"Há muitos séculos o oceano Atlântico atraía a curiosidade dos navegantes europeus mais ambiciosos. Mas as poucas expedições que se aventuraram mar adentro nunca mais voltaram. Essas tentativas malogradas criaram na imaginação popular as mais fervilhantes fantasias acerca do oceano desconhecido: monstros marinhos, águas ferventes e pedras-ímã, que puxavam as embarcações para o fundo, na altura do Equador. Por volta do ano 1400 não se conhecia o real formato da Terra. Era senso comum considerá-la plana como uma mesa, terminando em abismos sem fim. Mas havia aqueles que a imaginavam redonda e finita.
O desconhecimento completo dos oceanos nos dá uma medida dos riscos enfrentados pelos navegantes do século XV, que ousaram desbravá-Los em precários barcos, com aproximadamente 25 metros de comprimento.
As técnicas de navegação empregadas tradicionaLmente no mar Mediterrâneo, no Báltico e na costa européia eram insatisfatórias para as novas circunstâncias. Foi com o objetivo de aprimorá-las que o infante dom Henrique, filho do rei dom João I de Avis, reuniu os mais experimentados cartógrafos, astrônomos, construtores navais e pilotos da Europa.
Os portugueses criaram a caravela, com dois ou três mastros onde se alternavam velas triangulares e quadrangulares. No século XVI, construíram as naus, muito maiores, para as longas travessias rumo à Ásia e à América. Também adaptaram para uso náutico instrumentos antigos corno a bússola, criada pelos chineses, e aperfeiçoaram o quadrante, o astrolábio e a halestilha, há muito utilizados pelos marinheiros gregos e árabes. Por fim, a cartografia recebeu grande impulso. As cartas de marcar, onde se registravam as novas rotas marítimas e as terras recém-descobertas, eram sigilosamente guardadas por cada nação européia, a fim de afastar as concorrentes na luta pela conquista d0 mundo.
O comércio foi o grande motor que impulsionou a expansão marítima européia nos séculos XV e XVI. Com o objetivo de controlar o comércio africano de ouro em pó e marfim, que se encontrava nas mãos dos mercadores árabes, os portugueses conquistaram, em 1415, a cidade de Ceuta, no norte da África. O próximo passo foi lançar seus navios ao longo da costa africana, até atingir o cabo Bojador, o que aconteceu em 1434. Na medida em que atingiam pontos mais avançados na costa da África, os portugueses iam construindo feitorias, entrepostos comerciais fortificados, a fim de resguardar para si, com exclusividade, o lucrativo tráfico de mercadorias e escravos negros para a Europa. O tráfico de escravos da Guiné tornou-se, em pouco tempo, a maior fonte de lucros da burguesia lusitana. Em 1446, cerca de mil escravos entraram em Portugal e, nos anos seguintes, esse fluxo intensificou-se ainda mais. Os escravos negros também foram enviados às ilhas da Madeira e Açores, possessões portuguesas no Atlântico, para trabalhar no cultivo de cana-de-açúcar, ali introduzido pelo infante dom Henrique. Mas os mercadores portugueses não se contentaram apenas com vender ouro e açúcar aos centros comerciais de Flandres e da Itália. Quando os turcos otomanos conquistaram o Mediterrâneo oriental e tomaram a cidade de Constantinopla, no ano de 1453, os portugueses já estavam bastante adiantados na busca de um novo caminho para as Índias, contornando o litoral do continente africano. Controlar o rico mercado das especiarias passou a ser o novo alvo da expansão marítima lusitana. Urna importante etapa desse projeto foi vencida quando o navegador português Bartolomeu Dias cruzou o cabo das Tormentas, em 1488. Seu nome, porém, foi mudado para cabo da Boa Esperança, para expressar a confiança dos portugueses de estarem no caminho certo para o Oriente.
Os bons resultados da exploração da costa africana pelo reino de Portugal despertaram o interesse de outras potências marítimas pelo Atlântico. Na corrida aos descobrimentos, a Espanha tornou-se a mais séria concorrente dos portugueses. Após expulsarem definitivamente os árabes da península Ibérica, os reis da Espanha decidiram financiar os planos de um navegador genovês, Cristóvão Colombo, que se propunha encontrar outra rota marítima para as Índias, navegando em direção ao oeste, pelo oceano Atlântico. Colombo defendia a idéia de que a Terra era esférica e que, portanto, se navegasse sempre em direção ao oeste, chegaria às Índias, localizadas no leste. A ambiciosa aventura de Colombo teve início no dia 3 de agosto de 1492. Colombo, porém, não podia imaginar que entre a costa européia e a China e o Japão existia outro continente. Por isso, quando aportou numa pequena ilha do Caribe, no dia 12 de outubro de 1492, julgou estar próximo das Índias. Por causa disso, chamou de índios os habitantes da terra que, sem saber, havia descoberto. Numa carta escrita em 1493, Colombo assim descreve os habitantes da nova terra: "Todas as pessoas das ilhas que vi vivem completamente nuas, tanto os homens como as mulheres. Não conhecem o ferro e não possuem armas; são bem feitos e de boa estatura, mas extraordinariamente temerosos. Mas assim que o temor os abandona, mostram-se de uma simplicidade e de uma liberalidade difíceis de acreditar. Nunca recusam o que se lhes pede, e se mostram contentes com tudo quanto se lhes oferece." Cristóvão Colombo realizou mais três viagens à América, a serviço da Coroa espanhola, com o objetivo de colonizar as terras por ele descobertas. A primeira em 1493, a segunda em 1498 e a última em 1502. Em 1504, de volta à Espanha, foi abandonado pelo rei, que deu ouvidos a uma série de calúnias feitas contra o grande navegador. Em 1506, morreu miseravelmente na cidade espanhola de Valiadolid, ainda certo de que havia alcançado o Oriente. Por causa das descobertas espanholas o rei de Portugal, dom João II, passou a temer que a Espanha acabasse com o monopólio português do comércio na Guiné. Mas temia principalmente que o reino da Espanha descobrisse, antes de Portugal, um caminho marítimo alternativo para as Índias. Diante dessas preocupações, propôs aos governantes espanhóis a assinatura de um acordo que demarcasse as terras e as rotas descobertas, ou ainda por descobrir, no Novo Mundo. No ano de 1494, portugueses e espanhóis assinaram o Tratado de Tordesilhas. De acordo com esse tratado, o mundo ficava dividido, por um meridiano, em duas zonas de influência: a porção oriental cabia a Portugal e a ocidental, à Espanha. Desse modo, o monarca português garantiu para seu reino o livre acesso ao Oriente através do Atlântico, navegando ao longo da costa africana, e garantiu a posse de qualquer terra que viesse a ser descoberta no Novo Mundo.
Finalmente, no dia 20 de maio de 1498, os portugueses tiveram êxito no seu objetivo de alcançar o centro do comércio de especiarias orientais, a cidade de Calicute na península Indiana.
A expedição comandada por Vasco da Gama, soldado e diplomata, enfrentara inúmeras dificuldades na travessia: tempestades, fortes correntes marítimas e a hostilidade das tribos africanas da costa oriental e dos mercadores árabes, que dominavam o comércio no oceano Indico. Na Índia, a missão não conseguiu também estabelecer relações comerciais com os governantes locais.
Mas ao regressar a Lisboa, dois anos após a partida e com menos da metade da tripulação com que saiu de Portugal, Vasco da Gama acabava de concretizar um velho sonho português: atingir as Índias contornando a costa da África. Além disso, ele havia feito a mais longa viagem marítima empreendida até então e as trocas comerciais que conseguiu realizar proporcionaram lucros de 6 000% para a Coroa portuguesa. Mas seriam necessários ainda alguns anos para que o governo português estabelecesse suas feitorias no Oriente. No início do século XVI, as cidades indianas de Ormuz, Goa e Malaca foram conquistadas uma a uma pela armada lusitana. Seus templos suntuosos foram destruídos pelos conquistadores que, desse modo, desejavam afirmar a superioridade da civilização cristã sobre as culturas asiáticas, consideradas bárbaras e pagãs pelos europeus. O comércio de especiarias na Europa, como pimenta, gengibre, canela, noz-moscada e cravo, e de manufaturas de luxo, como tecidos de seda e algodão, além de perfumes e pedrarias, ganhou nova força.
No dia 9 de março de 1500 uma esquadra portuguesa comandada por Pedro
Álvares Cabral partiu rumo às Índias. Na altura do arquipélago
de Cabo Verde, porém, as naus desviaram-se de sua rota original e,
rumando para sudoeste, avistaram terra no dia 22 de abril. Haviam chegado
à costa do Brasil.
O descobrimento do Brasil não foi obra do acaso. Desde a assinatura
do Tratado de Tordesilhas, a Coroa portuguesa suspeitava da existência
desse território. A expedição de Cabral teve por objetivo
apenas confirmar a existência dessas terras e oficializar sua posse.
A frota de Cabral percorreu o Litoral brasileiro na altura da Bahia e dois
índios tupiniquins foram levados à presença do comandante.
O escrivão da comitiva, Pero Vaz de Caminha, noticiou em carta ao rei
dom Manuel este primeiro encontro:
"Os dois índios tinham o lábio de baixo furado e metido
nele um osso verdadeiro. Os cabelos deles são lisos e, na parte de
trás, têm uma espécie de cabeleira, feita de penas de
ave. Um deles fitou o colar de ouro do Capitão e começou a fazer
acenos com a mão em direção à terra e depois para
o colar, como se quisesse nos dizer que havia ouro na terra. Essa foi uma
interpretação nossa, por desejarmos que isso fosse verdade!"
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