
Edward Munch - "Madona"
O expressionismo nasceu na Alemanha, nos anos que seguem a Primeira Guerra Mundial (na época de 1910). Época em que o espírito germânico busca se recompor do desmoronamento do sonho imperialista de Guilherme II. Um período histórico turbulento e decisivo, abrangendo a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a busca de instauração de uma república socialista na Alemanha, a instauração do regime burguês da república de Weimar.
"Nós não vivemos mais, somos vividos. Não temos mais liberdade, não sabemos mais nos decidir, o homem é privado da alma, a natureza é privada do homem...Nunca houve época mais perturbada pelo desespero, pelo horror da morte. Nunca silêncio mais sepulcral reinou sobre o mundo. Nunca o homem foi menor. Nunca esteve mais irrequieto. Nunca a alegria esteve mais ausente, e a liberdade mais morta. E eis que grita o desespero: o homem pede gritando a sua alma, um único grito de angústia se eleva do nosso tempo. A arte também grita nas trevas, pede socorro, invoca o espírito: é o expressionismo."
(Hermann Bahr - 1916) Em seguida diz Kasimir Edschmid - 1917: "O artista expressionista transfigura assim todo o espaço. Ele não olha: vê; não narra: vive; não reproduz: recria; não encontra: busca. A concatenação dos fatos - fábricas, casas, doenças, prostitutas, gritos e fome - é substituída por sua transfiguração. Os fatos adquirem importância somente no momento em que a mão do artista, estendida através deles, fechando-se agarra aquilo que está por trás deles: o artista vê o humano nas prostitutas e o divino nas fábricas, e reintegra cada fenômeno no conjunto do mundo". (...) "Uma prostituta não é mais retratada arrumada e maquilada da forma como a sua profissão exige. Ela aparecerá sem perfumes, sem cosméticos, sem bolsinha, sem perna balançando, mas a natureza do seu caráter deverá sobressair de uma forma tão viva na simplicidade da forma que resultará saturada de todos os vícios, paixões, baixezas e tragédias com que são feitos o seu coração e a sua profissão. Não importa conhece-la em sua existência cotidiana: o chapéu, o andar, os lábios são apenas derivativos que não esgotam a essência do seu caráter. O mundo já existe, não teria sentido fazer uma réplica dele; a principal tarefa do artista consiste em indagar seus movimentos mais profundos e seu significado fundamental, e em recriá-lo. Cada homem não é mais um indivíduo ligado ao dever, à moral. À sociedade, à família: nessa arte, ele se torna apenas uma coisa, a maior e a mais mísera, torna-se homem": (...) "situado no cosmo, porém com sensibilidade cósmica; não se preocupa em viver a sua vida: atravessa-a; não reflete sobre si mesmo, mas vive si mesmo, não vagueia às margem das coisas, colhe-as bem no centro. Não é desumano nem tampouco super-humano, é apenas homem, covarde e forte, válido e vil, bom, banal, magnífico, assim como Deus o deixou no momento da criação. As coisas estão todas perto dele, acostumado como está a perscrutar o seu significado e a sua essência autêntica. Não tem inibições, ama e combate de forma direta; apenas a força do seu sentimento o guia e o dirige, não um pensamento contaminado. Portanto, pode chegar a exaltar-se, a fazer nascer em seu espírito grandes visões."

James Ensor - "A Intriga"
O expressionismo é o caminho para uma concepção existencial da arte: colher, na realidade, sob o invólucro do transitório, o núcleo eterno, imutável da própria arte. Golpear o centro da realidade, não permanecer em sua periferia. Pressionar a realidade para dela fazer brotar o latente secreto. Daí surge a típica deformação expressionista, que encontramos principalmente nas obras de Van Gogh (1853-1890), Edward Munch (1863-1944) e James Ensor (1860-1949), que maior influência exerceram sobre os expressionistas alemães. Munch expôs em Berlim, no ano de 1892, apresentando cinqüenta e cinco obras de sua autoria. Van Gogh, Gauguin e Cézane, em Munique no ano de 1904; Van Gogh na cidade de Dresden, em 1905, e em Berlim no ano de 1908.
Em 1904, foi fundado em Dresde, o primeiro grupo de expressionistas, com o nome de Die Brucke (A Ponte). Alguns artistas que participaram deste grupo: Ernst L. Kirchner (1880-1938), Karl Schmidt (1884), Erich Heckel (1883-1970), Emile H. Nolde (1867-1955), Max Pechstein (1881-1955). A primeira exposição deste grupo aconteceu em 1906 e a primeira manifestação conjunta em 1913. Na arte destes artistas predominava o vivido sobre o visto. A sua pintura nunca é agradável, hedonista, brilhante. Ao contrário, nela está sempre presente algo de estridente, de grosseiro, de híbrido. "Não acreditem nesta civilização", gritam os personagens expressionistas de Nolde.
Os artistas do grupo "A Ponte" estudaram a arte negra e os primitivos artistas germânicos. O expressionismo alemão foi simbolizado por eles, no seu aspecto mais puro. Dedicaram uma grande atenção à produção gráfica: litografias, águas fortes, xilografias.
Em 1911, surge em Munique um outro grupo, chamado Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). Fundado por Kandinsky e Franz Marc, esse grupo nasceu da fervilhante vida intelectual e artística de Munique, para onde convergiam de toda a Europa os jovens que pretendiam dedicar-se à arte. Diferentemente do grupo Die Brucke (A Ponte) que protestava, tanto social quanto artisticamente, contra o mundo que os rodeava, o grupo de Munique, procurava idiomas artísticos que fossem novos e mais ricamente expressivos. Um expressionismo mais meditativo e construtivo, uma tentativa para deslocar a arte do mundo, do fato concreto para o mundo do espírito, reconhecendo a cor como sua mais poderosa arma. "A cor é a tecla. O olho é o martelo. A alma é o piano de muitas cordas. O artista é a mão que, tocando esta ou aquela tecla, coloca pré-ordenadamente a alma humana em vibração", diz Kandinsky, que teve da música uma forte influência: "a afinidade entre música e pintura...é o ponto de partida do caminho através do qual a pintura, com a ajuda de seus próprios meios, se desenvolverá gradativamente até tornar-se arte em sentido abstrato". Para ele, uma pessoa que não tenha senso musical, é uma pessoa fechada não apenas à compreensão do espírito, mas também à compreensão moral do bem. No cabeçalho de um dos capítulos de seu livro "Do espiritual na Arte", ele coloca versos de Shakespeare: "O homem que dentro de si não tem a música, que a harmonia dos sons não comove, é propenso à traição, ao furto, à perfídia; escura como a noite é sua inteligência, obscuro como o Erebo é o seu pensamento. Desconfia desse homem! Ouve a música!"
Também foram membros deste grupo: Alexei von Jawlensky, Mariana von Werefkin, Gabriela Münter, Alexander Kanoldt, Karl Hofer, os irmãos David e Vladimir Burliuk, Kubin e Paul Klee.
Outros artistas expressionistas alemães foram: Georges E. Grosz (1893-1959), que retrata a sátira social; o paisagismo melancólico de Karl Hofer (1878-1955); a fantasia inquietante de Christian Rohlfs (1849-1938) e Oskar Schlemmer ( 1888-1943), que em seus quadros reflete a solidão do homem no mundo atual.
Em outros países podemos citar artistas que se envolveram com o movimento expressionista ou foram por ele influenciados: Marc Chagall ( nasceu na Rússia e chegou em Paris em 1910); Amedeo Modigliane (1884-1920 - italiano); Chaim Sutin (1894-1944 - lituano); Julius Pinças (1885-1930 - búlgaro); Moïse Kisling (1891-1953 - russo); Georges Rouault ( 1871-1958) e Marcel Gromaire ( 1892-1971), ambos franceses; Constant Permeke (1886-1952), Gustav de Smeet ( 1877-1943), Fritz van der Berghe (1883-1939), ambos da Bélgica; Isidre Nonell (1873-1911), José Gutierrez Solana (1886-1945), Pablo Picasso (Guernica: cubismo como uma linguagem expressionista); Diego Riviera ( 1886-1957 - mexicano).
Na literatura, o expressionismo se manifesta com a fundação de Der Sturn (A Tempestade), dirigida por Herwart Walden, que promulgava o dogma expressionista da criação extática segundo a qual as visões tomam corpo: "o expressionismo não é moda, nem tendência, mas uma concepção do mundo"; da revista mais politizada Die Aktion, de Frank Pfemfert; das revistas Die weissen Blätter (As Folhas Brancas), de 1913 e Der Stürmer (O Tempestuoso), bem como de um rol inumerável de publicações distribuídas pelas mais diversas cidades alemãs, cujos frutos foram frustrados pela guerra e pelo elevado número de poetas mortos nos campos de batalha, como: K. Adler, W. Ferl, H.hinz, E. Stadlier e A. Stramm.. O poeta mais representativo do movimento foi Gerorg Trakl (Poesias, Sebastião no sono), que se suicidou em 1914, aos vinte e sete anos. Ao contrário do belicismo futurista, os escritores e poetas expressionistas refletem um sentimento de desconcerto e horror ante o absurdo da experiência militar da Primeira Guerra Mundial, exaltam o pacifismo e a solidariedade humana.
Em 1920 é publicada a obra antológica do poeta Kurt Pinthus: Sinfonia da jovem poesia.