou na Escola. Finalmente, havia o lingüistaAntoine Meillet, um aluno de Durkheim particularmente interessado nos aspectossociais da língua.

A admiração de Febvre por Meillet e seu interesse pela história social da língua evidenciam-se claramente nas inúmeras resenhas de livros de lingüistas que escreveu entre 1906 e 1926 para a Revue de Syrnthèse Historique, de Henri Berr.

Febvre reconheceu também seu débito para com inúmeros historiadoresanteriores. Durante toda a vida expressou sua admiração pela obra de Michelet.Reconheceu Burckhardt como um de seus “mestres”, juntamente com o historiador daarte Louis Courajod. Confessa também uma surpreendente influência, a do político deesquerda Jean Jaurès, através de sua obra Histoire socialiste de la révolution française (1901-3), “tão rica em intuições sociais e econômicas” (Febvre, 1922, p.vi. Cf. Venturi,1966, 5-70).

A influência de Jaurès pode ser constatada na tese de doutoramento de Febvre –um estudo sobre sua própria região, a Franche-Comté, a área em torno de Besançon, nofinal do século XVI, quando era governada por Felipe II, da Espanha. O título da tese, Philippe II et la Franche-Comté , mascara o fato de ser uma importante contribuiçãotanto à história sociocultural quanto à história política. Preocupava-se não somente coma revolta dos Países Baixos e a ascensão do absolutismo, mas também com a “feroz lutaentre duas classes rivais”, a decadente e endividada nobreza e a ascendente burguesia deadvogados e mercadores, que adquiria suas propriedades. Esse esquema interpretativose assemelha ao marxista; Febvre, porém, difere profundamente de Marx ao descrever aluta entre os dois grupos “como um conflito de idéias e sentimentos tanto quanto umconflito econômico” (Febvre, 1911, p. 323). Sua interpretação desse conflito, e mesmoda história em geral, não diferia da de Jaurès, que se dizia “ao mesmo tempo,materialista com Marx e místico com Michelet”, reconciliando as forças sociais com aspaixões individuais (Jaurès, 1901, pp. 65 ss).

Outra característica marcante e poderosa do estudo de Febvre era a introduçãogeográfica, que traçava um nítido perfil dos contornos da região. A introdução geográfica que era quase, de rigueur (obrigatória) nas monografias provinciais daescola dos Annales na década de 60, pode ter sido modelada pelo famoso O Mediterrâneo de Braudel, mas não tem nele suas origens.

O interesse de Febvre pela geografia histórica era suficientemente grande parapublicar, sob o incentivo de Henri Berr, um estudo geral sobre o assunto com o título de La terre et l évolution humaine. Esse trabalho havia sido planejado antes da PrimeiraGuerra Mundial, mas teve de ser interrompido quando o autor trocou as funções deprofessor universitário pelas de capitão de uma companhia de artilharia. Terminada aguerra, Febvre retornou ao seu estudo, auxiliado agora por um colaborador, que foipublicado em 1922.

Esse extenso estudo, que aborreceu alguns geógrafos profissionais por ser otrabalho de um não-especialista, era o desenvolvimento das idéias do antigo professorde Febvre, Vidal de la Blache.

De outro modo, foi importante para Febvre o geógrafo alemão Ratzel. Ohistoriador francês era uma espécie de ostra intelectual, que elaborava mais facilmentesuas idéias quando irritado pelas conclusões de algum colega. Ratzel foi um dospioneiros da geografia humana (Anthropogéographie , como ele chamava); atribuía,porém, diferentemente de Vidal de la Blache, maior influência ao meio físico sobre odestino humano.

Nesse debate em que o determinismo geográfico opunha-se à liberdade humana,Febvre apoiou firmemente Vidal e atacou Ratzel, enfatizando a variedade de possíveisrespostas aos desafios de um dado meio. Segundo ele, não havia necessidades, existiampossibilidades (Febvre, 1922, p. 284). Para citar um dos exemplos favoritos de Febvre:um rio pode ser tratado por uma sociedade como uma barreira, mas por outra, como ummeio de transporte. Em última análise, não é o ambiente físico que determina a opçãocoletiva, mas o homem, sua maneira de viver, seu comportamento. Mesmo as atitudesreligiosas aí se incluíam. Numa discussão sobre rios e meios de transporte, Febvre nãose esqueceu de discutir as rotas dos peregrinos (Idem , pp. 402 ss).

A carreira de Bloch não foi muito diferente da de Febvre. Freqüentou também aÉcole Normale, onde seu pai Gustavo ensinava história antiga. Aprendeu, igualmente,com Meillet e Lévy-Bruhl; contudo, como comprova a análise de suas últimas obras,sua maior influência foi a do sociólogo Émile Durkheim, que iniciou sua carreira deprofessor na École mais ou menos na época de seu ingresso. Ele mesmo um egresso daÉcole, aprendeu a levar a história com seriedade através de seus estudos com Fustel deCoulanges (Lukes, 1973, pp. 58 ss). Em sua maturidade, Bloch reconheceu suaprofunda dívida com a revista de Durkheim, Année Sociologique , lida entusiasticamente por um grande número de historiadores de sua geração, tais como Louis Gernet,dedicado ao estudo das letras clássicas, e o sinologista Marcel Granet.

Apesar de seu interesse pela política contemporânea, Bloch optou porespecializar-se em história medieval. Como Febvre, interessava-se pela geografiahistórica, tendo por especialização a Île-de-France, sobre a qual publicou um estudo em1913. Esse estudo revela que, como Febvre, Bloch pensava no tema sob a perspectivade uma história-problema. Num estudo de caráter regional, aprofundou-se tanto a pontode pôr em questão a própria noção de região, argumentando que esta dependia doproblema que se tinha em mente. “Por que, escreveu ele, devemos esperar que o juristainteressado no feudalismo, o economista que está estudando a evolução da propriedadeno interior do país nos tempos modernos, e o filólogo que trabalha os dialetos popularestenham todos que respeitar fronteiras precisamente idênticas?” (Bloch, 1913, p. 122).

O compromisso de Bloch com a geografia era menor do que o de Febvre,embora seu compromisso com a sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavampensando de uma maneira interdisciplinar. Bloch, por exemplo, insistia na necessidadede o historiador regional combinar as habilidades de um arqueólogo, de um paleógrafo,de um historiador das leis, e assim por diante (Idem , pp. 60-1). Esses dois homens tinham necessariamente de encontrar-se. A oportunidade ocorreu por ocasião de suasnomeações para cargos na Universidade de Estrasburgo.

II – ESTRASBURGO

Ambiente

O período de encontros diários, em Estrasburgo, entre Bloch eFebvre durou apenas treze anos, de 1920 a 1933; foi, porém, de vital importância para omovimento dos Annales. Mais importante ainda pelo fato de que ambos estavamcercados por um grupo interdisciplinar extremamente atuante. Daí a importância derealçar-se o ambiente em que se formou o grupo.

Nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, Estrasburgo eraefetivamente uma nova universidade, pois a cidade vinha de ser recentementedesanexada da Alemanha, criando um ambiente favorável à inovação intelectual efacilitando o intercâmbio de idéias através das fronteiras disciplinares.

Quando Fcbvre e Bloch se encontraram em 1920, logo após as suas nomeaçõescomo professor e maitre de conférences respectivamente, rapidamente tornaram-seamigos (Febvre, 1945, p. 393). Suas salas de trabalho eram contíguas, e as portaspermaneciam abertas (Fcbvre, 1953, p. 393). Em suas infindáveis discussõesparticipavam colegas como o psicólogo social Charles Blondel, cujas idéias eramimportantes para Febvre, e o sociólogo Maurice Halbwachs, cujo estudo sobre a estrutura social da memória, publicado em 1925, causou profunda impressão em Bloch.

Outros membros da faculdade de Estrasburgo participaram, ou vieram aparticipar, das preocupações de Febvre e Bloch. Henri Bremond, autor da monumental

Histoire littéraire du sentiment religieux en France depuis la fin des guerres de religion (1916-1924), lecionou em Estrasburgo durante o ano de 1923. Sua preocupação com apsicologia histórica inspirou Febvre em sua obra sobre a Reforma.

O historiador daRevolução Francesa, Georges Lefebvre, cujo interesse pela história das mentalidadesera muito próximo do dos fundadores dos Annales , aí lecionou de 1928 a 1937. Não égratuito sugerir que a idéia do famoso estudo de Lefebvre sobre “o grande medo de1789” deve alguma coisa ao ensaio anterior de Bloch sobre o rumor.

Lecionaramtambém em Estrasburgo: Gabriel Le Bras, um pioneiro da sociologia histórica dasreligiões, e André Piganiol, cujo ensaio sobre os jogos romanos, publicado em 1923, revela um interesse pela antropologia semelhante ao de Bloch na sua obra Les RoisThaumaturges, editada um ano depois.

Les Rois Thaumaturges merece ser considerada uma das grandes obras históricasdo nosso século.

Seu tema é a crença, muito difundida na Inglaterra e na França, daIdade Média até o século XVIII, de que os reis tinham o poder de curar os doentes deescrófula, uma doença da pele conhecida como o “mal dos reis”, através do toque real,que se fazia acompanhar de um ritual com essa finalidade.

O tema pode ainda parecer relativamente marginal, e certamente o foi na décadade 20; Bloch faz uma referência irônica a um colega inglês que comentara esse “seucurioso desvio”(Bloch, 1924, p.18). Para Bloch, muito ao contrário, o toque real não eraum desvio, mas uma estrada principal, em verdade une voie royale em todos ossentidos. Era um ensaio profundo que lançava luz sobre importantes problemas. O autorconsiderava seu livro, com alguma razão, uma contribuição à história política da Europano sentido mais amplo e verdadeiro do termo “político”, pois nele analisava a idéia demonarquia. “O milagre real foi acima de tudo a expressão de uma concepção particulardo poder político supremo” (Idem, pp. 21,51).

Les Rois Thaumaturges

Les Rois Thaumaturges foi notável em pelo menos três outrosaspectos. Primeiro, porque não se limitava a um período histórico convencional, a IdadeMédia.

Seguindo o conselho que mais tarde formularia em termos gerais em seu Métier d’ historien , Bloch escolheu o período para localizar o problema, o que significava quetinha de escrever “a história da longa-duração”, como foi chamada por Braudel umageração depois. Tal perspectiva conduziu Bloch a conclusões interessantes; uma dasmais importantes foi a de constatar que o ritual do toque não apenas sobreviveu noséculo XVII, a época de Descartes e de Luís XIV, mas nele floresceu como jamais, pelomenos no sentido de que Luís XIV tocou um número maior de doentes do que seuspredecessores. Não era, pois, um mero “fóssil” (Idem , pp. 21, 360 ss).

Em segundo lugar, o livro era uma contribuição ao que Bloch denominava“psicologia religiosa”. O núcleo central do estudo era a história dos milagres e concluíacom uma discussão explicita do problema de como explicar que o povo pudesseacreditar em tais “ilusões coletivas” (Idem , p. 420 ss). Observou ainda que algunsdoentes retornavam para serem tocados uma segunda vez, o que sugere que sabiam ter otratamento fracassado, mas que o fato não destruía sua fé. “O que criava a fé no milagreera a idéia de que deveria haver um milagre” (Idem , p.429). Na famosa frase do filósofoKarl Popper, formulada poucos anos depois, a crença não era “falsificável” (Popper,1935, pp. 440 ss).

Esse tipo de discussão sobre a psicologia da crença não era algo que se podiaesperar de um estudo histórico nos anos 20. Era um tema para psicólogos, sociólogos ouantropólogos. De fato, Bloch discutiu seu livro com seu colega de Estrasburgo CharlesBlondel, como também com Febvre (Bloch, 1924, p. vi). Bloch conhecia também otrabalho de James Frazer, e o que o Golden Bough tinha a dizer sobre a monarquia sagrada, da mesma maneira que sabia o que Lévy-Bruhl dissera sobre a “mentalidadeprimitiva” (Idem , p. 421n). Embora Bloch não se utilizasse freqüentemente do termo,seu livro foi uma obra pioneira para o que hoje designamos de história “dasmentalidades”. Pode também ser descrito como um ensaio de sociologia histórica, ouantropologia histórica, por focalizar os sistemas de crença – e também de sociologia doconhecimento.

A frase com que Bloch descreveu mais de uma vez seu livro foi “representaçõescoletivas”, uma frase bastante associada ao sociólogo Émile Durkheim, tanto quanto afrase “fatos sociais”, encontrável também nas páginas de sua obra (Idem , pp. 21, 51,409). Em verdade, sua maneira de abordar o tema deve muito a Durkheim e a sua escola(Febvre, 1945, p. 392; Rhodes, 1978). Sob um aspecto, pelo menos, pode ser criticado,talvez tardiamente, por ter sido durkheiminiano um pouco demais.

Embora tenha sido cuidadoso ao registrar as dúvidas sobre o toque realexpressas durante o longo período coberto por seu livro, ainda assim Bloch cria umaimpressão de consenso muito forte, talvez em virtude de não oferecer nenhumadiscussão sistemática da espécie de povo que acreditava (ou, em certas oportunidades,desacreditava); ou dos grupos cujo interesse era que outros acreditassem no toque real.Não discute o fenômeno em termos ideológicos. É claro que se deve observar que nosdias de Bloch o conceito de “ideologia” era usado de uma maneira simples ereducionista. Como hoje não mais ocorre, é difícil imaginar que um historiador ligadoaos Annales , Georges Duby, por exemplo, pudesse discutir o problema do toque realsem recorrer a esse conceito.

Um terceiro aspecto que enfatiza a importância do estudo de Bloch é o que seuautor chama de “história comparativa”. Algumas comparações são feitas comsociedades distantes da Europa como a Polinésia, embora sejam feitas de passagem ecom extrema cautela: (“não transfiramos os Antípodas para Paris ou Londres”) (Bloch,1924, pp. 52ss, 421n.). A comparação entre a França e a Inglaterra, porém, é central nolivro, os dois únicos países em que o toque real era praticado. Acrescente-se, porém, quea comparação é feita de maneira a permitir a constatação das diferenças.

Em resumo, Bloch já utilizava, em 1924, o que iria pregar quatro anos mais tardenum artigo chamado “Por uma história comparativa das sociedades européias”.

Nele oautor defende o que chama de “uso mais competente e mais geral” do métodocomparativo, distinguindo o estudo das similaridades entre sociedades do estudo dassuas diferenças, e o estudo das sociedades vizinhas no tempo e no espaço do dassociedades distantes entre si, recomendando, porém, que os historiadores praticassemambas as perspectivas” (Bloch, 1928).

Febvre, o Renascimento e a Reforma

Depois de completar seu antigoprojeto de geografia histórica, Febvre, tal qual Bloch, mudou o rumo de seus interessespara o estudo de atitudes coletivas, ou “psicologia histórica”, como ele, da mesmamaneira que seu amigo Henri Berr, denominou esse tipo de trabaho. Até o fim de sua vida, concentrou o melhor de seu trabalho de pesquisa na história do Renascimento e daReforma, especialmente na França.

Essa fase de sua carreira iniciou-se com quatro conferências sobre os primórdiosdo Renascimento francês, uma biografia de Lutero e um artigo polêmico sobre asorigens da Reforma francesa, a qual descreveu como “uma questão mal posta”. Todosesses trabalhos referiam-se à história social e à psicologia coletiva.

As conferências sobre o Renascimento, por exemplo, rejeitavam as explicaçõestradicionais defendidas pelos historiadores da arte e da literatura (inclusive por seuvelho mestre Émile Mâle), que realçavam a evolução interna do movimento. Emcompensação, Febvre oferecia uma explicação social dessa “revolução”, realçando oque se poderia chamar de “demanda” de novas idéias e, tal como em sua tese sobre aFranche-Comté, a ascensão da burguesia (Febvre, 1962, 529-603, particularmente pp.573, 581).

De maneira semelhante, o artigo de Febvre sobre a Reforma critica oshistoriadores religiosos por tratarem o episódio como essencialmente vinculado aos“abusos” institucionais e a intenção de reformá-los, mais do que como “uma profundarevolução do sentimento religioso”. De acordo com Febvre, a razão dessa revoluçãodeveria ser buscada, ainda uma vez, na ascensão da burguesia, que “necessitava de...uma religião que fosse transparente, racional, humana e amavelmente fraternal”(Febvre, 1929, rpr Febvre, 1957, p.38 e 1973, p.66).

A invocação da burguesia parecehoje um pouco recorrente, mas o intento de ligar a religião à história social permaneceinspiradora.

Pode-se ficar surpreso ao deparar com Febvre escrevendo uma biografiahistórica nesse momento de sua carreira. Contudo, no prefácio de seu estudo sobre Lutero, o autor previne que não se trata de uma biografia, mas da tentativa de resolverum problema, a saber, “o problema da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social”. Constatou a existência, em 1517, de seguidores potenciais de Lutero, a burguesia de novo, um grupo social que adquiria “umnovo sentido de importância social” e que facilmente se ressentia da intermediaçãoclerical entre Deus e o homem. Mas ao mesmo tempo recusou-se a reduzir as idéias deLutero a um reflexo dos interesses da burguesia. Pelo contrário, defendia que essasidéias criativas nem sempre eram apropriadas para a sua posição social e tiveram queser adaptadas às necessidades e à mentalidade da burguesia pelos seguidores de Lutero,especialmente por Melanchton (Febvre (1928), pp. 104 ss, 287 ss.)16.

Deve ter sido óbvio, nesse momento que certos temas são recorrentes na obra deFebvre e também que há uma tensão criativa entre sua fascinação pelos indivíduos e sua preocupação com grupos sociais – como havia entre seu profundo interesse em escreveruma história social da religião e seu igualmente forte desejo de não reduzir atitudes e valores espirituais a meras expressões de transformações na economia ou na sociedade.

III – A CRIAÇÃO DOS ANNALES

Logo depois do foral da Primeira Guerra Mundial, Febvre idealizou uma revistainternacional dedicada à história econômica, que seria dirigida pelo grande historiadorbelga Henri Pirenne. O projeto encontrou grandes dificuldades, tendo sido abandonado.Em 1928, foi Bloch quem tomou a iniciativa de ressuscitar os planos de uma revista(uma revista francesa, agora), obtendo sucesso em seu projeto (Febvre (1945), pp.398ss; Leuilliot (1973), p.317 ss, Fink (1989), ch.7). 16. Sobre os meios de combinar anova história com biografia, ver Le Goff (1989).

Novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; contudo, em virtude desua recusa, Febvre e Bloch tornaram-se os editores. Originalmente chamada Annalesd’ histoire é conomique et sociale, tendo por modelo os Annales de Géographie de Vidalde la Blache, a revista foi planejada, desde o seu início, para ser algo mais do que umaoutra revista histórica. Pretendia exercer uma liderança intelectual nos campos dahistória social e econômica.

Seria o porta-voz, melhor dizendo, o alto-falante dedifusão dos apelos dos editores em favor de uma abordagem nova e interdisciplinar da história.

O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929. Trazia uma mensagem doseditores, na qual explicavam que a revista havia sido planejada muito tempo antes, elamentavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais, enfatizando anecessidade de intercâmbio intelectual.

O comitê editorial incluía não somentehistoriadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo (Albert Demangeon), umsociólogo (Maurice Halbwachs), um economista (Charles Rist), um cientista político(André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache).

Os historiadores econômicos predominaram nos primeiros números: Pirenne,que escreveu um artigo sobre a educação dos mercadores medievais; o historiador suecoEli Heckscher, autor do famoso estudo sobre o mercantilismo; e o americano EarlHamilton, muito conhecido por suas obras sobre as finanças americanas e sobre arevolução dos preços na Espanha. Nessa ocasião, a revista tinha a feição de umequivalente franeês, ou de uma rival, da Economic History Review inglesa.

Contudo, em1930, declarava-se a intenção de a revista estabelecer-se “sobre o terreno mal amanhadoda história social”.

Preocupava-se também com o problema do método no campo dasciências sociais, tal como a Revue de Synthèse Historique.

O realce atribuído à história econômica sugere que Bloch era o co-editorpredominante nos primeiros anos. Mas seria temerário, sem se conhecer toda a sua correspondência, muito da qual ainda não publicada, tentar adivinhar quem foi maisimportante na criação dos Annales depois de 1929, ou mesmo como dividiam as tarefasde dirigir a revista entre si. O que se pode afirmar com bastante convicção é que, seFebvre e Bloch não concordassem no fundamental de seu trabalho comum, omovimento não teria sido um sucesso. Apesar disso, as contribuições históricas dos doisparceiros, depois de 1929, devem ser analisadas separadamente.

A obra de Bloch sobre história rural e feudalismo

A carreira de Bloch foi maiscurta, violentamente cortada pela guerra. Na última década de sua carreira acadêmica,escreveu alguns estudos circunstanciais e dois livros importantes. Os artigos incluíamum estudo sobre o moinho de água e os obstáculos culturais e sociais para a sua difusão;e reflexões sobre as mudanças tecnológicas “como um problema de psicologia coletiva”(Bloch, 1967). Por ser Bloch, freqüentemente, identificado como um historiadoreconômico, vale a pena dar atenção ao seu interesse pela psicologia, bastante óbvio nãosó no Les Rois Thaumaturges, mas também significativo em sua conferência sobre amudança tecnológica, pronunciada para um grupo de psicólogos profissionais e ondepregava a colaboração entre as duas disciplinas (Bloch, 1948).

O melhor de seus esforços, porém, foi despendido na elaboração de seus doisgrandes livros. Em primeiro lugar, seu estudo sobre a história rural francesa. A origemdo livro está numa série de conferências pronunciadas em Oslo, sob o auspício doinstituto de Estudo Comparativo das Civilizações (Febvre, 1952, “ Advertissement aulecteur ”). Mas, num certo sentido, era o desdobramento, no tempo e no espaço, de suatese sobre a população rural da Île-de-France, na Idade Média, que havia sido planejadaantes da Primeira Guerra e abandonada por ter de se apresentar ao exército. O livro,publicado em 1931, tem um pouco mais de duzentas páginas, um ensaio breve sobre umgrande tema, que revela de maneira clara a competência do autor parà produzir síntesese para ir direto ao coração de um problema.

O ensaio foi e é importante por um bom número de razões. Do mesmo modo que Les Rois Thaumaturges , ele se desenvolve na longa duração, do século XIII ao séculoXVII, utilizando comparações esclarecedoras e contrastes entre a França e a Inglaterra.A concepção de Bloch sobre “história agrária”, definida como “o estudo associado detécnicas e costumes rurais”, era incomumente ampla para a época, pois os historiadoresestavam mais propensos a escrever sobre temas mais restritos como a história daagricultura, da servidão ou da propriedade agrária. Igualmente incomum era o usosistemático de fontes não-literárias, tais como mapas cartográficos das propriedades, esua ampla concepção de civilização agrária, um termo escolhido por realçar o fato deque a existência de diferentes sistemas agrários não poderia ser explicada apenas atravésdo meio físico. (Bloch, 1931, pp. xi, 64).

Les caractères originaux de l histoire rurale française é mais famoso, talvez,pela aplicação do “método regressivo”. Bloch encarecia a necessidade de ler a “ históriaao inverso”, pois conhecemos mais a respeito dos últimos períodos e deve proceder-sede maneira a ir do conhecido ao desconhecido (Idem , p. xii). Bloch trabalha de maneiraeficiente o método, contudo não reclama sua criação. Sob o nome de “métodoretrogressivo” havia já sido empregado por F.W. Maitland – um estudioso admirado por Bloch – em sua obra clássica Domesday Book and Beyond (1897); o “além” do títulorefere-se ao período anterior à realização do Domesday Book, em 1086

Poucos anos antes, um outro estudo sobre Inglaterra medieval chamou a atençãode Bloch; foi o livro de Frederick Seebohm The English Village Community (1883), quese inicia com um capítulo sobre “The English Open Field System examined in itsmodern remains” (“O sistema inglês de campos abertos examinado em sua modernidadepermanece”), especialmente em Hitchin (onde viveu o autor), antes de voltar-se sobre aIdade Média. Mesmo o velho historiador Fustel de Coulanges, professor do pai deBloch, Gustavo, havia empregado uma abordagem semelhante em seu livro La cité antique (1864), ao estudar os gens ou as linhagens gregas e romanas. Ele admitia que asevidências desse grupo social “datavam de um tempo em que ele nada mais era do queuma sombra de si mesmo”, mas argumentava que essas últimas evidências permitiam“apreender vestígios” do que era o sistema em sua plenitude.

Em outras palavras, Bloch não criou o novo método. Sua tarefa foi empregá-lo de uma maneira maisconsciente e sistemática do que os seus predecessores.

O segundo estudo, La societé féodale , é o livro pelo qual Bloch é maisconhecido. É uma ambiciosa síntese que abrange mais de quatro séculos de históriaeuropéia, vai de 900 a 1300, enfocando uma grande variedade de tópicos, muitos dosquais discutidos em outras obras: servidão e liberdade, monarquia sagrada, aimportância do dinheiro e outros. Por isso, pode-se afirmar que se trata de uma obra quesintetiza o trabalho de toda a sua vida. Diferentemente de seus primeiros estudos sobre osistema feudal, não se restringe à análise das relações entre a propriedade agrária, ahierarquia social, a guerra e o estado. Preocupa-se com a sociedade feudal como umtodo, com o que hoje designaríamos “a cultura do feudalismo”. Como também, aindauma vez, com a psicologia histórica, com o que o autor chamava de “modos de sentir ede pensar”. É a parte mais original do livro, consubstanciada numa discussão sobretemas como o sentido do tempo, ou melhor, a medieval “indiferença pelo tempo”, ou,pelo menos, sua falta de interesse em mensurá-lo acuradamente. Dedica também umcapítulo à “memória coletiva”, um tema que tanto o fascinou quanto ao seu amigo, osociólogo durkheiminiano Maurice Halbwachs (ver p. 33).

Sem dúvida, La societé féodale é o seu livro mais durkheiminiano. Persiste emutilizar a linguagem da consciência coletiva, da memória, das representações coletivas (Bloch, 1939, pp. 363, 368, 379). Observações incidentais tais como a que se segue sãoum eco das palavras do mestre: “em toda literatura, a sociedade contempla sua própriaimagem” (Idem , p.156). O livro preocupa-se com um dos temas centrais da obra deDurkheim, a coesão social. Essa forma particular de coesão, ou de “laços dedependência” (na sociedade feudal), é explicada de uma maneira essencialmentefuncionalista, isto é, como uma adaptação às “necessidades” de um meio socialespecífico, mais precisamente como uma resposta a três ondas de invasão – a dosviquingues, a dos muçulmanos e a dos magiares.

A preocupação de Durkheim com a comparação, a tipologia e a evolução socialdeixou suas marcas num capítulo ao foral do livro, intitulado “O feudalismo como tiposocial”. Neste, Bloch afirma que o feudalismo não era um acontecimento único, masantes uma fase recorrente da evolução social. Com sua precaução habitual, observando anecessidade de análises mais sistemáticas, não deixa de citar o Japão como umasociedade que espontaneamente produziu, em sua essência, um sistema similar aodesenvolvido no Ocidente medieval europeu. Contudo, assinala diferenças significativasentre as duas sociedades, citando especialmente o direito de o vassalo europeu desafiarseu senhor. De todo jeito, sua preocupação com tendências recorrentes e comparaçõescom sociedades remotas dão ao seu trabalho um caráter sociológico mais marcante doque em outros historiadores franceses de sua geração. Sendo mesmo excessivamentesociológico para o gosto de Lucien Febvre, que critica Bloch por negligenciar a análisedos indivíduos de maneira mais detalhada.

IV – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS ANNALES

Nos anos 30 o grupo de Estrasburgo dispersou-se. Febvre deixou a cidade em1933 para ocupar uma cátedra no prestigioso Collège de France, enquanto Blochsomente em 1936, para suceder Hauser na cadeira de história econômica da Sorbonne.Levando-se em consideração a importância de Paris para a vida intelectual francesa,essas transferências são sinais evidentes do sucesso do movimento dos Annales . Comotambém a designação de Febvre para a presidência do comitê organizador da Encyclopédie Française , uma ambiciosa aventura interdisciplinar cuja publicaçãoiniciou-se em 1935. Um dos volumes mais notáveis foi o editado pelo antigo professorde Febvre, Antoine Meillet, dedicado ao que se pode chamar de “instrumentalintelectual”(outillage mental ). Pode-se afirmar que esse volume lançou as bases para onascimento da história das mentalidades. Deve-se contudo assinalar que, nessa mesmaépoca, Georges Lefebvre, antigo colega de Febvre em Estrasburgo, publicou um artigoque se tornaria famoso sobre o estudo das multidões revolucionárias e sua mentalidadecoletiva. A motivação para esse artigo foi sua oposição ao menosprezo votado porGustave Lebon, um psicólogo conservador, ao comportamento dito irracional dasmultidões. Georges Lefebvre tentou, ao contrário, mostrar a lógica de suas ações.

Pouco a pouco os Annales converteram-se no centro de uma escola histórica.Foi entre 1930 e 1940 que Febvre escreveu a maioria de seus ataques aos especialistascanhestros e empiricistas, além de seus manifestos e programas em defesa de “um novotipo de história” associado aos Annales –postulando por pesquisa interdisciplinar, poruma história voltada para problemas , por uma história da sensibilidade, etc. (Febvre,1953, pp. 3-43, 55-60, 207-238).

Febvre estava sempre inclinado a dividir o mundo entre os que estavam a seufavor e os que lhe eram contrários, e a história, entre a “deles” e a “nossa”.

Mas eleestava certamente correto em reconhecer a existência, por volta de 1939, de um grupode discípulos, um núcleo fiel de jovens, que adotavam o que chamavam de “o espíritodos Annales ” (Annales , 1939, p.5). Provavelmente estava pensando, em primeiro lugar,em Fernand Braudel, que conhecera em 1937, mas sem dúvida existiam outros. Pierre Goubert estudava com Bloch nessa época, e, embora viesse a especializar-se na históriado século XVII, permaneceu fiel ao estilo da história rural de seu mestre. Alguns deseus discípulos em Estrasburgo estavam, então, transmitindo suas mensagens emescolas e universidades. Em Lyon, Maurice Agulhon estudou história com um deles, omesmo acontecendo com Georges Duby, que apontou Bloch como um de seus“mestres” (Duby, 1987; Duby/Lardreau, 1980, p. 40).

A Segunda Guerra Mundial freou esse desenvolvimento. A reação de Bloch,embora já tivesse 53 anos, foi a de alistar-se no exército. Após a derrota francesaretornou, por pouco tempo, à vida acadêmica, acabando por engajar-se na Resistência,na qual desempenhou um papel ativo até a sua captura pelos alemães. Foi fuzilado em1944. Apesar de suas atividades extramuros, Bloch encontrou tempo para escrever doispequenos livros durante a guerra. Um deles, L’Étrange défaite , era, de um lado, o relatode uma testemunha ocular do colapso francês em 1939, de outro, a tentativa decompreendê-lo do ponto de vista de um historiador.

Mais admirável, talvez, foi a capacidade de Bloch colocar no papel suasponderadas reflexões sobre o objetivo e o método da história, num momento decrescente isolamento e no qual suas preocupações com seus familiares, amigos e com oseu país atingiam uma intensidade dolorosa e trágica. Esse ensaio sobre o “trabalho dohistoriador”, que permaneceu inacabado quando da morte do autor, é uma introduçãolúcida, moderada e judiciosa sobre o tema – ainda um dos melhores que se possui;melhor do que o manifesto sobre a nova história que Febvre certamente escreveria em seu lugar.

Sua única feição iconoclástica era o capítulo em que Bloch atacava o quedenominou, no estilo de Simiand, “o ídolo das origens”, defendendo que todo fenômenohistórico tem de ser explicado em termos de seu tempo, e não em função de temposanteriores (Bloch, 1961, cap.1).

O Rabelais de Febvre

Enquanto isso, Febvre continuava a editar a revista,primeiramente com o nome de ambos, mais tarde apenas sob o seu.

Muito velho paralutar, passou a maior parte da guerra em sua casa de campo escrevendo artigos e livrossobre a Renascença Francesa e a Reforma. Diversos desses estudos são sobreindivíduos, como Marguerite de Navarre e François Rabelais, não são, porém,biografias estritamente falando. Fiel aos seus preceitos, Febvre elaborava seus estudostendo por centro problemas. Como pode, por exemplo, Marguerite , uma princesaletrada e piedosa, escrever uma série de histórias, L’ Heptameron , algumas das quaisextremamente obscenas? Era ou não Rabelais um ateu?

Le problème de l’ incroyance au XVIe siècle: la réligion de Rabelais é uma dasobras históricas mais fecundas publicadas neste século. Juntamente com o livro de Bloch, Les Rois Thaumaturges , e o artigo de Lefebvre sobre as multidões, inspirou ahistória das mentalidades coletivas, com a qual, a partir dos anos 60, tantos historiadores franceses se preocuparam. Da mesma maneira que tantos outros estudos de Febvre, estese origina de sua reação ao ponto de vista de outro historiador. Febvre estava irritadocom a maneira pela qual se interessou por Rabelais. Seu interesse nascera de umasugestão feita por Abel Lefranc em sua edição do Pantagruel , segundo a qual Rabelaisfora um ateu que escrevia com a finalidade de solapar o cristianismo. Febvre estavaconvencido de que essa interpretação era não apenas um erro quanto a Rabelais, mascometia o erro do anacronismo, por atribuir ao autor de Pantagruel idéias que nãopoderiam ser pensadas no século XVI. Propôs-se a refutá-la.

Le problème de l’ incroyance possui uma estrutura inusual, uma espécie depirâmide invertida. O livro se inicia com uma abordagem filológica extremamenteprecisa. Segundo Lefranc, o ateísmo de Rabelais era denunciado por um bom número decontemporâneos; Febvre decidiu analisá-los – a maior parte dos quais era formada porpoetas neolatinos menores da década de 30 do século XVI – para mostrar que o termo“ateísta” não possuía o significado moderno preciso. Era um termo ofensivo “usado nosentido que se quisesse”.

Indo além da análise de uma simples palavra, Febvre discute as aparentes piadasblasfemas escritas por Rabelais no Pantagruel e no Gargântua ; piadas que Lefrancvaloriza em sua argumentação sobre o “nacionalismo” do autor. Febvre assinala queessas anedotas tinham sua raiz na tradição medieval da paródia do sagrado, com a qualos religiosos mostravam-se indulgentes; não se constituíam em evidências denacionalismo. Para Febvre, Rabelais era um cristão da espécie de Erasmo, um crítico demuitas das formas exteriores da Igreja da baixa Idade Média, mas um crente da religiãointerior.

Poder-se-ia esperar que o livro se encerraria nesse ponto, pois as credenciaisreligiosas de Rabelais tinham sido verificadas e os argumentos de Lefranc refutados.

Oque ele fez, porém, foi ampliar ainda mais as suas investigações. Deixando para trásRabelais, passou a discutir o que denominava impossibilidade do ateísmo no séculoXVI. Bloch havia procurado explicar por que o povo continuava a acreditar no milagredo toque real, mesmo quando a cura falhava. De uma maneira semelhante, Febvre agoratentava explicar por que o povo não duvidava da existência de Deus. Argumentava, queo “instrumental intelectual” do período, como o denominava, não permitia a descrença.

Enfocou o problema com uma verve característica, por uma espécie de vianegativa, anotando a importância do que faltava ao século XVI, as palavras quefaltavam, incluindo termos-chave, tais como “absoluto” e “relativo”, “abstrato” e“concreto”, “causalidade”, “regularidade”, e tantos outros. “Sem eles”, indagaenfaticamente, “como poderia o pensamento de alguém possuir um verdadeiro vigorfilosófico, solidez e claridade?”

O profundo interesse de Febvre pela lingüística subjaz a essa discussãoextremamente original. Contudo, ele não se contentou com uma análise lingüística. Olivro finaliza com um debate sobre alguns problemas da psicologia histórica. É a partedo livro mais conhecida, bastante controvertida, mas muito inspiradora. Observa, porexemplo, que as concepções seiscentistas de espaço e tempo eram extremamenteimprecisas se comparadas com os nossos padrões. “Em que ano nasceu Rabelais? Ele não sabia”, e nada havia de incomum nesse desconhecimento. “O tempo mensurado”, ou o tempo de relógio, era ainda menos significativo do que o “tempo vivenciado”,descrito em termos de pôr-de-sol, do vôo das aves ou da extensão de uma Ave Maria .Febvre vai mais longe e sugere que a visão era um sentido “subdesenvolvido” nesseperíodo, e que o sentimento de beleza da natureza não existia. “Não existia um HotelBelavista no século XVI, nem qualquer Hotel Campo Belo. Esses nomes apenasapareceram com o Romantismo.”

De acordo com Febvre, havia ainda uma outra ausência mais significativa navisão de mundo do período: “Ninguém, então, tinha noção do que era impossível”.Entendo que Febvre esteja presumindo que não havia um critério aceito geralmente parao que era impossível, pois o adjetivo “impossível” não consta de sua relação das“palavras que faltam”. Como resultado dessa falta de critério, o que denominamos“ciência” era literalmente impensável no século XVI.

“Devemos nos resguardar deprojetar esta concepção moderna de ciência nos quadros de referência de nossosancestrais”. O instrumental intelectual da época era muito “primitivo”. Assim, umaanálise precisa e técnica do significado do termo “ateísta” levou muitos escritores a umatemerária caracterização da visão de mundo de uma época inteira.

Passados quase cinqüenta anos, o livro de Febvre parece relativamente datado.Historiadores posteriores observaram evidências por ele negligenciadas, que indicamfortes simpatias de Rabelais por algumas idéias de Lutero. Outros questionaram suapresunção de pensar que o ateísmo era inconcebível no século XVI, utilizando osinterrogatórios da Inquisição na Espanha e na Itália e indicando indivíduos que, pelomenos, haviam negado a Providência e haviam professado uma forma de materialismo(Wootton, 1988). A teoria do subdesenvolvimento visual, adotada cerca de vinte anosdepois por Marshall McLuhan, o teórico canadense da mídia, não é muito plausível.Existisse ou não um Hotel Belavista no século XVI francês, havia certamente umBelvedere na Florença renascentista, enquanto Alberti e outros defendiam que o olharprecede o ouvir.

Mais séria, porém, é a crítica a Febvre por presumir muito facilmente umahomogeneidade de pensamento e sentimentos entre os vinte milhões de franceses daépoca, escrevendo com convicção sobre “os homens do século XVI”, como se nãohouvesse diferenças significativas entre os pressupostos de homens e mulheres, ricos epobres, e assim por diante.

O livro de Febvre permanece, contudo, exemplar pelas questões postas e pelosmétodos empregados, mais do que pelas respostas oferecidas. É um exemplo notável dahistória como problema. Tal qual o livro de Bloch, Les Rois Thaumaturges , exerceuconsiderável influência nos escritos históricos na França e no exterior. Ironicamente,porém, parece não ter exercido muita influência sobre Fernand Braudel, a quem o livroé dedicado “na esperança...”. Por outro lado, a história das mentalidades, tal como foipraticada a partir dos anos 60 por Georges Duby, Robert Mandrou, Jacques Le Goff etantos outros, deve muito ao exemplo de Febvre, como também ao de Bloch.

Febvre no Poder

Depois da guerra, Febvre teve finalmente sua chance. Foiconvidado a auxiliar na reorganização de uma das instituições mais prestigiosas nosistema francês de educação superior, a École Pratique des Hautes Études, fundada em1884. Foi eleito membro do Instituto e tornou-se também o delegado francês naUNESCO, participando da organização da coleção sobre a “História Cultural eCientífica da Humanidade”. Em razão dessas múltiplas atividades, sobrou-lhe poucotempo para escrever com vagar, e os projetos de seus últimos anos jamais foramconcluídos (como o volume sobre o “Pensamento ocidental e a crença”, de 1400 a1800), ou, então, foram terminados por outros. A história do livro impresso e seusefeitos sobre a cultura ocidental na Renascença e na Reforma foi em grande parte obrade seu colaborador Henri-Jean Martin, embora tenha sido publicado sob o nome dosdois. (Febvre e Martin, 1958). O ensaio sobre psicologia histórica, Introduction à laFrance Moderne , foi escrito, baseado em anotações de Febvre, por seu discípulo RobertMandrou e editado em nome deste (Mandrou, 1961).

Mas a mais importante conquista de Febvre, no pós-guerra, foi criar aorganização dentro da qual “sua” história poderia desenvolver-se, a VI Seção da ÉcolePratique des Hautes Études, em 1947. Ele tornou-se Presidente da VI Seção, dedicada àsciências sociais, e Diretor do Centro de Pesquisas Históricas, uma seção dentro daseção. Nomeou discípulos e amigos para as posições-chave da organização. Braudel, aquem tratava como um filho, auxiliou-o a administrar o Centro de Pesquisas Históricase os Annales . Charles Morazé, um historiador especialista no século XIX, juntou-se aele no “Comitê Diretor” da revista; Robert Mandrou, outro dos “filhos” de Febvre,tornou-se seu Secretário Executivo, em 1955, pouco antes de sua morte.

Os Annales começaram como uma revista de seita herética. “É necessário serherético”, declarou Febvre em sua aula inaugural, Oportet haereses esse (Febvre, 1953,p.16).

Depois da guerra, con tudo, a revista transformou-se no órgão oficial de umaigreja ortodoxa.

Sob a liderança de Febvre os revolucionários intelectuais souberamconquistar o establishment histórico francês. O herdeiro desse poder seria FernandBraudel.

3 - A Era de Braudel

I – O MEDITERRÂNEO

Quando da criação dos Annales , em 1929, Braudel tinha vinte e sete anos.Estudara História na Sorbonne, lecionava história numa escola da Argélia e trabalhavaem sua tese. Tese que se iniciara como um ensaio de história diplomática, de caráterbastante convencional, embora ambiciosa. Foi projetada originalmente como um estudosobre Felipe II e o Mediterrâneo, em outras palavras, uma análise da política externa dosoberano.

Durante seu longo período de gestação, a tese ampliou consideravelmente seuobjetivo. Era e é normal para os historiadores acadêmicos franceses lecionarem emescolas enquanto escrevem suas teses. Lucien Febvre, por exemplo, ensinou brevementeem Besançon; Braudel, durante dez anos, 1923-32, lecionou na Argélia, experiência quelhe permitiu ampliar seus horizontes.

Seu primeiro artigo importante, publicado nesse período, tinha por tema apresença dos espanhóis no Norte da África, no século XVI. Esse estudo, cujasdimensões são a de um pequeno livro, merece ser resgatado de seu imerecidoesquecimento. Era, ao mesmo tempo, uma crítica a seus predecessores no tema pelaênfase que haviam atribuído aos grandes homens e às batalhas; uma discussão sobre a“vida diária” das guarnições espanholas; e também uma demonstração da estreitarelação, embora invertida, entre a história africana e européia, isto é, quando estourava aguerra na Europa as campanhas africanas eram suspensas, e vice-versa (Braudel, 1928).

A maior parte da pesquisa para a tese havia sido feita no início dos anos 30 emSimancas, onde os documentos oficiais espanhóis estavam guardados, e nos arquivosdas principais cidades cristãs do Mediterrâneo – Gênova, Florença, Palermo, Veneza,Marselha e Dubrovnik – onde Braudel poupou tempo filmando os documentos, sempreque possível, com uma câmara cinematográfica americana (Braudel, 1972).

A pesquisa foi interrompida quando Braudel foi contratado para lecionar naUniversidade de São Paulo, 1935-1937, período definido por ele, mais tarde, como omais feliz de sua vida. Foi no retorno de sua viagem ao Brasil que Braudel conheceuLucien Febvre, que o adotou como um filho intelectual e persuadiu-o – se é que aindanecessitava de persuasão – de que o título da tese deveria ser realmente “ O Mediterrâneo e Felipe ll”, e não “Felipe II e o Mediterrâneo” (Braudel, 1953,especialmente p. 5; conf. (Febvre, 1953, p. 432).

A elaboração de O Mediterrâneo

Com o advento da Segunda Guerra Mundial,Braudel teve, por mais irônico que possa parecer, a oportunidade de escrever sua tese.Permaneceu quase todos os anos de guerra como prisioneiro num campo perto deLübeck. Sua prodigiosa memória compensou em parte a impossibilidade de recorrer àsbibliotecas, tendo rascunhado O Mediterrâneo em cadernos escolares comuns e osremetia a Febvre, para lhe serem devolvidos ao final da guerra (Braudel, 1972).Somente um historiador que tenha examinado os manuscritos poderá falar sobre ovínculo existente entre eles e a tese defendida em 1947 e publicada em 1949, dedicada a Febvre “com a afeição de um filho”. Minha análise será feita tendo por base o textoimpresso.

O Mediterrâneo é um livro de grandes dimensões, mesmo que consideremos ospadrões da tradicional tese de doutoramento francesa. Sua edição original continhaaproximadamente 600000 palavras, o que perfaz seis vezes o tamanho de um livrocomum. Dividido em três partes, cada uma das quais – como o prefácio esclarece –exemplifica uma abordagem diferente do passado. Primeiramente, há a história “quasesem tempo” da relação entre o “homem” e o ambiente; surge então, gradativamente, ahistória mutante da estrutura econômica, social e política e, finalmente, a trepidantehistória dos acontecimentos.

A parte mais tradicional, a terceira, parece corresponder à idéia original deBraudel de uma tese sobre a política exterior de Felipe II. Ele oferece aos seus leitoresum trabalho altamente profissional de história política e militar. Traça breves masincisivos esboços do caráter dos atores principais da cena histórica, do Duque de Alba,“esse falso grande homem”, “de mente estreita e curta visão política”, ao seu senhorFelipe II, lento, “solitário e discreto”, cauteloso e perseverante, um homem que “via suatarefa como a sucessão infindável de pequenos detalhes”, mas ao qual faltava uma visãodo todo. São descritos com vagar a batalha de Lepanto, o cerco e a libertação de Malta,e as negociações de paz do final da década de 1570.

Essa narrativa de eventos, contudo, está longe de ser uma história tradicional de“tambores e trombetas”, como pode parecer à primeira vista. Freqüentemente, o autordesvia-se de seu caminho para enfatizar a insignificância dos eventos e as limitaçõesimpostas à liberdade de ação dos indivíduos. Em 1565, por exemplo, o comandantenaval espanhol no Mediterrâneo, Don Garcia de Toledo, mostrou-se lento para libertarMalta do cerco dos turcos. “Os historiadores criticaram Don Garcia por sua demora emagir, escreve Braudel, mas tiveram eles o cuidado de examinar profundamente ascondições sob as quais ele agiu?” (Braudel, 1949: edição inglesa de 1975, p. 1017).Reitera que a conhecida e sempre condenada lentidão de Felipe II em reagir aos eventosnão deve ser explicada apenas em termos de seu temperamento, mas deve ser associadaà exaustão financeira da Espanha e aos problemas de comunicação em um império tãovasto (Ibidem , pp. 372, 966).

Da mesma maneira, Braudel recusa-se a explicar em termos pessoais o sucessode Don Juan, Don Juan da Áustria, em Lepanto. Ele foi apenas “o instrumento dodestino”, no sentido de que sua vitória dependeu de fatores cuja existência desconhecia (Ibid ., p.1101). Mas, ainda segundo Braudel, a vitória de Lepanto foi apenas uma vitórianaval que “não poderia destruir as rotas turcas, pois estas estavam solidamente estabelecidas no interior do continente” (Ibid ., p. 1104).

Também a conquista de Túnispor D. Juan é descrita “como uma vitória que leva a lugar nenhum”.

A preocupação de Braudel é situar indivíduos e eventos num contexto, em seumeio, mas ele os torna inteligíveis ao preço de revelar sua fundamental desimportância.A história dos eventos, ele sugere, embora “rica em interesse humano”, é também amais superficial. “Recordo-me de uma noite, perto da Bahia, quando assistia absorto aoespetáculo pirotécnico de fosforescentes vagalumes; sua pálida luz brilha, desaparece,volta a brilhar, sem penetrar na noite com uma verdadeira luz. O mesmo acontece comos eventos, para além de seu brilho, a escuridão predomina” (Braudel, 1980, p. 10). Emuma outra imagem poética, Braudel descreve os acontecimentos como “perturbaçõessuperficiais, espumas de ondas que a maré da história carrega em suas fortes espáduas”.“Devemos aprender a desconfiar deles” (Ibid ., p. 21). Para compreender a história énecessário saber mergulhar sob as ondas.

Aguas mais calmas, que correm mais profundamente, são o objeto da segundaparte do Mediterrâneo , denominada “Destinos coletivos e movimentos de conjunto”;sua preocupação, a história das estruturas-sistemas econômicos, estados, sociedades,civilizações e formas mutantes de guerra. Esta história se movimenta a um ritmo maislento do que a dos eventos. As mudanças ocorrem no tempo de gerações, e mesmo deséculos, por isso os contemporâneos dos fatos nem sempre se apercebem delas. Mas,mesmo assim, eles são carregados pela corrente. Numa de suas mais famosas análises,Braudel examina o império de Felipe II como uma “colossal empresa de transporteterrestre e marítima”, que “se exauriu por sua própria dimensão”, e não poderia serdiferente numa época em que “cruzar O Mediterrâneo de norte a sul levava uma ouduas semanas”, enquanto atravessá-lo de leste a oeste “dois ou três meses” (Ibid ., p.363). A observação lembra o veredicto de Gibbon sobre o Império Romano destruídopelo seu próprio peso e suas afirmativas sobre geografia e comunicações, no primeirocapítulo do Declínio e Queda.

O século XVI, porém, parece ter sido favorável ao desenvolvimento de grandesestados do tipo dos impérios rivais espanhol e turco, que dominaram o Mediterrâneo.Para Braudel, “O curso da história é alternadamente favorável e desfavorável àformação de vastas hegemonias políticas”, e o período de desenvolvimento econômico,durante os séculos XVI e XVII, criou uma situação bastante favorável aos grandes eenormes estados (Ibid ., pp. 660-1).

Como as estruturas políticas, as estruturas sociais dos dois grandes impérios –opostas entre si de diversas maneiras no topo – caminharam gradativamente no sentidode se assemelharem cada vez mais. As principais tendências sociais na Anatólia e nosBalcãs, nos séculos XVI e XVII, corriam paralelas às da Espanha e Itália, sendo queesta, durante o período, estava submetida em grande parte às leis espanholas. SegundoBraudel, a principal tendência, em ambos os lados, era a polarização social eeconômica. A nobreza enriquecia e migrava para as cidades, os pobres tornavam-secada vez mais pobres e eram empurrados para a pirataria e o banditismo. Quanto às classes médias, desapareceram ou “emigraram” para a nobreza, processo descrito porBraudel como a “traição” ou a “falência” da burguesia (Ibid . pp. 704 ss.).

Num capítulo dedicado às fronteiras culturais e à gradual difusão das idéias,objetos, ou costumes, Braudel estende a comparação entre cristãos e muçulmanosmediterrâneos da sociedade. para a “civilização”, denominação que prefere. Evitandoum difusionismo simplista, discute também a resistência a essas inovações, invocando o“repúdio” espanhol ao protestantismo, a rejeição do cristianismo da parte dos mouros deGranada e a resistência dos judeus a todas as outras civilizações (Ibid ., pp. 757 ss).

Não chegamos ainda ao coração do problema. Abaixo das correntes sociais jazuma outra história, “uma história quase imóvel... uma história lenta a desenvolver-se e atransformar-se, feita muito freqüentemente de retornos insistentes, de ciclos sem fimrecomeçados” (Ibid ., p. 20). A verdadeira matéria do estudo é essa história “dohomem em relação ao seu meio”, uma espécie de geografia histórica, ou, como Braudelpreferia denominar, uma “geo-história”. A geo-história é o objeto da primeira parte doMediterrâneo, para a qual devota quase trezentas páginas, descrevendo montanhas eplanícies, litorais e ilhas, climas, rotas terrestres e marítimas.

Essa parte do livro deve sua existência, indubitavelmente, ao amor de Braudelpela região – revelado imediatamente por sua primeira frase, que assim se inicia: “Amei O Mediterrâneo apaixonadamente, sem dúvida porque sou um homem do Norte”(Braudel nasceu em Lorraine, ao norte da França).

O objetivo é demonstrar que todas as características geográficas têm a suahistória, ou melhor, são parte da história, e que tanto a história dos acontecimentosquanto a história das tendências gerais não podem ser compreendidas sem elas. Ocapítulo sobre as montanhas, por exemplo, discute a cultura e a sociedade das regiõesmontanhosas, o conservadorismo dos montanheses, as barreiras socioculturais queseparam os homens da montanha dos da planície, e a necessidade de muitos jovensmontanheses emigrarem, tornando-se mercenários (Ibid . pp. 34 ss).

Tomando o próprio mar para análise, Braudel contrasta O Mediterrâneo ocidental, nessa época dominado pelos espanhóis, com O Mediterrâneo oriental,submetido aos turcos. “A política apenas segue o roteiro de uma realidade subjacente.Esses dois Mediterrâneos, comandados por dirigentes rivais, eram física, econômica eculturalmente diferentes entre si” (Ibid . p.137). A região mediterrânea, porém,continuava a ser uma unidade, mais una do que a Europa, segundo Braudel, graças tantoao clima, aos vinhos e às oliveiras quanto ao próprio mar.

Esse notável volume causou imediatamente sensação no mundo históricofrancês. Sua reputação expandiu-se em ondas cada vez mais amplas em direção àsoutras ciências e a outras partes do mundo (ver capítulo 5). Não se pode duvidar de sua originalidade. Contudo, como o próprio autor reconhece em seu ensaio bibliográfico, olivro se insere numa tradição ou, mais exatamente, em diversas tradições diferentes.

Em primeiro lugar, é claro, na tradição dos Annales , uma revista com vinte anosquando o livro foi publicado. “O que devo aos Annales , ao seu ensino e inspiração,constitui a maior de minhas dívidas” (Ibid . p. 22). A primeira parte do livro, que trata dopapel do meio ambiente, deve muito à escola geográfica francesa, do próprio Vidal de laBlache, cujas páginas sobre O Mediterrâneo foram “lidas” e “relidas” por Braudel, àsmonografias regionais inspiradas pelo mestre (por exemplo, Cvijic (1918). TambémLucien Febvre está presente nessa primeira parte de O Mediterrâneo, não somente comoo autor de um ensaio de geografia histórica, mas porque sua tese sobre Felipe II e oFranco-Condado se iniciava com uma introdução geográfica da mesma espécie, emboraem escala mais reduzida.

Uma presença igualmente sentida em O Mediterrâneo , embora possa parecerirônica, é a do homem que Febvre adorava atacar, o geógrafo alemão Friedrich Ratzel,cujas idéias sobre geopolítica ajudaram Braudel a formular as suas sobre um bomnúmero de temas, que variavam do império às ilhas (Ratze1, 1897, esp. cap. 13 e 21).São menos visíveis sociólogos e antropólogos, embora o capítulo sobre a civilizaçãomediterrânea mostre traços da influência das idéias de Marcel Mauss sobre o autor(Mauss, 1930, 231-51; conf. Braudel, 1969, pp. 201-3).

Entre os historiadores, o que influenciou mais Braudel foi o medievalista HenriPirenne, cujo famoso Mahomet et Charlemagne defendia que, para compreender aascensão de Carlos Magno, o fim da tradição clássica e a construção da Idade Média, ohistoriador deveria afastar-se da história da Europa, ou da cristandade; por outro lado,sua visão, ao estudar o Médio Oriente Muçulmano, de dois impérios rivais que seconfrontavam através do Mediterrâneo oitocentos anos antes de Suleiman, o Magnífico,e Felipe II, deve ter sido uma inspiração para Braudel. Curiosamente, embora esse tenhasido o último livro de Pirenne, seu projeto nasceu num campo de prisioneiros durante aPrimeira Guerra Mundial, enquanto Braudel trabalhou o seu num campo de prisioneirosda Segunda Guerra Mundial (Pirenne, 1937).

Avaliações de O Mediterrâneo

Braudel lamentava, quando da publicaçãoda segunda edição, que o livro havia sido muito elogiado, mas pouco criticado. Houve,porém, críticas, algumas delas convincentes, procedentes dos Estados Unidos e deoutros países.

Ao nível de detalhes, um bom número de afirmações de Braudel foicontestado por pesquisadores posteriores. A tese sobre a “falência da burguesia”, porexemplo, não satisfez os historiadores dos Países Baixos, cujos mercadores continuarama prosperar. A sua tese sobre a relativa insignificância da batalha de Lepanto foimodificada, senão mesmo rejeitada em obras recentes.

Uma outra lacuna da obra atraiu menos atenção, mas deve ser aqui enfatizada.Apesar de sua aspiração de atingir o que chamava de “história total”, Braudel muitopouco tinha a dizer sobre atitudes, valores, ou mentalidades coletivas , mesmo no capítulo dedicado a “Civilizações”. Nisso diferia enormemente de Febvre, apesar de suaadmiração pelo Le problème de l’incroyance (Braudel, 1969, p. 208).

Exemplificando: Braudel pouco tem a dizer sobre honra, vergonha emasculinidade, embora, como um bom número de antropólogos demonstrou, essesistema de valores tinha, e ainda tem, grande importância no mundo mediterrâneo, tantodo lado cristão quanto do muçulmano (Peristiany, 1965, Blok, 1981). Embora as crençasreligiosas – católica e muçulmana – tivessem obviamente, na época. de Felipe II, grandeimportância para o mundo mediterrâneo, o historiador francês não as discute. Apesar deseu interesse pelas fronteiras culturais, curiosamente nada. tem a dizer sobre-as relaçõesentre o cristianismo e o muçulmanismo nesse período. Essa ausência de interesse pelainfluência recíproca entre cristianismo e islamismo contrasta com o demonstrado porhistoriadores anteriores da Espanha e do Médio Oriente, cujas obras assinalavam aexistência de lugares muçulmanos sagrados freqüentados por cristãos, ou mãesmuçulmanas que batizavam seus filhos para protegê-los da lepra ou de lobisomens(Hasluck, 1929).

Algumas críticas são ainda mais radicais. Um crítico americano lamenta queBraudel “tenha se enganado ao dar uma resposta poética a um problema histórico dopassado”, perdendo assim seu livro, por um lado, essa dimensão, e que a organização dolivro, por outro, secciona os eventos de seus fatores sociogeográficos que poderiamexplicá-los (Bailyn, 1951). Tais críticas merecem ser discutidas mais detalhadamente.

A insinuação de que o livro falha por não se propor um problema seria irônica sebem fundamentada, pois Febvre e Bloch insistiram na ênfase de uma história voltadapara problemas, e o próprio Braudel escreveu que “A região não é o alicerce dapesquisa. Esse alicerce é o problema”. (Annales , 1949, citado em Hexter, 1972, p.105).Poderia Braudel esquecer seu próprio conselho? Coloquei a questão para ele numaentrevista realizada em 1977. Não hesitou na resposta. “Meu grande problema, o únicoproblema a resolver, é demonstrar que o tempo avança com diferentes velocidades”.

Mesmo assim, grandes setores desse denso estudo não lidam com esse problema, pelomenos não diretamente.

A crítica à organização tripartite do livro foi antecipada, mas não respondida porBraudel em seu prefácio. “Se for criticado em razão do método empregado naelaboração do livro, espero que pelo menos cada uma de suas partes, consideradaisoladamente, possa ser tida como bem realizada.” Um meio de fugir às críticas teriasido iniciar o livro pela história dos acontecimentos (como eu próprio fiz no resumo dolivro), e mostrar que é ininteligível sem a história das estruturas que, por sua vez, éininteligível sem a história do meio. Iniciar, porém, pelo que considerava a história“superficial” dos acontecimentos seria intolerável para Braudel. Sob as circunstâncias em que esboçou sua obra – na prisão – foi psicologicamente necessário que olhassealém da curta duração.

Outra crítica radical a O Mediterrâneo diz respeito ao determininismo deBraudel, que é o exato oposto do voluntarismo de Febvre. Diz um crítico britânico: “O Mediterrâneo de Braudel é um mundo insensível ao controle humano” (J. H. Elliott, New York Review of Books , 3.5.1973). É provavelmente revelador que Braudel use emseus escritos, mais de uma vez, a metáfora da prisão, descrevendo o homem como“prisioneiro” não somente do seu ambiente físico, mas também de sua estrutura mental (os quadros mentais são também prisões de longa duração ) (Braudel, 1969, p. 31).

Diferentemente de Febvre, Braudel não percebe a dupla face das estruturas, que são, aomesmo tempo, estimulantes e in Ibid oras. “Quando penso no indivíduo, escreveu umavez, sou sempre inclinado a vê-lo como prisioneiro de um destino sobre o qual poucopode influir” (Braude1, 1949, p.1244).

É justo, porém, acrescentar que o determinismo braudeliano não é simplista:prova-o sua insistência na necessidade de explicações pluralistas; seus críticos, por outro lado, ao rejeitarem seu determinismo, nada oferecem de preciso ou construtivo. Odebate sobre os limites da liberdade e o determinismo é um daqueles que deverãopermanecer até quando a historiografia existir. Independentemente da opinião dosfilósofos, é extremamente difícil aos historiadores, nesse debate, irem além de umasimples afirmação de sua própria posição.

Alguns críticos foram ainda mais longe em suas críticas e falaram de “umahistória sem homens.” Para ver que essa acusação é exagerada, basta ler as penetrantesdescrições dos caracteres individuais feitas na terceira parte da obra. Contudo, também é justo dizer que o preço pago pela visão olímpica braudeliana dos assuntos humanos emgrandes espaços e longos períodos, é uma tendência a apequenar os seres humanos, atratá-los como “insetos humanos”, uma frase reveladora dita em uma discussão sobre ospobres do século XVI (Braudel, 1949, p. 755).

Uma crítica mais construtiva da primeira parte de O Mediterrâneo talvez sejadizer que, embora admita que sua geo-história não seja totalmente imóvel, o autor não aconsegue mostrar em movimento. Sua admiração por Maximilien Sorre, um geógrafofrancês que desde os anos 40 preocupava-se com o que chamava “ecologia humana” – oprocesso de interação entre a humanidade e o ambiente – não impediu que Braudelfalhasse em nos mostrar o que poderia ser denominado a “construção da paisagemmediterrânica”, mais especificamente os prejuízos causados ao meio pela destruição dacobertura florestal, na longa duração.

É hora de retornar aos aspectos mais positivos de um livro que mesmo seuscríticos descrevem como uma obra-prima. O ponto principal a realçar é que Braudel contribuiu mais do que qualquer outro historiador deste século para transformar nossasnoções de tempo e espaço.

Como poucos livros anteriores, se é que algum o fez, O Mediterrâneo torna seusleitores conscientes da importância do espaço na história. Braudel consegue issofazendo do mar o herói de seu épico, e não uma unidade política como o ImpérioEspanhol, deixando abandonada uma personagem como Felipe II – e também pelaconstante repetição da importância da distância e da comunicação. Mais eficaz do quetudo isso, porém, é a maneira pela qual Braudel auxilia os leitores a verem a regiãomediterrânica dele emergindo como um todo. O mar é suficientemente vasto paraengolir muitos historiadores, mas Braudel sente a necessidade de ampliar suas fronteirasem direção ao Atlântico e ao deserto do Saara. “Se não considerarmos esta extensa zonade influência... seria difícil apreender a história do mar” (Braudel, 1949, p. 170). Ocapítulo sobre “O Mediterrâneo Maior”, como ele o chama, é um exemplo dramático daconcepção braudeliana de história “global”, do que tem sido designado como seu “vastoapetite para estender as fronteiras de seu objetivo”; ou como ele próprio define, seu“desejo e necessidade de tudo ver grande” (Ibid . p. 22).

Diferentemente de Felipe II –o homem obcecado pelos detalhes – Braudel possuía sempre uma visão do todo.

Para os historiadores, é mais significativa a maneira pela qual ele maneja otempo, seu intento “de dividir o tempo histórico em tempo geográfico, tempo social etempo individual”, realçando a importância do que se tornou conhecido, desde apublicação do famoso artigo, como a longa duração (Ibid. p. 21; Braudel 1958). A longaduração de Braudel pode ser curta em relação aos padrões dos geólogos, mas sua ênfasedo “tempo geográfico” alertou muitos historiadores.

A distinção entre curta e longa duração era comum ao vocabulário do historiador– e mesmo da linguagem comum – antes de 1949. Estudos de temas particulares que seestendiam por vários séculos não eram incomuns na história econômica, especialmentena história dos preços. Um exemplo óbvio, bem conhecido de Braudel, é a obra de EarlJ. Hamilton, American Treasure and the Price Revolution 1501-1650 (1934).Historiadores da arte e da literatura haviam investigado mudanças culturais na longaduração, notadamente Aby Warburg e seus discípulos em seus estudos sobre aremanescência e a transformação da tradição clássica, que não eram desconhecidos deBraudel.

Contudo, permanece uma conquista pessoal de Braudel combinar um estudona longa duração com o de uma complexa interação entre o meio, a economia, asociedade, a política, a cultura e os acontecimentos.

Segundo Braudel, a contribuição especial do historiador às ciências sociais é aconsciência de que todas as “estruturas” estão sujeitas a mudanças, mesmo que lentas(Braudel, 1969, pp. 26 ss.). Era impaciente com fronteiras, separassem elas regiões ouciências. Desejava ver as coisas em sua inteireza, integrar o econômico, o social, o político e o cultural na história “total”. “Um historiador fiel às lições de Lucien Febvre eMarcel Mauss desejará sempre ver o todo, a totalidade do social”.

Poucos historiadores desejariam imitar O Mediterrâneo , ainda menos seriamcapazes de fazê-lo. Ainda é verdadeiro dizer a seu respeito, como de Guerra e Paz deTolstói (com a qual se assemelha não apenas na extensão, mas também na sua visãopenetrante pelo espaço e em sua percepção da futilidade da ação humana), que eleampliou as possibilidades do gênero em que foi escrito.

II – O BRAUDEL DAS ÚLTIMAS OBRAS

Braudel no Poder

Durante quase trinta anos, da morte de Febvre em 1956 atésua própria em 1985, Braudel foi não apenas o mais importante historiador francês, mastambém o mais poderoso. Em 1949, no mesmo ano em que sua tese foi publicada,tornou-se professor do Collège de France, e passou a acumular ao lado de Febvre, afunção de Diretor do Centre Recherches Historiques, na École de Hautes Études.

Dessa fase de direção conjunta datam três séries de publicações da VI Seção, daqual o Centro era parte, todas lançadas em 1951-52. A primeira série intitulava-se“Portos-Rotas-Tráficos; a segunda, “Negócios e Gente dos Negócios”; e a terceira,“Moeda-Preço-Conjuntura”. Dada a enorme importância atribuída à história econômica,é razoável presumir que a iniciativa fora de Braudel, não de Febvre.

Com a morte de Febvre em 1956, Braudel foi seu sucessor, tornando-se o diretorefetivo dos Annales . As relações entre os dois “filhos” de Febvre, Braudel e Mandrou,tornaram-se progressivamente menos fraternais, e Mandrou demitiu-se de seu cargo desecretário executivo da revista em 1962. Uma transformação maior, para não dizer um“expurgo”, foi levada a efeito em 1969, aparentemente uma conseqüência de Maio de1968. Os acontecimentos pareciam vingar-se de quem tanto os desprezara. Braudeldecidiu recrutar jovens historiadores, como Jacques Le Goff, EmmanueI Le RoyLadurie, Marc Ferro, com a finalidade de renovar os Annales , “renovar a pele”, como dizia.

Braudel também sucedeu Febvre como presidente da VI Seção da École. Em1963, criou uma nova entidade dedicada à pesquisa interdisciplinar, a Maison desSciences de l’Homme. No seu tempo, a Seção, o Centro e a Maison, todos se mudaram para o 54, Boulevard Raspail, onde a convivência com antropólogos e sociólogos daqualidade de Claude Lévi-Strauss e Pierre Bourdieu, disponíveis para as conversas decafé e para seminários conjuntos, manteve e continuou a pôr os historiadores dos Annales em contato com as novas idéias e desenvolvimentos das ciências vizinhas.

Sendo um homem de grande respeitabilidade e de personalidade dominante,Braudel manteve sua poderosa influência, mesmo depois de sua aposentadoria, em1972. Tendo conservado em suas mãos, durante os seus anos de direção, o controle dos fundos para a pesquisa, publicações e nomeações, guardou para si um grande poder, queusou para promover o ideal de um “mercado comum” das ciências sociais, onde ahistória era um membro dominante. (Braudel, 1968b, p.349). As bolsas de estudoconcedidas a jovens historiadores estrangeiros, como os poloneses, para estudar emParis ajudaram a difundir no exterior o novo estilo francês, de fazer história. Por outrolado, era notório que Braudel destinava os recursos preferentemente aos historiadoresque se dedicavam à época moderna (1500-1800). Se seu império não foi tão vastoquanto o de Felipe II, tinha, porém, um dirigente mais decidido.

A influência de Braudel sobre algumas gerações de estudantes pesquisadorestambém deve ser levada em conta. Pierre Chaunu, por exemplo, descreve como asconferências de Braudel sobre a história da América Latina, feitas logo após o seuretorno à França depois da guerra, produziram-lhe um “choque” intelectual quedeterminou sua carreira histórica. “Após os primeiros dez minutos, eu estavaconquistado, subjugado” (Chaunu, 1987, p. 71). Chaunu, porém, não é o únicohistoriador a dever a Braudel preocupação com o mundo mediterrânico do início daépoca moderna, ou com alguns problemas particulares. O autor de um estudo sobre afamília de mercadores espanhóis do século XVI deve seu tema a uma sugestão deBraudel, enquanto monografias sobre Roma e Valladolid se inspiravam no seu tipo deabordagem (Lapeyre, 1955, dedicada a Braudel, Delumeau, 1957-9, Bennassar, 1967).

Muitos outros historiadores atestaram o que deviam aos conselhos eencorajamentos de Braudel durante o tempo em que escreviam suas teses. A figura maisdestacada da terceira geração dos Annales , Emmanuel Le Roy Ladurie, que escreveusua tese sobre a França mediterrânica, teve Braudel como orientador de tese. Conhecidodurante um certo tempo como o “Delfim”, Le Roy Ladurie sucedeu Braudel no Collègede France como este sucedera Febvre.

A História da Cultura Material

Durante esses anos dedicados às atividades deorganizador, 1949-1972, Braudel trabalhou num segundo estudo ambicioso. Muitoshistoriadores franceses, depois dos longos anos de pesquisa e de elaboração necessáriospara escrever a exaustiva tese doutoral, instrumento fundamental de sucesso acadêmico,optam por uma vida comparativamente pacífica, nada produzindo anão ser artigos etextos escolares. Não Braudel. Logo depois da publicação de O Mediterrâneo, LucienFebvre convidou-o a participar de um outro grande projeto. A idéia era escreverem umahistória da Europa, em dois volumes, abrangendo o período de 1400 a 1800. Febvreresponsabilizar-se-ia pelo “pensamento e crença” e Braudel ficaria com a história davida material.

Febvre ainda não escrevera sua parte quando de sua morte em 1956;Braudel escreveu a sua em três volumes, entre 1967 e 1979, sob o título Civilization matérelle et capitalisme.

Sua preocupação nos três volumes está mais ou menos concentrada nascategorias econômicas do consumo, distribuição e produção, nessa ordem, mas eleprefere caracterizá-las de maneira diferente. A introdução ao primeiro volume descrevea história econômica como um edifício de três andares. No andar térreo, está a civilização material – a metáfora não está longe da “base” de Marx – definida por“ações recorrentes, processos empíricos, velhos métodos e soluções manipuladas desdetempos imemoriais”. No andar intermediário, há a vida econômica “calculada,articulada, emergindo como um sistema de regras e necessidades quase naturais”. Noandar superior – para não dizer superestrutura – existe o “mecanismo capitalista”, omais sofisticado de todos (Braudel, 1979a, pp. 23-26).

Existe paralelo óbvio entre as estruturas tripartites de O Mediterrâneo e da Civilisation et Capitalisme . Em ambos os casos, a primeira parte trata da história quase imóvel, a segunda, das mudanças estruturais institucionais lentas e a terceira, demudanças mais rápidas – eventos no primeiro livro, tendências no outro.

O primeiro volume é dedicado ao alicerce, isto é, lida com o “velho regime”econômico que permanece há quase quatrocentos anos. Esse livro exemplifica ointeresse permanente de Braudel pela longa duração. Ilustra, por outro lado, suaabordagem totalizante. Projetado originalmente como um estudo da Europa, diz poucosobre a África e muito sobre a Ásia e a América. Um de seus principais argumentos é aafirmação da impossibilidade de explicar as mudanças significativas sem recorrer a umavisão global. Seguindo o economista e demógrafo alemão Ernest Wagemann, Braudelassinala que os movimentos populacionais, na índia e na China, obedecem a um padrãosimilar ao da Europa: expansão no século XVI, estabilidade no século seguinte, e novaexpansão no século XVIII (sobre Wagemann, Braudel, 1979a, p. 34; conf. Braudel,1969, pp. 133-42). Um fenômeno de caráter mundial necessita obviamente de umaexplicação na mesma escala.

Enquanto seus discípulos estudavam as tendências populacionais ao nível dasprovíncias, ou, às vezes, de vilas, Braudel, caracteristicamente, tentava apreender otodo. Enquanto analisavam crises de abastecimento na Europa, ele comparava asvantagens e as desvantagens do trigo e outros cereais com as do arroz no ExtremoOriente e o milho na América, observando por exemplo que os campos de arroz“trouxeram densas populações e rígida disciplina social onde prosperaram”, enquanto omilho, “uma colheita que exige pouco esforço”, deixou os índios “livres” (se essa for apalavra) para trabalharem nas “gigantescas pirâmides maias ou aztecas” ou nas“ciclópicas muralhas de Cuzco”.

A finalidade dessas aparentes divagações é definir a Europa, contrastando-a como resto do mundo, como um continente de comedores de trigo relativamente bemequipado de móveis domésticos, cuja densidade populacional minimiza os problemas detransporte em relação a outras regiões, mas onde, por outro lado, o trabalho erarelativamente caro – um estímulo ao emprego de fontes inanimadas de energia, o que seassocia com a Revolução Industrial.

Como em relação ao espaço, Braudel em seus temas subverte as fronteirastradicionais da história econômica. Deixa de lado as categorias tradicionais de“agricultura”, “comércio” e “indústria”, e observa, substituindo-as, “a vida diária”, opovo e as coisas, “coisas que a humanidade produz ou consome”, alimentos, vestuários,habitação, ferramentas, moeda, cidades... Dois conceitos básicos subjazem a esseprimeiro volume, um deles, “vida diária”, o outro, “civilização material”.

Na introdução à segunda edição, declara que o objetivo de seu livro era nadamenos do que “a introdução da vida cotidiana no domínio da história”. Não foi, é claro,o primeiro historiador a tentar.

La civilization quotidienne era o título de um dosvolumes da Encyclopédie Française de Lucien Febvre, para o qual Bloch contribuiucom um ensaio sobre a história da alimentação. A livraria Hachette publicou, a partir de1938, algumas coleções de história cotidiana de diferentes épocas e diferentes tempos,começando por um estudo do Renascimento francês, de autoria de Abel Lefranc, cujainterpretação de Rabelais tanto irritara Febvre. Anteriormente, um estudo importantesobre a vida cotidiana na Dinamarca e Noruega, no século XVI, foi escrito pelo grandehistoriador dinamarquês T.F. Troels-Lund, no qual dedicava volumes diferentes para aalimentação, vestuários e habitação (Troels-Lund, 1879-1901). De todo jeito, a obra deBraudel é importante por sua síntese entre o que pode ser denominado a “pequenahistória” do dia-a-dia, facilmente transformável em mera descrição, anedotário ouantiquarismo, e a história das grandes tendências socioeconômicas da época.

Sua concepção de civilização material merece também uma análise maisacurada. A idéia de um domínio da rotina (Zivilisation ), oposto ao domínio dacriatividade (Kultur ), foi muito cara a Oswald Spengler, um historiador com o qualBraudel tem mais afinidades do que as geralmente admitidas.

O historiador francêspouco se preocupa com as rotinas mentais, com o que Febvre denominava instrumentalintelectual . Como vimos anteriormente, Braudel jamais demonstrou grande interessepela história das mentalidades, e pressupunha-se que pensamento e crença eramatribuição de seu parceiro. Mas, por outro lado, tinha muito o que dizer a respeito deoutras formas de hábito.

Da mesma maneira que em O Mediterrâneo , sua forma de abordar a civilizaçãoé a de um geógrafo, ou de um geo-historiador, interessado em áreas culturais, nas quaisa troca de bens ocorre, ou deixa de ocorrer. Um dos exemplos mais fascinantes é o dacadeira, introduzida na China, vinda provavelmente da Europa, no segundo ou terceiroséculo d.C., sendo amplamente usada por volta do século XIII. Esse novo costumeexigiu novos tipos de móveis, mesas altas, por exemplo, e uma nova postura; emresumo, um novo estilo de vida. Os japoneses, por outro lado, não aceitaram a cadeira,da mesma maneira que os mouros de Granada, tema levantado em O Mediterrâneo ,resistiram ao cristianismo (Braudel, 1979a, cap. 4).

Se algo importante está faltando nesse brilhante estudo da “cultura material”, écertamente o domínio do simbólico.

O sociólogo americano Thorstein Veblen dedicouuma significativa parte de sua Teoria da Classe Ociosa (1899) para discutir os símbolosdo status . Alguns historiadores seguiram essa orientação: Lawrence Stone, por exemplo,num livro publicado dois anos antes da obra de Braudel, analisa as casas e os funeraisda aristocracia inglesa desse ponto de vista (Stone, 1965). Mais recentemente,historiadores e antropólogos têm devotado grande atenção aos significados da culturamaterial (Appadurai, 1986).

Um antropólogo-historiador ou um historiador-antropólogo gostaria, talvez, desuplementar a fascinante descrição da “Europa carnívora” com uma discussão, porexemplo, do simbolismo das carnes “nobres” como o veado e o faisão, associadas com oaristocrático hábito da caça, desempenhando uma parte importante nos rituais de trocade presentes. Observações semelhantes podem ser feitas a respeito do uso do vestuáriopara o que o sociólogo Erving Goffman denominou “apresentação de si mesmo na vidadiária”; outro tanto pode ser dito a respeito do simbolismo das casas, suas fachadas edecorações interiores (Goffman, 1959).

Braudel e o Capitalismo

Les jeux de l’ échange se inicia-se com a evocação daimagem turbilhonante e apressada, animada e poliglota, barulhenta e multicolorida domundo do mercado tradicional, pros seguindo com as descrições das feiras, dosmascates e dos grandes comerciantes. Muitos destes eram tão exóticos quanto asmercadorias que compravam e vendiam, pois o comércio internacional estava nas mãosde marginais: protestantes na França, judeus na Europa Central, velhos crentes naRússia, coptas no Egito, persas na índia, armênios na Turquia, portugueses na Américaespanhola, e assim por diante.

Como sempre, Braudel mantém um fino equilíbrio entre o abstrato e o concreto,o geral e o particular. Interrompe, aqui e ali, seu panorama para focalizar um estudo decaso, incluindo uma “fábrica” agrícola, como ele a denomina, no século XVIIIveneziano, ou também a Bolsa de Amsterdam, essa “confusão das confusões”, como adescreviam seus participantes no século XVII, já ocupada por especuladores. Braudelsempre teve um bom olho para os detalhes vivos.

Durante a feira de Medina dei Campo,em Castela, ele nos conta que a missa era celebrada no balcão da Catedral, a fim de que“compradores e vendedores a assistissem sem interromper os negócios”.

Essas descrições coloridas eram complementadas por uma fascinante análise,onde Braudel exibia integralmente seu maravilhoso dom de se apropriar das idéias deoutras disciplinas e convertê-las em próprias. Nesse volume, utiliza-se da “teoria dolugar central”, do geógrafo alemão Walter Christaller, para analisar a distribuição dosmercados na China. Apoia-se na sociologia de Georges Gurvitch para discutir o quechama de “o pluralismo das sociedades”, as contradições em suas estruturas sociais.Lança mão das teorias de Simon Kuznets, um economista “convencido do valorexplicativo da longa duração na economia... um procedimento caro a meu coração”,para caracterizar as sociedades pré-industriais pela falta de capital fixo e durável(Braudel, 1979b, pp. 118, 463 ss., 244 ss.).

Mas Braudel apoiou-se sobretudo no notávelpolímata Karl Polanyi, que, na década de 40, estudava antropologia econômica, emboradele discordasse. Defendia, ao contrário, que a economia de mercado coexistia com umaeconomia sem mercado no início do mundo moderno, e não, como pretendia Polanyi,que ela emergia repentinamente no que denominava a “grande transformação” do séculoXIX (Braude1, 1979b, p. 225 ss).

Nessa análise dos mecanismos de distribuição e troca, Braudel oferece,caracteristicamente, explicações ao mesmo tempo estruturais e multilaterais. Discutindoo papel das minorias religiosas como os huguenotes e os persas no comércio internacional, concluía que “é certamente o mecanismo social que reserva aos marginaisessas tarefas desagradáveis, mas socialmente essenciais... se não existissem, teriamnecessariamente de ser inventados” (Braudel, 1979b, p. 166).

Recusava-se a explicaçõesem termos individuais. Por outro lado, opôs-se sempre a explicações baseadas em umúnico fator. “O capitalismo não pode ter se originado de uma única fonte”, observava,pondo de lado Marx e Weber com um simples piscar de olhos. “Economia, política,sociedade, cultura e civilização, cada uma delas tem sua parte. Assim como a história,que freqüentemente decide, em última análise, quem vencerá a prova de força” (Ibid .pp. 402-3). Este é um trecho característico de Braudel, que combina uma visão amplacom uma falta de rigor analítico, dando peso a fatores pouco analisados no decorrer dolivro.

Vale lembrar a advertência de que achava necessário acrescentar para preservaruma certa distância intelectual de Marx e, mais ainda, do marxismo, evitando cair naarmadilha de uma estrutura intelectual que considerava muito rígida. “O gênio de Marx,o segredo de sua longa influência, escreveu Braudel, está no fato de ter sido o primeiro aconstruir verdadeiros modelos sociais, fundamentados na longa duração histórica. Essesmodelos se sedimentaram em toda sua simplicidade por lhe darem o status de leis”Braudel, 1969, p. 51).

Le Temps du monde muda a atenção da estrutura para o processo – o processo denascimento do capitalismo. Nesse último volume, em que precisa ser conclusivo,Braudel elide sua usual abordagem eclética. Apoia-se firmemente nas idéias de umúnico homem, Immanuel Wallerstein. É quase tão difícil classificar Wallerstein quantoPolanyi. Formado sociólogo, fez pesquisas na África; convencido de que não a poderiaentender sem conhecer o capitalismo, voltou-se para a economia. Ao descobrir que nãopoderia entender o capitalismo sem retornar às suas origens, decidiu-se a ser umhistoriador econômico. Sua história inacabada da “economia mundial” desde 1500 é, desua parte, devedora de Braudel, a quem é dedicado o segundo volume (Wallerstein,1974-80).

A análise que Wallerstein faz da história do capitalismo repousa também sobre aobra de economistas desenvolvimentistas como Andre Gunder Frank, especialmentesobre seus conceitos de economias centrais e periféricas, e sua posição de que odesenvolvimento do Ocidente e o subdesenvolvimento do resto do mundo são as facesopostas de uma mesma moeda (Gunder Frank, 1969, pp. 32ss.). Wallerstein analisatambém o que denomina “divisão internacional do trabalho” e as sucessivas hegemoniasholandesa, britânica e americana. Ele se filia a uma tradição marxista, e é de algummodo surpreendente para muitos leitores ver o velho Braudel, que sempre mantevedistância em relação a Marx, finalmente aceitar algo semelhante a uma estruturamarxista.

Le Temps du monde preocupa-se também com a seqüência dos poderespreponderantes, mas principia, como se poderia esperar de Braudel, com oMediterrâneo. Segundo ele, foi a Veneza do século XV que obteve pela primeira vezuma hegemonia sobre a economia mundial. Seguiu-se a Veneza, Antuérpia, e a esta,Gênova, cujos banqueiros controlaram os destinos da Europa (e, através da Espanha, osda América) no final do século XVI e no início do século XVII, “a idade do genovês”.A seqüência se completa com a hegemonia holandesa, mais especificamente a de Amsterdam, que Braudel identifica como a última das cidades economicamentedominantes. Finalmente, com sua habilidade característica de inversão, coloca oproblema às avessas e passa a analisar o fracasso de outras partes do mundo (incluindo aFrança e a índia) em obter uma posição dominante similar, concluindo sua história coma Grã-Bretanha e a Revolução Industrial.

Não é difícil encontrar lacunas e imperfeições nesses volumes, particularmentequando o autor se afasta do mundo mediterrânico, que tanto amava e conhecia.

Taisimperfeições eram virtualmente inevitáveis numa obra de tão grande fôlego. Uma críticamais séria, análoga a já apontada em O Mediterrâneo , é que Braudel permanece, numade suas metáforas preferidas, “prisioneiro” de sua divisão de trabalho original comFebvre (se não de seu próprio instrumental intelectual ). Até o fim manteve-se“alérgico”, como dizia, a Max Weber, e pouco tinha a dizer sobre os valores capitalistas– diligência, frugalidade, disciplina, espírito empreendedor e outros. Contudo, ocontraste entre o que pode ser chamado de “culturas favoráveis a empreendimentos”,como a República holandesa e o Japão, e as “culturas não favoráveis”, como a Espanhae a China, é bastante sensível, e tais diferenças em valores são seguramente relevantespara a história econômica desses países.

A má-vontade de Braudel em reconhecer autonomia à cultura, às idéias,transparece claramente em seus últimos ensaios. Ao analisar o problema da rejeição da Reforma na França (como anteriormente discutira a rejeição da Reforma na Espanha),oferece uma explicação geográfica brutalmente reducionista. Limita-se a notar que oReno e o Danúbio eram as fronteiras do catolicismo como haviam sido anteriormente asfronteiras do Império Romano, sem se dar ao trabalho de analisar a possível relaçãoentre essas fronteiras, os acontecimentos e as idéias da Reforma (Braudel, 1981).

As qualidades, contudo, da trilogia de Braudel superam e muito seus defeitos.Juntos, os três volumes constroem uma magnífica síntese, tomando-se o termoeconomia num sentido amplo, da história econômica do início da Europa moderna, ecolocam essa história num contexto comparativo. Eles confirmam o direito do autor aotítulo mundial dos pesos-pesados. Devemos ser gratos pela demonstração de que é aindapossível, neste final de século, resistir às pressões da especialização. Admire-se tambéma tenacidade de Braudel ao levar adiante dois grandes projetos por um período de maisde cinqüenta anos.

E o que é mais, ele não esmoreceu. Na sua velhice, Leopold von Ranke dedicou-se à história mundial. Pela primeira vez, mais modesto em suas ambições, Braudel, commais de setenta anos, embarcou na aventura de uma história global de seu país. Quandode sua morte, em 1985, já estavam escritos os capítulos sobre geografia, economia edemografia, publicados sob o título L’ Identité de la France.

Num certo sentido, esse último livro é previsível – não é difícil imaginar o queseria um estudo braudeliano sobre a França. Assenta-se, da mesma maneira que seuslivros anteriores, na obra de seus geógrafos favoritos, de Vidal de Blache a MaximilienSorre. Embora Braudel tenha aproveitado a oportunidade para responder à crítica de queera excessivamente determinista, e tenha endereçado algumas palavras generosas ao“possibilismo” à maneira de Febvre e de Blache, ele realmente não alterou suas convicções, reiterando sua crença de que somos “esmagados” pelo “enorme peso das distantes origens” (Braudel, 1985, p. 237 ss). O primeiro volume desse estudo é umanova demonstração enfática da capacidade de Braudel incorporar o espaço na história,discutir a diversidade regional e a distância, de um lado, e as comunicações e a coesãonacional, de outro; além, é claro, de oferecer suas reflexões sobre as mudanças defronteiras da França, na longa duração, entre 843 a 1761.

Um último tema de Braudel merece ser aqui analisado, a estatística. Ele recebiacom entusiasmo os métodos quantitativos empregados por seus colegas e discípulos.Fazia uso das estatísticas ocasionalmente, especialmente na segunda edição ampliada de seu Le Mediterranée , publicado em 1966. Contudo, não é parcial dizer que os númerossão apenas a decoração de seu edifício histórico, e não parte de sua estrutura (Hexter,1972, p.113). Num certo sentido, ele resistia aos métodos quantitativos da mesmamaneira que resistia à maioria das formas de história cultural, o que o levava a descartaro famoso livro de Burckardt, A civilização da Renascença na Itália, por estar suspensono ar (Braudel, 1969, p. 186). Ele foi assim, de alguma maneira, alheio a dois grandesmovimentos no interior da história dos Annales de seu tempo, a história quantitativa e ahistória das mentalidades. É tempo agora de dirigirmos nossa atenção sobre eles.

III – O NASCIMENTO DA HISTÓRIA QUANTITATIVA

Apesar de sua liderança carismática e de sua contribuição, o desenvolvimento daescola dos Annales nos tempos de Braudel, não pode ser explicado apenas em funçãode suas idéias, interesses e influências. Os “destinos coletivos e as tendências gerais” domovimento merecem também ser examinados. Dessas tendências, a mais importante, demais ou menos 1950 até 1970, ou mesmo mais, foi certamente o nascimento da históriaquantitativa. Esta “revolução quantitativa”, como foi chamada, foi primeiramentesentida no campo econômico, particularmente na história dos preços. Da economiaespraiou-se para a história social, especialmente para a história populacional.

Finalmente, na terceira geração, a ser examinada no próximo capítulo, a novatendência invadiu a história cultural – a história da religião e a história dasmentalidades.

A importância de Ernest Labrousse

Não se constituia em novidade oshistoriadores econômicos lidarem com estatísticas. Um grande número de pesquisassobre a história dos preços havia sido realizado no século XIX (Wiebe, 1895). O iníciodos anos 30 assistiu a uma explosão de interesse pelo tema, vinculada, sem dúvida, àhiperinflação alemã e ao estouro das bolsas em 1929. Dois importantes estudos sobrepreços apareceram na França em 1932-34. O primeiro, Recherches anciennes et nouvelles sur le mouvement général des prix du XVI e au XIX e siècle (1933), o livro decabeceira obrigatório para todo historiador, como afirmava Febvre (Febvre, 1962,pp.190-1). Era fruto do trabalho do economista François Simiand, o homem que, trintaanos antes, havia publicado um ataque demolidor à história tradicional. O livro discutia a alternância na história de períodos de expansão, por ele chamados “Fases A”, eperíodos de retração, ou “Fases B” (Simiand, 1932).

O segundo estudo importante, modestamente intitulado “Esquisse du mouvement des prix et des revenus en France au XVIII e siècle , era obra do jovem historiadorErnest Labrousse (1933). Dois anos mais velho do que Braudel, Labrousse foiextremamente influente na historiografia por mais de cinqüenta anos. Em razão de suainfluência sobre os historiadores mais jovens, dos quais, em muitos casos, foi oorientador de tese, pode-se dizer que ocupou um lugar central nos Annales.

Em outrosentido, porém, ele pode ser tido como marginal ao grupo. Lecionava na Sorbonne; seufoco de interesse era a Revolução Francesa, o evento por excelência, e o que era maisimportante, tratava-se de um marxista.

Como já vimos, nem Febvre nem Bloch tinham grande interesse nas idéias deMarx. Apesar de seu socialismo e de sua admiração por Jaurès, Febvre era muitovoluntarista para ter Marx como fonte de inspiração. Quanto a Bloch, apesar de seuentusiasmo pela história econômica, afastava-se de Marx em razão de sua perspectivadurkheiminiana (Suratteau, 1983). Braudel, como já vimos, deve mais a Marx, masapenas em suas últimas obras.

Foi com Labrousse que o marxismo começou a penetrar no grupo dos Annales .O mesmo ocorreu com os métodos estatísticos, pois Labrousse foi incentivado peloseconomistas Albert Aftalion e François Simiand a empreender um rigoroso estudoquantitativo da economia francesa do século XVIII, publicado em duas partes: Esquisse (1933), sobre os movimentos dos preços de 1701 a 1817, e La crise de l’économie française à la fin de l’Ancien Régime et au début de la Revolution (1944), sobre o fimdo antigo regime. Estes livros, saturados de gráficos e tabelas, referem-se a movimentosde longa duração e a ciclos de curta duração, “crises cíclicas” e “interciclos”. Labrousse,muito engenhoso em encontrar maneiras de mensurar as tendências econômicas,utilizou conceitos, métodos e teorias de economistas como Juglar e Kondratieff,preocupados respectivamente com os ciclos econômicos de curta e longa duração; e deseu professor Albert Aftalion, que escrevera sobre crises econômicas. Labroussedefendia que uma má colheita na França do século XVIII tinha um efeito devastador,determinando tanto um declínio nas rendas rurais como também no ainda grandemercado rural para a indústria. Também demonstrava a importância da crise econômicado foral da década de 80 como uma precondição da Revolução Francesa (Labrousse,1933, 1944).

Essas duas monografias foram estudos pioneiros do que os Annales chamariam posteriormente conjuntura (ver Glossário). Foram criticados, de vez emquando, por forçarem os dados a se conformarem ao modelo, mas foram extremamenteinfluentes.

Em seu famoso ensaio, “História e Ciências Sociais” (1958), centrado noconceito de longa duração, Braudel proclama que o livro de Labrousse, La crise ..., é “omaior livro de história publicado na França nestes últimos vinte e cinco anos” (Braudel 1969, pp. 25-54; 1974, p. 11). Da mesma maneira, Chaunu declara que “todo omovimento no sentido de uma história quantitativa, na França, deriva de dois livros queeram os breviários de minha geração, Esquisse ... e La Crise ... “, livros que consideravamais influentes do que o próprio Mediterrannée (Chaunu, 1955-60, 8, parte 1, p. xiv;Braudel, 1974, p. 21).

Os livros eram extremamente técnicos e Labrousse pouco publicou depois. Eraum historiador de historiadores sem ser, contudo, um especialista limitado.

Suacuriosidade la além da história econômica do século XVIII, dirigia-se também para asrevoluções de 1789 e de 1848, para a história social da burguesia européia de 1700 a1850. Declarou certa vez que “não pode haver estudo da sociedade sem estudo dasmentalidades” (Labrousse, 1980 e 1970).

Labrousse dedicou boa parte de seu tempo na supervisão de estudantes pós-graduados e merece ser lembrado como “a eminência parda” dos Annales ,representando Padre Joseph, o invisível mas indispensável colaborador do CardealRichelieu Braudel. Há motivos para se suspeitar que houve influência de Labrousse nada 2ª edição do Mediterrannée , em 1966, pois há uma maior ênfase na históriaquantitativa e inclusão de tabelas e gráficos inexistentes na primeira.

Foi também pelapreocupação em ampliar o espaço dos Annales para tabelas e gráficos que a revistaaumentou seu formato em 1969.

É impossível analisar detalhadamente as obras das décadas de 50 e 60 quemostram a marca de Braudel e Labrousse, mas é igualmente impossível deixar demencionar a tese histórica de Chaunu, Sevilha e o Atlântico (1955-1960), talvez a maislonga tese já escrita.

Esse estudo de Chaunu, escrito com a colaboração de sua esposaHuguette, tenta imitar, se não mesmo superar Braudel, tomando como sua região ooceano Atlântico. Concentrou-se em tudo o que podia ser mensurado, a tonelagem dasmercadorias transportadas entre a Espanha e o Novo Mundo, de 1504 a 1560, para, apartir dessa base, ampliar sua análise e discutir as flutuações mais gerais no volumedesse comércio. Finalmente, voltou-se para as tendências econômicas maissignificativas do período, especialmente a passagem da expansão no século XVI (umaFase-A, como Simiand a chamaria) para a retração no século XVII (uma Fase-B).

Esse estudo volumoso, que lançou o famoso par de termos estrutura e conjuntura, foi, ao mesmo tempo, uma aplicação ao comércio transatlântico de ummétodo e de um modelo desenvolvidos por Labrousse para a França do século XVIII, eum desafio a Braudel, por estudar um oceano, pelo menos do ponto de vista econômico,e conferindo ao seu tema uma verdadeira visão global. Digna de nota também é a seção reservada à geografia histórica da América espanhola. Chaunu perde apenas paraBraudel em sua consciência da importância do espaço e da comunicação na história.

Demografia histórica e História demográfica

A história da população foi asegunda grande conquista da abordagem quantitativa, depois da história dos preços. Osurgimento da história demográfica deu-se na década de 50, e isso se deve à consciênciada explosão populacional mundial, da mesma forma que a história dos preços na décadade 30 está intimamente relacionada ao craque financeiro. O desenvolvimento dessa áreade estudo foi, pelo menos na França, o resultado tio trabalho conjunto de demógrafos ehistoriadores. Louis Henry, por exemplo, que trabalhava no Institut National d’ÉtudesDemographiques (INED), transferiu, na década de 40, sua atenção dos estudos dapopulação atual para a população do passado. Desenvolveu o método da “reconstituiçãofamiliar”, que vincula os registros de nascimentos, casamentos e mortes, investigandouma região e um período, através do estudo de casos de famílias em Gênova,Normandia, e outras partes.

A revista do INED, Population , publicada a partir de 1946, sempre recebeucontribuições de historiadores. O primeiro volume, por exemplo, inclui importanteartigo do historiador Jean Meuvret, onde desenvolve a noção de “crise de subsistência”,argumentando que tais crises eram acontecimentos comuns na França de Luís XIV. Umaumento nos preços do trigo era acompanhado por um acréscimo da taxa de mortalidadee uma queda da taxa de nascimento. Seguia-se uma recuperação gradual e,posteriormente, nova crise (Meuvret, 1946, 1977). As idéias contidas no artigofundamentam um bom número de estudos regionais posteriores, desde o livro deGoubert, Beauvais et te Beauvaisis (1960), em diante. Como Labrousse, Meuvret foi umhistoriador de muito maior importância para o movimento dos Annales , nos anos 40 e50, do que faz supor sua pequena produção histórica. Seu monumento é o trabalhorealizado por seus discípulos.

Em breve, a demografia histórica ligou-se oficialmente à historia social. Data de1960 a criação, na VI Seção, de uma nova coleção histórica: “Demografia eSociedades”, que publicou um número de monografias importantes sobre históriaregional.

A importância da história regional e serial

Uma das primeiras publicações dacoleção foi a tese de Goubert sobre Beauvais et le Beauvaisis.

Do mesmo modo queChaunu, dividiu seu trabalho em duas partes, intituladas “Estrutura” e “Conjuntura”. Aprimeira parte trata das flutuações, na curta e longa duração, dos preços, produção epopulação, na perspectiva de um “longo” século XVII, que vai de 1600 a 1730. É umexemplo regional da Fase B de Simiand.

A justaposição feita por Goubert entremovimentos de preços e população mostra as conseqüências humanas de umamodificação econômica.

A importância da primeira parte está em que integra a demografia histórica àhistória social de uma região. Goubert procede a um cuidadoso estudo das tendênciaspopulacionais num certo número de vilas da região de Beauvais, tais como Auneuil e Breteuil. Chega a conclusões semelhantes às de Meuvret a respeito da persistência deum “velho regime demográfico”, caracterizado por crises de subsistência a cada trintaanos, mais ou menos, durante o século XVIII, e observa como seus habitantes seadaptavam aos tempos duros, casando tarde, de maneira a diminuir o número de anosdedicados pelas esposas à criação dos filhos.

Ele fez mais, contudo, do que demonstrar a relevância para os beauvisianos doque veio a se tornar a interpretação ortodoxa da recessão econômica e da crisedemográfica, no século XVII. Deu considerável ênfase no que chamou “demografiasocial”, isto é, no fato de que as chances de sobrevivência variavam de um grupo socialpara outro. Considerou seu estudo uma contribuição à “história social”, uma históriapreocupada com todos, não somente com o rico ou com o poderoso, um aspecto reiterado em sua obra posterior, Louis XIV et vingt millions de français (1966).

A parte mais interessante do livro, a meu ver, são os capítulos sobre a sociedaderural e a sociedade urbana, sobre o mundo da produção têxtil em Beauvais, porexemplo, ou sobre os camponeses ricos, médios e pobres. Esse cuidadoso estudo dasdiferenciações sociais e das hierarquias sociais, que Goubert, posteriormente, ampliounum ensaio sobre o campesinato francês do século XVII, é um excelente corretivo paraqualquer visão simplista da sociedade do antigo regime (Goubert, 1982).

Embora a análise social de Goubert seja fecunda, está longe da história total. Oproblema da “mentalidade burguesa” é discutido brevemente, mas, como autor admitedesde o início, religião e política estariam de fora. De uma maneira similar, a maioriadas monografias regionais, dentro do estilo dos Annales das décadas de 60 e 70, umanotável obra coletiva, restringia-se à história econômica e social, com introduçõesgeográficas ao modelo de Braudel.

A tese de Goubert foi dedicada a Labrousse, cujo papel nos bastidores é reveladopelos agradecimentos feitos em alguns dos mais significativos estudos regionais dasegunda e terceira geração dos Annales, do Catalunha de Pierre Vilar ao Languedoc deEmmanuel Le Roy Ladurie e o Provence de Michel Vovelle (discutidos adiante).

Taisestudos, que não são apenas cópias de um modelo, mas variações individuais de umtema comum a um grupo, são a conquista mais destacada da escola dos Annales, nadécada de 60. A esse respeito, assemelham-se às monografias regionais da escolageográfica francesa, tais como a de Demangeon sobre a Picardia, ou a de Sion sobre aNormandia, e tantas outras, cinqüenta anos atrás (Buttimer, 1971, pp. 74 ss). Elesmarcam também o retorno dos Annales à província, em universidades como as de Caene Rennes, Lyon e Toulouse.

Em síntese, os estudos regionais combinam as estruturas braudelianas, a conjuntura de Labrousse e a nova demografia histórica.

A sociedade rural do início da França moderna foi estudada a nível provincial naBurgundia, na Provença, no Languedoc, na Île-de-France, na Savóia e em Lorraine(Saint Jacob, 1969, Baehrel, 1961, Freche, 1974, etc.). Houve também um bom númerode monografias sobre as cidades modernas, não somente na França (Amiens, Lyon,Caen, Rouen, Bordeaux), mas também nas cidades do mundo mediterrânico (Roma,Valladolid, Veneza) (Deyon, 1967, Garden, 1970, Gascon, 1971, Delumeau, 1957-9,Bennassar, 1967). Esses estudos locais, urbanos e rurais, têm grande semelhança,formando como que um grupo familiar.

Quase sempre são divididos em duas partes,estruturas e conjunturas, e se fundamentam em fontes que possibilitam dados bastantehomogêneos, do tipo que permite serem arrolados em séries de longa duração, tais comotendências dos preços e taxas de mortalidade. O próprio nome “história serial” seorigina desse fato (Chaunu, 1970). Analisando essas teses, pode-se comprender aobservação de Ladurie de que “a revolução quantitativa transformou completamente otrabalho do historiador na França” (Le Roy Ladurie, 1973, p. 7).

A maioria desses estudos locais foi orientada por Braudel ou Labrousse, etinham por objeto o início da época moderna. Houve exceções, contudo, a essas regras.O medievalista Georges Duby foi um dos primeiros a escrever uma monografia sobre apropriedade, a estrutura social e a família aristocrática na área de Mâcon nos séculos XIe XII. A monografia de Duby era supervisionada por Charles Perrin, um antigo colegade Bloch, e tinha como fonte a geografia histórica. A região de Limousin, também foiestudada ao estilo dos Annales , numa obra que se iniciava pela geografia da região,descrevia, em seguida, as “estruturas econômica, social e mental” e concluía com umaanálise das atitudes políticas e um balanço das transformações no tempo (Corbin, 1975).

Mesmo tratando-se de estudos sobre o início da época moderna, seria enganadorapresentar a escola ou o círculo dos Annales , como completamente refratária a outroshistoriadores.

O caso mais óbvio a ser mencionado é o de Roland Mousnier, que foium orientador de teses sobre a era moderna tão influente quanto Braudel e Labrousse.Mousnier publicava seus artigos na Revue Historique, não nos Annales . Foi professorna Sorbonne, não nos Hautes Études. Era persona non grata a Braudel. Se o círculo dos Annales era um clube, Mousnier certamente não foi um dos membros. Mesmo assim,seus interesses se sobrepunham num grau considerável. Nenhum historiador francêsdesde Bloch tomara a abordagem comparativa na história tão seriamente. Mousniercomparou o desenvolvimento político da França- e da Inglaterra, por exemplo; estudouas revoltas camponesas no século XVII não só na França como também em paíseslongínquos como a Rússia e a China. Tal como o grupo dos Annales , usouextensamente a teoria social, de Max Weber a Talcott Parsons, dando pouca atenção a Marx.

Embora sua visão política fosse de direita, Mousnier dispôs-se a colaborar numestudo sobre o século XVIII com Labrousse, cujo coração estava sempre com aesquerda. Não concordavam sobre métodos de pesquisa, para não falar sobre asconclusões, mas os dois partilhavam do mesmo grande interesse pela análise da estrutura social do antigo regime, suas “ordens” e “classes”, um tema sobre o qualorganizavam conferências rivais.

Mousnier orientou um considerável número de teses em história social, sobretemas que vão desde o soldado francês do século XVIII até uma análise quantitativacomputadorizada das transformações da estrutura social de uma pequena cidadefrancesa por mais de três séculos (Corvisier, 1964, e Couturier, 1969). No início dadécada de 60, lançou um projeto de pesquisa coletiva sobre os levantes camponeses dosséculos XVI e XVII, em parte para refutar a interpretação marxista das revoltascampesinas defendida por Boris Porshnev, historiador soviético, cuja obra, publicada naRússia nos anos 40, havia sido traduzida pelos rivais de Mousnier na VI Seção(Porshnev, 1948). Os trabalhos de Mousnier e seus discípulos geralmente davam maisatenção à política do que à economia, e levavam mais a sério os critérios legais do queos econômicos em suas análises da estrutura social. Mesmo assim, alguns dessesestudos dificilmente se diferenciam dos da chamada “escola dos Annales ” (Mousnier,1968a, Pillorget, 1975, e Bercé, 1974).

Le Roy Ladurie em Languedoc

Nos estudos regionais produzidos pelo círculo dos Annales , há uma importante exceção na ênfase atribuída às estruturas socioeconômicase à conjuntura. A tese doutoral de Emmanuel Le Roy Ladurie, Les paysans de Languedoc (1966), engaja-se na “aventura”, como diz seu autor, “da história total”, numperíodo de mais de duzentos anos (Le Roy Ladurie, 1966, p.11).

Esse historiador, por consenso, é o mais brilhante dos discípulos de Braudel, aele se assemelhando em muitos aspectos – no poder imaginativo, na ampla curiosidade,na abordagem multidisciplinar, na preocupação com a longa duração e numa certaambivalência em relação ao marxismo. Como Braudel, é um homem do Norte, umnormando apaixonado pelo Sul. Seu Paysans de Languedoc é construído na mesmaescala de O Mediterrâneo , principiando, como se poderia esperar, com uma descriçãogeográfica de Languedoc – uma região rural, de vegetação rala e pedregosa, de grãos,vinha e oliveiras, azinheiros e castanheiros, típica do Mediterrâneo.

Le Roy Ladurie compartilha com Braudel um grande interesse pelo meio físico,interesse que o levou a escrever um notável estudo comparativo da história do clima nalonga duração (Le Roy Ladurie, 1971). Cientistas americanos haviam usado, paraestabelecer a tendência climática na longa duração, os registros fornecidos pelos anéisque se formam nas árvores (especialmente nas sequóias gigantes do extremo Oeste,algumas das quais atingem 1500 anos). Um anel estreito significa um ano de seca, umlargo, ano de chuvas abundantes. O autor francês teve a feliz idéia de justapor asconclusões dos cientistas americanos às obtidas por um outro exemplo de “históriaserial”, um estudo das variações nas datas da colheita de uvas em várias partes daEuropa. Uma colheita antecipada significa um ano quente, uma colheita atrasada, umano frio. Concluiu que “os antigos vinhais da Alemanha, França e Suíçacompatibilizavam-se, embora distantes, de maneira harmônica com as evidências dasflorestas milenares do Alasca e do Arizona” (Le’Roy Ladurie, 1959, p.157). O paralelo com a comparação braudeliana dos movimentos populacionais na Europa e na Ásia ébastante óbvio. Por outro lado, Le Roy, como é conveniente chamá-lo, achou necessárioguardar certa distância de Braudel, como este fez em relação a Marx. Abandonou aentão tradicional organização dos estudos regionais em seções sobre estruturas e conjunturas , preferindo dividir seu livro, que vai de 1500 a 1700, em três períodos. Trêsfases do que denomina “um grande ciclo agrário”, um enorme movimento de fluxo erefluxo, de ascensão e queda.

A primeira é uma Fase-A, período de expansão econômica estimulado por umdramático aumento da população na região, recuperando-se finalmente das devastaçõesda peste negra da Alta Idade Média. No dizer de um contemporâneo, a população doséculo XVI estava procriando “como ratos num celeiro”. As terras marginais passaram aser cultivadas e o solo passou a ser explorado mais intensamente. O tamanho médio daspropriedades rurais diminuía, pois era dividida entre mais filhos, e os salários agrícolastornavam-se cada vez menores, visto que o crescimento da população favoreceu acriação de um mercado de trabalho. O grupo que se beneficiou com a situação foi o dosproprietários de terras que dirigiam seu próprio negócio.

A população continuou a se expandir, a uma taxa menor, até 1650, ou mesmo1680 (na região de Beauvaisis, estudada por Goubert, ela deixou de crescer poucodepois), assim como os lucros dos proprietários. De fato, Le Roy denomina o período de1600 a 1650 de o período da “ofensiva da renda”. Nesse ponto, contudo, ocorre o queSimiand chamaria de uma Fase-B de depressão, e houve uma reversão do quadro detodo o movimento. A razão fundamental dessa reversão foi o declínio da produtividadena agricultura. Os agricultores empobrecidos eram incapazes de investir em suas terrase, em todo caso, havia um limite ao que se poderia tirar desse solo mediterrânicopedregoso. Não havia alimento suficiente, produzindo-se assim uma crise desubsistência. Muitos morreram, alguns emigraram, e os casais (como em Beauvaisis)tenderam a se casar mais tarde. “Parecia como que se a população procurasse adaptar-sedolorosamente às condições de uma economia em retração” (Le Roy Ladurie, 1966,243). Por outro lado, o declínio populacional intensificava a depressão econômica, queatingiu seu auge no início do século XVIII, ao final do reinado de Luís XIV. Concluíaque “O anátema malthusiano caiu sobre o Languedoc nos séculos XVI e XVII”, nosentido de que o crescimento da população eliminou qualquer crescimento naprosperidade, tal como dissera Malthus (Ibid . p. 311).

O que acabo de descrever é uma página esplêndida da história geográfica esocioeconômica escrita à maneira das monografias regionais, nos anos 60, vinculadasaos Annales Faziam uso abundante dos métodos quantitativos, não só para estudar asflutuações de preços, as taxas de nascimento, casamento e mortalidade, mas também astendências na distribuição da propriedade, na produtividade agrícola, etc.

Les paysans de Languedoc, contudo, rompe, em muitos aspectos, com atradição. Como vimos, Le Roy adota uma forma de organização cronológica no lugar deuma divisão em estrutura e conjuntura . Em cada uma das seções cronológicas, discuteos desenvolvimentos culturais, tais como a ascensão do protestantismo e aalfabetização, e descreve também as reações do homem comum da região às tendênciaseconômicas vividas no dia-a-dia. Para escrever essa história vista “da perspectiva dasclasses subalternas”, fundamentou-se exaustivamente na evidência das revoltas. Por exemplo, no curso da discussão sobre a polarização da sociedade rural, no final do século XVI, entre prósperos proprietários de terra e assalariados pobres, introduziu umamininarrativa de um episódio simples de conflito social, na pequena cidade deRomans.

Durante o carnaval de 1580, artesãos e camponeses se valeram dasmascaradas para proclamar que “os ricos da cidade tinham se tornado prósperos àscustas do pobre” e que, em breve, a carne dos “cristãos estaria sendo vendida a seispences a libra”.

Na seção dedicada à depressão econômica no início do século XVIII, Le Royrelata também a história da guerra de guerrilhas conduzida pelos camisards , osmontanheses protestantes das Cevenas, contra o rei que havia posto fora de lei suareligião. Observou que os líderes da revolta, entre os quais se incluíam jovens mulheres,tinham, de maneira freqüente, convulsões, durante as quais tinham visões do céu e doinferno e faziam profecias. Le Roy sugeriu que esses ataques eram histéricos erelacionou o fenômeno à conjuntura geral da época – a depressão levando aoempobrecimento, ao casamento tardio, à frustação sexual, à histeria e, finalmente, àsconvulsões.

Sua tese foi de maneira geral bem recebida.

Na realidade, construiu suareputação. Com o passar dos anos, contudo, algumas críticas substanciais surgiram.Suas conclusões sobre os profetas de Cevena, por exemplo, foram contestadas por tratá-los antes como casos patológicos do que em tentar ler suas convulsões como uma formaautêntica de linguagem corporal (Garret, 1985). Sua análise econômica, segundo umcrítico, “não faz sentido”, porque “confunde renda com lucro” (North, 1978, p. 80).Mais fundamental, contudo, foi a crítica dos marxistas ao seu “modelo demográfico” detransformações no Languedoc, por ser de um malthusianismo simplista e porque “é aestrutura das relações de classe, do poder de classe, que determina a maneira e o grauem que mudanças particulares demográficas e econômicas afetam a direção nadistribuição de rendas e o crescimento econômico, e não o contrário”. A essa crítica, LeRoy respondeu dizendo que o seu modelo não é um simples, mas sim um complexomodelo “neomalthusiano”, que incorpora a estrutura de classes (Brenner, 1976, esp. p.31; Le Roy Ladurie, 1978). Ficamos assim com dois modelos contrários de mudançasocial: um modelo demográfico que incorpora as classes sociais, e um modelo classistaque incorpora a demografia. Como no caso do debate sobre liberdade e determinismo arespeito de O Mediterrâneo de Braudel, parece não haver meios de decidir a questãoempiricamente.

Aceite-se ou não o modelo explicativo do autor, Les paysans de Languedoc impõe admiração por sua vitoriosa e incomum combinação de meticulosa históriaquantitativa e econômica com uma história política, religiosa e psicológica,brilhantemente impressionista. Vendo esse estudo vinte anos depois de sua publicação,agora está claro que Le Roy foi o primeiro a notar as insuficiências do paradigmabraudeliano e a trabalhar para modificá-lo. Essas modificações, em grande parte obra daterceira geração dos Annales , são o tema do próximo capítulo.

4 - A Terceira Geração

O surgimento de uma terceira geração tornou-se cada vez mais óbvio nos anosque se seguiram a 1968. Em 1969, quando alguns jovens como André Burguière eJacques Revel envolveram-se na administração dos Annales , em 1972, quando Braudelaposentou-se da Presidência da VI Seção, ocupada, em seguida, por Jacques Le Goff; eem 1975, quando a velha VI Seção desapareceu e Le Goff tornou-se o Presidente dareorganizada École des Hautes Études en Sciences Sociales, sendo substituído, em1977, por François Furet.

Mais significativas, contudo, do que as tarefas administrativas foram asmudanças intelectuais ocorridas nos últimos vinte anos. O problema está em que é maisdifícil traçar o perfil da terceira geração do que das duas anteriores. Ninguém nesteperíodo dominou o grupo como o fizeram Febvre e Braudel. Alguns comentadoreschegaram mesmo a falar numa fragmentação (Dosse, 1987).

Deve-se admitir, pelo menos, que o policentrismo prevaleceu. Vários membrosdo grupo levaram mais adiante o projeto de Febvre, estendendo as fronteiras da históriade forma a permitir a incorporação da infância, do sonho, do corpo e, mesmo, do odor.

Outros solaparam o projeto pelo retorno à história política e à dos eventos. Algunscontinuaram a praticar a história quantitativa, outros reagiram contra ela.

A terceira geração é a primeira a incluir mulheres, especialmente ChristianeKlapisch, que trabalhou sobre a história da família na Toscana durante a Idade Média eo Renascimento; Arlette Farge, que estudou o mundo social das ruas de Paris no séculoXVIII; Mona Ozouf, autora de um estudo muito conhecido sobre os festivais durante aRevolução Francesa; e Michèle Perrot, que escreveu sobre a história do trabalho e ahistória da mulher (Klapisch, 1981; Farge, 1987, Ozouf, 1976, Perrot, 1974). Oshistoriadores anteriores dos Annales haviam sido criticados pelas feministas pordeixarem a mulher fora da história, ou mais exatamente, por terem perdido aoportunidade de incorporá-la à história de maneira mais integral, já que haviamobviamente mencionado as mulheres de tempo em tempo, desde Marguerite de Navarreàs chamadas bruxas (Fauré, 1980, Stuard, 1981). Nesta geração, contudo, a crítica torna-se cada vez mais improcedente. Georges Duby e Michèle Perrot, por exemplo, estãoempenhados em organizar uma história da mulher em vários volumes.

Esta geração, por outro lado, é mais aberta a idéias vindas do exterior. Muitosdos seus membros viveram um ano ou mais nos Estados Unidos, em Princeton, Ithaca,Madison ou San Diego. Diferentemente de Braudel, falam e escrevem em inglês. Por diferentes caminhos, tentaram fazer uma síntese entre a tradição dos Annales e astendências intelectuais americanas-como a psico-história, a nova história econômica, ahistória da cultura popular, antropologia simbólica, etc.

Novas abordagens estão ainda sendo exploradas por historiadores identificadoscom o movimento dos Annales , como este capítulo tentará demonstrar. O centro degravidade do pensamento histórico, porém, não está mais em Paris, como seguramenteesteve entre os anos 30 e 60. Inovações semelhantes acontecem mais ou menossimultaneamente em diferentes partes do globo. A história das mulheres, por exemplo,tem se desenvolvido não só na França, mas também nos Estados Unidos, Grã-Bretanha,Holanda, Escandinávia, Alemanha Ocidental e na Itália. A história geral das mulheres,planejada por Georges Duby e Michèle Perrot, está sendo escrita não para uma editorafrancesa, mas para a Laterza. Há mais do que um centro de inovação – ou centronenhum.

Nas páginas que se seguem, concentrar-me-ei em três temas maiores: aredescoberta da história das mentalidades, a tentativa de empregar métodosquantitativos na história cultural e, finalmente, a reação contrária a tais métodos, quertomem a forma de uma antropologia histórica, um retorno à política ou o ressurgimentoda narrativa. O preço a ser pago por esta decisão é, infelizmente, ter de excluir um bomnúmero de trabalhos interessantes, especialmente a contribuição feita à história dasmulheres por Farge, Klapisch, Perrot e outros. É a única maneira de evitar, contudo, queeste capítulo seja tão fragmentado quanto dizem que é a escola dos Annales.

I – DO PORÃO AO SÓTÃO

Como vimos, na geração de Braudel, a história das mentalidades e outras formasde história cultural não foram inteiramente negligenciadas, contudo, situavam-semarginalmente ao projeto dos Annales . No correr dos anos 60 e 70, porém, umaimportante mudança de interesse ocorreu. O itinerário intelectual de algunshistoriadores dos Annales transferiu-se da base econômica para a “superestrutura”cultural, “do porão ao sótão”.

Por que isso teria acontecido? A mudança de interesse, estou convencido, foi emparte uma reação contra Braudel. Como foi também, de outra parte, uma reação maisampla contra qualquer espécie de determinismo.

Foi realmente um historiador da geração de Braudel que despertou a atençãopública para a história das mentalidades, através de um livro notável, quase sensacional,publicado em 1960. Philippe Ariès era um historiador diletante, “um historiadordomingueiro”, como ele próprio se chamava, que trabalhava num instituto de frutostropicais, devotando seu tempo de lazer à pesquisa histórica. Demógrafo histórico porformação, Ariès veio a rejeitar a perspectiva quantitativa (da mesma maneira querejeitou outros aspectos do mundo burocrático-industrial moderno). Seus interesses direcionaram-se para a relação entre natureza e cultura, para as formas pelas quais umacultura vê e classifica fenômenos naturais tais como a infância e a morte.

Em seu estudo sobre as famílias e as escolas durante o antigo regime, Arièsdefende que a idéia de infância, ou, mais exatamente, que o sentimento da infância, nãoexistia na Idade Média. O grupo etário que chamamos de “crianças” era visto, mais oumenos, como animais até a idade de sete anos e quase que como uma miniatura dosadultos daí em diante. A infância, de acordo com Ariès, foi descoberta na França, naaltura do século XVII. Foi por esse tempo que, por exemplo, roupas especiais eramdestinadas às crianças, como a “robe” para meninos. Cartas e diários do períododocumentam o interesse crescente dos adultos no comportamento das crianças, quetentavam, algumas vezes, reproduzir a fala infantil. Baseou-se também em registrosiconográficos, como o crescente número de quadros de crianças, para ilustrar a hipótesede que a consciência da infância como uma fase do desenvolvimento humano retroageao limiar dos tempos modernos-não vai além (Ariès, 1960).

L’Enfant et la vie fanúliale sous l’Ancien Regime é um livro polêmico e foimesmo criticado por muitos historiadores, justa e injustamente. Especialistas na IdadeMédia encontraram evidências contra suas generalizações excessivas sobre o período.Outros historiadores criticaram Ariès por estudar a evolução européia, apoiando-se tãosomente em evidências quase que exclusivamente limitadas à França, e por nãodistinguir com mais clareza entre as atitudes dos homens e das mulheres, das elites e dopovo comum.

Pelo sim, pelo não, foi uma contribuição de Ariès colocar a infância nomapa histórico, inspirar centenas de estudos sobre a história da criança em diferentesregiões e períodos, e chamar a atenção de psicólogos e pediatras para a nova história.

Seus últimos anos foram dedicados a estudos sobre as atitudes perante a morte,focalizando de novo um fenômeno da natureza refratado pela cultura, a culturaocidental, e atendendo a um famoso reclamo de Lucien Febvre, em 1941, “Nós nãopossuímos uma história da morte” (Febvre, 1973, p. 24). Seu alentado livro, L’Hommedevant la mort , distingue, num panorama de seu desenvolvimento sob uma muito longaduração, quase mil anos, uma seqüência de cinco atitudes, que vão desde a “mortedomada” da baixa Idade Média, uma visão definida com um “compósito de indiferença,resignação, familiaridade e ausência de privacidade”, ao que ele chama “morteinvisível” (la mort inversée), de nossa própria cultura, na qual, subvertendo as práticasvitorianas, tratamos a morte como um tabu e discutimos abertamente o sexo (Ariès,1977).L’Homme devant la mort tem os mesmos méritos e defeitos do livro L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Regime . Nele se encontram a mesma audácia e a mesmaoriginalidade, o mesmo uso de uma ampla variedade de evidências, que inclui literaturae arte, mas não a estatística, e a mesma vontade de não traçar cartas regionais ou sociaisde diferenças.

O livro de Philippe Ariès foi particularmente um desafio aos demógrafoshistóricos; um desafio ao qual alguns deles responderam dando maior atenção ao papeldos valores e das “mentalidades” no “comportamento demográfica”; em outras palavras, pelo estudo da família, da sexualidade e, como desejava Febvre, da história do amor. Afigura central desse desdobramento é Jean-Louis Flandrin, cujos estudos sobre o antigoregime francês direcionaram-se para questões tais como a natureza da autoridadepaterna, atitudes em relação às crianças, a influência do ensino religioso sobre asexualidade e sobre a vida emocional dos camponeses (Flandrin, 1976). Os estudosnessa área muito contribuiram para estabelecer uma ponte entre a história dasmentalidades baseada em fontes literárias (por exemplo, o Rabelais de Febvre) e ahistória social, que negligenciava o estudo de valores e atitudes.

No interior do grupo dos Annales , alguns historiadores sempre estiveramenvolvidos prioritariamente com os fenômenos culturais. Tome-se o exemplo deAlphonse Dupront, um historiador da geração de Braudel, não muito conhecido, mascuja influência sobre a nova geração foi considerável.

Desse ponto de vista, ele podeser considerado o Labrousse da história cultural. Sua tese doutoral, que despertou umaatenção favorável de Braudel por sua preocupação com as atitudes inconscientes,analisava a idéia da “cruzada” como uma instância da sacralização, uma guerra santapara a conquista dos lugares sagrados Braudel, 1969, pp. 32,57). Mais recentemente,voltou a sua atenção para a peregrinação, interpretada como uma busca do sagrado e umexemplo da “sensibilidade coletiva” em relação a lugares de poder cósmico comoLurdes ou Rocamadour. Seu interesse pelos espaços sagrados inspirou alguns de seusdiscípulos a investigar as mudanças nos projetos arquitetônicos das igrejas e osignificado simbólico dessas mudanças. Combina seu interesse pelos grandes temas –como o sagrado – com uma grande precisão no inventário ou na cartografia das (ditas)imagens miraculosas. Dupront tem trabalhado, durante toda a sua carreira, no sentido derelacionar a história da religião com a psicologia, sociologia e com a antropologia(Dupront, 1961, 1965,1974,1987).

A figura principal na psicologia histórica à la Febvre foi o falecido RobertMandrou (Joutard/Lecuir, 1985). Logo após a morte de Febvre, Mandrou encontrouentre seus papéis um arquivo contendo notas sobre um livro não escrito, que deveria tersido a continuação do Rabelais , sobre o nascimento da mentalidade moderna francesa.Decidiu prosseguir a obra de seu mestre e publicou sua Introduction à la France Moderne , com o subtítulo “Um ensaio em psicologia histórica – 1500-1640”, em queincluía capítulos sobre saúde, emoções e mentalidades (Mandrou, 1961). Logo depoisda publicação desse livro, ocorreu a ruptura entre Braudel e Mandrou. Quaisquer quetenham sido as razões pessoais, a ruptura se produziu no decorrer de um debate sobre ofuturo do movimento dos Annales . Nessa discussão, Braudel defendeu a inovação,enquanto Mandrou preferia a herança de Febvre, o que ele chamava “o estilo original” (Annales première manière), em que a psicologia histórica ou a história das mentalidadesdesempenhavam um papel importante.

Mandrou prosseguiu em sua abordagem com a publicação de um livro sobre acultura popular nos séculos XVII e XVIII e, depois, com um estudo sobre Magistrats et sorciers en France au XVII e siècle com o subtítulo “Uma análise de psicologiahistórica” (Mandrou, 1968). Ambos os temas, bruxaria e cultura popular, rapidamenteatraíram, na época, um interesse histórico crescente. Jean Delumeau, que iniciara a carreira como historiador socioeconômico, transferiu suas preocupações com aprodução de alumem nos estados papais para os problemas da história da cultura. Suaprimeira tentativa foi no sentido da história da Reforma e da denominada“descristianização” da Europa. Mais recentemente, Delumeau voltou-se para apsicologia histórica, no sentido febvriano do termo, e escreveu uma ambiciosa históriado medo e da culpa no Ocidente, discriminando “os medos da maioria (o mar,fantasmas, pragas e fome) dos medos da “cultura dominante” (satã, judeus, mulheres –principalmente feiticeiras).

Psico-História

Delumeau utilizou, ocasionalmente, as idéias de psicanalistascomo Wilhelm Reich e Erich Fromm. Havia sido precedido nesse sentido por Le RoyLadurie, cujo Les paysans de Languedoc (1966), analisado no capítulo anterior, incluíalivros de Freud na bibliografia, espremidos entre um estudo dos preços do trigo emToulose e uma análise da estrutura de classes no início da sociedade moderna. Le Roydescreveu o carnaval de Romans como um psicodrama, “que dava acesso imediato acriações do inconsciente”, tais como fantasias de canibalismo, e interpretou asconvulsões proféticas dos camisards em termos de histeria. Ele foi, porém, o primeiro aadmitir: “Cavalier e Mazel (os líderes da revolta), não podem deitar-se no divã de umhipotético historiador psicanalista. Podem-se apenas neles observar certos traçosevidentes que geralmente encontramos em casos de histeria semelhantes” (Le RoyLadurie, 1966, pp.196, 284). De maneira semelhante, Le Roy observa um aspecto antesnegligenciado nos julgamentos por feitiçaria: a acusação de que feiticeiras tornavam suavítima impotente fazendo um nó durante a cerimônia do casamento, um ritual queinterpretou persuasivamente como uma castração simbólica (Le Roy Laurie, 1978, cap.3).

Outros membros do grupo dos Annales iam na mesma direção, especialmenteAlain Besançon, um especialista na Rússia do século XIX, que escreveu um longoensaio na revista sobre as possibilidades do que ele denominava “história psicanalítica”.Tentou pôr em prática essas possibilidades num estudo sobre pais e filhos. O estudofocalizava dois tzares, Ivã, o Terrível, e Pedro, o Grande, o primeiro matou seu filho, e osegundo condenou o seu à morte (Besançon, 1968, 1971).

Lucien Febvre tomou emprestadas suas idéias sobre a psicologia de Blondel eWallon. Besançon, Le Roy Ladurie e Delumeau tomaram suas idéias principalmente deFreud, dos freudianos ou neofreudianos. O estilo americano de psico-história, orientadono sentido do estudo de indivíduos, finalmente encontrou a psicologia históricafrancesa, dirigida no sentido do estudo de grupos, embora as duas correntes não setenham fundido numa síntese.

Ideologias e Imaginário Social

Contudo, a tendência principal la numa direçãodiferente. Dois dos mais destacados historiadores recrutados para a história dasmentalidades, no início dos anos 60, foram os medievalistas Jacques Le Goff e GeorgesDuby. Le Goff, por exemplo, publicou um famoso artigo em 1960 sobre “O tempo dosmercadores e o tempo da Igreja na Idade Média” (Le Goff, 1977,29-42). Em seu estudosobre o problema do ateísmo no século XVI, Febvre havia analisado o que chamara de o“flutuante” ou “impreciso” sentido de tempo de um período em que as pessoasfreqüentemente desconheciam a própria idade e mediam seu dia não pelo relógio, maspelo sol (Febvre, 1942, pp. 393-9). Le Goff sofisticou as generalizações de Febvre, elas mesmas um pouco imprecisas, e discutiu o conflito entre as concepções do clero e asdos mercadores.

Sua contribuição mais substancial, contudo, para a história das mentalidades, ouà história do “imaginário medieval”, como agora denomina, foi realizada vinte anosdepois com a publicação do La naissance du Purgatoire , uma história das mudanças dasrepresentações da vida depois da morte. Segundo Le Goff, o nascimento da idéia dePurgatório fazia parte da “transformação do cristianismo feudal”, havendo conexõesentre as mudanças intelectuais e as sociais. Ao mesmo tempo, insistia na “mediação” de“estruturas mentais”, de “hábitos de pensamento”, ou de “aparatos intelectuais”, emoutras palavras, de mentalidades, observando que, nos séculos XII e XIII, surgiramnovas atitudes em relação ao tempo, espaço e número, inclusive o que ele chamava do“livro contábil da vida depois da morte”.

No que concerne a Georges Duby, ele fez sua reputação como um historiadorsocial e econômico da França Medieval. Sua tese, publicada em 1953, teve como tema asociedade na região de Macon. Em seguida, publicou um substancial trabalho de síntesesobre a economia rural do Ocidente medieval. Ambos os estudos seguem de perto atradição estabelecida pelos livros de Bloch La societé feudal e Les caracteres originauxde l’histoire rurale française . Na década de 60, como seus interesses moveram-segradualmente em direção à história das mentalidades, colaborou com Mandrou em suahistória cultural da França. Posteriormente, foi além de Bloch e do estilo original dos Annales . Inspirado em parte na teoria social neomarxista, preocupou-se com a históriadas ideologias, da reprodução cultural e do imaginário social, que procura combinarcom a história das mentalidades. Seu mais importante livro, Les trois ordres , em muitosaspectos, caminha paralelamente ao livro de Le Goff, O Purgatório . Sua investigaçãorecai sobre o que autor denomina “as relações entre o mental e o material no decorrer damudança social, através do estudo de caso, a saber, o da representação coletiva dasociedade dividida em três grupos, padres, cavaleiros e camponeses, isto é, os querezam, os que guerreiam e os que trabalham (ou lavram – o verbo latino laborare éconvenientemente ambíguo).

Duby está perfeitamente ciente de que, como o grande historiador clássicoGeorges Dumézil havia assinalado, essa concepção de sociedade formada de três gruposque exercem as três funções básicas, está entranhada na tradição Indo-Européia e podeser encontrada desde a antiga índia à Gália dos tempos de César.

Duby mostra, tal comoos medievalistas haviam feito antes, que essa imagem de três ordens tem a função delegitimar a exploração dos camponeses por seus senhores, sugerindo que cada umdesses grupos serve a sociedade de maneira diversa. Sua análise, porém, não pára aí. Oque lhe interessa é saber a razão pela qual é reativada essa concepção tripartite dasociedade, de Wessex à Polônia, e do nono século em diante, através de uma longadiscussão do contexto sócio-político desse ressurgimento, especialmente na França,onde a imagem ressuscitou no início do século XI.

Duby sugere que a reativação da imagem corresponde a uma nova necessidade.Numa época de crise política, como por exemplo na França do século XI, foi uma “arma” nas mãos dos monarcas, que proclamavam concentrar em sua própria pessoa astrês funções básicas. Latente na “mentalidade” da época, esse sistema intelectual foiconcretizado como ideologia com finalidades políticas. Ideologia, observa Duby, não éum reflexo passivo da sociedade, mas um projeto para agir sobre ela (Duby, 1978).

A concepção de ideologia de Duby não está longe da de Louis Althusser, que adefiniu, um dia, como “a relação imaginária dos indivíduos com as condições reais desua existência”.

De maneira similar à de Duby, um especialista em século XVIII,Michel Vovelle, fez uma séria tentativa de fundir a história das mentalidades coletivas ,no estilo de Febvre ou Lefebvre, com a história das ideologias marxista (Vovelle, 1982,especialmente, 5-17).

Não é tão surpreendente encontrar contribuições importantes à história dasmentalidades feitas por medievalistas como Duby e Le Goff. A distância temporal quenos separa da Idade Média, sua “alteridade”, coloca problemas que uma abordagemdesse tipo auxilia resolver. Por outro lado, os tipos de fontes que restaram da IdadeMédia não são menos aceitáveis para uma outra das novas abordagens da cultura, ahistória serial.

II – O “TERCEIRO NÍVEL” DA HISTÓRIA SERIAL

A história das mentalidades não foi marginalizada nos Annales , em sua segundageração, apenas porque Braudel não tinha interesse nela. Existiram pelo menos, duasoutras razões mais importantes para essa marginalização. Em primeiro lugar, um bomnúmero de historiadores franceses acreditava, ou pelo menos pressupunha, que ahistória social e econômica era mais importante, ou mais fundamental, do que outrosaspectos do passado. Em segundo lugar, a nova abordagem quantitativa, analisada nocapítulo anterior, não encontrava no estudo das mentalidades o mesmo tipo desustentação oferecido pela estrutura socioeconômica.

A abordagem quantitativa ou serial segue as linhas definidas por Chaunu, nummanifesto bastante conhecido em favor do que denomina (seguindo uma observaçãofeita por Ernest Labrousse) “o quantitativo no terceiro nível” (Chaunu, 1973). O artigode Lucien Febvre, “Amiens, da Renascença à Contra-Reforma”, publicado nos Annales em 1941, mostra a importância do estudo das séries de documentos (no caso,inventários post mortem ), na longa duração, a fim de mapear mudanças de atitudes emesmo no gosto artístico (Febvre, 1973, p. 193-207). Observe-se, contudo, que Febvrenão oferecia a seus leitores estatísticas precisas. A abordagem estatística foidesenvolvida para estudar a história da prática religiosa, a história do livro e a históriada alfabetização. Espraiou-se, algum tempo depois, para outros domínios históricos.

A idéia de uma história da prática religiosa francesa , ou de uma sociologiaretrospectiva do catolicismo francês, baseada em estatísticas da freqüência à comunhão,das vocações religiosas etc., remonta a Gabriel Le Bras, que publicou um artigo sobre otema, em 1931 (Le Bras, 1931). Le Bras, um sacerdote católico de fora também colegade Febvre e Bloch em Estrasburgo, tinha um grande interesse em teologia, história, legislação e sociologia. Criou uma escola de historiadores da Igreja e sociólogos dareligião, que estavam particularmente preocupados com o que chamavam de“descristianização” da França do final do século XVIII em diante, investigando aquestão através de métodos quantitativos.

Le Bras e seus seguidores não pertenceram ao grupo dos Annales -eramgeralmente padres e possuíam seus próprios centros e revistas, tais como a Revue del ’histoire de l’église de France.

Contudo, o trabalho de Le Bras (vivamente acolhidopor seu antigo colega Lucien Febvre) e de seus seguidores era claramente inspiradopelos Annales.

Pode-se tomar como um exemplo desse substancial corpo de trabalhoa tese sobre a diocese de La Rochelle, nos séculos XVII e XVIII. É estruturada demaneira muito próxima de um dos estudos regionais associados aos Annales , iniciando-se pela descrição geográfica da diocese, passa pela discussão da situação religiosa efinaliza com os acontecimentos e tendências de 1648 a 1724. A utilização dos métodosquantitativos lembra também as monografias regionais dos discípulos de Braudel eLabrousse.

Por seu lado, a obra do círculo de Le Bras (como o de Ariès) inspirou algunshistoriadores dos Annales quando se elevaram do porão ao sótão. Estudos regionaismais recentes sobre Anjou, Provença, Avignon e Bretanha dedicaram-se maisfortemente à cultura do que seus predecessores, e, em particular, às atitudes diante damorte. Como escreveu Le Goff no prefácio de um desses estudos, “a morte está namoda” (Lebrun, 1971; Vovelle, 1973; Chiffoleau, 1980; Croix, 1983).

O mais original desses trabalhos é o de Vovelle. Um historiador marxista daRevolução Francesa, “formado na escola de Ernest Labrousse”, como ele próprio diz,Vovelle interessou-se pelo problema da “descristianização”. Sua idéia foi a de tentarmensurar esse processo pelo estudo das atitudes diante da morte e o além tal como sãoreveladas nos testamentos. O resultado, consubstanciado em sua tese doutoral, foi umestudo da Provença fundamentado na análise sistemática de cerca de 30.000testamentos. Onde historiadores anteriores haviam justaposto evidências quantitativassobre mortalidade com evidências mais literárias sobre as atitudes frente a morte,Vovelle quis mensurar mudanças no pensamento e no sentimento. Deu atenção, porexemplo, às referências feitas à proteção dos santos padroeiros; ao número de missasque o testador encomenda para a salvação de sua alma; aos arranjos feitos para osfunerais e mesmo ao peso das velas acendidas durante a cerimônia.

Vovelle identificou uma mudança bastante significativa no que denominou de“pompa barroca” dos funerais do século XVII para a singeleza dos funerais do séculoXVIII. Sua principal pressuposição era a de que a linguagem dos testamentos refletia “osistema de representações coletivas; sua conclusão mais importante foi a identificaçãode tendências à secularização, sugerindo que a “descris- tianização” nos anos daRevolução Francesa foi espontânea e não imposta de cima, por fazer parte de umatendência mais ampla. Digna de nota é a maneira pela qual Vovelle mapeia a expansãodas novas atitudes da nobreza para com os artesãos e camponeses, das grandes cidades,como Aix, Marselha e Toulon, através de pequenas cidades, Barcelonette, por exemplo, para as pequenas vilas. Sua argumentação era ilustrada com uma grande quantidade demapas, gráficos e tabelas.

Piété baroque et Dechristianisation , título do estudo de Vovelle, produziu umacerta sensação intelectual, graças particularmente ao uso virtuoso das estatísticas,acompanhado de um agudo senso das dificuldades em interpreta-las. Foi esse livro quelevou Chaunu a organizar uma investigação coletiva sobre as atitudes diante da mortena Paris do início da época moderna, utilizando métodos semelhantes (Chaunu,1978b).

O que Ariès vinha realizando sozinho no campo da história da morte, em seuestilo deliberadamente impressionista, foi assim completado por pesquisas coletivas equantitativas de profissionais”.

Essa apropriação da vida depois da morte por historiadores laicos, armados decomputadores, é ainda o mais notável exemplo da história serial de terceiro nível.Outros historiadores da cultura, porém, utilizaram de maneira eficiente os métodosquantitativos, especialmente na história da alfabetização e na história do livro.

O estudo da alfabetização é um outro campo da história cultural que conduz àpesquisa coletiva e à análise estatística. De fato, um diretor de escola francês levou acabo pesquisas nessa área, no período da década de 1870, utilizando como fonte,assinaturas em registros de casamento o que o levou a notar profundas diferenças nosvários departamentos, bem como o crescimento da alfabetização a partir do séculoXVII. Na década de 50, dois historiadores reanalisaram seus dados e apresentaram, soba forma de mapas cartográficos, o dramático contraste entre duas Franças, separadas porum linha que ia de St. Malo a Genebra. Na parte nordeste dessa linha, a alfabetizaçãoera relativamente elevada, enquanto na parte sudoeste era baixa (Fleury/Valmary,1957).

O projeto mais importante nesse campo, iniciado na década de 70, foi levado aefeito na École des Hautes Études, dirigido por François Furet – um discípulo de Ernest Labrousse, que havia trabalhado antes sobre a análise quantitativa das estruturas sociais– e Jacques Ozouf. O tema do projeto era a mudança dos níveis de alfabetização, naFrança do século XVI ao XIX (Furet e Ozouf, 1977). Os pesquisadores utilizaramfontes mais variadas, do recenseamento às estatísticas do exército sobre os conscritos, oque os habilitava antes a afirmar do que a presumir a correlação entre a habilidade deassinar o próprio nome à capacidade de ler e escrever. Confirmaram a tradicionaldivisão entre duas Franças, mas sofisticaram a análise estabelecendo distinções dentrodas regiões. Entre outras conclusões interessantes, notaram que, no século XVIII, aalfabetização cresceu mais rapidamente entre as mulheres do que entre os homens.

As pesquisas sobre a alfabetização foram acompanhadas de pesquisas sobre oque os franceses chamam de “a história do livro”. Pesquisas que não se preocupavamcom os grandes livros, mas com as tendências da sua produção e com os hábitos deleitura dos diferentes grupos sociais (Roche/Chartier, 1974). O estudo de culturapopular de Robert Mandrou, já mencionado anteriormente, por exemplo, lidava com literatura de Cordel, a chamada “Biblioteca Azul” (Mandrou, 1964).

Tais livros, quecustavam um ou dois sous , eram distribuídos por mascates e produzidos em grandeparte por famílias de impressores em Troyes, localizada na região Nordeste da França,onde a taxa de alfabetização era elevada.

Mandrou examinou cerca de 450 títulos,assinalando a importância da leitura religiosa (120 .títulos), almanaques e mesmoromances de cavalaria.

Concluiu que essa literatura era essencialmente uma “literaturade evasão”, lida especialmente pelos camponeses e que revelava uma mentalidade“conformista”.

Estas duas últimas conclusões foram contestadas por outrospesquisadores que trabalharam no mesmo assunto.

Ao mesmo tempo que Mandrou, a VI Seção lançou um projeto de pesquisacoletiva sobre a história social do livro no século XVIII francês (Bolléme, 1965). Afigura-chave da história do livro, porém, é um outro colaborador de Febvre, Henri-JeanMartin, da Biblioteca Nacional. Martin colaborara com Febvre na elaboração de umlevantamento geral da invenção e expansão da impressão, L’Apparition du livre , 1958.Prosseguiu seu trabalho escrevendo um rigoroso estudo quantitativo sobre o comérciodo livro e o público leitor do século XVII francês, no qual analisava não somente astendências da produção do livro, mas também as mudanças no gosto dos diferentesgrupos de leitores, especificamente os magistrados do parlamento de Paris, tais comosão reveladas, em suas bibliotecas particulares, pela proporção dos livros em diversasáreas (Martin, 1969). Daí em diante, Martin dirigiu um maciço trabalho coletivo sobre ahistória do livro na França (Martin e Chartier, 1983-86).

Um dos principais colaboradores nessas empresas coletivas, Daniel Roche,organizou um grupo de pesquisa próprio, em meados da década de 70, para estudar avida cotidiana do povo comum na Paris do século XVIII. No livro que se seguiu àpesquisa coletiva, Le peuple de Paris , um capítulo substancial foi dedicado à literaturapopular, concluindo que ler e escrever desempenhava um papel importante na vida dealguns grupos no interior das classes inferiores, os criados em especial (Roche, 1981,cap. 7). O lado mais surpreendente do livro, contudo, é a localização dessa análise daleitura no interior da estrutura de um estudo da cultura material do parisiense comum.Esse é um estudo de história serial, baseado essencialmente em inventários post mortem ,repletos de detalhes sobre as roupas e os móveis do defunto, detalhes que Rocheinterpreta com grande habilidade, visando construir um retrato da vida cotidiana. Aindarecentemente, escreveu uma história social do vestuário do início da França moderna, denovo mesclando seus interesses pela antropologia histórica, característica da terceirageração, com os mais rigorosos métodos do seu antigo mestre Labrousse (Roche, 1989).

III – REAÇÕES: ANTROPOLOGIA, POLÍTICA E NARRATIVA

A abordagem quantitativa da história em geral, ou da história cultural emparticular, pode ser criticada, obviamente, como reducionista. De maneira geral, o quepode ser medido não é o que importa. Os historiadores quantitativos podem contar asassinaturas nos registros de casamentos, os livros em bibliotecas particulares, os quecomungam na Páscoa, as referências ao juízo divino, etc. O problema que permanece éo de saber se essas estatísticas são indicadores seguros de alfabetização, de religiosidade, ou de qualquer coisa que o historiador queira investigar. Algunshistoriadores levantaram dúvidas quanto à validade desses números, outros aceitaram-na. Alguns fizeram uso de outros tipos de evidência para tornarem suas estatísticassignificativas; outros não. Alguns assinalaram que tratavam de pessoas reais, outrosesqueceram esse fato. Qualquer avaliação do movimento necessita discriminar a maismodesta e a mais calorosa defesa do método, e também as formas de aplicação, umascruamente, outras com fineza.

No final da década de 70, os inconvenientes dessa espécie de história tornaram-se visíveis. De fato, houve algo como que uma reação negativa indiscriminada contra aabordagem quantitativa. Ao mesmo tempo se formava uma reação contrária ao que os Annales defendiam, especialmente contra o domínio da história estrutural e social.Olhando para o lado positivo dessas reações, podemos distinguir três correntes: umamudança antropológica, um retorno à política e um ressurgimento da narrativa.

A viragem antropológica

A viragem antropológica pode ser descrita, com maisexatidão, como uma mudança em direção à antropologia cultural ou “simbólica”. Afinalde contas, Bloch e Febvre leram o seu Frazer e seu Lévy-Bruhl e usaram essas leiturasem suas obras sobre a mentalidade medieval e seiscentista. Braudel era familiarizadocom a obra de Marcel Mauss, que fundamenta sua discussão sobre fronteiras eintercâmbios culturais. Na década de 60, Duby utilizara os trabalhos de Mauss eMalinowski sobre a função dos presentes, a fim de entender a história econômica dabaixa Idade Média (Duby, 1973).

Tudo o que os historiadores anteriores pareciam desejar de sua disciplina vizinhaera a oportunidade de sobrevoá-la, de tempos em tempos, em busca de novos conceitos.Alguns historiadores das décadas de 70 e 80, contudo, demonstraram intenções maissérias. Podiam mesmo pensar em termos de casamento, em outras palavras em termosde “antropologia histórica” ou de “etno-história” (Burguiére, 1978).

Mas o que mais atraía esses historiadores era a nova “antropologia simbólica”.Os nomes que surgem em suas notas de rodapé incluem Erving Goffman e VictorTurner (que realçam os aspectos dramáticos da vida cotidiana), Pierre Bourdieu eMichel de Certeau. Bourdieu, que havia trocado os estudos antropológicos da Argéliapela sociologia da França contemporânea, exerceu influência em diversos aspectos.Suas idéias sobre a sociologia da educação (uma de suas principais áreas de interesse),especificamente a idéia da educação como um instrumento de “reprodução social”,lastreou estudos recentes sobre a história social das escolas e da universidades(Bourdieu, 1970; Chartier, Compére e Julia, 1976). Seu conceito de “capital simbólico”fundamenta alguns trabalhos recentes sobre a história do consumo ostensivo.Historiadores de mentalidades, cultura popular e da vida cotidiana, todos aprenderamcom a “teoria da prática” de Bourdieu. A substituição da idéia de “regras sociais” (queconsidera muito rígida e determinista) por conceitos mais flexíveis como “estratégia” e“habitus” afetou de tal maneira a prática dos historiadores franceses que seria ilusórioreduzi-la a exemplos específicos, como as estratégias matrimoniais dos nobres na IdadeMédia (Bourdieu, 1972).

Outra influência ampla é a do falecido Michel de Certeau, um jesuíta especialistana história da religião. Contudo, era impossível atá-lo a uma única disciplina. Foi, entreoutras coisas, psicanalista, e sua análise dos casos de possessão diabólica durante oséculo XVII, original e importante (De Certeau, 1975, caps. 6 e 8). Mais influentes,porém, foram suas contribuições em outros três campos. Juntamente com doishistoriadores do grupo dos Annales , escreveu um estudo pioneiro sobre a política dalinguagem, analisando pesquisa sobre dialetos locais, realizada durante a RevoluçãoFrancesa pelo abade Gregoire, a qual refletia o desejo do regime revolucionário poruniformidade e centralização (De Certeau, Revel e Julia, 1975). Organizou também umestudo coletivo sobre a vida cotidiana contemporânea francesa, em que rejeitou o mitodo consumidor passivo e enfatizou o que denominou “o consumo como produção”; emoutras palavras, a criatividade do povo comum em adaptar os produtos fabricados emsérie (dos móveis aos dramas televisivos) às suas necessidades pessoais (De Certeau,1980).

O mais importante de tudo, talvez, sejam seus ensaios sobre a escrita da história,concentrando-se sobre o processo que descreve como a construção do “outro” (os índiosdo Brasil, por exemplo), freqüentemente como o inverso da imagem que o escritor temde si mesmo (De Certeau, 1975).

As idéias de Goffman, Turner, Bourdieu, De Certeau e outros foram adotadas,adaptadas e utilizadas para construir uma história mais antropológica. Jacques Le Goff,por exemplo, vem trabalhando há mais de vinte anos no que pode ser descrito comoantropologia cultural da Idade Média, indo da análise estrutural das lendas ao estudo dosgestos simbólicos da vida social, especialmente o rito da vassalagem (Le Goff, 1977,pp. 225-87, conf. Schmitt, 1984). Emmanuel Le Roy Ladurie foi na mesma direçãonuma série de estudos, dos quais o mais famoso, de longe, é o seu Montaillou (1975).

Montaillou é uma aldeia em Ariége, sudoeste da França, região em que a heresiacátara teve influência considerável, em princípios do século XIV. Os heréticos locaisforam processados, interrogados e punidos pelo bispo local, Jacques Fournier. Osregistros dos interrogatórios sobreviveram e foram publicados em 1965. Foi, semdúvida, o interesse de Le Roy pela antropologia social que lhe permitiu ver o valordessa fonte, não somente para o estudo dos cátaros, mas também para a história ruralfrancesa. Ele notou que vinte e cinco indivíduos, cerca de um quarto dos suspeitosarrolados, procediam da mesma aldeia. Sua inspiração foi tratar os registros como sefossem gravações de um conjunto de entrevistas com esses vinte e cinco indivíduos,mais ou menos dez por cento da população da aldeia.

Tudo o que tinha de fazer, diz-nosLadurie, era re-ordenar a informação fornecida aos inquisidores, pelos suspeitos sob aforma de um estudo de comunidade do tipo que os antropólogos escrevemfreqüentemente.

Dividiu-o em duas partes. A primeira trabalha com a cultura materialde Montaillou , as casas, por exemplo, construídas de pedras sem argamassa, permitindoaos vizinhos observar e ouvir uns aos outros, através das fendas. A segunda parte dolivro se preocupa com as mentalidades dos aldeões – seu sentido de tempo e espaço,infância e morte, sexualidade, Deus e natureza.

Como Braudel, Le Roy descreve e analisa a cultura e a sociedade mediterrânica,mas não se pode dizer que tenha esquecido o povo nesse livro. O livro atraiu um vastogrupo de leitores e permanece na memória essencialmente porque o autor tem o dom de trazer os indivíduos de volta à vida, desde o gentil, adepto do “amor-livre”, PierreMaury, “o bom pastor”, até a aristocrata local, a sensual Beatrice des Planissoles, e seusedutor, o agressivo e autoconf ante padre Pierre Clergue.

Montaillou é também um estudo de história social e cultural ambicioso. Suaoriginalidade não reside nas questões postas, que, como já vimos, são as questõespropostas por duas gerações de historiadores franceses, incluindo Febvre (sobre oateísmo) e Braudel (sobre a casa), Ariès (sobre a infância), Flandrin (sobre asexualidade) e tantos outros. Le Roy foi um dos primeiros a usar os registros dainquisição para a reconstrução da vida cotidiana e suas atitudes, mas não estava sozinhonisso. A novidade de sua abordagem está em sua tentativa de escrever um estudohistórico de comunidade no sentido antropológico – não a história de uma aldeiaparticular, mas o retrato da aldeia, escrita nas palavras dos próprios habitantes, e oretrato de uma sociedade mais ampla, que os aldeãos representam.

Montaillou é umprimeiro exemplo do que viria a se chamar de “micro-história”.

Seu autor estudou omundo através de um grão de areia, ou, em sua própria metáfora, o oceano através deum gota de água.

É precisamente sobre esse ponto que se concentraram algumas das mais sériascríticas ao livro.

Montaillou foi atacado, – à parte inexatidões de detalhes – devido aouso não crítico de sua principal fonte, que Le Roy descreveu, uma vez, como “otestemunho sem intermediário, que traz o camponês sobre si mesmo” (Le. Roy Ladurie,1975, p. 9). É claro que nada disso ocorria. Os aldeões depunham em occitanês e seustestemunhos eram escritos em latim. Não era uma conversa espontânea sobre simesmos, mas respostas a questões sob a ameaça de torturas. Os historiadores nãopodem permitir-se esquecer esses intermediários entre si e os homens e mulheres queestudam.

A segunda crítica importante ao livro – e da abordagem micro-histórica cada vezmais popular que ajudou a inspirar – traz à tona a questão da tipicidade.

Nenhumacomunidade é uma ilha, nem mesmo uma aldeia de montanha como Montaillou . Suasconexões com o mundo exterior, tão distante quanto a Catalunha, emergem claramentedo próprio livro. O problema permanece: Que unidade maior representa a aldeia? É umagota de que oceano? Pressupõe-se que é típica de Ariége, do Sul da França, do mundomediterrânico ou da Idade Média? Apesar de sua experiência prévia com estatísticas, oautor não chega a discutir este problema metodológico crucial. Teria sido pelo fato deque escreveu Montaillou como reação à aridez da história quantitativa?

Como no caso das casas de pedra da própria aldeia, é fácil encontrar fendas no Montaillou . É preciso lembrar acima de tudo o poder do seu autor trazer o passado àvida e também colocar em questão os documentos, lendo-os nas entrelinhas e fazendo-os revelar o que nem mesmo os aldeões sabiam que sabiam. É um brilhante tour de force da imaginação histórica e uma revelação das possibilidades de uma históriaantropológica.

Mais paradoxal é a contribuição de Roger Chartier, para esse tipo de história,que é mais conhecido por seu trabalho conjunto com Martin, Roche e outros, sobre ahistória do livro, discutido no capítulo anterior. Pode parecer estranho descrever umespecialista em história da alfabetização como antropólogo histórico, e estou longe deestar seguro de que Chartier aceitaria esse rótulo.

Mesmo assim, a força impulsora deseu trabalho vai na mesma direção dos trabalhos recentes em antropologia cultural.

A importância dos ensaios de Chartier está em que exemplificam e discutemuma mudança na abordagem, como ele diz, “da história social da cultura para a históriacultural da sociedade”. Isto é, os ensaios sugerem que o que os historiadores anteriores,pertencentes ou não à tradição dos Annales , geralmente aceitavam como estruturasobjetivas, devem ser vistas como culturalmente “constituídas” ou “construídas”. Asociedade em si mesma é uma representação coletiva.

Os estudos das mentalidades por Philippe Ariès implicavam que a infância e amorte eram construções culturais, mas na obra de Roger Chartier esse ponto torna-seexplícito. Ele opta por estudar não tanto os camponeses ou os vagabundos, mas aimagem que deles têm as classes superiores, imagens do “outro”.

Diferentemente deFuret e Ozouf (ver acima), não discute as diferenças objetivas entre a França donordeste e a do sudoeste, segundo a linha Saint-Malo e Genebra. Ele se concentra naidéia das “duas Franças”, sua história e os efeitos desse estereótipo sobre as políticasgovernamentais (Chartier, 1988, caps. 5,7,8).

Distanciando-se dos chamados fatores“objetivos”, Chartier está de acordo com a antropologia corrente, com os trabalhosrecentes sobre “o imaginário” (discutidos acima) e também com o falecido MichelFoucault.

Apesar da crítica de Foucault à idéia de influência, torna-se difícil não utilizar otermo para descrever os efeitos de seus livros sobre os historiadores do grupo dos Annales.

Graças a ele, descobriram a história do corpo e os liames entre essa história e ahistória do poder. Importante também no desenvolvimento intelectual de muitoshistoriadores da terceira geração foi sua crítica aos historiadores, em razão de sua“pobre idéia do real”; em outras palavras, a redução do real ao domínio do social,deixando de fora o pensamento. A recente virada em direção à “história cultural dasociedade”, bem exemplificada em Chartier, deve muito à obra de Foucault.

Os estudos de Chartier sobre a história do livro seguem linhas semelhantes edemonstram sua crescente insatisfação com a história das mentalidades e com a históriaserial do terceiro nível.

Seus ensaios sobre a Bibliothèque Bleue , por exemplo, minama interpretação de Mandrou (discutida anteriormente), por sugerir que essa literatura deCordel não era lida exclusivamente por camponeses, ou mesmo pelas pessoas comuns.Pelo menos, antes de 1660, os clientes eram geralmente parisienses (Chartier, 1987, p.257).

Um ponto mais geral enfatizado por Chartier é que é impossível “estabelecerrelações exclusivas entre formas culturais específicas e grupos sociais particulares”.

Istoclaramente torna a história da cultura serial bem mais difícil, se não mesmo impossível.Chartier mudou, portanto, sua atenção, seguindo Pierre Bourdieu e Michel De Certeau,para as “práticas” culturais compartilhadas por vários grupos (Bourdieu, 1972, DeCerteau, 1980).

Em sua análise dos folhetos e outros textos, o termo central é “apropriação”. Opopular não deve, ele sugere, ser identificado com um corpus particular de textos,objetos, crenças, ou seja o que for. O popular está na “maneira de usar os produtosculturais”, tais como festivais ou matéria impressa. Os ensaios de Chartier estão,portanto, profundamente preocupados com a re-escritura, com as transformaçõessofridas pelos textos particulares quando adaptados às necessidades do público, ou maisexatamente de públicos sucessivos.

Uma preocupação semelhante com a apropriação e a transformação subjaz a dosmais impressionantes empreendimentos históricos franceses dos últimos anos, a obracoletiva sobre Les lieux de la mémoire , organizada por Pierre Nora, que combina ospapéis de historiador e editor (1986). Esses volumes, que discutem temas como abandeira francesa, a Marselhesa, o Panteão e a imagem do passado tal como éencontrada em enciclopédias e textos escolares, marcam um retorno às idéias deMaurice Halbwachs sobre a estrutura social da memória, idéias que haviam inspiradoMarc Bloch, mas que tinham sido negligenciadas pelos historiadores posteriores. Emsua preocupação com os usos do passado pelo presente, exemplificam uma abordagemantropológica, uma antropologia reflexiva neste caso, pois os autores são um grupo dehistoriadores franceses escrevendo sobre a história francesa. Organizados em torno dostemas “da Revolução” e “da Nação”, revelam também um retorno à política.

O retorno à política

Talvez a mais conhecida crítica à chamada Escola dos Annales tem sido a sua pressuposta negligência em relação à política, uma crítica que arevista parece confessar por levar em seu título o lema “economias, sociedades,civilizações”, sem mencionar estados. Há de fato alguma razão na crítica, mas énecessário torná-la mais precisa. Febvre e Braudel pouco se preocuparam com a políticanacional, o que não ocorreu com um bom número de historiadores proeminentes dogrupo, que estiveram envolvidos com a política francesa do pós-guerra, freqüentementecomo membros – pelo menos, por um certo tempo – do Partido Comunista. Asreminiscências de um deles traçam um quadro vivo das reuniões do partido, asdenúncias, as expulsões e as demissões nos anos que se seguiram a 1956.

A crítica de negligenciar a política foi, é claro, dirigida contra o trabalhohistórico do grupo, mas é necessário nuançar a afirmação. Seria difícil, por exemplo,sustentar esse argumento no caso de Marc Bloch. Seu livro Les Rois Thaumaturges foiescrito como uma contribuição à história das idéias de monarquia.

La societé féodale seinicia com um resumo das invasões, sofridas pela Europa Ocidental, de viquingues, mulçumanos e húngaros, e inclui um longo capítulo sobre o feudalismo como umaforma de governo.

No caso de Lucien Febvre, a crítica é mais procedente. Apesar de ter discutidolongamente a Revolta dos holandeses, em sua tese sobre Felipe II e o Franco-Condado,posteriormente denunciou com sua costumeira veemência a história política e dedicou-se à história das religiões e das mentalidades. Em Braudel, deve-se notar que a seção do Mediterrâneo dedicada às estruturas inclui capítulos sobre impérios e a preparação paraa guerra. É a história dos acontecimentos políticos e militares por ele rejeitada em razãode ser a mais superficial espécie de história.

Os estudos regionais dos princípios da França moderna, que levam a chancelados Annales , geralmente se limitavam à história social e econômica. O livro Beauvais de Goubert é um exemplo óbvio. Todavia ninguém pode classificar Goubert como umhistoriador não-político. Escreveu um livro sobre Luís XIV e um estudo sobre o antigoregime no qual o segundo volume trata do poder (Goubert, 1966, 1973). Talvez, aregião não seja um contexto adequado para o estudo da política do antigo regime. Essepressuposto talvez tenha impedido que os autores de alguns dos estudos regionaisincluíssem um capítulo sobre política. Contudo, a obra do discípulo de Mousnier sobrerevolta popular e alguns americanos recentes estudos sobre política regional indicamque esse pressuposto estava errado e que uma esplêndida oportunidade para uma“história total” foi perdida (Bercé, 1974; Pillorget, 1975; Beik, 1985). A exceção óbviaà regra, como vimos, é Le Roy Ladurie, que discute as revoltas no Languedoc (se nãomesmo a administração da província), e que produziu alguns ensaios explicitamentepolíticos (Le Roy Ladurie, 1987).

Os medievalistas do grupo dos Annales estão longe de rejeitar a históriapolítica, mesmo quando dedicam maior atenção a outros temas. Georges Duby, quecomeçou como historiador social e econômico, transferindo-se depois para a história dasmentalidades, escreveu uma monografia sobre a batalha medieval de Bouvines (seráexaminada mais adiante). Sua análise da gênese ou da reativação da idéia dos trêsestados situa a idéia num contexto político, a crise das monarquias francesa e de outrospaíses. Jacques Le Goff considera que a política não é mais a “espinha dorsal” dahistória, no sentido de que “ela não pode aspirar à autonomia” (Le Goff, 1972). Todaviaele partilha do interesse de Bloch na monarquia sagrada e está, no momento,trabalhando num estudo sobre Luís IX, o conhecido São Luís.

É pouco surpreendente, contudo, saber que os historiadores do grupo dos Annales que mais atenção dedicaram à política, são aqueles preocupados com o que osfranceses chamam de “história contemporânea”, em outras palavras, com o período quese inicia em 1789. François Furet e Michel Vovelle, que devotaram muito de seu tempoà Revolução Francesa, apesar de seus outros interesses históricos, não podem seracusados de negligenciar a política. Nem Marc Ferro, historiador da Revolução Russa eda primeira Guerra Mundial. Mas a figura mais destacada neste domínio é certamenteMaurice Agulhon, 1970). Esse estudo aplica um dos conceitos mais amplos do pensamento marxista, o dodesenvolvimento da consciência política. Os anos de 1815 a 1848 são descritos como osanos de preparação, em que os conflitos sobre a usurpação dos direitos comuns(especialmente sobre a madeira florestal) e a “ampliação dos horizontes culturais”, pelocrescimento da alfabetização, encorajaram o desenvolvimento da consciência política naregião. Os poucos anos da Segunda República, 1848-51, são apresentados como os anosda “revelação”, em que o povo comum do Var votou pela primeira vez e votou em favorda Esquerda.

Embora o estudo de Agulhon se relacione mais com o interior do que com ascidades, é tentador descrevê-lo como preocupado com “a formação da classe operária daProvença”.

O paralelo com Edward Thompson pode ser ampliado. Ambos oshistoriadores são “abertos”, empíricos e marxistas ecléticos.

Ambos estão envolvidoscom formas de “sociabilidade”. Thompson analisa sociedades fraternais e seus “ritos demutualidade” (Thompson, 1963, p.p. 416 ss).

Agulhon, graças a quem a palavra sociabilidade é hoje corrente na França, estudou lojas maçônicas e confrarias católicassob esse ponto de vista, e prosseguiu estudando o “círculo” burguês e os cafés. Amboslevam a cultura a sério. Thompson descreve a tradição do radicalismo popular;Agulhon, charivaris e carnavais, tal como o “carnaval sedicioso” de Vidauban em 1580,porém, significativos como ilustração de opostos, mas complementares, processos de“arcaísmo” e modernização, a de “folclorização” da política e a politização do folclore(Agulhon, 1970, pp. 254-60).

No trabalho mais recente de Agulhon, há uma interpenetração igualmentefecunda da história política e da história cultural. Seu Marianne au combat analisa oimaginário republicano francês e seu simbolismo, de 1789 a 1880, focalizando asrepresentações de Marianne, a personificação da República, com ênfase nas mudançasdo significado de sua imagem – na cultura popular e na cultura da elite – entre aRevolução e a Comuna (Agulhon, 1979). Seu ensaio no Les lieux de la mémoire seguelinhas semelhantes e apresenta o paço municipal do século XIX como uma expressãodos valores republicanos, um texto que os historiadores devem aprender a ler (Nora,1984, pp. 167-93).

Resumindo. Febvre e Braudel podem não ter ignorado a história política, masnão a tomaram muito a sério. O retorno à política na terceira geração é uma reaçãocontra Braudel e também contra outras formas de determinismo (especialmente o“economismo” marxista). Está associado à redescoberta da importância do agir emoposição à estrutura. Está associado também ao que os americanos denominam “culturapolítica”, de idéias e de mentalidades. Graças a Foucault, esse retorno se estendeu emdireção à “micropolítica”, a luta pelo poder no interior da família, da escola, das fábricas, etc.

Em conseqüência dessas mudanças, a história política está em vias deuma renovação.

O renascimento da narrativa

O retorno à história política está vinculadoà reação contra o determinismo, que, como vimos também inspirou a viragemantropológica. A preocupação com a liberdade humana, juntamente com o interesse pelamicro-história, fundamenta também o recente renascimento da biografia histórica, fora edentro dos quadros dos
Annales.

Georges Duby publicou uma biografia de umcavaleiro medieval inglês, William The Marshal, enquanto Jacques Le Goff estátrabalhando sobre a vida de um rei da França, S. Luís. O renascimento não ésimplesmente um retorno ao passado. A biografia histórica é praticada por diferentesrazões e assume formas diferentes. Pode ser um meio de entender a mentalidade de umgrupo. Uma dessas formas é a vida de indivíduos mais ou menos comuns, como oburguês Joseph Sec, sobre quem Vovelle escreveu em razão de sua “irresistívelascensão”, ou do artesão parisiense, Jean-Louis Ménétra, estudado por Daniel Roche(Le Goff, 1989; Vovelle, 1976; Roche, 1982).

A volta à política está também ligada ao ressurgimento do interesse na narrativados eventos. Os eventos nem sempre são políticos –pense-se na quebra da bolsa de1929, a grande peste de 1348, ou mesmo na publicação de Guerra e Paz. De todo jeito,discussões sobre história política, história dos eventos e narrativa histórica estão muitointerligadas. Paralela ao “retorno à política”, houve recententemente um “renascimentoda narrativa” entre os historiadores franceses e de outros países. A frase é de LawrenceStone, um historiador inglês que atribui a tendência a “uma difundida desilusão com omodelo determinista da explicação marxista”, empregada por historiadores marxistas edos Annales , e especialmente com o fato de relegarem a cultura à superestrutura ou“terceiro nível” (Stone, 1979). Não há dúvidas de que Stone apontou uma tendênciasignificativa, mas ainda aqui é necessário nuançar.

A rejeição desdenhosa da “história dos eventos” por Durkheim, Simiand eLacombe já foi discutida na abertura do livro. A ênfase de Febvre na história-problemasugere que ele partilha dessa visão, apesar da importância dada em sua tese doutoral aoseventos da Revolta dos holandeses. Marc Bloch, segundo me consta, jamais censurou ahistória dos eventos, mas, por outro lado, nunca escreveu história desse tipo.

Quanto a Braudel, tanto denunciou quanto dela se utilizou. Mais precisamente,como já vimos, afirmava que a história dos acontecimentos é a superfície da história.Não disse que essa superfície fosse desinteressante; ao contrário, descreveu-a como “amais excitante de todas” (Braudel, 1949, p. 21). Contudo, seu interesse residia no quepodia revelar de “realidades mais profundas”, as correntes abaixo da superfície. ParaBraudel, os acontecimentos eram apenas espelhos que refletiam a história das estruturas.Em seu magnífico estudo sobre o tempo e a narrativa, o filósofo Paul Ricoeurargumentou que todas as obras históricas são narrativas, incluindo O Mediterrâneo deBraudel. Sua demonstração das semelhanças existentes entre a história convencional eestrutural (em sua temporalidade, em sua causalidade e em outros aspectos) dificilmentepode ser refutada. Mesmo assim, chamar O Mediterrâneo de uma narrativa histórica é certamente utilizar o termo “narrativa” num sentido tão amplo que perde sua utilidade (Ricoeur, 1983, p. 289 ss).

A maioria das monografias regionais das décadas de 60 e 70 foi mais longe doque Braudel, pois não incluíam narrativa alguma. A exceção foi Les paysans de Languedoc de Le Roy Ladurie, em que, como vimos, as análises estruturais sealternavam com o relato de eventos, especialmente dos protestos: o carnaval deRomans, em 1580, a insurreição de Vivarais, em 1670, a revolta dos camisards, em1702.

O tratamento dado por Le Roy aos acontecimentos como reações ou respostas amudanças estruturais não estava longe da perspectiva de Braudel, deles serem espelhosou negativos que revelam estruturas subterrâneas. Um comentário semelhante pode serfeito em relação a um livro de Georges Duby, publicado em 1973, que poderia terchocado Febvre, pois não trata apenas de um acontecimento, mas de uma batalha, a deBouvines, em 27 de julho de 1214. O livro, na verdade, foi escrito para uma velhacoleção, intitulada “dias que fizeram a França”, e tinha em vista o grande público.Mesmo assim, Duby não retornou à velha história. Utilizou relatos contemporâneos àbatalhas para esclarecer o comportamento medieval em relação à guerra, e tratou asanálises posteriores de Bouvines como um “mito”, que revelavam mais os autores doque o que estavam narrando (Duby, 1973).

A questão óbvia que esses estudos não levantam é saber se alguns eventos,afinal, não conseguem modificar as estruturas, ao invés de simplesmente refleti-las.

Oque dizer dos acontecimentos de 1789 ou de 1917? O sociólogo Émile Durkheim, aquem os críticos da histoire événementielle devem tanto, estava pronto a descartarmesmo 1789 como um sintoma e não como uma causa de mudança social (Giddens,1977). Há, contudo, sinais de uma mudança dessa posição extrema durkheiminiana oubraudeliana. Por exemplo, o estudo sociológico de uma área na França Oeste, nodepartamento de Sarthe, defendeu a necessidade de levar em conta os acontecimentosde 1789 e seus desdobramentos em qualquer tentativa de explicar os comportamentospolíticos da região, dividida entre um leste de esquerda e um oeste de direita (Bois,1960).

Le Roy Ladurie levou em consideração as implicações desse estudo num ensaioem que discutia o que chamava alternadamente de o evento “traumático”, o evento“catalizador” e o “evento matriz”. O uso de metáforas tão divergentes sugere que aindanão estava seguro a respeito da importância dos eventos, e seu artigo não foi mais longedo que recomendar aos historiadores que refletissem sobre a relação entre eventos eestruturas (Le Roy Ladurie, 1973, 111-32). Alguns anos depois, porém, Le Royretornou ao carnaval de Romans e o transformou no objeto de um livro. Analisou o“evento” como um drama social que tornou manifesto os conflitos latentes na pequena cidade e em seus arredores. Em outras palavras, sintomas, não causas (Le Roy Ladurie,1973).

É claro que o carnaval de Romans não foi um grande acontecimento. É maisdifícil rejeitar como meros reflexos das estruturas sociais os eventos, digamos, de 1789,ou a Grande Guerra de 1914-18, ou a Revolução de 1917 (temas sobre os quais oshistoriadores dos Annales escreveram).

Num estudo recente, François Furet vai tãolonge a ponto de sugerir não somente que os acontecimentos da Revolução romperam asvelhas estruturas e deram à França seu “patrimônio” político, mas que uns poucos mesesde 1789 foram decisivos (Furet/Halévy, 1989, p. 4).

Uma outra faceta da terceira geração dos Annales merece nossa atenção. O tipode história que produzem tornou-sé popular na França, em sua época.

O Mediterrâneo de Braudel e as obras de Bloch e Febvre não venderam muitos exemplares quando desua primeira edição.

Montaillou, por outro lado, conseguiu ir ao topo da lista de “best-seller” dos livros de não-ficção; sua venda aumentou quando o presidente Mitterandadmitiu na televisão que o estava lendo, enquanto que a aldeia foi quase soterrada sob amassa de turistas.

Montaillou foi um livro escrito no tempo certo e no lugar certo, impulsionadopelas ondas de ecologia e regionalismo, mas o seu sucesso é apenas o exemplo maisespetacular do interesse agora demonstrado pelo público francês pela “ História Nova ”.Quando a trilogia de Braudel, Civilization et Capitalisme , foi publicada em 1979,recebeu uma atenção bastante diferente na mídia daquela recebida por seus livrosanteriores. Alguns membros do grupo dos Annales
aparecem regularmente na televisãoe em programas de rádio, chegando mesmo a produzi-los, especialmente Georges Dubye Jacques Le Goff. Outros, como Pierre Chaunu, Roger Chartier, Mona Ozouf, MichélePerrot, escrevem regularmente para jornais e revistas, onde se incluem Le Figaro, Le Monde, L’Express e Le Nouvel Observateur .

É difícil pensar outro país, ou outroperíodo, em que tantos historiadores profissionais estivessem tão firmemente ancoradosnos meios de comunicação.

Os escritos dos historiadores dos Annales eram volumes enormes, publicadosem pequenas edições da Armand Colin (o fiel editor da revista), ou mesmo da École desHautes Études. Hoje em dia, tomam mais a forma de volumes delgados com grandetiragem, publicados por importantes editoras comerciais, freqüentemente em coleçõesdirigidas por outros historiadores dos Annales . Na década de 60, Ariès e Mandroueditaram para a Plon uma coleção sobre “Civilizações e Mentalidades”. Agora, Agulhonedita uma coleção de história para Aubier Montaigne, enquanto Duby edita mais de umapara a Seuil, incluindo vários volumes de história sobre a França rural, a França urbanae a vida privada. Um exemplo de uma colaboração mais estreita entre historiadores eeditores é dado por Pierre Nora, que leciona na École des Hautes Études e, ao mesmotempo, trabalha para a Gallimard. Foi ele quem criou a conhecida coleção Bibliothèquedes Histoires , que inclui um bom número de estudos feitos por seus colegas.

Não estou sugerindo que a mídia tenha criado a onda de interesse para esse tipode história, embora possa tê-la encorajado. Produtores e editores devem ter imaginadoque havia demanda para a história em geral e, em particular, para a históriasociocultural, ao estilo dos Annales . Essa demanda não está restrita a França. É tempode examinar a acolhida dispensada aos historiadores dos Annales além das fronteiras deseu país e de sua disciplina.

5 - Os Annales numa Perspectiva Global

I – A ACOLHIDA AOS ANNALES

É tempo de examinar a carreira do movimento dos Annales além fronteiras- nãosó da França mas também da própria ciência histórica. A história a ser contada-brevemente-não será apenas um relato da expansão do evangelho no exterior. Naverdade, os Annales tiveram uma má-recepção em muitos lugares. Meu objetivo é antesdescrever a variedade de respostas à nova história, não somente louvores e críticas, mastentativas de colocar os instrumentos criados pelos Annales a serviço de diferentesáreas, tentativas que, algumas vezes, revelaram fraquezas na concepção original.

Emfunção da extensão da área a ser coberta, a descrição será inevitavelmente seletiva eimpressionista.

Os Annales no estrangeiro

Antes da Segunda Guerra Mundial, os Annales já tinhamaliados e simpatizantes no exterior, de Henri Pirenne, na Bélgica, a R.H. Tawney, naGrã-Bretanha 110
. Foi somente na era de Braudel, porém, que a revista e o movimentotornaram-se conhecidos em toda a Europa.

O Mediterrâneo naturalmente atraiuleitores daquela parte do mundo: a tradução italiana do livro de Braudel apareceu, comoa espanhola, em 1953. Dois italianos, Ruggiero Romano e Alberto Tenenti, estavamentre os colaboradores mais próximos de Braudel. Alguns dos mais destacadoshistoriadores italianos da década de 50 eram amigos de Febvre e simpatizavam com omovimento dos Annales Eles vão desde Armando Sapori, historiador dos mercadoresitalianos medievais, a Delio Cantimori, que partilhava do interesse de Febvre nosheréticos do século XVI. A enorme História da Itália, lançada pelo editor Giulio Einaudiem 1972, está centrada no desenvolvimento na longa duração, presta homenagem aBloch no título do primeiro volume e inclui um longo ensaio de Braudel.

Na Polônia, apesar da predominância oficial do marxismo, ou talvez por issomesmo, os historiadores de longa data demonstraram um grande entusiasmo pelos Annales . Nas universidades polonesas anteriores à guerra, havia um interesse tradicionalpela história social e econômica. Jan Rutkowski colaborou nos Annales na década de 30e fundou uma revista similar. Um grande número de historiadores poloneses estudou emParis, Bronislaw Geremek, por exemplo, um destacado medievalista muito conhecidopor seus estudos sobre os urbanos pobres e muito mais conhecido por ser conselheiro deLech Walesa. Os poloneses demonstraram um interesse considerável pela história dasmentalidades.

O Mediterrâneo foi traduzido para o polonês e serviu de inspiração paraum estudo polonês sobre o Báltico, publicado pelo Centre de Recherches Historiques,em sua coleção “Cahiers des Annales ” (Malowist, 1972).

Um interesse maior foi provocado pelo famoso ensaio de Braudel sobre a“história e as ciências sociais” (Braudel, 1958, conf. Pomian, 1978). Sua influênciapode ser constatada numa das mais notáveis obras históricas do pós-guerra polonês, ATeoria Econômica do Sistema Feudal (1962), de Witold Kula, um historiador a quemBraudel dedica um especial tributo ao descrevê-lo como “mais inteligente do que eu”(Braudel, 1978, p. 250).

Nesse livro, Kula faz uma análise econômica dos latifúndiospoloneses nos séculos XVII e XVIII. Mostrou que o comportamento econômico dosproprietários de terras poloneses era o oposto do que previa a economia clássica.Quando o preço do centeio, seu produto principal, aumentava, produziam menos, equando o preço abaixava, produziam mais. A explicação desse paradoxo deveria serencontrada, diz Kula (diferentemente de Braudel, mas de acordo com outroshistoriadores dos Annales), no reino da cultura, ou das mentalidades. Tais aristocratasnão estavam interessados em lucros, mas em manter seu estilo de vida, da maneira a queestavam acostumados. As variações na produção eram tentativas de manter uma rendapadrão. Seria interessante imaginar as reações de Karl Marx a essas idéias (Kula, 1962).

Na Alemanha, por outro lado, a história política permaneceu predominante nosanos 50 e 60. Dada a importância das novas abordagens históricas na época deSchmoller, Weber e Lamprecht, discutidas na abertura deste estudo, pode parecerestranha essa dominância. Contudo, depois das experiências traumáticas dos anos 1914-18 e 1933-45, torna-se difícil negar a importância quer da política, quer dosacontecimentos; em conseqüência, as principais controvérsias históricas concentraram-se em Hitler e no papel desempenhado pela Alemanha nas duas guerras mundiais. Foisomente quando a geração do pós-guerra chegou à maturidade, na década de 70, que ointeresse modificou-se em direção à “história cotidiana” (Alltagsgeschichte ), à históriada cultura popular e à história das mentalidades (Conf. Iggers, 1975, pp. 80 ss. 192 ss).

A Inglaterra, pelo menos nas décadas de 40 e 50, foi também um bom exemplodo que Braudel denominava “recusa a tomar emprestado”. Marc Bloch era visto maiscomo um competente historiador econômico da Idade Média do que o representante deum novo estilo de história, enquanto Febvre era pouco conhecido, mais entre osgeógrafos do que entre os historiadores. Na sua primeira edição, O Mediterrâneo deBraudel não foi discutido nem na English Historical Review , nem na Economic History Review . Antes dos anos 70, traduções dos livros dos historiadores dos Annales eramextremamente raras. A exceção à regra foi Marc Bloch. Pode-se dizer que o interesse deBloch pela história inglesa e sua propensão a afirmações reticentes (tão diferente do comportamento de Lucien Febvre) permitiu-lhe ser visto como uma espécie de inglêshonorário.

As razões da ausência de traduções podem ser encontradas nas resenhas sobre osprincipais livros da escola, feitas nas revistas inglesas do Times Literary Supplement aoEnglish Historical Review. Nelas, seus autores referiam-se, um após o outro, ao quedenominavam “o afetado e irritante estilo dos Annales ”, “o estilo excêntrico legado porLucien Febvre”, ou “o jargão esotérico que sugere, às vezes, que os autores da VI Seçãoescrevem apenas para serem entendidos entre si”.

Aqueles que apoiavam, naInglaterra, no início da década de 60, os Annales , possuíam o sentimento depertencerem a uma minoria acrética, tal como os que apoiavam Bloch e Febvre, nosanos 30, na França.

Termos como conjuntura e mentalidades coletivas mostraram-se virtualmenteimpossíveis de serem traduzidos e extremamente difíceis de serem compreendidos peloshistoriadores ingleses – sem se falar na aceitação. Suas reações, intrigadas, desconfiadasou hostis, lembram as de seus colegas filósofos em relação às obras de Sartre e Merleau-Ponty. Os ingleses achavam, nem pela primeira nem pela última vez, que simplesmenteeles não falavam a mesma língua. A diferença entre a tradição inglesa empirista e seuindividualismo metodológico e a tradição teórica francesa e o seu holismo inibiaqualquer contato intelectual. Na Inglaterra, desde os tempos de Herbert Spencer, oumesmo antes, pressupunha-se que entidades coletivas como “sociedade” são fictícias,enquanto os indivíduos existem.

As conhecidas afirmações de Durkheim sobre arealidade do social foram escritas para demolir as pressuposições de Spencer e suaescola. Outro exemplo dramático dessa disputa data dos anos 20, quando o psicólogo deCambridge, Frederick Bartlett, criticou o famoso estudo de Maurice Halbwachs daestrutura social da memória, por criar uma entidade fictícia, “a memória coletiva”(Bartlett, 1932). Ainda hoje pode-se ouvir historiadores ingleses criticarem a históriadas mentalidades coletivas em termos semelhantes.

Seria fácil multiplicar os exemplos das variações regionais na acolhida à novahistória. Inclusive a relação entre os Annales e o marxismo diferiu de lugar para lugar.Na França, a simpatia pelo marxismo se acompanhava, geralmente, de uma certadistância em relação aos Annales , apesar da lealdade dúplice de Labrousse, Vilar,Agulhon e Vovelle. Na Inglaterra, ao contrário, os marxistas, especialmente EricHobsbawm e Rodney Hilton, estavam entre os primeiros a saudar os Annales (Hobsbawm, 1978). Pode-se entender essa acolhida em termos de estratégia intelectual:os Annales eram um aliado na luta contra o domínio da história política tradicional. Épossível também que os marxistas estivessem impressionados com a afinidade entre asua história e a dos franceses-não somente devido à ênfase nas estruturas e na longaduração, mas também por sua preocupação com a totalidade, um ideal que foi de Marxantes de ser de Braudel. A afinidade tornou-os mais receptivos à mensagem dos Annales Na Polônia, a institucionalização de uma forma de marxismo significou quesuas relações com os Annales seguiram outro padrão.

Os Annales e outros campos da história

Um outro aspecto da influência dos Annales é a difusão de conceitos, abordagens e métodos, de um período histórico paraoutro, de uma região para outra. O movimento tem sido dominado por estudiosos doinício da Europa moderna (Febvre, Braudel, Le Roy Ladurie), seguidos de perto pormedievalistas (Bloch, Duby, Le Goff).

Houve muito menos obras dessa espécie sobre o século XIX, como já vimos,enquanto em relação à história contemporânea tem se afirmado com bastante convicçãoque os Annales nenhum impacto tiveram. Não é casual: a importância da política nahistória do século XX inviabiliza a aplicação do seu paradigma ao período, a menos queseja o modificado. A conclusão paradoxal a que chegou um observador alemãosimpático ao movimento é a de que uma história, ao estilo dos Annales, sobre a históriade nosso século é, ao mesmo tempo, necessária e impossível. “Se for escrita, não seráhistória ao estilo dos Annales . Mas à história contemporânea não pode continuar a serescrita sem os Annales ” (Weaseling, 1978).

No outro extremo do espectro cronológico, a semelhança entre algumas obrasrecentes de história antiga e o paradigma dos Annales é óbvia. Se essa semelhançadecorre do “impacto” ou da afinidade é mais difícil determinar. Uma tradiçãodurkheiminiana nos estudos clássicos existia muito antes da fundação dos Annales, tradição exemplificada pelo amigo de Bloch, Gernet, na França, e na Inglaterra, por umgrupo de classicistas, em Cambridge, devotado a esses estudos, tais como Jane Harrisone F.M. Cornford, que leu Durkheim e Lévy-Bruhl e procurava traços da “mentalidadeprimitiva” entre os gregos antigos. Na época de Estrasburgo, como vimos, o historiadorde Roma, André Piganiol, participava do grupos dos Annales.

Hoje, destacados historiadores da antiguidade, como Jean-Pierre Vernant e PaulVeyne, fundamentam-se na psicologia, na sociologia e na antropologia, visandointerpretar a história da Grécia ou de Roma, de uma maneira paralela a Febvre eBraudel, se é que não seguem exatamente seu exemplo. Vernant, por exemplo,preocupa-se com a história de categorias como o espaço, tempo e a pessoa (Vernant,1966).

Veyne escreveu sobre os jogos romanos, apoiando-se nas teorias de Mauss ePolanyi, Veblen e Weber, e analisou o financiamento dos jogos em termos de doação,redistribuição, consumo conspícuo e corrupção política (Veyne, 1976).

De maneira geral, a história do mundo exterior à Europa permaneceurelativamente afastada dos Annales Os historiadores da África, por exemplo, mostraramaté agora pouco interesse nessa abordagem, com exceção do antropólogo belga JanVansina, que utilizou a distinção temporal braudeliana, curta, média e longa duração,como o alicerce de seu estudo sobre a tribo Kuba da África Central (Vansina, 1978, especialmente pp.10, 112, 197, 235).

Embora tenha sido um antigo discípulo deBloch, Henri Brunschwig, que se tornou um dos mais destacados historiadores da Áfricacolonial, seu estudo sobre o imperialismo francês parece dever pouco aos Annales , semdúvida porque sua preocupação com o passado recente e com a relativamente curtaduração (1871-1914) tornam esse modelo irrelevante (Brunschwig, 1960).

Quanto à Ásia è à América, as coisas são ainda mais complicadas. Emboraexistam sinais de um interesse crescente nessa abordagem e quatro membros do grupoconvidados a participar de uma conferência sobre “a nova história”, realizada em NovaDelhi, em 1988, os historiadores hindus pouco se aproveitaram dos Annales.

O maiscriativo grupo de historiadores hindus, que navegam sob a bandeira dos “estudossubalternos”, conhecem bem a tradição francesa, mas preferem um marxismo aberto. Denovo, apesar do interesse de Bloch no Japão e o entusiasmo geral dos japoneses pelastendências intelectuais ocidentais, não é fácil assinalar um estudo de história japonesa,dentro da tradição dos Annales . Um certo número de historiadores japoneses estudou naHautes Études, mas todos trabalham com a história da Europa.

Historiadores de outras partes da Ásia estão um pouco mais próximos dos Annales . Um estudo recente sobre o sudeste da Ásia, escrito por um historiadoraustraliano, intenta uma “história total” da região de 1450 a 1680 e toma como modelo aobra de Braudel sobre a cultura material e a vida cotidiana (Reid, 1988).

Algunshistoriadores franceses da China estão próximos, em espírito, dos Annales . Asignificativa diferença do pensamento chinês é um desafio à história das mentalidades,que provocou mais de uma resposta. Um dos companheiros de escola de Marc Bloch, osinologista Marcel Granet, compartilhou de seu entusiasmo por Durkheim e escreveuum excelente estudo da .visão de mundo chinesa, fundamentado em seu pensamento,enfatizando o que chamava de “pensamento pré-lógico” e a projeção da ordem socialsobre o mundo natural (Granet, 1934).

Mais recentemente, Jacques Gernet, como outros historiadores franceses de suageração, subiu as escadas que levam do porão ao sótão, dos aspectos econômicos dobudismo ao estudo das missões cristãs na China. Seu novo estudo sobre a missão cristã,nos séculos XVI e XVII, pode ser descrito com propriedade como uma história dasmentalidades ao estilo dos Annales (Gernet, 1982).

O livro gira em torno de mal-entendidos. Os missionários acreditavam que faziam muitas conversões e deixavam deentender o que a adesão à nova religião significava aos próprios convertidos. Osmandarins, de seu lado, não entenderam as intenções dos missionários.

Segundo Gernet, esses mal-entendidos revelam as diferenças entre as categorias,os “modos de pensamento” e os “quadros mentais” de ambas as artes, associadas àsdiferenças lingüísticas (Gernet, 1982, pp. 12, 189).

Esse foco de luz sobre o encontrode duas culturas permite a Gernet iluminar mentalidades sob formas negadas aoshistoriadores da Europa. O que Braudel teria descrito, do exterior, como um caso de“recusa a tomar emprestado”, é interpretado, por Gernet, a partir do seu interior.

No caso das respostas americanas aos Annales , o contraste entre o sul e o norteé extremamente significativo. Historiadores da América do Norte, tomados comoopostos aos historiadores norte-americanos da Europa, até agora pouco interessedemonstraram no paradigma dos Annales . O giro antropológico na história do períodocolonial desenvolveu-se independentemente do modelo francês. Embora a obra deBraudel tenha sido descrita como “fascinantemente semelhante em seus objetivos” aolivro de Frederick Jackson Turner, The United States, 1830-1850, estamos aindaaguardando por um novo Braudel americano.

Na América Central e do Sul, a história é bem diferente. No Brasil, as aulas deBraudel, na Universidade de São Paulo, nos anos 30, são ainda lembradas. A famosatrilogia sobre a história social do Brasil do historiador-sociólogo Gilberto Freyre (queconheceu Braudel nessa época), trabalha com tópicos como família, sexualidade,infância e cultura material, antecipando a nova história dos anos 70 e 80. Arepresentação de Freyre da casa-grande como um microcosmo e como metáfora dasociedade híbrida, agrária e escravocrata impressionou Braudel, que o citou em suaobra.

Novamente, como uma série de estudos recentes indica, alguns historiadores dosimpérios espanhol e português na América tomam, de fato, o paradigma dos Annales seriamente.

Um bom exemplo é o livro de Nathan Wachtel, La Vision des Vaincus,1971, uma história dos anos iniciais do Peru colonial do ponto de vista dos índios.

Sobdiversos aspectos, esse estudo se assemelha aos trabalhos dos historiadores dos Annales sobre a Europa. Ele lida, sucessivamente, com a história econômica, social, cultural epolítica. É obviamente um exemplo de história do ponto de vista das classes subalternas,tendo muito o que dizer sobre as revoltas populares.

Emprega o método regressivoassociado a Marc Bloch, partindo do estudo de danças contemporâneas que representama conquista espanhola, como um meio de recuperar as reações indígenas originais.Toma emprestados conceitos da antropologia social, especialmente o de “aculturação”,um termo posto em circulação na França pelo historiador dos Annales AlphonseDupront. Contudo, Wachtel não aplica simplesmente o modelo estrutura-conjuntura-eventos dos historiadores do início da Europa moderna. No Peru, as transformaçõessocioculturais da época não se produziram no interior de velhas estruturas. Pelocontrário, o processo foi de “desestruturação”. A preocupação do autor com esseprocesso confere ao seu livro uma qualidade dinâmica e mesmo trágica, que, inclusive, Les paysans de Languedoc, não pode igualar.

Os Annales e outras disciplinas

A acolhida aos Annales , nunca se confinouàs fronteiras da história. Um movimento que se fundamentou em tantas das “ciências dohomem” atraiu naturalmente o interesse dessas disciplinas. Embora seja difícil mapear ainfluência da história sobre a sociologia, por ser a primeira menos teórica do que asegunda, vale a pena tentar a empresa.

No desenvolvimento intelectual de Foucault, por exemplo, a “nova história”francesa desempenhou um papel significativo. Foucault caminhou em linhas paralelasàs da terceira geração dos Annales. Da mesma maneira que ela, estava preocupado emampliar os temas da história. Ele tinha algo à ensinar-lhes, mas havia o que deles aprender, também.

O débito de Foucault em relação aos Annales pode ter sido menor do que deve aNietzche, ou aos historiadores da ciência, como Georges Canguilhen (através de quemtomou conhecimento da noção de descontinuidade intelectual), mas ê mais substancialdo que ele próprio jamais admitiu. O que Foucault gosta de denominar sua“arqueologia”, ou a sua “genealogia”, tem, pelo menos, uma semelhança familiar com ahistória das mentalidades. Ambas as abordagens mostram uma grande preocupação comtendências de longa duração e uma relativa despreocupação com pensadoresindividualizados.

Foucault não aceitava na abordagem dos Annales, em relação à históriaintelectual, o que considerava a ênfase excessiva na continuidade (Foucault, 1969, p.32).

Era precisamente em sua vontade de ir até o fundo dos problemas e em discutircomo as visões de mundo se modificam que Foucault diferia mais agudamente doshistoriadores das mentalidades. Estes têm coisas importantes a aprender de sua ênfasenas “rupturas” epistemológicas, por mais furiosos que estejam com sua recusa emexplicar tais descontinuidades.

Na altura dos anos 70, se não mesmo antes, era possível encontrar arqueólogos eeconomistas lendo Braudel a respeito de “cultura material”, pediatras discutindo ospontos de vista de Ariès sobre a história da infância, e folcloristas escandinavosdebatendo lendas folclóricas com Le Roy Ladurie. Alguns historiadores da arte ecríticos literários, especialmente nos Estados Unidos, citam também os historiadores dos Annales em seu próprio trabalho, que consideram, como parte de um empreendimentocomum, algumas vezes descrito como uma “antropologia literária” ou uma antropologiada “cultura visual”.

Em três ciências, em especial, existe um considerável interesse na abordagemdos Annales . Elas são geografia, sociologia e antropologia. Em cada um dos casos, pelomenos no que concerne ao mundo de fala inglesa, deve ser dito que o interesse érelativamente recente e está virtualmente restrito à obra de Braudel.

É conveniente iniciar-se este balanço pela geografia, pois houve um tempo,mesmo na França, em que os geógrafos tomaram o movimento mais seriamente do que a maioria dos historiadores (Duby, 1987, p. 133). As afinidades entre a geografiahistórica de Vidal de la Blache e a geo-história de Braudel já foram discutidas e sãobastante óbvias. Uma das conseqüências do surgimento do império de Braudel foi,contudo, o declínio da geografia histórica como disciplina, em virtude da concorrênciacom os historiadores (talvez, possa afirmar-se a mesma coisa em relação à sociologia eà antropologia históricas, na França)(Baker, 1984, p.2).

Em outras partes, a situação é mais complicada. Embora o ensaio de Febvresobre geografia histórica tenha sido traduzido para o inglês logo após a sua publicação,o mundo de fala inglesa era dominado por um estilo tradicional de geografia que poucoespaço deixava para a abordagem francesa. Esse consenso quebrou-se em data recente efoi substituído por um pluralismo, ou melhor, por uma forte disputa entre marxistas,quantitativistas, fenomenólogos e defensores de outros tipos de abordagens, incluindo-se aí os defensores de Braudel (Baker, 1984). Vale a pena acrescentar que uma históriado Pacífico, em três volumes, acaba de ser publicada, escrita não por um historiador,mas por um geógrafo, Oskar Spate (1979-88).

Quanto à sociologia, a inspiração durkheiminiana do início dos Annales ajudoua assegurar uma calorosa recepção desde logo, pelo menos na França.

Doisproeminentes sociólogos franceses, Maurice Halbwachs e Georges Friedmann,estiveram formalment associados com a revista, enquanto um terceiro, GeorgesGurvitch, encetou uma colaboração com Braudel, a que não excluía divergências(Braudel, 1953b). No mundo de fala inglesa, por outro lado, foi apenas recentemente,numa época de sentimento generalizado de “crise da sociologia”, que os sociólogosredescobriram a história e, nesse processo, descobriram os Annales, maisparticularmente Braudel, cujas idéias sobre o tempo têm uma importância óbvia para osteóricos das mudanças sociais. Como aconteceu com os historiadores, os sociólogosmarxistas, como Norman Birnbaum e lmmanuel Wallerstein (Diretor do Centro FernandBraudel, em Binghamton) estavam entre os primeiros a voltarem sua atenção para os Annales , mas hoje esse interesse está muito mais difundido. O falecido Philip Abrams,por exemplo, descrevia O Mediterrâneo de Braudel como um caminho para “umaefetiva sociologia histórica analítica” (Birnbaum, 1978; Wallerstein, 1974; Abrams,1982, pp. 333 ss).

Poucos antropólogos se interessaram, inicialmente, pelos Annales , entre estesestavam, especialmente, Lévi-Strauss e Evans-Pritchard. Braudel e Lévi-Strauss foramcolegas na Univer sidade de São Paulo, nos anos 30, e continuaram seu diálogo daí emdiante (Lévi-Strauss, 1983). Evans-Pritchard, que se formara historiador antes de serantropólogo, estava perfeitamente a par dos trabalhos de Lucien Febvre e MarcBloch.

Desconfio de que seu famoso estudo, Witchcraft Oracles and Magic , realizadoentre os Azandes da África Central, deve, pelo menos, sua inspiração ao livro de Bloch, Les Rois Thaumaturges , enquanto sua análise do sentido de tempo dos Nuer do Sudão,baseado em suas tarefas, chega a conclusões semelhantes as de Febvre (formuladas quase que ao mesmo tempo) sobre o cálculo do tempo na época de Rabelais (Evans-Pritchard, 1937).

Evans-Pritchard defendia um relacionamento próximo entre antropologia ehistória, numa época em que a maioria de seus colegas eram funcionalistas a-históricos.Nos anos 60, alguns jovens antropólogos, voltaram-se para a história, mais ou menos aomesmo tempo em que alguns dos historiadores dos Annales descobriam a antropologiasimbólica. As duas ciências pareciam convergir. Contudo, a virada antropológica emdireção à história estava associada a uma preocupação em relação à narrativa e aoseventos, os pontos precisos da tradição histórica que o grupo dos Annales haviarejeitado. Havia o perigo de as duas disciplinas desviarem-se uma da outra.

Um exemplo simples demonstrará mais claramente do que uma lista de nomes ascondições sob as quais a reunião das duas ciências ocorreu, o que os antropólogosesperavam da história, ou dos Annales e finalmente como um modelo pode ser transformado no decorrer de sua aplicação.Entre as fontes inspiradoras de Marshall Sahlins, antropólogo histórico do Havaí, está aobra de Braudel, especialmente seu ensaio sobre a longa duração. Sem dúvida, Braudelapreciaria sua discussão sobre as “estruturas de longa duração”, na qual a visita doCapitão Cook ao Havaí em 1779, quando foi identificado pelos havaianos como aencarnação de seu deus Lono, é analisada como um exemplo da maneira pela qual os“eventos são ordenados pela cultura”. Sahlins, porém, não parou aí. Foi mais longe,discutindo “como, nesse processo, a cultura é reordenada” (Sahlins, 1981, p. 8.; Conf.Sahlins, 1985). Tendo se apropriado de uma idéia de Braudel, ele a subverte, ou, pelomenos, a transforma, argumentando que um evento, a visita de Cook ou, maisgenericamente, o encontro entre havaianos e europeus, produziu transformaçõesestruturais na cultura havaianapor exemplo, a crise do sistema de tabus-mesmo quando“a estrutura era preservada com uma inversão de seus valores”. Seria muito difícil negara relevância potencial desse modelo revisado para a análise, digamos, dasconseqüências socioculturais da Revolução Francesa. Eis que a bola retorna ao campo dos historiadores.

II – UM BALANÇO FINAL

É chegado o momento de fazer e tentar avaliar as contribuições dos historiadoresdos Annales durante três gerações, discutindo duas questões em particular. Qual aoriginalidade e qual o valor de sua nova história?

Como vimos, a revolta de Febvre e Bloch contra o domínio da história dosacontecimentos políticos foi apenas uma de uma série de rebeliões semelhantes (veracima, p. 17). Seu principal objetivo, a construção de uma nova espécie de história, foicompartilhado por muitos pesquisadores durante um longo período. A tradição francesa,de Michelet e Fustel de Coulanges ao Année Sociologique , Vidal de la Blache e Henri Berr, é bastante conhecida. De outro lado, as tradições alternativas são geralmentesubestimadas. Se um clarividente, em 1920, previsse que um novo estilo de história embreve se desenvolveria em algum lugar na Europa, a localização óbvia para que issoacontecesse seria a Alemanha, não a França; a Alemanha de Friedrich Ratzel, KarlLamprecht e Max Weber.

Virtualmente todas as inovações associadas a Febvre, Bloch, Braudel eLabrousse têm precendentes ou paralelos, dos métodos comparativo e regressivo àpreocupação com a colaboração interdisciplinar, com métodos quantitativos, commudanças na longa duração. Nos anos 30, por exemplo, Ernest Labrousse e ohistoriador alemão Walter Abel estavam trabalhando independentemente na históriaquantitativa dos ciclos agrícolas, tendências e crises (Abel, 1935).

Na década de 50, oressurgimento da história regional na França tem um paralelo no ressurgimento dahistória local na Inglaterra, vinculada à escola de W.G. Hoskins, um discípulo deTawney, cujos livros incluem um estudo da construção da paisagem inglesa e umahistória socioeconômica, na longa duração, quase novecentos anos, de uma vila deLeicestershire, Wigston Magna (Hoskins, 1955,1957). O entusiasmo dos historiadoresfranceses pelos métodos quantitativos, seu abandono em favor da micro-história e daantropologia, seguiam em paralelo a movimentos existentes nos Estados Unidos e emoutras partes do mundo.

Se as inovações individuais relacionadas aos Annales têm precedentes eparalelos, sua combinação, não. Também é verdade que os movimentos paralelos dereforma e renovação da história foram em grande parte insucessos, de Karl Lamprecht,na Alemanha, à “nova história” de J.H. Robinson, nos EUA. As contribuições de Bloch,Febvre, Braudel e seus seguidores foram mais longe do que as de qualquer outropesquisador ou grupo de pesquisadores na concretização desses objetivos comuns e emliderarem um movimento que se difundiu mais extensamente e por mais tempo do que ode seus competidores. É bem possível que o historiador do futuro tenha condições deoferecer explicações desse sucesso em termos de estrutura e conjuntura, valorizando,por exemplo, o fato de sucessivos governos franceses financiarem a pesquisa histórica,ou a eliminação da competição intelectual alemã, durante as duas guerras mundiais.

Difícil é desprezar as contribuições individuais de Bloch, Febvre e Braudel.

Embora este livro seja dedicado a algumas novas tendências historiográficas,não gostaria de pressupor que a inovação é desejável por si mesma. Concordo, com todaa sinceridade, com uma crítica recentemente publicada que afirma que “a nova histórianão é necessariamente admirável simplesmente por ser nova, nem a velha desprezível,por ser velha” (Himmelfarb, 1987, p. 101). É tempo, pois, de considerar, em conclusão,o valor, o custo, e o significado das contribuições coletivas dos Annales.

Fazer isso e como que redigir um obituário. De fato, a imagem não é totalmenteinadequada. Embora a École des Hautes Études ainda permaneça e possua historiadoresde qualidade, que se identificam com a tradição dos Annales , não seria demasiadodizer-se que o movimento efetivamente acabou. De um lado, encontramos membros do grupo dos Annales redescobrindo a política e mesmo o acontecimento. De outro, vemostantos pesquisadores de fora inspirados pelo movimento-ou indo na mesma direção porrazões próprias-que termos como “escola” e mesmo paradigma estão perdendo osentido. O movimento está se dissolvendo, em parte, como resultado de seu sucesso.

O movimento pode não ter sido “tudo para todos”, pois foi seguramenteinterpretado de várias maneiras. Os historiadores tradicionais tenderam a interpretarseus objetivos como a total substituição de uma espécie de história por outra, relegandoa história política e, especialmente, a história dos acontecimentos políticos ao ferro-velho. Estou longe de acreditar que essa tenha sido a intenção de Febvre ou Bloch.Inovadores são freqüentemente abrasados pela crença de que o que ainda não foitentado merece ser tentado, antes do que pela determinação de impô-lo a todos. Dequalquer maneira, a história política pode defender-se em sua época. Depois, a situaçãomodificou-se. Braudel sempre se proclamou um pluralista e gostava de afirmar que ahistória tem “mil faces”, mas foi sob seu domínio que os fundos de pesquisa foramdirigidos para a nova história em prejuízo da velha. Foi o momento dos historiadorespolíticos serem marginalizados.

Se observarmos os Annales de uma perspectiva global, contudo, é melhoravaliá-lo como um paradigma (ou, talvez, um grupo de paradigmas), mais do que oparadigma da ciência histórica. Talvez seja útil examinar os usos e as limitações desseparadigma em diversas áreas da história, geográfica, cronológica e tematicamentedefinidas. A contribuição dos Annales pode ter sido profunda, mas foi tambémprofundamente desigual.

Como vimos anteriormente, à França foi consagrada a maior parte de suaatenção. No rastro de Braudel, um número substancial de estudos foi realizado sobre omundo mediterrânico, especialmente sobre a Espanha e a Itália (Aymard, Bennassar,Chaunu, Delille, Delumeau, Georgelin, Klapisch, Lapeyre...). A contribuição do grupo àhistória das Américas espanhola e portuguesa foi também bastante significativa. Poucosescreveram sobre outras partes do mundo. O interesse de Bloch pela história inglesa nãofoi acompanhado por seus sucessores.

Da mesma maneira que se concentraram sobre a França, os historiadores dos Annales voltaram sua atenção sobre um período, o chamado “início da idade moderna”,de 1500 a 1800, mais especificamente o “antigo regime” na França, que vai de mais oumenos 1600 a 1789. Sua contribuição para os estudos medievais foi também notável.Como já vimos, alguns historiadores da antiguidade foram companheiros de viagem dos Annales.

Por outro lado, o grupo dos Annales deu pouca atenção ao que ocorreu nomundo depois de 1789. Charles Morazé, Maurice Agulhon e Marc Ferro fizeram opossível para preencher a lacuna, mas ela permanece ainda bastante grande. Aabordagem diferenciada da história pelo grupo, especialmente a falta de importânciaatribuída aos indivíduos e aos eventos, está seguramente vinculada ao fato deconcentrarem seus estudos nos período medieval e no início da era moderna. Braudelnão teve dificuldades em desprezar Felipe II, teria mais problemas em fazer o mesmocom Napoleão, Bismarck ou Stálin.

Para um grupo que navega sob a bandeira da “história tota”, é de algumamaneira paradoxal examinar suas contribuições à luz do que é convencionalmenteclassificado como história econômica, social, política e cultural. Uma das conquistas dogrupo foi subverter as categorias tradicionais e oferecer algumas novas, da “históriarural” de Bloch, nos anos 30, e a “civilização material”, da década de 60, à históriasociocultural dos dias de hoje. Da mesma forma, é inegável a contribuição oferecida porLabrousse e seus seguidores à história econômica. Como também é difícil negar que apolítica foi subestimada, por um certo tempo, nos anos 50 e 60, e ao menos por algunsmembros do grupo.

Um outro caminho para se avaliar o movimento dos Annales é analisar suasidéias predominantes. De acordo com um estereótipo comum ao grupo, eles estavampreocupados com a história das estruturas na longa duração, utilizavam métodosquantitativos, diziam-se científicos e negavam a liberdade humana. Mesmo comodescrição das obras de Braudel e Labrousse, esta visão é muito simplista, e ainda menosadequada como caracterização de um movimento, que atravessou diversas fases eincluiu um bom número de fortes personalidades intelectuais. Pode ser útil para analisaras tensões intelectuais no interior do movimento.

Essas tensões podem ter sido criativas;se foram ou não, é um caso ainda em aberto.

O conflito entre liberdade e determinismo, ou entre estrutura social e açãohumana, sempre dividiu os historiadores do grupo. O que distinguia Bloch e Febvre dosmarxistas de seu tempo era precisamente o fato de que não combinavam seu entusiasmopela história social e econômica com crença de que as forças sociais e econômicas tudodeterminavam. Febvre era um voluntarista extremo, Bloch, um mais moderado. Nasegunda geração, por outro lado, houve um deslisamento em direção ao determinismo,geográfico, no caso de Braudel, econômico, no de Labrousse. Ambos foram acusados detirar o povo da história e concentrar sua atenção nas estruturas geográficas e nastendências econômicas. Na terceira geração, no meio de historiadores preocupados comtemas tão diversos quanto estratégias matrimoniais ou hábitos de leitura, houve umavolta ao voluntarismo. Os historiadores de mentalidades não mais assumem (comoBraudel o fez) que os indivíduos são prisioneiros de sua visão de mundo, masconcentram sua atenção na “resistência” às pressões sociais (Vovelle, 1982).

A tensão entre a sociologia durkheiminiana e a geografia humana de Vidal de laBlache é tão antiga que pode ser considerada como parte integrante da estrutura dos Annales.

A tradição durkheiminiana incentivou a generalização e a comparação,enquanto a perspectiva vidaliana concentrou-se no que era único para uma regiãoparticular.

Os fundadores tentaram mesclar as duas perspectivas, mas suas ênfases eramdiferentes. Bloch estava mais próximo de Durkheim; Febvre, apesar de sua preocupaçãocom a história-problema, de Vidal. Na fase intermediária do movimento, foi Vidal quemprevaleceu, como as monografias publicadas nos anos 60 e 70 confirmam. Braudel nãonegligenciou nem a comparação nem a sociologia, contudo estava mais próximo deVidal do que de Durkheim. Uma razão da atração da antropologia social para oshistoriadores da terceira geração talvez tenha sido o fato de que essa ciência (quecaminha sobre as duas vias, em direção ao geral e ao particular), talvez auxilie oshistoriadores a encontrarem seu equilíbrio.

Resumindo. Quanto ao que se refere à primeira geração, vale a pena se lembrar o juízo de Braudel: “Individualmente, nem Bloch nem Febvre foi o maior historiadorfrancês do período, mas juntos o eram” (Braudel, 1968a, p. 93). Na segunda geração, édifícil pensar em um historiador da metade do século da mesma categoria de Braudel.Ainda hoje, uma parte significativa do que de mais interessante se faz em trabalhoshistóricos, é ainda realizada em Paris.

Olhando o movimento como um todo, percebemos uma grande quantidade delivros notáveis aos quais é difícil negar o título de obras primas: Les RoisThaumaturges, Societé Féodale, Le probléme de l’incroyance, Le Méditerranée, Les paysans de Languedoc, Civilisation et Capitalisme . Devemos lembrar também asequipes de pesquisa que foram capazes de levar adiante empreendimentos quedemandariam muito tempo a um único indivíduo para levar qualquer deles a bom termo.A longa vida do movimento permitiu que os historiadores se apoiassem, através de suasobras, mutuamente (ou também reagissem contra).

Nomear apenas as mais importantescontribuições da história dos Annales significa escrever uma lista por si sóimpressionante: história-problema, história comparativa, história psicológica, geo-história da longa duração, história serial, antropologia histórica.

Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos Annales ,incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas áreas.

Ogrupo ampliou o território da história, abrangendo áreas inesperadas do comportamentohumano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. Essasextensões do território histórico estão vinculadas à descoberta de novas fontes e aodesenvolvimento de novos métodos para explorá-las. Estão também associadas àcolaboração com outras ciências, ligadas ao estudo da humanidade, da geografia àlingüística, da economia à psicologia. Essa colaboração interdisciplinar manteve-se pormais de sessenta anos, um fenômeno sem precedentes na história das ciências sociais.

É por essas razões que o título deste livro se refere à “Revolução Francesa dahistoriografia”, e que seu prefácio se inicia com estas palavras: “Da produçãointelectual, no campo da historiografia, no século XX, uma importante parcela do queexiste de mais inovador, notável e significativo, origina-se da França”.

A historiografia jamais será a mesma.

Glossário: A Linguagem dos Annales

Este breve glossário foi elaborado, primeiramente, para servir como uma guiaaos leitores não habituados à linguagem dos historiadores dos Annales . As notashistóricas, tão acuradas quanto eu as poderia fazer, serão, com toda certeza, corrigidaspelos filólogos no devido tempo.

Conjuntura

Na linguagem dos economistas franceses, este vocábulo é a palavra normalpara “tendência” (foi utilizada anteriormente por economistas alemães como ErnstWagemann em seu Konjunkturlehre de 1928, e por historiadores como Wilhelm Abel,em seu estudo Agrarkonjunktur , de 1935). Braudel ajudou a colocar o termo emcirculação junto aos historiadores, falando em la conjoncture générale du XVI e siècle (aconjuntura geral do século XVI), em sua aula inaugural em 1950. A palavra implica(como se poderia esperar de sua etimologia, coniungere, associar) um sentido deconexão entre fenômenos diversos, mas simultâneos.

Genericamente adotado peloshistoriadores dos Annales , contudo, era freqüentemente usado no sentido decomplementar oposto à estrutura , para significar, em outras palavras, antes a curta oumédia duração do que a longa duração, não implicando conexões colaterais (Chaunu,1959, 2, 9-13; Burguiére, 1986,152-3).

Civilização

O termo mais difícil de definir na trindade dos Annales . Antes de surgir notítulo da revista em 1946, havia sido empregado por Bloch em seu livro Les caractèresoriginaux de L’histoire.

... Era também um termo que tinha os favores do antropólogoMarcel Mauss, logo seguido por Braudel. Em todos esses casos, o melhor talvez fossetraduzir o termo por “cultura”, no sentido antropológico mais amplo. Assim, a civilisation materièlle de Braudel pode ser traduzida por “cultura material”.

Estrutura

Febvre emprega o termo “estrutura” ocasionalmente, mas também ele tinhaprevenções a seu respeito. Braudel pouco se utilizou do vocábulo em seu Mediterrâneo ,no qual o que podemos chamar de seções estruturais são descritas como “a parte domeio” e “destinos coletivos”. Parece ter sido Chaunu quem o introduziu, definindo-ocomo “tudo o que numa sociedade, ou numa economia, tem uma duraçãosuficientemente longa em sua modificação para escapar ao observador comum”(Chaunu,1959,1,12:conf. Burguiére, 1966,644-6).

Etno-história

Um falso amigo. O que o mundo de fala inglesa chama de “antropologia”é, usualmente, descrito em francês como etnologia. Conseqüentemente, etno-história significa antes “antropologia histórica” (talvez, fosse mais exato “históriaantropológica”) do que “etno-história”, no sentido americano de história dos povosnãoletrados.

História episódica (événementielle)

Um termo depreciativo para a história dosacontecimentos, lançado por Braudel no prefácio de seu Mediterrâneo , mas utilizadoanteriormente, por Paul Lacombe, em 1915 (embora a idéia retroaja a Simiand,Durkheim, e mesmo ao século XVIII).

História global

Um ideal formulado por Braudel. “Globalidade não é querer escreveruma história completa do mundo... é simplesmente o desejo, ao nos defrontarmos comum problema, de ir sistematicamente além de seus limites” (Braudel, 1978, p.245). Opróprio Braudel estudou o seu mar Mediterrâneo no interior do contexto de um“Mediterrâneo maior”, que la do Saara ao Atlântico. O termo parece ter sido emprestadoda sociologia de Georges Gurvitch, Ver
história total.

História do Imaginário

Um termo recente, empregado por exemplo por Duby (1978) eCorbin (1982), que mais ou menos corresponde à velha história das representaçõescoletivas. O vocábulo antigo tinha vinculações durkheimianas, enquanto o novo,“imaginário”, relaciona-se com tendências neomarxistas. Parece ter se originado de C.Castoriadis, L’instituition imaginaire de la societé (1975), um estudo que é, por sua vez,devedor da famosa definição de ideologia de Althusser, fundamentada na pressuposiçãode “relação imaginada às reais condições de existência”.

História imóvel

Algumas vezes traduzida como “história sem movimento”, ou “históriaimóvel”, expressão usada por Le Roy Ladurie numa conferência sobre o ecossistema doinício da França moderna, muito criticada por ter sido ,entendida como uma negação daexistência de mudança na história (Le Roy Ladurie, 1978, 1-27). Braudel (1949) jáhavia falado de uma , no prefácio de seu Mediterrâneo.

História-problema

“uma história orientada por problemas”, um slogan de LucienFebvre, que pensava que toda história deveria tomar essa forma.

História quantitativa

Um outro falso amigo, pois o termo se refere, em francês, não àhistória quantitativa em geral, mas à história macroeconômica, à história do ProdutoNacional Bruto, no passado. Alguns tipos de história quantitativa são conhecidos, naFrança, como história serial (Burguiére,1986, 557-62).

História serial

Um termo empregado por Chaunu em 1960, tendo sido rapidamenteapropriado por Braudel e outros, para se referirem às tendências de longa duração, peloestudo das continuidades e descontinuidades, no interior de séries relativamentehomogêneas de dados (preços de cereais, data das safras de vinho, nascimentos anuais,comungantes de Páscoa, etc.) (Conf. Chaunu,1970, 1973; Burguiére, 1986,631-3).

História total

Febvre gostava de falar em história simplesmente (histoire tout court ) emoposição à história econômica, social ou política. R.H. Tawney, em 1932, empregou otermo histoire integrale, utilizando talvez um modelo francês. O antropólogo MarcelMauss, porém, gostava de empregar o adjetivo total, com o objetivo de caracterizar otipo de abordagem de sua ciência. Braudel usou o termo na conclusão da segundaedição de seu Mediterrâneo e em vários outros estudos. (Conf. Devulder,1985) – Ver também história global.

Longa duração

Esta frase transformou-se num termo técnico depois que foi utilizadopor Braudel em seu famoso artigo (Braudel, 1958). Uma concepção semelhante percorreseu Mediterrâneo , nesse livro, porém, ele escreveu uma história quase imóvel (em lugarde muito longa duração) e uma história lentamente ritmada (para mudanças ocorridasem apenas um século ou dois).

Mentalidade

Ainda que Durkheim e Mauss tenham empregado ocasionalmente otermo, foi o livro de Lévi-Bruhl, La mentalité primitive (1922), que o lançou na França.Assim mesmo, apesar de ter lido Lévi-Bruhl, Marc Bloch preferiu descrever seu Les Rois Thaumaturges (1924), hoje reconhecido como uma obra pioneira na história dasmentalidades, como uma história de representações coletivas (termo preferido porDurkheim), representações mentais , ou mesmo ilusões coletivas.

Nos anos 30, Febvreintroduziu o vocábulo instrumental intelectual , mas não obteve grande sucesso. FoiGeorges Lefebvre, um historiador situado nos limites do grupo dos Annales, quecunhou a frase história das mentalidades coletivas.

História Nova

A expressão foi popularizada pelo livro La nouvelle histoire (1978),editado por Jacques le Goff e outros, mas já havia sido reivindicada, anteriormente, paraos Annales.

Braudel havia falado de uma História Nova em sua aula inaugural noCollège de France (1950). Febvre, por outro lado, usara frases como “ uma outrahistória ” para descrever o que o grupo dos Annales tentava fazer.

Instrumental intelectual, ver mentalidade

Psicologia Histórica

O termo foi usado por Henri Berr em 1900, ao formular o objetivode sua recém-fundada Revue de Synthèse Historique . Bloch descrevia Les Rois...(1924)como uma contribuição à psicologia religiosa e alguns de seus últimos ensaios – sobrerespostas às mudanças tecnológicas – como contribuições à psicologia coletiva.

Febvredefendeu a psicologia histórica num artigo de 1938, publicado na Encyclopédie française , e descreveu seu estudo de Rabelais (1942) da mesma forma. Robert Mandrousubtitulou seu Introduction à la France moderne (1961), baseado em notas deixadas porFebvre, e publicado numa coleção criada por Berr, “ensaio de psicologia histórica”.Mais recentemente, em sua disputa com o termo “mentalidades”, foi o perdedor.

Peter Burke

Fonte: pt.slideshare.net