(1915)
Depois de ler o seu drama estático O Marinheiro em Orfeu I
Depois de doze minutos
Do seu drama O Marinheiro
Em que os mais ágeis e astutos
Se sentem com sono e brutos,
E de sentido nem cheiro,
Diz uma das veladoras
Com langorosa magia:
De eterno e belo há apenas o sonho.
Porque estamos nós falando ainda?
Ora isso mesmo é que eu ia
Perguntar a essas senhoras...
(1-3-1917)
No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, o segredo das sinas
De quem sabe amar.
Qualquer que êle seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fêz a sombra dêles,
Qualquer fôsse o vôo.
Por certo êles foram mais reais e felizes.
(1-3-1917)
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória...
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer fato?
Estou só, só como ninguém ainda estêve,
Õco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.
Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi.
Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma idéia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.