PERSONAGENS
VÊNUS
HIPÓLITO
CRIADOS
CORO de mulheres trezênias
AIA
FEDRA
NÚNCIO
CRIADA
TESEU
NÚNCIO (outro)
DIANA
A cena é em Trezene
ATO I
VÊNUS
No Céu, e entre os mortais bem conhecida,
Sou a deusa de Chipre, celebrada
Por quanto vive, e a luz deste Sol goza
Desde os confins do Atlante: a quem me honra,
Eu exalto, e derribo a quem me ultraja.
Porque é também dos deuses alegrar-se,
Quando pelos mortais se vêem honrados.
Em breve vou mostrar esta verdade.
O filho de Teseu, germe Amazônio,
Pelo casto Piteu criado, Hipólito,
Só ele entre os mancebos da Trezênia,
Diz ser eu uma deusa abominável:
Rejeita núpcias, delas se horroriza,
Honra a Diana, irmã de Febo, e filha
De Jove: esta a sua grande divindade;
Na sua companhia pelos bosques
Ligeiras feras de contínuo acossa,
E aspira a mais do que a mortal é dado.
Mas isso não o invejo, nem me importa;
Mas do em que me ofendeu, hei-de vingar-me
Do homem neste dia: do trabalho,
Tendo-o já adiantado, pouco resta.
Porque há tempo indo Hipólito, da casa
De Piteu, visitar a Ática terra,
E ver e assistir aos venerandos
Mistérios; o viu Fedra, nobre esposa
De seu pai, e então por arte minha
Um furioso amor concebeu n’alma.
E antes de vir aqui, no mais sublime
Do Rochedo de Palas, donde avista
Esta terra Trezênia, um templo a Vênus
Levantou: porque amava amor ausente.
Os vindouros dirão, que ali a deusa,
Pelo amor a Hipólito, foi posta.
Coa morte dos Palântidas, fugindo
Do sangue derramado à triste mancha,
Teseu com a consorte aqui aporta,
Para cumprir seu anual desterro.
Assim a miseranda, suspirando,
E das setas de amor atravessada
Morre em silêncio; o mal ninguém lho sabe.
Mas este amor não me convém que afrouxe:
Mostrá-lo-ei a Teseu, será sabido.
Ao meu duro adversário autor da morte
Será seu mesmo pai; pois que Netuno
Anuiu a Teseu, por dom, três vezes
Todo o voto outorgar, que lhe fizesse.
Sim é ilustre Fedra; porém morre:
Pois o seu mal a mim mais não me importa,
Que de sorte punir meus inimigos,
Que um ponto não se ofusque a minha glória.
Porém lá vejo Hipólito, que volta
Da fadiga da caça; eu me retiro.
Um grande Coro o segue de ministros,
Que celebram Diana, em honra sua
Hinos cantando. Ah triste, que não sabe,
Que as portas lhe estão já de Pluto abertas,
E que esta luz que vê, é derradeira!
HIPÓLITO, e SÉQUITO
HIPÓLITO
Segui-me, segui-me, cantando
Ártemis Celestial, prole de Jove,
Ártemis, de quem somos
Solícito cuidado.
SÉQUITO, ou COMPANHEIROS DE HIPÓLITO
Santa, santa, augustíssima,
Filha de Júpiter,
Salve, ó donzela, salve,
Ó Ártemis, de Jove
E de Latona prole.
Salve, ó formosíssima
Dentre todas as virgens,
Que pelo Céu imenso
Habitais o magnífico
Átrio da áurea casa
De vosso ínclito pai.
Salve, ó formosíssima
Dentre todas as virgens
Do Céu, Ártemis bela.
HIPÓLITO
Eu te ofereço, ó deusa, esta coroa,
Que num prado teci intacto e puro:
Nunca a ele pastor levou rebanho;
Nunca ferro o cortou, é ilibado.
Só as abelhas tocam suas flores
No sol da Primavera: e o Pejo o rega
Com águas doces, mansas, cristalinas.
Todo o que sem estudo, por instinto
Seguiu a castidade, este só, pode
Colher tais flores; o que os maus não podem.
Senhora amável, teus cabelos áureos
Tomem esta prisão de uma mão pia.
Só eu entre os mortais tenho esta honra:
Contigo vivo, e só contigo falo,
Ouvindo tua voz, mas não te vendo.
Assim a vida urdi; assim a acabe.
CRIADO do SÉQUITO DE HIPÓLITO
CRIADO
Soberano, (sim deuses chamar devo
Meus naturais senhores) porventura
Aceitarás de mim um são conselho?
HIPÓLITO
Por certo: e doutro modo eu fora um néscio.
CRIADO
Sabes a lei, que a nós mortais é posta?
HIPÓLITO
Não sei: nem bem entendo tal pergunta.
CRIADO
Não ser altivo: e amar o que é amável.
HIPÓLITO
Bem: soberbo mortal certo que é ódio.
CRIADO
E nos afáveis há não vulgar graça?
HIPÓLITO
Mui grande: e lucro com trabalho leve.
CRIADO
E entre os deuses será isto assim mesmo?
HIPÓLITO
Sim: se nós outros suas leis usamos.
CRIADO
Pois como a augusta deusa tu não honras?
HIPÓLITO
Qual? vê não erres no que vais dizer-me.
CRIADO
Esta, que tens às tuas portas, Vênus.
HIPÓLITO
Saúdo-a de longe, que eu sou casto.
CRIADO
Ela é augusta e célebre entre os homens.
HIPÓLITO
Uns, uns deuses veneram, outros, outros,
Bem como os homens.
CRIADO
Ah! quão feliz foras,
Se a prudência tivesses, que devias.
HIPÓLITO
Deus não me agrada, que hei-de honrar em trevas.
CRIADO
Os deuses, filho, devem ser honrados.
HIPÓLITO
Ide-vos, companheiros, e deixando
Essa capela, ponde bom cuidado
Na nossa refeição; que é agradável
Depois da caça uma abundante mesa.
Pensar também se devem os cavalos,
Para os meter no carro do exercício,
E quanto cumpre, trabalhar no campo
Depois de saciado: e à tua Vênus
Digo, que feliz seja muito embora.
CRIADO
Nós não imitaremos gente moça.
Quanto a servos convém, mais moderados,
Tua estátua adoramos, Régia Vênus.
Tu deves perdoar, se o fogo ardente
Da mocidade, e entranhas insensíveis
Proferem coisas vãs. Ah! não o ouças,
Que os deuses são mais sábios que os homens.
Entrada do CORO composto de mulheres trezênias
Diz-se, que uma alta rocha,
Alta e a pique talhada,
Goteja orvalho límpido,
Que clara fonte forma,
Onde enchem grandes urnas.
Lá uma amiga minha
Nas suas águas lava
Vestidos de escarlata:
E depois os enxuga
Ao abrigo da rocha.
Dela é que ouvi primeiro,
Que a Senhora, oprimida
De triste mal, no leito
Jaz, sem sair de casa.
E que o formoso rosto
Com véu ligeiro esconde.
Este é terceiro dia,
Depois que não admite
Em sua rósea boca
Os gratos dons de Ceres.
Mas com tristeza oculta
Obstinada caminha
A termo desgraçado.
Furor te ocupa, ó bela,
Mas donde o furor veio?
Vem de Pan, ou vem de Hécate?
Virá dos Coribantes,
Ou da deusa montívaga?
Virá da caçadora
Ditina, se faltaste
Por descuido a ofertar-lhe
Usados sacrifícios?
A deusa tudo observa;
A terra corre, os lagos,
E no irado mar voa
Sobre as asas dos Ventos.
Ou teu ilustre esposo,
Que em Atenas impera,
Alguém ofende, a furto
Em teu tálamo entrando?
Ou de Creta viria
A este amigo porto
Nova triste e funesta,
Que afligisse a rainha,
E de angústia oprimida
Sua sensível alma,
Se vê ao leito presa?
É mui vulgar no sexo
Feminil, por natura
Melindroso e insofrido,
Habitar triste angústia,
Ou por dores do parto,
Ou por loucura: um tempo
Soprou já em meu peito
Este ar terrível; a Ártemis,
Que empolga as áureas setas,
E os partos faz felizes,
Clamei: e em meu socorro,
Porque muito a venero,
Veio cos outros deuses.
Mas eu vejo esta dona conduzindo
Fora das portas Fedra! Quanto cresce
Espessa nuvem em seus lindos olhos!
Que é isto? por sabê-lo a alma suspira,
Qual seja a causa de tão triste efeito
No descorado corpo da rainha.
AIA
Ó males dos mortais! duras doenças!
Que te devo fazer? e que não devo?
Aqui tens esta luz brilhante e pura.
Fora da casa está teu brando leito.
Vir aqui quantas vezes me pediste
Cedo pedes voltar para o teu quarto;
Em nada és firme, nada te contenta,
Não te agrada o presente: só concebes
Do que não tens, idéias lisonjeiras.
Melhor é ser doente, que-assisti-lo.
Doença é um mal só, mas curar dela
Une à aflição do espírito a fadiga
Que sente o corpo.
Dolorosa é a vida dos humanos,
E descanso não têm em seus trabalhos;
Mas trevas que nos cercam, nos encobrem
Outra vida mais doce: loucamente
Amamos esta luz, que a terra doira,
Porque outra mais formosa não provámos,
Porque ignoramos o que encobre a terra,
Prestando fé a fábulas sonhadas.
FEDRA
Amigas, levantai este meu corpo,
Segurai-me a cabeça: os membros todos
Sinto desfalecer: fiéis criadas,
Sustentai minhas mãos e braços lânguidos.
É-me pesado o ornato da cabeça;
Tira, solta o trançado: ai de mim triste!
AIA
Ânimo, filha. Vê que não te movas
Com tamanha soltura, que é nocivo.
Sossego, e ânimo forte levar podem
O mal mais facilmente.
É força que os mortais tenham trabalhos.
FEDRA
Oh se eu bebesse numa clara fonte
Água pura! se entre álamos frondosos,
Ou reclinada sobre um verde prado,
Algum descanso e refrigério achasse!
AIA
Que é isto, filha? em público
Tais palavras não soltes, que te acusam
De teu siso e razão teres perdido.
FEDRA
Levem-me ao monte: eu vou a espesso bosque,
Onde fortes sabujos atassalham
As mais robustas feras, e se lançam
Sobre os malhados e veloces gamos.
A cães, ó deuses, eu gritar quisera;
E o arco da Tessália
Avizinhando a meus loiros cabelos,
As setas despedir;
E em minha mão tomar o agudo ferro.
AIA
Filha, como te lembras de tais coisas?
A caça que te importa?
Água desejas de uma clara fonte?
Aqui bem perto a tens junto das torres,
Onde podes saciar a ardente sede.
FEDRA
Ártemis, que presides
À sagrada Alagoa, oh se eu me visse
Nos teus campos, domando
Os Hénetos indômitos cavalos!
AIA
Não queiras proferir tais desacertos.
Antes ao monte, à caça ir desejavas;
Agora em seca areia
Pretendes adestrar potros fogosos!
Oh quem pudesse, ó filha,
Saber qual deus te agita,
E perturba teu claro entendimento!
FEDRA
Desgraçada de mim! que fiz? aonde
Fugiu minha razão?
Em furor eu caí! isto é castigo
De alguma divindade.
Ai, ai, ai, infelice!
Aia, cobre outra vez minha cabeça.
Oh quanto me envergonho do que disse!
Cobre, sim, que meus olhos brotam lágrimas,
E corridos de pejo da luz fogem.
Recobrar a razão aflige a alma:
Sofrer furor é mal: por melhor julgo
Morrer sem conhecê-lo.
AIA
Eu te cubro: mas quando este meu corpo
A morte cobrirá?
Muitas coisas ensina a longa vida.
Muito convinha, que os mortais travassem
Entre si amizades moderadas,
Que não entrassem no íntimo da alma:
E que a prisão, que os corações enlaça,
Fosse fácil, querendo desatá-la,
Ou apertá-la mais.
Mas uma alma por duas cruéis dores
Sofrer, é peso grave: eis o que eu sofro,
Por amor desta. É visto, que da vida
O supérfluo cuidado maior dano
Lhe causa, e a não consola; e da saúde
É mortal inimigo: assim não louvo
Excesso e demasia em coisa alguma,
E comigo o dirão todos os sábios.