Num dia de setembro de 1820 chegou à tristonha Assunção,
do Dr. Francia, um prisioneiro ilustre e sexagenário, a quem, entretanto,
não se concedera o preito da mais diminuta escolta. Vinha só;
passou, a cavalo, pelas longas ruas retilíneas e retangularmente cruzadas,
entre janelas de grades, à maneira de extensos corredores de uma prisão
vastíssima, e descavalgou no largo onde se erige o palácio do
governo.
Viu-se então que a idade o não abatia. Num desempeno de rapaz
atlético aprumava-se-lhe a estatura elegantíssima entre as voltas
do poncho desbotado que lhe desciam ate. às botas de viagem, flexíveis
e armadas das rosetas largas das esporas retinindo ao compasso de um andar
seguro.
Grande sombrero de abas derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e naquela
lace rígida, cindida de linhas incisivas e firmes - como se um buril
maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos
e nervos - um olhar dominador e duro, velado de tristeza indescritível.
Era José Artigas, o motim feito homem, o primeiro molde dos caudilhos,
primeiro resultado dessa combinação híbrida e anacrônica
de D. Quixote, do Cid e de Hernani - a idealização doentia,
a coragem esplendorosa e o banditismo romântico - indo perpetuar na
América a ociosidade turbulenta, a monomania da glória e o anelo
de combates que sacrificaram a Espanha do século XVII.
Correra-lhe a vida aventurosa e tumultuaria. Chefe de contrabandistas arremessado
à ventura pelas cochilhas da Banda Oriental e do Rio Grande, transformara-se
logo depois, com o mais doloroso espanto dos quadrilheiros condutícios,
em capitão de carabineiros da metrópole que o captara, impondo-lhe
o exercitar sobre os antigos sócios de desmandos uma fiscalização
incorruptível e feroz, até que se voltasse contra a mesma metrópole,
transmudado em tenente-coronel revolucionário, e avantajando-se aos
maiores demolidores do antigo vice-reinado, ou se transfigurasse de chofre
em general, "yef de los Orientales y protector de las ciudads libres",
arremetendo com os irmãos de armas da véspera e destruindo a
solidariedade platina, com o afastamento do Uruguai.
Salteador, policial, revolucionário, chefe de governo.. - Por fim,
caiu. A tática estonteadora quebraram-lha os voluntários reais
de Lecor, endurecidos na disciplina incoercível de Beresford; e traído
pelos seus melhores sequazes, sem exército e sem lar, errante e perseguido,
viera bater às portas do seu mais sinistro adversário, a quem
tanto afrontara nas antigas tropelias.
O ditador não lhe apareceu, mas não o repeliu: mandou-o para
um convento.
Extraordinário e enigmático Dr. Francia! Este ato denuncia-lhe
do mesmo passo a índole retrincada, a ironia diabólica e a ríspida
educação política que tanto o incompatibilizava com o
heroísmo criminoso daqueles esmaniados cavaleiros andantes da liberdade.
Entre o borzeguim esmoedor e a estrapada desarticuladora só lhe dependiam
de um gesto todos os requintes das torturas: escolheu uma cela e constringiu
ali dentro, entre paredes nuas, sobre alguns metros quadrados de soalho, uma
vida que se agitara desafogadamente nos cenários amplíssimos
dos pampas.
A vingança era, como se vê, antes de tudo, uma lição
duríssima, mas foi improdutiva.
Artigas deixara no estado Oriental o seu melhor discípulo, Fructuoso
Rivera, e em torno deste e de seu êmulo e companheiro de armas, Lavalleja,
veio desdobrando-se até ao nosso tempo esta interessantíssima
frandula de heróicos degenerados que invadem desabaladamente a história,
fugindo da polícia correcional, e vem desfilando ante a civilização,
surpreendida, sob aspectos vários, que vão do astucioso Urquiza
a esse desassombrado Aparicio, que nesta hora convulsiona to das as paragens
entre o Taquerembó e o Salto.
Em todos, uniformes na disparidade dos tempera mentos, do sanguinário
Oribe ao destemeroso Lavalleja, que nos arrebatou a Cisplatina, os mesmos
traços característicos: a combatividade irrequieta, a bravura
astuciosa e a ferocidade não raro sulcada de inexplicáveis lances
generosos.
Traçar-lhes a história é fazer em grande parte a nossa
mesma história militar. Quase toda a nossa atividade guerreira tem
sido uma diretriz predominante naquela fronteira perturbadíssima do
Rio Grande, ha cem anos batida a patas de cavalos, e estirando-se como longo
diafragma por onde nos penetra, numa permanente endosmose, o espírito
febril da caudilhagem, obrigando-nos por vezes a colaborar também,
a pontaços de lanças, naquelas revoluções crônicas
e naquele regime clássico de tropelias.
Ali, na longa faixa que se estira de Jaguarão ao Quaraim, o gaúcho
resume, na envergadura possante e no ânimo resoluto e inquieto, os traços
proeminentes de dois povos. Não ha destaca-los às vezes. O bravo
e versátil Rivera copia servilmente o versátil e bravo Bento
Manoel; Lavalleja, um Bayard vibrátil e volúvel, afeiçoado
a todas as temeridades, se acaso o nobilitasse a disciplina, irromperia na
figura escultural do primeiro Mena Barreto.
Ainda agora o Aparicio oriental tem uma larva, o João Francisco rio-grandense:
acorrentai o primeiro num posto sedentário, e terei o molosso ferocíssimo
da fronteira; arremessai o segundo pelo revesso das cochilhas, e vereis o
caudilho...
Daí as surpresas que muitas vezes nos saltearam naquelas bandas. Notemos
uma, de relance. A guerra do Paraguai, em que pese aos seus velhos antecedentes,
teve, inegavelmente, um prelúdio muito expressivo nas ruidosas "californias",
que arrebataram os nossos bravos patrícios aos entreveros entre blancos
e cobrados. A primeira bandeira que ali congregou brasileiros e orientais
foi o pala do general Flores, desdobrado e ruflando nas correrias vertiginosas.
E quaisquer que fossem depois os milagres de uma diplomacia que desde 1853
e 185S vinha lentamente suplantando o malmequer e a vesania de Lopez, talvez
não nô-lo impedisse mais, desde a hora em que os pealadores de
um e de outro lado, guascas e gringos, mas uniformemente gaúchos, entrelaçassem,
sobre o solo vibrante das campinas, os laços e as bolas silvantes,
objetivando a fraternidade sanguinolenta que os atrai àqueles trágicos
divertimentos, e às arrancadas súbitas, e às batalhas
originalíssimas e minúsculas dispersas em torneios céleres,
feitas de perseguições e de fugas, e nas quais raro se queima
um único cartucho, porque ao lidador selvagem o que sobretudo apraz
é desfechar sobre o contrário os golpes simultâneos de
cinco armas formidáveis - a lança e as quatro patas do cavalo...
Ora, esta identidade de estímulos, efeito de antiquíssimo contagio,
reveste-nos de importância considerável a situação
atual do Uruguai. Entretanto, atraída por outros sucessos, toda volvida
para a Amazônia ameaçada, ou para o enorme duelo do Extremo Oriente,
a opinião geral mal se impressiona com aquelas desordens. Um ou outro
telegrama, impertinente e mal lido, entre outros casos de maior monta, nos
denuncia de longe em longe que o caudilho rebelado ainda respira.
A despeito de não sabermos quantas derrotas para logo corridas com
outras tantas fugas triunfais, rompendo entre as tropas do governo vitoriosas
e desapontadas - no "Passo dos Carros" em Taquarembó, em
Daymam, em Salto, em Santa Luzia e em Santa Rosa, na Concórdia, no
Aceguai e em toda a parte - a revolta irradia para todos os lados, intangível
e invencível, espalhando alarmas desde Montevidéu, inopinadamente
ameaçada de um assalto, às remotas povoações e
estâncias do interior, de súbito despertadas pelo tradicional
ahy vienem! que há um século por ali espalha e atira fora dos
lares as gentes retransidas de espanto ante o estrupido dos cavaleiros errantes
e ferozes...
Vencido pelo general Moniz desde os primeiros dias da luta; acutilado, e algumas
vezes morto a golpes de telegramas; erradio, ou fugindo com os restos de uma
tropa desmoralizada, para o abrigo da nossa fronteira salvadora, Aparício
Saraiva recorda uma paródia grosseira do herói macabro do "Romancero",
morto e espavorindo os inimigos.
Pelo menos a sua revolução, tantas vezes destruída e
tantas vezes renascente, tem a estrutura privilegiada dos polipos: despedaçá-la
é multiplicá-la.
Ainda neste momento, rijamente repelido do Salto, este combate perdido parece
ter tido o efeito único de remontar-lhe a cavalhada, permitindo-lhe
a divisão das forças em três corpos que, dirigidos por
ele, por Lamas e Muñoz, vão refluir de novo sobre todo o Uruguai
e reeditar a mesmice inaturável das refregas inúteis e das correrias
e das derrotas e das eternas vitórias telegráficas - enfeixadas
todas numa anarquia deplorável cujo termo e cujas conseqüências
dificilmente se prevêem.
Lutas à gandaia, adstritas ao sustento aleatório das estâncias
saqueadas, em que o soldado surge pronto de todos os lados, laçando
os adversários como laça os touros bravios, combatendo ou "parando
o rodeio", sem notar diferenças nas azáfamas perigosas,
elas podem prolongar-se indefinidamente.
Bastam-lhes como recursos únicos alguns ginetes ensofregados e a pampa:
a disparada violenta e o plaino desimpedido; a velocidade e a amplidão...
Daí os seus principais inconvenientes. O duradouro dessas desordens
à ourela de uma fronteira agitada fez sempre a mais prejudicial dissipação
dos nossos esforços e do nosso valor.
Quando se traçar o quadro emocionante das nossas campanhas do sul,
que vêm, desde as arrancadas na colônia do Sacramento, desdobrando-se
numa interminável série de conflitos sulcados de armistícios
e de desfalecimentos, ver-se-á que aos nossos melhores generais coube
sempre o arriscadíssimo papel de uns tenazes e brilhantes caçadores
de caudilhos e de tiranos irrequietos.
Felizmente, mudaram-se os tempos.
E certo não mais nos atrairão a dispendiosas aventuras aqueles
estonteados heróis, singulares revenants, que nestes tempos de utilitarismo
positivo exigem apenas, prosaicamente, e de acordo com a lição
memorável de Francia, um termo de bem viver e uma cadeia.
No meio em que surgiu, o marechal Floriano Peixoto sobressaía pelo
contraste. Era um impassível, um desconfiado e um cético, entre
entusiastas ardentes e efêmeros, no inconsistente de uma época
volvida a todos os ideais, e na credulidade quase infantil com que consideramos
os homens e as coisas. Este antagonismo deu-lhe o destaque de uma glória
excepcionalíssima. Mais tarde o historiador não poderá
explicá-la.
O herói, que foi um enigma para os seus contemporâneos pela circunstância
claríssima de ser um excêntrico entre eles, será para
a posteridade um problema insolúvel pela inópia completa de
atos que justifiquem tão elevado renome. E um dos raros casos de grande
homem que não subiu, pelo condensar no âmbito estreito da vida
pessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa translação
acelerada para o novo regime ele não foi uma resultante de forças,
foi uma componente nova e inesperada que torceu por algum tempo os nossos
destinos.
Assim considerado, é expressivo. Traduz de modo admirável, ao
invés da sua robustez, a nossa fraqueza.
O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica
das quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente
diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara
em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um
país, sem avançar - porque era o Brasil quem recuava, abandonando
o traçado superior das suas tradições...
Diante da sua figura insolúvel e dúbia, os revolucionários
apreensivos traçavam na tarde de 14 de novembro o ponto de interrogação
das dúvidas mais cruéis, e ao meio-dia de 15 de novembro os
pontos de admiração dos máximos entusiasmos. Não
se conhece transformação, ao mesmo passo, tão repentina
e tão explicável.
Sobretudo explicável. O seu prestígio nascera paradoxalmente
antes da revolução. Sabia-se, ou conjecturava-se, que sobre
o regime condenado velava, imperceptível, aquela astúcia silenciosa,
formidável e cauta, contraminando talvez dentro do próprio exército
o traço subterrâneo da revolta; ou acompanhando-o talvez, linha
por linha, ponto por ponto, num paralelismo assombroso, e no prodígio
de conspirar contra a conspiração, ajustando soturnamente o
rigorismo da lei ao lado clã rebeldia incauta, de modo que, ao estalar,
tivesse de improviso, em cima, irrompendo da sombra, a mão possante
que a jugularia.
Esta dúvida, ou dolorosíssima suspeita - sabem-no todos os revolucionários,
embora muitos a negassem depois - era a mais inibitória incerteza entre
tantas outras que nos manietavam.
Revela-o um incidente inapreciável como muitos outros, porque o 15
de novembro foi uma glorificação exagerada de minúcias:
Na véspera daquele dia, às 10 horas da noite, toda a segunda
brigada, em plena revolta, estava em forma e pronta para a marcha. Mas antes
de a realizar sucedeu o fato ilógico e inverossímil de seguir
um capitão mandado pelos chefes revolucionários, a participar
o acontecimento ao próprio ajudante general de exército, ao
marechal Floriano. Por um impulso idêntico ao do criminoso que segue,
num automatismo doentio, a confessar o crime ao juiz que o apavora, a conspiração
denunciava-se. Atirava aquela cartada arriscadíssima; iludia o temor
do adversário procurando-o; trocava a expectativa do perigo pelo perigo
franco.
Mas nada conseguiu. Diante do oficial rebelde que viera de S. Cristóvão
a procurá-lo, encontrando-o na única sala que se destacava iluminada
no vasto quartel do campo de Santana imerso na mais profunda treva - o marechal
Floriano apareceu ainda mais indecifrável. Determinou com a palavra
indiferente de quem dá a mais desvaliosa ordem a uma ordenança,
que se desarmasse a brigada sediciosa. Mas não fez a recriminação
mais breve, ou traiu o mais fugitivo espanto; e não prendeu o parlamentário
indisciplinado que ao sair adivinhou adensados no escuro, dentro, no vasto
pátio interno, todos os batalhões de infantaria, com as espingardas
em descanso, e de baionetas caladas onde se joeirava salteadamente, em súbitos
reflexos, o brilho das estrelas...
A consulta à esfinge complicara o enigma. Como interpretar-se aquela
ordem apenas balbuciada pela primeira autoridade militar rodeada da parte
mais numerosa da guarnição que os regimentos levantados iriam
encontrar vigilante e firme nas formaturas rigorosas?...
A revolta desencadeou-se nesta indecisão angustiosa, e foi quase um
arremesso fatalista para a derrota.
Porque a vitória foi uma surpresa; e desfechara-a precisamente o homem
singular que equilibrara até o último minuto a energia governamental
e a onda revolucionária - até transmudar a própria infidelidade
no fiel único da situação, de súbito inclinado
para a última.
Este golpe teatral, deu-o com a impassibilidade costumeira; mas foi empolgante.
Minutos depois, quando diante do ministério vencido o marechal Deodoro
alteava a palavra imperativa da revolução, não era sobre
ele que convergiam os olhares, nem sobre Benjamin Constant, nem sobre os vencidos-mas
sobre alguém que a um lado deselegantemente revestido de uma sobrecasaca
militar folgada, cingida de um talim frouxo de onde pendia tristemente urna
espada, olhava para tudo aquilo com uma serenidade imperturbável. E
quando, algum tempo depois, os triunfadores, ansiando pelo aplauso de uma
platéia que não assistira ao drama, saíram pelas ruas
principais do Rio - quem quer que se retardasse no quartel-general veria sair
de um dos repartimentos, no ângulo esquerdo do velho casarão,
o mesmo homem, vestido à paisana, passo tranqüilo e tardo, apertando
entre o médio e índex um charuto consumido a meio, e seguindo
isolado para outros rumos, impassível, indiferente, esquivo...
E foi assim - esquivo, indiferente e impassível - que ele penetrou
na História.
***
Vimo-lo depois, de perto, na conspiração contra o golpe de
estado de 3 de novembro.
A sua casa no Rio Comprido era o centro principal da resistência. Ia-se
para lá de dia, em plena luz: nenhuns resguardos, nenhuma dessas cautelas,
e ânsias, ou sobressaltos, com os quais numa conspiração
se romanceiam os perigos. Os conspiradores iam, prosaicamente, de bonde; saltavam
num portão, à direita; galgavam uma escada lateral, de pedra;
e viam-se a breve trecho num salão modesto, com a mobília exclusiva
de um sofá, algumas cadeiras e dois aparadores vazios. Lá dentro,
janelas largamente abertas, como se se tratasse da reunião mais lícita,
rabeava ferozmente a rebeldia: gisavam-se planos de combate; balanceavam-se
elementos, ou recursos; pesavam-se incidentes mínimos; trocavam-se
alvitres, denunciavam-se trânsfugas, enumeravam-se adeptos, e nas palestras
esparsas em grupos febricitantes vibrava longamente este entusiasmo despedaçado
de temores que trabalha as almas revolucionárias.
De repente, uma ducha enregelada: aparecia o marechal Floriano com o seu aspecto
característico de eterno convalescente e o seu olhar perdido caindo
sobre todos sem se fitar em ninguém. Sentava-se, vagarosamente; e no
silêncio, que se formava de súbito, lançava uma longa
e pormenorizada resenha dos achaques que o vitimavam. Era desalentador.
Passado, porém, aquele sobressalto invertido, aquela quietude alarmante
e aquela calma impertinente, mais cruciante do que a ansiedade anterior, renovava-se
a agitação - e no gisarem-se planos, no balancearem-se recursos,
no pesarem-se todos os incidentes, no contraposto, no revolto, no desordenado,
nos diálogos esparsos; ou cruzando-se, ou afinal fundidos na palavra
única de alguém que atirava, de golpe, entre os grupos, uma
notícia emocionante, naquele tumulto, o homem que era a nossa esperança
mais alta lançava avaramente um monossílabo, um não apagado,
um sim imperceptível no balanço fugitivo da cabeça, ou
abria a encruzilhada de um talvez...
Saía-se jurando que estava na sala um traidor, impossibilitando-lhe
o livre curso das idéias. Porque, isoladamente, a cada um dos que lá
iam, ele se manifestava com a sua lucidez incomparável.
Aceitava-se um a um; repelia-nos unidos. E a pouco e pouco naquele retrair-se
cauteloso, naquele escorregar precavido sobre todas as questões que
se lhe propunham na reunião revolucionária, tão diferente
do firme, do definido e do claro de pensar, que, parceladamente, manifestava
a cada um dos que a constituíam, ele foi infiltrando na conspiração
a sua índole retrátil e precatada. Por fim - confiava-se no
melhor companheiro da véspera... desconfiando.
E natural que a trama sediciosa se alastrasse durante vinte dias, inteiramente
às claras e imperceptível; e que ao irromper a 23 de novembro
o movimento da Armada - simples remate teatral da mais artística das
conspirações - o marechal Floriano, imutável na sua placabilidade
temerosa, seguisse triunfal e tranqüilo para tomar o governo, "obedecendo"
a um chamado do Itamarati, espantosamente disciplinado no fastígio
da rebeldia que alevantara - e indo depor o marechal Deodoro vencido, com
um abraço, um longo e carinhoso abraço, fraternal e calmo.
***
Conta-se que ao estalar a revolução de 6 de setembro, no meio
do espanto, e do alarma, e do delírio de adesões e entusiasmos,
que para logo repontaram de todos os lados, gerando aquela angustiosíssima
comoção nacional culminada pela loucura trágica de Aristides
Lobo - conta-se que o marechal Floriano requintara na proditoria quietude.
Impassível naquele estonteamento, superpôs ao tumulto o seu meio
sorriso mecânico e o seu impressionador mutismo.
Num dado momento, porém, abeirou-se de uma das janelas do palácio
abertas na direção aproximada do mar; e ali quedou um minuto,
meditativo, na atitude habitual da sua apatia, enganosa e falsa...
Depois alevantou vagarosamente a mão direita, espalmada, vertical e
de chapa para o ponto onde se adivinhavam os navios revoltosos, no gesto trivial
e dúbio de quem atira longe uma esperança ou uma ameaça...
Traçou naquele momento o molde da sua estatua. Nenhum escultor de gênio
o imaginará melhor, a um tempo ameaçador e plácido, sem
expansões violentas e sem um tremor no rosto impenetrável, desdobrando
silenciosamente, diante do assalto das paixões tumultuárias
e ruidosas, a sua tenacidade incoercível, tranqüila e formidável.
Bismarck, sempre tão penetrante nos conceitos que disparava - disparava
é o termo próprio àquela sua ironia férrea, que
matava como as balas - definiu, certa vez, a política do segundo império,
fantasista e frívola, e tão estonteada na Europa, ou na América,
na Itália, ou no México, entre deslumbrantes frivolidades, em
que se dissipava o heroísmo tradicional da França:
- "Era uma política de gorjetas."
Depois, esculpiu com quatro pranchadas de pena o homem que a inspirava:
"Napoleão III, com o seu egoísmo de corretor, incidiu no
vício dos antigos diplomatas italianos, que confundiam a diplomacia
e a perfídia. Tinha uma política ao mesmo passo bem ponderada
e quimérica, complicada e ingênua. pensando trabalhar para a
França, abalou-lhe a liberdade e trouxe durante 20 anos a Europa em
contínuo alarma, mercê de suas indefinidas ambições.
Faltavam a sua inteligência precisão e eficiência, a par
de uma extraordinária fé na sua estrela3 levando-o às
mais ousadas tentativas com os planos mais quiméricos."
Ora, Bismarck fazia então, sem o imaginar, o retrato da Alemanha de
agora e do Kaiser.
Bem pouco há que alterar naquelas linhas lapidárias.
A terra clássica do bom senso equilibrado, da frieza de propósitos
e da perseverança tranqüila, há dez anos que sobressalteia
a Europa, graças à imaginação ardente, às
fantasias e à vaidade feminil, laivada de arreganhos militares de seu
imperador imensamente francês, e francês antigo, romântico,
imprevidente e aventureiro.
E um caso notável - o aspecto transcendental, talvez, dessa revanche
tão longamente acariciada pela França e que aparece espontânea,
trocadas inteiramente as fisionomias das duas vizinhas irreconciliáveis.
Realmente, a Alemanha, que acordou tarde para a expansão colonizadora
- longo tempo iludida pela visão errada de Bismarck, preferindo ao
melhor trato de território longínquo o arcabouço do último
granadeiro pomerânio - a Alemanha agita-se hoje num estonteamento.
A dilatação territorial impõe-se-lhe como uma condição
de vida, não já no sentido superior de um primado de idéias,
senão também no sentido estritamente biológico da própria
alimentação. O seu industrialismo robusto matou-lhe a produção
agrícola, de sorte que a sua vida intensíssima, a mais intensa
da Europa, em grande parte desviada à agitação fecunda
das fábricas, é de todo aleatória. Não lha garante,
mesmo imperfeitamente, a terra, cada vez mais escassa, à medida que
lhe vai crescendo o povoamento constrito entre as fronteiras inteiriças.
Dai o seu arremesso dos estaleiros de Kiel para o desimpedido dos mares, visando
amplificar a pátria, insuficiente, com o solo artificial e móvel
dos conveses de uma frota mercante, que é a segunda do mundo, exigindo,
paralelamente, as garantias de uma marinha de guerra formidável.
Mas neste concorrer à partilha da terra, com todos os inconvenientes
de quem chega tarde e encontra os melhores bocados noutras mãos, a
política germânica tem sido, de fato, copiando-se a frase do
lendário chanceler de ferro, uma política de gorjetas. Nem lhe
disfarça este caráter decaído a maneira arrojada que
a reveste. Em todos os seus atos - nos arrogantes ultimata contra a frágil
Venezuela, nos assaltos ferocíssimos de Waldersée, em Pequim,
ou nas tortuosidades e perfídias diplomáticas que rodeiam a
longa história da estrada para Bagdá, ou, ainda, no ganancioso
alongar de olhos para os nossos Estados do Sul, a sua ânsia alucinada
do ganho, pela pilhagem dos últimos restos da fortuna dos países
fracos, pode assumir todas as formas, até mesmo o aspecto heróico:
mas destaca-se com aquele traço inferior e irredutível.
Falta-lhe um Witte, falta-lhe um Chamberlain, falta-lhe um Roosevelt, e -
note-se esta ironia singular da história - falta-lhe um Delcassé,
ou um Combes...
***
Tem Guilherme II, um grande homem inédito.
Realmente, o Kaiser é uma promessa cada vez maior e mais irrealizável.
Bismarck esboçou-se sem o saber, de ricochete, pela fisionomia de Napoleão
III, mas fez-lhe a caricatura apenas a largos traços, vivos; e os melhores
psicólogos, ao escandirem os seus atributos característicos,
não descobrem de onde lhe advém tão antigermânicas
qualidades. Perquirem-lhe a linhagem toda, e não lobrigam, nos confins
indecisos do século XIII, o príncipe obscuro, misto de minnesinger
e de soldado, errante, de castelo em castelo, pela Baviera em fora, todo vestido
de ferro, feito um caçador de glórias e de perigos, a cantar
o amor e a coragem, que veio, por um milagre de atavismo, surgir tão
de pancada e estonteadamente em nossos dias ...
É um revenant; e este evadido do passado ao mesmo passo que se isola
na Alemanha, vai isolando a Alemanha do convívio das nações.
Autocrata sem rebuços num império constitucional, em que os
seus secretários particulares substituem os ministros responsáveis,
aperta-se no estreitíssimo círculo de uma Corte louvaminheira,
que não só o afasta do influxo austero da opinião pública
germânica, como o impropria a avaliar os desastrosos efeitos de sua
garrulice inconveniente sobre todas as nações. Embalde von Treitschk,
o notável sucessor de Mommsen, denuncia "o exagerado culto teocrático
à majestade que macula a monarquia prussiana "e as formalidades
e .cerimônias de uma Corte, onde "há a abjeção
estagnada do servilismo oriental"; ou o Dr. Hann, secretário da
Liga Agrária, denuncia nuamente, em público, o acabamento das
qualidades superiores de consistência, de continuidade e de firmeza
de inabalável política bismarckiana. O imperador não
os ouve: repele-os.
Eles não lhe embalam a vaidade, não lhe aplaudem os discursos,
não lhe admiram as concepções, não se enfileiram
na numerosa claque que lhe proclama o enciclopedismo distenso. Wirchow atravessou
o seu reinado, inteiramente desfavorecido, porque era liberal. Hauptmann,
o maior dramaturgo da Alemanha, figura-se-lhe um rabiscador inaturável;
a sua grande voz não vinga o abafamento dos reposteiros de Potsdam.
Hoje o gênio loureado na terra sonhadora de Goethe é o capitão
Lanff, um lírico de caserna. Para este todos os requintes dos favores
imperiais, porque os seus dramas, impostos por decreto a todos os teatros
subsidiados do Império - os seus dramas tremendos, refertos de cutiladas,
de tiros, de urros pavorosos de terribilíssimos heróis, em que
os entrechos se embaralham pisoados de cargas de cavalaria - são a
apologia sanguinolenta dos Hohenzollerns. Reconhece-se que são maus,
que são positivamente idiotas, nota canhear dos conceitos, na frase
cambeante e perra, nos enredos desconexos e nos desenlaces abstrusos - mas
lisonjeiam a vaidade imperial.
Esta vaidade é tudo, e para a satisfazer tudo se sacrifica.
Mostra-o o mesmo exército alemão, que, durante tanto tempo,
foi o pavor da Europa. Viu-se-lhe, depois, a imponente fragilidade.
E um exército decorativo, adrede instruído a que rebrilhe ao
sol dos dias festivos a espada virginalmente inocente do Kaiser, diante da
burguesia assustadiça.
Revelou-o, recentemente ainda, Wolf von Schierbraum, e propositadamente escolhemos,
não já um prussiano, mas um rígido prussiano da guerra
de 70, para que se firme este conceito: "O imperador, graças à
sua índole espetaculosa, preparou o exército, não para
a luta consoante a tática e as armas atuais, mas como se ainda vivêssemos
nos antigos tempos". E logo adiante, textualmente: "Há quinze
anos que o educa para falsas batalhas, arremetendo com imaginários
inimigos, em condições tais, que lhe acarretarão completo
extermínio em qualquer campanha destes dias".
E um exército de paradas. Guilherme II conserva-o, cheio de desvelos
de artista e de colecionador de raridades - como um dos seus avós,
Frederico Guilherme I, conservava os seus granadeiros de dois metros de altura.
e os seus dragões torreantes - cuidadosamente, fora das intempéries
danosas das batalhas...
Ele é a sua claque favorita e temerosa; e acredita-se, por vezes, que
o arma contra a própria Alemanha.
Quando o imperador escreveu, no Livro de Ouro de Munich, o seu célebre
suprema lex regi voluntas, ninguém aplaudiu a barbaria deste latim
certíssimo, mas os feld-marechais deliraram, eletrizados.
Pouco tempo depois, ao rematar um de seus discursos perigosos com aquele:
"Todos vós deveis ter uma vontade, a Minha vontade, e uma só
lei, a Minha lei" - houve em toda a Alemanha um doloroso espanto, e o
partido socialista, crescente à medida que a vontade imperial impõe
ao Reichstag sucessivos aumentos de baionetas, replicou-lhe com uma de suas
manifestações ruidosas. O Kaiser assusta-se; mete-se, assombrado,
entre as fileiras adensadas, no campo de manobras de março de 1900,
e ali, sob a hipnose estonteadora de milhares de espadas rebrilhantes:
"Se Berlim renovar contra o rei o insolente levante de 1&98, vós,
meus granadeiros, corrigireis os rebeldes a pontaços de baionetas!"
E houve um longo, estripitoso aplauso ...
Nada mais límpido no delatar o seu antagonismo com a própria
capital do império, se inúmeros outros casos não o atestassem
sob variadíssimas formas.
Sumo árbitro em tudo, em política, como em música, em
arquitetura, como em poesia, em pintura, como em qualquer ciência; estrategista,
dramaturgo, arqueólogo, teólogo, inédito em tudo, poeta
sem um verso, filósofo sem um conceito, músico sem uma nota,
guerreiro sem um golpe de sabre, esse dissipar a individualidade irrequieta,
espraiando-a largamente sobre todas as coisas, tem-lhe acarretado sucessivos
desapontamentos.
Aqui, um edifício, o novo palácio de Reichstag, é o melhor
exemplo, que se lhe afigura monstruoso aleijão, na mesma hora em que
todos os profissionais alemães consagravam em verdadeira apoteose o
arquiteto feliz que o planejou; além, um músico, que se lhe
afigura simplesmente detestável - e que se imortaliza, e é Wagner...
Não raro o antagonismo avulta e enreda-se ao ponto de dirimir-se nos
tribunais. Há tempos o imperador, no meio de seus pensares, teve uma
idéia surpreendente:
construir mais igrejas em Berlim. Uma obsessão de artista. Entristecia-o,
talvez, o belo firmamento berlinês, arqueado e vazio sobre as casernas
acaçapadas, ou
chatos alpendres de fábricas, sem o delicado granito das rosáceas,
sem um grande, arrebatador e vivo tumultuar de campanários alterosos...
E a este propósito fez que ressurgisse uma lei obsoleta, de há
quatro séculos, pela qual a cidade se obrigava a construir um número
de templos proporcional ao de habitantes. O fóssil decreto medieval,
porém, caiu estrepitosamente sob a condenação dos juizes...
Assim por diante.
E natural que a Alemanha se isole, perenemente ameaçadora e ameaçada.
Nada se pode prever na sua política ferrotoada de caprichos. Rodeia-se
a suspeita receosa das nações.
E, no momento agudo que vai passando, nesta vasta crise universal apenas começada
nos recantos do Extremo Oriente, quando os máximos resguardos presidem
os atos de todos os governos, devem-se aguardar todas as surpresas da volubilidade
alarmante e das arrancadas românticas daquele minúsculo deus
do Edda, desgarrado na terra e errando entre as gentes - incompreendido, idealista
e temeroso - como se fosse um neto retardatário das Walkyrias...
Este belo titulo clássico cabe ao Brasil. E o que nos revela um sociólogo
qualquer da Contemporary Review, um dos muitos que hoje arremetem, aforradamente,
com o indefinido das questões sociais. E inglês; e o argumento
essencial ressalta-lhe na resvaladura desta cinca: somos um povo sem juízo
e a vitalidade germânica, em breve, nos absorverá. Registe-se-lhe
a frase, onde a massuda sisudez britânica aflora o riso da alacridade
ibérica: the brasilians themselves, as Dom Quixote said of Sancho Pansa,
are people ol "muy poca sal en la mollera».
É interessante. Para o filósofo, pintoresco no amenizar de jogralidades
cogitações tão maciças, temperando o seu Hegel
com Cervantes, somos decididamente um povo pródigo, doudivanas, que
anda na história a esperdiçar uma herança. Impõe-se-nos
a curadoria de um protetorado ou de uma conquista mansa, o carinhoso puxão
de orelhas paterno com que se reaviam os pupilos inexperientes. E um caso
em que o direito internacional, cujo elastério vai aumentando à
medida que se dilatam as parábolas das balas, pode humanizar-se, transmudando-se
no código civil proeminente das nações.
De feito, vai, ao parecer, dando demasiado nas vistas esta nossa vida fácil
e perdulária, esta nossa vida à gandaia, ociosa e comodista,
sobre a enorme fazenda de uns quatrocentos milhões de alqueires de
terras, onde sestiamos, fartos, entre os primores de uma flora que tem tudo,
desde o mais reles cereal ao líber e ao látex, para os lavores
da indústria - e que nos da tudo de graça com a sua exuberância
incomparável, permitindo-nos contemplar, (contemplar apenas como coisas
meramente decorativas de um vasto parque de recreio), as nossas virgens bacias
carboníferas, as nossas montanhas de ferro, as nossas cordilheiras
de quartzito, os nossos litorais dourados pelas areias monazíticas,
e o estupendo dilúvio canalizado dos nossos rios, e os cerros lastrados
de ouro das grupiaras, e os pendores numerosos, onde se desatam perpetuamente
as longas fitas alvinitentes da hulha branca à espera das roldanas
que elas moverão um dia... Coisas que mal vemos, pisando distraídos
sobre o macadame sem preço dos cascalhos diamantinos e errando nos
paraísos vazios dos gerais sem fim ...
Enquanto isto acontece, a vida de outras gentes, intensíssima e a crescer,
a crescer dia a dia, mais e mais se agita, constrita à força
na clausura das fronteiras. De sorte que a nossa esplêndida mediocridade
se lhes torna em perpétuo desafio, repruindo-lhes a riqueza torturada
e a pletora de forças que, na ordem econômica, caracteriza o
moderno imperialismo.
A Alemanha é o melhor exemplo. E o caso típico de um povo sob
a ameaça permanente de seu mesmo progresso. Passando, com uma rapidez
sem par na história, do regime agrícola em que se aplicavam,
há meio século, três quartos da sua gente, para o máximo
regime industrial, onde se aplicavam hoje dois terços da sua atividade
- ficou duplamente adstrita a todas as exigências do expansionismo obrigatório.
Para viver e para agir. De um lado, calcula-se que o seu solo, intensamente
explorado, no máximo, bastará a alimentar trinta milhões
de homens, e ela tem quase o dobro. De outro, cerca de metade das matérias-primas,
que lhe alimentam as indústrias, vem do exterior. Está numa
alternativa. Ou isolar-se num papel secundário e obscuro, procurando,
na emigração pacifica, um desafogo à sua sobrecarga humana
- ou expandir-se, sistematicamente conquistadora, arriscando-se às
maiores lutas.
Preferiu o último caso. Não tinha por onde sair.
A atitude entonada, o recacho atrevido, as hipérboles políticas
e todo o gongorismo guerreiro desse Guilherme II, de fartos bigodes repuxados
e duros olhos verdes resumando cintilar de espadas, e os seus arrancos oratórios,
as suas inconveniências e os seus exageros, e até as suas temeridades,
todas essas coisas anômalas que, há dez anos, sobressalteiam
a Europa - têm o beneplácito dos mais frios pensadores da Germânia.
Há quem descubra naquela figura tumultuária algo de medieval.
É, de fato, um revenant.
Mas, por isso mesmo, é o melhor tipo representativo desta situação
especialíssima da Alemanha a idealizar, com os mesmos enlevos dos trovadores
de suas velhas baladas, a sua missão na terra.
Apenas a odisséia não tem rimas; tem cifras; reponta de argumentos
inflexivelmente práticos; e os seus melhores cantores, uns velhinhos
mansíssimos, saem do remanso das academias. Resolvem um problema: e
não indagam se ele requer, ou dispensa, o processo de eliminação
de algumas batalhas.
Para o Dr. Vosberg-Rekow, todo o corpo político-industrial alemão
depende do estrangeiro por maneira tal que a súbita parada na remessa
das matérias-primas essenciais lhe acarretará desorganização
completa - verdadeira ruína que só pode prevenir com uma poderosa
marinha apta, do mesmo passo, a fiscalizar os caminhos do mar e a facilitar
a conquista de colônias produtivas.
O professor Schmoeller é até alarmante: se a Alemanha se não
robustecer bastante no mares, ao ponto de garantir, perenemente, a importação
do trigo de que carece, e, em dadas circunstâncias, exercer uma pressão
eficaz sobre os países que lho vendem - a sua própria existência
material está em perigo.
Sobre todos, Bassenge, abertamente terrorista, agita três espectros
do futuro: a Rússia açambarcando quase toda a Ásia; a
América do Norte, com a sua ilimitada energia econômica, derrotando
a Europa dentro dos mercados europeus; e a Inglaterra, monopolizando o comércio
de um quinto da superfície terrestre. Apelam para a estatística,
a serva desleal da sociologia; calculam; perdem-se nas tortuosidades dessa
aritmética imaginária, e Schleiden descobre que em 1980 haverá
1.280 milhões de eslavos e anglo-saxônios contra 180 milhões
de alemães, o que equivale à morte do pan-germanismo pelo simples
peso material daquela massa humana.
Sering não vai tão longe. A seu parecer dentro de vinte anos
a indústria russa atenderá por si só ao mercado nacional,
o que sucederá também com a norte-americana, - e se a Inglaterra
realizar a planejada Imperial Customs Union, o industrialismo alemão
ruirá de todo, restando às populações o abandono
da pátria.
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