Mas se não podemos engenhar medidas que nos salvaguardem, ou amparem
nesta pressão formidável imposta pelo convívio necessário,
civilizador e útil dos demais países, devemos pelo menos evitar
as que de qualquer modo facilitem, ou estimulem, ou abram a mais estreita
frincha à intervenção triunfante do estrangeiro na esfera
superior dos nossos destinos.
É o que sucede, para citarmos um exemplo, com o projeto de reforma
constitucional que neste momento se discute no Congresso paulista.
Lá está um artigo a talho das considerações que
alinhamos.
É o que firma a elegibilidade do estrangeiro, dotado com um exíguo
qüinqüênio de vida estadual, para o cargo de presidente do
Estado. A reforma, neste ponto, não altera o estatuto antigo.
Renova-a, O naturalizado, revestido de direitos políticos de pronto
adquiridos na franquia escancarada da grande naturalização,
poderá dirigir amanhã os destinos do Estado mais próspero
do Brasil.
Assim, ao plagiar a estrutura política dos ianques, mal cepilhando-lhe
as rebarbas, vamos repeli-la e repudiá-la precisamente no lance onde
ela ostenta um magnífico ciúme nativista, rodeando de tantas
exigências, de tantos impeços e de condições tão
severas, até para os mesmos filhos do país, o conseguimento
de um cargo, que é a mais alta concretização da vontade
popular, e que se destina a imprimir uma unidade inteiriça entre os
demais órgãos do governo.
Todas as linhas anteriores nos dispensam o comentário mais breve desta
disposição legislativa que irá atrai;, para o ponto mais
alto das agitações eleitorais a arregimentação
vigorosa dos que têm a solidariedade espontânea e firme determinada
pelo próprio afastamento da verdadeira pátria. E se considerarmos
bem o quadro desanimador da nossa atual existência política,
praticamente definida pela mais completa indiferença e em que o abstencionismo
se erigiu em protesto único e contraproducente a defrontar os estigmas
que debilitam a organização dos poderes constituídos
- o artigo renovado na Constituição do Estado mais cosmopolita
do Brasil não é apenas um erro.
É até uma imprudência.
Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo
direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito
de roubos...
Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária,
sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que
a patrocinava o maior dos teólogos, S. Thomaz de Aquino; e com tal
brilho e cópia de argumentos, que a perigosa tese repontava com a estrutura
inteiriça de um princípio positivo. Realmente a repassava uma
nobre e incomparável piedade, fazendo que aquela extravagância
resumisse e espelhasse um dos aspectos mais impressionadores da justiça.
Tratava-se, ao parecer, de um código da indigência; e os graves
doutores, no avantajarem-se tanto, rompendo com nobre rebeldia as barreiras
da moral comum, para advogarem a causa da enorme maioria de espoliados, chegavam
à conclusão de que a opulência dos ricos se traduzia como
um delitum legale, um crime legalizado. Impressionava-os o problema formidável
da miséria na sua feição dupla - material e filosófica
- pois é talvez menos doloroso refletido nos andrajos das populações
vitimadas, que na triste inopia de elementos da civilização
para o resolver.
E como lhes faleciam, mais do que hoje nos falecem, elementos para a extinção
do mal, justificavam aos desvalidos num crudelíssimo título
de posse a todos os bens - a fome.
O indigente tornava-se um privilegiado afrontando impune toda a ortodoxia
econômica. O roubo transmudava-se, do mesmo passo, num direito natural
de legítima defesa contra a Morte e num dever imperioso para com a
Vida.
Mas não foram além deste expediente, e dessas declamações,
os piedosos doutores. Tolhia-os, senão a situação mental
da Idade Média imprópria a uma apreciação exata
do conjunto do progresso humano, a mesma ditadura espiritual do catolicismo,
na plenitude de força, e para o qual a miséria - eloqüentíssima
expressão concreta do dogma do pecado original - era sempre um horroroso
e necessário capital negativo, avolumando-se com as provações
e com os martírios para a posse anelada da bem-aventurança,
nos céus...
Por outro lado, os pensadores leigos do tempo, e os que os encalçaram
até ao século XVIII, não partiram esta tonalidade sentimental
Mais sonhadores que filósofos, o que os atraía era o lado estético
do infortúnio, a visão empolgante do sofrimento humano, a que
nos associamos sempre pela piedade. Os seus livros, pelos próprios
títulos hiperbólicos, à maneira dos das novelas do tempo,
retratam uma intervenção brilhante e imaginosa, mas inútil.
São como títulos de poemas. De fato, na Utopia de Thomaz Morus,
na Oceana de Hallis, ou na Basilidade de Morelly, a perspectiva de uma existência
melhor, oriunda da riqueza eqüitativamente distribuída e dos privilégios
extintos, irrompe :num fervor de ditirambos, aos quais não faltam,
para maior destaque, prólogos arrepiadores de agruras e tormentas indescritíveis...
As medidas propostas raiam pelos exageros máximos da fantasia: do nivelamento
absoluto de João Libburne, ao platonismo adorável de Fontenelle
e ao niilismo religioso de Diderot; e para lhes não faltar grotesco,
esse cruel e antilógico grotesco imanente às mais trágicas
situações, culmina-as o desvairado comunismo de Campanella com
os seus trezentos monges, trezentos ascetas barbudos e melancólicos,
tentando uma república igualitária que seria o desabamento de
todas as conquistas do progresso.
Ora, tudo isto caracteriza bem o completo desequilíbrio das almas rudemente
trabalhadas pelas doutrinas opostas e de todo desapercebidas, então,
de uma síntese filosófica que ao mesmo passo as emancipasse
do apego tradicional ao catolicismo, cuja missão findara, e dos impulsos
demolidores da metafísica triunfante.
Assim, ao arrebentar a crise decisiva de 1789, não é de estranhar
ficasse inapercebido, e talvez sacrificado, o grande problema que desde Pitágoras
e Platão vinha agitando os espíritos. E que a grande revolução,
inspirada pela filosofia social do século XVIII, oferece o espetáculo
singular de repudiar, desde os seus primeiros atos, os seus próprios
criadores. A consideração de Guizot é profunda: nunca
uma filosofia aspirou tanto ao governo do mundo e nunca foi tão despida
do império.
Os filósofos foram, de pronto, suplantados, na agitação
revolta dos panfletos e da retórica explosiva dessa literatura política
sempre efêmera, com ser modelada pelos desvarios repentinos da multidão.
A sólida estrutura mental de um d’Alembert antepôs-se o
espírito imaginoso e pueril de um Vergniaud, e aos sonhos desmedidos
de Mably e excesso de objetivismo do trágico casquilho que passeou
pelas ruas de Paris :a deusa da Razão...
De sorte que a última pancada do antigo regime - já longamente
solapado e prestes a cair por si mesmo - se fez com excesso de energias que
atirou sobre os destroços da ordem antiga as ruínas da ordem
nova planeada. Exclusivamente atraída pelo programa, que se lhe afigurava
enorme e pouco valia, de derruir as classes privilegiadas, a Revolução
firmou, nos “direito:; do homem”, um duro individualismo que na
ordem espiritual significava a negação dos seus melhores princípios
e na ordem prática equivalia a destruir as corporações
populares, isto é, a única criação democrática
da Idade Média.
“Os direitos do homem... No entanto, a fórmula superior daquela
filosofia, visava, de preferência, através da solidariedade humana
crescente, exatamentc o contrário - os deveres do homem”. Mas
era exigir muito à loucura política do momento. Fazia-se mister,
antes de tudo, que as franquias recém-adquiridas tivessem um traço
incisivamente antiaristocrático. Que o camponês, absolutamente
livre, fosse absolutamente dono da quadra de terra onde nascera e onde tanto
tempo jazera aguilhoado à gleba feudal; enquanto o burguês das
cidades pudesse agir libérrimo, dispondo a bel-prazer de todos os seus
bens, despeado do liame das jurandes.
E o trono vazio dos Capetos teve em roda a concorrência tumultuária
de não sei quantos milhões de liliputinianos reis...
Despojados o clero e a aristocracia de suas propriedades (não raro
precárias como privilégios sujeitos aos caprichos do poder monárquico)
ficou em seu lugar - intangível, absoluta e sacratíssima - a
propriedade burguesa, para a qual o ilustre Condorcet não encontrara
limites no texto que forneceu à Convenção.
Por isto, a breve trecho, se patenteou a inanidade das reformas executadas;
ao invés de um número restrito de privilegiados, nos quais o
egoísmo se atenuava com as tradições cavalheirescas da
nobreza, um outro, maior e formado pela burguesia vitoriosa, mais inapta ainda
a compreender a missão social da propriedade,. .ávida por dominar
na arena livre que se lhe abria, e ·tornando maior o contraste entre
a sua opulência recente e a situação inalterável
do proletariado sem voto -naquele tumulto e destinada apenas a colaborar anonimamente
na epopéia napoleônica, quando em breve, culminando a catástrofe
revolucionária, o mais pequenino dos grandes homens surgisse, concretizando
a reação disfarçada do antigo regime, e fosse restaurar,
entre os -fulgores de uma glória odiosa, o anacronismo da atividade
militar.
Destruída desta maneira a obra memorável da Convenção,
vê-se, contudo, que ela tinha latentes e aguardando apenas um meio propício,
os princípios de uma distribuição mais eqüitativa
da fortuna. Para o rígido Camus a propriedade “não era
um direito natural, era um direito social”; acompanhava-o neste conceito
o romântico Saint Just; e sobre todos, mais incisivamente, num dizer
claríssimo que lhe dá as honras de um precursor do coletivismo
moderno, o incomparável Mirabeau atirava na anarquia das assembléias
estas palavras singularmente austeras: “Le proprietarie n’est
lui-même que le premier des salariés. Ce que nous appelons vulgairement
la proprieté n’est autre chose que le prix qui lui paye la societé
pour les distribuitions qu’il est chergé de faire aux autres
individus par ses consommations et ses depenses. Les proprietaires sont les
agents, les economes du corps social”.
Estas frases admiráveis, porém, que ainda hoje, transcorridos
cento e tantos anos, são a síntese de todo o programa econômico
de socialismo, ninguém as ·escutou. De modo que à massa
infelicíssima do povo, a quem a revolução libertara para
a morte despeando-a da gleba para jungi-la ao carro triunfal de um alucinado,
restavam ainda, como nos velhos tempos, apenas as fórmulas enérgicas,
mas inócuas, de alguns doutores canonizados; e em pleno repontar do
século XIX - quando a filosofia natural já aparelhara o homem
para transfigurar a terra -um triste, um repugnante, um deplorável,
e um horroroso direito: o direito do roubo
***
Mas esta filosofia natural, tão crescentemente revigorada e favorecendo
tanto, no século que passou, o ascendente industrial, era por si mesma
- isolada no campo das suas investigações - inapta à
verdadeira solução do problema. Dizem-no os insucessos de todos
os que o consideraram esteando-se nela, das estupendas utopias de Saint-Simon
e dos seus extraordinários discípulos, às alienações
de Proudhon, às tentativas bizarras de Fourier e ao soçobro
completo da política de Luiz Blanc.
Fora logo acompanhá-los. Se o fizéssemos, veríamos que,
malgrado todos os recursos das ciências, eles pouco se avantajaram aos
sonhadores medievais: o mesmo agitar de medidas fantásticas, e tão
radicais, algumas, abalando tanto os fundamentos da sociedade, a começar
pela organização da família, que acerretavam ante novos
elementos perturbadores e novas faces à questão, dando-lhe um
caráter por igual revolucionário e complexo capaz de a tornar
perpetuamente insolúvel.
***
Assim ela chegou até meados do último século - até
Karl Marx - pois foi, realmente, com este inflexível adversário
de Proudhon que o socialismo científico começou a usar uma linguagem
firme, compreensível e positiva.
Nada de idealizações: fatos; e induções inabaláveis
resultantes de uma análise rigorosa dos materiais objetivos; e a experiência
e a observação, adestradas em lúcido tirocínio
ao través das ciências inferiores; e a lógica inflexível
dos acontecimentos; e essa terrível argumentação terra-a-terra,
sem tortuosidades de silogismos, sem o idiotismo transcendental da velha dialética,
mas toda feita de axiomas, de verdadeiros truísmos, por maneira a não
exigir dos espíritos o mínimo esforço para a alcançarem,
porque ela é quem os alcança independentemente da vontade, e
os domina e os arrasta com a fortaleza da própria simplicidade.
A fonte única da produção e do seu corolário imediato,
o valor, é o trabalho. Nem a terra, nem as má quinas, nem o
capital, ainda coligados, as produzem sem o braço do operário.
Daí uma conclusão irredutível: -a riqueza produzida deve
pertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital é
uma espoliação.
Não se pode negar a segurança do raciocínio.
De efeito, desbancada a lei de Malthus, ante a qual nem se explicaria a civilização,
e demonstrada a que se lhe contrapõe consistindo em que “cada
homem produz sempre mais do que consome persistindo os frutos do seu esforço
além do tempo necessário à sua reprodução”
- põe-se de manifesto o traço injusto da organização
econômica do nosso tempo.
A exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando
o trabalhador num nível inferior ao da máquina. De fato, esta,
na permanente passividade da matéria, é conservada pelo dono;
impõe-lhe constantes resguardos no trazê-la íntegra e
brunida, corrigindo-lhe os desarranjos; e quando morre -digamos assim - fulminada
pela pletora de força de uma explosão ou debilitada pelas vibrações
que lhe granulam a musculatura de ferro, origina a mágoa real de um
desfalque, a tristeza de um decréscimo da fortuna, o luto inconsolável
de um dano. Ao passo que o operário, adstrito a salários escassos
demais à sua subsistência, é a máquina que se conserva
por si, e mal; as suas dores recalca-as forçadamente estóico;
as suas moléstias, que, por uma cruel ironia, crescem com o desenvolvimento
industrial - o fosforismo, o saturnismo, o hidrargirismo, o oxicarborismo
- cura-as como pode, quando pode; e quando morre, afinal, às vezes
subitamente triturado nas engrenagens da sua sinistra sócia mais bem
aquinhoada, ou lentamente- esverdinhado pelos sais de cobre e de zinco, paralítico
delirante pelo chumbo, inchado pelos compostos de mercúrio, asfixiado
pelo óxido de carbônico, ulcerado pelos cáusticos dos
pós arsenicais, devastado pela terrível embriaguez petrólica
ou fulminado por um coup de plomb - quando se extingue, ninguém lhe
dá pela falta na grande massa anônima e taciturna, que enxurra
todas as manhãs à porta das oficinas.
Neste confronto se expõe a pecaminosa injustiça que o egoísmo
capitalista agrava, não permitindo, mercê do salário insuficiente,
que se conserve tão bem como os seus aparelhos metálicos, os
seus aparelhos de músculos e nervos; e está em grande parte
a justificativa dos socialistas no chegarem todos ao duplo princípio
fundamental:
Socialização dos meios de produção e circulação;
Posse individual somente dos objetos de uso.
Este princípio, unanimemente aceito, domina toda a heterodoxia socialista
- de sorte que as cisões, e são numerosas, existentes entre
eles, consistem apenas nos meios de atingir-se aquele objetivo. Para alguns,
e citam-se apenas João Ligg e Ed. Vaillant, os privilégios econômicos
e políticos devem cair ao choque de uma revolução violenta.
É o socialismo demolidor que, entretanto, menos aterroriza a sociedade
burguesa. Outros, como Emilio Vendervelde, se colocam numa atitude expectante:
as reformas serão violentas ou não, segundo o grau de resistência
da burguesia. Finalmente, outros ainda - os mais tranqüilos e mais perigosos
- como Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a carência
de um plano já feito de organização social capaz de substituir,
em bloco, num dia, a ordem atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas
violentas, sempre infecundas e só aceitáveis transitoriamente,
de passagem, num ou noutro ponto, para abrirem caminho à própria
evolução.
Ferri, em belíssimo paralelo entre o desenvolvimento social e o terrestre,
mostra como os imaginosos cataclismos de Cuvier, perturbaram, sem efeito,
a geologia para explicarem transformações que se realizam sob
o nosso olhar, sendo os grandes resultados, que mal compreendemos no estreito
círculo da vida individual, uma soma de efeitos parcelados acumulando-se
na amplitude das idades do globo. Deslocando à sociedade este conceito,
aponta-nos o processo normal das reformas lentas, operando-se na consciência
coletiva e refletindo-se pouco a pouco na prática, nos costumes e na
legislação escrita, continuamente melhoradas.
Nada mais límpido. Realmente, as catástrofes sociais só
podem provocá-las as próprias classes dominantes, as tímidas
classes conservadoras, opondo-se a marcha das reformas - como a barragem contraposta
a uma corrente tranqüila pode gerar a inundação. Mesmo
nesse caso, porém, a convulsão é transitória;
é um contrachoque ferindo a barreira governamental. Nada mais. Porque
o caráter revolucionário do socialismo está apenas no
seu programa radical. Revolução: transformação.
Para a conseguir, basta-lhe erguer a consciência do proletário,
e - conforme a norma traçada pelo Congresso Socialista de Paris, em
1900 - aviventar a arregimentação política e econômica
dos trabalhadores.
Porque a revolução não é um meio, é um
fim; embora, às vezes, lhe seja mister um meio, a revolta. Mas esta
sem a forma dramática e ruidosa de outrora. As festas do primeiro de
maio são, quanto a este último ponto, bem expressivas. Para
abalar a terra inteira, basta que a grande legião em marcha pratique
um ato simplíssimo: cruzar os braços...
Porque o seu triunfo é inevitável.
Garantem-no as leis positivas da sociedade que criarão o reinado tranqüilo
das ciências e das artes, fontes de um capital maior, indestrutível
e crescente, formado pelas melhores conquistas do espírito e do coração...
Margem do Turvo Novembro de 901
Considero, à porta da capuaba de pau-a-pique e taipa em que abriguei,
este trecho torturante da estrada de Taboado, onde me colheu a noite.
E penso, desapontado, nas três mil léguas das quarenta e oito
estradas romanas, estendidas, irradiantes, pela terra feito uma rede aprisionadora
e forte desenrolada em roda da coluna fulgente do miliarum aureum, que centralizava
o Forum.
O viajante abalava por uma delas, a Via Flaminia, por exemplo, e contorneava
todo o norte da Itália; entrava na Panonia; varava, adiante, a Moeda
e a Tracia, seguindo por Heracléa até Constantinopla; e daí
para a Bitínia, para a Capadócia, para Antióquia, atravessando
o Tauros, e para a Sina, a Palestina e o Egito; inflectindo, afinal, vivamente,
à. direita, perlongando todo o norte da África, de Alexandria
a Tanger.
Neste longo percurso - atravessando pantanais e montanhas sobre paredões
de pedra ou galerias subterrâneas, pisava o chão duro dos stracta
enrijados, a cimento, cobertos pelas glareas de saibro sobre que se estendiam
os ladrilhos largos dos silhares.
Por ali disparavam as quadrigas velozes, como sobre raias unidas, e o pedestre
desviava-se, a salvo, sobre as calçadas laterais de basalto, das margines,
ladeadas de bancos intervalados e cômodos.
A viagens transcorriam rápidas naquelas avenidas continentais, animadas
e vibrantes, onde estrepitava a galopada dos correios precipitando-se para
as Gálias ou para a Síria, e derivavam, vagarosas, as caravanas
dos mercadores, estacando às vezes para que de permeio lhe passassem
céleres, no ritmo acelerado da estratégia de Cesar, as cortes
das legiões.
Há dois mil e tantos anos.
É natural que nos entristeçam hoje, contemplando este trecho
medonho de estrada, tortuoso e estreito, invadido de mato, rolando em aclives
vivos, afundando em grotões, enfiando, feito num túnel, pelos
tabocais que o cobrem, ou diluindo-se, impraticável, em tremedais extensos;
- um picadão malgradado, de dezenas de léguas, atravessando
todo o Estado de S. Paulo até ao Mato Grosso.
Dir-se-á que os tempos são outros, outros os nossos recursos,
e que a linhas férreas substituem com vantagem aquelas construções
monumentais da engenharia antiga, com maior economia de esforços e
resultados incomparavelmente maiores.
***
Mas esta estrada de Taboado que, pelo seu traçado, é a mais
importante não já de S. Paulo mas do Brasil inteiro, merecia
trabalhos excepcionais. Tem um caráter continental tão frisante
que devíamos, tanto quanto possível, aproximá-la de uma
estrada romana.
Desenvolvendo-se do Jaboticabal ao porto do Paraná, que a batiza, o
seu prolongamento levá-la-ia, recortando o divortium aquarum do Amazonas
e do Paraguai, a Cuiabá, quase no centro geométrico da América
do Sul. Teria, então, um comprimento de duzentas léguas escassas
e se fosse construída - não diremos com o luxo estupendo dos
caminhos antigos, nem mesmo como os modernos planck-roads do Canadá
- mas larga e abaulada, declives atenuados, atoleiros para sempre desfeitos
com aterros firmes e drenagem completa, faixas reforçadas por uma macadamizacão
pouco espessa embora, pontes que não constringissem a vazão
do rio nas estreitezas de uma economia extravagante, e tendo, regularmente
espaçados, estações e postos de segurança garantindo
e policiando o tráfego; assim constituída, aquela estrada duplicaria
em poucos anos a vitalidade nacional.
Não idealizamos.
Entre os coeficientes de redução do nosso progresso, avulta
uma condição geográfica, que toda a gente conhece.
O Brasil é compacto. Falta-lhe penetrabilidade. Falta-lhe esse articulado
fundo das costas, essa diferenciação do espaço que em
todos os tempos e lugares da Grécia antiga a Inglaterra de hoje e ao
Japão, reage vigorosamente sobre as civilizações locais.
Por outro lado, completando os inconvenientes de um aparelho litoral inteiriço,
a sua estrutura geológica, matriz do facies topográfico - antemurais
graníticas precintando planaltos - impropria-o ainda mais ao domínio
franco.
Dai todo o esforço despendido para se modificar esta fatalidade geográfica.
Em torno do problema da viação geral do Brasil tem-se travado
discussões entre as mais interessantes de toda a engenharia.
Começaram em 1870. Tiveram a princípio, como objetivo exclusivo,
o abandono do perigoso desvio pelo Prata que, de 1850 a 1866, através
de longa série de desastres diplomáticos enfeixados afinal numa
campanha feroz, tornava precárias as comunicações com
o Mato Grosso.
Apareceram, então, os traçados de Palm e Lloyd, B. Rohan, Antonio
Rebouças e outros que variando apenas no escolher os diversos vales
como linhas naturais de penetração, visavam, estreitamente estratégicos,
alcançar o Paraguai, pelo sul daquele Estado remoto. Apenas Monteiro
Tourinho ampliou o problema, sem o melhorar, com a idealização
ousada de uma linha férrea das Sete-Quedas, do Paraná, ao porto
de Anca, no Pacifico.
Depois a questão se esclareceu melhor. Sem perder o ponto de vista
militar, tornou-o apenas incidente de aspiração mais alta.
Surge o nome de Pimenta Bueno. O grande engenheiro firma, em 76, acompanhando
a divisória das águas do Tietê e do Mogi-Guaçu,
com o ponto obrigado de Santa Ana do Paranaíba, o rumo realmente prático
das nossas comunicações com a capital de Mato Grosso -
Os que se sucederam, a própria comissão de cinco notáveis
- Rio Branco, Beaurepaire Rohan, Buarque de Macedo, Raposa e Honório
Bicalho não encararam com maior lucidez o assunto.
A linha planeada, que a Companhia Paulista, infelizmente, acompanhou somente
até Araraquara, permaneceu inteiriça, completa, sem comportar
a variante mais breve, e cortando mesmo, vitoriosamente, depois, as paralelas
desse grande trângulo da viação geral, que André
Rebouças ideou, como um desafio ao nosso progresso máximo, no
futuro.
Não pormenorizaremos estes vários traçados.
Notemos apenas que em todos eles os dignos mestres tiveram a obsessão
permanente da locomotiva, rápida e triunfante, suplantando tão
desmarcadas distâncias. Agiram num plano superior demais. Foram sobremaneira
teóricos, e olvidando o aspecto econômico, dominante na questão,
parece terem imaginado que a simples chegada das vias férreas bastasse
para que surgissem os elementos vitais e a matéria-prima da mais civilizadora
das indústrias: o povoamento, a produção intensa e o
tráfego continuo.
Mas este despertar de energias em regiões despovoadas requer um prazo
longo demais para os capitais que nele se arriscam, jogando contra o futuro.
Mostra-o, entre nós, uma experiência de trinta anos.
As nossas duas melhores estradas de penetração, aparelhadas
pelos recursos acumulados de um progresso crescente, a Paulista e a Mogiana,
inauguradas em 72 e 75, no avançarem para Mato Grosso e Goiás
mal ultrapassam, hoje, um terço e a metade das distâncias.
Entretanto, organizaram-se na quadra certo mais pujante do nosso desenvolvimento
econômico, que o gênio do Visconde do Rio Branco domina, e tiveram,
nos anos subsequentes, o amparo da riqueza crescente de S. Paulo.
A primeira afastou-se do mesmo traçado civilizador de Pimenta Bueno,
seguindo ilogicamente para Barretos, desviando-se de uma rota entregue hoje
ao avançamento, naturalmente moroso, da estrada de Ribeirãozinho.
Mas dado que persistisse no primitivo rumo e fosse encontrando sempre nas
novas paragens atingidas as mesmas condições de vida, só
alcançaria Cuiabá num prazo mínimo de sessenta anos.
E ainda quando, escandalosamente otimistas diante do nosso desfalecimento
econômico, reduzíssemos aquele prazo, não pagaríamos
o traço bem pouco animador que caracteriza a distensão das nossas
redes de estradas de ferro.
De fato, nenhuma busca o centro do país visando despertar as energias
latentes que o afastamento do litoral amortece. Progridem arrebatadas npor
uma lavoura extensiva que se avantaja no interior à custa do esgotamento,
da pobreza, e da esterilização das terras que vai abandonando.
Povoam despovoando. Não multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas.
Fazem avançamentos que não são um progresso. E alongando
para a frente os trilhos, à medida que novas terras roxas abrolham
em novos cafezais, vão, ao acaso, nesse seguir o sulco das derribadas,
deixando atrás um espantalho de civilização tacanha nas
cidades decaídas circundadas de fazendas velhas ...
Este fato, que ninguém contesta, define bem as anomalias de um desenvolvimento
e de um progresso contestáveis. Reflete o vício de uma expansão
em que não colaboram as forças profundas do país, porque
vai da periferia para o centro, sobre não ter o caráter francamente
nacional, a pouco e pouco extinto no vigor das correntes intensivas de imigrantes
que, diante da nossa indiferença fatalista pelo futuro, já vão
assumindo o aspecto de uma invasão de bárbaros pacíficos.
Deste modo uma estrada de rodagem digna de tal nome, para o Mato Grosso, principalmente
agora que o automobilismo libertou a velocidade do trilho, não seria
apenas o melhor leito para a futura via férrea e o melhor meio de nos
emanciparmos do Prata, neste fase incandescente da política sul-americana,
mas ainda, sob aspecto mais grave, um belo laço de solidariedade prendendo-nos
aos patrícios dos sertões e revigorando uma integração
étnica, já consideravelmente comprometida.
E a tarefa é, relativamente, fácil.
Temos um termo de comparação expressivo na única estrada
de rodagem de todo o Brasil, a da "União e Indústria".
Desenvolvida de Juiz de Fora a Petrópolis, com um percurso de 147 quilômetros,
esta admirável avenida, macadamizada de feldspato e quartzo, que outrora
faria inveja às melhores ruas das nossas capitais, é uma grande
lição.
Surgiu da vontade de ferro de um homem - Mariano Procópio - e foi executada
em condições desfavoráveis: de um lado as dificuldades
técnicas decorrentes da feição alpestre do Rio de Janeiro
e Minas, de outro a carência de aparelhos e maquinismos, que hoje existem,
sendo o próprio britamento das pedras feito desvantajosamente, à
mão, o que encarecia sobremodo os materiais empregados.
Mas foi feita - larga, de oito metros, abaulado o leito resistente e firme
perfeitamente drenado, decorado de obras de arte em que se salienta a ponte
das Garças sobre o Paraíba, e inflectindo em curvas capazes
dos maiores retângulos de atrelagem, ou atenuando, malgrado o acidentado
dos lugares, os esforços de tração, graças a um
máximo de 3% para os declives.
E natural que sobre ela as diligências de cerca de três toneladas,
corressem, rápidas, com a velocidade média de 17 quilômetros
por hora, o que permitia o percurso total das suas vinte e duas léguas
em muito menos de um dia.
Ora, uma estrada identicamente modelada, para Mato Grosso, seria apenas oito
vezes e meia maior.
Realmente, dando-se aos caminhos de Jaboticabal a Cuiabá, um desenvolvimento
de 0,20 sobre a linha reta, o que não é pouco para uma estrada
de rodagem, vemos que a sua extensão total importará em 1.250
quilômetros ou 190 léguas.
Com estes dados, confrontadas as duas empresas, verifica-se que todas as vantagens
são pela última.
Dois Estados, o de Mato Grosso e o de S. Paulo, e a União, por igual
interessados, certo balanceiam numa proporção maior, a energia
única de um homem, sobretudo considerando-se que a intervenção
da última acarretará a diminuição da mão-de-obra
pelo emprego de engenharia militar e contingentes do exército. Além
disso, os tempos mudaram, estando a engenharia aparelhada de elementos incomparavelmente
mais eficazes.
Ainda mais, o dilatado do desenvolvimento seria em grande parte compensado
pela disposição mais acessível do terreno.
De fato, percorridos os 435 quilômetros que vão de Jaboticabal
à margem direita do Paraná, fronteira ao Taboado, mercê
de uma ponte de 880 metros sobre o grande rio, a única obra de arte
dispendiosa a executar, a estrada se desdobrará, a partir de Santa
Ana, pelo vale do Aporé; e, deixando-o, irá deparar regiões
ainda mais praticáveis, estendendo-se em cheio sobre esse divortium
aquarum do Amazonas e do Paraguai, tão pouco acentuado e de relevos
tão breves que os tributários dos dois rios quase se anastomosam
em nascentes comuns. E se considerarmos que em todo este percurso lhe sobejam,
nos seixos rolados de inumeráveis cursos de água e nos afloramentos
de quartzitos, materiais que suplantam na facilidade do britamento, e na duração,
o gnaisse granítico da "União e Indústria",
vemos que, de feito, numerosíssimas condições favoráveis
rodeiam a abertura desse caminho admirável, imposto por exigências
sociais e políticas tão imprescindíveis e urgentes.
Quando isto suceder - dando-nos mesmo às diligências, numa marcha
diária de dez horas, uma velocidade média de doze quilômetros,
a travessia de Jaboticabal a Cuiabá será feita, folgadamente,
em dez dias - precisamente um terço, portanto, do que hoje se gasta
na volta de quinhentas léguas pelo Prata.
Ademais, ficaram por uma vez removidos todos os embaraços, todos os
empeços inesperados da travessia num rio que, pelos atritos perigosos
que tem originado, e despertará, é o Bósforo alongado
na América do Sul.
E se isto não acontecer - então, parafraseando uma frase célebre,
é que decididamente nos faltam "um grande engenheiro, um grande
ministro e um grande chefe de Estado", para a realização
das grandes obras.
Convenha-se em que Spencer - Spencer o da última hora, o Spencer valetudinário
e misantropo que chegou aos primeiros dias deste século para o amaldiçoar
e morrer - desgarrou da verdade ao afirmar que há nestes tempos, um
recuo para a barbaria. Viu a vida universal com a vista cansada dos velhos.
Não a compreendeu. Não lhe aprendeu os aspectos variadíssimos
e novos. Certo, faltou-lhe às células cerebrais, exauridas pela
idade, senão pelo mesmo acúmulo das imagens que se refletiram,
a primitiva receptividade diante da época indescritível e bizarra
em que as almas se dobram à sobrecarga de maravilhas e vacilam, deslumbradas,
ora entre prodígios da indústria tão delicados, às
vezes, que recordam uma materialização do espírito criador,
ora entre as magias da ciência, tão poderosas que espiritualizam
a matéria dinamizando-a na idealização tangível
do rádio...
Ou, então, afligiu-o um duro ferrotoar da inveja. Ia-se-lhe a vida,
próxima a estagnar-se no emperramento das artérias - e ficavam-lhe
na frente, maior e crescente, prefigurando novos encantos, novas revelações
e novos ideais, o esplendor da civilização vitoriosa. Não
se conteve. Partiu-se-lhe o aprumo de filósofo. Vestiu desastradamente
a pele da raposa desapontada, e entrou na imortalidade através de uma
fábula de La Fontaine.
Que mais desejava o sábio?...
Maior amplitude na ciência?
Mas esta é, hoje, tal que obriga a inteligência a diferenciar-se
numa especialização indefinida. O mais desvalioso, o mais tíbio
aspecto particularíssimo de uma existência, exige uma existência
inteira. Em torno da criptogama mais rudimentar arma-se uma biblioteca. A
mais afanosa vida não basta a estudar todas as algas.
Breve se organizarão academias para os zoóptos. O martelo do
geólogo bate, nesta hora, na última aresta rochosa do último
recanto perdido na anfratuosidade de um contraforte sem nome de uma montanha
da África central. Aos sismógrafos, armados em toda a parte,
não escapa o mínimo tremor, a mais célere crispadura
da terra. A ocultação da estrela mais imperceptível,
sem nome ou apequenada nas últimas letras do alfabeto grego, não
se opera sem que a acompanhe o olhar perspícuo de um astrônomo
- do astrônomo que não induz como Newton, Kepler, nem calcula
como Gauss, porque lhe é escassa a vida para a infinitas minúcias
que repontam e fulguram na poeirada cósmica dos asteróides.
Neste momento, um oceanógrafo, um NN imortal qualquer, arranca o brilho
de uma revelação da vasa secular de um dos tenebrosos abismos
do Atlântico; ou pompeia, vaidoso, o fruto de vinte anos de análises,
descrevendo rigorosamente o movimento respiratório das nereidas.
E um anatomista, encanecido a estudar o grande zigomático, levanta-se
gravemente numa academia real austera ou num instituto sizudo, e, diante da
austera academia, que se edifica, ou do sizudo instituto, que se deslumbra,
faz a psicologia do riso e a dinâmica hilariante da alegria...
Maior idealização artística?
Mas Shakespeare imortalizou- se, universalizando-se: foi a grande voz assombradora
da natureza, ressoando com todas as tonalidades, da gagueira terrível
de Caliban ao correntio harmonioso do rouxinol do Capuleto - ao passo que
hoje os poemas irrompem, a granel, de um retalho qualquer da vida mais prosaica
- e um largo, irresistível misticismo baralha na mesma ebriez espiritualista
os cientistas e os poetas.
Os raios n fulminam a positividade das ciências. E a crítica
inexorável, que espantara os duendes e anulara o milagre, recua, por
sua vez, surpreendida ante a ciência imaginária, que surge sobre
os destroços da teoria atômica - e mostra-nos, em destaque, num
quase eclipse da lei suprema da conservação da energia - o espiritista
esmaniado ao lado do químico reportado, e a física de Roentgen
desfechando nos mistérios telepáticos.
Maior expansão industrial?
Mas, posto de lado o indescritível das primorosas glorificações
do trabalho, devia bastar-lhe, para aquilatar o império do homem sobre
as coisas, este aproveitamento genial do solenóide terrestre na telegrafia
sem fios: a Terra inteira transmudada em serva submissa do pensamento humano,
e toda penetrada dele, e absorvendo-o, irradiando-o, e expandindo-o no consórcio
maravilhoso da sua força magnética imensurável com as
vibrações ideais da inteligência...
Maior alevantamento moral?
Aqui se nos emperra a pena, a ranger, trada e acobardada. O assunto é
complexo e pregueia-se de inumeráveis refolhos. Não há
abrangê-lo. O movimento industrial, ou científico, pode ao menos
ser imaginado. Pode condensar-se num "bloc" resplandecente como
essa Exposição de S. Luiz, que inscreve num quadrilátero
de palácios o melhor de toda a atividade humana. Mas o progresso da
moral...
***
Entre os atrativos da Exposição de S. Luiz, um há, interessantíssimo.
Não se trata de algum novo motor, ou de uma nova aplicação
elétrica. Trata-se de uma pantomina heróica. Imagine-se o drama
esquiliano da guerra do Transvaal sobre o palco amplíssimo de um vasto
barracão de feira. A terra lendária, com o revesso dos seus
alcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos, aparece,
à luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada de largos borrões
de tinta variadas e cruas ajustadas sobre pernas de serra e sarrafos.
Ali, desenrola-se a luta nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar
das espadas de papelão prateado, nos assaltos aos redutos de papier-maché,
e no estavanado, e no tropear tumultuário dos guerreiros de rostos
afogueados de vermelhão ou empalecidos de pós-de-arroz, e ouvidos
armados dos apitos do contra-regra...
O ianque aplaude. A ilusão é completa. Vê-se a celeridade
nervosa de De Wet, a calma patriarcal de Krueger, a tardeza ameaçadora
de Botha... E, vibrando na distensão repentina dos atiradores, ou concentrando-se
em cargas violentas e compactas, dispersas em escaramuças ou fundidas,
de golpe, no tumulto convulsivo da batalha, as brigadas impetuosíssimas
dos boers.
Depois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refertos de reminiscência
gloriosa. - -
Por fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranqüila
de Cronje.
Nesta ocasião a imagem real da campanha é absoluta e o protagonista
surge como o não representaria o Fregoli mais protéico e plástico.
Porque é o mesmo Cronje, o Cronje autêntico, palpável
- com a sua linha magnifica de herói de envergadura atlética,
aparecendo
aos clarões da ribalta, entre explosões de palmas e gritos entusiásticos
que lhe bisam as façanhas.
Um cronista do Figaro, comentando o caso do único modo por que pode
ele ser comentado - com um humorismo laivado de melancolia - declarou "que
é preciso viver e que desgraçadamente ainda não há
incompatibilidade entre a glória e a miséria"...
Não comentemos, nós. Admiremos, absortos, este traço
adorável e utilitário dos tempos.
Acabou-se o tipo tradicional do herói transfigurado pela desfortuna;
do herói importuno e triste; do herói que pede esmola ou morre
escaveirado e tiritante, passando das palhas de uma enxerga para o mármore
dos panteões. Não mais Camões e Belisários...
Rompe o herói político, esplendidamente burguês; o herói
que faz o trust do ideal; o herói que aluga a glória e que,
antes de pedir um historiador, reclama um empresário.
Alevantamento moral...
Não prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela última vez,
este mundo com o olhar bruxoleante de um velho.
O mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.
Os tempos que vão passando são, na verdade, admiráveis.
Fonte: http://www.ufpel.edu.br