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Correspondências - Fernando Pessoa

 

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À Adolfo Casais Monteiro

Carta a Adolfo Casais Monteiro (em 13 de Janeiro de 1935)

"...E contudo - penso-o com tristeza - pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!
Creio que respondi à sua pergunta.

Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.

Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histeroneurasténico. Tendo para esta Segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos - felizmente para mim e para outros - mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher - na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais: assim tudo acaba em silêncio e poesia.

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro - os que jazem perdidos no passado remota da minha infância quase esquecida.

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagâ. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-s-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo (tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro - de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com o título Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome Alberto Caeiro.

Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escrito que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente. Foi o regresso de Fernando Pessoa - Alberto Caeiro a Fernando Pessoa - ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir - instintiva e subconscientemente - uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-me a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos - a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Quando foi da publicação de Orpheu, foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema "antigo" do Álvaro de Campos - um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haveriam de ser depois de reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão...

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precise de um esclarecimento mais lúcido - estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido -, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!

Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante da mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 não me lembro do dia e mês (mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil quanto era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos - o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo.

Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma - só instrução primária; morreram-lhe cedo e pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico: vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

(...) Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiracão, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberacão abstracta que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. O meu semi-heterónimo Bernardo Soares que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibicão; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilacão dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de "ténue" à minha, é iqual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer "eu próprio" em vez de "eu mesmo", etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. (...)

À Álvaro Pinto 01/05/1912

Lisboa, 1º de Maio de 1912

Sr. Álvaro Pinto,

Remeto a V... mais três páginas do meu segundo artigo. As duas que faltam - enviarei amanhã. No escritório onde passo à máquina os artigos, não me deixaram hoje tempo para completar a transcrição. - Como previ, o artigo levará umas 10 páginas de escrita à máquina. Faltam, portanto, umas duas. Vão amanhã, sem falta. - Como o meu cálculo inicial fora para poder receber as provas, como antes, pelo dia 7, creio que, mesmo tripartido na remessa, há amplo tempo para o artigo ser composto, e mesmo ficar já revisto, por aquele dia, do actual mês. De V…

respeitosamente

Fernando Pessôa

À Álvaro Pinto, de 02/05/1912

Lisboa, 2 de Maio de 1912

Sr. Álvaro Pinto,

Remeto as 3 páginas finais do meu artigo. Foi impossível resumir em 2 o resto do artigo sem tornar obscura a parte mais importante do raciocínio.
Pedindo a V... me releve a demora e a acidentação que tem havido na remessa do artigo,

sou, de V... Respeitosamente.

Fernando Pessôa

À Álvaro Pinto, de 25/04/1912

Lisboa, 25 de Abril de 1912

Sr. Álvaro Pinto

Não respondi, como cumpria que fizesse, ao postal de V… de 19, porquanto esperava poder entregar a Veiga Simões, que parte amanhã para o Porto, o segundo artigo sobre o aspecto sociológico da actual corrente literária; na entrega do artigo iria, ainda que inconvencionalmente, a demorada resposta. Como, porém, V... compreende, a elaboração raciocinativa de um assunto originalmente concebido é difícil quando considerações de espaço tipográfico entram - isto é, têm de ser levadas em conta - na elaboração do raciocínio.

Por isto, só poderei prometer mandar antes do fim do mês o artigo de que se trata; mas, dentro destes 5 dias, com certeza que o mandarei.

Como foi no dia 7 de Abril que recebi as provas do meu primeiro artigo, e elas, revistas, chegaram a tempo de não demorar a saída de A Águia, creio ( a não ser que o número 5 saia antes do habitual dia 15 ) que, dado 7 dias de margem para a composição tipográfica do artigo, dou amplo tempo ao compositor.

Não recebendo de V... aviso em contrário, remeterei o artigo como indiquei. De V…

respeitosamente

Fernando Pessôa

Notas explicativas carta nº 7

Álvaro Pinto era dirigente da Renascença Portuguesa e secretário de redação da revista A Águia. Pessoa refere-se ao artigo " Reincidindo... ", publicado na revista portuense em maio de 1912 ( nº 5, II série) e que vinha na continuação do seu artigo de estréia " A nova Poesia Portuguesa sociologicamente considerada " inserto no número anterior. As cartas seguintes - 30 de abril, 1º de maio e 2 de maio - dão conta do envio, a " conta-gotas ", do texto integral. Estas cartas seguem reunidas nesta apresentação. O citado portador da encomenda de Pessoa é o diplomata e escritor Veiga Simões (1888-1954 ), autor, entre muitos outros trabalhos, sobretudo no domínio histórico, de A Nova Geração (Estudos sobre as Tendências Actuais da Literatura Portuguesa ), 1911. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 Editora Companhia Das Letras.

À Álvaro Pinto, de 30/04/1912

Lisboa, 30 de Abril de 1912

Sr. Álvaro Pinto,

Tendo prometido enviar, até ao fim do mês, o meu segundo artigo, remeto, inclusas, 5 páginas dele, escritas à máquina. Como não tivesse tempo de passar a limpo, hoje, o resto do artigo, julguei preferível mandar o que já estava - para, sendo preciso, se ir já compondo - e enviar o resto amanhã, a adiar, até então, a remessa integral.

O artigo fica mais extenso do que eu esperava. Deve levar mais outras 5 páginas de escrita de máquina, como as que remeto. Talvez, por isso - não havendo razões em contrário - fosse preferível compor o artigo em corpo 8, para evitar confusões ulteriores. Estou, é claro, supondo que para V... o artigo tem interesse que, por mim, ainda que autor, julgo que deve ter. Pela parte que vai hoje, já se pode antever a conclusão do artigo. Por o julgar útil e esmiuçadamente confirmador do primeiro artigo, é que não me esforcei por o resumir excessivamente.

De V…

respeitosamente

Fernando Pessôa

À Armando Teixeira Rebelo, de 24/08/1907

Hotel Brito, Portalegre.
August 24th 1907.

Venerable portion of earthly existence!

In a few moments of concatenated mental activity, not unassisted by the carnal fumes of the alcoholic beverage - no more and no less than wine - not exclusive to this locality, my soul felt, like a mental sigh, the necessity of giving expression to its present state and tendencies to a friendly brain such as yours.

Lonely and silent in my transitory place of existence in the hotel mentioned in the heading of this explosive epistle of an over-burdened soul, feeling the world around me morally cold and materially warm - below zero towards my soul and not far from 40 in relation to my body - in these distressing and inspiring circumstances the though has come upon me that perhaps the indicting of this epistolary composition may be subjectively conductive to an alleviation of my earthly lot at this moment, may be the " balm in Gilead", dream of Poe, to my unsistered spirit.

Hence this letter.

Portalegre is a place where all a stranger can do is get tired of doing nothing. Its component qualities seem to me ( upon deep and cautions analysis) to contain, in uncertain relative quantities, heat, cold, semi-Spanishdom and nothingness. The wine is good ( though not from here, I think), but it is decidely alcoholic, especially when the water-pitcher is at the other end of the table and you ( that is I) forget to ask for it. The style of this letter may be "terminal" proof thereof. I shall register it that so brilliant and offspring of my mind may not be lost in the post.

The taking-to-pieces and packing of the printing office is taking a damned long time - poetically speaking of course.

_ Nevertheless, the men have worked quickly enough and I have looked on ( and off) with the greatest energy.

I sincerely believe that, if I were to remain here a month, I would have to go to Lisbon, afterwards to Bombarda Hotel. You can hardly imagine the hyperboredom, the ultra-get-tired-of-everythingness, the absolute what-the-blooming hell-is-a-chap-to-do- hereability that reigns in my spirit! I found a book to read, but was unable to muster energy to read it. I am anxious to get back to Lisbon; yet I think I will have to stay here yet three days more.

Alentejo seen from the train

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river of flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if it ain' here, where the Devil is it?

Fare thee well.

F. Nogueira Pessôa

P.S. Don't write to Portalegre, I may not be here. Wait till I get to Lisbon! We will converse there.

Tradução

A Armando Teixeira Rebelo

Hotel Brito, Portalegre.
24 de Agosto de 1907

Venerável porção de existência terrena!

Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica - nada mais nada menos do que vinho - não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu.

Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente - abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo- nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até mim a idéia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o " bálsamo em Gilead", sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado.

Daí esta carta.

Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda e cuidada análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registro, para que uma tão brilhante produção do meu espírito não se perca no correio.

A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado - poeticamente falando, é claro - Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e eu tenho-os olhado e observado com a maior das energias.

Acredito sinceramente que, se tivesse que ficar um mês, teria de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiper-aborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar para Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais uns três dias.

O Alentejo visto do comboio

Nada com nada em sua volta
E algumas árvores no meio,
Nenhuma das quais claramente verde,
Onde não há vista de rio ou de flor.
Se há um inferno, eu encontrei-o,
Pois se não está aqui, onde Diabo estará?

Passa bem, ó tu

F. Nogueira Pessôa

P.S. Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

Notas explicativas carta nº 5

A carta é dirigida a Armando Teixeira Rebelo, um dos primeiros amigos que Pessoa teve em Lisboa. Seu condiscípulo no Curso Superior de Letras e, mais tarde, seu compadre ( Pessoa foi padrinho da filha de Teixeira Rebelo, Signa, com quem manteve também relações até o fim da vida), o destinatário acompanhou-o sempre na sua amizade. O fato de ter tido também uma formação anglo-saxônica ( fora educado em Pretória) muito deve ter contribuído para a aproximação entre os dois. Conforme testemunha D. Signa Osório Teixeira Rebelo, o pai, a mãe (Beatriz Osório, que fora igualmente condiscípula dos dois amigos no Curso Superior de Letras) e Fernando Pessoa conversavam os três sempre em inglês.

A ida a Portalegre e as diligências aí feitas por Pessoa prendem-se com a compra de máquinas para a Tipografia Íbis, que o poeta resolvera instalar em Lisboa e na qual investiu o dinheiro da herança da sua avó Dionísia.

Transcrevemos a tradução que acompanha a publicação do original inglês por João Gaspar Simões. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 - Editora Companhia das Letras

À Augustine Ormond, de 27/11/1909

November 27th 1909.

My dear Ormond,

Having fortunately attained the conclusion of your petulant composition, the main intention of wich is to disprove that which has been proved disproved, I have thence drawn the felicitous inference that the sooner a termination is put to this asinine discussion, the better it will be for the stability of our intellects. Most controversies are agreeable and even refreshing to the concerned minds, the exertion of striving for the superiority calling forth all the unexercised powers of the brain, but when they fall into inanity or rise to the most crass obscurity, they are more apt to nebulate the mind and procure ridicule on the reasoning powers of the various antagonists. In our inapposite strife after a supreme style, to which the subject-matter has been entirely sacrified, we have at last reached a point when all sight is lost of our original object, as well as of the motives wich prompted us to enter the lists of argument in this idiotic garb. In other words, our adverse reasons and beliefs, formulated in the most abstruse and unpleasant language, glare but do not burn, astonish but do not convince. Henceforth, my dear Ormond, be it our laudable aim to exercise our brains in the manner you have suggested, rather than dry them by the passing of unauthorized remarks and sarcasms upon each other's interests and abilities.

Falling in with your valuable suggestion, I yesterday bettok myself to the verandah of the London Chambers, and thence sprinkled my gaze on the surrounding beauties. Being of a decided aesthetic temperament, I was rather hurt by the unbecoming symmetry of the circum ambient structures - a symmetry so contrary to the ordinary rules of Nature that I felt myself compelled to turn elsewhere for a satisfactory object on which to settle my wandering glance. There was none. The only objects made by nature that my eye could encounter were a black sky, 2 blacker kaffirs and a drop of rain blinded me for a good five minutes. After I had rejoined my normal sight, wich I did not succeed in doing without considerable trouble, since my first apparent treatment for a sore eye was to bump my head on the iron pillars that support the verandah ( D [evi] I take the architect who put it here), I brought my mind slowly back to the fact that I was there for some purpose and no less to the more distressing realization that I was drenched to the skin. I beg, therefore, that you would again not require me such a difficult undertaking, for, believe me, a sore eye, a swelled head and a darned cold are not the exact rewards I expected from Nature for my kindest attentions.

In your ensuing epistle, I would solicit your opinions on the above subject, in the carrying out of which I have unfortunately experienced the most ungratifying checks.

I remain, my dear Ormond, Yours truly ( but very sore )

F. Pessôa

Tradução

A Augustine

Ormond 27 de Novembro de 1909.

Meu querido Ormond,

Tendo felizmente chegado ao fim da tua petulante composição, cuja principal intenção é não provar aquilo que tem sido provado como não provado, tirei daí a apta conclusão de que quanto mais depressa um ponto final for posto nesta discussão asinina, melhor será para a estabilidade dos nossos intelectos. Muitas controvérsias são agradáveis e até refrescantes para as mentes perturbadas, já que o exercício da luta pela superioridade estimula todos os poderes não exercitados do cérebro, mas quando caem na parvoíce e levam à mais grosseira obscuridade, são mais próprias para enevoar a mente e provocar o ridículo nos poderes racionais dos vários antagonistas. Na nossa despropositada contenda segundo um estilo superior, ao qual o tema tem sido inteiramente sacrificado, conseguimos pelo menos perder de vista o nosso objecto original, bem como os motivos que nos levaram a introduzir as listas de argumentos neste traje idiota. Por outras palavras, as nossas razões e opiniões contrárias, formuladas na mais abstrusa e desagradável linguagem, brilham mas não queimam, espantam mas não convencem.

Que, daqui para a frente, meu querido Ormond, o nosso louvável objectivo seja exercitar os nossos cérebros da maneira que sugeriste, em vez de os secar com o uso de desautorizadas observações e sarcasmos sobre os interesses e capacidades um do outro.

Aceitando a tua preciosa sugestão, dirigi-me ontem à varanda da câmara de Londres e dei então uma vista de olhos pelas belezas circundantes. Sendo de um temperamento estético decidido, fiquei logo chocado com a deficiente simetria das estruturas à volta - uma simetria tão contrária às regras usuais da Natureza que me senti levado a procurar algures um objecto satisfatório no qual pudesse fixar o meu olhar vagabundo. Não havia nenhum. Os únicos feitos pela natureza que os meus olhos puderam encontrar foram um céu negro, 2 kafires ainda mais negros e umas gotas de chuva que me cegaram durante uns bons cinco minutos. Depois de recuperar a minha visão normal, o que só consegui com um esforço considerável, já que o meu primeiro aparente tratamento para um olho magoado foi bater com a cabeça num dos pilares de ferro que suportavam a varanda (Diabos levem o arquiteto que o lá pôs), consegui lentamente lembrar-me de que estava ali com um propósito qualquer e não para verificar penosamente que estava encharcado até aos ossos. Peço-te, por isso, que não voltes a pedir-me tão difícil empresa, pois, acredita, um olho magoado, uma cabeça inchada e uma estúpida constipação não são exactamente as recompensas que eu esperava da Natureza para as minhas amáveis atenções. Na tua próxima carta, solicito as tuas opiniões acerca do assunto acima, no cumprimento do qual experimentei infelizmente os mais desagradáveis reveses.

Sou, meu querido Ormond

Sinceramente teu (mais muito magoado)

F. Pessôa

Notas explicativas carta nº 6

O destinatário, Augustine Ormond, fora antigo condiscípulo de Pessoa em Durban. Ao seu testemunho muito se deve do (escasso) conhecimento da infância e adolescência do poeta na África do Sul. Os dois ter-se-ão correspondido durante cerca de vinte anos, até a Grande Guerra, e, segundo depoimento da filha de Ormond, a perda do contato deveu-se certamente à ida do pai para a Austrália (Jennings, op. cit.) No rascunho da carta, o autor considerou a hipótese de alterar a palavra "adverse" (linha 15 ) para conflicting (conflituosas) e "sarcasms" (linha 20 ) para "ironies" (ironias).

A Editora Inglesa

Lisbon, 2nd June, 1906
Rua São Bento, 98 2º andar

Sir,

Having often remarked in the spare pages of the cheap editions you publish, a brief statement of the object of your association, and holding that object to be meritorious, I should very much desire, if possible, to become a member. But, as I Know the conditions of membership only from the earlier of your publications, such as Laing's exposition of modern science and thought, and having moreover not been in connection with England in regard to current literature for almost a year, during which, for all I know, you may have made changes in your organization. I beg to apply herein for as full particulars as you can give me.

Your faithfully
C. R. Anon


Awaiting your decision

Tradução

Exm.º Senhor,

Tendo várias vezes notado, nas páginas livres das edições baratas que publica, uma breve exposição acerca do objecto da vossa associação, e considerando esse objecto meritório, gostaria muito, se possível, de me tornar sócio. Mas como sei as condições para me tornar sócio apenas pelas primeiras das suas publicações, como a obra de Laing sobre a ciência e pensamento modernos, e não estando, além disso, em contacto com a Inglaterra, no que diz respeito à literatura corrente, há quase um ano, durante o qual, tanto quanto sei, devem ter sido feitas algumas alterações na vossa organização, venho solicitar-lhe as informações mais detalhadas que puder dar-me.

Com a maior consideração
C. R. Anon
Aguardando sua decisão

Notas explicativas carta nº 3

A referência à falta de contato com a literatura inglesa " há quase um ano" tem a ver com o fato de Pessoa ter regressado a Portugal para estudar no Curso Superior de Letras, deixando o resto da família na África do Sul. A assinatura usada, a do seu primeiro duplo inglês, mostra ainda uma íntima ligação com o mundo anglo-saxônico. De resto, as produções de Charles Robert Anon denunciam, como se afirma na nota à sua primeira carta ( nº 1), uma forte e umbilical ligação entre esta personalidade literária e o seu jovem criador: o mesmo sentido de humor, a mesma tendência para intervir socialmente em prol de causas justas, o mesmo gosto pela poesia e pela filosofia. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 Editora Companhia das Letras Carta n° 3

À Entreprise Luvisy, de 19/06/1906

Lisbonne, le 9 juin,1906. Entreprise Générale

Luvisy,
S. et O.
France.
Messieurs,

Ayant vu votre annonce au jornal de Lisbonne " O Diário de Notícias", j'ai l'honneur de demander des renseignements sur la position que vous offrez.

Je serais très content de dédier mon loisir, qui d'ailleurs n'est pas petit, à votre enterprise; mais je ne puis rien dire ni rien promettre là-dessus, avant de savoir nettement l'object de votre campagne et les conditions s'il y en a.

J'espère, néanmoins, une réponse favorable. Aussi ne faut-il prendre ces expressions pour des doutes sur quelque chose de votre part, mais bien autrement sur ma capabilité de remplir la position offerte par vous.

Veuillez agréer, Messieurs,

l' assurance de sincères
F. Pessôa

Tradução

Exmos. Senhores,

Tendo visto o vosso anúncio no jornal de Lisboa " O Diário de Notícias", tenho a honra de pedir informações sobre a posição que oferecem.

Ficaria muito satisfeito de dedicar o meu tempo livre, que, aliás, não é pouco, à vossa empresa; mas não posso dizer nem prometer nada, antes de saber claramente o objecto da vossa campanha e as condições, se as houver.

Espero, no entanto, uma resposta favorável. Neste caso, não será preciso tomar estas expressões como dúvidas sobre algo da vossa parte, mas sim sobre a minha capacidade para preencher a posição por vós oferecida.

Queiram aceitar,

Exmos. Senhores,

os meus mais sinceros
F. Pessôa

Notas explicativas carta nº 4

Não foi encontrado o anúncio do Diário de Notícias a que alude a carta. A menos que se trate de uma ficção, é possível que se reporte a um anúncio de uma Agência intermediária, que, depois de contratada, forneceria o nome e a morada do principal anunciante.

À Fernando Pessoa, 02/01/1985 - Jorge Luis Borges

02-01-1985

"Nada te costo renunciar a las escuelas y a las dogmas, las vanidosas figuras de rotorica y la tarea insistente de representar un país, una clase o una epoca.

Seguro nunca pensaste en tu lugar en la historia de la literatura. tengo la seguridad que los homenages sonoros te espantan, que te espantan tanto que va directo a tu corazon.

Eres hoy el poeta de Portugal, alguien pronunciara inevitablemente el nombre de Camoes.
Escribiste para ti, no para la gloria...Dejame ser tu amigo !!!!"

Jorge Luis Borges

À João Gaspar Simões (Livro do Desassossego), de 28/07/1932

(em 28 de Julho de 1932)

(...)

Estou comecando - lentamente, porque não é coisa que possa fazer-se com rapidez - a classificar e rever os meus papéis; isto com o fim de publicar, para fins do ano em que estamos, um ou dois livros. Serão provavelmente ambos em verso, pois não conto poder preparar qualquer outro tão depressa, entendendo-se preparar de modo a ficar como eu quero.

Primitivamente, era minha intencão comecar as minhas publicações por três livros, na ordem seguinte: (1) Portugal, que é um livro pequeno de poemas (tem 41 ao todo), de que o Mar Português (Contemporânea 4) é a segunda parte; (2) Livro do Desassosego (Bernardo Soares, mas subsidiariamente, pois que o B. S. não é um heterónimo, mas uma personalidade literária); (3) Poemas Completos de Alberto Caeiro (com o prefácio de Ricardo Reis, e, em posfácio, as Notas para a Recordacão do Álvaro de Campos). Mais tarde, no outro ano, seguiria, só ou com qualquer livro, Cancioneiro (ou outro título igualmente inexpressivo), onde reuniria (em Livros I a III ou I a V) vários dos muitos poemas soltos que tenho, e que são por natureza inclassificáveis salvo de essa maneira inexpressiva.

Sucede, porém, que o Livro do Desassossego tem muita coisa que equilibrar e rever, não podendo eu calcular, decentemente, que me leve menos de um ano a fazê-lo. E, quanto ao Caeiro, estou indeciso. (...)

À memória de Fernando Pessoa, 07/1936

Carta à memória de Fernando Pessoa, Julho de 1936

(extractos):

Meu querido Fernando: Imagina você a falta que nos faz? Ainda há poucos dias, numa rua onde parámos a falar de si, o Almada me disse: O Fernando faz muita, muita falta! Na mágoa deste desabafo, pareceu-me reconhecer a mesma inconfessada sensação que a sua ausência, algumas vezes, me dá: a de ter feito uma partida que os seus amigos não mereciam. Quase apetece acusá-lo, gritar à sua memória: Você não tinha o direito de nos deixar tão cedo! Mas o seu mestre Caeiro é quem tinha razão: Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar
e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

Na verdade, a fixação da nossa presença física, seja em que forma for, é o que tem menos importância; e vem daí, por certo, o enorme esforço que tenho de fazer para recordar a sua. Não sei que névoa me afasta da próxima realidade dela. É uma imagem embaciada, talvez pela comovida lembrança da sua delicadíssima discrição. O Fernando passou por aqui em bicos de pés, coerente com o conselho dado às companheiras por uma das veladoras do seu "Marinheiro": - Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes.

Em nada do que você usava se reflectia a fútil premeditação de exibicionismo. No entanto, toda a sua vulgaríssima indumentária, desde o chapéu aos sapatos, era, não sei porquê, espantosamente diversa da de toda a gente. Sei lá que tinha? Uma expressão inconfundível, um jeito especialíssimo, dado por si, sem querer.

Os seus gestos nervosos, mas plásticos e cheios de correcção, acompanhavam sempre o ritmo do monólogo, como a quererem rimar com todas as palavras. De quando em quando, pequenos risos (risinhos, é que diz bem), de criança triste a quem fazem cócegas, vinham festejar, alegremente, as descobertas do espírito - suas ou alheias, porque o Fernando não sabia reprimir o prazer que lhe causava a graça ou a simples alegria dos seus amigos.

A sua ironia, também de qualidade sui generis, era aguda, intencional, oportuna, mas sempre delicada e transparente, sem crueldades felinas. Nunca ouvi ninguém queixar-se de ter sido atingido por ela, nem assisti a que fizesse, na susceptibilidade de quem quer que fosse, a mais leve arranhadura. Era como aqueles gatos de boa raça que metem as unhas para dentro, quando brincam...

No acaso dos diálogos - aos quais nunca impunha, ditatorialmente, a direcção do seu espírito -, esperava que coubesse aos outros a sua vez de falarem para os escutar com atenção. Porém, no seu olhar, lia-se qualquer coisa parecido com o receio de que o supusessem perscrutador.

O seu discreto temperamento ajudava-nos pouco o desejo de lhe fazermos qualquer pergunta mais familiar, mais íntima. Como inquirir-lhe da saúde, sem ter medo de magoá-lo em qualquer parte da alma? Era difícil, sabe? Quanto mais perguntar-lhe: Que faz esta noite? Aparece amanhã? Chegava a ter a impressão de devassar-lhe a intimidade, quando o encontrava, às vezes, na rua...

Quando ia só, ou como se o fosse, apesar de não ser o que se chama, em linguagem doméstica, um abstracto ou distraído (pois a sua atenção, por mais repartida que estivesse, era sempre suficiente para apreender o que se passava à sua volta), costumava aflorar aos seus lábios estreitos o sorriso de quem lê uma carta confidencial, amiga e interessante.
Nada em si afastava quem o procurasse; antes pelo contrário - a não ser, a alguns dos mais orgulhosos ou tímidos dos seus amigos, a certeza de que você era incapaz, sem fortes razões justificadas, de procurar fosse quem fosse.

O seu sentimento de intimidade não era fruto de egoísmo nem de vulgar misantropia: era-o, sim, do profundo respeito que o Fernando tinha por si próprio e pelo que nos outros estimava que também fosse respeitável. Daí, a impossibilidade de abrir à curiosidade dos seus mais assíduos companheiros uma fresta por onde pudessem espreitar a sua vida sentimental:

«Não há quem saiba se eu gosto de ti ou não porque eu não fiz de ninguém confidente sobre o assunto.» Esta frase, cujas palavras sublinhadas o foram por si, é de uma das primeiras cartas que o Fernando dirigiu àquela a quem escreveu nove anos mais tarde: «... Se casar, não casarei senão consigo. Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são coisas que se coadunem com a minha vida de pensamento.»
As suas cartas de amor! Porque você amou, Fernando, deixe-me dizê-lo a toda a gente. Amou e - o que é extraordinário - como se não fosse poeta. Na evidente espontaneidade dessas cartas, que o Destino quis pôr nas minhas mãos, não se encontra um vestígio de premeditação formal, de voluntária intelectualidade.

Que admirável exemplo de humana integração no organismo da Vida! Lê-se qualquer delas - escolhida, ao acaso, entre as dezenas que a totalidade constitui - e logo nos ocorre esta pergunta, forrada de espanto: Como teria sido possível ao mais poeta dos homens e ao mais intelectual dos poetas portugueses (e, aqui, a palavra portugueses tem uma importância muito especial) libertar a tal ponto o coração da literatura?! (...)

Boa noite, Fernando. Não preciso dizer-lhe que sinto, nem por que sinto saudades suas. Mas não lhe peço que volte. Que temos aqui, que possa interessá-lo ou, o que é mais triste, merecê-lo? Não temos nada, bem sabe, de que você não conheça já melhor do que nós, o vazio sem fundo, a mentira sem remédio, a trágica inutilidade...

O Amigo, de Carlos Queiróz

Ao Diário de Notícias, de 04/06/1915

A.C. Lisboa, 4 de Junho de 1915

Exmo. Senhor Director do "Diário de Notícias",

E/V.

Regressado ontem a Lisboa, só então tive ocasião de ler uma crítica, há poucos dias publicada no jornal que V.Exa proficientemente dirige, ao extraordinário livro do sr. Mário de Sá-Carneiro, meu ilustre camarada do "Orpheu".

Não é à crítica que me quero referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala. Repontar com isso seria, além de absurdo, indício de um grave desconhecimento da história literária, onde os génios inovadores foram sempre, quando não tratados como doidos (como Verlaine e Mallarmé), tratados como parvos (como Wordsworth, Keats e Rossetti) ou como, além de parvos, inimigos da pátria, da religião e da moralidade, como aconteceu a Antero de Quental, sobretudo nos significativos panfletos de José Feliciano de Castilho, que, aliás, não era nenhum idiota.

Não é a isto que me quero referir. O que quero acentuar, acentuar bem, acentuar muito bem, é que é preciso que cesse a trapalhada, que a ignorância dos nossos críticos está fazendo, com a palavra futurismo. Falar em futurismo, quer a propósito do 1º nº de "Orpheu", quer a propósito do livro do sr. Sá-Carneiro, é a cousa mais disparatada que se pode imaginar. Nenhum futurista tragaria o "Orpheu". O "Orpheu" seria, para um futurista, uma lamentável demonstração de espírito obscurantista e reaccionário.

A atitude principal do futurismo é a Objectividade Absoluta, a eliminação, da arte, de tudo quanto é alma, quanto é sentimento, emoção, lirismo, subjectividade em suma. O futurismo é dinâmico e analítico por excelência. Ora se há cousa que [seja] típica do Interseccionismo (tal é o nome do movimento português) é a subjectividade excessiva, a síntese levada ao máximo, o exagero da atitude estática. "Drama estático", mesmo, se intitula uma peça, inserta no 1º número do "Orpheu", do Sr. Fernando Pessoa. E o tédio, o sonho, a abstracção são as atitudes usuais dos poetas meus colegas naquela brilhante revista.

A César o que é de César. Aos Interseccionistas, chame-se interseccionistas. Ou chame-se-lhes paúlicos, se se quiser. Esse termo, ao menos, caracteriza-os, distinguindo-os de outra qualquer escola. Englobar os colaboradores do "Orpheu" no futurismo é nem sequer saber dizer disparates, o que é lamentabilíssimo.

No 2º número do "Orpheu" virá colaboração realmente futurista, é certo. Então se poderá ver a diferença, se bem que seja, não literária, mas pictural essa colaboração. São quatro quadros que emanam da alta sensibilidade moderna do meu amigo Santa Rita Pintor.
Até aqui tenho falado em geral, mais pelos meus colegas do que por mim. O meu caso é diferente. Permita-me V.Exa que me refira a ele.

A minha Ode Triunfal, no 1º número do "Orpheu", é a única cousa que se aproxima do futurismo. Mas aproxima-se pelo assunto que me inspirou, não pela realização - e em arte a forma de realizar é que caracteriza e distingue as correntes e as escolas.

Eu, de resto, nem sou interseccionista (ou paúlico) nem futurista. Sou eu, apenas eu, preocupado apenas comigo e com as minhas sensações.

Espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.

De V. Exa
Cdo. Venr. e Obgdo.
ÁLVARO DE CAMPOS
engenheiro e poeta sensacionista

Ao Museu-Biblioteca Castro de Guimarães em Cascais, de 16/09/1932

Trecho da Carta requerendo o lugar de conservador-bibliotecário

Museu-Biblioteca Castro de Guimarães em Cascais

Exma. Comissão Administrativa do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães

Fernando Nogueira Pessoa, solteiro, maior, escritor, residente em Lisboa, na Rua Coelho da Rocha, número dezasseis, primeiro andar, e provisòriamente em Cascais, na Rua Oriental do Passeio, porta dois, vem concorrer perante V.Exa ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães, com os fundamentos seguintes, expostos no termo do artigo 6º e seus §§, do Regulamento do Museu-Biblioteca, conforme estão transcritos no anúncio inserto em O Século, de Lisboa, do dia 1 do mês corrente.

O requerente tem 44 anos de idade, é natural de Lisboa, freguesia dos Mártires, e filho legítimo de Joaquim Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Nogueira Pessoa, ambos já falecidos. Não junta certidão de idade, nem, aliás, certidão de registo criminal, por o citado artigo 6º e seus §§ não exigirem, nem explicita nem implìcitamente, outros documentos que não sejam os rigorosamente precisos para apreciar a afirmação das habilitações neles indicadas, como motivos de preferência.

São as seguintes as habilitações do requerente, expostas nos termos do citado artigo e seus §§, pela ordem dos mesmos §§, e com o apoio documental que irá sendo indicado no decurso da presente exposição:

§ 1 - O requerente tem o Curso ou Exame Intermédio da Universidade (inglesa) do Cabo da Boa Esperança, como prova com a respectiva carta. À parte isto, foi concedido ao requerente, na mesma Universidade, o Prémio Rainha Vitória, de estilo inglês, como prova com a carta oficial assinada pelo secretário arquivista da Universidade, em que se comunica ao requerente a concessão do prémio. Juntam-se os 2 citados documentos. § 3 - O requerente tem uma já extensa colaboração dispersa por várias revistas portuguesas, de onde se lhe advém o ser hoje conhecido no País, sobretudo entre as novas gerações, a um ponto quase injustificável para quem se tem abstido de reunir em livros essa colaboração. Importa talvez citar as revistas em que essa colaboração foi ou mais assídua ou mais marcante. A Águia (nos anos 1912 a 1914), Orpheu, Centauro, Contemporânea, Presença, Athena e Descobrimento. Foi o requerente um dos directores do Orpheu, e dirigiu, conjuntamente com o pintor Ruy Vaz, a revista de arte Athena. - À abstenção do requerente de publicar livros fazem excepção os quatro folhetos em verso inglês que, destinados à Biblioteca do Museu- Biblioteca, acompanham o presente requerimento.

Quanto o serem ou não estes escritos "de reconhecido mérito", melhor o poderão V.Exas averiguar com perguntas casuais nos meios literários e artísticos portugueses do que o poderá demonstar, de modo realmente probante, qualquer documentação. O requerente chama, porém, a atenção de V.Exas para os dois estudos que lhe foram dedicados pelo jovem - e não fica mal dizer notável - crítico coimbrão João Gaspar Simões, a págs, 171 a 191 do livro Temas (Edições Presença, Coimbra, 1929) e a págs, 164 a 193 do livro O Mistério da Poesia (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1931), assim como para o que do requerente diz Pierre Hourcade no artigo Panorama du Modernisme Littéraire ao Portugal inserto no número de Janeiro-Maio (nº1.2) do Bulletin des Études Portugaises, publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra e pelo Institut Français au Portugal. Quanto a opiniões, presumivelmente autorizadas, sobre os versos ingleses do requerente juntam-se as críticas que aos dois primeiros folhetos (os dois segundos não foram enviados a jornais) foram feitas pelo Suplemento Literário do Times e pelo Glasgow Herald, apresentado assim, em certo modo, opiniões representativas da crítica inglesa e escocesa.

§ 4 - Os documentos citados em referência ao § 1 e a este juntos demonstram mais do que o necessário quanto ao conhecimento que o requerente tem da língua inglesa. Quanto ao seu conhecimento da língua francesa, crê o requerente que na ausência de prova documental realmente válida (como a que tem para o inglês), o melhor que pode fazer é juntar uma folha de impressão da Contemporânea, número 7, onde, a págs. 20 e 21, vêm três canções (Trois Chansons Mortes) que escreveu em francês. - No texto do artigo 6º pròpriamente dito, do Regulamento, diz-se que é necessário que o conservador-bibliotecário seja pessoa de "reconhecida competência e idoneidade". Salvo o que de competência e idoneidade está implícito nas habilitações indicadas como motivos de preferência nos §§ di artigo e portanto se prova documentalmente pelos documentos referentes às indicações de cada §, a competência e a idoneidade não são susceptíveis de prova documental. Incluem, até, elementos, como o aspecto físico e a educação, que são indocumentáveis por natureza.

Cascais, 16 de Setembro de 1932

Fernando Nogueira Pessoa.

(in VIDA E OBRA DE FERNANDO PESSOA, João Gaspar Simões, Libraria Bertrand, Lisboa, 3ª edição, 1973)

Ao Natal MercuryDurban, 7th. July, 1905 "The Man in the Moon"

"Natal Mercury" Office,

Durban. Sir,

I have been somewhat astonished, in the perusal of the "Natal Mercury", and especially of your column, to perceive how meanly, and in what slavish way, sarcasm and irony are heaped on the Russians, on their army, and on their Emperor. I know too well that it is the nature of men; where are not culture and dignity, to laugh at misery and at disaster, so that these be to the harm of others, and implicate themselves in no way. Even where some consideration exists for the soul-clear bounds of tragedy and of comedy, and nothing but that consideration - no feeling and no thought besides - laughter is repressed at those things wich outlie the bounds of the ridiculous.

Every reserve and disaster of the Russian army or navy is in such a way made the subject of a jest among us, that we seem to have nothing more amusing. Some of the Russian admirals, even after their death or their capture, have caused us outbursts of sniggering. The Czar himself, when dismayed by revolution and by war, and when in distress and in grief over his armies, appears to be taken by the British people as an animate joke of great value.

To us, Englishmen, of all men the most egotistic, the thought has never occurred that misery and grief ennoble, despicable and self-caused thought they be. A drunken woman reeling through the streets is a pitiable sight. The same woman falling awkwardly in her drunkenness is, mayhap, an amusing spectacle. But this very same woman, drunken and awkward though she be, when weeping the death of her child is no contemptible nor ridiculous creature, but a tragic figure as great as your Hamlets and your King Lears.
If I may be permitted to make one more consideration, I should like to point out that pure shame should restrain us from laughter at the Russian woes, and from the making of jokes upon them. It is quite clear, I believe, that our hearty amusement may be constructed, not even by one malicious, into a joy from the relief we now have from fears of an Indian disturbance. Russia does not now threaten our Easter possession; and it is therefore that we laugh? Surely this thought is too obvious; it must have occurred to us ere we laughed - the greater shame that we laugh notwithstanding.

As an answer, however meager, to these ridiculings, I send you three sonnets, for wich I ask such publicity as has been extended to writers on the other side.

On the whole, I am extremely sorry to have such proofs of human ignobleness and unfeeling. We should not, where we in truth manly, laugh at the woes of others; but we cannot, as it seems, force manliness on ourselves. Yet if misery and grief delight us, and the woes of our enemies amuse, let us be so far noble as to say no thing, and look within us our joy - let us not, however it may be, burst into laughter, least of all into the unsteady sniggering of those whose fears are dispelled, than wich there is nothing more base.

Your faithfully,

Charles Robert Anon.

Tradução

Exmo. Senhor,

Fiquei algo surpreendido, ao folhear o "Natal Marcury", e em especial a sua coluna, por ver quão mesquinha e servilmente o sarcasmo e a ironia são usados contra os russos, o seu exército e o seu Imperador. Sei muito bem que é da natureza do homem, quando faltam a cultura e a dignidade, rir-se da infelicidade e da desgraça, enquanto tocarem os outros mas de forma alguma o próprio. Mesmo onde alguma consideração existe para com os claros limites da tragédia e da comédia, e apenas essa consideração - sem outro sentimento ou pensamento - o riso reprime-se face àquelas coisas que ultrapassam os limites do ridículo.

Cada revés e cada derrota do exército ou armada russa foram de tal modo objecto de chacota entre nós que parece que não achamos nada mais divertido. Alguns almirantes russos, mesmo depois da sua morte ou captura, fizeram-nos explodir em apupos. O próprio czar, quando desencorajado pela revolução e pela guerra, e quando em grande sofrimento e dor por causa dos seus exércitos, parece ser tomado pelo povo britânico como brinquedo animado de grande valor.

A nós, ingleses, os mais egotistas de todos os homens, nunca ocorreu a idéia de que a infelicidade e a dor enobrecem, por mais desprezíveis e auto-infligidas que sejam. Uma mulher embriagada cambaleando pelas ruas é um espetáculo que causa pena. A mesma mulher, se cair desajeitadamente no seu estado de embriaguez, talvez seja um espetáculo divertido. Mas esta mesma mulher, por mais desajeitada e embriagada que esteja, quando chora a morte de um filho, não é uma criatura desprezível e ridícula, mas sim uma figura trágica, tão grande como os vossos Hamlets e os vossos King Lears.

Se me é permitido fazer mais uma consideração, gostaria de sublinhar que a pura vergonha deveria impedir-nos de rir das desgraças russas e de fazer piadas com elas. É bastante claro, creio, que um saudável divertimento deve ser alicerçado, ainda que não por malícia, numa alegria que venha do alívio, que sentimos agora, do medo de um distúrbio por parte dos indianos. A Rússia não ameaça, hoje, a nossa possessão oriental, e será por isso que rimos? Esta idéia é, certamente, demasiado óbvia; devia ter-nos ocorrido antes de rirmos - apesar da grande vergonha de rirmos.

Em resposta, embora breve, a estas ridicularias, envio-lhe três sonetos para os quais peço a mesma publicidade que foi dada aos escritores do outro lado.

No geral, lamento profundamente testemunhar tais provas de ignomínia e insensibilidade humanas. Não deveríamos, se fôssemos decentes, rir das desgraças dos outros; mas não conseguimos, ao que parece, impor a nós próprios decência. Contudo, se a infelicidade e a dor nos deliciam, e as desgraças dos nossos inimigos nos divertem, sejamos suficientemente nobres para não dizer nada e guardar para nós próprios a satisfação - de qualquer forma, não desatemos a rir e, muito menos, a apupar nervosamente aqueles cujos medos estão dissipados, pois não há nada mais baixo do que isso.

Muito Atentamente

Charles Robert Anon

Notas explicativas carta nº 1

Charles Robert Anon, Que assina esta carta, é uma personalidade literária criada por Fernando Pessoa, ainda na África do Sul. Os seus escritos, poéticos, diarísticos e filosóficos, situam-se entre 1904 e 1906. É, no entanto, e compreende-se que assim seja, um "ser" ainda muito umbilicalmente ligado ao seu jovem criador, traduzindo muito das suas preocupações de adolescente. O nome escolhido, abreviatura de "anonimous", remete-nos, também, para um estatuto de não-maioridade dentro do universo pessoano. Seria em breve substituído pela figura de Alexandre Search. Pessoa-Anon refere-se à guerra russo-japonesa que eclodiu em fevereiro de 1904, com um ataque surpresa do Japão à esquadra russa, em Porto Arthur. O tratado de paz viria a ser assinado em 5 de setembro de 1905. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 Editora Companhia Das Letras.

Ao Punch, de 21/02/1906

Ao Punch
Rua São Bento, 98 , 2º, Lisbon, Portugal 21st. February, 1906

The Editor "Punch",

Bonverie Street,

London. Sir, I submit the poem enclosed to your appreciation. In it I have tried merely to attain the ridiculous by the union of the serious and of the grotesque. I have attempted, moreover, to link the ridiculousness of expression thus produced to a lofty, elegiac verse-movement. You will judge how far I have succeeded.

I am aware that my manuscript should have been typewritten, but my means do not allow it. I am further conscious that I have no literary experience ( none can be expected from a boy of sixteen); and that, for this reason, in the writing of my manuscript I may have injuried Convention rudely : all this with a pseudonym; but when a foreigner writes anything - especially a poem - is it better not to father is directly.

If my poem refused, I am afraid you must put in the waste-paper basket, inasmuch as English stamps are here unobtainable. In hope of success, however, I enclose what I can - an addressed envelope.

Awaiting your decision,

I am, Sir,
Yours faithfully,
F. A. N. Pessôa.

Tradução

Ao Editor Punch

Exm.º Senhor,

Submeto o poema incluso à sua apreciação. Nele tentei atingir o ridículo pela união do sério e do grotesco. Esforcei-me, além disso, por ligar o ridículo da expressão assim produzida ao sublime movimento do verso elegíaco. O senhor julgará até que ponto o que consegui.

Estou consciente de que o meu manuscrito deveria ter sido escrito à máquina, mas os meios de que disponho não o permitem. Sei também que não tenho experiência literária( nada mais se pode esperar de um rapaz de dezesseis anos); e, por essa mesma razão, ao escrever o meu manuscrito devo ter transgredido grosseiramente as convenções: tudo isto espero que me seja desculpado.

Assinei o meu manuscrito com um pseudônimo; mas quando um estrangeiro escreve qualquer coisa - especialmente um poema - é melhor não lhe atribuir directamente uma autoria.

Se o meu poema for recusado, receio bem que o Senhor tenha de o deitar no cesto dos papéis, porquanto os selos ingleses são aqui impossíveis de obter. Na esperança de sucesso, contudo, envio-lhe juntamente aquilo que posso - um envelope com o meu endereço.

Aguardando a sua decisão,

Sou,
Exmo Senhor,
Muito atento e venerador
F. N. Pessôa.

Notas explicativas carta nº 2

H. D. Jennings refere uma carta de Fernando Pessoa ao diretor do Punch, incluindo o poema humorístico " An elegy on the marriage of my dear friend Mr. Jinks", datado de 16 de abril de 1905 (op. cit. , p.94) Repare-se na inexatidão da idade com que Pessoa se apresenta: dezesseis anos, quando, na realidade tinha, nesta altura, quase dezoito. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 Editora Companhia das Letras. carta nº 2

Carta a Adolfo Casais Monteiro

Caixa Postal 147

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935

Meu prezado Camarada:

Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer cousa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica., que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.

Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de «Mensagem». Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras cousas. E essas cousas pela mesma natureza do livro, a «Mensagem» não as inclui.

Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto incitaram-me a que o publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros, que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro. Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da «Mensagem», fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri.

Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de «Mensagem» figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande – um livro de umas 350 páginas –, englobando as várias sub-personalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.

Concordo consigo, disse, em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de «Mensagem». Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente porque essa faceta – em certo modo secundária – da minha personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português, parte deste mesmo livro) – precisamente por isso convinha que ela aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.

(Interrompo. Não estou doido nem bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas. Suponha – e fará bem em supor, porque é verdade – que estou simplesmente falando consigo.)

Respondo agora directamente às suas três perguntas: (1) plano futuro da publicação das minhas obras, (2) génese dos meus heterónimos, e (3) ocultismo.

Feita, nas condições que lhe indiquei, a publicação da «Mensagem», que é uma manifestação unilateral, tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista; essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente.) Depois – e agora respondo propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia – tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça. Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que «Mensagem» já manifestou.

Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo – penso-o com tristeza – pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa., impuro e simples!

Creio que respondi à sua primeira pergunta.

Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.

Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e cousas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro – os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas cousas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as cousas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Cousas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida – ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatura, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo... E tenho saudades deles.

(Em eu começando a falar – e escrever à máquina é para mim falar –, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz.)

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Quando foi da publicação de Orpheu, foi preciso, à última hora, arranjar qualquer cousa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos – um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão...

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido – estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido –, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!

Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1,30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 in de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É, um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

Como escrevo em nome desses três?... Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas cousas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.)

Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever. (1)

Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente – o que é facto – que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888.(2) Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho.(3)

Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa.

Abraça-o o camarada que muito o estima e admira.

Fernando Pessoa

P. S. (!!!)

14-1-1935

Além da cópia que normalmente tiro para mim, quando escrevo à máquina, de qualquer carta que envolve explicações da ordem das que esta contém, tirei uma cópia suplementar, tanto para o caso de esta carta se extraviar, como para o de, possivelmente, ser-lhe precisa para qualquer outro fim. Essa cópia está sempre às suas ordens.

Outra cousa. Pode ser que, para qualquer estudo seu, ou outro fim análogo, o Casais Monteiro precise, no futuro, de citar qualquer passo desta carta. Fica desde já autorizado a fazê-lo, mas com uma reserva, e peço-lhe licença para lha acentuar. O parágrafo sobre ocultismo, na página 7 da minha carta, não pode ser reproduzido em letra impressa. Desejando responder o mais claramente possível à sua pergunta, saí propositadamente um pouco fora dos limites que são naturais nesta matéria.

Trata-se de uma carta particular, e por isso não hesitei em fazê-lo. Nada obsta a que leia esse parágrafo a quem quiser, desde que essa outra pessoa obedeça também ao critério de não reproduzir em letra impressa o que nesse parágrafo vai escrito. Creio que posso contar consigo para tal fim negativo.

Continuo em dívida para consigo da carta ultradevida sobre os seus últimos livros. Mantenho o que creio que lhe disse na minha carta anterior: quando agora (creio que será só em Fevereiro) passar alguns dias no Estoril, porei essa correspondência em ordem, pois estou em dívida, nessa matéria, não só para consigo, mas também com várias outras pessoas.

Ocorre-me perguntar de novo uma cousa que já lhe perguntei e a que me não respondeu: recebeu os meus folhetos de versos em inglês, que há tempos lhe enviei?

(Para meu governo», como se diz em linguagem comercial, pedia-lhe que me indicasse o mais depressa possível que recebeu esta carta. Obrigado.

Fernando Pessoa

NOTAS

(1) – Esta carta, tal como foi inserida por Adolfo Casais Monteiro na revista Presença, n.º 9, Junho de 1937, e mais tarde por Jorge de Sena nas Páginas de Doutrina Estética, obr. cit., terminava aqui, em obediência ao Post Scriptum de Fernando Pessoa, que pedia a não publicação do trecho subsequente devido aos motivos que apontava e que se reproduzem. Contudo, com autorização de Casais Monteiro, João Gaspar Simões incluiu o referido trecho ocultista na sua Vida e Obra de Fernando Pessoa, obr. cit., pp. 546 e 547 (2.ª ed.). Transcreve-se o referido trecho na íntegra, bem como o P. S., que só figurava em Apêndice da antologia de Sena.

(2) – A epígrafe de Eras e Psique é como se sabe a seguinte: «... E assim vedes, meu irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade».

(3) – Termina aqui o texto em questão, só conhecido depois do livro de J. Gaspar Simões.

Carta a Armando Cortês Rodrigues

Lisboa, 19 de Janeiro de 1915

Meu querido Amigo:

Há tempos que lhe ando prometendo uma extensa carta. Não sei mesmo se, especificando, lhe não falei numa carta de género psicológico, a meu próprio respeito. Em todo o caso, é disso que se trata.

Eu ando há muito – desde que lhe prometi esta carta – com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu «caso», da natureza da crise psíquica que há tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você – isto porque só você, de entre todos quantos eu conheço, possui de mim uma noção precisamente no nível da minha realidade espiritual. Dá-se esta sua capacidade para me compreender porque você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente, não contam, não tendo nenhum deles a consciência (que em mim é quotidiana) da terrível importância da Vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós próprios e para com a humanidade.

Nesta explicação aparentemente preliminar vai já exposta uma grande parte do problema. Não sei como lho hei-de expor ordenadamente, de modo perfeitamente lúcido. Mas, como isto é uma carta, eu irei expondo conforme possa; e você ordenará, em seu espírito, depois, os dispersos e alterados elementos.

A minha crise é do género das grandes crises psíquicas, que são sempre crises de incompatibilidade, quando não com os outros, por certo com nós próprios. A minha, agora, não é de incompatibilidade comigo próprio; a minha, gradualmente adquirida, autodisciplina, tem conseguido unificar dentro de mim quantos divergentes elementos do meu carácter eram susceptíveis de harmonização. Ainda tenho muito a empreender dentro do meu espírito; disto ainda muito de uma unificação como eu a quero. Mas, como disse, não é dessa banda que sopra o vento do meu desconsolo actual.

A crise de incompatibilidade com os outros - não, entenda-se desde já, uma incompatibilidade violenta, como a que resultasse de divergências declaradas, nítidas, de ambas as partes. Trata-se de outra cousa. A incompatibilidade é sentida por mim, dentro de mim, e é comigo que está o peso todo da minha divergência de aqueles que me cercam. O facto de eu estar agora vivendo só, por não ter aqui família próxima (minha tia, em cuja casa eu estava, está na Suíça, onde foi ficar com a filha, que casou há pouco com um rapaz estudante, pensionista do Estado) vem agravar este estado de espírito, por me deixar a nu com a minha alma, sem afeições e interesses familiares próximos a desviar de mim a minha atenção.

Temos pois que vivo há meses numa contínua sensação de incompatibilidade profunda com as criaturas que me cercam - mesmo com as próximas, amigos, literários é claro, porque os outros não são indivíduos com quem eu tenha que poder ter intimidade espiritual e por isso como, em matéria de relações sociais, me dou bem com toda a gente, dou-me bem com eles.

Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude, para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo com actividades literárias que são apenas dos arredores da minha sinceridade. E isso não me basta. De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante cousa, mais terrível missão - dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador de civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim muita mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito.

Passou de mim a ambição grosseira de brilhar por brilhar, e essa outra, grosseiríssima, e de um plebeísmo artístico insuportável, de querer épater. Não me agarro já à ideia do lançamento do Interseccionismo com ardor ou entusiasmo algum. É um ponto que neste momento analiso e reanaliso a sós comigo. Mas, se decidir lançar essa quase blague, será já, não a quase blague que seria, mas outra cousa. Não publicarei o Manifesto «escandaloso». O outro – aquele dos gráficos – talvez. A blague só um momento, passageiramente, a um mórbido período transitório, de grosseria (felizmente incaracterística), me pode agradar ou atrair. Será talvez útil – penso – lançar essa corrente como corrente, mas não com fins meramente artísticos, mas, pensando esse acto a fundo, como uma série de ideias que urge atirar para a publicidade para que possam agir sobre o psiquismo nacional, que precisa trabalhado e percorrido em todas as direcções por novas correntes de ideias e emoções que nos arranquem à nossa estagnação. Porque a ideia patriótica, sempre mais ou menos presente nos meus propósitos, avulta agora em mim; e não penso em fazer arte que não medite fazê-lo para erguer alto o nome português através do que eu consiga realizar. É uma consequência de encarar a sério a arte e a vida. Outra atitude não pode ter para com a sua própria noção do dever quem olha religiosamente para o espectáculo triste e misterioso do Mundo.

Tenho-lhe explicado tudo isto muito mal. Quase que me tenta a ideia de rasgar esta carta onde, até, pouca justiça fiz a mim próprio. Mas você deve compreender o que eu sinto, e, creio, regozijar comigo, através da sua amizade, por esta minha evolução ascendente dentro de mim.

Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras de sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me [não] desvie disto o meu perigoso feitio demasiado multilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si.

Mantenho, é claro, o meu propósito de lançar pseudonimamente a obra Caeiro-Reis-Campos. Isso é toda uma literatura que eu criei e vivi, que é sincera, porque é sentida, e que constitui uma corrente com influência possível, benéfica incontestavelmente, nas almas dos outros. O que eu chamo literatura insincera não é aquela análoga à do Alberto Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos (o seu homem, este último, o da poesia sobre a tarde e a noite). Isso é sentido na pessoa de outro; é escrito dramaticamente, mas é sincero (no mais grave sentido da palavra) como é sincero o que diz o Rei Lear, que não é Shakespeare, mas uma criação dele. Chamo insinceras às cousas feitas para fazer pasmar, e às cousas, também - repare nisto, que é importante - que não contêm uma fundamental ideia metafísica, isto é, por onde não passa, ainda que como um vento, uma noção da gravidade e do mistério da Vida. Por isso é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito da vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir. E por isso não são sérios os Paúis, nem o seria o Manifesto interseccionista de que uma vez lhe li trechos desconexos. Em qualquer destas composições a minha atitude para com o público é a de um palhaço. Hoje sinto-me afastado de achar graça a esse género de atitude.

Que pouco lúcido e explícito tudo isto! Mas eu tenho que lhe escrever tudo rapidamente; é hoje o dia 19 e eu não quero deixar de conversar com o seu espírito sobre estas cousas. Como já disse, você é o único dos meus amigos que tem, a par daquela apreciação das minhas qualidades que lhe permitirá não julgar esta carta um documento de megalómano, a profunda religiosidade, e a convicção do doloroso enigma da Vida, para simpatizar comigo em tudo isto.

Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude – que eu, aliás, não revelo, por várias razões, desde a de ser ela uma cousa íntima até à de ser incompreensível às sensibilidades dos que me cercam - me incompatibiliza surdamente com os que estão em meu redor. Não é uma incompatibilidade violenta, disse; mas é uma impaciência para com todos quantos fazem arte para vários fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte, ou como quem arranja uma sala com gosto – género de arte este que dá bem o que eu quero exprimir, porque não tem Além nem outro propósito que o, por assim dizer, decorativamente artístico. E daí a minha «crise» toda. Não é crise para eu me lamentar. É a de se encontrar só quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem – desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho tão grave, tão cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no que diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos... Viagem essa, meu querido Amigo, que é entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores... e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza...

Bem ou mal – mal, por certo - expus-lhe tudo. Sinto-me contente por lhe ter falado assim, e porque sei que o seu espírito acolhe com simpatia e amizade estas minhas tristezas de altura. Tudo isto, escuso dizer-lhe, é segredo... De resto, a quem o poderia você contar? ...

Termino, a tempo felizmente. Mande-me quando puder, cuidadosamente copiados dos originais, os inéditos de Antero de que me fala. Pode ser que, tendo-os aqui, seja conveniente publicá-los nalguma parte. Haverá autorização para isso ? É bom saber-se.

Mando-lhe alguns versos meus... Leia-os e guarde-os para si... A seu Pai, se quiser, pode lê-los, mas não espalhe, porque são inéditos. Amo especialmente a última poesia, a da Ceifeira, onde consegui dar a nota paúlica em linguagem simples. Amo-me por ter escrito

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso!...

e, enfim, essa poesia toda.

Tenho escrito mais, mas mando o que está completo e é mais fácil copiar. É pena que vá tudo em letra de máquina, que torna a poesia pouco poética, mas assim é mais rápido e nítido.

Escreva-me sempre, meu caro Côrtes-Rodrigues. Dê cumprimentos meus a seu Pai e receba um grande e fraterno abraço do seu

Fernando Pessoa

P.S. – Vi há dias uma esplêndida composição – «um túmulo de Wagner» – do Norberto Correia. Bela deveras. Você gostaria imenso de a conhecer.

F. P.

P.S.2 – Não tenho tempo para reler esta carta. Naturalmente faltam palavras aqui e acolá, dada a rapidez com que eu escrevi. E a letra em altura nenhuma será muito legível. Você desculpe

F. P.

Carta a Júlio Saul Dias

Caixa Postal 147.

Lisboa, 10 de Fevereiro de 1933.

Meu presado Camarada:

É quasi, senão de todo, indesculpavel a demora que tenho dado ao agradecimento dos dois livros de desenhos seus, que ha tempos me enviou. Venho agradecer-lh’os agora, com o meu pedido de desculpa por tanto tardar.

Desejaria dizer qualquer coisa sobre os seus desenhos. Succede, porém, que nada sei, technicamente, criticamente, de qualquer arte que não seja a literatura, e ainda d’esta muitas vezes me pergunto se saberei alguma coisa... Não poderei, pois, dar qualquer opinião critica sobre os seus desenhos. O que posso dizer - e sinceramente lh’o digo - é que me agradaram muito. Mas isto é uma impressão, não uma crítica.

Muito tambem me agradou o ajustamento entre o texto e os desenhos no livro que tem texto, isto àparte o que os versos me agradaram em elles mesmos. São, presumo, do José Regio; se não são, ha alguem que o segue espiritualmente tam de perto que lhe toca nos calcanhares.

Acceite, com a reiteração dos meus agradecimentos e pedidos de desculpa, a expresso do apreço e da camaradagem do

Fernando Pessoa

Carta à Mário de Sá-Carneiro

(em 14 de Março de 1916)

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.

Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,

Fernando Pessoa

P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características...

Você acha-me razão, não é verdade?

Carta a Miguel Torga

Lisboa, 6 de Junho de 1930.

Meu presado Camarada:

Muito agradeço o exemplar do seu livro "Rampa". Recebi-o já há alguns dias. Só hoje posso escrever para lho agradecer. Li-o, porém, logo que o recebi.

Li-o e gostei dele. A sua sensibilidade é de tipo igual à do José Régio – é confundida, em si mesma, com a inteligência. O que em si é ainda por aperfeiçoar é o modo de fazer uso dessa sensibilidade. Há que separar mais os dois elementos, que naturalmente a compõem; ou que confundi-los ainda mais. Uma análise instintiva que coloque a sensibilidade desintelectualizada perante a inteligência dessensibilizada, em contraste, diálogo e reparo; ou uma síntese em que desapareçam os traços de haver dois.

Não creio impossível que qualquer, ou ambos, destes processos sejam por si atingidos num futuro próximo da sua consciência de si mesmo.

Intelectualmente – e portanto artisticamente – falando (a arte não é mais que uma manifestação distraída da inteligência), a sensibilidade é o inimigo. Não o inimigo que se nos opõe, como na guerra, mas o inimigo a quem nos opomos, como no amor. Há que vencer, pois, não por esmagamento, mas por sedução ou domínio. Chamar a sensibilidade para dentro da casa da inteligência; ou fazer a inteligência montar casa externa à sensibilidade. Imagens? Como o universo... Mas, em suma, gostei do seu livro, e por ele o felicito.

Com a melhor camaradagem e apreço

Fernando Pessoa

Carta ao amigo Mário Beirão

Em 01 de Fevereiro de 1913

"Estou actualmente atravessando uma daquelas crises a que, quando se dão na agricultura, se costuma chamar "crise de abundância".

Tenho a alma num estado de rapidez ideativa tão intenso que preciso fazer da minha atenção um caderno de apontamentos, e, ainda assim, tantas são as folhas que tenho a encher que algumas se perdem, por elas serem tantas, e outras se não podem ler depois, por com mais que muita pressa escritas. As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura escuramente outras. V. dificilmente imaginará que a Rua do Arsenal, em matéria de movimento, tem sido a minha pobre cabeça. Versos ingleses, portugueses, raciocínios, temas, projectos, fragmentos de coisas que não sei o que são, cartas que não sei como começam ou acabam, relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas... toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma - para a bruma - pela bruma...

Destaco de coisas psíquicas de que tenho sido o lugar o seguinte fenômeno que julgo curioso. V. sabe, creio, que de várias fobias que tive guardo unicamente a assaz infantil mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas. O outro dia o céu ameaçava chuva e eu ia a caminho de casa e por tarde não havia carros. Afinal não houve trovoada, mas esteve iminente e começou a chover - aqueles pingos graves, quentes e espaçados - ia eu ainda a meio caminho entre a Baixa e minha casa. Atirei-me para casa com o andar mais próximo do correr que pude achar, com a tortura mental que V. calcula, perturbadíssimo, confrangido eu todo. E neste estado de espírito encontro-me a compor um soneto* - acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa -, a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece escrito por um crepúsculo de céu limpo. E o soneto é não só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que eu tenho escrito. O fenômeno curioso do desdobramento é a coisa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha sentido neste grau de intensidade... "

* O soneto referido intitula-se "Abdicação". Carta retirada do livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação", Ed. Ática.

De amor, de 01/03/1920

01/03/1920.

Meu querido Be«be»sinho,

Hoje, com a quasi certeza que o Osorio não te poderá encontrar, pois, além de ter que esperar aqui pelo Valladas, tem naturalmente que ir levar assucar a casa de meu primo, quasi que de nada me serve escrever-te. Vão, em todo o caso, estas linhas, para o caso de sempre ser possivel fazer te chegar a carta ás mãos.

Ainda bem que a interrupção de ainda agora foi mesmo no fim da nossa conversa, quando iamos despedir-nos. Era justamente para evitar interrupções d'essas que eu escolhi o caminho por onde hoje iamos. Amanhã esperarei à mesma hora, sim Bébé? Não me conformo com a idéa de escrever; queria fallar-te, ter-te sempre ao pé de mim, não ser necessário mandar-te cartas. As cartas são signais de separação - signais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos affastados.

Não te admires de certo laconismo nas minhas cartas. As cartas são para as pessoas a quém não interessa mais fallar: para essas escrevo de boa vontade. A minha mãe, por exemplo, nunca escrevi de boa vontade, exactemente porque gosto muito d'ella.

Quero que sintas isto, que saibas que eu sinto e penso assim a este respeito, para não me achares secco, frio, indifferente. Eu não o sou, meu Bébé-menininho, minha almofadinha côr-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!)

Mando um meiguinho chinez.
E adeus até amanhã, meu anjo.

Um quarteirão de milhares de beijos do teu, sempre teu

Fernando

De amor, de 15/08/1920

Domingo, 15/08/1920

Vibora:

Recebi a tua carta má, e, na verdade, não percebo como foi que nos não encontrámos nem hontem nem antes de hontem. Differença de relogios? Não creio, porque não notei, quer num dia quer noutro, ao chegar á Baixa, que o meu relogio estivesse tão errado.

Escrevo-te só estas linhas para te dizer que estarei amanhã ao meio-dia em ponto no fim da Av. das Cortes. Vães ao escriptorio da R. da Victoria á 1. Isto deve dar-te tempo. O peor é se vães acompanhada. Em todo o caso esperar-te-hei até ás 12 1/4.

Oxalá estejas melhor; mas isso não é desgosto, é viboridade, ou seja maldade.

Sempre e muito teu

Fernando

Estou escrevendo do Café Arcada ao meio dia e 3 quartos. Porisso escrevo pouco (contra o meu costume) para ver se passo na tua rua não muito longe da uma hora.

De amor, de 19/02/1920

19/02/1920

Ophelinha:

Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indifferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de "razões" tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m'o. Assim, entendo da mesma maneira, mas dõe-me mais.

Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quizer: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso "entalar".
Porque não é franca para commigo? Que empenho tem em fazer soffrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém -, a quem tem por peso e dor bastante a propria vida isolada e triste, e não precisa de que lh'a venham accrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe affeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

Reconheço que tudo isto é comico, e que a parte mais comica d'isto tudo sou eu.
Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse no soffrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amál-a, o tenha merecido, e creio bem qeu amál-a não é razão bastante para o merecer. Enfim...

Ahi fica o "documento escripto" que me pede. Reconhece a minha assignatura o tabellião Eugenio Silva.

Fernando

De amor, de 23/03/1920

23/03/1920

O Osorio leva o chinez dentro de uma caixa de phosphoros.

Meu Be«be»zinho lindo:

Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Alvaro de Campos).

Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como tambem pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, habil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espirito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu propria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...

Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais docil, mais meiga, mais amoravel.

Enfim... Amanhã passo á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer á janella?

Sempre e muito teu

Fernando

De amor, de 23/11/1920

Domingo, 29/11/1920

Ophelinha:

Agradeço a sua carta. Ella trouxe-me pena e allivio ao mesmo tempo. Pena, porque estas cousas fazem sempre pena; allivio, porque, na verdade, a unica solução é essa - o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amisade inalteravel. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?

Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se attribuissem.

O Tempo, que envelhece as faces e os cabellos, envelhece tambem, mas mais depressa ainda, as affeições violentas. A maioria da gente, porque é estupida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contrahiu o habito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As creaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade d'essa illusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por elle a estima, ou a gratidão, que elle deixou.
Estas cousas fazem soffrer, mas o soffrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que não são mais que partes da vida?

Na sua carta é injusta para commigo, mas comprehendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com magua, mas a maioria da gente - homens ou mulheres - escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio optimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade.

Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.
Quanto a mim...

O amor passou. Mas conservo-lhe uma affeição inalteravel, e não esquecerei nunca - nunca, creia - nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequeneina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua indole amoravel. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe attribúo, fossem uma illusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lh'as attribuisse.

Não sei o que quer que lhe devolva - cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memoria viva de uma passado morto, como todos os passados; como alguma cousa de commovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos annos é par do progresso na infelicidade e na desillusão.

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infancia, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras affeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memoria profunda do seu amor antigo e inutil
Que isto de "outras affeições" e de "outros caminhos" é consigo, Ophelinha, e não commigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existencia a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais á obediência a Mestres que não permittem nem perdoam.
Não é necessario que comprehenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

Fernando

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