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Contrastes e Confrontos

Euclides da Cunha

Mas se não podemos engenhar medidas que nos salvaguardem, ou amparem nesta pressão formidável imposta pelo convívio necessário, civilizador e útil dos demais países, devemos pelo menos evitar as que de qualquer modo facilitem, ou estimulem, ou abram a mais estreita frincha à intervenção triunfante do estrangeiro na esfera superior dos nossos destinos.
É o que sucede, para citarmos um exemplo, com o projeto de reforma constitucional que neste momento se discute no Congresso paulista.
Lá está um artigo a talho das considerações que alinhamos.
É o que firma a elegibilidade do estrangeiro, dotado com um exíguo qüinqüênio de vida estadual, para o cargo de presidente do Estado. A reforma, neste ponto, não altera o estatuto antigo.
Renova-a, O naturalizado, revestido de direitos políticos de pronto adquiridos na franquia escancarada da grande naturalização, poderá dirigir amanhã os destinos do Estado mais próspero do Brasil.
Assim, ao plagiar a estrutura política dos ianques, mal cepilhando-lhe as rebarbas, vamos repeli-la e repudiá-la precisamente no lance onde ela ostenta um magnífico ciúme nativista, rodeando de tantas exigências, de tantos impeços e de condições tão severas, até para os mesmos filhos do país, o conseguimento de um cargo, que é a mais alta concretização da vontade popular, e que se destina a imprimir uma unidade inteiriça entre os demais órgãos do governo.
Todas as linhas anteriores nos dispensam o comentário mais breve desta disposição legislativa que irá atrai;, para o ponto mais alto das agitações eleitorais a arregimentação vigorosa dos que têm a solidariedade espontânea e firme determinada pelo próprio afastamento da verdadeira pátria. E se considerarmos bem o quadro desanimador da nossa atual existência política, praticamente definida pela mais completa indiferença e em que o abstencionismo se erigiu em protesto único e contraproducente a defrontar os estigmas que debilitam a organização dos poderes constituídos - o artigo renovado na Constituição do Estado mais cosmopolita do Brasil não é apenas um erro.
É até uma imprudência.

UM VELHO PROBLEMA

Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubos...
Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, S. Thomaz de Aquino; e com tal brilho e cópia de argumentos, que a perigosa tese repontava com a estrutura inteiriça de um princípio positivo. Realmente a repassava uma nobre e incomparável piedade, fazendo que aquela extravagância resumisse e espelhasse um dos aspectos mais impressionadores da justiça.
Tratava-se, ao parecer, de um código da indigência; e os graves doutores, no avantajarem-se tanto, rompendo com nobre rebeldia as barreiras da moral comum, para advogarem a causa da enorme maioria de espoliados, chegavam à conclusão de que a opulência dos ricos se traduzia como um delitum legale, um crime legalizado. Impressionava-os o problema formidável da miséria na sua feição dupla - material e filosófica - pois é talvez menos doloroso refletido nos andrajos das populações vitimadas, que na triste inopia de elementos da civilização para o resolver.
E como lhes faleciam, mais do que hoje nos falecem, elementos para a extinção do mal, justificavam aos desvalidos num crudelíssimo título de posse a todos os bens - a fome.
O indigente tornava-se um privilegiado afrontando impune toda a ortodoxia econômica. O roubo transmudava-se, do mesmo passo, num direito natural de legítima defesa contra a Morte e num dever imperioso para com a Vida.
Mas não foram além deste expediente, e dessas declamações, os piedosos doutores. Tolhia-os, senão a situação mental da Idade Média imprópria a uma apreciação exata do conjunto do progresso humano, a mesma ditadura espiritual do catolicismo, na plenitude de força, e para o qual a miséria - eloqüentíssima expressão concreta do dogma do pecado original - era sempre um horroroso e necessário capital negativo, avolumando-se com as provações e com os martírios para a posse anelada da bem-aventurança, nos céus...
Por outro lado, os pensadores leigos do tempo, e os que os encalçaram até ao século XVIII, não partiram esta tonalidade sentimental Mais sonhadores que filósofos, o que os atraía era o lado estético do infortúnio, a visão empolgante do sofrimento humano, a que nos associamos sempre pela piedade. Os seus livros, pelos próprios títulos hiperbólicos, à maneira dos das novelas do tempo, retratam uma intervenção brilhante e imaginosa, mas inútil. São como títulos de poemas. De fato, na Utopia de Thomaz Morus, na Oceana de Hallis, ou na Basilidade de Morelly, a perspectiva de uma existência melhor, oriunda da riqueza eqüitativamente distribuída e dos privilégios extintos, irrompe :num fervor de ditirambos, aos quais não faltam, para maior destaque, prólogos arrepiadores de agruras e tormentas indescritíveis...
As medidas propostas raiam pelos exageros máximos da fantasia: do nivelamento absoluto de João Libburne, ao platonismo adorável de Fontenelle e ao niilismo religioso de Diderot; e para lhes não faltar grotesco, esse cruel e antilógico grotesco imanente às mais trágicas situações, culmina-as o desvairado comunismo de Campanella com os seus trezentos monges, trezentos ascetas barbudos e melancólicos, tentando uma república igualitária que seria o desabamento de todas as conquistas do progresso.
Ora, tudo isto caracteriza bem o completo desequilíbrio das almas rudemente trabalhadas pelas doutrinas opostas e de todo desapercebidas, então, de uma síntese filosófica que ao mesmo passo as emancipasse do apego tradicional ao catolicismo, cuja missão findara, e dos impulsos demolidores da metafísica triunfante.
Assim, ao arrebentar a crise decisiva de 1789, não é de estranhar ficasse inapercebido, e talvez sacrificado, o grande problema que desde Pitágoras e Platão vinha agitando os espíritos. E que a grande revolução, inspirada pela filosofia social do século XVIII, oferece o espetáculo singular de repudiar, desde os seus primeiros atos, os seus próprios criadores. A consideração de Guizot é profunda: nunca uma filosofia aspirou tanto ao governo do mundo e nunca foi tão despida do império.
Os filósofos foram, de pronto, suplantados, na agitação revolta dos panfletos e da retórica explosiva dessa literatura política sempre efêmera, com ser modelada pelos desvarios repentinos da multidão. A sólida estrutura mental de um d’Alembert antepôs-se o espírito imaginoso e pueril de um Vergniaud, e aos sonhos desmedidos de Mably e excesso de objetivismo do trágico casquilho que passeou pelas ruas de Paris :a deusa da Razão...
De sorte que a última pancada do antigo regime - já longamente solapado e prestes a cair por si mesmo - se fez com excesso de energias que atirou sobre os destroços da ordem antiga as ruínas da ordem nova planeada. Exclusivamente atraída pelo programa, que se lhe afigurava enorme e pouco valia, de derruir as classes privilegiadas, a Revolução firmou, nos “direito:; do homem”, um duro individualismo que na ordem espiritual significava a negação dos seus melhores princípios e na ordem prática equivalia a destruir as corporações populares, isto é, a única criação democrática da Idade Média.
“Os direitos do homem... No entanto, a fórmula superior daquela filosofia, visava, de preferência, através da solidariedade humana crescente, exatamentc o contrário - os deveres do homem”. Mas era exigir muito à loucura política do momento. Fazia-se mister, antes de tudo, que as franquias recém-adquiridas tivessem um traço incisivamente antiaristocrático. Que o camponês, absolutamente livre, fosse absolutamente dono da quadra de terra onde nascera e onde tanto tempo jazera aguilhoado à gleba feudal; enquanto o burguês das cidades pudesse agir libérrimo, dispondo a bel-prazer de todos os seus bens, despeado do liame das jurandes.
E o trono vazio dos Capetos teve em roda a concorrência tumultuária de não sei quantos milhões de liliputinianos reis...
Despojados o clero e a aristocracia de suas propriedades (não raro precárias como privilégios sujeitos aos caprichos do poder monárquico) ficou em seu lugar - intangível, absoluta e sacratíssima - a propriedade burguesa, para a qual o ilustre Condorcet não encontrara limites no texto que forneceu à Convenção.
Por isto, a breve trecho, se patenteou a inanidade das reformas executadas; ao invés de um número restrito de privilegiados, nos quais o egoísmo se atenuava com as tradições cavalheirescas da nobreza, um outro, maior e formado pela burguesia vitoriosa, mais inapta ainda a compreender a missão social da propriedade,. .ávida por dominar na arena livre que se lhe abria, e ·tornando maior o contraste entre a sua opulência recente e a situação inalterável do proletariado sem voto -naquele tumulto e destinada apenas a colaborar anonimamente na epopéia napoleônica, quando em breve, culminando a catástrofe revolucionária, o mais pequenino dos grandes homens surgisse, concretizando a reação disfarçada do antigo regime, e fosse restaurar, entre os -fulgores de uma glória odiosa, o anacronismo da atividade militar.
Destruída desta maneira a obra memorável da Convenção, vê-se, contudo, que ela tinha latentes e aguardando apenas um meio propício, os princípios de uma distribuição mais eqüitativa da fortuna. Para o rígido Camus a propriedade “não era um direito natural, era um direito social”; acompanhava-o neste conceito o romântico Saint Just; e sobre todos, mais incisivamente, num dizer claríssimo que lhe dá as honras de um precursor do coletivismo moderno, o incomparável Mirabeau atirava na anarquia das assembléias estas palavras singularmente austeras: “Le proprietarie n’est lui-même que le premier des salariés. Ce que nous appelons vulgairement la proprieté n’est autre chose que le prix qui lui paye la societé pour les distribuitions qu’il est chergé de faire aux autres individus par ses consommations et ses depenses. Les proprietaires sont les agents, les economes du corps social”.
Estas frases admiráveis, porém, que ainda hoje, transcorridos cento e tantos anos, são a síntese de todo o programa econômico de socialismo, ninguém as ·escutou. De modo que à massa infelicíssima do povo, a quem a revolução libertara para a morte despeando-a da gleba para jungi-la ao carro triunfal de um alucinado, restavam ainda, como nos velhos tempos, apenas as fórmulas enérgicas, mas inócuas, de alguns doutores canonizados; e em pleno repontar do século XIX - quando a filosofia natural já aparelhara o homem para transfigurar a terra -um triste, um repugnante, um deplorável, e um horroroso direito: o direito do roubo

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Mas esta filosofia natural, tão crescentemente revigorada e favorecendo tanto, no século que passou, o ascendente industrial, era por si mesma - isolada no campo das suas investigações - inapta à verdadeira solução do problema. Dizem-no os insucessos de todos os que o consideraram esteando-se nela, das estupendas utopias de Saint-Simon e dos seus extraordinários discípulos, às alienações de Proudhon, às tentativas bizarras de Fourier e ao soçobro completo da política de Luiz Blanc.
Fora logo acompanhá-los. Se o fizéssemos, veríamos que, malgrado todos os recursos das ciências, eles pouco se avantajaram aos sonhadores medievais: o mesmo agitar de medidas fantásticas, e tão radicais, algumas, abalando tanto os fundamentos da sociedade, a começar pela organização da família, que acerretavam ante novos elementos perturbadores e novas faces à questão, dando-lhe um caráter por igual revolucionário e complexo capaz de a tornar perpetuamente insolúvel.

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Assim ela chegou até meados do último século - até Karl Marx - pois foi, realmente, com este inflexível adversário de Proudhon que o socialismo científico começou a usar uma linguagem firme, compreensível e positiva.
Nada de idealizações: fatos; e induções inabaláveis resultantes de uma análise rigorosa dos materiais objetivos; e a experiência e a observação, adestradas em lúcido tirocínio ao través das ciências inferiores; e a lógica inflexível dos acontecimentos; e essa terrível argumentação terra-a-terra, sem tortuosidades de silogismos, sem o idiotismo transcendental da velha dialética, mas toda feita de axiomas, de verdadeiros truísmos, por maneira a não exigir dos espíritos o mínimo esforço para a alcançarem, porque ela é quem os alcança independentemente da vontade, e os domina e os arrasta com a fortaleza da própria simplicidade.
A fonte única da produção e do seu corolário imediato, o valor, é o trabalho. Nem a terra, nem as má quinas, nem o capital, ainda coligados, as produzem sem o braço do operário. Daí uma conclusão irredutível: -a riqueza produzida deve pertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital é uma espoliação.
Não se pode negar a segurança do raciocínio.
De efeito, desbancada a lei de Malthus, ante a qual nem se explicaria a civilização, e demonstrada a que se lhe contrapõe consistindo em que “cada homem produz sempre mais do que consome persistindo os frutos do seu esforço além do tempo necessário à sua reprodução” - põe-se de manifesto o traço injusto da organização econômica do nosso tempo.
A exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando o trabalhador num nível inferior ao da máquina. De fato, esta, na permanente passividade da matéria, é conservada pelo dono; impõe-lhe constantes resguardos no trazê-la íntegra e brunida, corrigindo-lhe os desarranjos; e quando morre -digamos assim - fulminada pela pletora de força de uma explosão ou debilitada pelas vibrações que lhe granulam a musculatura de ferro, origina a mágoa real de um desfalque, a tristeza de um decréscimo da fortuna, o luto inconsolável de um dano. Ao passo que o operário, adstrito a salários escassos demais à sua subsistência, é a máquina que se conserva por si, e mal; as suas dores recalca-as forçadamente estóico; as suas moléstias, que, por uma cruel ironia, crescem com o desenvolvimento industrial - o fosforismo, o saturnismo, o hidrargirismo, o oxicarborismo - cura-as como pode, quando pode; e quando morre, afinal, às vezes subitamente triturado nas engrenagens da sua sinistra sócia mais bem aquinhoada, ou lentamente- esverdinhado pelos sais de cobre e de zinco, paralítico delirante pelo chumbo, inchado pelos compostos de mercúrio, asfixiado pelo óxido de carbônico, ulcerado pelos cáusticos dos pós arsenicais, devastado pela terrível embriaguez petrólica ou fulminado por um coup de plomb - quando se extingue, ninguém lhe dá pela falta na grande massa anônima e taciturna, que enxurra todas as manhãs à porta das oficinas.
Neste confronto se expõe a pecaminosa injustiça que o egoísmo capitalista agrava, não permitindo, mercê do salário insuficiente, que se conserve tão bem como os seus aparelhos metálicos, os seus aparelhos de músculos e nervos; e está em grande parte a justificativa dos socialistas no chegarem todos ao duplo princípio fundamental:
Socialização dos meios de produção e circulação;
Posse individual somente dos objetos de uso.
Este princípio, unanimemente aceito, domina toda a heterodoxia socialista - de sorte que as cisões, e são numerosas, existentes entre eles, consistem apenas nos meios de atingir-se aquele objetivo. Para alguns, e citam-se apenas João Ligg e Ed. Vaillant, os privilégios econômicos e políticos devem cair ao choque de uma revolução violenta. É o socialismo demolidor que, entretanto, menos aterroriza a sociedade burguesa. Outros, como Emilio Vendervelde, se colocam numa atitude expectante: as reformas serão violentas ou não, segundo o grau de resistência da burguesia. Finalmente, outros ainda - os mais tranqüilos e mais perigosos - como Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a carência de um plano já feito de organização social capaz de substituir, em bloco, num dia, a ordem atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas violentas, sempre infecundas e só aceitáveis transitoriamente, de passagem, num ou noutro ponto, para abrirem caminho à própria evolução.
Ferri, em belíssimo paralelo entre o desenvolvimento social e o terrestre, mostra como os imaginosos cataclismos de Cuvier, perturbaram, sem efeito, a geologia para explicarem transformações que se realizam sob o nosso olhar, sendo os grandes resultados, que mal compreendemos no estreito círculo da vida individual, uma soma de efeitos parcelados acumulando-se na amplitude das idades do globo. Deslocando à sociedade este conceito, aponta-nos o processo normal das reformas lentas, operando-se na consciência coletiva e refletindo-se pouco a pouco na prática, nos costumes e na legislação escrita, continuamente melhoradas.
Nada mais límpido. Realmente, as catástrofes sociais só podem provocá-las as próprias classes dominantes, as tímidas classes conservadoras, opondo-se a marcha das reformas - como a barragem contraposta a uma corrente tranqüila pode gerar a inundação. Mesmo nesse caso, porém, a convulsão é transitória; é um contrachoque ferindo a barreira governamental. Nada mais. Porque o caráter revolucionário do socialismo está apenas no seu programa radical. Revolução: transformação. Para a conseguir, basta-lhe erguer a consciência do proletário, e - conforme a norma traçada pelo Congresso Socialista de Paris, em 1900 - aviventar a arregimentação política e econômica dos trabalhadores.
Porque a revolução não é um meio, é um fim; embora, às vezes, lhe seja mister um meio, a revolta. Mas esta sem a forma dramática e ruidosa de outrora. As festas do primeiro de maio são, quanto a este último ponto, bem expressivas. Para abalar a terra inteira, basta que a grande legião em marcha pratique um ato simplíssimo: cruzar os braços...
Porque o seu triunfo é inevitável.
Garantem-no as leis positivas da sociedade que criarão o reinado tranqüilo das ciências e das artes, fontes de um capital maior, indestrutível e crescente, formado pelas melhores conquistas do espírito e do coração...

AO LONGO DE UMA ESTRADA

Margem do Turvo Novembro de 901

Considero, à porta da capuaba de pau-a-pique e taipa em que abriguei, este trecho torturante da estrada de Taboado, onde me colheu a noite.
E penso, desapontado, nas três mil léguas das quarenta e oito estradas romanas, estendidas, irradiantes, pela terra feito uma rede aprisionadora e forte desenrolada em roda da coluna fulgente do miliarum aureum, que centralizava o Forum.
O viajante abalava por uma delas, a Via Flaminia, por exemplo, e contorneava todo o norte da Itália; entrava na Panonia; varava, adiante, a Moeda e a Tracia, seguindo por Heracléa até Constantinopla; e daí para a Bitínia, para a Capadócia, para Antióquia, atravessando o Tauros, e para a Sina, a Palestina e o Egito; inflectindo, afinal, vivamente, à. direita, perlongando todo o norte da África, de Alexandria a Tanger.
Neste longo percurso - atravessando pantanais e montanhas sobre paredões de pedra ou galerias subterrâneas, pisava o chão duro dos stracta enrijados, a cimento, cobertos pelas glareas de saibro sobre que se estendiam os ladrilhos largos dos silhares.
Por ali disparavam as quadrigas velozes, como sobre raias unidas, e o pedestre desviava-se, a salvo, sobre as calçadas laterais de basalto, das margines, ladeadas de bancos intervalados e cômodos.
A viagens transcorriam rápidas naquelas avenidas continentais, animadas e vibrantes, onde estrepitava a galopada dos correios precipitando-se para as Gálias ou para a Síria, e derivavam, vagarosas, as caravanas dos mercadores, estacando às vezes para que de permeio lhe passassem céleres, no ritmo acelerado da estratégia de Cesar, as cortes das legiões.
Há dois mil e tantos anos.
É natural que nos entristeçam hoje, contemplando este trecho medonho de estrada, tortuoso e estreito, invadido de mato, rolando em aclives vivos, afundando em grotões, enfiando, feito num túnel, pelos tabocais que o cobrem, ou diluindo-se, impraticável, em tremedais extensos; - um picadão malgradado, de dezenas de léguas, atravessando todo o Estado de S. Paulo até ao Mato Grosso.
Dir-se-á que os tempos são outros, outros os nossos recursos, e que a linhas férreas substituem com vantagem aquelas construções monumentais da engenharia antiga, com maior economia de esforços e resultados incomparavelmente maiores.

***

Mas esta estrada de Taboado que, pelo seu traçado, é a mais importante não já de S. Paulo mas do Brasil inteiro, merecia trabalhos excepcionais. Tem um caráter continental tão frisante que devíamos, tanto quanto possível, aproximá-la de uma estrada romana.
Desenvolvendo-se do Jaboticabal ao porto do Paraná, que a batiza, o seu prolongamento levá-la-ia, recortando o divortium aquarum do Amazonas e do Paraguai, a Cuiabá, quase no centro geométrico da América do Sul. Teria, então, um comprimento de duzentas léguas escassas e se fosse construída - não diremos com o luxo estupendo dos caminhos antigos, nem mesmo como os modernos planck-roads do Canadá - mas larga e abaulada, declives atenuados, atoleiros para sempre desfeitos com aterros firmes e drenagem completa, faixas reforçadas por uma macadamizacão pouco espessa embora, pontes que não constringissem a vazão do rio nas estreitezas de uma economia extravagante, e tendo, regularmente espaçados, estações e postos de segurança garantindo e policiando o tráfego; assim constituída, aquela estrada duplicaria em poucos anos a vitalidade nacional.
Não idealizamos.
Entre os coeficientes de redução do nosso progresso, avulta uma condição geográfica, que toda a gente conhece.
O Brasil é compacto. Falta-lhe penetrabilidade. Falta-lhe esse articulado fundo das costas, essa diferenciação do espaço que em todos os tempos e lugares da Grécia antiga a Inglaterra de hoje e ao Japão, reage vigorosamente sobre as civilizações locais.
Por outro lado, completando os inconvenientes de um aparelho litoral inteiriço, a sua estrutura geológica, matriz do facies topográfico - antemurais graníticas precintando planaltos - impropria-o ainda mais ao domínio franco.
Dai todo o esforço despendido para se modificar esta fatalidade geográfica.
Em torno do problema da viação geral do Brasil tem-se travado discussões entre as mais interessantes de toda a engenharia.
Começaram em 1870. Tiveram a princípio, como objetivo exclusivo, o abandono do perigoso desvio pelo Prata que, de 1850 a 1866, através de longa série de desastres diplomáticos enfeixados afinal numa campanha feroz, tornava precárias as comunicações com o Mato Grosso.
Apareceram, então, os traçados de Palm e Lloyd, B. Rohan, Antonio Rebouças e outros que variando apenas no escolher os diversos vales como linhas naturais de penetração, visavam, estreitamente estratégicos, alcançar o Paraguai, pelo sul daquele Estado remoto. Apenas Monteiro Tourinho ampliou o problema, sem o melhorar, com a idealização ousada de uma linha férrea das Sete-Quedas, do Paraná, ao porto de Anca, no Pacifico.
Depois a questão se esclareceu melhor. Sem perder o ponto de vista militar, tornou-o apenas incidente de aspiração mais alta.
Surge o nome de Pimenta Bueno. O grande engenheiro firma, em 76, acompanhando a divisória das águas do Tietê e do Mogi-Guaçu, com o ponto obrigado de Santa Ana do Paranaíba, o rumo realmente prático das nossas comunicações com a capital de Mato Grosso -
Os que se sucederam, a própria comissão de cinco notáveis - Rio Branco, Beaurepaire Rohan, Buarque de Macedo, Raposa e Honório Bicalho não encararam com maior lucidez o assunto.
A linha planeada, que a Companhia Paulista, infelizmente, acompanhou somente até Araraquara, permaneceu inteiriça, completa, sem comportar a variante mais breve, e cortando mesmo, vitoriosamente, depois, as paralelas desse grande trângulo da viação geral, que André Rebouças ideou, como um desafio ao nosso progresso máximo, no futuro.
Não pormenorizaremos estes vários traçados.
Notemos apenas que em todos eles os dignos mestres tiveram a obsessão permanente da locomotiva, rápida e triunfante, suplantando tão desmarcadas distâncias. Agiram num plano superior demais. Foram sobremaneira teóricos, e olvidando o aspecto econômico, dominante na questão, parece terem imaginado que a simples chegada das vias férreas bastasse para que surgissem os elementos vitais e a matéria-prima da mais civilizadora das indústrias: o povoamento, a produção intensa e o tráfego continuo.
Mas este despertar de energias em regiões despovoadas requer um prazo longo demais para os capitais que nele se arriscam, jogando contra o futuro.
Mostra-o, entre nós, uma experiência de trinta anos.
As nossas duas melhores estradas de penetração, aparelhadas pelos recursos acumulados de um progresso crescente, a Paulista e a Mogiana, inauguradas em 72 e 75, no avançarem para Mato Grosso e Goiás mal ultrapassam, hoje, um terço e a metade das distâncias.
Entretanto, organizaram-se na quadra certo mais pujante do nosso desenvolvimento econômico, que o gênio do Visconde do Rio Branco domina, e tiveram, nos anos subsequentes, o amparo da riqueza crescente de S. Paulo.
A primeira afastou-se do mesmo traçado civilizador de Pimenta Bueno, seguindo ilogicamente para Barretos, desviando-se de uma rota entregue hoje ao avançamento, naturalmente moroso, da estrada de Ribeirãozinho. Mas dado que persistisse no primitivo rumo e fosse encontrando sempre nas novas paragens atingidas as mesmas condições de vida, só alcançaria Cuiabá num prazo mínimo de sessenta anos.
E ainda quando, escandalosamente otimistas diante do nosso desfalecimento econômico, reduzíssemos aquele prazo, não pagaríamos o traço bem pouco animador que caracteriza a distensão das nossas redes de estradas de ferro.
De fato, nenhuma busca o centro do país visando despertar as energias latentes que o afastamento do litoral amortece. Progridem arrebatadas npor uma lavoura extensiva que se avantaja no interior à custa do esgotamento, da pobreza, e da esterilização das terras que vai abandonando.
Povoam despovoando. Não multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas. Fazem avançamentos que não são um progresso. E alongando para a frente os trilhos, à medida que novas terras roxas abrolham em novos cafezais, vão, ao acaso, nesse seguir o sulco das derribadas, deixando atrás um espantalho de civilização tacanha nas cidades decaídas circundadas de fazendas velhas ...
Este fato, que ninguém contesta, define bem as anomalias de um desenvolvimento e de um progresso contestáveis. Reflete o vício de uma expansão em que não colaboram as forças profundas do país, porque vai da periferia para o centro, sobre não ter o caráter francamente nacional, a pouco e pouco extinto no vigor das correntes intensivas de imigrantes que, diante da nossa indiferença fatalista pelo futuro, já vão assumindo o aspecto de uma invasão de bárbaros pacíficos.
Deste modo uma estrada de rodagem digna de tal nome, para o Mato Grosso, principalmente agora que o automobilismo libertou a velocidade do trilho, não seria apenas o melhor leito para a futura via férrea e o melhor meio de nos emanciparmos do Prata, neste fase incandescente da política sul-americana, mas ainda, sob aspecto mais grave, um belo laço de solidariedade prendendo-nos aos patrícios dos sertões e revigorando uma integração étnica, já consideravelmente comprometida.
E a tarefa é, relativamente, fácil.
Temos um termo de comparação expressivo na única estrada de rodagem de todo o Brasil, a da "União e Indústria".
Desenvolvida de Juiz de Fora a Petrópolis, com um percurso de 147 quilômetros, esta admirável avenida, macadamizada de feldspato e quartzo, que outrora faria inveja às melhores ruas das nossas capitais, é uma grande lição.
Surgiu da vontade de ferro de um homem - Mariano Procópio - e foi executada em condições desfavoráveis: de um lado as dificuldades técnicas decorrentes da feição alpestre do Rio de Janeiro e Minas, de outro a carência de aparelhos e maquinismos, que hoje existem, sendo o próprio britamento das pedras feito desvantajosamente, à mão, o que encarecia sobremodo os materiais empregados.
Mas foi feita - larga, de oito metros, abaulado o leito resistente e firme perfeitamente drenado, decorado de obras de arte em que se salienta a ponte das Garças sobre o Paraíba, e inflectindo em curvas capazes dos maiores retângulos de atrelagem, ou atenuando, malgrado o acidentado dos lugares, os esforços de tração, graças a um máximo de 3% para os declives.
E natural que sobre ela as diligências de cerca de três toneladas, corressem, rápidas, com a velocidade média de 17 quilômetros por hora, o que permitia o percurso total das suas vinte e duas léguas em muito menos de um dia.
Ora, uma estrada identicamente modelada, para Mato Grosso, seria apenas oito vezes e meia maior.
Realmente, dando-se aos caminhos de Jaboticabal a Cuiabá, um desenvolvimento de 0,20 sobre a linha reta, o que não é pouco para uma estrada de rodagem, vemos que a sua extensão total importará em 1.250 quilômetros ou 190 léguas.
Com estes dados, confrontadas as duas empresas, verifica-se que todas as vantagens são pela última.
Dois Estados, o de Mato Grosso e o de S. Paulo, e a União, por igual interessados, certo balanceiam numa proporção maior, a energia única de um homem, sobretudo considerando-se que a intervenção da última acarretará a diminuição da mão-de-obra pelo emprego de engenharia militar e contingentes do exército. Além disso, os tempos mudaram, estando a engenharia aparelhada de elementos incomparavelmente mais eficazes.
Ainda mais, o dilatado do desenvolvimento seria em grande parte compensado pela disposição mais acessível do terreno.
De fato, percorridos os 435 quilômetros que vão de Jaboticabal à margem direita do Paraná, fronteira ao Taboado, mercê de uma ponte de 880 metros sobre o grande rio, a única obra de arte dispendiosa a executar, a estrada se desdobrará, a partir de Santa Ana, pelo vale do Aporé; e, deixando-o, irá deparar regiões ainda mais praticáveis, estendendo-se em cheio sobre esse divortium aquarum do Amazonas e do Paraguai, tão pouco acentuado e de relevos tão breves que os tributários dos dois rios quase se anastomosam em nascentes comuns. E se considerarmos que em todo este percurso lhe sobejam, nos seixos rolados de inumeráveis cursos de água e nos afloramentos de quartzitos, materiais que suplantam na facilidade do britamento, e na duração, o gnaisse granítico da "União e Indústria", vemos que, de feito, numerosíssimas condições favoráveis rodeiam a abertura desse caminho admirável, imposto por exigências sociais e políticas tão imprescindíveis e urgentes.
Quando isto suceder - dando-nos mesmo às diligências, numa marcha diária de dez horas, uma velocidade média de doze quilômetros, a travessia de Jaboticabal a Cuiabá será feita, folgadamente, em dez dias - precisamente um terço, portanto, do que hoje se gasta na volta de quinhentas léguas pelo Prata.
Ademais, ficaram por uma vez removidos todos os embaraços, todos os empeços inesperados da travessia num rio que, pelos atritos perigosos que tem originado, e despertará, é o Bósforo alongado na América do Sul.
E se isto não acontecer - então, parafraseando uma frase célebre, é que decididamente nos faltam "um grande engenheiro, um grande ministro e um grande chefe de Estado", para a realização das grandes obras.

CIVILIZAÇÃO

Convenha-se em que Spencer - Spencer o da última hora, o Spencer valetudinário e misantropo que chegou aos primeiros dias deste século para o amaldiçoar e morrer - desgarrou da verdade ao afirmar que há nestes tempos, um recuo para a barbaria. Viu a vida universal com a vista cansada dos velhos. Não a compreendeu. Não lhe aprendeu os aspectos variadíssimos e novos. Certo, faltou-lhe às células cerebrais, exauridas pela idade, senão pelo mesmo acúmulo das imagens que se refletiram, a primitiva receptividade diante da época indescritível e bizarra em que as almas se dobram à sobrecarga de maravilhas e vacilam, deslumbradas, ora entre prodígios da indústria tão delicados, às vezes, que recordam uma materialização do espírito criador, ora entre as magias da ciência, tão poderosas que espiritualizam a matéria dinamizando-a na idealização tangível do rádio...
Ou, então, afligiu-o um duro ferrotoar da inveja. Ia-se-lhe a vida, próxima a estagnar-se no emperramento das artérias - e ficavam-lhe na frente, maior e crescente, prefigurando novos encantos, novas revelações e novos ideais, o esplendor da civilização vitoriosa. Não se conteve. Partiu-se-lhe o aprumo de filósofo. Vestiu desastradamente a pele da raposa desapontada, e entrou na imortalidade através de uma fábula de La Fontaine.
Que mais desejava o sábio?...
Maior amplitude na ciência?
Mas esta é, hoje, tal que obriga a inteligência a diferenciar-se numa especialização indefinida. O mais desvalioso, o mais tíbio aspecto particularíssimo de uma existência, exige uma existência inteira. Em torno da criptogama mais rudimentar arma-se uma biblioteca. A mais afanosa vida não basta a estudar todas as algas.
Breve se organizarão academias para os zoóptos. O martelo do geólogo bate, nesta hora, na última aresta rochosa do último recanto perdido na anfratuosidade de um contraforte sem nome de uma montanha da África central. Aos sismógrafos, armados em toda a parte, não escapa o mínimo tremor, a mais célere crispadura da terra. A ocultação da estrela mais imperceptível, sem nome ou apequenada nas últimas letras do alfabeto grego, não se opera sem que a acompanhe o olhar perspícuo de um astrônomo - do astrônomo que não induz como Newton, Kepler, nem calcula como Gauss, porque lhe é escassa a vida para a infinitas minúcias que repontam e fulguram na poeirada cósmica dos asteróides. Neste momento, um oceanógrafo, um NN imortal qualquer, arranca o brilho de uma revelação da vasa secular de um dos tenebrosos abismos do Atlântico; ou pompeia, vaidoso, o fruto de vinte anos de análises, descrevendo rigorosamente o movimento respiratório das nereidas.
E um anatomista, encanecido a estudar o grande zigomático, levanta-se gravemente numa academia real austera ou num instituto sizudo, e, diante da austera academia, que se edifica, ou do sizudo instituto, que se deslumbra, faz a psicologia do riso e a dinâmica hilariante da alegria...
Maior idealização artística?
Mas Shakespeare imortalizou- se, universalizando-se: foi a grande voz assombradora da natureza, ressoando com todas as tonalidades, da gagueira terrível de Caliban ao correntio harmonioso do rouxinol do Capuleto - ao passo que hoje os poemas irrompem, a granel, de um retalho qualquer da vida mais prosaica - e um largo, irresistível misticismo baralha na mesma ebriez espiritualista os cientistas e os poetas.
Os raios n fulminam a positividade das ciências. E a crítica inexorável, que espantara os duendes e anulara o milagre, recua, por sua vez, surpreendida ante a ciência imaginária, que surge sobre os destroços da teoria atômica - e mostra-nos, em destaque, num quase eclipse da lei suprema da conservação da energia - o espiritista esmaniado ao lado do químico reportado, e a física de Roentgen desfechando nos mistérios telepáticos.
Maior expansão industrial?
Mas, posto de lado o indescritível das primorosas glorificações do trabalho, devia bastar-lhe, para aquilatar o império do homem sobre as coisas, este aproveitamento genial do solenóide terrestre na telegrafia sem fios: a Terra inteira transmudada em serva submissa do pensamento humano, e toda penetrada dele, e absorvendo-o, irradiando-o, e expandindo-o no consórcio maravilhoso da sua força magnética imensurável com as vibrações ideais da inteligência...
Maior alevantamento moral?
Aqui se nos emperra a pena, a ranger, trada e acobardada. O assunto é complexo e pregueia-se de inumeráveis refolhos. Não há abrangê-lo. O movimento industrial, ou científico, pode ao menos ser imaginado. Pode condensar-se num "bloc" resplandecente como essa Exposição de S. Luiz, que inscreve num quadrilátero de palácios o melhor de toda a atividade humana. Mas o progresso da moral...

***

Entre os atrativos da Exposição de S. Luiz, um há, interessantíssimo. Não se trata de algum novo motor, ou de uma nova aplicação elétrica. Trata-se de uma pantomina heróica. Imagine-se o drama esquiliano da guerra do Transvaal sobre o palco amplíssimo de um vasto barracão de feira. A terra lendária, com o revesso dos seus alcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos, aparece, à luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada de largos borrões de tinta variadas e cruas ajustadas sobre pernas de serra e sarrafos.
Ali, desenrola-se a luta nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar das espadas de papelão prateado, nos assaltos aos redutos de papier-maché, e no estavanado, e no tropear tumultuário dos guerreiros de rostos afogueados de vermelhão ou empalecidos de pós-de-arroz, e ouvidos armados dos apitos do contra-regra...
O ianque aplaude. A ilusão é completa. Vê-se a celeridade nervosa de De Wet, a calma patriarcal de Krueger, a tardeza ameaçadora de Botha... E, vibrando na distensão repentina dos atiradores, ou concentrando-se em cargas violentas e compactas, dispersas em escaramuças ou fundidas, de golpe, no tumulto convulsivo da batalha, as brigadas impetuosíssimas dos boers.
Depois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refertos de reminiscência gloriosa. - -
Por fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranqüila de Cronje.
Nesta ocasião a imagem real da campanha é absoluta e o protagonista surge como o não representaria o Fregoli mais protéico e plástico. Porque é o mesmo Cronje, o Cronje autêntico, palpável - com a sua linha magnifica de herói de envergadura atlética, aparecendo
aos clarões da ribalta, entre explosões de palmas e gritos entusiásticos que lhe bisam as façanhas.
Um cronista do Figaro, comentando o caso do único modo por que pode ele ser comentado - com um humorismo laivado de melancolia - declarou "que é preciso viver e que desgraçadamente ainda não há incompatibilidade entre a glória e a miséria"...
Não comentemos, nós. Admiremos, absortos, este traço adorável e utilitário dos tempos.
Acabou-se o tipo tradicional do herói transfigurado pela desfortuna; do herói importuno e triste; do herói que pede esmola ou morre escaveirado e tiritante, passando das palhas de uma enxerga para o mármore dos panteões. Não mais Camões e Belisários...
Rompe o herói político, esplendidamente burguês; o herói que faz o trust do ideal; o herói que aluga a glória e que, antes de pedir um historiador, reclama um empresário.
Alevantamento moral...
Não prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela última vez, este mundo com o olhar bruxoleante de um velho.
O mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.
Os tempos que vão passando são, na verdade, admiráveis.

Fonte: http://www.ufpel.edu.br

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