(19-5-1932)
Passa no sôpro da aragem
Que um momento o levantou
Um vago anseio de viagem
Que o coraçao me toldou.
Será que em seu movimento
A brisa lembre a partida,
Ou que a largueza do vento
Lembre o ar livre da ida?
Nao sei, mas subitamente
Sinto a tristeza de estar
O sonho triste que há rente
Entre sonhar e sonhar.
(14-6-1932)
Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coraçao faz sorrir
Meu coraçao a chorar.
Depois de parar e andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é nao conseguir.
(17-6-1932)
Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
Sao coisas no alto que sao
Enquanto a vista as conhece,
Depois sao sombras que vao
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coraçao ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?
(28-3-1930)
Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortela com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?
Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos sao vazios...
Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloquente
Da filarmônica de um Barreiro
Para que nao há barco nem gente.
Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede...
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.
Ó coraçao epitélico e macio,
Colcha de croché do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao pôrto.