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Hipólito - Eurípedes

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Eurípedes

PERSONAGENS

VÊNUS
HIPÓLITO
CRIADOS
CORO de mulheres trezênias
AIA
FEDRA
NÚNCIO
CRIADA
TESEU
NÚNCIO (outro)
DIANA

A cena é em Trezene

ATO I

VÊNUS

No Céu, e entre os mortais bem conhecida,
Sou a deusa de Chipre, celebrada
Por quanto vive, e a luz deste Sol goza
Desde os confins do Atlante: a quem me honra,
Eu exalto, e derribo a quem me ultraja.
Porque é também dos deuses alegrar-se,
Quando pelos mortais se vêem honrados.
Em breve vou mostrar esta verdade.
O filho de Teseu, germe Amazônio,
Pelo casto Piteu criado, Hipólito,
Só ele entre os mancebos da Trezênia,
Diz ser eu uma deusa abominável:
Rejeita núpcias, delas se horroriza,
Honra a Diana, irmã de Febo, e filha
De Jove: esta a sua grande divindade;
Na sua companhia pelos bosques
Ligeiras feras de contínuo acossa,
E aspira a mais do que a mortal é dado.
Mas isso não o invejo, nem me importa;
Mas do em que me ofendeu, hei-de vingar-me
Do homem neste dia: do trabalho,
Tendo-o já adiantado, pouco resta.
Porque há tempo indo Hipólito, da casa
De Piteu, visitar a Ática terra,
E ver e assistir aos venerandos
Mistérios; o viu Fedra, nobre esposa
De seu pai, e então por arte minha
Um furioso amor concebeu n’alma.
E antes de vir aqui, no mais sublime
Do Rochedo de Palas, donde avista
Esta terra Trezênia, um templo a Vênus
Levantou: porque amava amor ausente.
Os vindouros dirão, que ali a deusa,
Pelo amor a Hipólito, foi posta.
Coa morte dos Palântidas, fugindo
Do sangue derramado à triste mancha,
Teseu com a consorte aqui aporta,
Para cumprir seu anual desterro.
Assim a miseranda, suspirando,
E das setas de amor atravessada
Morre em silêncio; o mal ninguém lho sabe.
Mas este amor não me convém que afrouxe:
Mostrá-lo-ei a Teseu, será sabido.
Ao meu duro adversário autor da morte
Será seu mesmo pai; pois que Netuno
Anuiu a Teseu, por dom, três vezes
Todo o voto outorgar, que lhe fizesse.
Sim é ilustre Fedra; porém morre:
Pois o seu mal a mim mais não me importa,
Que de sorte punir meus inimigos,
Que um ponto não se ofusque a minha glória.
Porém lá vejo Hipólito, que volta
Da fadiga da caça; eu me retiro.
Um grande Coro o segue de ministros,
Que celebram Diana, em honra sua
Hinos cantando. Ah triste, que não sabe,
Que as portas lhe estão já de Pluto abertas,
E que esta luz que vê, é derradeira!

HIPÓLITO, e SÉQUITO

HIPÓLITO

Segui-me, segui-me, cantando
Ártemis Celestial, prole de Jove,
Ártemis, de quem somos
Solícito cuidado.

SÉQUITO, ou COMPANHEIROS DE HIPÓLITO

Santa, santa, augustíssima,
Filha de Júpiter,
Salve, ó donzela, salve,
Ó Ártemis, de Jove
E de Latona prole.
Salve, ó formosíssima
Dentre todas as virgens,
Que pelo Céu imenso
Habitais o magnífico
Átrio da áurea casa
De vosso ínclito pai.
Salve, ó formosíssima
Dentre todas as virgens
Do Céu, Ártemis bela.

HIPÓLITO

Eu te ofereço, ó deusa, esta coroa,
Que num prado teci intacto e puro:
Nunca a ele pastor levou rebanho;
Nunca ferro o cortou, é ilibado.
Só as abelhas tocam suas flores
No sol da Primavera: e o Pejo o rega
Com águas doces, mansas, cristalinas.
Todo o que sem estudo, por instinto
Seguiu a castidade, este só, pode
Colher tais flores; o que os maus não podem.
Senhora amável, teus cabelos áureos
Tomem esta prisão de uma mão pia.
Só eu entre os mortais tenho esta honra:
Contigo vivo, e só contigo falo,
Ouvindo tua voz, mas não te vendo.
Assim a vida urdi; assim a acabe.

CRIADO do SÉQUITO DE HIPÓLITO

CRIADO

Soberano, (sim deuses chamar devo
Meus naturais senhores) porventura
Aceitarás de mim um são conselho?

HIPÓLITO

Por certo: e doutro modo eu fora um néscio.

CRIADO

Sabes a lei, que a nós mortais é posta?

HIPÓLITO

Não sei: nem bem entendo tal pergunta.

CRIADO

Não ser altivo: e amar o que é amável.

HIPÓLITO

Bem: soberbo mortal certo que é ódio.

CRIADO

E nos afáveis há não vulgar graça?

HIPÓLITO

Mui grande: e lucro com trabalho leve.

CRIADO

E entre os deuses será isto assim mesmo?

HIPÓLITO

Sim: se nós outros suas leis usamos.

CRIADO

Pois como a augusta deusa tu não honras?

HIPÓLITO

Qual? vê não erres no que vais dizer-me.

CRIADO

Esta, que tens às tuas portas, Vênus.

HIPÓLITO

Saúdo-a de longe, que eu sou casto.

CRIADO

Ela é augusta e célebre entre os homens.

HIPÓLITO

Uns, uns deuses veneram, outros, outros,
Bem como os homens.

CRIADO

Ah! quão feliz foras,
Se a prudência tivesses, que devias.

HIPÓLITO

Deus não me agrada, que hei-de honrar em trevas.

CRIADO

Os deuses, filho, devem ser honrados.

HIPÓLITO

Ide-vos, companheiros, e deixando
Essa capela, ponde bom cuidado
Na nossa refeição; que é agradável
Depois da caça uma abundante mesa.
Pensar também se devem os cavalos,
Para os meter no carro do exercício,
E quanto cumpre, trabalhar no campo
Depois de saciado: e à tua Vênus
Digo, que feliz seja muito embora.

CRIADO

Nós não imitaremos gente moça.
Quanto a servos convém, mais moderados,
Tua estátua adoramos, Régia Vênus.
Tu deves perdoar, se o fogo ardente
Da mocidade, e entranhas insensíveis
Proferem coisas vãs. Ah! não o ouças,
Que os deuses são mais sábios que os homens.

Entrada do CORO composto de mulheres trezênias

Diz-se, que uma alta rocha,
Alta e a pique talhada,
Goteja orvalho límpido,
Que clara fonte forma,
Onde enchem grandes urnas.

Lá uma amiga minha
Nas suas águas lava
Vestidos de escarlata:
E depois os enxuga
Ao abrigo da rocha.

Dela é que ouvi primeiro,
Que a Senhora, oprimida
De triste mal, no leito
Jaz, sem sair de casa.
E que o formoso rosto
Com véu ligeiro esconde.
Este é terceiro dia,
Depois que não admite
Em sua rósea boca
Os gratos dons de Ceres.
Mas com tristeza oculta
Obstinada caminha
A termo desgraçado.

Furor te ocupa, ó bela,
Mas donde o furor veio?
Vem de Pan, ou vem de Hécate?
Virá dos Coribantes,
Ou da deusa montívaga?
Virá da caçadora
Ditina, se faltaste
Por descuido a ofertar-lhe
Usados sacrifícios?
A deusa tudo observa;
A terra corre, os lagos,
E no irado mar voa
Sobre as asas dos Ventos.

Ou teu ilustre esposo,
Que em Atenas impera,
Alguém ofende, a furto
Em teu tálamo entrando?
Ou de Creta viria
A este amigo porto
Nova triste e funesta,
Que afligisse a rainha,
E de angústia oprimida
Sua sensível alma,
Se vê ao leito presa?

É mui vulgar no sexo
Feminil, por natura
Melindroso e insofrido,
Habitar triste angústia,
Ou por dores do parto,
Ou por loucura: um tempo
Soprou já em meu peito
Este ar terrível; a Ártemis,
Que empolga as áureas setas,
E os partos faz felizes,
Clamei: e em meu socorro,
Porque muito a venero,
Veio cos outros deuses.

Mas eu vejo esta dona conduzindo
Fora das portas Fedra! Quanto cresce
Espessa nuvem em seus lindos olhos!
Que é isto? por sabê-lo a alma suspira,
Qual seja a causa de tão triste efeito
No descorado corpo da rainha.

AIA

Ó males dos mortais! duras doenças!
Que te devo fazer? e que não devo?
Aqui tens esta luz brilhante e pura.
Fora da casa está teu brando leito.
Vir aqui quantas vezes me pediste
Cedo pedes voltar para o teu quarto;
Em nada és firme, nada te contenta,
Não te agrada o presente: só concebes
Do que não tens, idéias lisonjeiras.
Melhor é ser doente, que-assisti-lo.
Doença é um mal só, mas curar dela
Une à aflição do espírito a fadiga
Que sente o corpo.
Dolorosa é a vida dos humanos,
E descanso não têm em seus trabalhos;
Mas trevas que nos cercam, nos encobrem
Outra vida mais doce: loucamente
Amamos esta luz, que a terra doira,
Porque outra mais formosa não provámos,
Porque ignoramos o que encobre a terra,
Prestando fé a fábulas sonhadas.

FEDRA

Amigas, levantai este meu corpo,
Segurai-me a cabeça: os membros todos
Sinto desfalecer: fiéis criadas,
Sustentai minhas mãos e braços lânguidos.
É-me pesado o ornato da cabeça;
Tira, solta o trançado: ai de mim triste!

AIA

Ânimo, filha. Vê que não te movas
Com tamanha soltura, que é nocivo.
Sossego, e ânimo forte levar podem
O mal mais facilmente.
É força que os mortais tenham trabalhos.

FEDRA

Oh se eu bebesse numa clara fonte
Água pura! se entre álamos frondosos,
Ou reclinada sobre um verde prado,
Algum descanso e refrigério achasse!

AIA

Que é isto, filha? em público
Tais palavras não soltes, que te acusam
De teu siso e razão teres perdido.

FEDRA

Levem-me ao monte: eu vou a espesso bosque,
Onde fortes sabujos atassalham
As mais robustas feras, e se lançam
Sobre os malhados e veloces gamos.
A cães, ó deuses, eu gritar quisera;
E o arco da Tessália
Avizinhando a meus loiros cabelos,
As setas despedir;
E em minha mão tomar o agudo ferro.

AIA

Filha, como te lembras de tais coisas?
A caça que te importa?
Água desejas de uma clara fonte?
Aqui bem perto a tens junto das torres,
Onde podes saciar a ardente sede.

FEDRA

Ártemis, que presides
À sagrada Alagoa, oh se eu me visse
Nos teus campos, domando
Os Hénetos indômitos cavalos!

AIA

Não queiras proferir tais desacertos.
Antes ao monte, à caça ir desejavas;
Agora em seca areia
Pretendes adestrar potros fogosos!
Oh quem pudesse, ó filha,
Saber qual deus te agita,
E perturba teu claro entendimento!

FEDRA

Desgraçada de mim! que fiz? aonde
Fugiu minha razão?
Em furor eu caí! isto é castigo
De alguma divindade.
Ai, ai, ai, infelice!
Aia, cobre outra vez minha cabeça.
Oh quanto me envergonho do que disse!
Cobre, sim, que meus olhos brotam lágrimas,
E corridos de pejo da luz fogem.
Recobrar a razão aflige a alma:
Sofrer furor é mal: por melhor julgo
Morrer sem conhecê-lo.

AIA

Eu te cubro: mas quando este meu corpo
A morte cobrirá?
Muitas coisas ensina a longa vida.
Muito convinha, que os mortais travassem
Entre si amizades moderadas,
Que não entrassem no íntimo da alma:
E que a prisão, que os corações enlaça,
Fosse fácil, querendo desatá-la,
Ou apertá-la mais.
Mas uma alma por duas cruéis dores
Sofrer, é peso grave: eis o que eu sofro,
Por amor desta. É visto, que da vida
O supérfluo cuidado maior dano
Lhe causa, e a não consola; e da saúde
É mortal inimigo: assim não louvo
Excesso e demasia em coisa alguma,
E comigo o dirão todos os sábios.

ATO II

CORO

Dona antiga, de Fedra fiel aia,
Vemos o triste estado da rainha;
E qual seja a doença não sabendo,
De ti estimaríamos ouvi-lo.

AIA

Não sei, bem que o procuro. Ela a oculta.

CORO

Nem qual seja a origem da moléstia?

AIA

Tornas ao mesmo: ela tudo cala.

CORO

Quanto tem fraco o corpo, e macilento!

AIA

Como não, se há três dias que não come?

CORO

É ira de algum deus? ou morrer tenta?

AIA

Tenta morrer, e alimento não admite.

CORO

Que o marido concorde, é maravilha.

AIA

Esconde o mal, e diz que nada sente.

CORO

Pois não o vê no pálido do rosto?

AIA

Não; porque está agora daqui longe.

CORO

Pois como a não obrigas? e não tentas
Saber dela este mal, e este delírio?

AIA

Tudo tenho tentado, mas sem fruto,
Mas não desistirei deste cuidado;
E tu mesma verás aqui presente,
Quanto amo meus Senhores infelices.
Amada filha, das razões passadas
Ambas nos esqueçamos: Mostra agrado,
Teus carregados olhos serenando,
E outro conselho toma. Se até agora
Não disse bem, eu mudo, e vou expor-te
Outras razões mais meigas. Se padeces
Algum mal, que a varões deva ocultar-se,
Podem estas amigas dar-te auxílio.
E se ele aos homens pode descobrir-se,
Dize-o, para que os médicos o saibam.
Vamos: tu calas? não devias, filha;
Mas refutar-me, se é, que bem não digo,
Ou ceder a razões bem ponderadas.
Fala; teus olhos põe nesta infelice.
Nós, amigas, debalde trabalhamos:
Estamos no princípio: não se abranda
Com as razões passadas, nem presentes.
Pois sabe todavia (se mais firme
Estás, que o bravo mar) que se morreres,
Teus filhos perderás. Sim, eu to juro
Pela rainha eqüestre, a Amazona,
Que a teus filhos gerou irmão bastardo;
Deles será senhor: tem alto espírito.
Tu conheces. Hipólito.

FEDRA

Ai, ai, triste!

AIA

Quê! pungiu-te o que disse?

FEDRA

Sim, mataste-me,
Por quantos deuses há, Aia, te peço
Que outra vez me não fales em tal homem.

AIA

Ah que já viste enfim; já acordaste
De teu furor, e ainda assim não queres
Os teus filhos salvar, e a tua vida!

FEDRA

Meus filhos amo: outra é a tempestade
De que sou combatida.

AIA

Tens tu puras,
Ó filha, tuas mãos de sangue humano?

FEDRA

As mãos são puras, a alma é que tem mancha.

AIA

Má vontade será contra inimigo,
Que te ofendesse?

FEDRA

Mata-me um amigo,
Que matar-me não quer, nem eu o quero.

AIA

Deu-te acaso Teseu algum desgosto?

FEDRA

Não, assim eu nunca jamais o ofenda.

AIA

Então que grave mal morrer te obriga?

FEDRA

Deixa que eu erre, contra ti não erro.

AIA

Não por minha vontade; mas contigo
O erro ficará.

FEDRA

Aia que fazes?
Queres violentar-me, nem te soltas
Jamais de minhas mãos?

AIA

De teus joelhos
Não cuides que me aparte.

FEDRA

Ó desgraçada!
Mal por ti fora, se meu mal ouvisses.

AIA

Pode vir-me mor mal do que perder-te?

FEDRA

Olha que morres, e eu consigo glória.

AIA

Pois como o bem ocultas, que eu te peço?

FEDRA

Mas deste bem não sei que mal maquino.

AIA

Pois mais me obrigarás, se mo disseres.

FEDRA

Vai-te, te rogo, e a minha destra solta.

AIA

Não, se este dom devido não me outorgas.

FEDRA

Concedo-o, e as tuas súplicas respeito.

AIA

Pois eu me calo, e a ti falar já cumpre.

FEDRA

Infeliz mãe, que infando amor amaste!

AIA

Que ao Touro teve, filha: ou que é que dizes?

FEDRA

E tu, mísera irmã, de Baco esposa.

AIA

Que fazes, filha? vê, que os teus maldizes.

FEDRA

E eu terceira infeliz, como me perco!

AIA

Tremor me ocupa! Que linguagem é esta?

FEDRA

E somos não de agora desgraçadas.

AIA

Mas nem por isso te ouço o que eu pretendo.

FEDRA

Oh! se o que eu dizer devo, tu dissesses!

AIA

Profetisa não sou, que o oculto veja.

FEDRA

Que é o que dizem ser, amar os homens?

AIA

Gostoso, filha, e juntamente acerbo.

FEDRA

Um só desses efeitos em mim sinto.

AIA

Que dizes, filha? amas algum homem?

FEDRA

Pois quem é este filho da Amazona?

AIA

Hipólito me dizes?

FEDRA

Tu o disseste.
De mim o não ouviste.

AIA

Ah! que proferes?
Tu perdeste-me, filha. Companheiras,
Os males, que ouço, são incomportáveis:
Eu viva tal não sofro: eu aborreço
Este dia, esta luz, que me atormentam.
Lançarei, deixarei este meu corpo,
E desta vida sairei, morrendo.
Ficai embora, amigas, já não vivo.
Os sábios vêem o mal, e vendo-o, o amam
Contra seu grado. Oh! Vênus não é deusa,
Coisa é maior, se a há: pois ela perde
A esta, a mim, e a uma ilustre casa.

CORO

Ouviste, ouviste, infandos,
E míseros afetos
Publicar a rainha?
Ó quem já não vivesse
Antes de ter caído
Tua amiga em furor!
Ah triste, sofres dor intolerável!
Ó trabalhos cruéis, que os homens cevam!
Mataste-te, teus males publicando.
Cada dia te espera um dia triste.
Algum novo desastre
Virá a esta casa.
Eu claro o vejo, porque irada Vênus
Te perde, ó infeliz filha de Creta.

FEDRA

Mulheres de Trezene, que o vestíbulo
Habitais da Pelópia ilustre terra,
Já muitas vezes pelas longas noites
Me pus a discorrer, quão estragada
Dos míseros mortais vemos a vida.
E por fim assentei não vir de vício
Da natural razão, que tantas vezes
O pior abraçamos: porque muitos
Têm senso, mas sucede deste modo.
Entendemos o bem, e o conhecemos:
Mas não o executamos, uns por frouxos;
Outros, porque ao honesto preferimos
Outro prazer diverso, pois são muitos
Os prazeres da vida; nestes conto
O nímio conversar sem tento e fruto;
E o ócio, doce mal: e até o pejo.
Porque dois pejos há: por bom um tenho,
Mas o outro é ruína das famílias.
Se os tempos discerníssemos, por certo
Não foram dois, pois têm as mesmas letras.
Pensando deste modo, não cuidava
Que algum veneno corromper pudesse
Minha alma, que abalasse sua firmeza.
Assim eu vou expor-vos meus desígnios.
Como amor me feriu, cuidei primeiro
Em suportá-lo por um modo honesto,
E calar e esconder minha fraqueza.
A língua é infiel: males dos outros,
E erros alheios consolar bem pode;
Mas a si mesma grandes danos causa.
Depois busquei vencer esta loucura
Com reflexões e pensamentos castos.
Mas enfim vendo não me ser possível
Vencer Vênus; por último partido
Determinei morrer: louvarão todos
Minha resolução. O Céu não queira,
Que minhas ações feias, ou formosas
Deixem de ser sabidas. Eu bem via
A torpeza do mal, e sua infâmia.
E mulher sendo, claro conhecia
De que ódio é digno! Oh desgraçada seja
Por mil modos aquela, que primeiro
Seu tálamo afrontou, trazendo a ele
Homem estranho; e nas ilustres casas
Abriu tão torpe e vergonhoso exemplo!
Sim, que quando a torpeza agrada aos nobres,
Os humildes a têm por honra e glória.
Eu aborreço as castas em palavras,
E que se atrevem no oculto a ações indignas.
Estas tais, ó senhora excelsa Vênus,
Podem em face ver a seus esposos?
Não têm horror às trevas suas cúmplices,
Nem que o teto da casa lance vozes?
Amigas, esta causa é que me mata,
Não ser vista afrontar o meu esposo,
E os filhos, que gerei: para que possam
De seus anos na flor viver sem pejo
Na ínclita Atenas, filhos de mãe ínclita.
Acanha os homens, inda os mais ousados
O saber de seu pai, ou mãe opróbrios.
Nada, dizem, que mais conforta a vida,
Que ter desejos, e obras generosas.
O tempo, qual o espelho da donzela
Os torpes mostra, ou agora, ou logo.
Entre estes, oxalá, não seja eu vista.

CORO

Em toda a parte as castas são louvadas,
E entre os mortais conseguem clara fama.

AIA

Senhora, há pouco o teu padecimento,
Por me achar de repente, terror grande
Me causou, mas pensando agora, vejo
Que não tive razão: e nos conselhos
Dos mortais, os segundos são mais sábios.
Porque nada de estranho, ou de inaudito,
Nada exp’rimentas à razão contrário.
És assaltada da ira de uma deusa?
Amas? que maravilha? muitos amam.
E porque amas, perder queres a vida?
Então amar não devem, os que ora amam,
Nem os que hão-de amar, se a morte é certa.
Ninguém suporta Vênus, se acomete
Com todo seu poder: suavemente
Se introduz em quem cede; mas se encontra
Algum soberbo e altivo, tu bem sabes,
Como o derriba, e duramente trata.
Ela voa no ar, nas procelosas
Ondas habita, tudo dela nasce,
Ela este amor nos dá, ela o infunde,
Do qual todos na terra somos filhos.
Os que lêem os escritos dos antigos,
E a quem as Musas são familiares,
Bem sabem, que de Jove foi amada
Sémele; sabem, que a formosa Aurora
A Céfalo roubou; e que entre os deuses
Obrigada do amor, foi colocá-lo.
Lá habitam no Céu, e não se correm
Dentre os deuses estar: os quais os sofrem
Talvez de igual paixão também vencidos.
E tu não cedes? Ah teu pai devia
Para outras leis gerar-te, ou no governo
De outros deuses; pois que estas não aprovas.
E quantos cuidas tu muito sensatos,
Que vêem seu leito ir mal, e o dissimulam?
E a quantos pais, que erraram com as filhas,
Vênus os ajudou, porque é prudência
Nos mortais encobrir o que é desaire.
Vida não nos convém muito severa.
Nem os tetos, que cobrem nossas casas,
Se obram em perfeição: se estás caída
Em desventura tal, qual me confessas,
Como pretendes dela levantar-te?
Se tu, humana sendo, mais bens logras
Do que são os teus males, és ditosa.
Porém amada filha, ouve-me, cessa
Do louco intento de tua alma aflita.
Não continues a ofender a deusa,
Porque é injúria clara o pretenderes
Poder mais do que as grandes divindades.
Suporta teu amor; quis dar-to a deusa.
Se mal padeces, teu mal bem termina;
Há encantos, há mágicas palavras,
Que o podem suavizar: algum remédio
Poderemos achar: pois tarde os homens
O que nós não pudermos, achariam.

CORO

Fedra, o que esta te diz, é o mais útil
Ao teu presente mal; mas eu te louvo,
Bem que este meu louvor menos te agrade
Do que as suas razões, e mais te aflija.

FEDRA

Eis o que já perdeu nobres cidades,
E famílias, discursos concertados:
Mas dizer não devemos o que agrada,
Mas sim o que nos ganha honra e fama.

AIA

Por que dizes magníficas palavras?
Delas não hás mister, hás mister homem.
Alguém buscar se deve sem demora,
Que com destreza o tente a teu respeito:
Porque se eu te não visse em tal desgraça,
Ou tu tua paixão conter pudesses;
Só por servir teu gosto, não te dera
Conselho tal: agora é a grande luta
Salvar-te a vida, o que é mui desculpável.

FEDRA

Horrendas coisas ouço! Ah põe já termo
Às que dizes, torpíssimas palavras.

AIA

Torpes sim, mas melhores, que as honestas
São elas para ti: pois se salvares
Tua vida, farás coisa mais útil,
Que o nome vão de glória, em te matares.

FEDRA

Oh pelos deuses, Aia (já que dizes
Com tanta persuasão tantas torpezas)
Não vás mais adiante, não me afirmes
Que fiz bem, sujeitando a amor minha alma.
Se com razões formosas me conduzes
Ao mal, que eu fujo, morrerei decerto.

AIA

Se assim pensavas, no erro não caísses.
Porém agora ouvir-me te é forçoso,
E esta segunda graça me concede.
Eu tenho em casa filtros, poderosos
A abrandar amor, e ora me ocorre,
Que sem torpeza, e sem causar loucura,
Eles te curarão; porém tu deves
Não ser covarde: e desse que muito amas,
Algum sinal, ou fala, ou uma parte
Tomar de seus vestidos, que a unir-se,
Numa só se unirão as duas almas.

FEDRA

E é unção, ou bebida esse remédio?

AIA

Não o sei: minha filha, tu pretende
Não tais coisas saber; mas teu alívio.

FEDRA

Temo, que sejas sábia em demasia.

AIA

És em tudo medrosa; e que é que temes?

FEDRA

Ao filho de Teseu nada me digas.

AIA

Tudo por minha conta deixa, ó filha.
Tudo se fará bem, se tu auxílio
Me dás, Filha do Mar, excelsa Vênus.
O mais que intento, basta que eu o trate
Cos meus amigos, que lá se acham dentro.

CORO

Amor, amor, que instilas
Pelos olhos no peito teus afetos,
Doce, e brando prazer introduzindo
N’alma dos que combates,
Não me venhas com dano,
Nem forte e em demasia;
Pois os tiros do fogo,
E do raio não fazem
Mais funestos estragos,
Que as despontadas setas
De amor, que da mão vibra
Eros, de Jove filho.
Debalde a Grécia
Ao pé do Alfeu, ou na ara
Do loiro Apoio Pítio
Vítimas acumula;
Se não honramos
A Amor, dos homens
Senhor altivo,
Filho da deusa
Do mar nascida,
Que tem a chave
Dos doces tálamos,
Mas que devasta
Com triste ruína
Os que acomete.
A moça Ecália
Que himeneu dantes
Não conhecia,
Sem ter marido,
Sem ter esposo,
Ligeira em curso
Ninfa bacante,
Por sangue e fumo,
Núpcias funestas,
De Alcmena ao Filho
Uniu Ciprina.
Ó infelice
Por himeneu tão triste e desgraçado!
Sacros muros de Tebas,
E tu de Dirce ó fonte,
Confirmai, que o podeis,
Como Vênus assalta.
Com raio aceso
A mãe de Baco,
De Jove filho,
Em sorte triste
Fez acabar.
Ela é temível,
A todos acomete;
E qual abelha às flores,
Faz vôo aos corações.

ATO III

FEDRA

Silêncio, amigas: eu sou já perdida.

CORO

Pois que mal acontece em tua casa?

FEDRA

Silêncio: quero ouvir que dizem dentro.

CORO

Calada estou: mas triste é teu proêmio.

FEDRA

Ai, ai, ai, infeliz, desventurada!
Ai, que meus males são incomportáveis!

CORO

Que grito, que terrível
Lamento de ti ouço?
Dize-nos, que receias?
Que rumor, que notícia
Assim pode abalar tua triste alma?

FEDRA

Estou perdida! chega àquela porta,
E o rumor ouve, que lá dentro soa.

CORO

Tu te avizinha,
Porque a ti toca
Saber o que lá passa:
Tu nos informa
Desse mal novo.

FEDRA

Da guerreira Amazona o filho grita,
Grita Hipólito, e diz à minha Aia
Coisas horrendas, que tremer me fazem.

CORO

Eu os sons ouço,
Mas não distingo
Que diz a voz.
Vem pela porta,
E à porta estás.

FEDRA

Dizes bem, e eu já ouço claramente,
Que ele grita a essa vil conciliadora,
Que de seu bom senhor traiu o leito.

CORO

Oh que terríveis malesl
Filha tu és traída.
Que posso aconselhar-te?
Rasgou-se o véu, e é clara a tua perda.

FEDRA

Ai infeliz!

CORO

E és traída por quem te ama.

FEDRA

Perdeu-me sim; pois publicou meus males.
E pretendeu curar minha loucura
Com amizade néscia e indiscreta.

CORO

E em tal situação que auxílio resta?

FEDRA

Um só sei: o morrer quanto mais cedo.
O só refúgio em males tão penosos.

HIPÓLITO

Ó Terra, comum Mãe! Ó luz brilhante,
Que o Sol estende! Quão nefandas coisas
Ouço da boca desta.

AIA

Filho cala,
Antes que ouvir se possam teus clamores.

HIPÓLITO

Como me calarei, tendo atroados
Com torpezas infames meus ouvidos?

AIA

Por tua bela destra isto te peço.

HIPÓLITO

Desvia a mão; nem toques meus vestidos.

AIA

Por teus joelhos, a que estou prostrada,
Não queiras, que eu pereça sem remédio!

HIPÓLITO

Como hás-de perecer, se como afirmas,
Não disseste algum mal.

CORO

A nossa prática
Não é de publicar a muita gente.

HIPÓLITO

Dizer o bom a muitos, é louvável.

AIA

Filho, teu juramento não desprezes.

HIPÓLITO

Jurou a língua, não jurou a alma.

AIA

Filho, que fazes? teus amigos matas?

HIPÓLITO

Meus amigos os maus? tal abomino.

CORO

Perdoa, filho, os erros são dos homens.

HIPÓLITO

Como puseste, grande Deus, no mundo
Mulheres, mal espúrio e contrafeito?
Se propagar a nós mortais querias,
Não devias fazê-lo por tal sexo.
Melhor era que os homens ofertassem
Bronze em teu templo, ou ferro, ou peso d’ouro;
E assim comprassem filhos, dando o preço
Digno de cada um: e em suas casas
Vivessem sós e livres de mulheres.
Para trazer à nossa companhia
Este mal, grossas somas despendemos:
Donde se vê, que o dano não é leve.
O pai, que as gera e educa com cuidado,
Para lançar de si este mal grave,
Grande dote acumula: e o que recebe
Este duro infortúnio dentro em casa,
Alegra-se, e orna a infeliz estátua
Com atavios mil, jóias, vestidos.
E assim suas riquezas desperdiça.
A isso é obrigado, que enlaçar-se
Foi a ilustres afins, e o acerbo peso
É força suportar de tal liança:
E se alguém conseguiu útil consorte,
E inúteis sogros, esse bem mitiga
O mal um tanto: mas melhor reputo
A tudo isso fugir, ou que na casa
Por sua estupidez a mulher seja
Uma coluna inútil: mulher sábia
Eu a aborreço: em minha companhia
Mulher não veja, que saber pretenda
Mais que a mulher convém: porquanto às sábias
Malignas artes Vênus lhes infunde,
O que por tais, as néscias não aprendem.
Era também razão, que não entrassem
Criadas nas estâncias das mulheres,
E que por companhia só tivessem
Mudas feras; ninguém a elas ouvisse,
E ninguém lhes falasse: porque as servas
Que têm nos aposentos, gente indigna,
E assaz perversa, ali os maus conselhos
Lhes inspiram, dali os levam fora.
O que tu fazes, péssima! a concerto
Do leito de meu pai, intacto e limpo,
Vindo-me provocar. Tais impurezas
Eu vou lavar em rápida corrente,
Donde lançarei água em meus ouvidos.
Pois como eu cairia em tal maldade,
Se só de ouvi-la me não julgo puro?
Pois sabe, indigna, que quem só te salva
É minha piedade; que a não ver-me
Ligado por surpresa a um juramento.
Força era, que a meu pai tudo dissesse.
Porém agora, que ele está ausente,
Eu me retiro, e guardarei segredo.
Quando voltar em sua companhia,
Verei com que valor nele olhos pondes
Tu e tua senhora; e assim presente
Me hei-de certificar da vossa audácia.
Pereçais todas, quantas sois, mulheres!
Jamais me saciarei de aborrecer-vos.
Inda que estranhe alguém dizê-lo eu sempre,
Pois que elas sempre, sempre são perversas.
E se alguém me mostrar que elas são castas,
Eu também cessarei de maldizê-las.

CORO

Mísero e infeliz é o destino
Do feminino sexo!
Que arte ou que conselho,
Tendo primeiro errado,
Poderemos achar, que nos desate
O nó desta desgraça?

FEDRA

Punida sou, ó Terra, ó Luz brilhante,
Aonde esquivarei tão triste sorte?
Ou como esconderei meu mal, ó amigas?
Que deus poderá vir em meu socorro,
Que mortal poderá já defender-me,
Para cúmplices serem de meus crimes?
E este mal, que ora sofro,
É da vida o mais duro e sem remédio.
Sou a mais desgraçada das mulheres.

CORO

Ah! que tudo é perdido! e da tua Aia
As artes, ó Princesa, não puderam
Conseguir um bom fim: desdita é grande.

FEDRA

Ó ímpia! ó perdição de teus amigos,
Como assim me trataste? o grande Júpiter,
Que é de meu sangue autor, ele te perca,
E a cinzas te reduza com seu raio.
Não to disse? eu não tinha prevenidos
Teus intentos? não disse, que calasses
Os males, que ora tanto me atormentam?
Não pudeste conter-te, e já não morro
Com bom nome: hei mister novos conselhos.
Porque ele, trespassada d’ira a alma,
A seu pai contra mim dirá teus erros.
A Piteu os dirá, velho sisudo;
Toda a terra encherá de minha infâmia!
Pereças tu, e todo o que pretende
Benfazer aos amigos, que o não querem;
E por um modo tão indigno e feio!

AIA

Senhora, justamente argüir-me podes
Meu pecado, pois dor, que ora te punge,
Tua clara razão afoga e vence.
Mas tenho que repor, se tu o admites.
Eu criei-te, eu amiga te fui sempre,
E buscando a teu mal algum conforto,
Com aquele fui dar, que eu não quisera.
Se sucedesse bem, era uma sábia;
Pois pelos fins julgamos os conselhos.

FEDRA

É justo porventura, ou satisfaz-me,
Que tendo-me tu morto, ainda disputes?

AIA

Pois nada digo mais, sim fui incauta,
Mas ainda me resta algum caminho
De te salvar a vida, ó filha amada.

FEDRA

Oh não me digas mais, tu, que até’gora
O mal me aconselhaste, e o empreendeste.
Vai-te longe daqui, só de ti cura,
Que as minhas coisas eu porei em salvo.
E vós, ó de Trezene nobres filhas,
Concedei-me a mercê, que ora vos peço.
Guardai segredo do que aqui ouvistes.

CORO

Pela casta Diana, ilustre prole
De Jove, eu juro, tuas más venturas
De jamais descobrir à luz do dia.

FEDRA

Bem está: eu comigo revolvendo
Na mente, algum atalho achar já pude,
Com que sair deste apertado lance;
De sorte que a meus filhos deixe glória,
E eu da presente infâmia fique salva.
Porque jamais serei de opróbrio à casa
De Creta, ou de Teseu verei a face
Cheia de pejo, por poupar a vida.

CORO

E intentas algum mal irreparável?

FEDRA

Morrer. E de que modo eu morrer deva,
Comigo mesma tomarei conselho.

CORO

Oh que deliras!

FEDRA

Dá-me bons avisos.
A Vênus, que me perde, darei gosto,
Hoje mesmo soltando-me da vida.
Vencida vou a ser de amor insano,
Mas minha sorte envolverá consigo
Outrem: porque não fique ufano e altivo
Com meu mal: mas parceiro na desgraça,
Aprenda a ser modesto nas alheias.

CORO

Oh! se Deus me pusesse
Nas altas fendas
De excelsa rocha!
Se me vestisse
De leves penas,
Ave volante
Entre rebanho alado!
Dali me levantara
Sobre as marinhas ondas
Do Adriático:
Ou sobre as águas
Do turvo Erídano,
Onde as misérrimas
Suas filhas tristes,
Tristes e aflitas
Por Faetonte,
Na água purpúrea
Destilam lágrimas
De puro electro.

Ou se eu voasse à praia
De áureos pomos coberta
Das músicas Hespérides,
Onde o reitor dos mares
Aos nautas não concede
Caminho avante, pondo
Termo ao Céu, que sustentam
De Atlante os duros ombros;
Onde fontes de ambrosia
Liquor derramam
Junto da Câmera
Do Sumo Jove:
E onde a Terra,
Madre divina
Dos almos frutos,
Os deuses todos
Com dons regala.
Ó tu, Nau Crética
De brancas asas,
Que por frementes
Salsas marinas ondas
D’albergue ilustre
Aqui trouxeste
Minha rainha;
Míseras núpcias
Conciliaste!
Porque ou nos venha
A causa triste
Deste mal grande
Dos dois países;
Certo de Creta
Ave infelice
Aqui voaste
À nobre Atenas.
E em mau agouro
À praia do Muníquio
Cordas ataste,
E os passageiros
De ti à terra míseros saíram.
Por isso Fedra na alma
Se viu por Vênus
Ferida, a setas
De impuro amor.
E não podendo
Sofrer o mal,
Ao alto teto
Do mesmo tálamo
Lançará laço,
A que acomode
Seu alvo colo.
Temendo a deusa,
Porque é terrível.
E antes amando
Nome glorioso,
Sua alma solte
Do acerbo amor.

ATO IV

NÚNCIO

Oh! todos acudi os que estais perto.
Num laço está a nossa soberana,
De Teseu a consorte.

CORO

É posto em obra,
O que tanto temi. A régia esposa
Está pendente de alto e estreito laço.

NÚNCIO

Por que tardais? Alguém agudo ferro
Traga para cortar-lhe o nó do colo.

CORO

Que faremos, amigas? Porventura
Entraremos lá dentro, e a rainha
Do apertado laço soltaremos?

SEMI-CORO

Por que não vão criados vigorosos?
Tomar muitos cuidados é na vida
Arriscado.

CRIADA

Componde o corpo exangue,
Endireitai seus membros: triste guarda,
Que à casa resta, ausentes seus senhores.

CORO

Quanto ouço, enfim a infeliz é morta,
Pois já estão compondo o seu cadáver.

TESEU

Sabeis, Trezênias, que clamor é este?
Ouço triste lamento das criadas;
E voltando eu do Oráculo c’roado,
Ninguém a minha porta vem abrir-me,
E da vinda gostoso saudar-me.
Traria acaso alguma novidade
A velhice a Piteu? certo que é longa
Sua vida, mas muito me afligira,
Se esta casa o perdesse.

CORO

Não são velhos,
A quem se dirigiu esta desgraça:
Gente moça morreu para afligir-te.

TESEU

Pois a meus filhos é roubada a vida?

CORO

Vivem, mas morta a mãe, por modo triste.

TESEU

Que me dizes? é morta a minha esposa?
Por que infortúnio?

CORO

Um laço a si lançando,
Que suspensa a afogou.

TESEU

E de tristeza,
Ou de algum outro mal a isso impelida?

CORO

Isto o que só sabemos; porque há pouco
Aqui cheguei, Teseu, pranteadora
A ser de teus acerbos duros males.

TESEU

Por que conservo ainda esta coroa
De entretecidas folhas, do Oráculo
Consultor desgraçado? Abri-me, servos,
Abri-me as portas para ver o corpo
Dessa infeliz, que me matou morrendo.

CORO

Mísera! que sofrendo males dignos
Da maior compaixão, só conseguiste
Consternar toda a casa. Ó grande arrojo!
Violentamente morres, ímpia luta
De tuas tristes mãos! Que causa apaga
A luz de tua vida miseranda?

TESEU

Triste de mim por perdas tão acerbas!
Ó esposa infeliz! não pode vir-me
Mal maior! ó Fortuna, quão pesada
Vieste sobre mim, e minha casa!
De alguma Fúria veio esta indizível
Mágoa, que assim me oprime; e tão penosa
Vida, vida não é: sou submergido
Em um imenso pélago de males,
De que surdir, ou escapar não posso,
Nem as ondas vencer de tanta angústia.
Abri a porta enfim, vejam meus olhos
O mais triste espetáculo; mas como
Poderão exprimir minhas palavras
O destino cruel, o duro fado,
Que a mim te rouba, esposa desgraçada?
Desapareces súbito, bem como
Leve avezinha, que das mãos se solta;
E para meu eterno desconsolo
Um salto dás nas sombras do Aqueronte.
Ó tristíssima dor! Talvez de longe
Reservado me estava este mal grande
Por culpa dos passados,
Que os deuses ofendessem.

CORO

Príncipe, não és tu o só, que sofres
Este infortúnio; mas com muitos outros
Uma esposa perdeste ilustre e digna.

TESEU

Quero ir sob terra: sim: habitar quero
A espessa escuridão. O infeliz morra,
Que privas de tua amável companhia.
Matas-me inda mais, que te mataste.
Mas de quem ouvirei o caso triste,
Por que teu coração, ó cara esposa,
Com angústia mortal foi trespassado?
Dir-me-ão o sucedido, ou é debalde,
Que multidão inútil de criados
Este palácio em si encerra e pasce?

Vê o cadáver

Oh mesquinho de mim por tua causa
Que dor acerba vejo,
Que nem sofrer-se pode, nem contar-se?
Vejo erma a casa, em orfandade os filhos.

CORO

Deixaste-nos, deixaste-nos,
Senhora amável,
Melhor de quantas
Com seus raios ilustra o Sol, e a Lua,
Claro facho da noite.
Desditoso, infeliz, um mal gravíssimo
À tua casa veio.
Meus olhos soltam-se
Em tristes lágrimas
Por tua dor.
Mas outra dor sobre esta há muito temo.

TESEU

Espera, espera: e que escrito é este
Que está pendente dessa mão amada?
Dirá nele a infeliz, que novo leito
Não tome, e nossos filhos me encomenda?
Sossega, triste: de Teseu ao leito,
Nem à casa há-de vir outra senhora.
Mas o sinal impresso pelo rico
Anel, que ornou a mão, que já não vive,
Com atrativo doce a si me chama.
Pois rompa-se a prisão, que o selo forma,
E verei que de mim pretende o escrito.

CORO

Ai de mim! ai de mim! que este mal novo
Algum contrário Deus nos acumula
Sobre o passado, vida triste e mísera
Me resta: porque eu vejo já perdida
A casa de meus reis e aniquilada.
Ó divindade adversa, se é possível,
De todo a não aterres, a ira abranda:
As minhas preces ouve; que eu auguro,
Eu vejo, como Vate, nova perda.

TESEU

Oh que mal grande a outro mal acresce
Nem suportar-se pode, nem dizer-se.
Ó desgraçado, quanta angústia sofro!

CORO

Pois que há de novo? dize, se é que podes
Comunicar-mo.

TESEU

Este escrito grita,
Grita coisas infandas. Onde posso
Fugir ao peso de tão duros males?
Oh como leio claro neste escrito
De minha desventura o triste cântico!

CORO

Ai! que tuas palavras um proêmio
De males são.

TESEU

Não pode minha língua
Conter um mal, a que não sei saída,
Um mal destruidor da vida cara.
Ó cidade, ó cidade!
Ouve. Hipólito ousou manchar meu leito,
De força usando; nem respeito teve
Ao olho vingador do grande Jove.
Mas tu, meu Pai Netuno, que três votos
Prometeste cumprir-me, com um deles
Acaba este meu filho: e hoje mesmo
Pereça, se são firmes tuas promessas.

CORO

Ó rei, muda teu voto, e ao Deus pede,
Que to não cumpra: hás-de arrepender-te,
E conhecer que erraste. Assim o faze.

TESEU

Tal não farei, e até hei-de lançá-lo
Desta terra: e assim será punido
Com um de dois destinos: ou Netuno
Atendendo ao meu voto, ao reino escuro
Exangue o mandará; ou desterrado
Por terra estranha errando, triste vida
E ingrata arrastará até que morra.

CORO

Aí vem o teu filho bem a tempo.
Rei, de teu coração lança essa sanha,
E a ti, e aos teus melhor conselho toma.

HIPÓLITO

Amado pai, ouvindo os teus clamores
Aqui vim logo; mas não sei a causa
Por que te queixas, e quisera ouvi-la
Da tua mesma boca. Mas que vejo?
O cadáver, ó pai, da tua esposa.
Um caso estranho é este: inda há bem pouco
Nesta luz a deixei, e ela a gozava.
Então que mal lhe veio? ou por que modo
Morreu? Meu pai, de ti quisera ouvi-lo.
Senhor, tu calas: de nenhum proveito
O silêncio é nos males; e se ansioso
O coração deseja saber tudo,
Té nas desgraças de as saber é ávido.
Não é justo, meu pai, que assim encubras
A teus amigos, e inda mais que amigos,
Os males que padeces.

TESEU

Ó audácia
Dos mortais, que caís em tantos erros,
Que aos homens ensinais tantas ciências,
Tantas artes achais, tantos inventos,
E uma coisa ignorais inteiramente:
Bom e sábio fazer quem não tem siso.

HIPÓLITO

Meu pai um grande sábio descreveste
(Se ele se pode achar) o qual obrigue
A sábio ser aquele, que é privado
Da razão que há nos homens: e eu que te ouço
Discursos tão subtis fora de tempo,
Temo que tua língua pelos males
Em que te vês, o justo um tanto exceda.

TESEU

Oh que devia haver um sinal claro
Entre os mortais acerca dos amigos,
Que desse a conhecer do íntimo d’alma,
Qual fosse o verdadeiro, e qual o falso.
Demais, deviam ter todos os homens
Duas línguas, justa uma e verdadeira,
Outra qualquer que fosse: e quando a injusta
Algum mal meditasse, a verdadeira
A arguisse, por não sermos enganados.

HIPÓLITO

Levou alguém de casa a teus ouvidos
Calúnias contra mim: o dano eu sinto,
Sem que te tenha errado em coisa alguma.
Certo pasmado estou, e me consternam
Tuas palavras, onde já não vejo
Tua clara razão.

TESEU

A vã soberba
Dos mortais, seu ousado atrevimento,
Té onde chegará? pois se crescendo
Em cada geração a louca audácia
Dos homens, os vindouros forem sempre
Piores que os passados, será força
Que a esta terra os deuses outra ajuntem,
Que recolha os injustos e os perversos.
Senão vede este, que de mim gerado
Meu tálamo afrontou, e claramente
Por esta, que aqui jaz, é convencido.
Depois de cometer tal impureza,
Mostra a face a teu pai, olha-me firme!
E o varão és tu d’alta virtude,
Que com os deuses vive em companhia?
Tu és o casto, e vício não conheces?
Tal não crerei de tuas vãs palavras,
Nem néscias julgarei as divindades.
Jacta-te, e engana embora os outros homens,
De que só de alimento inanimado
Te nutres, e seguindo a Orfeu por mestre,
Vãs ciências cultivas, e sem fruto.
És apanhado em crime manifesto:
E destes tais eu clamarei a todos
Que fujam; pois pretendem com palavras
Formosas granjear estima e fama,
Quando maquinam as ações mais feias.
Porque esta é morta, cuidas que te salvas?
Isso mais te convence, homem malvado!
Porque, que testemunhas, que outras provas
Mais fortes pode haver, do que ela mesma,
De teu crime? Dirás que ódio te tinha,
E que tem natural inimizade
O legítimo sangue co bastardo?
Fraca defesa, se ela por teu ódio
Em tão pouco avaliou o que mais se ama!
Dirás, que esta loucura não se encontra
Nos homens, e é só própria das mulheres?
Mancebos conheço eu inda mais fracos
Que mulheres, se Vênus acomete
E incita a ardente juvenil leveza.
Lá esse dom é de varões maduros.
Mas por que estou a disputar contigo?
Tu vês a testemunha: esse cadáver
Testemunha é claríssima. Portanto
Em má hora daqui vai desterrado,
E mui cedo; mas vai fora de Atenas,
Que a deusa edificou; e dos limites
De que meu cetro tem o regimento.
Se afrontado por ti, te não punisse,
Jamais confessaria o Ístmio Sinis,
Que eu o matei; e alto clamaria,
Que em vão me gloriava: ou os escolhos
Cirônios, que no mar habitam juntos,
Diriam, que pesado eu era aos ímpios.

CORO

Já não sei, como algum mortal eu possa
Chamar feliz, se a mor boa ventura
Em desgraça se torna num momento!

HIPÓLITO

Grande é meu pai, a força de tua alma,
E o dom de persuadir: mas neste caso
Tendo fortes razões, que me defendam,
Não é justo explicá-las: em presença
De néscia multidão sou pouco experto
Em falar: entre iguais da minha idade
Pouco mais posso, e isso mesmo eu prezo;
Pois muitos, que entre os sábios nada valem,
São destros em falar ao vulgo néscio.
Mas como em tal desgraça me é forçoso,
Que alguma coisa diga, começando
Por onde do princípio me atacaste,
Para perder-me, sem me ouvir defesa;
Vês esta terra e luz? Nelas nascido
Até’gora não foi, inda que o negues,
Outro mortal mais casto: eu honro os deuses
Coa piedade, que lhes é devida.
Eu tenho amigos, não os que injustiças
Cometer tentam; mas os que têm pejo
De convidar os outros a ações torpes,
Ou deles ajudar os que as praticam.
Não escarneço, ó pai, os meus amigos;
Sou o mesmo aos de longe, e aos de perto:
E o crime, em que me julgas convencido,
Nada me toca: até este momento
De tálamo meu corpo tenho puro.
Nem tal ação conheço, tenho-a ouvido,
E já pintada a vi, contra meu gosto,
Porque alma virginal inda conservo.
Mas se não crês em minha castidade,
Mostrar deves, quem pôde corromper-me.
É ela a mais formosa entre as mulheres?
Ou herdar teu Estado eu esperava
Coa posse antecipada do teu leito?
Oh que então louco eu fora e sem conselho!
Ou foi talvez porque reinar é doce
Aos que bem o avaliam? De mim longe
Tal ventura, que pode só ser doce
A quem o seu desejo ardente, e cego
Corrompeu a razão: eu só quisera
Ser primeiro em vencer nos jogos gregos,
Na cidade o segundo; e em companhia
De amigos bons gozar de gostos puros.
Assim se vive doce e felizmente;
E o estar desviado de perigos
Causa prazer maior, que ser monarca.
Das defesas, que eu tenho, uma não disse,
As outras tens ouvido. Se eu achasse
Testemunha de tanta probidade,
Qual eu me prezo ser, e contendesse
Com esta quando a luz inda gozava;
Pelos fatos os réus descobririas,
A querê-lo indagar. Portanto eu juro
Por Jove Vingador de ímpios perjúrios,
Que jamais pretendi manchar teu leito,
Ou o quis, ou me veio ao pensamento.
Doutro modo, se nisso eu sou culpado,
Por isso morra infame, e sem cidade,
Sem casa, desterrado, em terra alheia
Vagando, viva uma vida acerba.
E quando morto for, o mar e a terra
Meu corpo não recolham. Se esta a vida
Deixou porque temesse, eu o ignoro;
Nem justo era, a sabê-lo, que o dissesse.
Foi casta, não podendo já ser casta;
Quando eu que posso, amargo fruto colho.

CORO

É bastante essa prova, que tens dado
De que estás inocente, o juramento;
Pois é prova que os deuses afiançam.

TESEU

Este é encantador e impostor grande;
Pois minha ira abrandar com suas juras
Esperou, a seu pai tendo ultrajado.

HIPÓLITO

Pois nisto mesmo, ó pai, muito te admiro;
Porque se o filho tu, eu o pai fosse;
Com morte, e não desterro te punira,
Se tocar minha esposa te atrevesses.

TESEU

Disseste otimamente: mas do modo
De morte, que tu mesmo te impuseste,
Não morrerás: é leve aos desgraçados
Morte pronta: porém da pátria terra
Desterrado, e errante por estranhas,
Vida cruel suportarás; que é este
O justo galardão, que têm os ímpios.

HIPÓLITO

Oh infeliz de mim! Senhor, ao menos
Deves tomar por prova neste caso
O tempo, que é quem tudo manifesta.
Mas expulsar-me assim da casa e pátria!

TESEU

E além dos termos do Oceano, e Atlante,
Se eu pudesse; que tanto te aborreço!

HIPÓLITO

Vê, que sem respeitar meu juramento,
E os deuses, que invoquei, sem ter sabido
Qual seja o parecer dos adivinhos,
Sem ter-me convencido, me desterras.

TESEU

Este escrito, que sortes não corrompem,
Sem réplica te acusa; e essas aves,
Que pelo alto me voam, eu lhes mando,
Que outros busquem, que as creiam muito embora.

HIPÓLITO

Deuses, por que não solto minha língua,
Quando me perdeis vós, a quem venero?
Porém não: porque assim não conseguira
Persuadir quem pretendo, e faltaria
Ao juramento, com que estou ligado.

TESEU

Essa tua fingida piedade
É capaz de matar-me: vai-te embora
Da pátria terra, vai, e a toda a pressa.

HIPÓLITO

Mas onde irei? ou que hóspede em seus lares
Quererá acolher-me, fugitivo,
Por um tal crime?

TESEU

Quem? todos aqueles,
Que gostam de acolher os corruptores
Das esposas alheias, e os malvados.

HIPÓLITO

O coração me fere, e move a lágrimas
Pensar, que por malvado me reputas.

TESEU

Então carpir-te, e ao pranto preparar-te
Devias, ímpio, quando te atreveste
A afrontar de teu pai a própria esposa.

HIPÓLITO

Ó casa paternal, se tu falasses,
Se pudesses depor minha inocência!

TESEU

A mudas testemunhas tu recorres?
Obras, e não palavras te condenam.

HIPÓLITO

Oh se defronte eu estando de mim mesmo,
Me visse; quantas lágrimas chorara
Pelos terríveis males, que padeço!

TESEU

Sim, porque tu estás mais costumado,
A ter contigo mesmo piedade,
Que com teus pais, cumprindo o que lhe deves.

HIPÓLITO

Ó desgraçada mãe, por que me deste
Tão triste nascimento? Por amigo
Não quererei jamais algum bastardo.

TESEU

Não levareis daqui este por força;
Criados, não me ouvis, que há muito tempo
Eu mando, que ele seja exterminado?

HIPÓLITO

Qualquer que me tocar, terá mau grado.
Faze-o tu mesmo, se é que a ira é tanta.

TESEU

Fá-lo-ei, se tu não cumpres meus mandados,
Pois que dó me não causa o teu desterro.

HIPÓLITO

É decretado enfim e sem recurso.
Ó infeliz de mim! eu sei o caso,
Porém modo não sei de declará-lo.
Ó filha de Latona, a mais amável
Entre todas as deusas, companheira
Na morada e na caça, eu me desterro
Da ilustre Atenas. Sim: fique-se embora
A cidade, a Ereteida antiga terra.
Ó campo de Trezene, quanto és apto
Para delícias ser da mocidade!
Fica-te embora, que esta vez é a última,
Que te vejo, e te falo. E vós mancebos
Que aqui morais e sois da minha idade,
Dai-me o último adeus, e acompanhai-me
Aos limites da nossa pátria terra.
Certo, que não vereis outro mais casto,
Ainda que a meu pai tal não pareça.

CORO

Se dentro n’alma penso
No constante cuidado,
Que de nós têm os deuses,
Longe desaparece
A minha triste dor.
Mas conservando
Do peito no íntimo
Este conforto;
Logo desmaio,
Se considero
Nos mortais méritos,
Que mal se ajustam:
Nas aventuras,
Que tanto alternam.
A Sorte troca-se,
A Vida volve-se,
Errante sempre
Por mil desvios.

Estas mercês quisera
Que o Céu me concedesse,
E muito lhas suplico:
Ventura com riqueza,
Ânimo generoso,
Que dores não curvassem,
Costumes, que pudessem
Facilmente amoldar-se
Ao tempo: então vivera
Feliz com muitos outros.

Mas esta esp’rança
N’alma se turva,
E até me foge
Longe dos olhos,
Depois que vejo
Da grega Atenas
O astro mais lúcido,
Ir a extermínio,
Mandando-o a ira
Do próprio pai.
Ó da Trezênia
Soltas areias!
Ó bosque, ó monte,
Onde sabujos
Leves e fortes
Tu conduzias,
E com a deusa
Feras matavas,
Tendo a teu lado
Dictina casta!

Jamais no carro
De poldros Hênetos,
Junto à alagoa
De Limne Sacra,
No curso rápido
Seguro, e destro
Seu veloz ímpeto
Refrearás.
A suave música
Da acorde lira,
Que no palácio
De dia e noite
Sempre soava,
Vai com teu luto
Emudecer.
As estâncias risonhas,
Aonde descansava
Nos bosques, de Latona
A bela virgem filha,
Vejo já sem coroas,
E de alta erva cobertas
Com teu triste desterro.

Perdeu-se a esperança,
Por que tanto ansiavam,
E entre si contendiam
As ilustres donzelas,
De teu claro himeneu.
Por tua sorte acerba,
Ó mãe infelicíssima,
Será também meu fado
Tristes contínuas lágrimas.
Oh que em vão o geraste!
E vós, concordes Graças,
Como assim permitistes,
Ser lançado da pátria
Este infeliz mancebo,
De nenhum crime réu?

ATO V

SEMI-CORO

Mas eu vejo de Hipólito um criado,
Que com pressa se vem encaminhando
Para este paço, e traz semblante triste.

NÚNCIO

Onde acharei Teseu nosso monarca?
Vós, donas, se o sabeis, querei dizer-mo.
Acaso estará dentro no palácio?

SEMI-CORO

Sim, que ele de lá sai agora mesmo.

NÚNCIO

Nova, senhor, te trago muito digna
De dar grande cuidado a ti, e a quantos
São cidadãos de Atenas, e Trezene.

TESEU

Que dizes? porventura alguma nova
Desgraça sobreveio a estas cidades
Vizinhas, que ambas rejo co meu cetro?

NÚNCIO

Hipólito é morto: em breve o disse.
Bem que inda desta luz por pouco goze.

TESEU

E por quem? Assaltou-o alguém, irado
Por lhe ter corrompido com violência,
Como fez a seu pai, a justa esposa?

NÚNCIO

Veio-lhe a morte do seu mesmo carro,
E das imprecações da tua boca,
Com que a teu pai pediste, ao Deus dos Mares
Que quisesse matar teu próprio filho.

TESEU

És meu pai, ó Netuno, és em verdade,
Pois que meus justos votos atendeste.
Mas como pereceu? dize, de Nemesis
Como feriu a espada vingadora
Esse, que indignamente me afrontara?

NÚNCIO

Nós junto à areia, que é do mar lavada,
Os cavalos limpávamos chorando;
Porque ali tinha vindo um mensageiro,
O qual nos disse, que jamais Hipólito
Pisaria esta terra, por ti mesmo
Mandado ir a tristíssimo desterro.
Ele logo chegou também em lágrimas,
E levantou conosco um alto pranto.
Um imenso concurso de mancebos
Da sua mesma idade o acompanhava.
Finalmente cessando nos lamentos,
Disse: Por que me aflijo, ou como hesito?
Há-se de obedecer às ordens pátrias.
Servos, aparelhai os meus cavalos,
E no carro os metei. Esta cidade
Já não é minha. Logo e mais depressa
Do que dizer se possa, apresentámos
A seu senhor o carro pronto e lesto.
Toma as rédeas na mão, os pés firmando
Onde é costume irem os cocheiros.
E abrindo os braços, mãos ao céu alçando,
Disse: Eu não viva, ó Júpiter Supremo,
Se culpa cometi: mas morra, ou goze
Desta brilhante luz, meu pai conheça
A injúria que me faz. Depois pegando
Do açoite, feriu uns após outros
Os cavalos: e nós fiéis criados
Bem junto ao carro e às rédeas o seguimos
Pelo caminho de Argos e Epidauro.
Quando chegámos a um lugar deserto
Bem defronte da praia, que avizinha
Co Sarônico mar, um estampido
Subterrâneo, qual voz de Jove imensa,
Num som se derramou profundo e horrível.
A cabeça e as orelhas levantaram
Os cavalos ao alto; e nós possuídos
Dum incrível temor, sem saber donde
Viesse aquele estrondo, olhos lançámos
Para o mar; dele vinha uma onda altíssima
Topetando co Céu: o alto Cirônio,
O Istmo, e o rochedo de Esculápio
Aos olhos me encobriu; e ressonante
Escuma despedindo, toda em torno,
Com ímpeto furioso à praia veio,
Por onde ia a quadriga, e juntamente
Co som medonho a vaga encapelada
Lançou de si um touro, monstro horrendo,
Monstro espantoso mais, do que pudesse
Sofrê-lo a vista: a seu alto mugido
A terra toda cheia, um eco triste
E lúgubre tornou: então os potros
Cum medo desusado se espantaram.
O príncipe lançou as mãos às rédeas,
E seu corpo firmando, atrás as puxa,
Bem como experto nauta faz ao remo.
Eles mordendo o freio, à solta correm,
Sem que os sustenha a mão de quem os rege,
Forçando as rédeas, e o seguro carro:
E se acaso o piloto dirigir-lhe
A carreira podia a mole campo,
Se lhe punha diante o horrível touro,
E terror novo à tímida quadriga
Lhe infundia, e a voltar a obrigava;
Mas se a rochedos ela furiosa
Se encaminhava, então ele quieto
Após seguia o coche, até que dando
As rodas contra a rocha, sacudido
E derrubado viu o triste dono.
Tudo era estrago: cubos, eixo, rodas
Saltaram, e se quebram num momento.
O infeliz Hipólito envolvido
Nas rédeas, sem poder soltar o laço,
É arrastrado na dura pedra, e nela
Se feriu mortalmente na cabeça,
E se rasgaram suas brandas carnes.
Era lástima, ouvir o que dizia:
Parai, cavalos meus, que em minha casa
Eu criei: não me mateis: ó tristes votos
De meu pai! Quem acode e salva a vida
De um inocente? Muitos o quisemos,
Sem a tempo chegar: porém cortados
Por fim os loros, deles solto cai,
Não sei como: só sei que inda respira.
Os cavalos e aquele fatal touro
Mais se não viram: dentro do rochedo
De todo, não sei onde, se esconderam.
Senhor, eu sou um servo em vossa casa;
Mas jamais quererei persuadir-me,
De que um malvado fosse o vosso filho,
Bem que se enforquem todas as mulheres,
Ou um pinheiro do Ida alguma o encha
Todo de letras: sei sua inocência.

CORO

Vejo cumprida a última desgraça:
Que não se foge a um cruel destino!

TESEU

Por ódio ao homem, que sofreu tal dano,
Gostei de ouvir-te; agora respeitando
A piedade, que se deve aos deuses,
E a esse enfim, que foi de mim gerado,
Não me alegra a desgraça, nem me aflige.

NÚNCIO

Então vê lá senhor, que mais te agrada,
Ou trazermos aqui esse infelice,
Ou se outra coisa queres? Bem o pensa.
A ouvir-me, eu te dera por conselho,
Não ser cruel c’um filho desgraçado.

TESEU

Trazei-o, que ver quero ante meus olhos,
Quem negou o meu leito ter manchado.
Claro lho mostraram minhas palavras,
E os castigos que os deuses lhe infligiram.

CORO

As almas inflexíveis
Dos deuses, e as dos homens
Tu, deusa Cípria, moves,
E contigo teu filho,
Vestido em várias plumas,
E asas velocíssimas.
Ele voa na terra,
E sobre as salsas ondas
Desse fremente mar.
Amor abranda e vence
A quem voa furioso:
Mostra rosto risonho
Ledo, brilhante e áureo;
Ou acometa a raça
De monteses cachorros,
Ou os nadantes peixes,
Ou os homens, e quanto
Cobre e sustenta a terra,
Que o Sol aquenta e ilustra.
Sobre estas coisas todas
Só tu, ó deusa Cípria,
Tens mando e honra real.

DIANA

De Egeu, ó ilustre filho,
Eu te mando, que me ouças.
Diana é quem te fala,
A filha de Latona.
Dize, por que te alegras,
Infeliz, tendo morto
Sem justiça, ou piedade,
Por ditos mentirosos
Da esposa, o teu filho?
Sim era o caso escuro,
Mas o teu dano é claro.
E como não te escondes
Sob terra, e até no Tártaro
Da vergonha obrigado?
Ou pelo ar voando,
Como já não pretendes
Fugir a tal desgraça?
Já não podes ter parte
Entre os bons, e com eles
Gozar da luz da vida.
Ouve, Teseu, o estado de teus males:
Bem que nada aproveite, hei-de afligir-te:
Eu vim aqui mostrar-te, que teu filho
Tinha uma alma inocente: que ele morre
Glorioso, mas que foi vítima triste
Do furor, ou, ainda de algum modo,
De uma nobre altivez de tua esposa.
Porque sendo ferida pela seta
Da deusa, a mais contrária a quantos temos
Por só deleite castos pensamentos,
Amou teu filho, e coa razão tentando
Vencer a Cípria; por indignas artes,
Sem ela o consentir, a perde a Aia.
Esta tendo extorquido ao moço incauto
Um juramento escuro, lhe declara
A paixão da madrasta: porém ele
Teve horror à proposta: e guardou sempre,
Té por ti maltratado, o juramento,
Por lhe ser natural a piedade.
Fedra, que receou ser descoberta,
Escreveu esse escrito mentiroso,
Que a teu infeliz filho deu a morte,
E fez com que o tivesses por culpado.

TESEU

Desgraçado de mim!

DIANA

Que é isso? aflige-te,
O que acabas de ouvir? Pois ouve ainda
O que vou a dizer-te, e maior causa
Terá tua aflição. Tu tinhas certos
Três votos de teu pai; porém um deles
Podendo-o empregar num inimigo,
Contra teu próprio filho o converteste.
O deus do mar, teu pai, obrou prudente
Em conceder-to, tendo-o prometido.
Mas tu co ele e comigo foste injusto.
Pois de seu juramento não curaste,
Nem procuraste ouvir os adivinhos,
Nem inquiriste o fato, ou permitiste,
Que quem tudo revela, o Tempo, desse
Algum indício; porém mais depressa
Do que fora razão, contra teu filho
Imprecações lançaste, e o perdeste.

TESEU

Deusa, eu mereço a morte, e a desejo.

DIANA

Tua ação foi atroz, mas inda podes
Esperar o perdão; porque vontade
Foi de Vênus, que assim acontecesse,
Por fartar sua ira, e entre os deuses
Está posta esta lei: Nenhum pretende
Contrariar o empenho, que tem outro.
Se assim não fosse, e a Jove eu não temera,
Sabe certo, que nunca chegaria
A tal desonra, que morrer deixasse
Um mortal, que entre todos mais amava.
Mas o teu erro absolve-o de maldade
A ignorância, em que estavas; e além disso
Porque tua mulher baldou, morrendo,
As provas, que no caso haver podia,
E conseguiu assim capacitar-te.
Em ti descarregou esta desgraça,
E a mim move-me a mágoa, porque os deuses
Não gostamos, que acabem os piedosos;
E aos ímpios, eles com seus próprios filhos,
E toda a sua raça exterminamos.

CORO

Aí vem o infeliz, dilacerado
Nas brandas carnes,
E afeado no rosto formosíssimo.
Ó dor imensa desta real casa!
Quanto nela, e em quão breve
Se viu dobrado luto
Fulminado de irada divindade!

HIPÓLITO

Ai, ai, ai, infeliz, injustas pragas
De pai injusto todo me consomem!
Ai de mim desgraçado! já não posso...
A perdida cabeça me atravessam
Agudas dores, salta o mal ao cérebro.
Espera, deixa, que meu lasso corpo
Repouse um pouco. Ó coche malfadado,
Ó cavalos, que eu mesmo regalava,
Vós me perdestes, sim, vós me matastes!
Oh pelos deuses, servos, brandamente
Tocai meu corpo, cheio de feridas.
Que dura mão chegou a este meu lado!
Levantai-me de manso: suavemente
Levai este infeliz, amaldiçoado
Por erro de seu pai. Ó Jove, ó Jove,
Tu vês isto? e sou eu o homem casto?
Sou eu o grande adorador dos deuses?
O que todos vencia em continência?
E assim rapidamente me revolvo
Na sombra escura, e se me nega a vida?
Oh como em vão passei outros trabalhos
Também de piedade com os homens!
Ai! que recresce a dor, a dor recresce.
Deixai este infeliz,
E só a morte venha em meu auxílio.
Matai-me, sim, matai-me.
Oh quem me dera um ferro de dois gumes
Para despedaçar-me,
E adormecer tão dolorosa vida!
Oh triste imprecação
De meu irado pai, ó cruel sanha
De conjuntos, que em sangue assim se banham!
O mal de meus passados
A mim se dirigiu, e sem tardança.
Mas a mim! por que a mim? a um inocente?
Ai de mim desgraçado!
Como me queixarei?
Ou como fugir posso
De um mal duro, cruel, e sem remédio?
Oxalá, que de Pluto a noite eterna,
A noite inevitável
Já sepulte este triste em trevas densas.

DIANA

Ó desgraçado, em quanta desventura
Te vês por tua alma casta e generosa!

HIPÓLITO

Que será isto? eu sinto odor divino
Estando em mal tão fero, eu te percebo,
E em minha dor conheço um grande alívio.
Está neste palácio a deusa Ártemis?

DIANA

Sim. Aqui está a deusa que mais amas.

HIPÓLITO

E vês, senhora, meu cruel destino?

DIANA

Vejo, e chorar não devo uma só lágrima.

HIPÓLITO

Já não tens caçador, não tens ministro.

DIANA

Não tenho, mas em meu amor acabas.

HIPÓLITO

Nem quem adestre os poldros, nem quem guarde
Tuas estátuas.

DIANA

Sim, de Cípria as artes
Tudo isto maquinaram.

HIPÓLITO

Bem conheço
A deusa, que me mata.

DIANA

Ela agravou-se
De tu a não honrares, sendo casto.

HIPÓLITO

Três perdeu, quanto eu vejo, a deusa Cípria.

DIANA

Teu pai, a ti, e de teu pai a esposa.

HIPÓLITO

Oh quanto sinto de meu pai a sorte!

DIANA

As traças de uma deusa o enganaram.

HIPÓLITO

Ó desditoso pai por tantas perdas!

TESEU

Meu filho, eu morro, e tenho ódio à vida.

HIPÓLITO

Mais por ti, que por mim, choro o teu erro.

TESEU

Ah filho, em teu lugar morrer quisera!

HIPÓLITO

Ó de teu pai Netuno dons funestos!

TESEU

Ah! nunca a minha boca tal pedisse!

HIPÓLITO

Quê? sempre me matavas: tão grande era
Tua ira.

TESEU

Os deuses tinham-me tirado
O acordo inteiramente.

HIPÓLITO

Oh se os humanos
Pudessem fazer votos contra os deuses!

DIANA

Não digas mais. Nas trevas subterrâneas
Da deusa Cípria as iras caprichosas
Não te vão insultar impunemente,
Graças à tua piedade, e ânimo casto.
Porque eu naquele, a quem ela mais ame
Entre os outros mortais, farei vingança,
Com esta mesma mão, com estas setas,
De que ninguém escapa: e a ti em paga
De tantas penas, quantas tens sofrido,
Farei, que honras divinas te consagrem
Nesta terra Trezênia. Seus cabelos,
Antes de suas suspiradas núpcias,
Te hão-de ofertar as virgens em teu templo
Longos anos, o dom acompanhando
Com lágrimas e pranto; e acentos tristes
Se ouvirão sempre às músicas donzelas,
Sem que possa esquecer o amor ardente,
Que por ti concebeu a ilustre Fedra.
E tu filho de Egeu, toma em teus braços
Teu filho, ao peito o chega, e a ele o aperta.
Mataste-o constrangido, e quando os deuses
O querem assim, os tristes mortais erram.
E a ti, ó bom Hipólito, aconselho,
Que para com teu pai não tenhas ódio.
Era destino teu, que assim morresses.
E embora fica: aos deuses não é lícito
Ver mortos: nem manchar seus olhos, vendo
Os que lançam os últimos arrancos:
E deste mal estás já tu mui perto.

HIPÓLITO

Vai tu também embora, ó Virgem Santa,
E feliz deixes esta longa prática.
Eu perdôo a meu pai por teu respeito,
Porque sempre observei os teus mandados.
Ai! que os olhos me cobrem densas trevas!
Meu pai, cura e compõe este meu corpo.

TESEU

Que fazes, filho, a um pai tão sem ventura?

HIPÓLITO

Eu morro, e vejo já o átrio da morte.

TESEU

Morres, e deixas a minha alma impura?

HIPÓLITO

Não por certo. Eu te livro de homicídio.

TESEU

Quê? absolves-me do sangue derramado?

HIPÓLITO

Pela caçadora Ártemis to juro.

TESEU

Ó filho caro, ó filho generoso!

HIPÓLITO

Fica-te embora, pai, fica-te embora.

TESEU

Ó alma pia, nobre, virtuosa!

HIPÓLITO

Aos deuses pede, que te dêem tais filhos.

TESEU

Oh não me percas, filho; vence um pouco.

HIPÓLITO

Tudo meu é vencido: a morte é vinda.
Cobre meu corpo quanto mais depressa.

TESEU

Ó Atenas ilustre, ó sacros muros
Da ilustre Palas, que varão insigne
Vós perdeis! e eu terei por longo tempo
N’alma os males, que causas, deusa Cípria.

CORO FINAL

Este luto que a todos
Os cidadãos abrange,
Vindo não esperado,
Há-de soar com lágrimas imensas.
Que a fama das desgraças
Dos grandes potentados,
Quando é digna de mágoa,
Rápida voa, e altamente fere.

FIM

Notas

A tradução, aqui, como no volume XXII da “Clássicos Jackson”, é atribuída a J.B. de Mello e Souza, autor do Prefácio e das notas introdutórias às tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides que figuram no volume. Não sei se, “por razões editoriais”, atribuiu-se ao emérito professor, por seu renome, a tradução de todo o volume, em vez de atribuir-lhe a organização do mesmo. É o que se depreende das palavras do próprio João Baptista de Mello e Souza no Prefácio:

“Tais considerações justificam, à saciedade, a preferência dada, na elaboração do presente volume, às traduções em prosa de algumas tragédias entre as mais famosas do teatro ateniense. Por exceção insere-se apenas uma em verso solto (o Hipólito, de Eurípides), completando-se destarte a série agora apresentada com um trabalho antigo, de tradutor português desconhecido, que venceu com certa galhardia as dificuldades do empreendimento.” [g.n.]

O professor João Baptista de Mello e Souza foi, por anos, professor de história no Colégio Mello e Souza e marcou gerações com seus ensinamentos. É de Afonso Arinos, em suas Memórias, este testemunho sobre a importância que teve em sua formação as aulas por ele dadas: “A matéria que mais me encantava era a História do Brasil, dada pelo mesmo (J.B. Mello e Souza).”; “Creio que toda a minha inclinação posterior pelos estudos históricos data desse fecundo aprendizado inicial.” (ap. Alberto Venancio Filho, A Historiografia Republicana: A contribuição de Afonso Arinos, in Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, 1990, p.151-160.) [NE]

 

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