No período abrangido pelos governos do austero Marechal Castilla,
as explorações prosseguiram. Castelnau desceu das cabeceiras
do Urubamba às ribas do Amazonas; Maldonado imortalizou-se descobrindo,
numa excursão temerária, a nova estrada para o Atlântico
ajustada ao sulco desmedido do Madre de Diós; e Raimondi desvendou
os tesouros da mesopotâmia de 16.000 léguas quadradas de terras
exuberantes, interferidas pelos cursos do Huallaga e do Ucaiáli. Por
fim Montferrir calculou, rigorosamente, as riquezas da Canaã vastíssima:
50.000.000 de hectares, valendo o mínimo de meio bilhão de pesos.
A aritmética tornava-se quase lírica nesta dilatação
de números maravilhosos.
As medidas governamentais do grande Marechal tiveram para logo o alento dos
mais enérgicos estímulos patrióticos, a par do anseio
de fortuna dos mais desassombrados aventureiros.
Os peruanos, iludidos durante largo tempo no litoral estéril, viam
pela primeira vez o nôvo mundo. E a conquista da terra, numa de suas
fases mais agudas, desenrolou-se em tôda a plenitude.
Então, contravindo a tantas esperanças sob o amparo das mais
lúcidas resoluções governativas - leis, regulamentos
e decretos enfeixando-se num volumoso compêndio de administração
fecunda e militante - principiou uma fase desalentadora de brilhantes tentativas
abortícias.
As colônias planeadas, e para logo erigidas, espelhavam por algum tempo
naqueles rincões solitários a fantasmagoria de um progresso
artificial; e extinguiam-se prestes. Já em 1854 o governador de Loreto,
pueblo obscuro cujo nome irradia hoje abrangendo aquêles lugares, ao
informar do estado de duas colonizações sucessivas que ali se
estabeleceram, centralizadas em Caballo-Cocha, próximas à fronteira
do Brasil, indicava-as completamente extintas. E idênticos malogros
generalizavam-se por tôda a banda.
Eram naturais. As vagas humanas nas paragens virgens não se aquietam
de súbito. Carateriza-as nos primeiros estádios a instabilidade
inevitável imposta pela própria força viva adquirida
no movimento da maarcha. Precedendo ao equilíbrio das culturas, surge
a pesquisa dos frutos ou das riquezas imediatas, como a permitir aos recém-vindos,
na vida errante das colheitas, dos garimpos, dos pastoreios ou das caçadas,
um reconhecimento imprescindível do seu nôvo habitat, antes da
escolha de uma situação de descanso.
É a eterna função social do nomadismo, que mesmo no Peru
já se manifestara na azáfama devastadora dos cascarileros, desvendando
as paragens ignotas que vão dos cerros de Carabaya às vertentes
mais aastadas do Beni.
Êste incentivo, porém, ali, estava extinto.
Por aquêle tempo, uma tenaz explorador, Marckam, comissionado pelo govêrno
inglês, andava nas regiões da quina calisaya; e conseguira transplantar
tão prontamente para as Índias aquêle elemento da fortuna
peruana que, já em 1862, mais de quatro milhões de árvores,
em Darjeeling, com a produção extraordinária de 370 toneladas
de quinino, iniciavam uma concorrência triunfante no primeiro assalto.
Dêste modo, as paragens tão ansiosamente apetecidas mostravam-se,
ante os novos povoadores, desnudas dêsses recursos que em tôda
a parte se figuram adrede predispostos a que não se desenfluam as esperanças
sempre exageradas dos que emigram.
Não lhes bastariam, certo, as bombonaças para os chapéus
de palha oriundos da indústria graciosa das mulheres do Moyobamba,
ou os cascalhos auríferos das vertentes do Pastaza guardadas pelos
huambizas ferocíssimos.
Assim, todos os atos, e magníficos decretos, e lúcidos regulamentos,
e generosas concessões de terras, do último govêrno de
Castilla, desfechariam nos mais lastimáveis insucessos se, precisamente
na derradeira quadra da sua presidência, e no mesmo ano (1862) em que
a cultura indiana da quina arrebatava daqueles desertos o seu maior atrativo
_ um anônimo, um outro imortal humílimo evadido da nossa História,
não aparecesse, eclipsando de golpe os mais imponentes lances administrativos
e oferecendo aos peruanos o reagente enérgico que os alentaria até
aos nossos dias na rota da Amazônia.
Um brasileiro descobriu o caucho; ou, pelo menos, instituiu ali a indústria
extrativa correspondente.
No reconstruir êste trecho da nossa História, que versado mais
tarde por um historiador merecerá o título de "Expansão
Brasileira na Amazônia", não vamos desacompanhados.
Diz-nos um narrador sincero:
"Antes do ano de 1862, não tinha ainda sido explorada a incalculável
riqueza da goma elástica... Depois da entrada de alguns brasileiros
para o território do Departamento, principalmente do laborioso José
Joaquim Ribeiro, começou êste rico produto a figurar no catálogo
dos que o Departamento exporta para o Brasil. A primeira quantidade exportada
foi de 2.088 quilogramas, produto dos ensaios daquele brasileiro que muito
teria contribuído para o desenvolvimento dessa indústria, se
ao iniciá-la não encontrasse contrariedades nascidas do cupidismo
de alguns agentes subalternos que contra êle exerceram todos os ardis..."
Não comentemos o desquerer das autoridades peruanas. Era antigo. Desde
1811 o reportado D. Manoel Ijurra denunciava "los Brazileros más
próximos al Perú que tienen la bárbara costumbre de armar
expediciones militares con objeto de haccer correrías sobre los indios
Maynas, atropelando muchas veces las autoridades..."; ou apresentava-os
como "absolutos monopolizadores del comercio de importación o
exportación." Cinco anos depois, em ofício alarmante, o
Subprefeito de Maynas solicitava providências urgentíssimas "al
intuito de que los Brazileros moradores de Caballo-Cocha, salgan fuera de
esta provincia, se buenamente no quieren, por la fuerza"; e pintava-os
laivando-os dos mais denegridos estigmas. Por fim o Governador-Geral das Missões
(1849) determinou se exigissem passaportes de todos os brasileiros que lá
entrassem, gaguejando num castelhano emperrado esta razão curiosíssima:
"que no se experimentaba provecho alguno en estos negociantes del Brazil;
ni menos hay bayonetas con que poder conterlos; hacen lo que quieren metiendo-se
por los rios, extraendo zarza, manteca, salado e otras especies..."
Não prossigamos.
Adivinha-se nestas linhas, que poderiam ser prolongadas, a invasão
formidável que se alastrava avassaladora para o ocidente, desafiando
os ódios do estrangeiro; espraiando-se pelo vale do grande rio, por
Loreto, Caballo-Cocha, Moremote, Perenate, Iquitos, até Nauta, na embocadura
do Ucaiáli; subindo pelo Ucaiáli em fora até além
do Pachitéa: deixando nos mais vários pontos, nos sítios
numerosos, nas trilhas coleantes do deserto, e até nos costumes ainda
persistentes, os traços indeléveis da passagem.
Se a historiássemos contraporíanos às verrinas oficiais
dos subprefeitos apavorados, cujos dizeres se pejoravam à medida que
progredia aquela surda conquista do solo, os próprios conceitos de
Antonio Raimondi. Mas aquêle belo tipo de Joaquim Ribeiro, que em 1868
o maior naturalista peruano foi encontrar nas margens do Itaia possuindo as
melhores fazendas do Departamento, concretiza uma réplica irrefragável.
Não o pearam tão pequeninos empeços. Criada a indústria
extrativa, a exportação da borracha a partir de 1871 erigiu-se
preeminente entre as dos demais produtos de Loreto. E as turmas dos extratores,
sem nenhuns amparos oficiais, rompendo espontâneos de tôda a parte
e arremetentes com as mais desfreqüentadas espessuras, ultimaram em pocuo
tempo a emprêsa quase secular tantas vêzes cindida de reveses.
Desvendou-se todo o Oriente.
Mas há um reverso no quadro.
A exploração do caucho como a praticam os peruanos, derribando
as árvores, e passando sempre à cata de novas "manchas"
de castilloas ainda nào conhecidas, em nomadismo profissional interminável,
que os leva à prática de todos os atentados nos recontros inevitáveis
com os aborígenes - acarreta a desorganização sistemática
da sociedade. O caucheiro, eterno caçador de territórios, não
tem pega sôbre a terra. Nessa atividade primitiva apuram-se-lhe, exclusivos,
os atributos da astúcia, da agilidade e da fôrça. Por
fim, um bárbaro individualismo. Há uma involução
lastimável no homem perpètuamente arredio dos povoados, errante
de rio em rio, de espessura em espessura, sempre em busca de uma mata virgem
onde se oculte ou se homizie como um foragido da civilização.
A sua passagem foi nefasta. Ao cabo de 30 anos de povoamento, as margens
do Ucaiáli, tão nobilitadas outrora pela abnegação
dos missionários de Sarayaco, patenteiam, hoje, nos seus vilarejos
diminutos, uma decadência moral indescritível.
O Coronel Pedro Portillo, atual Prefeito de Loreto, que as visitou em 1899,
denunciou-a, indignado: Alli no hay leyes... El más fuerte que tiene
más rifles, es el dueño de la justicia". Verberou depois
o tráfico escandaloso de escravos. E, afinados pelo mesmo tom, um sem-número
de outros excursionistas, que fôra longo citar, delatam, em narativas
expressivas, o regime de tropelias que se normalizou naquelas terras - e se
amplia seguindo os rastros do homem que passa pelo deserto com o só
efeito de barbarizar a própria barbaria.
* * *
Ora, na presciência dos inconvenientes desta exploração,
que, entretanto, determinou o pleno desdobramento de seu domínio no
Oriente, o govêrno peruano nunca renunciou ao seu primitivo propósito
de uma colonização intensiva. E para ao mesmo tempo garantir
o tráfego do melhor caminho para o Amazonas, pelo Ucaiáli, que
vai da estação terminus de Oroya aos tributários principais
do Pachitéa, estabeleceu em 1857, à margem de um dêles,
o Rio Pozuzo, a colônia alemã, que sôbre tôdas lhe
monopolizou os cuidados e uma solicitude nunca interrompida.
Realmente, a situação era admirável. À média
distância de Iquitos, próxima aos afluentes navegáveis
do Ucaiáli e num solo exuberante, o núcleo estabelecido era,
militar e administrativamente, o mais firme ponto estratégico daquele
combate com o deserto, justificando-se os esforços e extraordinárias
despesas que se fizeram para um rápido desenvolvimento, que as melhores
condições naturais favoreciam.
Mas não lhe vingou o plano. A exemplo do que acontecera em Loreto,
os novos povoadores, embora mais persistentes, anulavam-se, estéreis.
A colônia paralisara-se, tolhiça, entre os esplendores da floresta.
Reduziu-se a culturas rudimentares que mal lhe satisfaziam o consumo. E o
progresso demográfico, quase insensível, retratava-se numa prole
linfática, em que o rijo arcabouço prussiano se engelhava na
envergadura esmirrada do quíchua. Ao visitá-la, em 1870, o Prefeito
de Huanuco, Coronel Vizcarra, quedou atônito e comovido: os colonos
apresentaram-se-lhe andrajosos e famintos, pedindo-lhe pão e vestes
para velarem a nudez. O romântico D. Manoel Pinzás, que descreveu
a viagem, pinta-nos em longos períodos soluçantes os lances
daquele cuadro desgarrador!, suspendendo-o em dois rijos pontos de admiração.
Viu-o ainda, passado um lustro, com as mesmas côres sombrias, o Dr.
Santiago Tavara, ao descrever a primeira viagem do Almirante Tucker.
Por fim, transcorridos trinta anos, o Coronel P. Portillo na sua rota do Ucaiáli
teve notícias certas do núcleo povoador: era uma Tebaida aterradora.
Lá dentro os primitivos colonos e os seus rebentos degenerados agitavam-se
vítimas de um fanatismo irremediável, na mandria dolorosa das
penitências, a rezarem, a desfiarem rosários e a entoarem umas
ladainhas intermináveis numa concorrência escandalosa com os
guaribas da floresta.
Ora, o excursionista, que é hoje um dos mais lúcidos políticos
peruanos, para agravar-lse-lhe o desapontamento ante êste malôgro
completo da colônia predileta da sua terra, tivera dias antes, ao passar
em Puerto Victoria, na confluência do Pichis e do Palcazu, formadores
do Pachitéa, um espetáculo completamente diverso. De fato, Puerto
Victoria surgira e desenvolvera-se, tornando-se a estância mais animada
e opulenta daquela redondeza, sem que o govêrno peruano soubesse ao
menos do seu aparecimento.
Jamais cogitara em povoar aquêle trecho.
A paragem era malsinada. Rodeavam-na os mais bravios entre os selvagens sul-americanos:
os campas do Pajonal, ao sul, e ao norte os caxibos indomáveis, que
em 1866 haviam trucidado em Chonta-Isla, que lhe demora a jusante, os oficiais
de marinha Tavara e West. O Prefeito Benito Arana, que ali andara naquele
mesmo ano, fôra, em som de guerra, com dois vapôres e uma lancha
artilhada, em revide àquela afronta sanguinolenta. Saltou em terra;
meteu-se pela mata; travou pequeninos recontros em formidáveis tiroteios;
volveu num triunfo singularíssimo, encalçado de perto pelos
selvagens, que o frechavam; embarcou no tumulto da sua gente vitoriosa, e
fugindo; canhoneou furiosamente as barrancas; volveu, precípite, águas
abaixo, deixando na Playa del Castigo um traço romanesco da sua emprêsa
tormentosa...
E durante três decênios a região sinistra permaneceu no
isolamento que lhe criavam as gente apavoradas...
Até que, provindos do ocidente e vencendo à voga arrancada,
nas ubás esguias, as correntezas fortes do Pachitéa, atravessaram-na
de extremo a extremo e foram abordar na confluência do Pichis alguns
aventureiros destemerosos.
Eram uns caboclos entroncados, de tez morena e baça, e musculatura
sêca e poderosa. Não eram caucheiros. A palavra remorada não
lhes vibrava na fanfarrice ruidosa. Ao invés de um tambo, improvisaram
um tejupar mal arranjado. Não se armaram do cuchillo, misto de punhal
e de navalha. Pendiam-lhes à cintura as facas de arrasto, longas como
as espadas.
Aperceberam-se sem ruídos para a emprêsa e penetraram, vagarosamente,
na floresta...
Não se conhecem as peripécias da entrada temerária, que
foram sem dúvida excepcionalmente dramáticas. Os caxibos têm
no próprio nome a legenda da sua ferocidade. Caxi, morcego; bo, semelhante.
Figuradamente: sugadores de sangue. Ainda nos seus raros momentos de jovialidade
aquêles bárbaros assustam, quando o riso lhes descobre os dentes
retintos do sumo negro da palmeira chonta; ou estiram-se de bruços,
acaroados com o chão, as bôcas junto à terra, ululando
longamente as notas demoradas de uma melopéia selvagem.
Atravessaram, indenes na bruteza, trezentos anos de catequese; e são
ainda a tribo mais bravia do vale do Ucaiáli.
Mas ao que se figura não pulsearam com vantagem o vigor nos novos pioneiros.
É que o bárbaro sanguinário tinha pela frente, enterreirando-o,
um adversário mais temeroso, o jagunço.
Os recém-vindos eram brasileiros do Norte; e o seu patrão, Pedro
C. de Oliveira, mais um modêlo de lidador obscuro aparecendo em lances
de fecundas iniciativas entre os acontecimentos de uma história estranha.
Para aquilatar-se-lhe a valia, observemos de relance que em janeiro de 1900
foi nomeado, apesar da sua nacionalidade, governador de tôda a zona
que o seu barracão centralizava.
O Coronel Portillo, que ali deparou agasalho sincero sem o pregão de
rasgados oferecimentos, tão característico da nossa gens obscura,
trai em todos os conceitos que emitiu no seu relatório - desde o primeiro
dia até desperdir-se da "muy estimable familia del señor
Olivera", o encanto que lhe causou a estância animadíssima
no centro de suas culturas fartas, e inteligentemente locada com as numerosas
vivendas circulantes no alto da barranca, a prumo sôbre a margem esquerda
do rio, que se alcançava subindo uma longa escadaria resistente e tôsca.
Cativaram-no, sobretudo, os valentes tranqüilos que se lhe mostraram
modestíssimos em pleno triunfo sôbre a barbaria e a terra. Por
fim, à sua visão esclarecida não escapou que aquêle
forasteiro, sem um decreto e sem uma subvenção, resolvera o
problema colimado pelo govêrno de seu país, fundando no lugar
mais conveniente a estação garantidora da "via central"
demandando a Amazônia. Disse-o nuamente: Pôrto Vitória
era o lugar mais apropriado para a guarnição militar e alfândega
que protegessem a importação e exportação da colônia
de Chanchamayo, norte de Pajonal, Tarma e montañas do Palcazu, Matro
e Pozuzo.
Concluiu: "La casa de Olivera debe ser tomada por el Supremo Gobierno
como la más aparente para las oficinas de la capitania, aduana e comandancia
militar."
Foi aceito o alvitre. Um decreto do Presidente Pierola ordenou a demarcação
de Puerto Victoria para estabelecer-se comisaría destinada a proteger
os colonizadores daquelas terras; e num grande ciúme da situação
vantajosa adquirida revelou o intento de uma posse exclusiva "no consentiendo,
alli, en el radio de un quilómetro, poblador alguno".
O Peru conseguira realmente uma estação fluvial admirável.
E os brasileiros retiraram-se.
Passaram cinco anos.
Em 1905 um touriste parisiense, J. Delebecque, desceu o Pachitéa, em
viagem para o Amazonas, e não notaria a estância outrora florescente
se não o acompanhassem alguns índios mansos conhecedores dos
lugares.
No alto da barranca, que os enxurros solapavam, viam-se apenas alguns tetos
abatidos e restos de culturas afogadas num carrascal bravio.
O pôrto era uma ruína.
O viajante ali permaneceu por algumas horas a fim de secar as suas roupas
encharcadas ao calor de uma fogueira feita com as portas desquiciadas e ombreiras
vacilantes das vivendas, consoante praticam todos os que por ali passam na
travessia de Iquitos; e considerou, melancòlicamente, que daquele jeito
Puerto Victoria seria em breve apenas uma recordação.
Depois abalou rio abaixo, a tôda a voga, fugindo da paragem que se ermana
no mais completo abandono...
Transacreana
A carta da Amazônia, no trato que demora ao ocidente do Madeira, é
o diagrama de seu povoamento inicial. A história da paragem nova, antes
de escrever-se, desenha-se. Não se lê, vê-se. Resume-se
nos longos e torturosos riscos do Purus, do Juruá e do Javari.
São linhas naturais de comunicação a que nenhumas se
emparelham no favorecer um dilatado domínio. Geomètricamente,
os seus talvegues, rumados no sentido geral de SO para NE, num quase paralelismo,
oblíquos aos meridianos, facultam avançamentos simultâneos
em latitude e em longitude; sob o aspecto físico, à parte os
entraves artificiais oriundos do abandono em que jazem, estiram-se de todo
desimpedidos. Travam-se-lhes os mais privilegiados requisitos. Na grande maioria
dos rios amazônicos, e sobretudo no Vale do Ucaiáli, os empeços
naturais acumulam-se ao ponto de originarem estranhos têrmos geográficos.
Nêles não há citar-se um só. Nem pongos vertiginosos,
nem despenhadas urmanas, nem muiúnas remoinhantes ou vueltas del diablo
desesperadores...
Daí esta expressiva conseqüência histórica: enquanto
no Tocantins, no Tapajós, no Madeira e no Rio Negro, o povoamento,
iniciado desde os tempos coloniais, se entorpeceu ou retrogradou, retratando-se
na ruinaria dos vilarejos a caírem com as barrancas solapadas, ali,
ajustando-se-lhes às margens, progrediu tão de improviso que
determinou, em menos de cinqüenta anos, uma dilatação de
fronteiras.
Era inevitável. O forasteiro, ao penetrar o Purus ou o Juruá,
não carecia de excepcionais recursos à emprêsa. Uma canoa
maneira e um varejão, ou um remo, aparelhavam-no às mais espantosas
viagens. O rio carregava-o; guiava-o; alimentando-o; protegendo-o. Restava-lhe
o só esfôrço de colhêr à ourela das matas
marginais as especiarias valiosas; atestar com elas os seus barcos primitivos
e volver águas abaixo - dormindo em cima da fortuna adquirida sem trabalho.
A terra farta, mercê duma armazenagem milenária de riquezas,
excluía a cultura. Abria-se-lhe em avenidas fluviais maravilhosas.
Impôs-lhe a tarefa exclusiva das colheitas. Por fim tornou-lhe lógico
o nomadismo.
O nome de "montaria", da sua ubá aligeirada, é extremamente
expressivo. Ela o ajustou àquelas solidões de nível,
como o cavalo adaptou o tártaro às estepes. Esta diferença
apenas: ao passo que o calmuco tem nos infinitos pontos do horizonte infinitos
rumos atraindo-o ao nomadismo irradiante à roda da sua iurta, que ao
mudar-se se afigura imóvel no círculo indefinido das planuras
- o jacumaúba amazonense, subordinado a roteiros lineares, adscrito
a direções imutáveis, ficou largo tempo constrangido
entre as barrancas dos rios. Mal poderia libertar-se em desvios de poucas
léguas pelos sulcos laterais dos tributários. Ao invés
do que se acredita, aquelas rêdes hidrográficas, entretecidas
de malhas tão contínuas, não misturam as águas
das caudais diversas em largas anastomoses, insinuando-se pelas imperceptíveis
linhas de vertentes abatidas nas planícies encharcadas. O paranamirim
volve sempre ao leito principal de onde se esgalhou; e o igarapé acaba
no lago que êle alimentou nas cheias para que o alimente nas vazantes,
correndo em sentidos opostos consoante as estações; ou extingue-se,
ampliando-se nos plainos empantanados escondidos pela flórula anfíbia
dos igapós inextricáveis de lianas. Entre um curso d’água
e outro, a faixa da floresta substitui a montanha que não existe. É
um isolador. Separa. E subdividiu, de fato, em longos caminhos isolados, as
massas povoadoras que demandavam aquela zona.
Viu-se então, de par com primitivas condições tão
favoráveis, êste reverso: o homem, em vez de senhorear a terra,
escravizava-se ao rio. O povoamento não se expandia: estirava-se. Progredia
em longas filas, ou volvia sôbre si mesmo sem deixar os sulcos em que
se encaixa - tendendo a imobilizar-se na aparência de um progresso ilusório,
de recuos e avançadas, do aventureiro que parte, penetra fundo a terra,
explora-a e volta pelas mesmas trilhas - ou renova, monòtonamente,
os mesmos itinerários da sua inambulação invariável.
Ao cabo, a breve, mas agitadíssima história das paragens novas,
à parte ligeiras variantes, ia imprimindo-se tôda, secamente,
naquelas extensas linhas desatadas para SO: três ou quatro riscos, três
ou quatro desenhos de rios, coleando, indefinidos, num deserto...
* * *
Ora, êste aspecto social desalentador, criado sobretudo pelas condições
em comêço tão favoráveis, dos rios, corrige-se
pela ligação transversa de seus grandes vales.
A idéia não é original, nem nova. Há muito tempo,
com intuição admirável, os rudes povoadores daqueles
longínquos recantos realizaram-na com a abertura dos primeiros varadouros.
O varadouro - legado da atividade heróica dos paulistas compartido
hoje pelo amazonense, pelo boliviano e pelo peruano - é a vereda atalhadora
que vai por terra de uma vertente fluvial a outra.
A princípio tortuoso e breve, apagando-se no afogado da espessura,
êle reflete a própria marcha indecisa da sociedade nascente e
titubeante, que abandonou o regaço dos rios para caminhar por si. E
foi crescendo com ela. Hoje nas suas trilhas estreitíssimas, de um
metro de largura, tiradas a facão, estirando-se por tôda a parte,
entretecendo-se em voltas inumeráveis, ou encruzilhadas, e ligando
os afluentes esgalhados de tôdas as cabeceiras, do Acre para o Purus,
dêste para o Juruá e daí para o Ucaiáli, vai traçando-se
a história contemporânea do nôvo território, de
um modo de todo contraposto à primitiva submissão ao fatalismo
imponente das grandes linhas naturais de comunicação.
Nos seus torcicolos, impostos pelas linhas mais altas das pequenas vertentes
deprimidas, sente-se um estranho movimento irrequieto, de revolta. Trilhando-os,
o homem é, de fato, um insubmisso. Insurge-se contra a natureza carinhosa
e traiçoeira, que o enriquecia e matava. Repele-lhe tanto os amparos
antigos que realiza na maior das mesopotâmias a anomalia de navegar
em sêco; ou esta transfiguração: carrega de um rio para
o outro o barco que o carregava outrora. Por fim, numa afirmativa crescente
da vontade, vai estirando de rio em rio, retramada com os infinitos fios dos
igarapés, a rêde aprisionadora, de malhas cada vez menores e
mais numerosas, que lhe entregará em breve a terra dominada.
E do Acre para o Iaco, para o Tauamano e para o Orton: do Purus para o Madre
de Diós, para o Ucaiáli, para o Javari, trilhando aforradamente
o território em todos os quadrantes, os acreanos, despeados do antigo
traço de união do Amazonas longínquo, que os submetia,
dispersos, ao litoral afastado, vão em cada uma daquelas veredas atrevidas,
firmando um símbolo tangível de independência e de posse.
Tomemos um exemplo de testemunho estrangeiro.
Em 1904 o oficial da marinha peruana, Germano Stiglich, encontrou no Javari
vários brasileiros, que o surpreenderam com a simples narrativa de
uma travessia costumeira, ante a qual se apequenavam as suas mais estiradas
rotas de explorador notável. Registrou-a em um de seus relatórios:
os sertanistas entram pelo Javar, subindo o Itacoaí até às
cabeceiras; varam dali, por terra a buscarem as vertentes do Ipixuna: alcançam-nas;
transmontam-nas; descem o pequeno tributário; chegam ao Juruá;
navegam até S. Felipe, onde infletem, penetrando o Tarauacá,
o Envira e o Jurupari até onde subam as suas canoas ligeiras; deixam-nas;
rompem outra vez por terra a encontrarem o Purus nas cercanias de Sobral;
descem, embarcados, 760 km do grande rio até a foz do Ituxi; e enveredando
por êste último, vão, depois de uma outra varação
por terra, atingir o Abunã, que baixam, abordando, afinal à
margem esquerda do Madeira.
A derrota, com a percentagem de 20% sôbre as retas da desmedida linha
quebrada que a define, avalia-se em 3.000 km, ou o dôbro da estrada
tradicional, dos bandeirantes, entre S. Paulo e Cuiabá. Os obscuros
pioneiros prolongam a êstes dias a tradição heróica
das entradas, que constituem o único aspecto original da nossa História.
Aquêle roteiro, entretanto, alonga-se contorcendo-se em voltas sobremaneira
extensas. Abreviemo-lo, baseando-nos em alguns dados seguros.
Partindo de Remate dos Males, no Javari, nas cercanias de Tabatinga, o viajante,
em qualquer estação, pode sulcar num dia o Itacoaí até
a confluência do Ituí, percorrendo 140 km itinerários.
Prossegue por terra em terreno firme, no rumo de SE pelo extenso varadouro
de 190 km que corta as cabeceiras do Jutaí e termina em S. Felipe,
à margem do Juruá, empregando apenas cinco dias de marcha. Sobe
o Tarauacá, embarcado, até a foz do Envira; e desta à
do Jurupari, prosseguindo a buscar as suas mais altas vertentes, num percurso
máximo de 350 km que vencerá em pouco mais de uma semana. Rompe
o breve varadouro que o leva ao Furo do Juruá, e atinge, descendo-o,
ao fim de dois dias, de lancha, realizados os ligeiros reparos de que carece
o rio. A sede da Prefeitura do Alto-Purus, distante 24 km, alcança-se
em duas horas de navegação; e dali, pelo varadouro do Oriente,
longo de 25 léguas percorrido normalmente em cinco dias, chega-se ao
seringal Bajé, à margem esquerda do Acre. Transpondo êste
rio e seguindo para leste a cortar os derradeiros tributários do Iquiri
e os campos do Gavião, o caminhante vai ao Abunã, a jusante
da embocadura do Tipamanu, e daí ao Beni, na confluência do Madeira,
percorrendo cêrca de 300 km em oito dias, por terra.
Dêste modo, em pouco mais de um mês de travessia, vencendo-se
907 km por águas e 660 por terra, pode-se vir de Tabatinga a Vila Bela,
diagonalmente, de um a outro extremo da Amazônia, naquele itinerário
de 250 léguas.
A êstes números falta, sem dúvida, o rigorismo das quilometragens
regulares; mas não variam talvez de um décimo sôbre a
realidade, à parte os dados demasiado falíveis relativos à
navegação do Tarauacá e ao rumo por terra do Jurupari
ao Purus.
Excluamo-los nesta variante: partindo do mesmo ponto à margem do Javari
e sulcando o Itacoaí até aos seus derradeiros formadores, o
viajante encontra o antigo varadouro do Ipixuna que o conduz ao Juruá
e a Cruzeiro do Sul, capital do Departamento, em percurso pouco maior do que
o anterior por S. Felipe.
Ora, de Cruzeiro do Sul às sedes dos departamentos do Purus e do Acre
podem remover-se todos os inconvenientes daquela navegação precária,
sujeita a fatigante roteiro.
De fato, o extenso segmento retilíneo, de 605 km, da linha Cunha Gomes,
é a própria linha de ensaio de um varadouro notável ligando
as três sedes administrativas. Dando-se-lhe o desenvolvimento exagerado
de 20% sôbre a distância, terá a extensão de 726
km; ou sejam, exatamente, 110 léguas, que podem ser transpostas em
grande parte, a cavalo, em menos de doze dias.
Observe-se, de passagem, que êste projeto não se delineia nos
riscos arbitrários a que se avezam os exploradores de mapas, ou consoante
"o conhecido processo do Tzar Nicolau I, riscando com a unha do polegar
o traçado da estrada de Petersburgo a Moscou".
Esteia-se em reconhecimentos, certo despidos de azimutes, ou cotas esclarecedoras
de aneróides, mas práticos e concludentes. O primeiro trecho,
normal ao vale do Taruacá, planeado pelo General Taumaturgo de Azevedo,
já se acha em grande parte aberto por um seringueiro de Cocamera -
e estende-se em terrenos tão afeiçoados à marcha que,
depois de concluído o caminho, "ir-se-á do Juruá
ao Tarauacá, a cavalo, em quatro dias" conforme afirma o ex-Prefeito
em seu penúltimo relatório; ao passo que atualmente, para efetuar-se
a mesma viagem, "em vapor, que faça poucas escalas e dobre a foz
do Tarauacá, consomem-se 15 dias, no mínimo".
O segmento intermediário, de Barcelona ou Nôvo Destino à
confluência do Caeté, no Iaco, por sua vez estudado pela Prefeitura
do Alto-Purus, é de execução facílima, todo desatado
sôbre breve altiplano livre das inundações. E o último,
do Iaco ao Acre, tem há muito tempo um tráfego permanente.
Dêste modo a grande estrada de 726 km, unindo os três departamentos,
e capaz de prolongar-se de um lado até ao Amazonas, pelo Javari, e
de outro até ao Madeira, pelo Abunã, está de todo reconhecida,
e na maior parte trilhada.
A intervenção urgentíssima do Govêrno Federal impõe-se
como dever elementaríssimo de aviventar e reunir tantos esforços
parcelados.
Deve consistir porém no estabelecimento de uma via férrea -
a única estrada de ferro urgente e indispensável no Território
do Acre.
Atalhemos uma objeção inicial.
A fisiografia amazônica figura-se sempre obstáculo indispensável
a tais emprêsas. Mas os que a agitam, em argumentos que temos por escusado
reproduzir, não podem, certo, compreender as linhas férreas
da Índia. De fato, no Industão pròpriamente dito, o nivelamento
superficial, o solo aluviano de areias e argilas acumuladas em espessuras
indefinidas, e as características climáticas, patenteiam-se
em condições idênticas. Ali, como na Amazônia, os
rios destacam-se pela grandeza, volumes excessivos nas cheias, amplitudes
das inundações, e volubilidade dos canais nos leitos divagantes.
Os nulla incontáveis, serpeantes por toda a banda, desenham-se na hidrografia
caótica dos igarapés; e o Purus, o Juruá, o Acre e seus
tributários, não variam tanto de curso e de regime quanto o
Ganges e os rios de Punjab, cujas pontes foram o maior problema que resolveu
a engenharia inglêsa.
Na Índia, como entre nós, não faltaram profissionais
apavorados ante as dificuldades naturais - esquecidos de que a engenharia
existe precisamente para vencê-las. Ao discutir-se o memorandum Kennedy,
onde germinou a viação indu, o Coronel Grant, do corpo de engenheiros
de Bombaim, pilheriou sisudamente, propondo com a maior seriedade que os trilhos
se suspendessem em todo o correr das linhas por meio de séries regulares
de cadeias, em rijos postes fronteantes, a oito pés acima do solo...
E desafiou o humor magnífico de seus fleugmáticos colegas. Os
rígidos railroadmen replicaram-lhe tempos depois, esmagadoramente,
com a West Indian Peninsular, e nobilitaram tôda a engenharia de estradas
de ferro obedecendo a uma de suas fórmulas mais civilizadoras, enunciada
por Mac-George: "In every country it is necessary that railway should
be ladi out with references to the distribuition of population and to the
necessities of people, rather than to the mere physical characteristics of
its geography..."
Ora, no caso atual, ainda êsses caracteres físicos e geográficos
evidenciam-se favoráveis.
A estrada de Cruzeiro do Sul ao Acre não irá, como as do Sul
do nosso país, justapondo-se à diretriz dos grandes vales, porque
tem um destino diverso. Estas últimas, sobretudo em S. Paulo, são
tipos clássicos de linhas de penetração: levam o povoamento
ao âmago da terra. Naquele recanto amazônico esta função,
como o vimos, é desempenhada pelos cursos d’água. À
linha planeada resta o destino de distribuir o povoamento, que já existe.
É uma auxiliar dos rios. Corta-lhes, por isto, transversa, os vales.
Daí esta conseqüência inegável: adapta-se, naturalmente,
mercê da própria direção, às deprimidas
áreas divisórias dos afluentes laterais, e, acompanhando-os,
forra-se em grande parte aos empecilhos daquela hidrografia embaralhada.
Por outro lado, ao sul do paralelo de 8º persiste, certo, o facies
predominante da enorme várzea amazonense. Mas atenuado. A inconstância
tumultuária das águas não se retrata em curvas tão
numerosas e volúveis. Os terrenos, expandindo-se em ondulações
ligeiras com a altitude média, absoluta, de 200 metros, são,
no geral, firmes e a cavaleiro das enchentes. Trilhamo-los em vários
pontos. Está-se, visívelmente, sôbre formações
mais antigas, definidas e estáveis, que as da imensa planura pós-quaternária
onde ainda se adivinham as derradeiras transformações geológicas
do Amazonas, no conflito inevitável entre os cursos d’água
inconstantes e a várzea inconsistente.
Além disto, os obstáculos naturais, reduzem-nos, ou amortecem-nos,
os traçados que se lhes afeiçoes. A via férrea em questão
deve modelar-se pelas condições técnicas menos dispendiosas
a um primeiro estabelecimento - caracterizando-se, sobretudo, por uma via
singela, de bitola reduzida, de 0,76 m ou 0,91 m, ou no máximo de 1,0
m entre trilhos, que lhe permita os maiores declives e as menores curvas,
dando-lhe plasticidade para volver-se em busca dos terrenos mais altos e estáveis,
que lhe alteiem o grado acima das zonas inundadas em traçados quase
à flor da terra. Deve nascer como nasceram as maiores estradas atuais:
trilhos de 18 quilos, no máximo, por metro corrente, capazes de locomotivas
de escasso pêso aderente de 15 a 20 toneladas; curvas que se arqueiem
até aos raios de 50 metros; e declives que se aprumem até 5%
submetidos a todos os movimentos do solo.
Não os tem muito melhores a Central Pacific, de Nevada, com a sua bitola
estreita, sem balastro, serpeando com a mesma levidade de trilhos em curvas
de 90 metros, e tornejando pendores em rampas inclassificáveis. Ou
o Transiberiano, onde locomotivas de 30 toneladas, rebocando 1/6 de pêso
aderente sôbre trilhos de 19 quilos, andando com a velocidade de 20
km por hora, não raro recuavam, desandando, constrangidas, se encontravam
de frente, repelindo-as, ponteiras, as ventanias ríspidas das estepes...
Sem dúvida, de uma tal superestrutura, a que se liga o imperfeito do
material rodante, de tração ou transporte, resultará
reduzidíssima capacidade de tráfego. Mas a linha acreana, a
exemplo da Union Pacific Railway, não vai satisfazer um tráfego,
que não existe, senão criar o que deve existir.
Como as norte-americanas, construir-se-á aceleradamente, para reconstruir-se
vagarosamente.
É um processo generalizado. Tôdas as grandes estradas, no evitarem
os empeços que se lhes antolham transpondo as depressões e iludindo
os maiores cortes com os mais primitivos recursos que lhes facultem um rápido
estiramento dos trilhos, erigem-se nos primeiros tempos como verdadeiros caminhos
de guerra contra o deserto, imperfeitos, selvagens. E como para justificar
o asserto, o primeiro engenheiro das suas obras rudimentares - que hoje se
fazem como há dois mil anos - de suas estacadas, de suas pontes e pontilhões
de madeira mal lavradas, superpostas em linhas sôbre os styli fixi dos
tanchões roliços, é César.
Depois evolvem; e crescem, aperfeiçoando os elementos da sua estrutura
complexa, como se fôssem enormes organismos vivos.
Fonte: http://www.ufpel.edu.br