Tarô

O Jogo que virou Oráculo

Carta de Tarô - Imagem Ilustrativa

Aos 14 anos, Ana Correa, 52, começou a ler baralho comum e mão, por brincadeira, intuição. “Hoje em dia sei que era o inconsciente coletivo familiar, porque sou descendente de ciganos”. Para ler o tarô foi um passo. Ana considera esse baralho de 22 cartas que representam figuras emblemáticas, conhecidas como arcanos maiores, e as 56 cartas semelhantes ao baralho comum, conhecidas como arcanos menores, “uma sínteses de muitos conhecimentos”. Para ela, o tarô é “um veículos de auto-conhecimento, uma ferramenta para você entrar em contato com as leis cósmicas que vivem dentro da gente”.

Em geral, para quem é chamado a se embrenhar pelo fascinante simbolismo do Tarô, pouco importa sua origem. Mas não deixa de ser curioso compreender que a profusão de baralhos hoje disponível em qualquer livraria pode, na realidade, ser fruto de um baralho criado no início do século XV, no norte da Itália, usado unicamente para um jogo semelhante ao Bridge, conhecido como Jogo de Triunfos. De acordo com Ana Correa, também há registros que as cartas eram usadas para o ensino de virtudes para as crianças.

Nessa época, os baralhos de cartas de jogar já eram comuns na Europa. Há documentos que atestam a existência, por volta de 1440, de um baralho de “cartas de triunfos”, com pinturas alegóricas de animais. Em 1450, o recém-instalado duque de Milão, Francesco Sforza, escreveu uma carta a um de seus subalternos requerendo que ele comprasse vários pacotes de cartas de triunfos para serem usadas na corte. Esta mensagem é interessante porque o duque menciona as cartas de triunfo e as cartas de jogar, distinguindo-as claramente, pois este último baralho seria sua segunda opção de compra. De acordo com registros históricos, as primeiras cartas datariam do reinado de Filippo Maria Visconti, duque de Milão, no período de 1416 a 1447.

Mapa da Itália na Renascença
Mapa da Itália na Renascença

Naquela época a Itália era uma colcha de retalhos de cidades-estado. O Vaticano controlava a maior parte do centro do país, e o reino da França fazia fronteira com o reino de Savoya. Rapidamente, as cartas de triunfo se espalharam pela França. Foi por volta de 1530 que a palavra tarochi (ancestral da francesa tarô) apareceu pela primeira vez. Aparentemente, a razão para a mudança de nome foi uma inovação feita pelos jogadores, que descobriram que o jogo de triunfos poderia ser jogado com um baralho de cartas comum, se eles simplesmente declarassem que um determinado naipe servia como “triunfos”, no início do jogo. Logo, “triunfo” se tornou um termo ambíguo e uma nova palavra era necessária para se referir ao tradicional jogo que usava as cartas com figuras como trunfos permanentes e que havia se tornado tremendamente popular, particularmente entre a nobreza italiana e francesa da época. Foi assim que a palavra tarochi começou a ser usada, embora sua etimologia permaneça sujeita a conjecturas.

Tarô Visconti - Sforza Tarô Visconti - Sforza
Tarô Visconti - Sforza

Embora evidências históricas documentem que as cartas de triunfos nasceram como cartas de jogo, existe a possibilidade de que as 22 cartas que formam os arcanos maiores do Tarô tenham sido criadas com outros propósitos. Embora nenhum documento tenha sobrevivido para corroborar esta hipótese, o fato é que os símbolos e imagens deste baralho não parecem ter sido selecionados arbitrariamente.

Um dos possíveis criadores desse inventivo jogo de cartas pode ter sido o sábio Marziano de Tortona, que foi tutor do duque Filippo Maria Visconte. Ele era especialista em astrologia (ou astronomia, pois nessa época essas duas disciplinas ainda caminhavam juntas) e lhe servia como secretário.

Sabe-se com certeza que em algum momento em torno de 1515, o duque ordenou que Marziano inventasse um jogo de cartas de acordo com suas instruções. Ao invés dos naipes comuns, o novo baralho representava virtude, riqueza, pureza e prazer, simbolizados por figuras de pássaros: águias, fênix, rolas e pombas. A cada naipe também havia quatro cartas maiores retratando divindades clássicas. Essa concepção de baralho é um antecedente da idéia de “triunfos”, mas embora essas não sejam as cartas que hoje conhecemos como Tarô, Marziano chegou a escrever um livro para acompanhar esse baralho de cartas. Seu livro não fornecia significados divinatório nem regras para um jogo de cartas, seu foco era o significado alegórico das figuras e sua hierarquia. Talvez não seja exagerado supor que algum tempo mais tarde, o duque Filippo tenha instruído seu secretário a conceber outro baralho com cartas alegóricas que, desta vez, significavam as forças que controlam o destino humano.

Outras versões atestam que os Tarocchi de Veneza teriam sido os primeiros a conter a fórmula dos baralhos de tarô conhecidos hoje: 78 lâminas, subdivididas em 22 arcanos maiores e 56 menores. Estes últimos tinham quatro naipes – Denari (dinheiros), Coppe (cálices ou copas), Spade (espadas) e Bastoni (bastos ou bastões) -, cada um deles integrado por um rei, uma rainha, um cavalheiro e dez cartas numeradas.

Tarô e o ocultismo

O interesse moderno do Tarô como um instrumento divinatório teria se originado no séc. XVIII, a partir do movimento ocultista francês e, mais tarde, inglês.

Carta de Tarô - Imagem Ilustrativa

Formado em teologia e pastor da Igreja Reformada, Antoine Court Gebelin (1725-1784) devotou 20 anos à pesquisa que resultou em nove volumes publicados sob o nome de Le Monde Primitif, analysé et compare avec leê monde moderne. No primeiro volume de sua obra, Gebelin apresenta a teoria de que as cartas de Tarô nasceram das páginas do Livro de Thot salvo das ruínas dos templos egípcios. Conta-se que tal livro possuiria as respostas para todos os problemas da humanidade e foi concebido por sacerdotes após consultas com o deus da magia, Thot, que também seria o Mercúrio egípcio. Esses sacerdotes teriam ocultado esse conhecimento secreto no baralho de tarô.

Carta de Tarô - Imagem Ilustrativa

Gebelin também acreditava que os ciganos eram na verdade egípcios que se dispersaram pela Europa, e teria sido deles que se originou o costume de ler a sorte nas cartas. Entretanto há inúmeras evidências que demonstram que os ciganos, forçados a sair da Índia no começo do século XV, só estenderam suas peregrinações pela Europa quando as cartas - que devem ter sido introduzidas na continente pelos árabes - já eram conhecidas há algum tempo.

Gebelin deixou inúmeros seguidores. Muitos ocultistas dizem reconhecer nas cartas do tarô as páginas de livros hieroglíficos que contêm os princípios da filosofia mística dos egípcios numa série de símbolos e figuras emblemáticas.

Um de seus maiores seguidores, o peruqueiro Alliete, inverteu a ordem de seu nome, e como Etteilla publicou muitos livros, entre eles, seu famoso trabalho Manière de se récréer avec lê Jeu de Cartes nommés Tarot.

Etteile sabia como arrebatar a imaginação e a mente do povo da sua época. Adaptou o baralho do tarô ao seu próprio sistema e promoveu ao máximo a cartomancia. Desse modo, Alliette transformou-se no grande adivinho Etteilla e, instalado no Hotel De Crillon, em Paris, pressagiou o destino de muitos franceses que seriam vitimados pelos acontecimentos de 1789.

Carta de Tarô - Imagem Ilustrativa

Enquanto Gebelin e Etteilla procuraram, zelosamente, provar a origem egípcia das cartas do tarô, Eliphas Levi acreditou que elas fossem um alfabeto sagrado e oculto, atribuído, pelos hebreus, a Enoch, filho mais velho de Caim; pelos egípcios, a Hermes Trimegistus, ao deus egípcio Thoth; e, pelos gregos, a Cadmus, que fundou a cidade de Tebas.

Eliphas Levi foi um filósofo e um simbolista profundo. Padre da Igreja Romana, seu verdadeiro nome era Alphonse Louis Constant. Mas por causa de suas obras filosóficas e ocultistas, traduziu seu nome para o hebreu – Eliphas Levi Zahed.

Carta de Tarô - Imagem Ilustrativa

Levi encontrou no tarô uma síntese da ciência e a chave universal da Cabala, pois as dez esferas ou emanações que formam o diagrama cabalístico conhecido como Sephiroth, ou Árvore da Vida, são interligadas por 22 caminhos, cada qual representado por uma das 22 letras do alfabeto hebraico.

Levi, portanto, proclamou que as 22 cartas dos Arcanos Maiores poderiam ser corretamente atribuídas a cada uma das letras do alfabeto hebraico, constituindo, assim, uma unidade completa de letras, cartas e caminhos.

Outro autor que contribuiu significativamente para o ocultismo do Tarô e para a adaptação das 22 cartas-trunfo do baralho às 22 letras do alfabeto hebraico foi Gerard Encausse (1865-1917), médico francês que escreveu sob o nome de Papus. Fundador e líder da Ordem espiritual e maçônica dos Martinistas e membro da Ordem Cabalística da Rosa Cruz, Papus baseou a sua filosofia ocultista na doutrina teosófica concernente ao nome divino YHVH. Os conceitos e aplicações dos códigos e dos diagramas de Papus são apresentados no seu famoso trabalho The Tarot of the Bohemians - Absolute Key to Occult Science.

Autor de um dos mais famosos baralhos de Tarô, Dr. Arthur Edward Waite (1857-1942) foi membro da Ordem do Golden Dawn e um genuíno estudioso e pesquisador do ocultismo. Entre seus livros está The Key to the Tarot e The Holy Kabbalah. Para ele, a chave do Tarô reside única e exclusivamente no simbolismo das cartas, que formam uma espécie de alfabeto capaz de infinitas combinações que sempre fazem sentido. “O Tarô incorpora as representações simbólicas das idéias universais, por trás das quais estão todos os subentendidos da mente humana”, disse Waite. “É nesse sentido que ele contém a doutrina secreta, que é a percepção, por uns poucos, de verdades encerradas na consciência de todos, muito embora elas não tenham sido claramente reconhecidas pelas pessoas comuns”.

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