Zumbi dos Palmares (Página 8)
Zumbi dos Palmares

ZUMBI - REI DOS PALMARES

Nascido por volta de 1656
Morto em 20 de novembro de 1695

ZUMBI

Zumbi dos Palmares

Aqualtune teve filhos que se tornaram chefes de mocambos, Ganga Zumba e Gana Zona, e teve também filhas, e uma delas deu-lhe um neto nascido quando Palmares esperava um ataque holandês. Os negros cantaram e dançaram muito, pedindo aos deuses que o menino crescesse bravo e forte. E, para sensibilizar o deus da guerra, deram ao menino o nome de Zumbi.

Ainda bebê, Zumbi sobreviveu a um massacre, e um comandante o leva para Porto Calvo, deixando-o sob os cuidados do padre Melo. O padre acabou se tornando pai e mãe do bebê. Comprou uma escrava de seios fartos para amamentá-lo, batizou-lhe Francisco, porque "era manso e inteligente como o santo que conversava com os animais". Ensinou matemática, histórias da bíblia e latim a Francisco, que chegou a coroinha.

Enquanto Palmares cresce e se fortalece, também assim acontece com Zumbi, em Porto Calvo. Porém, aos quinze anos resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, e este estaria mata adentro, muitas léguas dali.

Em algumas versões da história de Zumbi, ao chegar em Palmares, ele escolhe seu próprio nome.

Aos dezenove anos, era chefe de um mocambo (ou aldeia).

Ativo e muito instruído para a época, ganha a confiança de todos e é nomeado o comandante das armas pelo seu tio Ganga Zumba, na ocasião o líder supremo de Palmares.

Nas lutas travadas em 1674, entre os negros, Zumbi surge como grande guerreiro, chefe valente, disposto a tudo. Nesse combate, o jovem chefe leva dois tiros, ficando coxo, mas continua a combater. Seu nome e sua coragem começavam a virar lenda. Porém, alguns mocambos foram sendo derrotados e muitos negros acabavam por se entregar.

Após Ganga Zumba ter aceito o acordo proposto pelo governador de Pernambuco Pedro de Almeida que dizia que os negros e índios nascidos em Palmares se tornariam livres e os que fossem fugidos deveriam voltar a seus donos, ele volta feliz à Palmares, mas Zumbi não concorda. Para ele, não se trata somente de viver livre, mas de libertar os ainda escravos.

É a prudência e a sabedoria de Ganga Zumba contra a ousadia e o entusiasmo de Zumbi.

Ganga Zumba é morto por envenenamento e a suspeita caiu sobre o próprio Zumbi, que ocupa o lugar do rei. Até mesmo os portugueses reconheciam : "Negro de singular valor, grande ânimo e constância rara".

Sua valentia era lendária dentro da cruel realidade de guerra, uma guerra onde os negros não conseguem mais armas ou pólvora, a não ser a que tomam do inimigo.

O rei de Portugal ainda mandou oferecer as pazes a Zumbi duas vezes. Editais são espalhados por todas as vilas e vizinhanças. Poderia morar aonde quisesse, era só parar de lutar contra a escravidão: tem que ter escravo; sem escravo não tem açúcar, sem açúcar não tem Brasil, sem Brasil não tem Portugal. Mas Zumbi pensava diferente: não precisa ter escravo; pode ter açúcar sem escravo, pode ter Brasil sem açúcar. E Portugal que se vire.

Não havendo acordo, as lutas se acirraram. Zumbi resiste nas matas mês após mês, ano após ano. Em 1686, outro governador, nova tentativa. São vários grupos com mais de mil homens e com munição suficiente para uma guerra. São comandados pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que tomaria para si as terras de Palmares, caso conseguisse derrotar Zumbi. Foi uma guerra dura e sangrenta.

Palmarinos haviam construído uma muralha enorme para proteger o quilombo, e do lado de fora, Zumbi mandou abrir um fosso, disfarçado com galhos e fôlhas. Quem tentava ser aproximar, caía lá dentro. Os palmarinos e suas mulheres, de cima das cêrcas, lançavam água fervente sobre os atacantes.

De um lado para o outro, Zumbi gritava aos seus homens, convidando-os a morrer em liberdade. Ele é baleado e mesmo assim continua lutando. Sua abnegada resistência levou a luta a se transformar em um massacre de incríveis proporções. A côrte não escolhe: homens, mulheres e crianças vão ficando pelo chão.

Ao raiar do dia 7 de fevereiro de 1694, só há mortos e feridos. Os homens de Domingos Jorge Velho começam, a procurar Zumbi, mas não encontram seu corpo.

Mais de um ano depois, um negro prestes a ser executado troca sua vida pela informação do paradeiro de Zumbi. E assim foi: o encontraram e renderam com mais de vinte homens e no dia 20 de novembro de 1695, André Furtado de Mendonça corta a cabeça daquele que foi o mais destemido rei e guerreiro, neto da princesa Aqualtune: nascido livre e morto por querer a liberdade de seu povo.

Um herói brasileiro. A notícia se espalhou entre os milhares de escravos que não acreditaram: Zumbi morto? Impossível! Um deus da guerra não pode morrer. E do fundo das noites cantavam para dar força e vigor ao rei de Palmares:

"Zumbi, Zumbi, oia Zumbi..."

AQUALTUNE

Os escravos negros do Congo, Angola, Benguela, Mina, Cabinda, eram trazidos ao Brasil amontoados nos porões úmidos dos navios, para serem leiloados pelos donos de engenho.

Em um desses leilões, uma certa princesa, Aqualtune, está sendo "disputada" como uma mulher forte, boa para o trabalho.

Assim eram escolhidos os escravos e levados aos engenhos, onde trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol, e dormiam trancafiados nas senzalas que possuíam uma só porta e nenhuma janela, apenas respiradouros. Por vezes, as senzalas eram construídas semi-enterradas no solo. Ao cometer o menor erro, o escravo levava chicotadas nas costas e, posteriormente, nas feridas em carne viva, era colocado sal.

Alguns homens eram escolhidos como feitores, outros trabalhavam por até dez anos até perderem a saúde e a força, e outros fugiam para a mata virgem.

Simultaneamente à chegada da princesa Aqualtune ao Brasil, no ano de 1597, cerca de 40 escravos fugidos chegaram à serra da Barriga, onde o solo era fértil e a vegetação abundante. Havia extensos palmeirais, por isso, os negros que escolheram aquele lugar para viver, deram-lhe o nome de Palmares.

Os negros fugiam das fazendas aos montes, se embrenhando mata adentro, formando quilombos por todo o Nordeste, avançando também pelo Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Negros vivendo livres, em um agrupamento onde há comida, e à espera de mais escravos? A notícia corre de senzala em senzala, e os mais corajosos enfrentam o medo de serem capturados. Entre eles, a princesa Aqualtune, que vai rumo à Palmares.

PALMARES

Este quilombo era uma miscelânea: viviam ali negros nascidos de diversas tribos africanas, com costumes e dialetos diferentes, ao lado de outros, que - chegados crianças ou tendo nascido no Brasil - traziam já a marca da cultura dos brancos.

Em Palmares também haviam índios, muitos deles ex - escravos, mulatos e até brancos fugitivos da justiça. Palmares era constituído por dezenas de aldeias denominadas mocambos, cada qual com seu chefe (aqueles que na África haviam pertencido à nobreza). Em 1644, os holandeses já dominavam Pernambuco inteiro e queriam conhecer o quilombo, que a esta altura já tinha grandes plantações e famílias inteiras estabelecidas. Palmares cobre quase todo o atual estado de Alagoas, além de parte de Pernambuco e Sergipe. Algumas expedições holandesas tentaram extinguir os quilombos, mas subestimaram seu tamanho e força, não obtendo nenhuma vitória. Em 1654, os holandeses são expulsos do nordeste pelos portugueses. Ao mesmo tempo, a concorrência da Jamaica, fazendo com que o Brasil perdesse os seus mercados tradicionais de açúcar, lançou o nordeste num período de decadência econômica. Estes fatores culminaram em uma "trégua" entre Palmares e as vilas próximas: o quilombo fornecia produtos agrícolas - além de caça, peixe e objetos de cerâmica - em troca de ferramentas agrícolas, armas de fogo e pólvora.

Palmares era então uma longa faixa de terra de 200 quilômetros de largura, paralela à costa, situada entre o cabo de Santo Agostinho, Pernambuco e a parte norte do curso inferior do rio São Francisco, hoje no estado de Alagoas. Nove rios banhavam o lugar, proporcionando mata exuberante e terras muito férteis. O terreno era montanhoso, tornando o lugar de difícil acesso, protegendo o quilombo. Além das frutas, a floresta fornecia quanto vegetal fosse preciso: as palmeiras ofereciam coberturas para as choupanas e material para a confecção de chapéus, esteiras, cestos, leques e vassouras. Com o miolo de uma árvore chamada pininga erguiam-se as estruturas das habitações.

Da casca das árvores faziam-se as vestimentas. Da polpa e da amêndoa da palmeira pindoba extraía-se azeite, do côco se obtinha manteiga. E de muitas outras árvores, muitas outras coisas. Até vinho de algumas frutas se fazia em Palmares. Apesar do florescente comércio entre o quilombo e os colonos da região, a paz era temporária. Palmares estava fortalecido e enviava emissários aos engenhos ou raptavam negros das senzalas. De simples refúgio de escravos fugidos, Palmares transformava-se em um centro de resistência contra todo o sistema escravocrata.

Na década que se inicia em 1670, o quilombo viveu seu apogeu provavelmente com mais de 50 mil habitantes, distribuídos em vários mocambos, cada qual com seu chefe, que se reuniam constantemente para resolver assuntos importantes, especialmente a guerra, que não tardaria a vir. Em 1674, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida. organiza uma nova expedição As lutas são sangrentas. Os homens enviados a Palmares encontram uma grande cidade de mais de 2 mil casas, fortificada com estacadas de pau a pique.

Nela, os negros resistiram por duas horas e meia, retirando-se quando se ateou fogo às casas. Manuel Lopes, o sargento-mor, instalou-se no mocambo, transformando-o em arraial. Entre os destroços, Manuel Lopes encontra os restos de uma capela com imagens. Os palmarinos (assim eram chamados os que viviam em Palmares) haviam adotado o cristianismo sem abandonar os velhos deuses africanos. É bom lembrar que o Quilombo dos Palmares representava uma autêntica república negra com sua organização militar, de trabalho e de produção; já trabalhavam o ferro e a agricultura que incluía o plantio de mandioca, cana-de-açúcar e a criação de gado supria as necessidades internas, sendo que o excedente era trocado com a vizinhança por sal, pólvora e armas de fogo.

Todo este comércio era tratado de tal forma organizada que provavelmente incomodou a côrte e as autoridades locais. Neste momento, mais que a extinção do quilombo, ao governo interessava a submissão dos negros ao sistema. Para tal, à Pedro de Almeida, governador de Pernambuco na época, foi sugerida uma tentativa de "acordo": Este começou a tratar os palmarinos derrotados com certa benignidade. Integrados na colônia, poderiam constituir em Palmares um novo reduto português e seus mocambos se tornariam vilas. Ganga Zumba, tio de Zumbi, vendo as dificuldades para continuar o combate, e ao mesmo tempo podendo ver sua gente toda livre, aceita a proposta do governador. Chega ao Recife em um cavalo de raça, causando estranheza por onde passava. Seus ministros tinham as barbas trançadas. Olhavam os políticos brancos de cima para baixo..

Vinham bem trajados e bem alimentados. Os pobres do Recife, magros e mal - vestidos, amontoaram-se na porta do palácio para admirar. O tratado dizia: os negros e índios nascidos em Palmares se tornariam livres; os que fossem fugidos deveriam voltar a seus donos; todos deviam obedecer ao rei de Portugal; os que concordassem, receberiam terras para viver e trabalhar; ficava permitido o comércio entre Palmares e as cidades vizinhas.

Fonte: www.portalafro.com.br

Zumbi dos Palmares

Estendendo-se de meados do século XVI aos fins do XIX, a escravidão, nas Américas, de africanos e descendentes foi um dos episódios mais dolorosos da História dá Humanidade. Mas a toda essa crueldade, que despovoou a Africa e vitimou milhões de seus melhores filhos, opôs-se um modelo de resistência admirável: os quilombos.

Na Angola pré-colonial esses mitos de arraiais militares e núcleos habitacionais e comerciais, abertos a africanos de quaisquer etnias, já desempenhavam um papel político e econômico fundamental. Transplantada para as Américas, a instituição (chamada cumbe ou palanque na América hispânica) firmou sua importância na resistência à escravidão.

Mas de todos os quilombos americanos sem dúvida, o mais importante foi a confederação dé Palmares nascida por volta de 1590, quando escravos de um; engenho pernambucano, depois de uma rebelião sangrenta, refugiam-se na serra da Barriga, atual Alagoas, e lá criam as bases de um incômodo "Estado livre" em pleno Brasil colonial.

Até a destruição de seu reduto principal, em 1694 (cem anos depois), Palmares foi, de fato, um verdadeiro Estado autônomo encravado na capitania de Pernambuco: no auge de sua produtiva existência suas relações com as comunidades vizinhas chegaram a ter momentos de uma troca econômica rica e organizada. E essa autonomia, abalando a autoridade colonial, motivou uma repressão jamais vista.

De 1596 a 1716, ano da destruição de seu último reduto, os palmarinos suportaram investidas de 66 expedições militares e atacaram 31 vezes. E em toda essa luta avulta a figura do grande líder Zumbi. Estrategista comparável aos grandes generais da História ocidental, como Ciro, Aníbal, Alexandre e Napoleão, Zumbi dos Palmares, morto à traição em 20 de novembro de 1695, aos 40 anos de idade, é hoje visto como o maior líder da resistência anti-escravista nas Américas. O tricentenário de seu "ingresso na História", ora comemorado, é a final redenção de um dos maiores heróis da Humanidade.

Em fins do século XVI, escravos de um grande engenho da capitania de Pernambuco, depois de uma rebelião sangrenta, refugiam-se na Serra da Barriga, na região conhecida como Palmares, hoje pertencente ao Estado de Alagoas, e lá se organizam em kilombo - misto de arraial militar núcleo habitacional e comercial supratribal e supra-étnico, comum na -Angola daquele tempo.

Já na virada para o século XVII, o número de escravos e libertos reunidos em Palmares, e que por necessidade de sobrevivência descia para saltear os engenhos vizinhos, somava centenas de quilombolas. E à desorganizac,ão inicial seguiu-se uma estruturação do reduto. Tanto que, por volta de 1630, Palmares já teria cerca de 3 mil aquilombados, desenvolvendo uma agricultura avançada para os padrões locais e da época, plantando cana-de açúcar, milho, feijão, mandioca, batata e legumes; fabricando artefatos de palha, manteiga e vinho; criando galinhas e porcos; e desenvolvendo uma organizada atividade metalúrgica, necessária à sua subsistência e à sua defesa.

A chegada dos holandeses a Pernambuco, em 1630, e as guerras que essa presença motivou facilitaram a fuga de mais gente para Palmares. Em conseqüência, o quilombo (agora já uma confederação de aldeias) foi se fortalecendo e se transformando em uma real e perigosa ameaça ao poder colonial. Aí, então, a repressão tomou corpo.

De 1596 a 1716, ano da destruição final da resistência quilombola na região, os palmarinos suportaram investidas de 66 expedições coloniais, tanto de portugueses quanto de holandeses. E, em 31 vezes, tomaram a iniciativa do ataque.

Ivan Alves Filho, importante historiador contemporâneo das guerras palmarinas, divide essa história em quatro fases: na primeira, que vai de 1596 a 1630, os ataques coloniais se dirigem a quatro ou cinco aldeamentos, na segunda, de 1631 a 1654, fase da ocupação holandesa de Pernambuco as investidas se concentram na cidadela de Macaco, principal reduto palmarino; na terceira, de 1655 a 1694, travam-se as batalhas mais encarniçadas, aí ocorrendo a queda de Macaco; e, finalmente, na quarta, ocorrem as mortes de Zumbi (1695) e de seus sucessores Camuanga (desaparecido em 1699) e Mouza do Palmar (1716). Mas em 1725 ainda há tropas militares na Serra da Barriga, antecipando a ocupação oficial do território que se dá, afinal, no ano de 1736.

História até agora conhecida reservou para dois deles, Zumbi e Ganga Zumba, o papel de protagonistas principais dessa verdadeira epopéia. E o ano de 1678 é o divisor de águas entre esses dois estilos de comandar: depois de sérias perdas suportadas pelos palmarinos em 1677, Ganga Zumba, então principal dirigente, negocia a paz com as autoridades coloniais e abandona a Serra com seus seguidores, provocando uma séria dissensão nas hostes palmarinas e o início da liderança de Zumbi.

Em 1680, no arraial de Cucaú próximo ao litoral, onde se estabelecera, Ganga 7.umba morre envenenado. E a partir daí a repressão a Palmares vai se tornando cada vez mais cruenta, com a participação de milhares de soldados, de milícias patrocinadas pelos senhores de terras e até mesmo de combatentes mercenários. Quinze anos depois, o líder Zumbi - após dezessete anos de combate em que se notabilizou como um dos maiores generais da história da Humanidade -, atraiçoado por um de seus comandados, morre, durante a expedição repressora de Domingos Jorge Velho.

A experiência palmarina foi a maior e mais longa contestação à ordem escravista em todo o mundo e em todos os tempos. Por extensão - e mesmo por ter sido Palmares um reduto que abrigava negros, índios e brancos pobres -, a saga de Zumbi é um rico episódio de luta contra o racismo. Assim, o dia que marca o seu "ingresso na História", 20 de novembro, foi escolhido como "Dia Nacional da Consciência Negra". Consciência que se amplia e se faz ainda mais alerta neste 1995, ano do Tricentenário de Zumbi.

Fonte: www.vivabrazil.com